PSV
- Foi horrível, Frazão! – Falou Nara aceitando a água que ele
lhe oferecia.
- Tenha calma e me
conte exatamente o que aconteceu, d’àccord?
- Estávamos lá, minha
mãe, eu e Roberta, que me apoiava e
ajudava a convencê-la sobre a minha
decisão. Eu havia exposto
todos os meus pontos de vista e já
estava sem argumentos, quando Bernard
apareceu. Acho que minha mãe o chamou sem que eu percebesse.
- E o que ele fez? Machucou você?
- Não, não fisicamente... Mas
ficou muito alterado quando falei da
minha desistência... Droga eu não desisti, eu nem ao menos fui consultada se queria.
- Mas contavam com
sua ajuda, querida.
- Pois eu estou feliz em ter tomado essa decisão depois de tudo que vi, ouvi e descobri. - Afirmou colocado o copo sobre
a mesinha.
- Pelo seu tom de
voz, foi algo bem ruim... – Comentou
Frazão, aguardando o tempo dela em se abrir.
- Ruim é
pouco... Eu imaginava alguma coisa
errada nas atitudes de minha mãe,
mas não essa sujeira toda! Quando os convenci que
não voltaria atrás, Roberta
sugeriu assumir o meu lugar, quero
dizer, o lugar de
noiva de Bernard. Ele pareceu não se incomodar, mas minha mãe... Eu
nunca a vi tão descontrolada, tão histérica...
Ofendeu Roberta, humilhando-a com
palavras que eu prefiro não repetir e
afirmou que jamais a
deixaria assumir um papel de destaque político como esse. Então Roberta tirou algumas fotografias
da bolsa e jogou sobre a mesa. Fotos
de minha mãe com Bernard. A partir dai esqueceram de mim e passaram a discutir entre eles. Roberta ameaçou publicar as fotos e tudo
ficou nojento demais. Eu peguei minha bolsa e sai, vim pra cá.
Ainda bem que minhas malas já estavam aqui com você.
- Não avisou a ninguém sua
saída?
- A Elise apenas.
- Louise não vai gostar
disso, Nara.
- Bem, isso será problema dela.
- Não tem receio que ela
venha atrás de você?
- Ela só vai dar por
minha falta amanhã, quando eu não aparecer para o almoço e mandar aos berros,
a pobre Elise me chamar. Só que
ela não vai mais me
ver.
Conversaram um pouco mais e Frazão surpreendeu-se com a
maturidade e segurança de Nara. Decididamente A Nara que estava em seu quarto
de hóspedes não era mais aquela garota ingênua
que voltara do
internato meses atrás.
PSV
Sílvia colocou as xícaras no escorredor de louças enquanto Rosa tirava a mesa do café
da manhã, forçadamente.
- Obrigada, Sílvia. Mas
devia ter deixado tudo isso aí na
pia, hum? – Sua voz é bem
rouca.
- Como se você não me
conhecesse! – Respondeu sorrindo e preocupada com Rosa - Tem certeza que
não quer que eu leve e traga Alex?
- Claro que tenho! Aliás,
hoje é seu primeiro dia de férias, nem sei porque veio... -
E a tosse a impede de continuar.
- Para me despedir de vocês. Ontem foi aquela
correria e acabei esquecendo.
- Eu vou sentir
muita saudade de você, Sílvia! – Falou
Alex descendo da cadeira e abraçando a babá.
- Eu também. –
Retrucou ela – Por isso, olha só o que
eu trouxe para
você! – E foi tirando um embrulho da mochila e entregando a menina.
- Um livrinho de
“pinta” do Frozen! – Exclamou Alex. – Olha mamãe!
- Estou vendo, querida. Não tem nada a dizer para Silvia?
- Obrigada, Silvia! Eu amei. Você me ajuda a “pinta” os
desenhos?
- Filha, Silvia está
saindo de férias, esqueceu?
- Ah, é mesmo! “Mais... Mais” quando você voltar
você “mi” ajuda então?
- Ajudo sim, fofinha! – Concorda abraçando-a. – Agora eu
tenho que ir. Comporte-se na minha
ausência, hem! – E dá um beijo em Alex.
- Tá bom! Eu vou
lá “começa” a “pinta” agora, tá?!
– Diz depois de retribuir. – Tchau!
- Tchau! – Diz
voltando-se para Rosa – Bem, se
precisar de mim não hesite em me chamar.
Não quer mesmo que eu fique hoje,
você está tão abatida...
- Não meu bem. Você
está de férias e vai curti-la, ok? Eu agradeço de coração sua
oferta, mas não precisa. Vou
tomar meus comprimidos e ficar de cama o dia
todo, na companhia da minha baixinha e amanhã estarei em forma!
PSV
- Elise! Elise estou
chamando, você é surda? – Gritou Louise exasperada.
- Desculpe senhora Geraldy, eu estava na cozinha, o que deseja?
- Vá chamar Nara, diga para descer imediatamente.
- A senhorita Nara não está.
- Como não está?
- Ela não dormiu em
casa, senhora.
- Como assim,
Nara não
dormiu em casa?
- Bem a cama dela não
está desfeita, então eu imagino que...
- Você não é paga para
imaginar nada sua inútil. Eu mesma vou
chama-la!
- Mas senhora...
- Cumpra apenas sua
obrigação: coloque a mesa para duas pessoas e sirva o almoço antes que eu
perca a fome. – Disse sem olhar para
a governanta e subiu ao quarto de Nara.
A cama estava impecável como Elise havia
dito, observou Louise procurando algum indício que desmentisse essa
possibilidade.
Nara é uma mosca
morta, não tomaria uma atitude
dessas, de sair de casa por conta própria, pensava enquanto ia ao closet e abria o armário.
Respirou fundo diante dos inúmeros cabides vazios. Abriu as gavetas, também em
sua maioria quase vazias. Desceu a
escada e entrou na biblioteca indo direto a gaveta onde guardavam documentos.
Faltava o passaporte de Nara.
-Maldita! – Exclamou Louise para si mesma, voltando à sala de visitas.
Elise esperava pacientemente ao lado da mesa para servi-la.
- Posso começar a
servir, senhora?
- Eu pareço com alguém que
quer comer? Estou cercada de
inúteis! – Diz Louise quase gritando, alcançado sua bolsa no aparador.
E procura pela chave
do carro sem sucesso.
- Onde está a chave do
carro?
- Eu não sei senhora...
- Pois procure sua
estúpida! – Ordena já aos berros - Ou quer ser demitida por incompetência?
Elise sai a procura da chave e minutos depois retorna. Louise
revirava as almofadas do sofá.
- Senhora, a chave estava no contato do carro. E este envelope estava sobre o
banco. É para a senhora.
Louise logo reconhece a letra de Nara e rapidamente lê o
curto bilhete da filha e muda seus planos.
- Retire a mesa. Elise. - Ordena deixando a sala de jantar.
- Você não
vai mudar ou impedir meus planos,
Nara! – Exclama amassando a
folha.
PSV
Claude deixou a galeria pouco depois das onze horas da manhã.
Almoçaria com Dadi e depois iria até a
empresa de Freitas, a pedido dele, para
se inteirar de algumas modificações
sobre a contabilidade da galeria. E explicações sobre
a notificação da receita estadual que a galeria recebera.
Na volta, tinha o intuito
de dizer a Rosa que a amava, e
que ela só aparecesse em seu apartamento se também o amasse e o perdoasse.
Recomeçariam e seriam felizes para sempre. Rosa, Alex e ele.
PSV
Louise atravessou a rua a passos largos e logo estava dentro
do elevador. Àquela hora encontraria Bernard
em casa, tinha certeza disso.
Quarta-feira era o dia da semana
em que ele não comparecia ao seu
gabinete da prefeitura.
Quando a porta se abriu entrou sem esperar convite. Só então
reparou que não era Bernard ali na sua frente. Era Roberta.
Bernard apareceu em seguida vestindo um roupão. O mesmo roupão que havia dado a ele.
- Então Roberta, por que está demorando com nosso almoço, eu
estou com fome... Louise?
- Se eu fosse idiota como minha filha, iria perguntar o que está acontecendo
aqui. Mas é óbvio que estavam na cama e agora estão com fome.
Deviam ter aparecido na mansão. Eu almocei sozinha, já que Nara está a caminho
do
Brasil. – Falou aparentemente calma e controlada, esperando uma reação de Roberta que não houve.
Brasil. – Falou aparentemente calma e controlada, esperando uma reação de Roberta que não houve.
- O que espera indo
para a cama com Bernard, Roberta? Que ele se case com você?
- E por que não? Eu sou uma
ótima opção para substituir Nara.
Posso ajuda-la em seus projetos, faria
tudo que fosse possível, não tenho escrúpulos
como Nara...
- Não tem mesmo não é
querida? – Afirma Louise
aproximando-se de Roberta e fazendo um leve carinho em seu rosto. –
Acredita que eu vá querê-la como minha aliada, sua vadia? - E desfere um tapa em Roberta.
- Louise! – Exclama Bernard segurando-a, tarde demais.
- Você pode até ter
ido para a cama com Bernard, mas eu fui
primeiro e você não vai se casar com ele. Não se cansa de ficar com os restos? Se
bem que no caso de Claude, nem com os restos você ficou. Você é uma perdedora, Roberta.
- Bernard, você não vai fazer nada em minha, em nossa defesa? – Fala Roberta diante da apatia dele.
Bernard engole em seco e abaixa a cabeça. Louise solta uma gargalhada.
- Pobre Roberta! – Fala em seguida, sarcástica.
- Pois bem eu não
preciso que me defenda! – Exclama aproximando-se de Louise pronta para ataca-la fisicamente. Mas de
repente abaixa o braço e começa a rir.
- Não, eu não vou
sujar minha mão, não vou deixar marcas em você, Louise. Não
físicas. Eu posso ser vadia para você,
mas que nome a sociedade francesa
dará à mãe que dorme, que tem um caso
com o futuro marido da filha?
E enquanto fala coloca os sapatos, o casaco e pega
sua bolsa. Já está na porta quando Louise retruca.
- Acha que isso vai me destruir?
Roberta gira apenas a cabeça e com um sorriso irônico
responde.
- Ah, não... Eu não quero destruí-la. Uma parcela
significativa do partido, do seu partido é
conservadora. Eu quero
desacreditá-la, quero que perca apoio e doações. Quero que seu nome conste na lista dos
piores escândalos políticos desse
país, como culpada e não como vítima.
Safou-se uma vez, Louise. Prepare-se para enfrentar sua
pior inimiga. Terá noticias minhas,
“querida”.
Abriu a porta e quase colidiu com o entregador.
- Sai da frente, seu estúpido! – Exclamou deixando o
apartamento de Bernard.
- Hummm, o que foi que
pediu? – Disse Louise olhando para o rapaz, como se nada houvesse acontecido. -
Vamos Bernard, pague o rapaz e vamos almoçar. Estou morrendo de fome!
PSV
- Então é isso, Claude. O autor da obra não está obrigado
pela legislação tributária a emitir nota
fiscal, a não ser no momento que ela entrar no estabelecimento adquirente,
contribuinte do imposto, no caso a Galeria.
- Por isso preciso de um controle mais eficaz na emissão de
notas fiscais e um maior cuidado com os
lançamentos nos Livros Registro de Entradas e Saídas.
- Não se preocupe. Foi um erro de digitação com relação ao mês de emissão da Nota Fiscal de Revenda da peça.
Mas como você pôde
constatar, a informação já foi retificada, inclusive junto a Receita
Estadual. E qualquer ônus será por nossa
conta, é claro.
- D’àccord. E quanto a mudança da emissão de notas fiscais
eletrônicas?
- Pois é o aplicativo gratuito era uma vantagem por não ter o
custo do provedor, porém, a Secretaria
da Fazenda do Estado de São Paulo desativará esses aplicativos gratuitos e será
obrigatório ter emissores próprios, incluindo o Conhecimento de Transporte
Eletrônico.
- E vocês já procuraram alternativas?
- Já sim. – Afirma
Freitas - Escolhemos o software que conta inclusive com suporte técnico
especializado. Porém falta decidir o
provedor. Um que ofereça melhor custo. Mas ainda temos um tempo...
- Fique atento, hã? Não deixe para a última hora, esses softwares
geralmente exigem treinamento e parametrização para funcionar adequadamente.
- Já temos uma equipe treinada, Claude. Estamos migrando
nossos clientes do aplicativo para ele, e faremos isso com todos antes que as
novas regras de validação impeçam o seu funcionamento.
- Cheguei a imaginar que isso estava ligado a demora do meu
visto definitivo, hã?
- Impossível. –
Explica Freitas – São esferas administrativas diferentes. Claude pessoa física
e Athena pessoa jurídica. Federal e
estadual, respectivamente neste caso.
Com certeza seu processo está parado por
conta dessa falsa crise sócio-politica-econômica. Mas
como estão no prazo, não temos o que
fazer, senão esperar.
- D’àccord. – Diz
Claude dando ciência aos protocolos de
mudanças contábeis da galeria. –
Conto com sua presença em nossa próxima exposição, hã?
- É só avisar dia e hora, meu caro.
- Mandarei alguns convites. As peças já estão chegando. Será
um prazer apresenta-lo aos curadores italianos.
- Foi muito bom fazer
essa parceria com você, Claude.
Eu era praticamente um analfabeto em arte, mas agora passei a me interessar
e...
Conversaram alguns minutos
mais, trocando opiniões sobre
pintores antes que Milton
entrasse, seguido de uma secretária em apuros.
- Eu disse que estava ocupado... – Falou ela olhando
diretamente para Freitas,
desculpando-se.
- Tudo bem, Alzira. Eu tenho certeza que o
Milton não fez isso com má intenção. – Afirmou Freitas, em tom de ironia.
- É claro que não! Me desculpe... Claude não é?
- Ouí. Eu já estava de
saída, hã?
- Não estava viajando, Milton?
- Cheguei ontem. – E
olha para Claude. – Aliás o Smith
estava voltando da Europa no mesmo voo.
Só não entendi porque levou Elisabete, a
esposa e não Rosa, a amante...
- Milton, há anos você
faz essas acusações infundadas, desde
que levou um fora dela, por que insiste nisso ainda?
- Infundadas? Ela volta da Europa, desdenha
do meu interesse e algum tempo depois
“aparece” grávida. Isso para mim é suficiente.
Freitas balança a cabeça com um sorriso irônico.
- Já pensou que ela pode ter
voltado grávida da Europa? E para
sua informação, Liz Smith está
se recuperando de um tratamento
delicado.
- Bem, eu tenho que
ir... – Diz Claude levantando-se.
- Que isso, francês! -
Fala Milton - Fica um pouco mais e dá um
palpite, afinal você os vê
todos os dias, não é mesmo?
- Você parece muito seguro do que fala. Que importância teria
minha opinião?
- Outro que fica em
cima do muro. – Resmunga Milton com um
sorriso cinico . - Que foi, está a fim dela também? Vai fundo, cara,
há chances, ela parece ser mais fácil pra estrangeiros como você, ou John
Smith.
Claude teve uma
vontade enorme de esmurra-lo, em defesa a Rosa, chegando a fechar os dedos e mover o braço
para cima mas controlou-se a tempo
despedindo-se apenas de Freitas antes de
sair.
- Ih, parece que o
francês ficou zangado com a brincadeira.
- Continuou Milton – Ou então está a fim da vadia mesmo!
– Concluiu.
- Milton, se eu perder a conta da Athena, você vai arcar com o prejuízo. Ainda bem
que Rosa não frequenta mais o mesmo
círculo social que você e está por fora
de suas insinuações.
- Sabe que eu descobri por acaso que ela mesma leva a filha a escola
todos os dias? Estou pensando
seriamente em voltar a investir nessa relação. Afinal de contas, você está falando com o novo dono da Eros Galeria. Aceitei
a proposta.
PSV
Rosa esforçou-se para tirar a mesa do lanche
da tarde. Deixou a água cobrir a louça
suja e adicionou um pouco de detergente
sobre ela. Amanhã lavaria tudo, enquanto
fizesse o café da manhã. Guardou o leite, os frios, a
geleia e a manteiga na geladeira; o pão e as bolachas no armário.
- Mamãe já tirei
a roupa! – Ouviu Alex gritando do banheiro.
- A mamãe já está indo! – Gritou de volta, sentindo a voz
falhar.
Deixou o chá e o
café sobre a pia e foi
banhar Alexandra.
Achou melhor banhar-se também, pois não gostava de deixar Alex sozinha, enquanto fazia alguma
coisa. Acidentes domésticos
por descuido eram mais frequentes do
que se pensava.
Logo seria noite. Noite
de quarta-feira. Mas nessa noite
não iria ver Claude. Nem nas outras. Não poderia continuar com isso. Não estava certo.
Suspirou e prometeu a si mesma que quando ele a cobrasse no dia seguinte, porque ele cobraria, diria a ele o único motivo do porque não podia mais se
submeter a isso. Ainda o amava. Mas não para ser uma amante eventual...
Então algumas bolhas de sabão sopradas por Alex a trouxeram de
volta.
Foi dando instruções e deixou que ela se ensaboasse sozinha. Alex
a observava e imitava seus movimentos. Quando
já estavam sem espuma envolveu-a numa
toalha e colocou apenas o roupão sobre si. Enquanto a vestia ponderou
que havia feito certo em não leva-la a escola naquele dia. Sentia-se
extremamente cansada, com dor pelo corpo
e receava que a cabeça não demoraria a
doer. Até o abdômen doía de tanto espirrar e tossir. Se
Alex tivesse ido, teria que recorrer a Janete fazendo com que ela saísse
durante o expediente. Dormir. É
tudo que eu preciso, além de tomar mais
uma dose
do remédio.
Esperaria Alex dormir
para fazer isso. Com certeza não demoraria pois havia brincado todo o tempo.
Respirou fundo, sentindo-se
também feliz. Há quanto tempo não
passavam um dia assim, só ela e Alex,
muita bagunça e brincadeira?
Escovou e prendeu os
cabelos da filha num rabo de cavalo.
- Agora você me ajuda a “acaba” de pintar a Elsa?
- Ajudo sim. –
Respondeu enchendo o peito de ar deixando-o entrar pela boca, já que pelo nariz parecia impossível.
PSV
Claude retornou à
galeria, certo de que encontraria Rosa.
Mas não
foi o que aconteceu. Ela não
havia comparecido no turno da tarde nem deixado qualquer
explicação sobre sua não presença.
Tomou o café que Elisa
lhe trouxera a pouco, antes de ir embora. Ela também não sabia de Rosa. Janete havia ido com Sérgio até a prefeitura para dar entrada no novo projeto
de reforma da galeria e não voltariam ali.
Ao tentar falar com ela
pelo celular, notou uma ligação perdida de Nara. Depois de falar
com Rosa ligaria para a irmã. Tentou inúmeras
vezes falar com ela, trocou o celular
pelo fixo mas
ambos davam caixa
postal.
As acusações de Milton
voltaram a sua mente e envenenaram seus pensamentos. Apertou com força o
lápis entre os dedos. Em quem vai acreditar, em sua intuição ou nas palavras
desse sujeito que Rosa desprezou?
Até Freitas suspeitava que ela já estivesse grávida quando
retornara... E como gostaria de ser o
pai de Alexandra! Mas Milton insistia naquela história sobre Rosa
ser amante de John. Ele os conhecia desde a faculdade. Muito
antes de eu entrar em sua vida, Rosa...
Talvez Milton tivesse visto, presenciado alguma cena entre os
dois, uma atitude suspeita qualquer... Ele mesmo não havia percebido a troca de carinho e o modo como se
falavam com o olhar?
E Rosa não havia
cedido a sua chantagem idiota
para garantir uma estabilidade
financeira ao americano?
Mas ela não aceitou as investidas de Milton. Droga! Como
posso estar tão confuso assim, como se fosse um adolescente ciumento e possessivo?
Então ligou para o casal Smith. Liz atendeu e Claude lhe deu
as boas
vindas, desculpando-se por não ter ligado antes e perguntou por John.
A resposta que ele havia saído para resolver alguns problemas particulares não
lhe agradou. E a maneira como Liz disse que precisava falar com ele
com urgência, pessoalmente e fora
da galeria, menos ainda. Liz não
quis nem mesmo adiantar o teor da
conversa e combinou um café, no
restaurante perto da galeria,
para o dia seguinte, à
tardezinha.
Quando recolocou o
fone no gancho percebeu pela janela que já estava escuro. Saindo da galeria tentou o celular de John. “Este número está temporariamente
indisponível ou fora da área de
cobertura”.
- Voilà! - Exclamou
seriamente entrando no carro. – São quase sete horas da noite de uma quarta-feira. Eu espero mesmo que
você apareça, Rosa. Sem atrasos.
PSV
- Droga, papai! – Resmungou
Roberta voltando a apertar a campainha ininterruptamente. – Por que não
abre logo essa porta?
Então escutou o ruído
da chave girando e soltou-a.
- Até que enfim, papai! Pensei que ia amanhecer com o dedo na campainha. – Reclamou
entrando.
- Roberta, já passa da
meia noite, o que faz aqui?
- Eu preciso daquele envelope! – Explicou-se dando alguns passos em círculo, visivelmente
nervosa.
- O que há de tão importante nele que a fez vir até aqui, sozinha, correndo o risco de
ser assaltada? – Pergunta buscando o
envelope na gaveta de um móvel.
- Segredos, papai. Verdades secretas que serão reveladas! –
Diz tirando o envelope das mãos do
pai, conferindo seu interior.
- O que está tramando,
filha? Melhor pensar duas
vezes antes de...
- Estou há dez horas pensando, papai! Dez longas horas! E nada nem ninguém vai me fazer mudar
de ideia.
- A quem vai prejudicar dessa vez, Roberta? A outra namorada de Claude?
- Claude? Quem está pensando em... – Faz uma pequena
pausa – Claude! Voilà, papai!
Você acaba de dar a solução que eu procurava. É claro que ele vai
ficar abalado e vai precisar de alguém que o apoie nessa hora! Obrigada
por ficar com isso e boa noite!
-Roberta! O que está tramando?
- Já que não quis
saber o conteúdo deste envelope,
seja paciente papai. Amanhã, você, a França e o mundo todo saberão
do que se trata. – Diz como se tudo
fosse uma charada a ser desvendada. – Bonne
nuit, papá! – Diz beijando-o na face e afastando-se.
- Roberta! – A chama ele, inutilmente. - Filha! – Insiste dando um passo adiante.
- Au revoir, papai! Darei notícias. – Responde antes de bater a porta.
- Mon Dieu, o que ela estará planejando? - Pergunta-se o pai de Roberta, preocupado.
PSV
Quando Claude chegou
em casa encontrou um bilhete de Dadi: “O voo
de Nara e Frazão para o Brasil sairia naquela madrugada.”
Fez uma careta, desgostoso consigo mesmo. Como foi esquecer de retornar
a ligação perdida da irmã...
PSV
Patrick
Vernier juntou todas as fotos e guardou-as no envelope, devolvendo-a à Roberta, que
ansiosa esperava pela resposa.
- Sinto
muito, Roberta, mas o Magazine de la journée não vai publicá-las.
- Como
não? Você disse que se eu chegasse antes da uma da manhã daria tempo, seria a capa, a principal manchete . E
meu cheguei!
- Isso foi antes de saber que o assunto envolvia Louise Geraldy e Bernard Dardeau. Se tivesse
adiantado esse detalhe, teria evitado todo esse transtorno.
- Não pode estar
falando sério... É justamente por
envolvê-los, que escolhi o seu jornal para
denunciar! Um jornal sério, honesto e imparcial. Já contabilizou quantos
exemplares vai vender a mais? – Argumenta mostrando a foto em que Louise e
Bernard se beijavam em frente ao hotel.
- Agradeço sua confiança, mas não sou o dono, apenas o editor chefe. E como
editor chefe, e minha obrigação zelar pela conduta, pela linha editorial e
ser fiel aos seus
colaboradores e patrocinadores. Louise e um deles e eu não quero perder
meu emprego. Tenho uma família, Roberta.
- Mas que droga! Eu quero falar com o dono desse... Desse
pasquim. Me passe o telefone pessoal dele!
- Querida, eu seria incauto se fizesse isso. Além do mais,
Jacques Houdin tem cargo no congresso graças a Louise. E cá entre nós, tem
também o rabo preso com ela. Publicar essas
fotos seria como declarar a terceira guerra mundial.
- Covardes, é isso que
vocês são! – Exclamou Roberta, quase histérica. – Mas tudo bem. Eu sempre tenho um plano “B”. Obrigada por nada, “querido”!
– E sai da redação do jornal, sem perder a pose e
batendo a porta.
Patrick caminha até a porta e abrindo-a, dá uma ordem:
- Prossigam com a manchete sobre o golpe no Brasil, pessoal.
E à todo vapor ou atrasaremos as entregas!
Três horas depois, Roberta guardava um cheque em sua bolsa, recebido ao entregar o envelope a um
jornal sensacionalista. A única ressalva
era ter que esperar mais vinte e quatro
horas para ver a imagem da poderosa
Louise Geraldy impressa aos beijos com Bernard. “A amante
francesa do genro”. Essa seria a
manchete.
Valeria a pena
esperar. E enquanto esperasse faria sua mala para
deixar o pais. Claro que com o
primeiro exemplar do jornal em mãos.
PSV
O celular tocou e Rosa abriu os olhos assustada. Só
identificou que estava no sofá da sala
quando seu olhar caiu sobre a tela
da TV.
Demorou alguns
segundos para localizar o celular entre as almofadas e segurando-o
identificou a chamada: Claude. E
antes dessas muitas mais, todas
perdidas.
Tentou lembrar porque
ligara o celular e olho para o aparelho fixo. Aquele continuava fora do
gancho. Fizera isso para passar o dia em
paz e recuperar-se. Porém, não se sentia nem um pouco melhor.
Ignorou a ligação de Claude e voltou sua atenção para a tela da TV e só
então percebeu que a imagem estava congelada.
E eu também pensou esfregando os braços tentando se aquecer.
- Preciso ir para o
quarto. – Murmurou tentando ordenar os
pensamentos. E onde estaria o controle para desligar a TV?
Impulsionou o corpo e mal se levantou uma crise de espirros a
impeliu à posição anterior. E depois deles,
a tosse. Não sabia o que doía
mais, a cabeça ou o abdômen.
Deitou-se
novamente no sofá, mas a dificuldade para respirar a impedia de encontrar alguma posição confortável
para ficar. Não segurou outro acesso de
tosse e tossiu até ter ânsias e a garganta arder.
Quando a crise passou,
lentamente apoiou-se no encosto do sofá. Podia sentir todas as suas
costelas. Elas pareciam querer saltar para fora.
Não podia se render. Tinha que lutar e ficar boa rápido... Pegou o celular disposta a ligar
para alguém, mas antes de ligar outra chamada. Claude novamente. Droga ele não
vai desistir, pensou atendendo a ligação.
- O que você quer? – Perguntou sem rodeios.
- Lembrá-la que hoje é
quarta-feira e está atrasada. Você deveria estar aqui e inteira a meu
dispor.
As palavras de Claude entraram em sua mente, mas processar e
entendê-las é que estava difícil.
- O que foi? Perdeu
meu endereço ou a memória, por acaso?
- É evidente que não! – Respondeu Rosa igualmente irônica.
- Ótimo. Tem vinte minutos para chegar aqui, d’àccord?
- Impossível, não me sinto bem! – Explicou-se com a voz rouca
e muitos espirros.
- Não adianta usar seus
espirros alérgicos como desculpa, Rosa. Tem um compromisso comigo. Ou devo
desconsiderar sua palavra?
- Você é desprezível, Claude. Eu te odeio!
- Odeia? Não, de todos os sentimentos do mundo, ódio é um dos que você menos sente em relação a
minha pessoa. Não é ódio que demonstra
ter quando fazemos amor, chérie
- Não fazemos amor, Claude. Fazemos sexo.
- Se prefere assim, d’àccord. – Diz sarcasticamente - Não é ódio que demonstra quando fazemos sexo. O seu
“desempenho” enquanto ‘transamos’ é fantástico!
E uma pessoa que odeia outra seria passiva. Resistiria e não
demonstraria prazer no ato sexual, hã?
- Quer saber, Claude Geraldy?
- Replicou engasgando e tossindo
- Dane-se! – Falou encerrando a ligação,
irritada mais por ter engasgado que
tudo.
Não demorou nem um minuto e o celular vibrou. Leu a mensagem: “Se não estiver aqui no tempo
programado aguente as consequências”
“Faça o que bem entender!” – Digitou desligando o celular de
vez, jogando-o sobre o sofá.
E toda essa agitação lhe deu
forças para levantar.
Foi até o quarto da
filha e certificou-se que ela estava bem
e dormindo. Mesmo tremendo muito, conseguiu tomar um banho e colocar uma camisola qualquer. Outra dose de comprimidos e deitou-se decidida a
dormir. Expulsou todos os
fantasmas que insistiam em lhe perturbar.
Já estava na tênue
divisão entre sono e realidade quando
ouviu a campainha tocar. Parecia um sonho e ignorou a princípio. Mas o som continuo a despertou e quem quer
que fosse devia ser urgente, ponderou.
De algum canto sua memória sugeriu que devia ser Sílvia, mais
uma vez esquecendo sua chave. Mas para que ela a quer se está saindo em férias?
- Droga, eu já vou! -
Rosa tentou falar alto enquanto
caminhava até porta, escorando-se nos móveis.
Abriu a porta e deu um passo para trás.
– Você?! – Exclamou
enfrentando o olhar enfezado de Claude -
O que quer aqui?
Claude passeou pelo corpo dela, coberto apenas pela camisola
e respondeu.
- Não diga que não sabe! – E foi suficientemente irônico entrando sem esperar convite.
- Combinamos que isso nunca aconteceria em minha casa! - Rosa
fechou a porta, automaticamente. – Além
disso, estou sem condições para... para...
- Para fazer sexo comigo? Ou ele está aqui? –
Perguntou Claude no meio da sala, colocando as mãos na cintura, sob o cós
da calça.
- Ele(?) Ele quem? –
Pede Rosa, sentindo-se desorientando, esfregando as têmporas que latejavam
fortemente.
- John Smith. O seu amante, a pessoa por quem você me trocou
seis anos atrás!
- Oh! De novo essa história... - Diz cansada
e sem forças para pensar ou discutir -
Já que insiste nisso o apartamento nem é tão grande assim. Fique a vontade e o
procure por aí. – Tente dentro do guarda-roupa...– E fez um gesto com
as mãos - Só tome cuidado para não
acordar minha filha, está bem?
E sem dizer mais nada deu alguns passos na direção do
corredor que levava aos quartos.
- Onde pensa que vai?
- Questionou Claude, segurando-a pelo braço.
- Quer me soltar, eu preciso deitar não vê que estou doente?
– Pediu com os olhos úmidos, sentindo-se subitamente quente demais para o suor
frio que tomava seu corpo.
- Mon Dieu, você está ardendo em febre, Rosa! Há quanto tempo está assim?
- Tempo? Não sei, algumas
horas talvez, me solta! Eu não posso ficar com você! Alex... Eu não posso deixa-la
sozinha! O que está fazendo? Por favor, Claude não... - Suplicou antes que
sua visão perdesse o foco e o rosto dele se
transformasse em um borrão.
Não se sentia mais
parte do mundo. Escutou uma porta bater
em algum lugar do vazio de sua mente. Que importância tinha aquilo, agora? Flutuava numa nuvem e estranhamente
sentia-se protegida pela firmeza dela
sob seus pés e logo em seguida pelo corpo todo, quando Claude a deitou sobre o
colchão da cama. Então, perdeu a
consciência total, incapaz de continuar resistindo ao esgotamento físico.
Claude notou a cartela
de comprimidos quase vazia sobre
o criado mudo, enquanto tentava
acomodá-la melhor, quando escutou a
voz tensa de Alex atrás de si:
- Por que você tá na
cama com a minha mamãe?
Surpreso virou-se e viu a miniatura de Rosa vestida com um
pijama de bichinhos, segurando uma
boneca de pano contra o peito.
Os olhos, grandes e escuros estavam abertos e alertas.
Denotavam que ela estava apreensiva, talvez
com medo, considerou Claude. Sorriu para ela e respondeu gentilmente:
- Você devia estar em
sua cama, pequenina...
- Eu acordei com um
barulho de porta... Por que você tá aqui no quarto da minha mamãe? Você tá
namorando ela?
Claude sentiu o rosto
empalidecer e engoliu em seco.
- Não, não estou namorando sua mãe. – Respondeu sentindo-se
um canalha. - Seria tão ruim se estivesse? – Perguntou curioso da resposta de Alex.
- A minha mamãe não pode ter namorado porque eu e ela “tamo”
esperando o meu papai voltar pra ficar com a gente...
- Esperando? Onde está o seu papai? – Perguntou, curioso da resposta.
- Ele tá bem
“lonnnnge” cuidando da mamãe dele que tá doente. E quando ela sarar ele vem buscar a gente! –
Respondeu Alex, ajeitando o cabelo de sua
boneca.
Claude ficou em silêncio. Como Rosa podia conviver com essa situação e ainda envolver uma
criança na história, inventando essa inverdade? E que capacidade de criação trocar
a palavra esposa por mãe para explicar à menina a falta do pai.
- E como se chama seu papai? Será que eu o conheço?
- A mamãe disse que
ele chama Antônio. Eu acho que você não
conhece ele, porque eu também não conheço...
Rosa resmungou algo e isso desviou a atenção de Claude.
-A mamãe tá sonhando?
– Perguntou ela, tentando ver a mãe atrás de
Claude.
- Não, sua mãe está doente, Alexandra.
- O que ela tem?
- Está com muita
febre. Precisamos de um médico e eu não
conheço nenhum.
Alex ficou olhando seriamente para Claude. E depois para
Rosa. Então saiu correndo do quarto.
- Mas o que foi que eu falei demais? – Perguntou Claude em
voz alta. - Alexandra... – Chamou-a erguendo-se para sair atrás dela.
Mas Alex já voltava
segurando nas mãos uma agenda em vez da
boneca.
- Quando eu fico doente, a mamãe liga pra tia Erci! – Exclama confiante entregando a
agenda aberta na letra ‘E’ para Claude.
- Você é muito esperta, sabia? – Elogiou-a Claude pegando seu celular para telefonar.
Com certeza “tia Erci” devia ser a pediatra, mas ela poderia indicar alguém, pensou. Descobriu que a médica morava no mesmo prédio
e em poucos minutos ela apareceu por lá, parecendo surpresa com a presença dele ali.
Com certeza acharia mais natural se fosse John Smith, ponderou consigo.
Erci conhecia a casa e foi direto ao quarto de Rosa. Examinou-a,
medindo temperatura e pressão primeiramente. Rosa, entorpecida pelo medicamento resmungava
várias palavras, mas as mais enfáticas eram sobre estar bem e sobre Alex.
- Sua filha está ótima, Rosa. – Argumentou Erci, tentando acalmá-la. - Você é quem precisa de cuidados
dessa vez.
- Eu estou bem. – Falou pausadamente - É só um mal estar... – Continuou tossindo
muito.
- Sabe há quantos dias
ela está com esses sintomas?
- E creio que as
crises começaram há dois ou três dias. – Falou Claude - Foi depois que ela mexeu em alguns papeis guardados na
galeria...
- Certo. Provavelmente é uma crise alérgica aguda. Vou prescrever e entrar com uma medicação mais forte. - Explica indicando a cartela de comprimido – A
primeira dose tenho aqui -
Diz preparando uma seringa. – É melhor
esperarem no corredor.
Alex não queria ir, mas Claude soube convencê-la,
perguntando sobre o canguru.
- Alex... – Murmurou Rosa enquanto recebia o medicamento. - Onde ela
está?
- Está aí no corredor,
com seu amigo francês.
- Meu amigo francês... Claude? Meu Deus, ele está mesmo aqui?
- Não sei se ele é o
Claude mas é francês. Não esqueça de agradecer a Deus e ele depois,
querida. Porque agora você vai dormir, ok?
- Agrade... cê-lo? – Tentou entender, mas o efeito do remédio a fez dormir quase instantaneamente.
Erci guardou seus aparelhos na maleta e deixou o quarto.
Encontrou Claude e Alex na sala.
- A mamãe vai ficar boa?
- O que ela tem? -Perguntaram Alex e Claude ao mesmo tempo.
- Sua mãe está com
uma gripe muito forte Alex, mas ela vai ficar
ótima.
- Eu posso “i vê ela”?
- Pode. Mas não a acorde. Tudo que ela precisa é repousar.
- Tá! – Responde pegando a
boneca e correndo para o quarto.
- Tínhamos um compromisso e como ela não apareceu vim até
aqui. –Explicou-se Claude, achando necessário. - Fiquei preocupado com o estado dela, mas não
conheço médico algum aqui no Brasil. Foi
Alex quem teve a ideia de chamá-la. Que bom que é apenas
uma gripe.
- Faz muito bem em ficar preocupado e não vou poupá-lo como fiz com Alex. Uma gripe nem
sempre é só uma gripe, é uma doença
altamente contagiosa e pode apresentar
complicações e evoluir para um quadro de
pneumonia, devido às bactérias que atacam
os pulmões, aproveitando desse estado
debilitado do corpo .
- Acha que Rosa está com
pneumonia?
- Aparentemente não, parece mais um caso de alergia causada
por fungos, mas não é minha especialidade. Se os
sintomas não diminuírem ela deverá consultar um especialista. Aqui está a
receita. A próxima dose deve ser administrada em oito horas, e essa era minha
última amostra. Então creio que deva
compra-lo agora. Tem uma farmácia vinte e quatro horas há algumas quadras
daqui.
- D’àcoord, eu
darei um jeito. Quanto lhe devo?
- Eu acerto com Rosa depois. Ela não gostaria que eu aceitasse
o seu dinheiro.
- Como pode saber disso?
- Porque Rosa é muito
independente. Eu só não vou sugerir que saia, porque Alex parece confiar muito em você senhor...
- Geraldy. Claude Geraldy. – Disse acompanhando-a até a
porta. – Eu sou o novo curador da
galeria e conheci Rosa há algum tempo, na Europa. – Achou melhor explicar.
- Ah! – Exclamou Erci. Então era mesmo Claude. Será que ele
linha um irmão ou algo parecido? – Pensou antes de continuar - Ela deverá
dormir a noite toda, mas se precisar me
chamar não hesite. Boa noite, senhor Geraldy.
- Boa noite, doutora Erci. E obrigado, hã?
- Ah! – Exclamou Erci segurando a porta - Seria
bom Alex tomar banho e
higienizar-se antes de dormir, por precaução.
- Eu vou providenciar que faça isso. Merci, mais uma vez.
Claude deixou a receita sobre um aparador e foi ao quarto.
Rosa dormia mais tranquila enquanto Alex
a acariciava.
- Muito bem pequena, hora de deixar sua mãe descansar, hã? Venha! - Disse estendendo a mão para ela.
Sem hesitar Alexandra
segurou a mão de Claude e desceu da
cama deixando a boneca ao lado da
mãe.
- Não vai levar
sua boneca?
- Não, a mamãe me deu
ela quando eu peguei cata... cata...
- Catapora... – Concluiu perguntando Claude.
- É, catapora! Como você
sabe? Já pegou catapora?!
- Eu não lembro, mas se tive,
deve ter sido quando tinha sua idade, hã?
- Ah! Eu fiquei cheia de bolinha vermelha. Aí a mamãe
comprou ela pra mim.
Isso explicava as várias pintinhas vermelhas, feitas com
alguma caneta e espalhadas pelo rosto e braços da boneca, pensou Claude.
- E aí ela falou que
sempre que eu ficasse com saudade dela,
porque ela “tava” trabalhando, era “pra mim abraça” a Serafina.
- Serafina?
- É eu dei o primeiro nome da mamãe pra ela...
- D’àccord. –Uma
maneira lúdica de sentir a presença da mãe, compreendeu Claude.
- Agora precisamos de
uma toalha. A doutora Erci disse que você deve tomar banho antes de dormir, para não ficar doente também. Sabe onde tem uma?
- Aham. Aqui no armário – Respondeu apontando o armário embutido
entre seu quarto e o banheiro. -
Mas você não pode “me dá banho”...
- Por que não? Eu não sou estranho, sou amigo de sua mãe...
- Mas eu sou menina e você
não...
- Voilá... –
Respondeu Claude sorrindo, pegando a
toalha. - Então vai ter que toma-lo
sozinha. Acha que consegue?
- Eu “vo te” que lavar o cabelo?
- Não, eu creio que não precise.
- Então eu consigo! – Respondeu Alex entrando no banheiro,
com a toalha enrolada. Mas você precisa
“ligar” o chuveiro pra mim...
Assim que a água começou a cair, Alex pediu licença e correu
o Blindex fosco do box, fechando-o.
Claude voltou ao quarto, e procurou um outro
pijama limpo para ela.
- Pronto eu já tomei
banho!
Claude virou-se e não pode deixar de rir. Alex tentava
desesperadamente segurar a toalha em torno do corpo, provavelmente tentando imitar Rosa.
Mas como a toalha
era grande demais, estava toda
atrapalhada. Seu rabo de cavalo estava
cheio de gotinhas d’água e as
pontas completamente molhadas.
- Mon Dieu, um pouco rápido demais... Mas é melhor que nada. Sabe se vestir sozinha?
- Aham... – Resmungou
enquanto sacudia a cabeça afirmativamente sem parecer muito confiante.
- D’àccord. –
Respondeu Claude colocando o pijama
sobre a cama e afastando-se - Estarei na sala, ouí? – Falou já na porta.
Saiu e antes de ir para a sala deu uma espiada em Rosa. Ela havia se mexido lateralmente e estava
descoberta. Ajeitou a manta de verão sobre ela e tirou a mexa de cabelos que havia
caído sobre o rosto.
Alex entrou na sala parecendo orgulhosa de si mesma
enquanto Claude falava com Dadi e explicava a situação avisando-a que não teria hora para chegar em casa.
E por algum motivo que
lhe escapava ele também sentiu-se orgulhoso,
pois as únicas coisas que
denunciavam que ela havia se vestido sozinha
eram a calça do avesso e a blusa de trás pra frente. Mas quem estava preocupado
com isso?
Quando explicou a ela
que iria até a farmácia Alex insistiu em
ir junto. Claude já ia dizer não quando
pensou que seria mais prudente leva-la
consigo a deixa-la
praticamente sozinha, já que Rosa
estava sob efeito de remédios e
dormia profundamente.
Pediu a Alex que
colocasse algo nos pés e ela apareceu calçando os tamancos de madeira. Claude os
reconheceu.
- Pode ser esse
sapatinho?
- Não vai cair com eles?
- Não, a mamãe sempre deixa eu usar. – Explicou-se pegando na
mão de Claude sem mencionar que era “presente
do seu papai para sua mamãe”,
como sempre fazia.
Claude tentava entender porque se sentia tão responsável pela
garota e o porquê ela confiava nele. Na saída do prédio, pegou-a no colo e
só quando já estava abrindo a porta do carro lembrou-se de algo importante:
- Mon Dieu, não
tenho a cadeirinha em meu carro, Alex. Vou
leva-la de volta ao apartamento e vai prometer ficar quietinha, ouí?
- Ah, não! Eu quero ir junto! – Respondeu agarrando-se ao
pescoço dele.
- D’áccord eu entendo que queira ir, mas seria perigoso para
você pequena!
- Ah, deixa eu “i”! – Insistiu chorosa.
- Sua mãe nunca me perdoaria se acontecesse
algo contigo, hã?
- Mas já tá “dinoitinha” eu fico deitadinha no banco de trás
eu prometo! Deixa...
- D’àccord, vamos
tentar. – Respondeu após breve hesitação.
– Mas non tente nenhum truque para ocupar o banco da frente. D’àccord?
- Oba! Você liga o som
do carro?
- Ah, você gosta de
música? Eu também e...
Alexandra cumpriu sua
promessa e ficou deitada durante
todo o trajeto de ida e
volta perguntando muitas coisas sobre
ele. Então, de repente começou a
acompanhar a música do rádio. Claude segurou a risada. Alex se esforçava para
alcançar as notas e acompanhar a melodia numa pronúncia muito particular, porém
com muito ritmo.
- “Uéu nodeinau lerigo lerigo cante roudi beque animor” [Well,
now they know /let it go, let it go/Can't hold it back anymore].
E tão de repente
quanto começara a cantar parou, perguntando:
- Você tem namorada?
- Não. – Respondeu Claude fazendo o contorno e parando no
sinal vermelho
- E filha?
- Também não.
- E você ia
gostar de ter uma?
- Namorada ou filha?
- As duas coisas. –
Explicou-se rindo.
- D’àccord. Eu acho
que sim...
- Por que você fala ‘dacór’ toda hora?
- Porque eu nasci na França e é assim que falamos por lá. D’àccord – Repete Claude acentuado a
pronúncia francesa – Significa de
acordo, que estou concordando contigo. E
ouí...
- Essa eu sei, é sim! – Exclamou Alex – A mamãe já me falou isso muitas vezes! Lá na França tem castelo?
- Ouí. Tem
muitos castelos por lá.
- E você mora em um? –
Perguntou sem segurar um gostoso bocejo.
- Non – Falou
engatando a primeira após o sinal verde.
- Ah... – Murmurou parecendo decepcionada - E sapatos, você tem “bastaaaaante” sapatos?
- Voilà, sapatos eu tenho alguns. Por que quer saber isso? – Indagou
curioso, pegando a pista da esquerda cuidadosamente.
- Porque eu acho que o meu papai tá demorando muito para voltar. Dai eu “tava” pensando se você desse um sapatinho pra minha
mamãe e ele “servi” no pé dela “ingal” o “príncepe” fez
‘coacinderela’ você podia ser o meu papai né? Eu ia “gosta” e você?
A explicação de Alex o pegou
desprevenido, embora seu coração sugerisse que sim. Não podia
criar essa expectativa na cabecinha dela. E quando finalmente pensou em algo, já
estava em frente ao prédio e pelo
retrovisor notou que ela dormia.
Enfiou o remédio no bolso do blazer e com alguma
dificuldade conseguiu tira-la do
carro, sem acordá-la. Passou pela portaria e
subiu. Sua sorte foi não ter
trancado a porta a chave e assim, com Alex nos braços conseguir abri-la sem muito esforço.
Entrou e empurrou-a com o pé, girando o corpo. Ficou imóvel e
apertou os lábios temendo que Alex acordasse pois os tamancos caíram de seus pés. Mas ela continuou agarrada a seu pescoço e a
linha séria de seus lábios se
transformou num largo sorriso. Uma
sensação incrível que ele não conseguiu definir tomou conta de todo seu ser.
Apertou-a mais contra
si e levou-a para o quarto. Cuidadosamente a colocou na cama, cobrindo-a com o edredon. Alex abriu os
olhos e resmungou algo.
- Shhhhhhhhhh – Murmurou Claude acariciando-a na face com as
costas da mão. – Durma pequena, já está
segura em seu castelo, hã?
Alexandra esboçou um sorriso e relaxando virou o corpo de
lado, dando as costas para ele. O cabelo dela ainda preso num rabo de cavalo o
incomodou.
- Mon Dieu, não deve
ser confortável dormir assim... Vamos tirar este elástico, d’àccord? – Falou baixinho.
E puxou-o com delicadeza fazendo-o escorregar para fora
do cabelo de Alexandra. Uma pequena
mexa caiu teimosamente sobre o rosto dela. Claude o trouxe com o indicador para
detrás da orelha ao mesmo tempo que inclinava
e dava um beijo de boa noite na face
da menina.
Foi ao se afastar que aconteceu. Seu coração parou por um
segundo e em seguida disparou descontroladamente enquanto seu olhar
pousava naquela discreta
marquinha em forma de estrela, atrás da orelha esquerda de Alexandra.
PSV
Continua em breve.

1 comentários:
Continuaaaaa....
Agora que ele vai Descobrir que é filha dele.. Maissss
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