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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

PSV/Capítulo 15


Os  dois primeiros dias foram calmos e tranquilos para Claude e Rosa. Ambos passaram a maior parte  do dia em suas  salas, evitando-se mutuamente.
Um eventual bom dia, boa tarde ou até amanhã foi o muito que se falaram.
Rosa  ficou conferindo o inventário feito por  Janete,  onde catalogavam  todo o acervo  da galeria, com os  dados  técnicos de cada obra. Empenhava-se em  um relatório que indicasse a  situação de cada uma delas: exposição, amostra, obra permanente, em trânsito, vendida, reservada, valor, penhora.
- Parece que  você não simpatizou muito  com ele. – Comentou Janete.
- Impressão sua.
- Não é o que  deixa  transparecer, Rosa. Todos notaram uma certa insegurança sua, talvez medo.
- Medo? De um investidor de arte? Poupe-me, Janete. Eu apenas  estou num momento delicado com a cirurgia de Alex. E não podemos nos esquecer da  doença de Liz. Você  sabe que minha amizade por ela é especial, como se ela fosse minha mãe.
- Sim, eu sei. Desculpe, eu não quis ofendê-la.
- Não me ofendeu. Só não confunda as  coisas e por favor, corte esses  comentários quando surgirem. Tudo que eu não preciso é que ele pense que estou contra ele...
- Claro, você  tem toda razão! Quando é que  vai trazer Alex aqui? Recebemos amostras de uma massa de modelar e...


PSV



Claude aferia com John documentos e contratos entre a galeria e clientes, empresas, universidades e outros  setores de arte da cidade.
Era final de tarde e estavam encerrando  o  dia  com um café. Claude quis saber qual exatamente fora a doença de Elisabeth.
- Um tumor cerebral primário. – Explicou John, com um  tom  mais sério na voz. – Embora diagnosticado como benigno, teve um  crescimento anormal de células, o que levou à compressão e lesão das células ditas normais do cérebro.
- E foi assim, de repente?
- Nunca é de repente, Claude.  Nós é que demoramos a perceber que algo  não ia bem. Todas aquelas dores de cabeça, alterações visuais e auditivas,  a agitação motora com movimentos involuntários e   falta de coordenação... Sabe, um tumor menos agressivo tem crescimento relativamente lento e apenas necessita de cirurgia.
- E este  não foi o  caso dela, suponho...
- Não. Liz teve um meningioma, um tipo até comum de tumor em adultos de meia idade, especialmente mulheres. É proveniente das meninges do cérebro e medula espinhal. Foi encontrado na parte posterior do seu cérebro. Mas  o comportamento dele foi atípico, mais agressivo que o esperado.
- Pelo pouco que sei, há riscos de tumores evoluírem para câncer por anormalidades como essa...
- Sim. Por isso optamos por um   tratamento multidisciplinar,  nos Estados Unidos. Uma equipe composta  de neurocirurgião, radioterapeuta, e um oncologista.  E a decisão foi  conjunta:  cirurgia, radioterapia e quimioterapia,  para evitar que atingisse outras regiões.
- Não havia tratamento aqui?
- Foram os médicos daqui que sugeriram e indicaram o hospital, da  Universidade de Medicina da Carolina do Sul.
- E então colocou suas ações  no mercado de commodities.
- Yes. E não me arrependo. Tudo que quero é ver Liz curada.
- Tudo que quer? Ela já não está  curada?
 - Ainda não totalmente. Fomos alertados que outros tumores poderiam crescer em torno do tecido cerebral da área afetada.  A quimioterapia serviu para atacar as células tumorais mas afeta as normais também e...
- Acha que o tumor  voltou?
- Eu não sei. Liz tem tido alguns sintomas que me preocupam como inexplicáveis problemas com leitura e escrita, dificuldade para falar ou entender o que é dito, esquecimento de  palavras...
- Podem ser apenas os efeitos colaterais do tratamento.
- Podem... Mas só ficarei tranquilo com o resultado dos  exames que  fará nos próximos  dias... Mas por falar em Liz, ela está organizando um jantar, atrasado, de  boas  vindas a  você.  E não aceitamos recusa.
- Voilà, eu não esperava tanta  gentileza. Afinal eu  praticamente me  tornei o dono da sua galeria.
- Elisabeth simpatizou com você instantaneamente, de maneira que  entrou para a lista dela, de  pessoas especiais.
- E você?
- Eu?
- É, você John, o que pensa  a meu respeito? Me  considera um oportunista?
- Não, de maneira  alguma, Claude! Eu sabia os riscos que  corria e sinto-me aliviado pela galeria parar nas mãos de alguém vinculado a arte. Você não deixará isso tudo desmoronar, tenho certeza.
- Fico feliz que pense assim.  Eu gostaria de marcar uma  reunião com todos e  discutir algumas ideias  para ampliar as possibilidades de...


PSV


Bernard abriu a porta e Roberta foi à frente    até o elevador e apertou o botão, chamando-o.
- Vamos, querido! – Exclamou Roberta beijando-o.
- Já disse para não fazer isso fora das quatro paredes, Roberta. – Disse Bernard livrando-se dela.
- Bem, ainda estamos entre algumas. – Respondeu mostrando as paredes do corredor.
- Não brinque com isso! – Ordenou ele empurrando-a para dentro do elevador. -  Um escândalo desse tipo, a poucos  dias da  convenção do partido não seria nada  favorável.
- Impossível isso acontecer, meu amor. Nara é boba e ingênua. Não há a mínima chance que perceba o que se passa entre nós.
- Não é  com Nara que me preocupo.  É  com Louise, ela é perigosa. Se suspeitar que há  um acordo entre nós dois...
- Acordo? Eu pensei que o que existia entre nós era amor e paixão; além de negócios, é claro!
- E é, ma chèr! E tudo vai mudar quando nossas  contas no exterior estiverem bem recheadas. Então  poderemos aparecer  juntos em qualquer lugar público. A não ser é claro, que você  prefira  o Claude.
- A única  coisa que prefiro dele é o prestígio e a satisfação de me  tornar parte da  nobreza. É claro que isso custará mais a ele que a mim.  
- Não sei o que a faz acreditar que ele se casaria  com você agora que  foi para o Brasil, se já não o fez antes. – Afirmou Bernard.
O elevador  chegou ao térreo e ambos  saíram, atravessando o hall e saindo para o estacionamento.
- Antes eu o queria porque o  amava, Bernard.  E esperei que se recuperasse do trauma de ser abandonado! – Fala ironicamente. - Agora eu quero apenas  me divertir.
- Isso parece mais uma  vingança. Louise está junto com você?
- Louise? É justamente  dela que quero me  vingar! Mais que dele. Eu a ajudei a separa-lo daquela brasileirinha para  me tornar a senhora  Geraldy. Louise podia ter  forçado a situação, quando ele se tornou conselheiro e no entanto...
- Passou-a para trás também. Então por que continuou amiga dela?
- Porque devemos manter nossos amigos por perto e os inimigos ainda mais perto. Eu sei muita  coisa sobre Louise e seus  métodos de obter favores políticos.
- Vai chantageá-la?
- Se  for  preciso não hesitarei. 
- Posso saber  como pretende conseguir  que ele se case contigo?
- Talvez os segredos de Louise sejam suficientes.
- Estou vendo que tenho que andar na linha  com você... – Comentou Bernard, vendo-a entrar em seu carro.
- Se um dia quiser me tirar  da jogada, seja franco e diga. Acertaremos nosso valores e voilà! Mas não tente me trair, ou passar para trás, Bernard. É algo que não perdoo. – Respondeu Roberta ajustando o óculos de sol sobre o rosto, antes  de partir.
Bernard esperou que ela saísse do estacionamento e só então entrou em seu carro.  Deu a partida e o alarme de nova  mensagem ativou seu celular. Era Louise, com um  “
Você está atrasado”.
- Isso está  ficando divertido! – Resmungou antes de ir ao encontro dela.



PSV



A garçonete afastou-se da mesa com um sorriso, depois de  agradecer a  gorjeta de Frazão. Ele a acompanhou com o olhar até que parasse em outra mesa, atendendo-a.
Conferiu se havia algo urgente em suas  mensagens, no celular. Nara. Ligaria depois. Terminou o café e saiu  do restaurante.
Em poucos minutos  estava no trânsito. Ah, sexta feira, sua linda! – Pensou depois de vinte e cinco minutos parado em um cruzamento.
Assim que  a fila  a sua  frente andou, resolveu pegar uma  rota  alternativa, apostando que por  ser um caminho mais longo, poucos o escolheriam. Mas  valia  a pena arriscar. Mesmo que demorasse, não seria tanto quanto continuar naquela  via expressa.
Os arredores de  Paris. Um  bairro onde a maioria das  construções sobrevivia ao tempo. Prédios antigos abrigavam lojas, cafés e até mesmo pequenos hotéis, que serviam para  muitos fins.
E foi para  as silhuetas de um casal que atravessava a porta giratória de um deles que  o olhar  de Frazão foi desviado, enquanto  o carro deslizava  pela  rua.
- Mas o que... – Resmungou para  si mesmo olhando pelo retrovisor. – Parecidos demais para  serem apenas  sósias... – Continuou  encostando  o carro.
E suas  suspeitas  foram  confirmadas quando o Citroën DS5 branco, passou por ele e parou na esquina.  Louise sorria e ajeitava o cabelo E antes  de olhar  para o motorista e com um gesto  indicar que deveria virar a esquerda, trocou  um leve  beijo com ele.

Frazão suspirou e  pensou em Nara.  Precisava acelerar a ida dela para o Brasil. Ela não merecia ser obrigada a casar por política. Muito menos ter a mãe  como amante deste   marido.


PSV
                                             Continua 04/02

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