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sexta-feira, 29 de abril de 2016

PSV/Capítulo 34

PSV



Do lado de fora, Beto ajeitou  a mochila nas  costas  e puxou a mala para  fora do apartamento. Então, deu uma última e nostálgica olhada para  ele antes de fechar a porta e seguir pelo corredor.
- Sem dramas e sem melancolia, Beto. – Disse a si mesmo entrando no elevador.
No térreo, entregou as  chaves ao administrador, assinando o termo de permissão para que  fosse alugado em sua  ausência. Afinal seria um desperdício deixar o imóvel “abandonado” por  tantos  meses, já que não pretendia  voltar  tão cedo à França.
Mas também não tinha pressa em chegar a Itália, onde assinaria o contrato e faria já alguns testes, antes de seguir para o Brasil. Por isso,  descartara a ideia de ir de avião e se estressar com o traslado do centro da cidade até o aeroporto, tempo com check-in, espera pelas bagagens, sem contar o possível atraso no voo.
Iria se despedir com classe. Agora, que dispunha de tempo livre e todo seu, iria de Paris a Roma de trem. Sem burocracia no embarque,  bagagem ao seu lado, conforto, pontualidade e praticamente nenhum atraso.
Outra razão é que precisava readaptar os olhos, recuperar  seu olhar fotográfico para o belo, coisa que havia deixado de lado nos últimos anos, naquele trabalho   frio e calculista de seguir  pessoas e registar  suas infidelidades.
Para fotografar Arte é preciso um olhar a mais antes de apertar o obturador; é  preciso um ideal, uma visão, um sentimento e uma leitura própria de mundo.
Portanto, nada melhor que, expor seu olhar   às belas paisagens que veria nessa viagem. Como dizia um de seus  professores, fotografar é registrar alguma coisa que você queira guardar na memória, mas para guardar na memória é preciso antes vivê-la com o olhar.



PSV



Claude repassou todas as instruções e encerrou a reunião. Sérgio e Janete levantaram-se ao mesmo tempo e saíram da  sala. Rosa demorou propositalmente mantendo-se sentada.  Estava há dois  dias  lutando  contra  sua  covardia para falar com ele.
Suspirou e fechou sua agenda com uma  força maior que a normal. O ruído fez Claude  voltar  seu olhar  para ela.
- Algum problema, ainda discorda de algo?
- Não,  concordo com  todas as  suas  indicações...
- Então?
- É que... Bem eu queria  falar  com você sobre... Sobre...
- Não vou desistir de  você às quartas-feiras. – Afirmou sem  deixar de olha-la.
- Droga! – Exclamou Rosa levantando-se -   Por que  você sempre quer  dificultar  tudo?
- Não estou dificultando. Deixei bem claro desde o começo que eu decido quando vamos parar.
- Eu me recordo muito bem desse detalhe. Mas não é sobre isso  que eu queria falar.
- Queria? Então não quer mais?
- É claro que quero!   Importa-se que eu  venha à galeria somente  depois do almoço?
- Posso saber o motivo antes  de responder?
- Alex. Eu gostaria de passar as manhãs  com ela. Ao menos este  resto de ano, já que no próximo ano a escola será período integral. Além do mais, Sílvia vai  tirar  suas  férias em breve  e eu não tenho com quem  deixa-la. Joana sempre  me socorria, mas  ela também está  viajando...
- D’àccord. Não tenho nada  contra. Afinal você tem dez por cento de tudo isso, além de ser a  dona do prédio.
- Não, não sou. O imóvel está registrado em nome de Alexandra. Foi uma  da  condições que  impus para a instalação da galeria. Vou avisar Janete e a partir de segunda já não venho pela manhã. Obrigada pela compreensão.
- Não tem porque agradecer. Mas  me diga hoje é sábado, por que não a trouxe?
- Ela não acordou sozinha e achei melhor deixa-la dormir um pouco mais.  Além do mais, ela não  nos  daria sossego durante essa reunião. Quem sabe o próximo... - Disse isso e juntou suas  coisas. 
Então, caminhou para a porta, indecisa. Claude pareceu perceber essa indecisão e  perguntou:
- Era só isso mesmo?
Rosa voltou-se para ele.
- Na verdade não. Eu acho que  minha echarpe  ficou na  sua  casa, não a encontro em lugar  algum. Você a viu, a encontrou em seu quarto?
- Voilà, creio que não devo pensar que a esqueceu para  ter uma desculpa e poder  voltar, não é?
- Não, eu não a esqueci de propósito.
- D’àccord. Dadi a encontrou, no sofá  da sala, sob as almofadas.
- Oh, céus! Ainda bem que ela não sabe que é  minha senão o que  iria pensar... O que foi, por que está  com esse  sorrisinho no canto da boca?
- Ela  viu você entrando no prédio, hã? E reconheceu a echarpe. Mas não se preocupe eu disse que foi uma reunião de negócios, assuntos  da galeria que tinham que ser  resolvidos.
- E Dadi acreditou? – Questionou desconfiada.
- E que  motivos ela  teria para não acreditar? – Revidou ele erguendo uma das  sobrancelhas.
- Você tem razão, como sempre. Não há motivos para ela suspeitar  sobre nada. Será que pode   me devolvê-la?
- Ouí.  Na próxima quarta-feira.
- Mas...
- A não ser que queira me  fazer uma visita  extra...
- Não! E muito obrigada por nada! – Exclama virando as  costas -  Você é... É detestável! -  Diz  com toda dignidade que é  capaz antes  de sair  da  sala.





PSV




Nara ignorou as palavras da recepcionista e afastando-a da porta entrou na sala da presidência, onde Frazão estava.
- Frazão eu preciso falar  com você e tem que ser agora!
- Desculpe, eu tentei impedi-la, mas ela não quis me ouvir...- Tentou explicar-se a  moça, aflita.
- Está  tudo bem, Simone! – Disse Frazão olhando-a calmamente. -  Camille – Disse  voltando-se para a secretária – Deixe-nos a sós e explique a Simone sobre Nara, sim?
- Sim senhor, com licença. – Disse levantando-se - Venha  Simone. Não se preocupe, você é nova aqui e não tem obrigação de conhecer todos.  Nara é uma das herd...  – Foi tudo que Nara  ouviu até que a secretária  fechasse a porta  por  completo.
- Então,  o que houve para  deixa-la assim tão exaltada? – Pergunta Frazão, só então reparando que Nara trajava  roupas de ginástica.
Nara sentou-se na cadeira em frente  à mesa e entregou um envelope a ele enquanto dizia:
- Isso!
Frazão abriu o envelope e algumas  fotos escorregaram de dentro dele. Não precisou pedir  mais explicações. As  fotos  mostravam Louise e Bernard se despedindo ao sair daquele hotel, em restaurantes e até mesmo do prédio onde ele morava. Todas semelhantes às que ele mesmo tinha, guardadas em  sua  gaveta. Mesmo  tirando suas  próprias  conclusões, perguntou:
- Como isso chegou até  você?
- Eu estava saindo para uma caminhada, como faço todos os dias e um garoto me entregou assim que sai para a rua.
- Mostrou a mais alguém?
- Não, vim  direto pra cá, apesar da vontade de esfrega-las  na cara dela!
- Acalme-se Nara.
- Você não está surpreso. Já sabia disso, não é?
- Sim, eu já sabia.
- E não ia  me falar nada!
- Não, não ia. Você já descobriu muitas fraquezas de sua mãe  e já decidiu não compactuar  com ela e ir embora. Não achei necessário que se desgastasse  com mais essa...
- Baixaria. – Completou Nara -  Eu sinto tanto nojo dos dois!
Frazão colocou os dedos sobre  o puxador da gaveta e  hesitou por um momento. Dane-se, pensou abrindo-a e retirando um envelope semelhante ao de Nara.
- É melhor se preparar para o que  vai ver. Já mais uma pessoa envolvida  nessa história. – Comenta tirando fotos  do envelope, sob o olhar de  Nara.
- Quem?
- Veja você mesma! – Diz entregando algumas  fotos a ela.
- Não pode ser... – Começou a falar Nara passando as fotos uma a uma.
- Mas é. – Afirmou Frazão.
- Roberta! – Exclama ainda incrédula– Ele... Bernard está saindo com as duas,  fazendo jogo duplo e eu seria a terceira... A reserva!  Mon Dieu, acho que  vou vomitar...
E correu para o banheiro particular da sala da presidência. Quando voltou a sala, havia água e café a sua  disposição.
- Sente-se melhor? – Perguntou Frazão.
- Sim, obrigada. Acho que coloquei tudo que sentia para  fora, me desculpe.
- Venha, vamos dar uma  volta pelo jardim. Um pouco de ar fresco vai lhe fazer bem enquanto conto como descobri isso tudo.




PSV




Rosa colocou a  chave na  fechadura e suas  mãos   tremeram ligeiramente. Virou-a, abriu a porta e entrou no apartamento de Claude.
Já havia estacionado o carro quando atendeu a ligação dele. “Use a  cópia da chave e entre. Estou saindo de um congestionamento e devo chegar em uns  vinte  minutos.” E tão rápido quanto disse encerrou a ligação, não esperando por uma resposta. Ficou pasma  com a  confiança dele em que estivesse  com a chave.
E  ficou por um instante parada no centro da sala, tentada a ir embora. Poderia deixar um bilhete do tipo: “Não sou obrigada a nada” e voltar  para casa.  Seria um golpe certeiro na arrogância de Claude, pensava. Não, melhor não provoca-lo, alertou-a o outro lado de sua  consciência.
Lembrou-se da echarpe e foi até o  quarto. Devia estar  por lá. Começou a procura pelo banheiro. Nada.  Passou ao closet, abrindo o armário. Em vão também. Ao tentar abrir um dos  maleiros, no alto,   torceu  o pé. 
- Era só o que  faltava!  Esbravejou, culpando  o salto alto.
Tirou a sandália e caminhou mancando de  volta ao quarto. Sentou-se na  cama e massageou o pé  dolorido. Foi então que  reparou. A ponta  de sua echarpe escapava de um dos travesseiros. O do lado oposto ao que Claude  costumava ficar...
Puxou a echarpe e deitou-se, esticando a perna, o pé ainda dolorido. Claude estava demorado. Já estava ali há mais de vinte  minutos!
Enrolou a echarpe no braço e fechou os olhos  imaginando   porquê ele a colocaria ali.  E pensou como seria bom se ele ainda a amasse e estivessem juntos, como marido e mulher, como o casal que  foram um dia...
Mexeu-se na cama e abriu  os olhos  com aquela sensação de ter se perdido no tempo e de que era  observada.
E lá estavam eles. Os  olhos  de Claude. Fixos nela. 



- Acho que  dormi sem querer... – Murmurou erguendo e encostando o  corpo na cabeceira  da cama -   Há quanto tempo  está me observando?  - Perguntou piscando várias  vezes.
- Alguns minutos apenas. – Respondeu ele, depois de mais um gole da bebida que segurava -  Você parecia encantada. Pensava em como acorda-la... – Completou desprezando o resto da bebida, abandonando o copo no aparador.
E sem cerimônia tirou os sapatos e ajeitou-se ao lado dela, encostando-se  à cabeceira  também.
- Cansada? – Perguntou depois de um instante de silêncio, num quase  sorriso.
- Não. Eu torci o pé agora  a  pouco – Falou balançando ele -  Então deitei,  fechei os olhos por  um momento e acabei relaxando profundamente. – E então olhou para ele - Devia ter  esperado na sala?
- Não. – Disse tocando-a no rosto com a mão - Encontrar  você tão a vontade nessa cama foi a melhor coisa da minha noite... Até agora. -  Completou inclinando a cabeça e beijando-a.
O corpo de Claude ajustou-se ao dela primeiro. Então sua mão deslizou passando pelo ombro de Rosa até alcançar-lhe as  costas, e puxá-la fazendo-a prisioneira do seu  corpo.
E os lábios escorregaram até  o ouvido, e murmuram algumas  palavras enquanto a mão avançava  por sobre a blusa, ávida por soltar  cada um dos  seus botões.
Quando todos já estavam livres, desceu lentamente com  a ponta dos dedos sobre a pele arrepiada de Rosa e o  botão da calça jeans  deixou de ser obstáculo.
Percorreu o mesmo caminho com a língua, arrastando-a desde a lateral do pescoço até encostar no cós  da calça. Então ergueu seu torso e equilibrou-se antes de puxá-la para baixo, deixando as pernas de Rosa livres. Aproveitou esse momento de doce fragilidade dela e  num movimento sutil  juntou-lhe os braços acima da cabeça, e  usou a echarpe para prendê-los na altura  dos pulsos.
- O que está  fazendo? - E  voz  de Rosa  saiu rouca e tremida.
- Relaxa! – Respondeu ele calmamente, tirando a própria  roupa. -  Relaxa e aproveita o momento.
E sua  boca  cobriu a dela, evitando  o som de um novo protesto.  Não a  forçou nem exigiu que ela  entreabrisse os lábios, tolerando a resistência inicial.
Seus lábios pressionaram os  dela sedutoramente de segundo em segundo, esperando por  recompensa, que ela retribuísse.
Rosa  estava surpresa demais. Surpresa e apreensiva. Claude nunca havia usado  aquele tipo de fetiche antes. Mas não podia  negar que isso a deixara ainda  mais excitada.
E era  contra isso que lutava. Contra  as ondas de prazer que invadiam seu  corpo a cada  toque dele.  Contra  seu próprio corpo, traidor de suas  emoções.
Por que Claude  simplesmente não se satisfazia e acabava  logo com essa deliciosa tortura? Por que insistia em carícias  que a levavam a quase implorar para que ele a possuísse sem demora?
Ah, por que ele usava a mão daquela forma desaforada, quase  profana... E pra que resistir se sabia que era em vão? 
Deixou que um gemido escapasse de seus lábios e foi nesse momento que a língua  dele invadiu sua  boca  e a fez sentir o gosto de rum, com um leve toque de café.
Aquele gosto...  Não lhe era estranho...  Café Cubano, claro! Um dos drinks favoritos dele...
Um gosto  bom, de saudade, de felicidade que misturou seu desejo ao dele. Correspondeu abertamente ao beijo e  quando o sentiu diminuir a pressão e se afastar  tentou deter e segura-lo.
Enroscou suas  mãos  amarradas pela echarpe no pescoço de Claude, mas  ele lhe escapava, deslizando o corpo para baixo, num caminho molhado que seguiu até a parte triangular da sua lingerie inferior. Fechou os olhos e mordeu o lábio, contorcendo o corpo. 
Mas Claude voltou ligeiro, arranhando levemente a pele de seu abdômen com os dentes, antes de seguir em frente. E foi no pescoço, logo abaixo de sua orelha que ele ousou impor uma força maior, mordendo-a sensualmente.
Como se recebesse uma descarga elétrica  o corpo de Rosa soergueu, arqueando-se e colidindo contra o dele. Só então abriu os olhos e notou, chocada, que estava presa entre as pernas de Claude.
Seus olhares se  cruzaram no silêncio de um longo instante e quando Rosa separou os lábios para pedir que a desamarrasse, Claude a silenciou colocando seus  dedos sobre eles.
- Psssss... Não  fale nada, hã? – Pediu gentilmente,  descendo  suas mãos pelos  braços dela.
Então, forçou-os para cima e seus  dedos caminharam de  volta, até pousar em sua  cintura e  sem avisos a girar, deixando-a de costas  para si.
Acariciou-a  nos cabelos,  juntando-os pacientemente, para depois  coloca-los de lado. E inclinando-se até a nuca de Rosa,  comprimia seus lábios contra ela em pequenos beijos, aleatórios e úmidos.
Abriu o fecho do sutiã e deixou-a com as   costas  livres, mergulhando nela com as mãos espalmadas, em movimentos  circulares.
Subiu  com elas até os ombros e os polegares imprimiram a  força e a delicadeza necessárias naquela  região.  O tremor, e o movimento involuntário que a fez encolher os ombros  deram a Claude a certeza  de que podia seguir com seus carinhos.
Soltou os ombros e escorregou pela lateral,  obedecendo a  curva na cintura, e usando os polegares novamente, adentrou o cós da lingerie, sem deixar de descer e descer, até que a peça escapasse completamente. Então voltou a inclinar-se sobre  ela.
- Claude... – Sussurrou Rosa, a voz  tensa...
- Chhhhh, não se mexa, chèrie. – Respondeu encostando seu rosto rente a nuca de Rosa.
- Mas você está...  - Calou-se, sem saber que palavras usar -  Está me segurando nessa posição e eu não....
-  Não se impressione. Não farei nada que a deixe desconfortável ou constrangida, d’àccord?
Então Rosa sentiu que ele foi deslizando com uma das  faces, por  suas costas. Os pelos espessos e aparados da barba arranhando prazerosamente toda sua pele em parceria com  o ar quente  que  saia  da respiração pesada dele.
E não estava preparada para o atrevimento erótico de Claude, que não parou nem desviou de suas nádegas e  escolhendo uma de suas  pernas completou a jornada, detendo-se em seu pé. O mesmo que havia torcido.
Sentiu-o aquecer entre as mãos dele. Depois  sentiu a  respiração pesada, desta vez  seguida da umidade dos lábios dele sobre a extensão de seu pé, incluindo cada um de seus dedos...
Ainda tentava controlar o arrepio quando ele a voltou de costas e desamarrou seus pulsos, jogando a echarpe em algum canto.
Deitou-se  sobre ela e envolveu-a num longo beijo, antes de afastar-se  a procura do preservativo.
Um sentimento de mágoa tomou conta do coração de Rosa quando percebeu isso. E Claude  soube  exatamente a medida dela, quando a possuiu,  seus olhares se encontraram e os vestígios ainda estavam ali...
Apertou os lábios, querendo que tudo isso estivesse acontecendo de forma diferente. Mas agora já era tarde. Rosa nunca o perdoaria por tê-la submetido a essa  chantagem.


PSV   
                                                    Continua


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