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sexta-feira, 17 de junho de 2016

PSV/Capítulo 38

PSV



- Foi horrível, Frazão! – Falou Nara aceitando a água que ele lhe  oferecia.
- Tenha  calma e  me  conte  exatamente  o que aconteceu, d’àccord?
- Estávamos lá,  minha mãe, eu e Roberta, que  me apoiava e ajudava a convencê-la sobre a minha  decisão. Eu    havia exposto  todos os meus pontos  de vista e já estava  sem argumentos, quando Bernard apareceu. Acho que minha  mãe  o chamou sem que eu percebesse.
- E o que ele fez? Machucou  você?
- Não, não fisicamente... Mas  ficou muito alterado quando falei da  minha desistência... Droga eu não desisti, eu nem ao menos  fui consultada se queria.
- Mas  contavam  com  sua ajuda, querida.
- Pois eu estou feliz em ter tomado essa decisão depois  de tudo que vi, ouvi e descobri. -  Afirmou colocado o  copo sobre  a mesinha.
-  Pelo seu  tom de  voz, foi algo bem ruim... – Comentou  Frazão, aguardando o tempo dela em se abrir.
-  Ruim  é  pouco... Eu  imaginava alguma  coisa  errada nas  atitudes de minha mãe, mas  não essa    sujeira toda! Quando os  convenci que  não  voltaria atrás, Roberta sugeriu assumir o meu lugar, quero  dizer,  o lugar  de  noiva de Bernard.  Ele  pareceu não se incomodar, mas minha mãe... Eu nunca a vi  tão descontrolada, tão  histérica...  Ofendeu Roberta,  humilhando-a com palavras que eu prefiro não repetir e  afirmou que jamais a  deixaria  assumir  um papel de destaque político  como esse. Então Roberta tirou algumas  fotografias  da  bolsa e jogou sobre  a mesa. Fotos  de minha mãe  com Bernard.  A partir dai esqueceram  de mim e passaram  a discutir entre eles.  Roberta ameaçou publicar as  fotos e tudo  ficou nojento demais. Eu peguei minha bolsa e sai, vim pra cá. Ainda  bem que minhas  malas já estavam aqui com você.
- Não avisou a ninguém sua  saída?
- A Elise apenas.
- Louise não  vai  gostar  disso, Nara.
- Bem, isso será problema dela.
- Não tem receio que ela  venha  atrás de  você?
- Ela  só vai dar  por  minha falta amanhã, quando eu não aparecer  para o almoço e mandar aos  berros,  a pobre Elise me chamar. Só  que ela não  vai mais  me  ver.
Conversaram um pouco mais e Frazão surpreendeu-se com a maturidade e segurança de Nara. Decididamente A Nara que estava em seu quarto de hóspedes não era mais aquela garota ingênua  que  voltara  do  internato meses atrás.



PSV




Sílvia colocou  as  xícaras no escorredor  de louças enquanto Rosa tirava a mesa  do café  da manhã,  forçadamente.
- Obrigada, Sílvia. Mas  devia ter  deixado tudo isso aí na pia, hum? – Sua  voz é  bem  rouca.
- Como se  você  não me  conhecesse! – Respondeu sorrindo e preocupada com Rosa - Tem certeza que não quer que eu leve e traga Alex?
- Claro que tenho! Aliás,  hoje é  seu primeiro dia  de férias, nem sei porque  veio... -  E a tosse a impede de continuar.
- Para me despedir de vocês. Ontem foi  aquela  correria e acabei esquecendo.
- Eu  vou sentir muita  saudade de você, Sílvia! – Falou Alex descendo da cadeira e abraçando a babá.
- Eu  também. – Retrucou ela – Por isso,  olha só o que eu  trouxe  para  você! – E foi tirando um embrulho da mochila e entregando a menina.
- Um livrinho de  “pinta” do Frozen! – Exclamou Alex. – Olha mamãe!
- Estou vendo, querida. Não tem nada a dizer para Silvia?
- Obrigada, Silvia! Eu amei. Você me ajuda a “pinta” os desenhos?
- Filha, Silvia  está saindo de férias, esqueceu?
- Ah, é mesmo! “Mais... Mais” quando você  voltar   você “mi” ajuda então?
- Ajudo sim, fofinha! – Concorda abraçando-a. – Agora eu tenho que  ir. Comporte-se na minha ausência, hem! – E dá um beijo em Alex.
- Tá bom! Eu  vou lá   “começa” a “pinta” agora, tá?! –  Diz depois de retribuir.  – Tchau!
- Tchau! – Diz  voltando-se  para Rosa – Bem, se precisar  de mim não hesite em me chamar. Não quer  mesmo que eu fique hoje, você  está tão abatida...
-  Não meu bem. Você está de férias e vai curti-la, ok? Eu agradeço de coração  sua  oferta, mas  não precisa. Vou tomar meus  comprimidos e ficar  de cama o dia  todo, na companhia da minha baixinha e amanhã estarei em forma!



PSV




- Elise! Elise estou  chamando, você é surda? – Gritou Louise exasperada.
- Desculpe senhora Geraldy, eu estava na  cozinha, o que  deseja?
- Vá  chamar  Nara, diga para descer imediatamente.
- A senhorita Nara não está.
- Como não está?
- Ela não  dormiu em casa, senhora.
 - Como assim, Nara  não  dormiu em casa?
-  Bem a cama dela não está  desfeita, então eu imagino que...
- Você não é  paga para imaginar nada sua inútil. Eu mesma  vou chama-la!
- Mas senhora...
- Cumpra  apenas sua obrigação:  coloque a mesa para  duas pessoas e sirva o almoço antes que eu perca a fome. – Disse sem olhar  para a  governanta e subiu ao quarto de Nara.
A cama estava impecável como Elise  havia  dito, observou Louise procurando algum indício que desmentisse essa possibilidade.
Nara é uma mosca  morta, não tomaria  uma atitude dessas, de sair  de casa por  conta própria, pensava enquanto ia  ao closet e abria  o armário. 
Respirou fundo diante dos inúmeros  cabides vazios. Abriu as gavetas, também em sua maioria quase vazias.  Desceu a escada e entrou na biblioteca indo direto a gaveta onde guardavam documentos.
Faltava o passaporte de Nara.
-Maldita! – Exclamou Louise para  si mesma, voltando à sala de visitas.
Elise esperava pacientemente ao lado da mesa para  servi-la.
- Posso começar a  servir, senhora?
- Eu pareço com alguém que  quer  comer? Estou cercada de inúteis! –  Diz  Louise quase gritando, alcançado sua   bolsa no aparador.
E procura  pela chave do carro sem sucesso.
-  Onde está a chave do carro?
- Eu  não sei senhora...
- Pois procure  sua estúpida! – Ordena já aos  berros -  Ou quer ser demitida por incompetência?
Elise sai a procura da chave e minutos  depois retorna.  Louise  revirava as almofadas do sofá.
- Senhora, a chave estava no contato  do carro. E este envelope estava sobre o banco. É para a senhora.
Louise logo reconhece a letra de Nara e rapidamente  lê  o curto bilhete  da  filha e muda seus planos.
- Retire a mesa.  Elise. - Ordena deixando a sala de jantar. -  Você não  vai mudar ou impedir meus planos,  Nara! – Exclama amassando a  folha.



PSV



Claude deixou a galeria pouco depois das onze horas da manhã. Almoçaria  com Dadi e depois iria até a empresa de Freitas, a pedido dele,  para se inteirar de algumas  modificações sobre a  contabilidade  da galeria. E explicações  sobre  a notificação da receita estadual que a galeria recebera.
Na volta, tinha o intuito  de dizer a  Rosa que a amava, e que ela só aparecesse em seu apartamento se também o amasse e o perdoasse. Recomeçariam e seriam felizes para sempre. Rosa, Alex e ele.


PSV



Louise atravessou a rua a passos largos e logo estava dentro do elevador. Àquela hora encontraria Bernard  em casa, tinha certeza disso.  Quarta-feira era o dia da semana  em que ele não  comparecia ao seu gabinete da prefeitura.
Quando a porta se abriu entrou sem esperar convite. Só então reparou  que não era  Bernard ali na sua frente. Era Roberta. Bernard apareceu em seguida vestindo um roupão. O  mesmo roupão que havia dado a ele.
- Então Roberta, por que está demorando com nosso almoço, eu estou com fome... Louise?
- Se eu fosse idiota como minha  filha, iria perguntar o que está acontecendo aqui. Mas é óbvio  que  estavam na cama e agora estão com fome. Deviam ter aparecido na mansão. Eu almocei sozinha, já que Nara está a caminho do
Brasil. – Falou aparentemente  calma e controlada, esperando uma reação de Roberta que não houve.
-  O que espera indo para  a cama com Bernard, Roberta?  Que ele se case  com você?
- E por que não? Eu sou uma  ótima opção para  substituir Nara. Posso ajuda-la em seus  projetos, faria tudo que  fosse  possível, não tenho  escrúpulos  como Nara...
- Não tem  mesmo não é querida? – Afirma  Louise aproximando-se  de Roberta e  fazendo um leve carinho em seu rosto. – Acredita  que eu vá querê-la  como minha aliada,  sua vadia? - E desfere um tapa  em Roberta.
- Louise! – Exclama Bernard segurando-a, tarde demais.
- Você pode  até ter ido para  a cama com Bernard, mas eu fui primeiro e você não vai se casar com ele. Não se cansa de ficar  com os restos?    Se bem que  no caso de Claude, nem com  os restos você  ficou. Você é uma perdedora, Roberta.
- Bernard, você não vai fazer nada em minha, em nossa  defesa? – Fala Roberta  diante da apatia dele.
Bernard engole em seco e abaixa a cabeça. Louise  solta uma gargalhada.
- Pobre Roberta! – Fala em seguida,  sarcástica.
- Pois bem  eu não preciso que me defenda! – Exclama aproximando-se de Louise pronta  para ataca-la fisicamente. Mas de repente  abaixa o braço e  começa a rir.
- Não, eu não  vou sujar  minha mão, não  vou deixar marcas em você, Louise. Não físicas. Eu posso ser vadia para  você, mas que nome a  sociedade francesa dará  à mãe que dorme, que tem um caso com o futuro marido da filha?
E enquanto fala coloca os sapatos, o casaco  e pega  sua  bolsa. Já está  na porta quando  Louise retruca.
- Acha que isso vai me destruir?
Roberta gira apenas a cabeça e com um sorriso irônico responde.
- Ah, não... Eu não quero destruí-la. Uma parcela significativa do partido, do seu partido é  conservadora.  Eu quero desacreditá-la, quero que perca apoio e doações. Quero que seu nome  conste na lista  dos  piores escândalos políticos  desse país, como  culpada e não como vítima. Safou-se uma vez, Louise. Prepare-se para enfrentar  sua  pior inimiga. Terá noticias minhas,  “querida”. 
Abriu a porta e quase colidiu com o  entregador.
- Sai da frente, seu estúpido! – Exclamou deixando o apartamento de Bernard.
- Hummm, o que  foi que pediu? – Disse Louise olhando para o rapaz, como se nada  houvesse acontecido.  -  Vamos Bernard, pague o rapaz e vamos almoçar.  Estou morrendo  de fome!



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- Então é isso, Claude. O autor da obra não está obrigado pela legislação tributária a emitir  nota fiscal, a não ser no momento que ela entrar no estabelecimento adquirente, contribuinte do imposto, no caso a Galeria.
- Por isso preciso de um controle mais eficaz na emissão de notas fiscais e um maior  cuidado com os lançamentos nos Livros Registro de Entradas e Saídas.
- Não se preocupe. Foi um erro de digitação com relação ao  mês de emissão da Nota Fiscal de Revenda da peça. Mas  como você  pôde  constatar, a informação já foi retificada, inclusive junto a Receita Estadual. E qualquer ônus será  por nossa conta, é  claro.
- D’àccord. E quanto a mudança da emissão de notas fiscais eletrônicas?
- Pois é o aplicativo gratuito era uma vantagem por não ter o custo do provedor, porém,  a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo desativará esses aplicativos gratuitos e será obrigatório ter emissores próprios, incluindo o Conhecimento de Transporte Eletrônico.
- E vocês já procuraram alternativas?
- Já sim.  – Afirma Freitas - Escolhemos o software que conta inclusive com suporte técnico especializado.  Porém falta decidir o provedor.  Um que ofereça  melhor custo. Mas ainda temos um tempo...
- Fique atento, hã? Não deixe para a última hora, esses softwares geralmente exigem treinamento e parametrização para funcionar adequadamente.
- Já temos uma equipe treinada, Claude. Estamos migrando nossos clientes do aplicativo para ele, e faremos isso com todos antes que as novas regras de validação impeçam o seu funcionamento.
- Cheguei a imaginar que isso estava ligado a demora do meu visto definitivo, hã?
-  Impossível. – Explica Freitas – São esferas administrativas diferentes. Claude pessoa física e  Athena pessoa jurídica. Federal e estadual, respectivamente neste  caso. Com certeza  seu processo está parado por conta  dessa  falsa crise sócio-politica-econômica. Mas como estão no prazo, não temos  o que fazer, senão esperar.
- D’àccord.  – Diz Claude dando ciência aos protocolos  de mudanças contábeis da galeria. –  Conto  com  sua presença em  nossa próxima exposição, hã?
- É só avisar dia e hora, meu caro.
- Mandarei alguns convites. As peças já estão chegando. Será um prazer apresenta-lo aos curadores italianos.
- Foi muito bom fazer  essa parceria com  você, Claude. Eu era praticamente um analfabeto em arte, mas agora passei a me interessar e...
Conversaram alguns minutos  mais, trocando opiniões sobre  pintores antes que Milton  entrasse, seguido de uma secretária em apuros.
- Eu disse que estava ocupado... – Falou  ela olhando  diretamente para  Freitas, desculpando-se.
- Tudo bem, Alzira. Eu tenho certeza que o Milton não fez isso com má intenção. – Afirmou Freitas, em tom de ironia.
- É claro que não! Me desculpe... Claude não é?
- Ouí.  Eu já estava de saída, hã?
- Não estava viajando, Milton?
- Cheguei ontem. – E  olha para Claude. – Aliás  o Smith estava voltando da Europa no  mesmo voo. Só não entendi porque levou  Elisabete, a esposa e não Rosa, a amante...
- Milton, há anos  você faz essas  acusações infundadas, desde que levou um fora dela, por que insiste nisso ainda?
 - Infundadas? Ela  volta da Europa,  desdenha  do meu interesse e algum tempo depois  “aparece”  grávida.  Isso para mim é suficiente.
Freitas balança a cabeça com um sorriso irônico.
- Já pensou que ela pode ter  voltado grávida da Europa? E para  sua informação, Liz Smith está  se  recuperando de um tratamento delicado.
- Bem, eu tenho  que ir... – Diz Claude levantando-se.
- Que isso, francês!  - Fala Milton -  Fica um pouco mais e dá um palpite, afinal  você  os  vê todos os dias, não é mesmo?
- Você parece muito seguro do que fala.  Que importância  teria  minha  opinião?
- Outro que  fica em cima  do muro. – Resmunga Milton com um sorriso cinico . -  Que  foi, está a fim dela também? Vai fundo, cara, há chances, ela parece ser mais fácil pra estrangeiros como você, ou John Smith.
Claude teve uma  vontade enorme de esmurra-lo, em defesa a Rosa,  chegando a fechar os dedos e mover o braço para cima mas  controlou-se a tempo despedindo-se apenas  de Freitas antes de sair.
- Ih,  parece que o francês ficou zangado com a  brincadeira. -  Continuou  Milton – Ou então está a fim da vadia mesmo! – Concluiu.
- Milton, se eu perder a conta da Athena,  você vai arcar com o prejuízo. Ainda bem que  Rosa não frequenta mais o mesmo círculo social que  você e está por  fora  de suas  insinuações.
- Sabe que eu descobri por acaso que ela mesma leva a filha  a escola  todos os  dias? Estou pensando seriamente em voltar a investir nessa relação.  Afinal de contas, você está  falando com o novo dono da Eros Galeria. Aceitei a proposta.



PSV



Rosa esforçou-se para tirar a mesa  do lanche  da tarde. Deixou a água cobrir a louça  suja e adicionou um pouco de detergente  sobre ela. Amanhã lavaria tudo, enquanto  fizesse o café da manhã. Guardou o leite, os  frios, a  geleia e a manteiga na geladeira; o pão e as  bolachas no armário.
- Mamãe já  tirei a  roupa! – Ouviu Alex gritando  do banheiro.
- A mamãe já está indo! – Gritou de  volta,  sentindo a voz  falhar.
 Deixou o chá e o café  sobre a pia e  foi   banhar  Alexandra.







Achou melhor banhar-se também, pois não  gostava de deixar Alex sozinha, enquanto fazia  alguma  coisa. Acidentes  domésticos por  descuido eram mais frequentes do que  se pensava.
Logo seria noite. Noite  de quarta-feira. Mas nessa noite  não iria ver Claude. Nem nas outras. Não poderia  continuar com isso. Não estava certo. Suspirou e prometeu a si mesma que quando ele a cobrasse no  dia seguinte, porque ele cobraria, diria  a ele  o único motivo do porque não podia mais se submeter a isso. Ainda o amava. Mas não para ser uma amante eventual...
Então algumas  bolhas  de sabão sopradas por Alex a  trouxeram de  volta.
Foi dando instruções e deixou que ela se ensaboasse sozinha. Alex a observava e  imitava seus movimentos. Quando já estavam sem espuma envolveu-a numa  toalha e colocou  apenas o  roupão sobre si. Enquanto a vestia ponderou que  havia  feito certo em não  leva-la a escola naquele dia. Sentia-se extremamente  cansada, com dor pelo corpo e receava que a cabeça não demoraria  a doer.  Até  o abdômen doía de tanto espirrar e tossir. Se Alex  tivesse ido, teria que  recorrer a Janete fazendo com que ela  saísse  durante o  expediente. Dormir. É tudo que eu preciso, além de tomar  mais uma  dose  do remédio.
Esperaria  Alex dormir para fazer isso.  Com certeza  não demoraria pois havia brincado todo  o tempo.  Respirou fundo, sentindo-se  também feliz.  Há quanto tempo não passavam  um dia assim, só ela e Alex, muita  bagunça e brincadeira?
Escovou e prendeu os  cabelos da filha num rabo de cavalo.
-  Agora você  me ajuda a “acaba”   de pintar a Elsa?
 - Ajudo sim. – Respondeu enchendo o peito de ar deixando-o entrar pela  boca, já que pelo nariz parecia impossível.




PSV




Claude  retornou à galeria,  certo de que encontraria Rosa. Mas  não  foi o que aconteceu. Ela não  havia  comparecido no  turno da tarde nem deixado qualquer explicação sobre  sua não presença.
Tomou o  café que Elisa lhe trouxera a pouco, antes de ir embora. Ela também não sabia  de Rosa. Janete havia  ido com Sérgio até a  prefeitura para dar entrada no novo projeto de  reforma da  galeria e não voltariam ali.
Ao tentar  falar  com ela  pelo celular, notou uma ligação perdida de Nara. Depois de  falar  com Rosa ligaria  para a irmã.  Tentou  inúmeras vezes falar com ela, trocou o celular  pelo  fixo   mas ambos  davam  caixa  postal.









 As acusações de  Milton  voltaram a sua mente e envenenaram seus pensamentos. Apertou com força o lápis entre os dedos. Em quem vai acreditar, em sua intuição ou nas palavras desse sujeito que Rosa desprezou?
Até Freitas suspeitava que ela já estivesse grávida quando retornara... E como gostaria  de ser o pai de Alexandra! Mas Milton insistia naquela história sobre  Rosa  ser amante  de John.  Ele os conhecia desde a faculdade. Muito antes  de eu entrar  em sua vida, Rosa...
Talvez Milton tivesse visto, presenciado alguma  cena entre os  dois, uma atitude suspeita qualquer... Ele mesmo não havia  percebido a troca de carinho e o modo como se falavam com o olhar?
E Rosa não havia  cedido a sua  chantagem idiota para garantir  uma estabilidade financeira ao americano?
Mas ela não aceitou as investidas de Milton. Droga! Como posso estar  tão  confuso assim, como se  fosse um adolescente ciumento e possessivo?
Então ligou para o casal Smith. Liz atendeu e Claude lhe deu as  boas  vindas, desculpando-se por não ter ligado antes e perguntou por John.
A resposta que ele havia saído para  resolver alguns problemas particulares não lhe agradou.  E a maneira  como Liz disse que precisava  falar com ele  com urgência,  pessoalmente e  fora  da galeria, menos ainda.  Liz não quis nem mesmo adiantar o teor da  conversa e combinou um café, no  restaurante perto da galeria,  para o dia  seguinte, à tardezinha.
Quando recolocou o  fone no gancho percebeu pela janela que já estava  escuro. Saindo da galeria  tentou o celular  de John. “Este número está temporariamente indisponível ou fora  da área de cobertura”.
- Voilà!  - Exclamou seriamente entrando no carro. – São quase sete horas  da noite de uma quarta-feira. Eu espero  mesmo que  você apareça, Rosa. Sem atrasos.





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- Droga, papai! – Resmungou  Roberta voltando a apertar a campainha ininterruptamente. – Por que não abre  logo essa porta?
Então escutou o  ruído da chave girando e soltou-a.
- Até que enfim, papai! Pensei que ia  amanhecer com o dedo na campainha. – Reclamou entrando.
- Roberta,  já passa da meia  noite, o que faz aqui?
- Eu preciso daquele envelope! – Explicou-se  dando alguns passos em círculo, visivelmente nervosa.
- O que há de tão importante nele que a fez  vir até aqui, sozinha, correndo o risco de ser  assaltada? – Pergunta buscando o envelope  na gaveta de um móvel.
- Segredos, papai. Verdades secretas que serão reveladas! – Diz tirando o envelope das mãos  do pai,  conferindo seu interior.
- O que está  tramando, filha? Melhor  pensar  duas  vezes  antes de...
- Estou há dez horas pensando, papai! Dez longas  horas! E nada nem  ninguém vai me  fazer mudar  de ideia.
- A quem vai prejudicar dessa vez, Roberta? A  outra namorada de Claude?
- Claude? Quem está pensando em... – Faz uma  pequena  pausa – Claude! Voilà, papai!  Você acaba de dar a solução que eu procurava. É claro que ele  vai  ficar abalado e vai precisar de alguém que o apoie nessa hora! Obrigada por ficar  com isso e  boa noite!
-Roberta! O que está tramando?
- Já que não  quis saber  o conteúdo deste envelope, seja  paciente papai.  Amanhã, você, a França e o mundo todo saberão do que se trata. – Diz  como se tudo fosse uma charada a  ser desvendada. – Bonne nuit, papá! – Diz  beijando-o na  face e afastando-se.
- Roberta! – A chama ele, inutilmente.  - Filha! – Insiste dando um passo adiante.
- Au revoir, papai! Darei notícias. – Responde antes  de bater a porta.
- Mon Dieu, o que ela estará planejando? - Pergunta-se  o pai de Roberta, preocupado.





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Quando  Claude chegou em casa encontrou um bilhete de Dadi: “O voo  de Nara e Frazão  para o  Brasil sairia naquela madrugada.”
Fez  uma careta, desgostoso  consigo mesmo. Como foi esquecer de retornar a ligação perdida  da irmã...





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Patrick Vernier juntou  todas as  fotos e guardou-as  no envelope, devolvendo-a à Roberta, que ansiosa esperava pela resposa.
- Sinto muito, Roberta, mas  o Magazine de la journée não vai  publicá-las.
- Como não?  Você  disse que se eu  chegasse antes  da uma da manhã daria  tempo, seria a capa, a principal manchete . E meu cheguei!
- Isso foi antes de saber que o assunto envolvia  Louise Geraldy e Bernard Dardeau. Se tivesse adiantado esse detalhe, teria evitado todo esse transtorno.
- Não pode estar  falando sério... É justamente  por envolvê-los, que escolhi o seu jornal para  denunciar! Um jornal sério, honesto e imparcial. Já contabilizou quantos exemplares vai vender a mais? – Argumenta mostrando a foto em que Louise e Bernard se  beijavam em frente ao hotel.
- Agradeço sua confiança, mas não  sou o dono, apenas o editor chefe. E como editor chefe, e minha obrigação zelar pela conduta, pela linha editorial e ser  fiel aos  seus  colaboradores e patrocinadores. Louise e um deles e eu não quero perder meu emprego. Tenho uma família, Roberta.
- Mas que droga! Eu quero falar com o dono desse... Desse pasquim. Me passe o telefone pessoal dele!
- Querida, eu seria incauto se fizesse isso. Além do mais, Jacques Houdin tem cargo no congresso graças a Louise. E cá entre nós, tem também o rabo preso com ela. Publicar essas  fotos seria  como   declarar a terceira   guerra mundial.
- Covardes, é isso que  vocês são! – Exclamou Roberta, quase histérica. – Mas  tudo bem. Eu sempre  tenho um plano “B”. Obrigada por nada, “querido”! – E  sai da  redação do jornal, sem perder a pose e batendo a porta.
Patrick caminha até a porta e abrindo-a,  dá uma ordem:
- Prossigam com a manchete sobre o golpe no Brasil, pessoal. E à todo vapor ou atrasaremos as entregas!
Três horas depois, Roberta  guardava um cheque em sua  bolsa, recebido ao entregar o envelope a um jornal sensacionalista.  A única ressalva era ter que esperar mais  vinte e quatro horas para ver a imagem da poderosa  Louise Geraldy impressa aos beijos com Bernard.  “A amante  francesa do genro”.  Essa seria a manchete.
Valeria  a pena esperar. E enquanto esperasse  faria  sua mala para  deixar  o pais. Claro que com o primeiro exemplar  do jornal em mãos.





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O celular tocou e Rosa abriu os olhos assustada. Só identificou que estava  no sofá da sala quando seu olhar  caiu sobre a tela da  TV.
Demorou alguns  segundos para localizar o celular entre as almofadas e segurando-o identificou a chamada:  Claude. E antes  dessas muitas mais, todas perdidas.
Tentou lembrar  porque ligara o celular e olho para o aparelho fixo. Aquele continuava  fora  do gancho. Fizera isso para passar  o dia em paz e recuperar-se. Porém, não se sentia nem um pouco melhor.
Ignorou a ligação de Claude  e voltou sua atenção para a tela da TV e só então percebeu que a imagem estava congelada.
E eu também pensou esfregando os braços tentando se aquecer.
 - Preciso ir para o quarto. – Murmurou tentando ordenar  os pensamentos. E onde estaria o controle para desligar a TV?
Impulsionou o corpo e mal se levantou uma crise de espirros a impeliu à posição anterior. E depois deles,  a tosse. Não sabia o que  doía mais,  a cabeça ou o abdômen.
Deitou-se  novamente  no sofá, mas  a dificuldade para respirar  a impedia de encontrar alguma posição confortável para  ficar. Não segurou outro acesso de tosse e tossiu até ter ânsias e a garganta arder.
Quando a crise passou,  lentamente apoiou-se no encosto do sofá. Podia  sentir todas as  suas  costelas. Elas pareciam querer saltar para  fora.
Não podia se render. Tinha que lutar e ficar  boa rápido... Pegou o celular disposta a ligar para alguém, mas antes de ligar outra chamada. Claude novamente. Droga ele não vai desistir, pensou atendendo a ligação. 
- O que você quer? – Perguntou sem rodeios.
- Lembrá-la que hoje é  quarta-feira e está atrasada. Você deveria estar aqui e inteira a meu dispor.
As palavras de Claude entraram em sua mente, mas processar e entendê-las é que estava   difícil.
- O que  foi? Perdeu meu endereço ou a memória, por acaso?
- É evidente que não! – Respondeu Rosa igualmente irônica.
- Ótimo. Tem vinte minutos para chegar aqui, d’àccord?
- Impossível, não me sinto bem! – Explicou-se com a voz rouca e muitos espirros.
- Não adianta usar  seus espirros alérgicos como desculpa,   Rosa. Tem um compromisso comigo. Ou devo desconsiderar  sua palavra?
- Você é desprezível, Claude.  Eu te odeio!
- Odeia? Não, de todos os sentimentos do mundo, ódio é  um dos que você menos sente em relação a minha pessoa. Não é ódio que  demonstra ter quando fazemos amor, chérie
- Não fazemos amor, Claude. Fazemos sexo.
- Se prefere assim, d’àccord. – Diz sarcasticamente - Não é ódio que  demonstra quando fazemos sexo. O seu “desempenho” enquanto ‘transamos’ é fantástico!  E uma pessoa que odeia outra seria passiva. Resistiria e não demonstraria  prazer no ato sexual, hã?
- Quer saber, Claude Geraldy?  -  Replicou engasgando e tossindo -  Dane-se! – Falou encerrando a ligação, irritada mais por ter engasgado  que tudo.
Não demorou nem um minuto e o celular  vibrou.  Leu a mensagem: “Se não estiver aqui no tempo programado aguente as  consequências”
“Faça o que bem entender!” – Digitou desligando o celular de vez, jogando-o sobre o sofá.
E toda essa agitação lhe deu  forças para  levantar.
Foi até o  quarto da filha e certificou-se que ela  estava bem e dormindo. Mesmo tremendo muito, conseguiu tomar um banho e colocar uma  camisola qualquer.  Outra dose de comprimidos e deitou-se  decidida a  dormir. Expulsou todos os  fantasmas que insistiam em lhe perturbar.
Já estava  na tênue divisão entre  sono e realidade quando ouviu a campainha tocar. Parecia um sonho e ignorou  a princípio.  Mas o som continuo a despertou e quem quer que  fosse devia ser urgente, ponderou.
De algum canto sua memória sugeriu que devia ser Sílvia, mais uma vez esquecendo sua chave. Mas para que ela a quer se está saindo em férias?
 Forçou-se a levantar e  se arrastou até a sala. O som da campainha fazia sua cabeça doer novamente.
- Droga, eu já vou!  - Rosa tentou  falar alto enquanto caminhava até porta, escorando-se nos móveis.
Abriu a porta e deu um passo para trás.
 – Você?! – Exclamou enfrentando o olhar enfezado de  Claude - O que quer aqui?
Claude passeou pelo corpo dela, coberto apenas pela camisola e respondeu.
- Não diga que não sabe! – E foi suficientemente irônico  entrando sem esperar  convite.
- Combinamos que isso nunca aconteceria em minha casa! - Rosa fechou a  porta, automaticamente. – Além disso, estou sem condições para... para...
-  Para  fazer sexo comigo? Ou ele está aqui? – Perguntou Claude no meio da sala, colocando as mãos na cintura, sob o cós da  calça.
- Ele(?)  Ele quem? – Pede Rosa, sentindo-se desorientando, esfregando as têmporas que latejavam fortemente.
- John Smith. O seu amante, a pessoa por quem você me trocou seis anos atrás!
- Oh! De novo essa história...  - Diz  cansada e sem forças  para pensar ou discutir - Já que insiste nisso o apartamento nem é tão grande assim. Fique a vontade e o procure por aí. –   Tente  dentro do guarda-roupa...– E fez um gesto com as mãos -  Só tome cuidado para não acordar minha filha, está bem?
E sem dizer mais nada deu alguns passos na direção do corredor que levava aos quartos.
- Onde pensa que  vai? -  Questionou Claude,  segurando-a pelo braço.
- Quer me soltar, eu preciso deitar não vê que estou doente? – Pediu com os olhos úmidos, sentindo-se subitamente quente demais para o suor frio que tomava  seu  corpo.
- Mon Dieu, você está ardendo em  febre, Rosa! Há quanto tempo está assim?
- Tempo? Não sei, algumas  horas talvez,  me solta!  Eu não posso ficar  com você! Alex... Eu não posso deixa-la sozinha! O que está fazendo? Por favor, Claude não... - Suplicou antes que sua  visão  perdesse o foco e o rosto dele se transformasse  em um borrão.
Não se sentia  mais parte  do mundo. Escutou uma porta bater em algum lugar do vazio de sua mente. Que  importância tinha aquilo, agora?  Flutuava numa nuvem e estranhamente sentia-se  protegida pela firmeza dela sob seus pés e logo em seguida pelo corpo todo, quando Claude a deitou sobre o colchão da cama.  Então, perdeu a consciência total, incapaz de continuar resistindo ao esgotamento físico.
Claude notou a cartela  de comprimidos quase vazia sobre  o criado mudo, enquanto  tentava acomodá-la melhor, quando escutou a  voz  tensa de Alex atrás de si:
- Por que você  tá na cama com a minha mamãe?
Surpreso virou-se e viu a miniatura de Rosa vestida com um pijama de bichinhos, segurando uma  boneca de pano contra o peito.
Os olhos, grandes e escuros estavam abertos e alertas. Denotavam que ela estava apreensiva, talvez  com medo, considerou Claude. Sorriu para ela e respondeu gentilmente:
- Você devia estar  em sua cama, pequenina...
- Eu acordei com  um barulho de porta... Por que  você  tá aqui no quarto da minha mamãe? Você tá namorando ela?
Claude  sentiu o rosto empalidecer e engoliu em seco.
- Não, não estou namorando sua mãe. – Respondeu sentindo-se um canalha. - Seria tão ruim se estivesse? – Perguntou curioso da  resposta de Alex.
- A minha mamãe não pode ter namorado porque eu e ela “tamo” esperando o  meu papai voltar pra  ficar com a gente...
- Esperando? Onde está o seu  papai? – Perguntou, curioso da resposta.
- Ele  tá bem “lonnnnge” cuidando da mamãe dele que tá doente.  E quando ela sarar ele vem buscar a gente! – Respondeu Alex, ajeitando o cabelo de sua  boneca.
Claude ficou em silêncio. Como Rosa podia conviver  com essa situação e ainda envolver uma criança na história, inventando essa inverdade? E que capacidade de criação trocar a palavra esposa por mãe para explicar à menina a falta  do pai.
- E como se chama seu papai? Será que eu o conheço?
- A mamãe  disse que ele chama Antônio. Eu acho que  você não conhece ele, porque eu também não conheço...
Rosa resmungou algo e isso desviou a atenção de Claude.
-A mamãe tá  sonhando? – Perguntou ela, tentando ver a mãe atrás de  Claude.
- Não, sua mãe está doente, Alexandra.
- O que ela tem?
- Está  com muita febre.  Precisamos de um médico e eu não conheço nenhum.
Alex ficou olhando seriamente para Claude. E depois para Rosa. Então saiu correndo do quarto.
- Mas o que foi que eu falei demais? – Perguntou Claude em voz alta.  - Alexandra... – Chamou-a  erguendo-se para sair atrás dela.
Mas Alex já  voltava segurando nas mãos uma agenda em vez da  boneca.
- Quando eu fico doente, a mamãe liga pra  tia Erci! – Exclama confiante entregando a agenda  aberta na  letra ‘E’ para Claude.
- Você é muito esperta, sabia? – Elogiou-a Claude  pegando seu celular para telefonar.
Com certeza “tia Erci” devia ser  a pediatra, mas ela poderia  indicar alguém, pensou.  Descobriu que a médica morava no mesmo prédio e em poucos minutos ela apareceu por lá, parecendo surpresa com  a presença dele ali. 
Com certeza acharia mais natural se fosse John Smith,  ponderou consigo.
Erci conhecia a casa e foi direto ao quarto de Rosa.  Examinou-a,  medindo temperatura e pressão primeiramente. Rosa,  entorpecida pelo medicamento resmungava várias  palavras, mas  as mais enfáticas eram sobre estar bem  e sobre Alex.
- Sua filha está ótima, Rosa.  – Argumentou Erci, tentando  acalmá-la. - Você é quem precisa de cuidados dessa vez.
- Eu estou bem. – Falou pausadamente -  É só um mal estar... – Continuou tossindo muito.
- Sabe há quantos  dias ela está   com esses  sintomas?
- E creio que as  crises  começaram há  dois ou três dias. – Falou Claude -  Foi depois que ela  mexeu em alguns papeis guardados na galeria...
- Certo. Provavelmente é uma crise alérgica aguda.  Vou prescrever e entrar  com uma medicação mais forte. -  Explica indicando a cartela de comprimido – A primeira  dose  tenho aqui -  Diz  preparando uma seringa. – É melhor esperarem no corredor.
Alex não queria ir, mas Claude soube convencê-la, perguntando  sobre  o canguru.
- Alex... – Murmurou Rosa enquanto recebia o medicamento. -  Onde ela  está?
- Está aí  no corredor,   com seu amigo francês.
- Meu amigo francês... Claude? Meu Deus, ele  está mesmo aqui?
- Não sei se ele é  o Claude mas  é francês. Não  esqueça de agradecer a Deus e ele depois, querida. Porque agora  você  vai dormir, ok?
- Agrade... cê-lo? – Tentou entender, mas  o efeito do remédio a fez dormir quase   instantaneamente.
Erci guardou seus aparelhos na maleta e deixou o quarto. Encontrou Claude e Alex na sala.
- A mamãe vai ficar boa?
- O que ela tem? -Perguntaram Alex e Claude ao mesmo tempo.
- Sua mãe está  com uma  gripe muito forte Alex, mas ela  vai ficar  ótima.
- Eu posso “i vê ela”?
- Pode. Mas não a acorde. Tudo que ela  precisa é repousar.
- Tá! – Responde pegando a  boneca e correndo para o quarto.
- Tínhamos um compromisso e como ela não apareceu vim até aqui. –Explicou-se Claude, achando necessário. -  Fiquei preocupado com o estado dela, mas não conheço médico algum aqui no Brasil. Foi  Alex quem teve a ideia de chamá-la.  Que bom que é apenas uma gripe.
- Faz muito bem em ficar preocupado e não  vou poupá-lo como fiz com Alex. Uma gripe nem sempre é só uma gripe, é uma  doença altamente contagiosa e pode  apresentar complicações e  evoluir para um quadro de pneumonia,  devido às bactérias que atacam os pulmões,  aproveitando desse estado debilitado do corpo .
- Acha que  Rosa  está com  pneumonia?
- Aparentemente não, parece mais um caso de alergia causada por  fungos, mas não é  minha especialidade.  Se  os sintomas não diminuírem ela deverá consultar um especialista. Aqui está a receita. A próxima dose deve ser administrada em oito horas, e essa era minha última amostra.  Então creio que deva compra-lo agora. Tem uma farmácia vinte e quatro horas há algumas  quadras  daqui.
- D’àcoord, eu darei um jeito. Quanto lhe devo?
- Eu acerto com Rosa depois. Ela não gostaria que eu aceitasse o seu dinheiro.
- Como pode saber disso?
- Porque Rosa  é muito independente. Eu só não vou sugerir que saia, porque Alex parece  confiar muito em você senhor...
- Geraldy. Claude Geraldy. – Disse acompanhando-a até a porta. – Eu sou o  novo curador da galeria e conheci Rosa há algum tempo, na Europa.  – Achou melhor explicar.
- Ah! – Exclamou Erci. Então era mesmo Claude. Será que ele linha um irmão ou algo parecido? – Pensou antes de continuar - Ela deverá dormir a noite  toda, mas se precisar me chamar não hesite. Boa noite, senhor Geraldy.
- Boa noite, doutora Erci. E obrigado, hã?
- Ah! – Exclamou Erci segurando a  porta - Seria  bom Alex  tomar banho e higienizar-se antes de dormir, por precaução.
- Eu vou providenciar que faça isso. Merci, mais uma vez.
Claude deixou a receita sobre um aparador e foi ao quarto. Rosa dormia mais tranquila enquanto  Alex a acariciava.
- Muito  bem  pequena, hora de deixar  sua mãe descansar, hã?  Venha!   -  Disse estendendo a mão para ela.
Sem hesitar Alexandra  segurou a mão de Claude e desceu da  cama deixando  a boneca ao lado da mãe.
- Não vai levar  sua  boneca?
- Não, a mamãe  me deu ela quando eu peguei cata... cata...
- Catapora... – Concluiu perguntando Claude.
- É, catapora! Como você  sabe? Já pegou  catapora?!
- Eu não lembro, mas se tive,  deve ter sido quando tinha sua idade, hã?
- Ah! Eu fiquei cheia de bolinha vermelha.  Aí a mamãe  comprou ela pra mim.
Isso explicava as várias pintinhas vermelhas, feitas com alguma caneta e espalhadas pelo rosto e  braços da boneca, pensou Claude.
- E  aí ela falou que sempre que eu ficasse  com saudade dela, porque ela “tava” trabalhando, era “pra mim abraça” a Serafina.
- Serafina?
- É eu dei o primeiro nome da mamãe pra ela...
- D’àccord. –Uma maneira lúdica de sentir a presença da mãe,  compreendeu  Claude.
-  Agora precisamos de uma toalha. A doutora Erci disse que você deve tomar banho antes  de dormir, para não ficar  doente também. Sabe onde tem uma?
- Aham. Aqui no armário – Respondeu apontando o armário embutido entre seu quarto e o banheiro.  - Mas  você não pode  “me dá banho”...
- Por que não? Eu não sou estranho, sou amigo de sua mãe...
- Mas eu sou menina e você  não...
- Voilá... – Respondeu  Claude sorrindo,  pegando a  toalha.  - Então vai ter que toma-lo sozinha. Acha que consegue?
- Eu “vo te” que lavar o cabelo?
- Não, eu creio que não precise.
- Então eu consigo! – Respondeu Alex entrando no banheiro, com a toalha enrolada. Mas  você precisa “ligar” o chuveiro pra mim...
Assim que a água começou a cair, Alex pediu licença e correu o Blindex  fosco do box, fechando-o. Claude  voltou ao quarto, e procurou um outro pijama limpo para ela.
- Pronto eu já  tomei banho!
Claude virou-se e não pode deixar de rir. Alex tentava desesperadamente segurar a toalha em torno do corpo, provavelmente  tentando imitar Rosa.
Mas  como a toalha era  grande demais, estava toda atrapalhada. Seu rabo de cavalo estava  cheio de  gotinhas d’água e as pontas completamente molhadas.
- Mon Dieu, um pouco rápido demais... Mas  é melhor que nada. Sabe se vestir sozinha?
- Aham... –  Resmungou enquanto sacudia a cabeça afirmativamente sem parecer muito confiante.
- D’àccord. – Respondeu Claude  colocando o pijama sobre a cama e afastando-se - Estarei na sala, ouí? – Falou já na porta.
Saiu e antes de ir para a sala deu uma espiada em Rosa.  Ela havia se mexido lateralmente e estava descoberta. Ajeitou a manta de verão sobre ela e tirou a mexa de cabelos que havia caído sobre o rosto.
Alex entrou na sala parecendo orgulhosa de si mesma enquanto  Claude falava  com Dadi e explicava a situação  avisando-a que não teria hora para  chegar em casa.
E  por algum motivo que lhe escapava ele também sentiu-se orgulhoso,  pois as únicas  coisas que denunciavam que ela havia  se vestido sozinha eram a calça do avesso e a blusa de trás pra frente. Mas quem estava preocupado com isso?
Quando explicou  a ela que iria até a farmácia Alex insistiu  em ir junto. Claude já ia  dizer não quando pensou que seria mais prudente leva-la  consigo a  deixa-la praticamente  sozinha, já que Rosa estava  sob efeito de remédios e dormia  profundamente.
Pediu a Alex que  colocasse algo nos pés e ela apareceu calçando   os tamancos de madeira. Claude os reconheceu.
- Pode ser  esse sapatinho?
-  Não vai cair  com eles?
- Não, a mamãe sempre deixa eu usar. – Explicou-se pegando na mão de Claude sem mencionar que era “presente  do seu papai para  sua mamãe”, como sempre  fazia.
Claude tentava entender porque se sentia tão responsável pela garota e o porquê ela  confiava  nele. Na saída do prédio, pegou-a no colo e só quando já estava abrindo a porta do carro lembrou-se de algo importante:
- Mon Dieu, não tenho a cadeirinha em meu  carro,  Alex. Vou  leva-la de volta ao apartamento e vai prometer  ficar quietinha,  ouí?
- Ah, não! Eu quero ir junto! – Respondeu agarrando-se ao pescoço dele.
- D’áccord eu entendo que queira ir, mas seria perigoso para você pequena!
- Ah, deixa eu “i”! – Insistiu chorosa.
- Sua mãe nunca me perdoaria se  acontecesse  algo contigo, hã?
- Mas já tá “dinoitinha” eu fico deitadinha no banco de trás eu prometo! Deixa...
- D’àccord, vamos tentar.  – Respondeu após breve  hesitação.  – Mas non tente  nenhum truque  para ocupar o banco da frente. D’àccord?
- Oba! Você  liga o som do carro?
- Ah, você  gosta de música? Eu também e...
Alexandra cumpriu sua  promessa e ficou deitada durante  todo o trajeto de ida e  volta  perguntando muitas  coisas sobre  ele. Então, de repente  começou a acompanhar a música do rádio. Claude segurou a risada. Alex se esforçava para alcançar as notas e acompanhar a melodia numa pronúncia muito particular, porém com muito ritmo.
- “Uéu nodeinau lerigo lerigo cante roudi beque animor”    [Well, now they know /let it go, let it go/Can't hold it back anymore].
 E tão de repente quanto começara a cantar parou, perguntando:
- Você tem namorada?
- Não. – Respondeu Claude fazendo o contorno e parando no sinal vermelho
- E filha?
- Também não.
- E você ia  gostar  de ter  uma?
- Namorada ou filha?
- As duas  coisas. – Explicou-se rindo.
- D’àccord. Eu acho que sim...
- Por que você fala ‘dacór’ toda hora?
- Porque eu nasci na França e é assim que falamos por lá. D’àccord – Repete Claude acentuado a pronúncia  francesa – Significa de acordo, que estou  concordando contigo. E ouí...
- Essa eu sei, é sim! – Exclamou Alex –  A mamãe já me falou isso muitas  vezes! Lá na França tem castelo?
- Ouí. Tem muitos  castelos  por lá. 
 - E você mora em um? – Perguntou  sem segurar um gostoso bocejo.
- Non  – Falou  engatando a primeira após o sinal verde.
- Ah... – Murmurou parecendo decepcionada -  E sapatos, você tem “bastaaaaante”  sapatos?
 - Voilà, sapatos eu tenho alguns. Por que quer saber isso? – Indagou curioso, pegando a pista da esquerda cuidadosamente.
- Porque eu acho que o meu papai tá demorando muito para  voltar. Dai eu “tava”  pensando se você desse um sapatinho pra minha mamãe  e ele “servi” no pé dela  “ingal” o “príncepe”  fez  ‘coacinderela’ você podia ser o meu papai né? Eu ia  “gosta” e você?
A explicação de Alex o pegou  desprevenido, embora  seu  coração sugerisse que sim. Não podia criar  essa expectativa na cabecinha  dela. E quando finalmente pensou em algo, já estava em frente ao prédio e  pelo retrovisor notou que ela  dormia. 
Enfiou o remédio no bolso do blazer e  com alguma  dificuldade conseguiu tira-la  do carro, sem acordá-la. Passou pela portaria e  subiu. Sua sorte  foi não ter trancado a porta a chave e assim, com Alex nos braços conseguir abri-la  sem muito esforço.
Entrou e empurrou-a com o pé, girando o corpo. Ficou imóvel e apertou os lábios  temendo que Alex  acordasse pois os tamancos  caíram de seus pés. Mas ela  continuou agarrada a seu pescoço e a linha  séria de seus lábios se transformou num largo sorriso.  Uma sensação incrível que ele não conseguiu definir tomou conta de todo seu ser.
Apertou-a mais contra  si e levou-a para o quarto. Cuidadosamente a colocou na  cama, cobrindo-a com o edredon. Alex abriu os olhos e resmungou algo.
- Shhhhhhhhhh – Murmurou Claude acariciando-a na face com as costas da mão. – Durma pequena, já está  segura em seu castelo, hã?
Alexandra esboçou um sorriso e relaxando virou o corpo de lado, dando as costas para ele. O cabelo dela ainda preso num rabo de cavalo o incomodou.
- Mon Dieu,  não deve ser confortável dormir assim... Vamos tirar este elástico,  d’àccord? – Falou baixinho.
E puxou-o com delicadeza fazendo-o escorregar para  fora  do cabelo de Alexandra. Uma  pequena mexa caiu teimosamente sobre o rosto dela. Claude o trouxe com o indicador para detrás da orelha  ao mesmo tempo que  inclinava  e dava um beijo de boa noite na face  da menina.
Foi ao se afastar que aconteceu. Seu coração parou por um segundo e em seguida disparou descontroladamente enquanto seu  olhar  pousava naquela  discreta marquinha em forma de estrela, atrás da orelha esquerda de Alexandra.

PSV 

                                           Continua em breve.

1 comentários:

Débora disse...

Continuaaaaa....
Agora que ele vai Descobrir que é filha dele.. Maissss

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