PSV
Rosa apertou a maçaneta para baixo e abriu a porta devagar.
- Liz, podemos entrar? – Perguntou colocando a cabeça no vão
de abertura.
- Rosa! Claro que sim, honey, entrem! Que bom que chegaram, Joana ficou a tarde toda,
mas agora estou me sentindo só e
abandonada.
Elisabete estava sentada em uma poltrona ao lado da cama.
- Eu não ganho um abraço da minha menina? – Perguntou abrindo os braços para Alexandra.
- A mamãe falou que
você vai ficar boa igual eu, madrinha. –
Falou a menina enquanto Liz a colocava sentada em seu colo. – Você tá com medo? Eu tava, mas aí eu dormi e não vi nada,
nadica!
-Alex! – Advertiu-a Rosa. – Sem perguntas, esqueceu?
- Deixe-a, Rosa. É natural que tenha curiosidade,
principalmente depois de passar por uma
cirurgia.
- Você e John a mimam demais, isso sim!
- Estamos no nosso papel de avós, darling! Postiços, mas com muito amor! – Completou
beijando Alexandra.
- E John por que não está aqui com você?
- Desceu até a sala do Afrânio para resolver sobre...
- Querida, tudo resolvido...
Rosa! Alex! – John abria a porta, entrando.
Rosa se voltou e
sorriu para ele. E no instante seguinte seu sorriso morreu e desviou o olhar.
- Claude! – Exclamou Alexandra alegremente, correndo ao seu encontro. – Você também vai
operar alguma coisa?
E quando Rosa deu por
si, Alex estava nos braços de Claude com os bracinhos em volta do pescoço dele. E ele sorria, respondendo
que não.
Quantas vezes imaginou essa cena: Alex nos braços
do pai?
Então uma risada mais alta dos dois a trouxe de volta á
realidade.
- Alexandra, que modos são esses? – Falou um tanto ríspida.
E imediatamente sentiu que
tornava-se o centro do olhar de todos, num silêncio tenso e
desconfortável. Abaixou a cabeça por um instante e quando a ergueu viu Alex
tentando segurar o choro.
- Rosa... - Liz murmurou parecendo desapontada.
- Oh, meu Deus, me
desculpa, anjo! – Falou aproximando-se de Claude – Vem com a mamãe!
Alexandra parecia indecisa e Claude percebeu sua relutância pela maneira como ela
se segurava com mais força.
- Pequena, vá com sua mãe. Ela não está brava
com você e sim comigo, hã?
- Com você? Por que a mamãe tá brava com você?
- Eu acho que foi
pela minha risada alta. Aqui é
um hospital, e devemos nos comportar, ouí?
- Vem querida...
- Vá, pequena... Falaremos
do canguru em outro momento, eu prometo! – E colocou-a no chão.
- Eu peço desculpas a todos, não sei porque falei dessa maneira. Me perdoem. – Falou Rosa dado um sorriso sem graça. – E você, meu amor,
eu sinto muito. A mamãe ama você,
ok?
E abaixou-se a altura de Alexandra abraçando-a carinhosamente.
- Liz, tudo bem? – Perguntou Rosa
levantando-se achando-a ausente.
Liz olhava de Claude para Alex e de Alex para Rosa.
- Querida, está sentindo alguma coisa? – Perguntou John, preocupado.
- Não, estou ótima! – Respondeu
olhando para todos. - Algumas lembranças, apenas. – E voltou-se para o
marido - Mas John, você disse que está tudo resolvido?
- Oh, yes! Claude emitiu...
O celular de Claude toca.
- Pardon – Murmurou verificando a
ligação e afastando-se até perto da porta
– Alô, Nara. Um minuto sim. – É
minha irmã, preciso atende-la, então... John, qualquer problema me
procure. E Elisabeth, tenho certeza que a cirurgia vai ser um sucesso. Até
logo, pequena. – E fez um carinho em Alex. – Rosa. – Concluiu com um
movimento de cabeça e saiu, atendendo a ligação.
- Nara, como está? Me perdoe, eu
acabei esquecendo de retornar e...
- Como eu dizia, Claude emitiu um
cheque, cinquenta por cento do valor da venda das peças, em meu nome e o depositamos no
financeiro.
- Vai ser suficiente? – Pergunta Liz, desconfiada.
- Sim, vai cobrir os custos totais da cirurgia. E o restante
usaremos para os remédios e para viajar. Amanhã, a essa hora já estará livre disso, Liz.
- Amanhã? – Diz Rosa surpresa - Está dizendo que...
- Vão me operar amanhã, Rosa. Afrânio
tem um congresso e prefere me operar
antes de ir. – Suspira conformada – Você
sabe, quinze dias pode ser muito
tempo...
- Mamãe eu quero água...
- Aposto que está com fome também! – Diz Elisabeth – John
leve-a até a lanchonete.
- Não é preciso, nós
já vamos pra casa e...
- Rosa, por favor nos deixe
mima-la um pouco, sim?
- Está bem, você ganhou Liz. Mas só porque está aqui...
John e Alexandra saem do quarto.
- Bem, acho que vou me deitar. Pode me ajudar querida?]
- Claro! O que quer que eu faça?
- Pegue uma coberta no armário, por
favor. – Pediu deitando-se.
Rosa ajeita a coberta sobre o lençol que a cobria, mantendo a manta
nas pernas de Liz.
- Acho que assim é suficiente... O que foi, Liz por que está me olhando desse jeito?
- Claude Antoine Geraldy. - Fala Liz fazendo uma breve pausa - Você dedicou um capítulo inteiro de sua tese
de doutorado defendendo uma de suas teorias, sobre estética. Coincidentemente é
o último termo do seu projeto, feito em Amsterdã, e tem várias observações
feitas por ele. Por que fingiram não se
conhecer?
Rosa virou rapidamente e demorou mais
que o normal para fechar a porta do armário. Aquela pergunta assim à queima roupa... Não era possível Elisabeth ter percebido algo sobre a paternidade de Claude! Ou era? Teria ela enxergado a verdade,
quando os olhara de um para outro momentos
atrás?
- Rosa? – Insistiu Elisabeth.
Rosa torceu as mãos e virou-se para ela.
- Liz, eu não...
- Voltamos! – Exclamou John entrando
com Alex. – A lanchonete já estava fechada. Mas uma das enfermeiras conseguiu
um copo de água para ela.
PSV
Bernard ativou o alarme
do carro e com passos largos
atravessou a calçada, até atingir e
subiu os degraus, dessa vez mais
lentamente.
Reunião no gabinete do prefeito! Não podia deixar
transparecer que estava ansioso. Mantenha a calma, Bernard. Respire fundo e ande
calmamente, seja dono das suas reações.
Aja com frieza, determinação e com muita
diplomacia. E é claro, se precisar, minta. Afinal, você é um político.
Atravessou o saguão
cumprimentando a todos e chegou a recepção do gabinete, entrando na ante sala,
onde ficava a secretária do prefeito.
- Bonjour Melissa! Já
posso entrar? – Perguntou indicando a porta da sala do prefeito.
- Sim, eu vou anuncia-lo, siga-me. – Respondeu ela
levantando-se e contornando a mesa.
Bateu levemente e abriu a porta anunciando-o.
- Michel, algum problema com os relatórios que te enviei?
- Não, nenhum. Seu
departamento parece estar sempre sob seu total controle. Sente-se.
- Se não há nada errado, por que me chamou em seu gabinete com tanta urgência?
- Bernard, você sabe que
Claude Geraldy era o mais cotado pela ala conservadora do nosso partido para as próximas eleições.
- Oui. Ele atuava como
conselheiro há vários anos. Sabe ao certo o que provocou a renúncia dele do
gabinete?
- Dizem que foram divergências dentro do executivo, sobre as
políticas econômicas. Ele criticou as políticas de austeridade de Paris e
elogiou um grupo de dissidentes que pediam mudança nas medidas de combate a
crise.
- E isso foi motivo para abandonar tudo?
- Sejamos honestos, Bernard. Ele nunca teve vocação para o
cargo. Louise o empurrou para isso. No começo ele ignorava certos “acertos
caseiros” e seguia com as funções, mas com o tempo foi dificultado essas
transações e não tinha mais como mantê-lo.
Ser um conselheiro que se opõe tão abertamente à política do governo
tornou-o ‘persona non grata’. Sua
recusas em participar e promover ‘esquemas’ o levou à renúncia. A política não é
para pessoas certinhas.
- Voilà, mas não foi para
falar dele que me chamou aqui.
- Não. Você sabe do interesse do partido na sua candidatura
ao meu cargo atual. O que quero saber é se
você está de acordo e disposto a continuar com a nossa... rotina de
negociações.
- É claro que sim. Quero chegar onde for possível, custe o
que custar.
- Ótimo. Era o que esperava ouvir de você antes que Jean
Charlie o procurasse. Ele coordenava
as ações do governo nos diferentes departamentos e vai coordenar a nossa
campanha.
- Nossa campanha? Então o partido já fez suas escolhas? E a convenção?
- A convenção serve apenas para cumprir as formalidades, Bernard. Mas, me diga, até
onde pretende chegar na política?
- Diga-me as suas
pretensões primeiro...
- Presidente da França, naturalmente.
- Sendo assim, eu aguardarei a minha nomeação como seu
primeiro- ministro. –
Respondeu Bernard, com um sorriso ganancioso, levantando-se e caminhando
até a porta.
- Eu tinha certeza que
faríamos uma excelente dupla. – Comentou
Michel – Acha que poderá manter o apoio de Louise Geraldy? Ela tem
grande influência na parte contraria a nossa candidatura.
- Se poderei manter o apoio? – Repete em tom de zombaria,
voltando-se para Michel – Eu tenho Louise aqui, na palma da minha mão.
Vou para o meu gabinete. Au revoir, non
ami.
E antes de sair escuta:
- Cuidado, mon ami. Não
confie demais em Louise Geraldy. É uma mulher experiente, inteligente e
perigosa. Quer um conselho? Certifique-se de que não é ela que o tem na
palma da mão. Au revoir, Bernard.
PSV
Rosa despediu-se de Alex e Silvia com um sorriso que morreu assim que fechou a porta do
apartamento e entrou no elevador.
Até chegar no carro, conseguiu evitar de pensar no assunto,
sobrepondo outro qualquer no lugar toda vez que ele teimava em aparecer.
Mas quando precisou posicionar melhor o retrovisor interno,
e viu seu rosto refletido nele não deu para evitar as lágrimas que controlara a
noite toda.
A chance de John conseguir reaver as ações da galeria
dependiam de sua resposta a Claude, voltando a ser o que nunca havia sido para deixar de ser o que não era!
- Que irônico! -
Sussurrou para sua figura no espelho.
Enxugou as lágrimas antes que borrassem a maquiagem.
– Camuflagem seria mais adequado. – Disse a si mesma
suspirando e aprumando-se.
Deu a partida no carro e
manobrando saiu do estacionamento.
Seguiu reto por algumas quadras e contornou a rotatória que a levaria ao
Hospital.
Bateu os olhos no painel do carro e conferiu a hora.
- Não se atrase! – A
voz de Claude ecoou em sua mente.
- E o que vai fazer se eu me atrasar, Claude? Pedir o divórcio?
– Falou como se ele pudesse escutar e parou ao sinal vermelho.
Ficaria no hospital
até que a cirurgia terminasse, apoiando
John.
Além do mais, é obvio
que ele sabe que vou aceitar, por mais
que isso me custe. Devo muito a Liz e
John para deixa-los perder tudo assim.
Ou ferir a reputação de todos, com essa história de serem amantes.
E Alex? Quando ele
souber, o que fará?
Vai desprezar-me ainda mais, concluiu sentindo-se vulnerável.
Deus! Como seria
conviver com esse Claude de
agora? Esse, que parecia odiá-la e que
seu coração teimava em ainda amar.
Não estaria enganado a si mesma e submetendo-se a esse
capricho de Claude por isso, porque ainda o amava?
A buzina de um carro a tirou desses pensamentos. Engatou a marcha e seguiu e frente. Sinais verdes eram para isso, seguir em
frente.
Quando chegou ao hospital, Elisabeth já estava sendo
preparada para a cirurgia, mas a enfermeira permitiu sua entrada. Só teve
alguns minutos para desejar que tudo corresse bem e precisou abaixar-se à altura da maca.
- Vai dar tudo certo,
Liz! Ah, Alex mandou um beijão e Silvia também. Eu ficarei aqui pedindo sua proteção até que saia
para a recuperação.
- Obrigada, darling! E eu ficarei torcendo p/ara que tudo
se esclareça! – Cochichou de volta, enquanto
a enfermeira já ajustava a velocidade do soro.
- Não entendi, Liz... O que há para ser esclarecido?
- Eu também não entendi completamente. Ainda não. – Falou de
maneira misteriosa. - Não cruzou com Claude?
- Ele esteve aqui? – Perguntou surpresa.
- Sim. Saiu com John quando a enfermeira entrou. Disse que
perdoará o seu atraso hoje. Está
com problemas no seu horário?
- Não. Ele disse mais alguma
coisa?
- Desculpem interrompe-las,
mas a senhora tem que ir – Falou
a enfermeira.
- Claro, desculpe a mim por atrasa-la... Boa sorte, Liz!
Minutos depois, Joana chegava e se juntava a Rosa e John.
PSV
Continua 29/02

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