Os dois primeiros dias
foram calmos e tranquilos para Claude e Rosa. Ambos passaram a maior parte do dia em suas salas, evitando-se mutuamente.
Um eventual bom dia, boa tarde ou até amanhã foi o muito que
se falaram.
Rosa ficou conferindo
o inventário feito por Janete, onde catalogavam todo o acervo
da galeria, com os dados técnicos de cada obra. Empenhava-se em um relatório que indicasse a situação de cada uma delas: exposição,
amostra, obra permanente, em trânsito, vendida, reservada, valor, penhora.
- Parece que você não
simpatizou muito com ele. – Comentou
Janete.
- Impressão sua.
- Não é o que
deixa transparecer, Rosa. Todos
notaram uma certa insegurança sua, talvez medo.
- Medo? De um investidor de arte? Poupe-me, Janete. Eu
apenas estou num momento delicado com a
cirurgia de Alex. E não podemos nos esquecer da
doença de Liz. Você sabe que
minha amizade por ela é especial, como se ela fosse minha mãe.
- Sim, eu sei. Desculpe, eu não quis ofendê-la.
- Não me ofendeu. Só não confunda as coisas e por favor, corte esses comentários quando surgirem. Tudo que eu não
preciso é que ele pense que estou contra ele...
- Claro, você tem toda
razão! Quando é que vai trazer Alex
aqui? Recebemos amostras de uma massa de modelar e...
PSV
Claude aferia com John documentos e contratos entre a galeria
e clientes, empresas, universidades e outros
setores de arte da cidade.
Era final de tarde e estavam encerrando o
dia com um café. Claude quis
saber qual exatamente fora a doença de Elisabeth.
- Um tumor cerebral primário. – Explicou John, com um tom mais
sério na voz. – Embora
diagnosticado como benigno, teve um
crescimento anormal de células, o que levou à compressão e lesão das
células ditas normais do cérebro.
- E foi assim, de repente?
- Nunca é de repente, Claude.
Nós é que demoramos a perceber que algo
não ia bem. Todas aquelas dores de cabeça, alterações visuais e
auditivas, a agitação motora com movimentos
involuntários e falta de coordenação...
Sabe, um tumor menos agressivo tem crescimento relativamente lento e apenas
necessita de cirurgia.
- E este não foi
o caso dela, suponho...
- Não. Liz teve um meningioma, um tipo até comum de tumor em
adultos de meia idade, especialmente mulheres. É proveniente das meninges do
cérebro e medula espinhal. Foi encontrado na parte posterior do seu cérebro.
Mas o comportamento dele foi atípico,
mais agressivo que o esperado.
- Pelo pouco que sei, há riscos de tumores evoluírem para
câncer por anormalidades como essa...
- Sim. Por isso optamos por um tratamento multidisciplinar, nos Estados Unidos. Uma equipe composta de neurocirurgião, radioterapeuta, e um
oncologista. E a decisão foi conjunta: cirurgia, radioterapia e quimioterapia, para evitar que atingisse outras regiões.
- Não havia tratamento aqui?
- Foram os médicos daqui que sugeriram e indicaram o hospital,
da Universidade de Medicina da Carolina
do Sul.
- E então colocou suas ações
no mercado de commodities.
- Yes. E não me arrependo. Tudo que quero é ver Liz curada.
- Tudo que quer? Ela já não está curada?
- Ainda não
totalmente. Fomos alertados que outros tumores poderiam crescer em torno do
tecido cerebral da área afetada. A
quimioterapia serviu para atacar as células tumorais mas afeta as normais
também e...
- Acha que o tumor
voltou?
- Eu não sei. Liz tem tido alguns sintomas que me preocupam
como inexplicáveis problemas com leitura e escrita, dificuldade para falar ou
entender o que é dito, esquecimento de palavras...
- Podem ser apenas os efeitos colaterais do tratamento.
- Podem... Mas só ficarei tranquilo com o resultado dos exames que
fará nos próximos dias... Mas por
falar em Liz, ela está organizando um jantar, atrasado, de boas
vindas a você. E não aceitamos recusa.
- Voilà, eu não esperava tanta gentileza. Afinal eu praticamente me tornei o dono da sua galeria.
- Elisabeth simpatizou com você instantaneamente, de maneira
que entrou para a lista dela, de pessoas especiais.
- E você?
- Eu?
- É, você John, o que pensa
a meu respeito? Me considera um
oportunista?
- Não, de maneira
alguma, Claude! Eu sabia os riscos que
corria e sinto-me aliviado pela galeria parar nas mãos de alguém
vinculado a arte. Você não deixará isso tudo desmoronar, tenho certeza.
- Fico feliz que pense assim.
Eu gostaria de marcar uma reunião
com todos e discutir algumas ideias para ampliar as possibilidades de...
PSV
Bernard abriu a porta e Roberta foi à frente até o
elevador e apertou o botão, chamando-o.
- Vamos, querido! – Exclamou Roberta beijando-o.
- Já disse para não fazer isso fora das quatro paredes,
Roberta. – Disse Bernard livrando-se dela.
- Bem, ainda estamos entre algumas. – Respondeu mostrando as
paredes do corredor.
- Não brinque com isso! – Ordenou ele empurrando-a para
dentro do elevador. - Um escândalo desse
tipo, a poucos dias da convenção do partido não seria nada favorável.
- Impossível isso acontecer, meu amor. Nara é boba e ingênua.
Não há a mínima chance que perceba o que se passa entre nós.
- Não é com Nara que
me preocupo. É com Louise, ela é perigosa. Se suspeitar que
há um acordo entre nós dois...
- Acordo? Eu pensei que o que existia entre nós era amor e
paixão; além de negócios, é claro!
- E é, ma chèr! E tudo vai mudar quando nossas contas no exterior estiverem bem recheadas.
Então poderemos aparecer juntos em qualquer lugar público. A não ser é
claro, que você prefira o Claude.
- A única coisa que prefiro
dele é o prestígio e a satisfação de me
tornar parte da nobreza. É claro
que isso custará mais a ele que a mim.
- Não sei o que a faz acreditar que ele se casaria com você agora que foi para o Brasil, se já não o fez antes. –
Afirmou Bernard.
O elevador chegou ao
térreo e ambos saíram, atravessando o
hall e saindo para o estacionamento.
- Antes eu o queria porque o
amava, Bernard. E esperei que se
recuperasse do trauma de ser abandonado! – Fala ironicamente. - Agora eu quero
apenas me divertir.
- Isso parece mais uma
vingança. Louise está junto com você?
- Louise? É justamente dela que quero me vingar! Mais que dele. Eu a ajudei a
separa-lo daquela brasileirinha para me
tornar a senhora Geraldy. Louise podia
ter forçado a situação, quando ele se
tornou conselheiro e no entanto...
- Passou-a para trás também. Então por que continuou amiga
dela?
- Porque devemos manter nossos amigos por perto e os inimigos
ainda mais perto. Eu sei muita coisa
sobre Louise e seus métodos de obter
favores políticos.
- Vai chantageá-la?
- Se for preciso não hesitarei.
- Posso saber como
pretende conseguir que ele se case
contigo?
- Talvez os segredos de Louise sejam suficientes.
- Estou vendo que tenho que andar na linha com você... – Comentou Bernard, vendo-a
entrar em seu carro.
- Se um dia quiser me tirar
da jogada, seja franco e diga. Acertaremos nosso valores e voilà! Mas
não tente me trair, ou passar para trás, Bernard. É algo que não perdoo. –
Respondeu Roberta ajustando o óculos de sol sobre o rosto, antes de partir.
Bernard esperou que ela saísse do estacionamento e só então
entrou em seu carro. Deu a partida e o
alarme de nova mensagem ativou seu
celular. Era Louise, com um “
Você está atrasado”.
Você está atrasado”.
- Isso está ficando
divertido! – Resmungou antes de ir ao encontro dela.
PSV
A garçonete afastou-se da mesa com um sorriso, depois de agradecer a
gorjeta de Frazão. Ele a acompanhou com o olhar até que parasse em outra
mesa, atendendo-a.
Conferiu se havia algo urgente em suas mensagens, no celular. Nara. Ligaria depois.
Terminou o café e saiu do restaurante.
Em poucos minutos
estava no trânsito. Ah, sexta feira, sua linda! – Pensou depois de vinte
e cinco minutos parado em um cruzamento.
Assim que a fila a sua
frente andou, resolveu pegar uma
rota alternativa, apostando que
por ser um caminho mais longo, poucos o
escolheriam. Mas valia a pena arriscar. Mesmo que demorasse, não
seria tanto quanto continuar naquela via
expressa.
Os arredores de Paris.
Um bairro onde a maioria das construções sobrevivia ao tempo. Prédios
antigos abrigavam lojas, cafés e até mesmo pequenos hotéis, que serviam
para muitos fins.
E foi para as
silhuetas de um casal que atravessava a porta giratória de um deles que o olhar
de Frazão foi desviado, enquanto
o carro deslizava pela rua.
- Mas o que... – Resmungou para si mesmo olhando pelo retrovisor. – Parecidos
demais para serem apenas sósias... – Continuou encostando
o carro.
E suas suspeitas foram
confirmadas quando o Citroën DS5 branco, passou por ele e parou na
esquina. Louise sorria e ajeitava o
cabelo E antes de olhar para o motorista e com um gesto indicar que deveria virar a esquerda,
trocou um leve beijo com ele.
Frazão suspirou e pensou em Nara. Precisava acelerar a ida dela para o Brasil.
Ela não merecia ser obrigada a casar por política. Muito menos ter a mãe como amante deste marido.
PSV
Continua 04/02

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