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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

PSV/ Capítulo 58

PSV


Capítulo 58





- Muito bem Alex, não se mexa... Olha o “X” e... Pronto!  - disse Tereza fotografando-a  com um celular.
- Deixa eu ver  como  ficou... – pede Alex 
Tereza se aproxima dela, elogiando-a:
- Ficou linda! Uma gatinha! – diz  entregando o celular a Alex.
-  Uau... agora você, Tê! Senta ai do lado da  Fadinha...
- Não é  Fada, Akex, é Cupido, o Deus  do amor!
- Ah... Por isso  que a  Silvia usou eles pra  enfeitar a festinha  dela!
- Humhum... – concordou Tereza, vendo o resultado  da  sua  foto.
- Ei meninas, venham eu  vou jogar  o buquê! -  disse Silvia , chamando-as.
Alex guardou o celular  na  bolsinha que usava a tiracolo e de mãos  dadas  com Tereza  voltou ao início do  jardim da  galeria, onde acontecia  a festa  de casamento  de Silvia  e Julio.
Nos degraus da tenda, armada para a celebração da  cerimônia, Silvia jogou seu  buquê.













Para o desencanto de muitas, ele caiu exatamente nas mãos  de Alex, qye havia  sido a noivinha,  e ninguém  teve coragem  de  brigar  por ele.
Minutos  depois,  Rosa se despedia dos  recém casados.
- Claude, Rosa... Ainda é  cedo, podiam  ficar  um pouco mais... – diz  Silvia carinhosamente
-  E ficaríamos se não precisássemos desesperadamente nos deitar. – diz Rosa apontando para  sua  barriga. – Me perdoe,   querida!
- Nesse caso, eu   perdoo! – afirma Silvia acariciando a barriga  de Rosa – Igualzinho à gestação de Alex...
- Claude,  obrigada  por ceder esse espaço para o dia mais  feliz  da minha  vida!
- Vocês merecem, hã? – responde ele abraçando o casal.
- Alex, obrigada  por  ser a minha  daminha  de honra! – diz abaixando-se  para  agradecê-la – Adorei que o buquê escolheu   você! – cochicha, fazendo-a  sorrir.
Tereza  também se despediu e logo todos estavam a caminho  de  casa.
Embora menos intenso, o trânsito noturno nos  dois  lados  da avenida ainda  era acentuado e diminuía  conforme avançavam,  pois pegaram a  saída  sentido bairro.
Claude desviou o carro para  a esquerda  e o manteve ali para entrar na próxima  rotatória.
Haviam tido sorte até  o momento, pois todos os  faróis em que  passaram eram verdes.  Claude e Rosa  conversavam sobre a retomada  do livro e Alex se entretia com o celular, junto de Tereza.
Estavam no penúltimo farol antes  da  rotatória  quando um motoqueiro avançou o cruzamento, no sinal vermelho.
Claude freou bruscamente e teria  evitado  a  colisão  contra  o parachoque  do  carro  a sua frente se  o  carro  de  trás  também tivesse  freado a tempo.
-  Droga! – exclamou - Tudo bem contigo? – perguntou olhando preocupado para Rosa.
- Hum hum, estamos bem, apesar  do sobressalto...
- E ai atrás Alex, Tereza,  tudo  bem  com vocês?
- Aham – resmungou Alex – Só o celular  que caiu... – diz  olhando para  baixo tentando localiza-lo e depois  para  Claude.
- Ih, outro “home” de máscara!
- Claude... -  a  voz  de Rosa  era  tensa – Meu  Deus, não, de novo não...
Tereza empalideceu e  abraçou Alex, protegendo-a.
Claude  seguiu o olhar  de  ambas. Duas  pessoas  mascaradas  saiam  do carro e se aproximaram,  examinando  o local da  batida. Em seguida  fizeram  sinal para que Claude  baixasse  o  vidro, gesticulando. Claude permaneceu quieto, indeciso.
Foi então que os  dois  rapazes  tiraram a máscara e aliviado, Claude abriu a janela. Um deles afastou-se  até  o outro  carro.
Claude  desceu do carro antes que   Rosa  o impedisse e juntou-se ao grupo.
- Desculpe, acho que os assustei – fala o rapaz indicando a máscara – Estamos indo a uma festa  a fantasia. Eu acho que não houve grandes  danos, foi parachoque  contra parachoque, não quer  conferir?
Instantes  depois retorna.
-  Apenas um leve amassado no parachoque traseiro, hã?  E cada um  vai  arcar  com suas despesas...



PSV



- Sim, foi muito parecido com a outra vez, Janete... – dizia  Rosa ao  telefone.
- Mesmo assim,  depois de  tudo esclarecido meu maior  medo  era isso provocar alguma reação negativa  em Alex. (...) Exato, até porque as condições  eram idênticas: noivinha e saindo de um casamento. Aliás, Silvia estava linda, uma pena  vocês não poderem vir. (...)  Que nada, sabe o que  ela  falou?    “Eles não “devia” andar de máscara  a noite,É muito assustador não é gente?”  E dormiu muito melhor e mais  rápido que nós! (...) Eu espero mesmo que  seja  uma página  eternamente virada na  vida  dela. (...) Ok, querida, obrigada! Merci, hã? Au revoir!
Mal se livra  do celular  Alex invade o quarto.
- Vem, mamãe!  O bolo da Tereza já  ficou pronto, vamos lá  comer?
Hum, os  bolos dela  são sempre deliciosos... Qual é o de hoje?
- Eu não  sei, ela  disse que é  surpresa!
- D’accord... Não íamos  esperar  o papai chegar?
- Ele já  chegou, tá  subindo o elevador... Quer  dizer,  ele tá  subindo de elevador!
Rosa demora sai lentamente  da cama, com movimentos  cuidadosos.
- A Aléssia  devia  acordar e sair  logo da  sua barriguinha, né? Deve tá muito apertadinho ai dentro! A Tê tá muito engraçada  naquela roupa  de cozinheira! Eu não entendo porque ela precisa  usar ele, mamãe.. Ela  disse que quer  ser “chefe” da cozinha, mas  a Dadi é a “chefe” da  nossa  cozinha, não é? E eu nunca vi ela  com aquela roupa.  – Ee foi falando  sem prarar, até  chegarem a  cozinha.





Um ano depois...


- Não é legal mamãe, - E Alex parou de  pintar para  continuar - A Aléssia  ter nascido no seu aniversário? -  O tom de Alex  era  de afirmação e não de pergunta.

Ao escutar seu nome, Aléssia levantou a cabeça e parou o movimento de encaixar  a argola colorida na  base de um brinquedo e manteve o braço no ar, enquanto procurava por Alex.
- Aiêch! - balbuciou abrindo um sorriso e deixando  a mostra seus primeiros dentes, voltando o olhar  para Rosa, como que  confirmando se estava certo o que  havia  falado.
- D’accord querida! “A-le-cs”, sua irmãzinha! – confirmou Rosa sorrindo, respondendo em seguida a colocação  de Alex, pensando na coincidência das  datas.
- Foi formidável, querida! – Disse e recostou-se  na  cadeira   deixando as  folhas de rascunho do segundo livro de Claude caírem sobre a mesa.  O “terceiro filho”, costumavam  brincar pela  demora  em termina-lo.
Alex nascida no mesmo  dia  de Claude e Aléssia no seu aniversário... Não era  sempre  que isso acontecia!  Sem contar a marquinha de nascença em  forma  de estrela, que em Aléssia,  aparecia bem abaixo  da orelha, quase na nuca. Isso era ótimo, evitaria futuras  comparações, disputas  e rivalidades.
Aléssia deixou a argola cair e engatinhou até Rosa.
- Da da da da... – resmungou agarrando-se a ela e erguendo-se, querendo  colo.
- Muito bem, já perdeu o interesse não é?   Acho precisa  de um banho antes do almoço, hum? - diz pegando-a no colo. -  E você, Alex, não fica  atrás... Vamos!
- Ah, mas eu não acabei de pintar  ainda...
- Mais tarde  você termina, ok?
- Ah, mamãe, eu to quase acabando, espera só mais um pouq...
- Chèrie, chegamos!
- Hã!  Eles “chegaru” – exclamou Alex, parecendo  preocupada - Posso deixar  tudo aqui?
- Pode. – concordou Rosa, pois Liz e John eram os  convidados  para o almoço  do  sábado.
Alex fechou  o livro e  guardou as  canetinhas o mais  rápido que conseguiu, antes de  correr para  dentro  de casa. Rosa  suspirou segurando a risada e colocou um peso  sobre os  seus papéis. Aquele cantinho da  varanda  era  para isso mesmo, reservado para  brinquedos, brincadeiras e outros materiais...
Apressou-se também para chegar ao banheiro antes que Alex fizesse muita  bagunça, querendo  tomar  banho  sozinha.
Apesar de estarem morando na casa  nova há mais de seis meses, ainda  não se acostumara  ao tamanho dela, grande demais na  sua  opinião.
Mas  Claude  insistira alegando que as filhas deveriam ter  cada uma seu quarto e sua privacidade. Além disso sempre haveria  hóspedes, como Frazão e Janeth, ou, Nara e Sérgio, que  depois  de sua vernissage, fora  convidado por Erjan para uma pós na Europa e para lá  foram,  pouco depois  do nascimento de Aléssia. Nara também  voltara  aos  estudos, cursava uma faculdade  de moda.
Para comprar  a mansão, de um empresário americano,  Claude vendera a maior parte  de suas  ações, nas  empresas da  família. E ainda investira em novos negócios, como se  tornar  sócio de Beto em um estúdio-ateliê de fotografia e arrojar-se a patrocinar em parceira  com Erjan,  Antonio e o casal Egidio e Catarina Paranhos uma feira reunindo as  principais galerias de arte do Brasil e do mundo,  cuja intenção era exibir e comercializar projetos curatoriais da arte produzida no Brasil e no exterior.
E tiveram  sucesso.  Foram quase   dois mil artistas inscritos e cento e vinte galerias parceiras.  Tudo correra  tão bem, que  firmaram um acordo para  repetir o evento a cada  dois anos, transformando-o numa espéce de bienal.
Foi  nesse período, ao convidar a Eros, que descobrira que Raquel voltara a ser uma marchand  independente pois havia devolvido legalmente a galeria a Milton, e este  a havia  vendido para  custear o serviço de advocacia  de sua  defesa.
E havia  muito do que se defender! Milton fora  acusado de vários crimes: sequestro e cárcerte privado de incapaz, aliciamento de menor, formação de quadrilha, contrabando e descaminho de obras  de arte e moeda estrangeira, sequestro relâmpago, tentativa de homicídio, tentativa  de  fuga, enfim, eram muitos  crimes.
Dos que já  havia  sido sentenciado, a pena chegava a quinze anos, em regime fechado. Segundo o  delegado Paulo, isso ainda levaria  anos para  chegar  ao fim e por mais tempo que ele fosse penalizado, só “tiraria” trinta anos, no máximo, essa era a lei brasileira.
À época, Raquel alegou sofrer ameaças por parte  de Milton.  Ele por  sua vez afirmou várias vezes que Raquel dera um golpe de mestre e que nunca passaria seus bens a outra pessoa.
Sem ter  como  provar, a justiça se firmou na palavra  de Raquel e nos  documentos assinados  pelos dois como prova de consentimento e posteriormente deferiu favoravelmente  à petição de Raquel.
Segundo investigações, as  ameaças eram reais e vinham  de dentro  de presídeos de segurança máxima como aquele onde estava Zequias, em chamadas  telefônicas.
Raquel chegara a ser  diagnósticada com síndrome do pânico,  controlada depois de tudo resolvido. Por outro lado, durante as investigações havia conhecido Rodrigo e pelo visto, o romance estava cada vez mais sério.
Enquanto se lembrava de tudo isso, Rosa havia  permitido que Alex “desse banho” em Aléssia e agora era tarde demais para arrependimentos: ela estava tão molhada  quanto a duas.
- Mon Dieu! – exclamou Claude entrando no banheiro – Eu acho que alguém aqui precisa  de ajuda!
- E preciso mesmo! Começe me passando as toalhas, por  favor!
Rosa ajudou Alex a sair  do box e ela  deixou que Claude  a enrolasse e levassse para o quarto. Quando Rosa chegou com Aléssia, Claude já ajudava Alex a colocar a  roupa.
Perdera aquela inibição inicial  em relação a  ele, principalmente  depois  do nascimento  da irmã, pois Claude nunca se negara  a  dar  banho ou mesmo  trocar as  fraldas de  Aléssia e Alexandra  concluiu por  si só e de forma natural , já que Claude nunca se impôs com isso, que papais podem ajudar as meninas a se trocarem.
- Por que a Terezinha não  veio com você papai? – questionou ela enquanto Claude  tentava pentear-lhe os  cabelos.
- Porque eu me adiantei e ela ainda não tinha terminado  todas  as  suas  tarefas no orfanato, hã?
-  Ah... Sabia que eu fiz um monte  de amiguinho lá e  ela  vai me levar  outra vez  “pra mim” brincar com eles?  
- Voila! Eu  fico muito feliz que você pense assim  pequena! – e  finalmente  consegue prender o cabelo dela.
- Eu acho que deve ser muito ruim não ter papai e mamãe... – reflete Alex – Eu já posso  “i indo” mamãe?
- Pode, você já  pode ir, filha!
- Tchau Alê!
– Diga para os  seus  padrinhos  que nós  já estamos descendo, ok? – pediu vendo a filha sair saltitando do quarto.
- É admirável a atitude da Tereza. Mesmo já estando liberada da medida socioeducativa continua com as  visitas ao orfanato. – Continuou Rosa vestindo Aléssia.
- D’accord. Ainda bem que você me convenceu a dar   essa chance a ela... Não quer deixar os sapatos  por minha  conta e se recompor, cherie?
- Humhum... – murmura  concordando e entregando os  sapatinhos a ele -  Está vendo meu bem? É por  isso  e por outras  coisas que eu digo que seu papai é o amor  da  minha  vida!
- Eu só acho que  sua mamãe  devia  dizer isso para mim, hã? -replica Claude atraindo o olhar  e ganhando um sorrido da filha.
-  Você é  o amor  da minha vida! – diz Rosa segurando o rosto de Claude entre suas mãos presenteando-o com um selinho.
E enquanto caminhava  para  o seu  quarto completou:
– E um dia, lá na frente,  quando formos  bem velhinhos  e  você estiver me ajudando a calçar  os sapatos, vou te lembrar resmungando assim: “não falei que você era  o amor  da  minha vida”?
- Voila! Eu só espero que  seja mais  fácil  que  calçar Aléssia! – resmungou Claude sorrindo e piscando para a filha – Vamos, pequenina,  pare de  chutar  e me deixe fechar  a fivela, hã?



PSV




No andar  de baixo, na cozinha, Dadi conversava com Joana.

- Pela maneira  como você  fala, não é  só ela que está  ansiosa, Dadi.
- Eu admito, Joana. Também estou ansiosa por esse  resultado! Essa menina se  dedicou tanto! Eu  espero que ela  consiga a vaga!
- Não deixa  de ser divertido já que você  foi a última a se render aos  encantos  dela.
- Tem razão. No começo eu não conseguia  confiar...  Mas aos  poucos  ela  foi me conquistando, provando que era  digna de ser amada...
- E agora,  quando fala dela, parece a mãe  falando  da  filha...
- Todos me dizem a mesma  coisa! E isso é  curioso, porque ela  sempre  tratou Claude e Rosa como se  fossem seus  irmãos mais  velhos  e a mim, sempre  se  dirigia  com mais seriedade, com aquele respeito que a gente  tem pela mãe... E ficou mais evidente depois da comprovação  da  morte dos  pais  dela. Pobre menina! 
- E essa história de querer ser  chef  de cozinha, então? Só pode ser por  sua  causa!
- Ela sempre se interessou por  saber como é que se fazia essa  ou aquela  comida,  sempre querendo ajudar, inventando pratos... E mesmo assim, sempre  pensei que ela  seguiria os passos  de Claude e Rosa  no mundo  da Arte.
- Oras, está esquecendo que  cozinhar também é uma arte?
- Dadi,  Joana, a madrinha  tá  chamando pra ficar lá na sala com a gente! – exclama Alex – Vem! A gente  tá  contando um monte de o que é que é, de piadinha... Vem!
- Já estavam entrando  na sala quando Alex perguntou baixinho:
-  “Vocês sabe” o que que passa por dentro da casa mas fica do lado de fora?
- O botão da camisa! – Responde Joana no mesmo tom.
-  Ahhhh! Madrinha eu já  sei,  é o botão da camisa! – exclama Alex em seguida.
 - Humm... darling! Por que será que eu tenho a impressão que alguém ajudou você nessa? – pergunta Liz.
Alex encolhe os ombros  e  faz uma careta sapeca.
- Só um pouquinho, madrinha!
- E quanto a minha pergunta, Alex – diz John – Já sabe se quer passar  suas férias  na Disney, conosco?
-  Hummm, só se for  a “ouuutra férias”, porque nessa meu papai vai me levar  pra  ver “os  canguru”!
- Não é verdade papai, que  você vai me levar pra ver “os canguru”? -  repete ao ver Claude e Rosa entrarem com Aléssia.
- Oui, é  o que estamos  planejando...
Então a porta principal se abre  e Tereza aparece:
- Gente, eu to muito atrasada? Desculpa! - exclama entrando, segurando um envelope  contra o peito.
- Só alguns minutos, Tereza... Que envelope é esse? – diz Rosa
- Estava na caixa  do correio. É da Escola da Arte Culinária...
-  E o que está esperando para abrir?
- Estou com medo...
- Você tem que fazer que nem o papai me ensinou quando eu não sabia  falar canguru...  Ó, Fecha os olhos, respira bemmmm fundo  que o medo passa. Ai você abre... – fala Alex, aproximando-se  de Tereza.
- Está bem, vamos lá! -  E faz exatamente  como Alex  falou.

"Prezada Senhorita Tereza Lima,   : 

Nós da Escola da Arte Culinária Laurent temos a honra de comunicar que você consquistou  a  bolsa de estudos através  de seu  texto, que tanto nos encantou. Teremos um   imenso orgulho em recebê-la em nossas instalações.  
Solicitamos que compareça acompanhada de seus responsáveis  em nossa sede no dia e horário abaixo informados, para uma entrevista e efetuação de sua matrícula.  

Estamos ansioso para conhecer nossa  nova  colega de equipe!
Qualquer dúvida, entre em contato no telefone: (XX) – XXXX-XXXX 

Atenciosamente,
Escola da Arte Culinária Laurent..."



 
- Eu passei.. Eu consegui! – exclama Tereza lendo com os olhos  novamente, para  confirmar, enquanto  todos a cumprimentavam
- Muito bem, - disse Claude  depois – Então finalmente  pode  nos  mostrar   o texto, hã?.
- Vamos, lá Tereza, leia para  eles, filha! – diz Dadi emocionada.
-  Para “eles”? Quer  dizer  que  você já  conhece... - a acusa  Rosa enquanto muda  Aléssia de  braço.
- Desculpa pessoal, eu  tinha que  ter  uma opinião e queria  fazer  tudo  sozinha dessa  vez... – diz meio sem jeito, tirando um papel amarrotado da  bolsa. – Eu já o abri e dobrei tantas  vezes...

Dançar. Cantar.  Pintar. Atuar. Esculpir. Fotografar.   Cozinhar. O que  há em comum? Arte.É preciso talento e dedicação. É preciso quem as aprecie e  desfrute. 
E apreciar um bom prato é como apreciar uma obra de arte:  primeiro   admiramos suas cores, os formatos e texturas. E isso nos  deixa  com água  na boca. Então passamos  a sentir o cheio e viajamos na história  desse prato. Nossos  sentidos se aguçam a ponto de ouvir o chiado  da  faca cortando os legumes ou o som da  colher incorporando-os  à panela.
E não vemos ou conhecemos a pessoa que dedicou seu tempo, seu  conhecimento, sua  técnica e seu amor para esta pequena grande obra prima,  assim como também não conhecemos o pintor daquele quadro impressionista que tanto amamos, mas sabemos que aquelas  pinceladas  foram únicas.
É isso! Cozinhar é um processo  de criação.
E criar um prato é  criar uma obra  de arte única em  sabores e saberes, com a sutileza de antecipar paladares e aromas. É, chefs de  cozinha  e artistas  tem muito mais em comum do que imaginamos.
Todos nos alimentam. Seja a alma, seja o corpo.


- E conseguiu, Tereza! – exclama Claude -  Mon Dieu, isso foi perfeito, hã? – e a abraça. – Parabéns!
- Obrigada! Sabe, eu quero ser uma grande chef e um dia  fazer  por alguém o que vocês fizeram por mim!



PSV


Claude deu um pequeno beijo em Alex e  com  um  boa  noite  baixinho pegou Aléssia nos  braços  e a levou ao  seu quarto, onde  repetiu a cena depois  de acomoda-la  na  cama.
Era a rotina  de quase  todas as noites: contar uma história para as duas, cada  dia  no quarto de uma delas. Saiu do quarto deixando a porta entreaberta.
Desceu à parte  de baixo da casa e quando entrou em seu quarto  trazia uma garrafa  de vinho e  duas  taças.
- Voila, cherie... – disse sentando-se  na cama -  A mais  velha  no cinema e as mais  novas dormindo. Podemos namorar um pouco, d’accord?
- D’accord. Mas só depois de você conferir  essa tarefa de Alex... -  responde ela apontando para  o caderno.
- Mon Dieu, o que tem essa tarefa...
- Leia  você mesmo... – explica pegando as taças ainda  vazias e a garrafa de  vinho.
- D’accord, on y va...1 - Atividade  de Língua Portuguesa - Escreva uma frase com ponto de interrogação. Resposta: O ponto de interrogação é bonito. – Claude  faz uma pausa  com um leve sorriso  nos lábios.  2- Atividade de matemática -  Resolva a situação problema a seguir: Aninha fez brigadeiros  para  sua  festa  de aniversário. Em uma bandeja colocou 20 brigadeiros. Em outra bandeja mais 10 brigadeiros. O que  temos que fazer para que as duas bandejas fiquem com a mesma quantia de brigadeiros? Resposta: Eu comia 10 brigadeiros da bandeja que tem mais.
Claude tentou segurar a risada, mas não conseguiu. Nem mesmo  diante  da expressão contrariada de Rosa.  E quanto mais tentava  parar  de rir, mais ria.
- Claude!
- Cherie... Pardon, eu não consigo parar... – falou tentando  se controlar pela respiração.
- Você não  vai  ralhar  com ela  por isso, vai? Ela foi  ótima!
- Ótima?
- Oui, ótima. Quem a ajudou?
- Ninguém, ela  fez  sozinha...
- Está vendo? Criatividade. Mais uma  razão para  nos orgulharmos  dela, hã?  
- Eu acho que não é  criatividade o que a professora  está medindo, nessa  tarefa.
- Mon amour, pode  confessar você  também riu quando  leu, hã? -  diz  Claude, fechando o  caderno e colocando-o sobre o criado mudo.
- Não acha que devemos falar com ela, corrigir isso?
- Non. Vamos aguardar a  correção  da professora e então  decidimos  se  interferimos, d’accord?
- D’accord... – murmura  Rosa cedendo a garrafa de  vinho a ele. – Não vai encher a minha taça?
- Só depois que  você  confessar que também riu... – argumenta Claude abrindo o vinho.
- Ahh! Está bem eu admito: eu ri. Já pode encher a minha  taça. – fala aproximando-a  da garrafa.
Claude chega a inclinar  a garrafa, mas recua o movimento e a fecha.
- Quer saber... – murmura colocando a garrafa e a taça  vazia ao lado  da cama -  Vamos  testar o raciocínio de Alex e deixar  a minha  taça igual a sua, hã?  -  e bebe a metade do liquido vermelho, antes  de passar a taça a ela.
- Muito criativo, monseir. E sedutor também...
Rosa  sorriu e levou a taça aos lábios.    E não demorou muito  para que os lábios  de Claude ocupassem o lugar  da  taça...


PSV


- RG, certidão de nascimento,  passaportes, cartão de crédito... –  confere Rosa mais uma vez – Claude, os  dólares austral... Oh, não, ela  escapuliu mais uma vez!
- Mon Dieu, parece que foi ontem que ela aprendeu a engatinhar e agora está  andando por toda  parte... – comenta Claude antes de sair a procura  de Aléssia.
- Voila, aqui está  você  minha pequenina  fugitiva... – murmura Claude aproveitando para registrar o momento  com o  celular.


Ao ser pega pelo pai, Aléssia  faz  birra, esperneia e ensaia um chorinho por não conseguir satisfazer seu desejo de subir a escada.
- Nã... “Jubiicada”! – resmunga ela, tentando voltar  ao chão.
- Subir a escada não pode, filha. – explica  ele enfatizando o não. – Você ainda não pode  subir sozinha, d’accord?
- Humhumm eu qué... – insiste ela.
- É eu sei que  quer... – responde ele respirando fundo - Mas, escuta... É a mamãe! Ela  está  chamando você, hã?
- É?
- É... Escuta... “Aléssia, vem aqui  com a mamãe...!” – sussurra Claude, conseguindo tirar a atenção de Aléssia  da escada, que  olha para os lados, procurando por Rosa, esquecendo a birra.
- Vamos procurar a mamãe? – argumenta ele
- “Vamu”... – concorda Aléssia sacudindo a cabeça.
Claude retorna ao escritório, que nos últimos  dias  servia mais  como quartel general. Malas, mochilas e bolsas  ajudavam a decorar o ambiente. Todas  esperando para  partir rumo aos  cangurus  de Alex,  na Austrália.
- Cheguei, mamãe... – diz Claude – Eu estava tentando subir a escada... – conta  ele, mostrando a foto.
- Filha?! A mamãe já  disse  que sozinha não pode... – diz Rosa recebendo-a  dos  braços  do pai.
- Vou te  contar, hã? Nosso  bebê está crescendo a uma velocidade espantosa. E com ela as birrinhas.  
- Um ano e meio...  Erci costuma dizer que é a fase em que a “pilha” deles não acaba nunca...
-  Pois eu espero que essa  pilha  descarregue um pouco, hã?
- Bem por isso todo esse esquema, hum?  Mochila um com mamadeiras, fraldas, kits de roupa, paninho e travesserinho para que ela  associe o ambiente sono e  mochila dois com  livros ilustrados, DVD portátil, MP3, livros de adesivos e de colorir e massinha. -  afirma Rosa, checando as  mochilas  e fechando-as. – D’accord, senhorita Aléssia? -  termina Rosa,  erguendo o polegar,  em  sinal  de  positivo.
- “Da...coi” -  retorna Aléssia séria, fechando os  dedinhos  vagarosamente até imitar  a mãe e sorrir.
- Voila, então estamos combinados! – exclama Claude  pegando-a  para  si  de novo.
E a  coloca  na horizontal, segurando-a firme, girando e andando,  imitando um avião.
-  Porque serão vinte e quatro horas...  Uma longa viagem...  Escalas...   Um possível chá de aeroporto... – e a cada  frase  imitava o barulho  do  avião,  subindo e descendo Aléssia  no  ar, que  gargalhava a  cada sobe e desce.
Claude  para e senta  no mesmo instante  em que  seu  celular vibra.
- Vê o que é, cherie, por  favor! – pede acalmando Aléssia que queria  “voar” mais. – Espera, filha, o papai tem que  tomar  um fôlego, d’accord?
- É Alex. Estão  saindo do supermercado. Tereza  está tão feliz de  pôr  em prática o que  aprendeu no último módulo  do  curso no almoço de despedida amanhã!
- Ela  tem talento para  cozinhar, mas o mais importante  é que    gosta  do que faz. Isso é  fundamental...
- Papa”i”! – Aléssio o chama, querendo atenção. – “Vrummmm” – balbucia tremendo os lábios.
- D’accord,  você quer  voar mais... -  concorda  Claude levantando-se com ela -  Vamos lá...  Onde  devo aterrissa-la, mamãe?
- No banheiro, papai. Está na hora do banho, ok?




PSV




Alex empurrou o óculos   de sol que  teimava em escorregar  em seu  rosto e ao erguer  a cabeça  avistou a placa.
- A gente  já  ta  chegando né, olha a plaquinha do canguru... – falou apontando para  a  placa.
- Quase pequena. Ainda  faltam cinco quilômetros..
- E quanto tempo é  cinco quilômetros?
- Menos do que  você está pensando, hã?
Meia hora  depois estavam dentro do Featherdale Wildlife Park, um zoológico onde você pode interagir com os animais.
Cangurus e diversos outros bicho ficam soltos e pode-se  acaricia-los, dar comida, chegar realmente perto e tirar todas as fotos que quiser.




Foi em um dos zoológicos visitados que Alex aprendeu  a origem da palavra canguru: Em língua australiana, canguru quer dizer “não sei”.
Claude  e Rosa se surpreenderam ao descobrir uma  Galeria de Arte, a  de New South Wales,  localizada no jardim botânico de Sydney. E oq eu era  apenas  um passeio para  desfrutar  da natureza trasbformou-se  em um passeio cultural sobre a história do país de um ponto de vista artístico. 



Sydney Tower Eye
Sydney não é  Paris, mas também tem  sua torre, e nove metros a mais  de altura que a Eiffel.


A Torre de Sydney é um dos principais pontos turísticos da cidade com um mirante panorâmico todo de vidro que oferece vista de 360º.  Possui dois andares no topo, um deles é onde fica o observatório e outro andar onde um restaurante giratório, e no térreo, o Westfield, um shopping com ótimas lojas e várias opções de alimentação.
Rosa estava justamente admirando a torre da janela  do quarto enquanto prendia o cabelo. A noite  caia e ela  era a última a se aprontar  para  o jantar  no restaurante  do hotel.
Corrigiu o  batom e  passou um perfume suave, apressando-se para  se juntar  a todos  na sala.
Preocupei-me a toa, pensou ao vê-los apreciando as fotos dos passeios. Dividiam o sofá: Claude  entre Alex e Aléssia e Tereza em pé, atrás.
Rosa ouviu a  voz  de Aléssia e em seguida  risadas.
- O que  foi que eu perdi de engraçado?
- Cherie... Você perdeu Aléssia se reconhecendo entre os  cangurus e coalas...
- Vamos mostrar  pra mamãe os  bichinhos, Alê? – diz Alex carinhosamente, voltando as  fotos no celular.
-  Ati mamãi...  “o pampuiu e  o poiaia” –  fala Aléssia em seu dialeto particular, apontando os animais com o dedinho e colocando-o na boca  em seguida, com uma  risadinha gostosa, ganhando o colo da mãe.
- Eu acho  que  o papai vai  ter  muuuuito trabalho pra ensinar a Alê a falar canguru direito também... – comenta Alex antes de deixarem o quarto do hotel.



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Já haviam acabado de  jantar e Rosa levara Alex e Aléssia para olhar  pela última vez os  peixes ornamentais do aquário do  restaurante,  um espaço interno, oposto ao restaurante.




 Claude  e Tereza  ficaram terminando a sobremesa.
- Então Tereza, depois de dez dias o que nossa chef tem a  dizer  sobre a gastronomia australiana?
- Eu classificaria os pratos em contemporâneos, uma releitura  de  tudo com várias influências exóticas, tanto na culinária popular quanto na alta cozinha.
- D’accord... Você tem  muita  facilidade em falar  sobre o assunto, mesmo sendo pega  de surpresa, hã?
- Na verdade, eu estudei um pouquinho antes  de virmos. – explica-se sorrindo.
- Isso é  formidável!  O que aprendeu? – indagou interessadamente.
-  Bem, eu li que a  culinária  australiana origina-se da mistura de  ingredientes indígenas com os coloniais ingleses e imigrantes de outros países. – e  faz  uma pausa,  olhando para os lados - Que Alex não nos ouça, mas  a caça de cangurus era comum e comiam também lagartas, cobras e larvas. Eca!
- Voila! Chineses  comem insetos e franceses escargot. Como  culinarista devia estar aberta a todas as possibilidades, hã?
- Eu acho que  vou me aprofundar no vegetarianismo por isso.. – comenta antes  de continuar -   Mas pelo que observei os pratos daqui são muito parecidos  com os nossos, brasileiros quero  dizer. Carnes com muitos  molhos, peixes, frutas, tortas, batatas  fritas  ou em  purê, vinhos, cerveja, chá, café... O que muda mesmo  são os temperos e ervas que  eles  usam.
- D’accord, concordo contigo. Mas deve concordar  comigo que toda  cultura  tem  um prato típico, digamos exótico, que pareça estranho à outras  culturas.
- Agora você  falou igualzinho ao chef Laurent! Tem certeza que não estudou com ele?
- Não, eu não estudei com ele, Tereza... – responde Claude rindo bem humorado, vendo  Akex  se aproximar e Rosa mais atrás. – Aí, vem elas...
- Vocês deviam ter ido com a gente! Tem  cada  “pexinho” tão lindinho lá...
- E por que  voltaram  tão rápido então?
- Porque a  Aléssia  fez  o número dois... – fala prendendo o nariz – E a mamãe  precisa  trocar ela. – completa  colocando as mãos  ao  redor  da  boca.
- Voila!
- Rosa, eu posso  fazer  isso e  vocês ficam um pouco  mais por aqui... –se  oferece Tereza
- Eu agradeço, querida, mas creio que  vou precisar  de um banho também.
- Então vão a frente, d’accord? -  afirma Claude  entregando o  cartão da  porta. – Eu vou acertar  a conta e subo em seguida.
Quase quarenta  minutos  depois, Claude volta ao apartamento  do hotel.
- Nossa, como você  demorou! – exclamou Rosa  abrindo a  porta. –  Nos deixou preocupadas...
- Pardon, cherie.  Alex e Aléssia?
- Dormiram depois  do banho...
- D’accord... Houve um  problema de leitura  do cartão e depois  de  resolvido o gerente não parava de  pedir  desculpas e nos presenteou com entradas para um luau.
- Um luau!  Isso é interessante! – diz Tereza
- Só que   essa é   nossa última  noite aqui, portanto...
- Portanto  o luau é  hoje, mon amour,  numa praia particular a seis quilômetros daqui... Que tal, você  topa?
- É claro que  topa! – exclama Tereza empolgada por  Rosa – Quero dizer, você  topa, não topa Rosa?
- Não sei... As meninas, elas  podem acordar e...
- E eu vou estar  aqui com elas. – afirma Tereza. – Rosa, vocês  se amam tanto e isso é  tão apaixomante,  tão romântico, tão sedutor, tão...  Ah meu  Deus, me perdoem, estou sendo indiscreta. – diz Tereza.
- Perdoa-la de que? -  diz Claude voltando-se para  Rosa e entrelaçando seus  dedos  aos  dela.  – Você  disse  a  pura  verdade, nós nos amamos e um luau na praia, a luz  da lua é  muito sedutor, non é  cherie?
- E se a noite  não tiver  luar?
- Eu sou capaz  de  subir ao céu e pintar uma só para  vê-la se  refletir  nos  seus olhos, hã?
- O que estamos esperando para  ir então? – responde Rosa – Tereza, nós... – Mas Tereza  discretamente já  havia  se  retirado  da sala.
- Tereza – exclama Claude  um tom  mais alto –  Estamos de saída sem hora  para  voltar!  - Continua puxando Rosa pela mão –  Travando a  porta, cherie! – Diz fechando a porta e abrindo-a  em seguida -  E merci pela força, hã?
Tereza voltou do corredor  onde  estava e conferiu a trava da  porta. Em seguida apoiou  suas  costas  nela, fechou os olhos e  mordeu o lábio inferior.
Ah, como o amor  deles  é  lindo e... Verdadeiro! – pensou -  Nada o abalou e  resistiu a todas as dificuldades...
Então alguns  murmúrios chamaram sua  atenção. Correu para o quarto. Era Alex sonhando.
- ...E eu  vi um montão de irmãozinho seu Antonio... Tá  da  outra vez eu levo você e a Serafina e o Francisco também...
Francisco,  o urso  de Aléssia. Fora presente de Claude quando ela completara seis meses e já  demonstrava  sua  preferencia  por  ursinhos.
O nome Francisco  fora  ideia  de Alex, depois de saber que François era o nome do   “pai  do seu papai”.
Tereza confortou Alex, acariciando-a  na  face, o que a fez  relaxar  e  voltar  a dormir tranquilamente. Ajeitou a  coberta sobre Aléssia e  colocou seu  pijama, deitando-se.
E sonhadora, desejou ter um amor e uma família como essa, que a acolhera e a fizera  crescer  como pessoa. Respirou profunda e apaixonadamente, enquanto seus  dedos  enrolavam uma mecha de  cabelo e seu pensamento voava longe, de  volta  para o Brasil.
E encontrava o olhar de Elam, o assistente do chef Laurent...






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O elevador já estava  quase no térreo quando Claude  explicou que preciraria  validar os  convites  na recepção  do  hotel.

Sairam abraçados e  caminharam  em  silêncio até lá. O gerente parecia atender alguém mas  no momento que os  viu se  dirigiu a eles:
- Senhor Geraldy, veio validar  os convites, acertei?
- Oui -  responde  colocando os  convites, dois  cartões  magnéticos,  sobre o balcão antes de ser interpelado e  ver o gerente afastar-se.
- Claude? – indagou a pessoa  virando-se  de frente.
- Roberta?! – exclamaram  juntos e surpresos.
-  Não me  digam que estão aqui investindo em arte australiana...
- Não, estávamos  em férias – responde Claude – Eu estou cumprindo a promessa que fiz a Alex, de  trazê-la para ver os  cangurus.
- E voltamos amanhã para  casa. – diz Rosa com um leve tremor  na  voz.
- Oh, então... Nesse caso eu... Tenho que aproveitar a ocasião e agradecê-los por retirarem a queixa crime  contra  mim. Isso facilitou a minha  defesa e apesar  da justiça brasileira não me considerar  culpada, eu   sinto culpa. As cestas básicas não foram  suficientes para eximi-la.    Eu suplico que me perdoe por ter tido aquela ideia terrível de sequestrar  sua  filha, Rosa. Eu estava  fora  de mim, mas agora... – faz uma pausa girando o corpo frontalmente – Agora eu sei o que  vocês sentiram, porque eu não sei o que  faria  se alguém  tirasse o meu bebê  de mim um dia... Eu não sei... – repete com a voz embargada.
- O que  você  não sabe, querida? – diz Theodorus saindo do escritório da  gerência. – Oh,  Claude e Rosa Geraldy, mas que coincidência... Estão chegando ou partindo?
- Partimos amanhã, Theodorus. – é Claude quem responde.
- Mas que pena! Roberta e eu acabamos  de chegar, ficaremos  aqui uns quinze  dias... Mas  diga-me o que achou do hotel?
- Superou as  minhas expectativas, hã? Confortável, seguro,  uma excelente cozinha...
- E você Rosa, como mãe, o que  achou?
 - Eu gostei muito, o espaço para as crianças é bem planejado, com monitoras o tempo todo,  um pronto-socorro disponível, achei   formidável!
. Eu diria que  vale  o quanto pesa. – conclui Claude.
- E o estilo, a decoração?
- De excelente bom gosto, não é cherie?  As peças são autênticas e originais... Por que está  nos peguntando isso? Pretende  compra-lo?
- Na verdade, eu já o comprei há seis meses!
-Voila! Creio que  fez um ótimo negócio.
- Com licença – diz o gerente  aproximando-se – Aqui estão os  cartões, senhor Geraldy. Espero que  divirtam-se.
- Merci, George. – agradece Claude. – Vamos, cherie?
- Vamos  sim...
-  Roberta, Theodorus, foi bom revê-los, hã? Au revoir. – despede-se Claude e Rosa  o imita discretamente.
Enquanto se afastam Roberta os acompanha  com o olhar.
- Será que um dia  vão me perdoar?
- Roberta, eu penso que eles já a perdoaram. Falta  você se perdoar, meu amor.
- Quem sabe  quando ela nascer eu  consiga  me perdoar. – reflete. - Vamos  subir? Eu preciso repousar um pouco.
- Claro, não quer  chamar o elevador? Eu a alcanço num minuto.
- Está bem, mas  não demore senão vou sozinha!
- Vai nada. – afirma Theo acariciando-a - Vai com Helena...
- Bobo! Estou contando, hem! – responde caminhando para o elevador.
- George, já  fechou a estadia  de Claude Gerady?
- Ainda não, senhor.
- Pois feche e  debite o  valor dos meus créditos. -   ordena Theodorus tomando  um cartão do hotel – E entregue isso a ele.
No cartão lia-se: “Ser grato é abrir o coração e  reconhecer um benefício que recebemos algo que nos é caro e relevante. Seremos sempre gratos.  Sua conta é cortesia da casa. Considere um presente para  suas  filhas. – Theodorus.



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A praia particular era na verdade um braço   do continente,  uma pequena ilha onde  um antigo forte fora  transformado em um spá de  luxo. Para alcança-la era  necessa´rio atravessar  uma ponte.

O luau na praia era um evento  organizado em prol de entidades de assistência cujo  alvo era atrair novos parceiros, principalmente empresários. Como todo luau que  se preze, havia começado ao pôr-do-sol, a hora menos quente do dia,  com suas cores alucinates do anoitecer.


Assim que estacionaram,  foram orientados pelos anfitriões a  tirar os sapatos. Rosa  recebeu uma  flor colocada sobre sua orelha esquerda, pois segundo a tradição havaiana está mais perto do coração, e Claude um colar delas, além de  duas  mini garrafas de licor, estilo suvenir, que ele habilmente  guardou no  bolso do blazer.


O vento próximo à praia, sempre mais forte, fazia tremer as velas, mesmo dentro de  recipientes de vidro, que tornavam o ambiente mais iluminado e aconchegante.  Tochas em bambus para demarcar o espaço e fazer a entrada, fogueira,  esteiras de praia almofadas, incensos, tecidos floridos e brancos,  luzes  e lanternas se espalhavam sobre a areia macia  e firme.

Misturaram-se entre os demais  convidados e puderam apreciar  mais  da  metade  da performance de dança.





 Curtiram a noite, sem se preocupar  com o tempo, embalados  na  melodia dos violões e saxofones. Cantaram,  dançaram e deram  muita  risada juntos.
Não passou despercebido a Claude os  gestos  de Rosa, tentando se aquecer. Tirou o seu casaco e colocou-on sobre os  ombros  dela.
- Creio que está  na nossa hora, hã? – e a abraçou por  trás.
- Foi só um arrepio, vai passar. Ainda mais agora que  você me aqueceu.
- D’accord.  Eu poderia  aquecê-la mais se  estivéssemos a sós... – murmurou com os lábios bem próximos ao ouvido dela, provocando um novo calafrio.
Apertou-a gentilmente contra  si e com  um sorriso divertido, continuou:
- Esse tremor  não  foi de  frio, não é?
- Não, não  foi... – sussurrou Rosa  de  volta. – Mas  sabe o que eu gostaria  de  fazer  agora?
- Amor?
- Não. – responde  virando-se  de frente a ele,  mordendo o lábio inferior.  - Uma  caminhada.
- Cherie...
- Eu  sei, eu sei... Parece  bobo, - diz interrompendo-o – É que toda história  de amor tem a cena  da praia. Pensei que podíamos  ter  a nossa...
 - O que estamos esperando para ir então, hã?
Percorreram alguns  quilômetros de  volta, até  encontrarem uma enseada. Claude saiu rapidamente e abriu a porta  para Rosa.
Desceram cuidadosamente pelas  rochas até alcançarem a praia. E de mãos  dadas  começam a caminhar.





- Isso parece  um sonho... – sussurra Rosa –  Que  bom que  podemos   sempre  guardar  esses momentos  em nossas  lembranças. Aléssia ainda  é  muito pequena, mas já pensou  em como  tudo isso  vai marcar Alex?
- D’accord... Não  há o que pague  aquele briho nos  olhos dela ao segurar o filhote  de canguru.
Rosa para e se  coloca  diante dele.
- Obrigada por nos  fazer tão  felizes!
- Você está feliz agora?
- Muito!  O som,  o cheiro do mar,  a sensação da areia sob nossos pés, a minha mão na sua... –  e diante  do silêncio de Claude se contém.
-  Meu Deus,  como isso foi  bobo! – murmura,  tentando soltar  sua mão  da dele.
Mas  ele a segurou ainda mais  firme, e puxou-a de  volta  para si.
-  Não concordo contigo,  isso não foi  bobo. Se apaixonar,  amar  alguém e querer  passar  o resto  da  vida  com essa pessoa nunca  será bobo. Faz parte  do romance, hã?  Pra  ser  sincero só  falta  uma  coisa pra  ficar perfeito...
- O que?
- Isso – murmura beijando-a  em seguida.
Quando o beijo termina  se abraçam. Rosa respira  devagar e profundamente.
- Não seria perfeito se  a lua  continuasse lá  no alto e tívessemos champanhe para  brindar?
Claude a afasta  de si e com um sorriso enigmático caminha em direção às rochas, que  se  dispunham numa pequena elevação.
- O que está  fazendo? Tenha  cuidado! – exclamou ao vê-lo escalar as pedras molhadas pelas  ondas  do mar.
- Observe, cherie!
Claude então ergueu o braço direito e o girou no ar algumas  vezes, antes de “laçar” a lua e puxá-la, descendo e amarrando-a numa pedra.
- Creio que é  suficiente para  mantê-la  conosco por mais umas... duas horas, hã? – explica-se,  olhando para  o relógio. - Quanto a champanhe...– pergunta  tirando os  suvernis  do  bolso  do casaco que  ela  usava. -  Serve  licor australiano?
Então são obrigados  a fugirem  da maré e se abrigam nas pedras que  ficavam mais  acima  da  areia.
- Licor Strega. – diz Rosa, lendo o rótulo com alguma  dificuldade -  Benevento... Itália?! – termina  olhando para Claude – Acho  que  fomos  enganados! -  completa  antes  de  rir.
-  Voilà! Faz  todo o sentido, mon amour! Streghe significa bruxa, em italiano. Diz a lenda que em Benevento se reuniam todas as bruxas do mundo. Elas  dançavam e cantavam antes de decolar em suas  vassouras nas noites enevoadas de inverno.
- Então esse licor é inspirado em segredos conhecidos apenas pelas bruxas?
- Oui. Há outra lenda, muito mais  romântica, hã? Quer  saber?
- Humhum...
Claude coloca o pequeno frasco contra a  lua, e o liquido avermelhado brilha por um instante.
- Quando duas pessoas apaixonadas bebem Strega juntas, elas permanecem unidas para sempre!
- Uau! E a que  vamos brindar? – pergunta  Rosa abrindo  sua garrafinha.
Claude pensa por um instante e  com um gesto  e cabeça e um sorriso  no canto  da  boca diz:
- Que tal a um... Para sempre  você?
- Perfeito... – sussurra ela  de  volta. – no três?
- Um... – começa Claude.
- Dois... – emenda Rosa
- Três! Para sempre você – dizem juntos, antes  de tomarem um gole da bebida.
- Um gole só, hã? – diz Claude tomando o frasco  de Rosa – Vamos  guardar o resto para  a proxima lua  cheia, na  nossa  casa...
- Hummm... D’accord, monsieur! – concorda Rosa  antes de se abrigar nos braços de Claude, dividindo  com ele o  blazer. – Vou fechar os  olhos  só por um segundo, pra  ter  certeza que não estou sonhando, ok?
- Ok! – Concorda  Claude sorrindo pela analogia inversa  de Rosa, beijando-a nos  cabelos. – Eu  vou contigo, hã?
E quando abriram os olhos, a Lua havia  se  soltado e ido embora para  oeste,  levando a noite consigo, enquanto o seu amado Sol surgia  no leste, a  sua procura...







Merci et au revoir!