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sábado, 27 de fevereiro de 2016

PSV/Capítulo 23

PSV

Rosa apertou a maçaneta para baixo e abriu a porta devagar.
- Liz, podemos entrar? – Perguntou colocando a cabeça no vão de abertura.
- Rosa! Claro que sim, honey, entrem! Que  bom que chegaram,  Joana ficou a tarde  toda,  mas agora estou me  sentindo só e abandonada.
Elisabete estava sentada em uma  poltrona ao lado da cama.
- Eu não ganho um abraço da minha menina? – Perguntou  abrindo os braços para Alexandra.
-  A mamãe falou que você vai  ficar boa igual eu, madrinha. – Falou a menina enquanto Liz a colocava sentada em seu colo.  – Você tá com medo?  Eu tava, mas aí eu dormi e não vi nada, nadica!
-Alex! – Advertiu-a Rosa. – Sem perguntas, esqueceu?
- Deixe-a, Rosa. É natural que tenha curiosidade, principalmente  depois de passar por uma cirurgia.
- Você e John a mimam demais, isso sim!
- Estamos no nosso papel de avós, darling!  Postiços, mas com muito amor! – Completou beijando Alexandra.
- E John  por  que não está aqui com você?
- Desceu até a sala do Afrânio para resolver sobre...
- Querida, tudo resolvido...  Rosa! Alex! – John abria a porta, entrando.
Rosa se  voltou e sorriu para ele. E no instante seguinte seu sorriso morreu e desviou o olhar.
- Claude! – Exclamou Alexandra  alegremente,  correndo ao seu encontro. – Você também vai operar alguma coisa?
E quando Rosa  deu por si, Alex estava nos braços de Claude com os bracinhos em volta  do pescoço dele. E ele sorria, respondendo que não.
Quantas vezes imaginou essa cena: Alex nos  braços  do pai?
Então uma risada mais alta dos dois a trouxe de volta á realidade.
- Alexandra, que modos são esses? – Falou um tanto ríspida.
E imediatamente sentiu que  tornava-se o centro do olhar de todos, num silêncio tenso e desconfortável. Abaixou a cabeça por um instante e quando a ergueu viu Alex tentando segurar o choro.
- Rosa...  - Liz  murmurou parecendo desapontada.
-  Oh, meu Deus, me desculpa, anjo! – Falou aproximando-se de Claude –  Vem com a mamãe!
Alexandra parecia indecisa e Claude  percebeu sua relutância pela maneira como ela se segurava com mais força.
- Pequena, vá com sua mãe. Ela não está  brava  com você e sim comigo, hã?
- Com você? Por que a mamãe tá brava  com você?
- Eu acho que foi  pela   minha risada alta. Aqui é um hospital, e devemos nos comportar, ouí?
- Vem querida...
- Vá, pequena... Falaremos  do canguru em outro momento, eu prometo! – E colocou-a no chão.
- Eu peço desculpas a todos, não sei  porque falei dessa  maneira. Me perdoem. – Falou Rosa  dado um sorriso sem graça. – E você,  meu amor,   eu sinto muito. A mamãe ama  você, ok?
abaixou-se a altura de Alexandra abraçando-a carinhosamente.
- Liz, tudo bem? – Perguntou Rosa levantando-se  achando-a ausente.
Liz olhava de Claude  para Alex e de  Alex para Rosa.
- Querida, está sentindo alguma  coisa? – Perguntou John, preocupado.
- Não, estou ótima! – Respondeu olhando para todos. - Algumas lembranças, apenas. – E voltou-se  para  o marido -  Mas John, você  disse que está tudo resolvido?
- Oh, yes! Claude emitiu...
O celular de  Claude toca.
- Pardon – Murmurou verificando a ligação e afastando-se até perto da porta  – Alô, Nara. Um minuto sim. –  É minha irmã, preciso atende-la, então... John, qualquer problema                                                     me procure. E Elisabeth, tenho certeza que a cirurgia vai ser um sucesso. Até logo, pequena. – E fez um carinho em Alex. – Rosa. – Concluiu  com um  movimento de cabeça e saiu, atendendo a ligação.
- Nara, como está? Me perdoe, eu acabei esquecendo de retornar e...
- Como eu dizia, Claude emitiu um cheque, cinquenta por cento do  valor da venda  das peças, em meu nome e o depositamos no financeiro.
- Vai ser  suficiente? – Pergunta Liz, desconfiada.
- Sim, vai cobrir os  custos totais da cirurgia. E o restante usaremos para os remédios e para viajar. Amanhã, a essa hora já estará  livre disso, Liz.
- Amanhã? – Diz Rosa surpresa -  Está dizendo que...
- Vão me operar amanhã, Rosa. Afrânio tem um  congresso e prefere me operar antes de ir.  – Suspira conformada – Você sabe, quinze dias  pode ser muito tempo...
- Mamãe eu quero água...
- Aposto que está  com fome também! – Diz Elisabeth – John leve-a até a lanchonete.
- Não é  preciso, nós  já vamos pra casa e...
- Rosa, por favor nos  deixe  mima-la um  pouco, sim?
- Está bem, você  ganhou Liz. Mas só  porque está aqui...
John e Alexandra saem do quarto.
- Bem, acho que  vou me deitar. Pode me ajudar querida?]
- Claro! O que quer que eu faça?
- Pegue uma coberta no armário, por favor. – Pediu deitando-se.
Rosa ajeita a coberta  sobre o lençol que a cobria, mantendo a manta nas pernas de Liz.
- Acho que assim é  suficiente... O que  foi, Liz por que está me olhando desse jeito?
- Claude Antoine Geraldy. - Fala  Liz fazendo uma breve pausa -  Você dedicou um capítulo inteiro de sua tese de doutorado defendendo uma de suas teorias, sobre estética. Coincidentemente é o último termo do seu projeto, feito em Amsterdã, e tem várias observações feitas por ele. Por que  fingiram não se conhecer?
Rosa virou rapidamente e demorou mais que o normal para  fechar a porta  do armário. Aquela  pergunta assim  à queima roupa... Não era  possível Elisabeth ter  percebido algo sobre a paternidade  de Claude! Ou era? Teria ela enxergado a verdade, quando os olhara de um para outro momentos  atrás?
- Rosa? – Insistiu Elisabeth.
Rosa torceu as mãos e virou-se  para ela.
- Liz, eu não...
- Voltamos! – Exclamou John entrando com Alex. – A lanchonete já estava fechada. Mas uma das enfermeiras conseguiu um copo de água para  ela.


PSV


Bernard ativou o alarme  do carro e  com passos largos atravessou a calçada, até atingir  e subiu os  degraus, dessa vez mais lentamente.
Reunião no gabinete do prefeito! Não podia deixar transparecer que estava ansioso. Mantenha a calma, Bernard. Respire fundo e ande calmamente, seja  dono das suas reações. Aja  com frieza, determinação e com muita diplomacia. E é claro, se precisar, minta. Afinal, você é um político.
Atravessou o  saguão cumprimentando a todos e chegou a recepção do gabinete, entrando na ante sala, onde  ficava a  secretária do prefeito.
 - Bonjour Melissa! Já posso entrar? – Perguntou indicando a porta da sala do prefeito.
- Sim, eu vou anuncia-lo, siga-me. – Respondeu ela levantando-se e contornando a mesa.
Bateu levemente e abriu a porta anunciando-o.
- Michel, algum problema com os relatórios que te  enviei?
- Não, nenhum.  Seu departamento parece estar sempre sob seu total controle. Sente-se.
- Se não há nada errado, por que me chamou em seu gabinete com  tanta urgência?
- Bernard, você sabe que  Claude Geraldy era o mais cotado pela ala conservadora  do nosso partido para as próximas eleições.
- Oui. Ele atuava  como conselheiro há vários anos. Sabe ao certo o que provocou a renúncia dele do gabinete?
- Dizem que  foram  divergências dentro do executivo, sobre as políticas econômicas. Ele criticou as políticas de austeridade de Paris e elogiou um grupo de dissidentes que pediam mudança nas medidas de combate a crise.
- E isso foi motivo para abandonar tudo?
- Sejamos honestos, Bernard. Ele nunca teve vocação para o cargo. Louise o empurrou para isso. No começo ele ignorava certos “acertos caseiros” e seguia com as funções, mas com o tempo foi dificultado essas transações e não tinha mais como mantê-lo.  Ser um conselheiro que se opõe tão abertamente à política do governo tornou-o ‘persona non grata’.  Sua recusas em participar e promover ‘esquemas’ o levou à renúncia. A política não é para  pessoas  certinhas.
- Voilà, mas não foi para  falar dele que me chamou aqui.
- Não. Você sabe do interesse do partido na sua candidatura ao meu cargo atual. O que quero saber é se  você está de acordo e disposto a continuar com a nossa... rotina de negociações.
- É claro que sim. Quero chegar onde for possível, custe o que custar.
- Ótimo. Era o que esperava ouvir de você antes que Jean Charlie o procurasse.    Ele coordenava as ações do governo nos diferentes departamentos e vai coordenar a nossa campanha.
- Nossa campanha? Então o partido já  fez suas escolhas?  E a convenção?
- A convenção serve apenas para cumprir as  formalidades, Bernard. Mas, me  diga, até  onde pretende chegar na política?
- Diga-me as  suas pretensões primeiro...
- Presidente da França, naturalmente.
- Sendo assim, eu aguardarei a minha nomeação como seu primeiro- ministro. – Respondeu Bernard,  com  um sorriso ganancioso, levantando-se e caminhando até a porta.
- Eu tinha  certeza que faríamos uma  excelente dupla. – Comentou Michel – Acha que  poderá  manter o apoio de Louise Geraldy? Ela tem grande  influência na parte  contraria a nossa candidatura.
- Se poderei manter o apoio? – Repete em tom de zombaria, voltando-se  para Michel  – Eu tenho Louise aqui, na palma da minha mão. Vou para  o meu gabinete. Au revoir, non ami.
E antes de sair escuta:
- Cuidado, mon ami.  Não confie demais em Louise Geraldy. É uma mulher experiente, inteligente e perigosa. Quer um conselho? Certifique-se de que não é ela que o tem na palma  da mão. Au revoir, Bernard.



PSV


Rosa despediu-se de Alex e Silvia com um sorriso que  morreu assim que fechou a porta do apartamento e entrou no elevador.
Até chegar no carro, conseguiu evitar de pensar no assunto, sobrepondo outro qualquer no lugar toda vez que ele teimava em aparecer.
Mas quando precisou posicionar melhor o retrovisor interno, e   viu seu rosto refletido nele não  deu para evitar as lágrimas que controlara a noite  toda.
A chance de John conseguir reaver as ações da galeria dependiam de  sua resposta a  Claude, voltando a ser o que nunca  havia sido para deixar de ser o que não era!
- Que irônico!  - Sussurrou para sua figura  no espelho.
Enxugou as lágrimas antes que borrassem a maquiagem.
– Camuflagem seria mais adequado. – Disse a si mesma suspirando e  aprumando-se.
Deu a partida no carro e  manobrando saiu do estacionamento.  Seguiu reto por algumas quadras e contornou a rotatória que a levaria ao Hospital.
Bateu os olhos no painel do carro e conferiu a hora.
- Não se atrase! – A  voz de Claude ecoou em sua mente.
- E o que vai fazer se eu me atrasar, Claude? Pedir o divórcio? – Falou como se ele pudesse escutar e parou ao sinal vermelho.
Ficaria  no hospital até que a cirurgia terminasse,  apoiando John.
Além do mais, é  obvio que ele sabe que  vou aceitar, por mais que  isso me custe. Devo muito a Liz e John para deixa-los perder tudo assim.
Ou ferir a reputação de todos, com essa história de  serem amantes.
E Alex?  Quando ele souber, o que  fará?
Vai desprezar-me ainda mais, concluiu sentindo-se vulnerável.
Deus! Como seria  conviver  com esse Claude de agora? Esse, que parecia odiá-la  e que seu coração teimava em ainda amar.
Não estaria enganado a si mesma e submetendo-se a esse capricho de Claude por isso, porque ainda o amava?
A buzina de um carro a tirou desses pensamentos. Engatou  a marcha e seguiu e frente.  Sinais verdes eram para isso, seguir em frente.
Quando chegou ao hospital, Elisabeth já estava sendo preparada para a cirurgia, mas a enfermeira permitiu sua entrada. Só teve alguns minutos para  desejar que  tudo corresse bem e precisou  abaixar-se à altura da maca.
-  Vai dar tudo certo, Liz! Ah, Alex mandou um beijão e Silvia também. Eu ficarei aqui  pedindo sua proteção  até que saia para  a recuperação.
- Obrigada, darling! E eu ficarei torcendo p/ara que tudo se  esclareça! – Cochichou de volta, enquanto a  enfermeira já ajustava  a velocidade do soro.
- Não entendi, Liz... O que há para ser esclarecido?
- Eu também não entendi completamente. Ainda não. – Falou de maneira misteriosa. - Não cruzou com Claude?
- Ele esteve aqui? – Perguntou  surpresa.
- Sim. Saiu com John quando a enfermeira entrou. Disse que perdoará o seu atraso hoje. Está  com  problemas no seu horário?
- Não. Ele disse mais alguma  coisa?
- Desculpem interrompe-las,  mas a senhora tem que ir – Falou  a enfermeira.
- Claro, desculpe a mim por atrasa-la... Boa sorte, Liz!
Minutos depois, Joana chegava e se juntava a Rosa e John.

PSV    
  

Continua 29/02

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