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quarta-feira, 25 de maio de 2016

PSV/Capítulo 36

PSV


Rosa entrou naquele  cômodo da galeria como alguém que entra no passado. Há quanto tempo não entrava ali?
Tentou abrir a porta por inteiro, mas  alguma  coisa impedia.  Empurrou com um pouco mais de força e tudo que conseguiu foi um barulho surdo de algo caindo.
Soltou uma exclamação mal criada e ouviu a voz de Alex recriminando-a:
- Hã! – Exclamou  a menina colocando as mãos sobre a boca, parecendo assustada - Esqueceu que não pode  “fala” palavra feia, mamãe?
Rosa virou-se para a garota e colocou suas mãos na cabeça, com ar de  culpada.
- Oh! Tem toda razão, filha! Obrigada por me corrigir. Nós adultos, esquecemos disso algumas  vezes. É melhor  você esperar aqui fora até eu acender  a luz, ok?
- Tá bom, mamãe!
 Rosa esgueirou-se entra algumas  caixas empilhadas rentes a parede, que a impediam de  tocar o interruptor. Com dificuldade conseguiu enfiar a mão e encontra-lo.
- Ehhhhhhh! -  Exclamou Alex batendo palmas e entrando.
Rosa caminhou até a janela abrindo-a.  A luz  do sol invadiu o quarto, e ao mesmo tempo que ajudou a clareá-lo ainda mais,  mostrou também o nível de pó acumulado ali.
- Olha mamãe!  Meus brinquedinhos  de quando era pequena!
Rosa sorriu. Crianças e  suas  lógicas. “De quando era pequena”. Como se fosse muito grande agora pensou, olhando para onde  estava a filha.
Alex havia se enfiado atrás  da porta e tirava alguns itens da caixa semiaberta. A mesma que caíra, quando abrira a porta. Não eram exatamente brinquedos. Eram as sobras de  convites, enfeites e lembrancinhas do primeiro aniversário de Alex.
- Alex, acho melhor  você  não ficar aqui comigo. Papéis  velhos e essa poeira  toda não vão  te  fazer bem, hum? – Argumentou vendo-a sentar  no chão.
- Ah, mamãe!
- Você  pode levar essa caixa ao ateliê e brincar por lá, que tal?
- Ah, mas eu  vou ter que  ficar  sozinha lá! O tio Sérgio não vem hoje e a tia Janete  vai ficar lá embaixo!
- Bonjour! Onde é que  você vai ter que  ficar  sozinha, hã? – Questionou Claude  encostando  no batente da porta enquanto lançava  um olhar  por  todo o quarto, até concentra-lo   nas  duas. 
- Claude! -  Bradou Alex, sorrindo feliz. – A mamãe vai limpar aqui e eu não posso ficar  com ela... – Completou  entristecida.
- Não é que  você não possa ficar Alexandra.  Eu só não  acho prudente; você passou por uma  cirurgia e está tão bem! Não é melhor  continuar  sem aquelas  crises horríveis?
- Sua mãe tem razão, pequena. – Adiantou-se Claude. -  É melhor  ficar longe da poeira, d’àccord?
- Tá  bom, eu fico lá  sozinha! – Resmungou fazendo  bico.
- E se eu  ficasse  com  você?
- Eba! – Exclamou Alex sem esperar  qualquer  consentimento  de Rosa. –  Você  me ajuda a levar essa caixa?
- Ajudo. Se sua  mãe  permitir.
- Ah, ela  deixa,  você deixa, né mamãe?
- Ok, garota, eu deixo. – Consentiu Rosa, tocando-a na ponta  do nariz.  – Se ela  ficar  manhosa, traga-a de volta. – Falou olhando sério para Claude. – E obrigada...
- Não precisa agradecer. Na verdade, eu  vim para ajuda-la com isso. – E apontou para as caixas. - Mas acho que ajudo mais cuidando de Alexandra.  – Respondeu abaixando-se para pegar a caixa que ela tentava arrastar.
Segurou a caixa com uma das mãos, embaixo do braço.
- Vamos? – Perguntou oferecendo a outra mão para Alex.
E Rosa os observou andarem pelo corredor até entrarem no salão que  servia de estúdio. Ah, se eles  soubessem um do outro, curtiriam muito mais o momento!
Não posso adiar mais.  Tenho que  contar aos  dois ou  acabarão por me odiar. Assim que  trouxermos  essas peças para cá vou dizer a ele sobre Alexandra. E se ele duvidar mostrarei  a marquinha dela. É praticamente um exame de DNA.


PSV



Janete esperou a  máquina  efetuar a transação de venda e devolveu o cartão, entregando a primeira  via do recibo para o cliente.
Acomodou a peça, uma estatueta de trinta centímetros em uma embalagem própria, certificando-se que a mesma não sofresse nenhum dano e   colocou numa  eco sacola com  o logotipo da galeria, agradecendo a preferência.
Checou e fechou a contabilidade do dia.  Conferiu a hora e assustou-se: quase trezes  horas.  E nem Rosa ou  Claude  haviam descido.
 Aproximou-se  da escada, indecisa se  devia mesmo subir. Mas  não podia ir embora  sem avisar.  Então subiu alguns degraus e gritou:
- Rosa, precisa de ajuda?
- Por incrível que pareça, não.  Mas obrigada assim mesmo, Jane.
- Tem certeza?  Já são quase  treze horas...
- Meu  Deus,  nem senti o tempo passar! - Explica-se  Rosa  aparecendo do lado de  fora  do quarto. -  Você está...
- Mamãe, eu tô com fome... – Queixa-se Alex vinda do ateliê.
- E eu as  estou convidando para  almoçarem comigo. –A voz de Claude, chega antes dele. –  No Gigetto, aqui pertinho.
- Bem, e eu preciso ir. Bom almoço para vocês. – Diz Janete.
-  O convite é extensivo a você, Janete! Não é Claude?
-  D’àccord.
- Eu adoraria ir, mas tenho um compromisso inadiável. Fica para uma próxima oportunidade. Até segunda e divirtam-se!
Depois de ouvir as despedidas, Janete desce  a escada escutando Alex pedir se podia  comer aquela  comida daquele dia e se poderia escrever na parede de novo e que tinha convidado Claude para seu aniversário.
- ... E não é engraçado mamãe?  O Claude  faz  aniversário  no mesmo dia que eu! A gente podia  fazer a festinha junto...
Foi a última coisa que escutou Alex comentar, antes de fechar  a porta  e atravessar a rua em direção ao seu carro, pensando em como era azarada.
Naquele outro  dia  não  fora para  não bancar  a vela. E hoje, que gostaria de bancar, não podia ir.
- É Janete, nem tudo é   do jeito que  você quer! – Murmurou a  si mesma, dando a partida  no carro.



PSV



Rosa abriu o menu de sobremesas. Estava  incerta se devia  pedir mesmo. Tortas, sorvetes, mousses... Depois da massa no prato principal? Isso a forçaria a andar mais  tempo que o habitual em sua ergométrica.
Levantou os olhos do papel e espiou Claude. Ele apontava alguma  coisa no menu de Alex.  Insistira que ela deveria escolher  sozinha  sua  sobremesa.
Suspirou sem querer e atraiu a atenção para  si. Disfarçou com uma tossidinha e  voltou a olhar as imagens a sua frente.   Durante  todo o almoço havia agradecido a Deus por  não serem atendidos pela  dona  do restaurante, Cleide  e seus olhares indiscretos para seus  movimentos. E mais indiscretos ainda  para os de Claude.
Oras, por que não consigo  deixar de sentir ciúmes por isso? Além do mais, seja ponderada. É você quem vai para a cama com ele, não ela.
Mas que  droga! Você acaba com meu autocontrole, Claude!
- Então, já escolheu  sua  sobremesa? Rosa? O garçon está esperando.
Desculpou-se e pediu a torta de limão.  Foi quando seu celular  tocou.
- É a Joana. -  Disse precisando se afastar da mesa para escuta-la melhor.
Quando voltou, parecia preocupada.
- Algum problema?
- John e Liz chegam  quarta pela manhã e Joana volta na segunda, para limpar o apartamento. Precisamos  tirar as peças amanhã.
- De minha parte não será nenhum transtorno.
- Pode ser depois do almoço? Assim eu termino de limpar o quarto e teremos  tempo de avisar o Sérgio. Alguns de seus alunos do último período fazem esse serviço de transporte em Arte.
- Acha necessário?
- Sim. Algumas esculturas  são mais pesadas do que parecem, iremos precisar de ajuda. Além do mais, eles já  tem todo o equipamento necessário.
- D’àccord.  Treze  horas é  bom para  você?
- Ótimo. E você, Alex, vai ficar quietinha, pintando seus desenhos na mesa da Janete, ok?
Alexandra engoliu o sorvete e abriu a boca para responder, mas Claude adiantou-se.
- Eu tenho uma ideia melhor. – Disse ele – Dadi pode  ficar  com ela,  se você aceitar, claro.
- Eu não quero incomoda-la. E vou estar aqui  pela manhã, Claude.
Alexandra equilibrou uma porção de sorvete  na colher  e a levou até a boca, enquanto olhava ansiosa de Rosa para Claude
- Mais um bom motivo para  deixa-la  com Dadi sem  considerar  isso um incomodo. Poderia deixa-la em meu apartamento e viríamos juntos. Em dois, a limpeza  será  mais rápida. O que acha?
Rosa estava indecisa.  Toda essa preocupação e proteção de Claude... O que ele pediria em troca?
- Alex, você ficaria  com  a Dadi até a  sua mamãe  voltar?
- Humhum... – Respondeu terminado seu  sorvete. – Vai ser legal  conhecer a sua  casa.
- Então estamos  resolvidos. – Afirmou Claude, chamando o garçon e pedido a conta. – Você não vai  ficar  aborrecida por isso, vai? – Perguntou em seguida, notando o olhar incomodado de Rosa.
- Desculpe se pareci aborrecida. Apenas  não estou acostumada que  tomem  decisões  por  mim.
- Voilà! – Exclamou Claude sorrindo - Na  próxima você decide d’àccord? 
Rosa tentou achar  uma  resposta adequada, mas tudo que  conseguiu foi  o lenço de Claude, ao espirrar inúmeras  vezes.



 PSV



Frazão checou as  recomendações junto ao Conselho Administrativo da empresa e os  dispensou, encerrando aquela reunião extraordinária em pleno sábado. Com exceção de Gurgel Beaumont, todos  se  despediram.
- Gurgel, você  sabe  da  confiança  que  deposito em você e da  responsabilidade que ficará em suas  mãos a partir de  agora, não sabe?
- Sei sim, Frazão. E sei também que  será uma responsabilidade e tanto gerenciar esse  império sem Claude  e agora sem  você por perto.  Espero continuar  merecendo essa  confiança.
- Você  vai  ter autonomia para solucionar  quaisquer  problemas que  possam  surgir. Não  faça essa  cara,  você está preparado, eu mesmo  fiz isso, não  foi? – Brincou Frazão quebrando a seriedade do assunto
- Chega de dar  voltas... Fale logo o que quer que eu não  faça. – Perguntou Gurgel, curioso.
- Não assine nada que  venha de Louise. Em hipótese alguma.
- Imagina que ela pode querer dar  um golpe?
- Eu não imagino, tenho certeza. Louise é paciente em seus... Digamos caprichos.   Minha presença  nas empresas  sempre a incomodou, porque não faço pactos, nem acordos,  muito menos “invisto” dinheiro na política.
- Até  onde sei, tudo que ela  consegue  tirar daqui é a sua  parte como acionista,  correspondente aos lucros de cada  trimestre.
- Exato. E assim deve  continuar. Não ceda às exigências, ou pedidos que ela  vier a fazer.
- Quanto tempo pretende  ficar  no Brasil?
- Bem, quero descansar os meus  trinta  dias de férias, adiadas a pelo menos  cinco anos.  O prazo legal sempre é de noventa dias, prorrogáveis por mais noventa. Mas espero estar  de  volta  antes  disso.
- Eu espero que  volte mesmo. Não pretendo assumir o seu cargo, mon ami.
- Eu também não pretendia Gurgel, no entanto la vie est une boîte de surprises.
- D’àccord. – Concordou Gurgel lembrando-se de quando Claude entro para a  política, assumindo funções  no partido e o cargo de conselheiro da prefeitura. – Por que não saímos daqui para um bonne franquette antes da  sua partida?
- Desde que seja um lugar discreto, hã? – Respondeu Frazão, levantando-se.
- Mas que isso, Frazão? – Disse Gurgel acompanhando-o -  Eu  sou a discrição em pessoa!  Vamos apenas tomar  uns drinques e degustar petiscos. Agora, se aparecer alguém interessante...




PSV


Rosa saiu  do quarto equilibrando  o jogo de porcelana. Abaixou-se lentamente e o colocou sobre a mesinha.
Então respirou aliviada e espirrou em seguida.
-Saúde! – Falou Sérgio terminando de embalar o quadro. - Esse  Anita Malfatti não ia para  sua casa? – Perguntou olhando para Rosa.
- Ia sim Sérgio. Mas  mudei de ideia. Ele será muito mais  valioso para a galeria se  for  vendido. Ficarei  apenas com as porcelanas e eu mesmo as levo. Obrigada por desperdiçar  seu domingo  com isso.
- É o melhor  dia para  se fazer esse  tipo de transferência: não há trânsito nem  curiosos. Você tem  como  voltar para casa?
- Claude. – Falou esboçado um sorriso – Alex está na casa dele, com Dadi.
- Ok. Tem certeza que não  quer ajuda para  terminar de embalar isso?
- Tenho sim, Sérgio. Você e seus alunos  já ajudaram bastante. Obrigada. – E  tornou a espirrar várias  vezes.
- É melhor  tomar um antialérgico. – Observou Sérgio.
- Farei isso assim que  chegar  em casa.
Sérgio fez um movimento para sair e recuou. Separou os lábios como alguém que  vai falar algo e desiste.
-  Pergunte logo o que  quer saber, vamos! – Falou Rosa envolvendo  uma  das  xícaras em papel de seda.
- É que eu não quero parecer intrometido. – Defendeu-se  Sérgio. Mas dane-se. Eu ia  dizer que vocês parecem ter se ajustado finalmente. E isso  foi muito bom. Perdemos o medo de respirar  na galeria.
- Não era tanto assim Sérgio! – Exclamou Rosa em sua defensiva.
Então Claude entra.
- O tempo mudou completamente, hã? Parece que  vem chuva por ai...
- Nesse caso, é melhor me apressar. Até amanhã para  vocês. – Diz Sérgio deixando-os  no apartamento.
- Eu liguei para Dadi. – Diz  Claude abaixando-se e embalando uma das  xícaras -  Alexandra acabou de acordar e está ajudando Dadi  com  o café  da tarde.
Agora, Rosa.  Conte a ele sobre Alex! – Falou sua  consciência
- Ela acordou muito cedo hoje... – Comentou Rosa, esticando o braço para  pegar  a última  das quatro xícaras.  – Eu preciso   contar algo sobre...
Porém, Claude  fazia o mesmo movimento e  suas  mãos se  tocaram involuntariamente.
- Desculpa... – Falaram ao mesmo tempo e seguiu-se um silêncio quase  constrangedor.
Rosa deixou que a xícara ficasse na mão de Claude. Pegou as  outras, já embaladas e  levantando-se  as  colocou na caixa  de transporte. Por que não era  tão fácil quanto em seus pensamentos?
Estava de  costas e  estremeceu quando ele estendeu o braço,  acondicionando a última xícara. Sem perceber deu um pequeno passo para  a lateral.






- Por que  está  sempre  fugindo de mim, Rosa?
- Eu nunca  fujo de você! – Respondeu antes de ir até a janela e olhar o céu, cada  vez mais acinzentado.
- Não? Eu já perdi a conta  de  quantas  vezes você se afastou, evitando que nos  toquemos.
Virou-se pronta para responder que não tinham porquê se tocarem, e ficou presa nos braços dele.
- Quer me  soltar, por favor?
- Não, não quero. – Escutou-o responder com os lábios quase  colados aos seus.
Aceitou o toque terno e  caloroso. Cedeu quando ele a forçou a separar os lábios e entregou-se ao beijo, correspondendo intensamente. E sentiu  as mãos dele em suas  costas. Elas apertavam-na contra o corpo dele.   Foi nesse momento que tentou empurra-lo.
- Não! Pare com isso! Hoje não é quarta-feira e aqui não é o seu apartamento!
- Dias e lugares  podem ser apenas  detalhes. – Foi o que Claude  disse, inclinando a cabeça até o seu ouvido.
- Pare, não é justo brincar assim comigo... – Murmurou com os lábios  dele  em seu pescoço.
- Não estou brincando, chèrie!
- Mas... Não, Claude! Pare por favor, aqui não... Não é o momento.
- Por que não? Somos nós que fazemos os momentos em nossas vidas...
E quando Rosa se deu conta estavam no sofá e ele abria os  botões  de sua  blusa.
- Você não entende... – Conseguiu murmurar, lutando  contra o próprio corpo e a  vontade de se entregar.
- O que é que eu não entendo? – Perguntou Claude puxando a blusa dela para fora  da  calça,  procurando os últimos  botões.
-  O depois. – Afirmou agarrando-se  ao que  restava  de  suas  forças, olhando-o profundamente.
E segurando as mãos dele o  impediu de prosseguir.
-  O que esses  momentos fazem da nossa vida depois? – Concluiu ela com uma  pergunta.
- Se esse é o problema pense só no agora... -  Respondeu ele.
E  vencendo  facilmente a  força que ela exercia  contra  suas  mãos roçou seus  lábios onde a lingerie não a cobria.
Mas Rosa deslizou o  corpo para  fora  do sofá. Com a respiração alterada e o  corpo trêmulo afastou-se alguns passos. Um clarão  anunciou a chegada  da chuva e depois de mais um trovão,  as luzes se apagaram.
- Não! – Exclamou firme, enfrentando o olhar zangado de Claude.
E no momento seguinte ele a segurava pelos braços. Tenso, beirando a ira.
- É claro que não! – Disse ele  sacudindo-a - Como pude  ser  tão  idiota? Estamos  na casa  do seu amante, do pai de sua  filha, você jamais o  trairia aqui!
-  De onde tirou essa ideia fixa de que John é  meu amante e pai de Alex?
- Até quando  vai negar, Rosa? – Perguntou aumentado  a pressão nos  braços dela.
- Você é realmente um idiota! -  Disse ela livrando-se das  mãos dele em seus  braços. - Sabe o que é engraçado? – Perguntou deixando as lágrimas escorrerem pelo  rosto – Não é a  força com que aperta meus  braços   que mais me  machuca!
E foi se afastando até a porta. Precisava  sair  dali antes que  a tristeza a sufocasse. Girou a maçaneta e sem  abrir  completamente a porta fez um movimento lateral com a cabeça, o suficiente para  que  sua  voz  fosse  ouvida  por ele.
- Eu espero que esteja muito feliz com esse momento que fez em nossas vidas!
E saiu rápida em direção ao  elevador. Escutou a voz de Claude chamando-a  mas  não parou.
Apertou o  botão  várias  vezes até perceber que não havia energia elétrica. Correu até a porta da escadaria e desceu os  degraus para alcançar o térreo, abotoando a  blusa.
Claude levou as mãos à cabeça e enterrou os dedos entre seus cabelos, descendo-a até alcançar a nuca, respirando fundo.  Pressionou o local antes  de  soltar a cabeça a frente e esfregar  a  testa.
- Parabéns, Claude! – Murmurou a si       mesmo antes de sair atrás dela.
Trancou  a porta do apartamento guardando a chave no bolso. As luzes do  corredor piscaram e permaneceram acesas. Viu a porta de acesso a escadaria aberta, mas o elevador chegava ao andar,  parando. Desceu por ele e quando alcançou o térreo viu Rosa correndo em direção à rua. Seu carro estava estacionado em frente ao prédio,  mas tinha certeza que ela tentaria  um táxi.
Porém,  era domingo a tarde e  chovia, pensou seguindo-a o mais  rápido que  pode.
- Rosa! – Gritou ele correndo pela  rua até  segura-la pelo braço.
- Quer me  soltar, por  favor?
 – Rosa, o que pensa  que está  fazendo?
- Indo embora. -   Respondeu ela tentando escapar.
- Correndo pela rua, debaixo dessa chuva  toda?  - Provoca ele, arrastando-a para  debaixo de uma marquise.
- Como se  isso fizesse alguma  diferença para  você. – Afirmou ela espirrando várias  vezes.  –  Como se  não  fosse apenas mais um momento  qualquer. – Falou tremendo de  frio, a cabeça latejando. - 
- Venha, vamos para o carro. – Disse ele apertando-a  contra  si. Mas  Rosa  não acompanhou seu passo e ele teve que  parar.
- Eu  daria qualquer coisa para voltar aos nossos momentos, Claude. Sabe,  quando tudo começa a ir mal meu único desejo é voltar a  te abraçar forte. -  Resmungou ela, abrigando-se  nos  braços  dele.
- Você está ensopada. Ensopada e delirando. – Falou tentando justificar  a fala de Rosa.
Ignorando ou não entendendo o que ele falara, Rosa  continuou:
- Lembra quando um olhar nos fazia sorrir? Quando o tempo passava sem que percebêssemos e nada mais importava?
Claude alisou os  cabelos  molhados dela e roçou levemente seus lábios na testa de Rosa. Então  pegou-a nos braços e atravessou a rua  de  volta. Acomodou-a no carro e entrou também.




Rosa suspirou. Sabia que ela esperava uma resposta.

- Eu só queria ficar com você.  Deste momento para  sempre... – Murmurou   notando em seguida que ele  estava  com os olhos  fechados.
Deixou assim. Talvez  fosse melhor ela não o ter escutado. Engatou  o  carro e  saiu.
A chuva, ainda que menos intensa, parecia não  querer dar  trégua.
Enquanto o carro  se afastava, de dentro da  guarita  o porteiro sorria.  Finais  felizes não aconteciam só em  filmes, pensava ele, guardando  o celular.

PSV


Rosa tentou mais uma vez acomodar  a cabeça  sobre o travesseiro. De nada adiantou virar  seu  corpo lateralmente. O nariz  continuava entupido dificultando sua respiração. Elevou o corpo e  encostou  na cabeceira  da cama. Ajeitou o  travesseiro entre ela e suas   costas e sentiu uma ligeira  melhora.
Tentou lembrar as palavras ditas por Claude, mas tudo que sua mente  conseguia era  recordar a expressão de Dadi ao vê-la encharcada.
Dadi a obrigou a tomar  um banho quente e   colocar uma  roupa seca. E fez o mesmo  com Claude. Ele até fizera uma graça oferecendo uma de suas cuecas, o que provocara uma crise de risos em Alex.
Sorriu ao lembrar a cena. Um chá quente e um pedaço de bolo de chocolate, “feito  pela filha”, também entraram  no roteiro.
E foi  aí que aproveitou e  veio para  casa. Enquanto Claude foi atender uma ligação de  sua irmã. Dessa vez estava mesmo  fugindo.
Por que não se recordava do que  tinha  falado, antes de entrar  no carro dele?  E  por que, mais uma  vez não  contara  sobre Alex? Suspirou, tentando não se  culpar.
Seus olhos  pesaram e ela  piscou lentamente. O antialérgico e o antitérmico a arrastavam para o  mundo  dos  sonhos. E  foi nele que  contou a Claude sobre Alexandra



PSV





Claude  trocou o lápis,  acentuou as sombras  do esboço e imprimiu um pouco  mais  de volume  aos lábios.  Corrigiu o  brilho do olhar e melhorou o traçados das mexas  do cabelo que escapavam da presilha, no alto  da  cabeça.
Esfumou abaixo do queixo, dando profundidade ao pescoço e realçou o contorno do vestido tomara que  caia.  Voltou o  lápis para o estojo e  deslizou  a ponta  do dedo pela face do desenho.
-  Amores de verão sempre terminam... – Murmurou baixinho -   Mas o nosso não  foi de verão, Rosa. O nosso foi daquela estação que incendeia a alma,  aquece o coração e  acalma a mente. Foi esse amor que você me deu, hã?  E era o que eu queria para sempre...
Abaixou a cabeça e colou seu  rosto ao desenho, como se o abraçasse e fechou os olhos.
- Claude – Disse Dadi tocando-o os ombros - Vai  ficar dolorido se  continuar  a dormi  aqui... Claude?!
Ele abriu os olhos e levantou a cabeça,  descobrindo o retrato de Rosa.
- Uau! Parabéns! – Exclamou Dadi, vendo-o. – Por que não usa  esse talento todo para se acertar  com ela? E não me dê uma resposta malcriada, porque pelo pouco que os  vi juntos, é óbvio que se amam.
- Mas eu estraguei tudo, Dadi.  Arruinei qualquer chance que tinha...
- Eu não sei  exatamente o que  fez para  pensar  assim, mas seja lá o que tenha feito,  se fez da maneira errada, conserte. Você  sempre  foi  bom nisso.
- Ela não  vai me perdoar...
- Vai sim.
- Eu queria  ter a  sua  certeza, Dadi.
- Mon Dieu,  rapaz! Onde está a confiança no amor que  você sente  por ela? Seja honesto consigo mesmo: o quanto a ama?
- Mais que o suficiente  para que meu coração pare por um instante quando a vejo,  até o ponto de chegar a sentir que já não existo e que não importa o que aconteça estar com ela já seria o bastante.
- Pois não desista. O amor  faz  milagres.
- Você acredita que nosso amor é capaz de fazer milagres?
- Eu acredito. Mas é  você  que tem que acreditar para  ele acontecer, d’àccord?



PSV


                          Continua em alguns  dias...

sexta-feira, 20 de maio de 2016

PSV/Capítulo 35

PSV



- Quando vocês  “volta”, madrinha? – Perguntava Alex, olhando para  a tela do notebook de  Rosa. – Eu “tô” com “muuiiita”  saudade! – Continuou abrindo os braços.
- Em alguns  dias, darling! – Respondeu Liz, sorrindo  pela dramaticidade de Alexandra.
- Nós  também estamos com “muiiita” saudade Alex! – Falou John imitando-a. – Vou querer um abraço tamanho gigante quando chegar, ok?
- Tá  bom! – Exclamou Alex. – A mamãe quer falar com  vocês, de novo. Tchau! Eu  vou brincar! – Completa seguindo as  ordens  de  Rosa.
E joga um beijo,  antes de descer  da cadeira e sentar  no tapete da sala com seus  brinquedos e livros.
- Poxa, estou começando a pensar que  não querem mas  voltar! – Diz Rosa  se acomodando diante  do notebook e  ajustando a câmera. – Onde estão agora?
- Entre as massas, os terrines e o bom vinho do  Império Romano, honey. – Respondeu Liz. 
- Itália...  – Comentou Rosa. - Sem dúvida em meio a outros países, essa parada tem tudo para ser inesquecível!
- A Itália seria só uma parada mesmo. Mas já que estávamos aqui, resolvemos conhecer Verona, Veneza e Florença, antes de Roma.
- Rosa, com essa viagem John me proporcionou o melhor roteiro romântico da minha vida! Foram cidades extremamente charmosas abundantes de história e cultura. Você deve experimentar isso um dia.
- Quem sabe, quando Alex tiver um pouco mais de idade eu faça isso. – Respondeu dando uma rápida olhada para Alex. – E então vocês me ajudam no  roteiro.
- Teremos o maior prazer! -  Descobrimos lugares e situações incríveis. – Falou Liz  com um sorriso que Rosa  não conseguiu decifrar.  – Querida, John quer dar uma última palavra com você antes  do nosso boa noite.
- Rosa devemos  retornar  vinte dias no máximo, com algumas novidades,  inclusive  sobre a nossa situação na galeria. Não fique  assustada, será  bom para todos! – Explica ele ao ver uma reação assustada do rosto dela. - Mas eu preciso que Claude  retire as peças que  comprou caso ainda  não o tenha  feito.
- Não, ele ainda não as retirou de seu apartamento John.  Mas  eu  o aviso, claro. Não vai me adiantar  nada sobre essas  novas ideias?
- Posso adiantar que vai gostar  muito delas.
Então Alex se aproxima,  tentando  cochichar:
- Mamãe, eu preciso “i” no banheiro “faze” o número dois! – E sai  correndo em direção ao  banheiro.
Liz e John riem da tentativa da afilhada de ser  discreta.
- Vá cuidar de nossa princesinha, Rosa! Liz e eu iremos nos  recolher também. Aí pode estar calor, mas aqui na Europa é começo de inverno. Boa noite, querida! – Conclui  John piscando antes de encerrar a chamada.
- Boa noite Liz e  John! – Diz Rosa, com a conversa  quase encerrada.
E desliga o notebook, fechando-o.
- Muito bem senhorita Alexandra! Vamos conferir se já  está pronta para  receber nota  dez nesse quesito? – Falou entrando no banheiro.
- Eu também  acho esquisito mamãe!  - Falou a  garota.
- Esquisito? – Repetiu sem entendê-la.
- É mamãe...  É muito esquisito essa  vontade de fazer  cocô.  Porque ela vem assim sem a gente querer? – Pergunta categoricamente Alex.
Rosa sorriu. E lá se foi, explicar novamente à  filha  sobre o funcionamento do nosso corpo. E também a diferença entre quesito, e esquisito.



PSV



- Devíamos ter dito sobre o que  descobrimos em Amsterdã, não acha? - Comentou Liz, puxando as  cobertas e deitando-se primeiro.
John tirou o  roupão lentamente, como se  procurasse  as  palavras para  responder. Colocou-o aos pés  da cama e deitou-se  também.
- Não, não acho Liz. Pense bem, Rosa guardou esse segredo todos esses anos, e por mais que sejamos íntimos, ela não se sente pronta a dividi-lo conosco. 
- Tem razão, é um assunto que a machuca.  – Comentou Liz.  Mas agora que temos  certeza do envolvimento dos  dois, não podemos  ficar passivos. Temos que ajuda-los de alguma maneira!
- E vamos, darling.  Só precisamos de uma boa oportunidade. Um motivo para entrarmos  no assunto!
- O aniversário de Alex! -   Exclama ela com um brilho especial no olhar. –  É uma  boa entrada de assunto...
- Excelente ideia! Veremos antes como andam os ânimos entre Claude e Rosa. Quem sabe se sem a minha incômoda  presença, ele não tenha se reaproximado dela...
- Tomara que sim, John. Estou torcendo para que se entendam.
- Eu também, Elisabete – Disse  apagando a luz  do abajur, antes de abraça-la.


PSV



- Sua filha está muito distante ultimamente, Louise. Ela deveria aparecer mais ao meu lado para atrair simpatizantes e eleitores.
- Vou ter outra  conversa  com ela,  não se preocupe.
- Espero que  seja uma  conversa  definitiva.
- Nara encontrou alguns recortes, Bernard.  Noticias antigas sobre o pai e a situação política  em que ele estava ao  falecer e desde então vem me criticando e crivando de perguntas,   culpando-me pela morte dele.
- E qual o seu envolvimento?
- Nenhum, é  claro! Eu realmente me apaixonei por François.
- E tentou ocupar  o lugar que era dele?
- Eu não tentei ocupar o lugar que era dele. Eu ocupei um lugar  vago,  que havia  sido dele. E o ocupei muito bem.  O partido deve muito a mim e  a minha atuação, sem a qual não teríamos  tantos  representantes  na Assembleia e no Senado.
 - Modesta  como sempre... – Falou Bernard entre irônico e sarcástico.
 - Modéstia nunca  foi item  na minha lista de qualidades, Bernard.  – Retrucou séria.
- E Michel? Acha que podemos  confiar  e contar  com ele para  nossos planos?
- Michel Didier, nosso querido prefeito? Esse, eu o tenho na palma da mão, embora sua ambição e ganância possam me dar um trabalhinho a mais... Mas  voltemos à Nara, e seu comportamento arredio, que tem causado estranheza em você...
Louise  continuou a falar da filha e do que pretendia  fazer. Bernard a ouvia, mas não prestava atenção. Estava bem mais preocupado com a expressão que ela usara “Esse eu o tenho na palma da mão”, referindo-se  a Michel.
Não fora justamente isso o que Michel  o aconselhara a não deixar acontecer?



PSV



Claude ouviu atentamente Rosa transmitir o pedido de John, sobre a retirada das peças.
- D’àccord, ele tem razão.  Não há motivos para deixar lá as peças eu adquiri. Porém vou precisar aloca-las aqui na galeria. Eu notei que há uma sala no andar de cima, ao final do corredor, sempre fechada a chave.
- É um pequeno quarto onde guardo alguns pertences particulares. Livros, objetos pessoais, materiais da faculdade, recordações de meus pais. – Explica Rosa.
- Voilà... Algum outro local disponível?
- Há o porão. Porém,  mais  que uma limpeza, precisaria de uma  pequena reforma para reparos e climatização, por  causa  da umidade.  Havíamos programado, mas a doença de Liz nos  fez adiar esse projeto.
- Bem, então vou deixa-las expostas. Quem sabe vendemos algumas e aumentamos o capital de giro da galeria. Ou reformamos o porão. – Diz Claude calmamente.
- Não! – Exclamou Rosa - As peças constam no relatório patrimonial, mas são particulares e agora suas.  Não é justo você investir ainda mais.
- Rosa, venderíamos apenas as que comprei para ajudar Elisabete Smith, fazendo  com que o  dinheiro retorne a galeria.  As  suas  serão preservadas, hã?
–  Dois quadros e uma escultura apenas.  Eu posso  leva-las para minha  casa, nem sei porquê  não o fiz ainda.   E posso desocupar esse cômodo. É algo que adio a  bastante tempo. Está resolvido, farei isso neste sábado! – Afirmou  sem deixar que ele a fizesse mudar  de ideia.
No final  do dia, Claude insistiu em verificar o estado do porão e  Rosa o acompanhou. Na  volta, pediu à Janete o projeto da reforma  e o levou para analisar em seu apartamento.





Beto viajou de trem, sozinho, numa cabines com duas beliches   de Paris a Veneza. 



E encontrou-a confrontando-se com o problema da água alta, fato que acontece de outubro a abril. Nesta época do ano  a cidade segue o ritmo das marés e convive com suas famosas inundações.  Cenas impressionantes, e que  Beto  registrou da melhor maneira que sabia: com excelentes  fotos, quase  surreais.





Publicou-as em seu  blog e logo lhe renderam uma grana extra ao serem republicadas  em uma revista de  circulação nacional, ilustrando uma matéria sobre o fato.






                                                Fotos do blog www.conexãoparis.com.br





Portanto, tinha muito  que  comemorar junto com a assinatura do contrato para  a exposição  no Brasil.

- Perfeito! – Exclamou Catarina assim que  Beto assinou o contrato. – E bem vindo de  volta ao mundo da Arte!
- Eu estou muito feliz, Catarina. E ansioso confesso. Parece até que será a minha primeira vez! – Exclamou sorrindo, divertido.
- Quando você aceitou nosso convite deixou-nos muito felizes, Beto. – Falou Egídio entregando uma  taça de champanhe a ele, depois de servir Catarina -  Um brinde ao nosso sucesso no Brasil!
- Thomas Piketty, um economista francês utilizou uma série de dados para demonstrar que o capitalismo do nosso século tende a concentrar cada vez mais renda nas mãos de poucos e usa  o mercado contemporâneo de arte para validar sua tese. – Disse depois de um gole. - Concordam com ele?
- E o que um economista entende de Arte? – Pergunta Catarina -  A cultura tem que estar ao alcance  de todos. E se esse “todos” não puderem adquirir uma obra de arte, eles têm o direito de aprecia-la. Eu diria até que têm o  dever de aprecia-la. Essa é a minha eterna opinião.
- Concordo. – Afirmou Beto. – Mas no momento atual do Brasil, de crise política e econômica, não receiam um prejuízo ou fracasso?
- O mundo sempre terá crises, Beto. – Emendou Egídio - E se olharmos  para elas como um empecilho,  nunca passarão. São nesses momentos que  superamos nossas  fraquezas e criamos condições para acabar com uma delas.
- Esperança, Beto. A Arte nos  transmite isso. – Conclui Catarina, erguendo a taça.
- Pois que seja! E que  a Arte nos acompanhe sempre! Salute! – Exclamou Beto encerrando o brinde.



PSV



Rosa tocou a campainha e aguardou alguns instantes.  Impaciente, tocou-a novamente demorando um pouco mais com o dedo  sobre ela.
Quando percebeu a porta sendo aberta preparou-se para um comentário sarcástico, que  evitou a tempo diante  de sua  surpresa  ao ver  Dadi.
- Dadi... Boa noite,  Claude não está?
- Rosa! – Exclamou Dadi, mais surpresa que ela – Eu não sabia que  viria, entre. Claude está sim. Na sala  de jantar estudando  o projeto da reforma desde que chegou.
Dadi praticamente a obrigou a acompanha-la.
- Claude, Rosa está aqui. – Anunciou  de maneira séria, entrando na sala de jantar. – Por que não me avisou que ela viria? Eu teria preparado algo...
Claude ergueu a cabeça e a primeira  coisa que  viu foi o olhar fulminante de Rosa, logo atrás de Dadi.
- Voilà, finalmente chegou, hã? - Falou ele, devolvendo um olhar zombeteiro  - Eu não disse que nos encontrávamos por  causa da galeria, Dadi? – Completou puxando um sorriso no canto da boca.
- Vou deixa-los a sós. – Respondeu Dadi. - E fazer um café. Creio que vão precisar.
Rosa esperou que Dadi se afastasse o suficiente para não escutar o que falaria:
- Por que não me falou que Dadi estaria em casa? – Perguntou gesticulando com as mãos.
- Pardon. Eu esqueci completamente de avisa-la para  não  vir  hoje, hã?  
- Esqueceu? – Disse colocando as mãos na cintura. – E se eu tivesse  usado a chave que me deu e entrado de forma... De forma mais indiscreta? – Levantou-as outra vez.
- Você não faria isso. É sempre discreta. – Respondeu puxando-a pela cintura.
E ficaram tão próximos que puderam sentir um a respiração do outro.
- O que está fazendo Claude?
- Tentando beija-la... – Respondeu ele encostando seus lábios aos dela.
-  Não... A Da...- Murmurou antes de corresponder ao beijo.
- Você enlouqueceu, ela podia aparecer e nos pegar... – Falou baixinho, ainda nos braços dele.
- Um risco que eu tinha que  correr chèrie...
Então, antes que Rosa pudesse dizer alguma coisa,  a voz de Dadi, do lado de fora, os faz se afastar:
- Espero que  gostem desse lanche. Tenho certeza que nenhum de  vocês dois jantou.
Dadi entrou e colocou uma enorme bandeja sobre a mesa: Suco, café, duas xícaras e dois  copos.  Torradas, um patê e alguns pedaços de bolo.
Claude notou o olhar de Rosa  sobre o bolo e nem a esperou perguntar.
- Ouí. É bolo de cenoura. Receita da Rosa, como diz Dadi toda vez que o faz. Não é  Dadi?
- Fico feliz que  com tantas  deliciosas receitas francesas que  saiba, você ainda o faça Dadi. É claro que provarei. Obrigada. – Respondeu Rosa, ignorando a indireta de Claude.
- Espero mesmo encontrar essa badeja vazia  quando vier  busca-la, amanhã de manhã. Boa noite aos  dois.
- Boa noite, Dadi. E obrigada mais uma vez. – Disse Rosa.
- Merci e bonsoir, Dadi. – Despede-se dela Claude também, voltando a se acomodar defronte os papeis do projeto da  reforma.
Quando percebeu que Rosa não havia  saído do lugar, levantou a cabeça e disse:
- Sente-se. Eu não fiz de propósito. Acontece que Dadi usa suas  folgas para  ensinar conversação em francês, como  voluntária em uma ONG, e essa  semana a aula foi suspensa por suspeita da gripe H1N1.
- Você não imagina o sufoco que passei quando a vi!
- Voilà! – Exclamou Claude com um olhar indecifrável -  Pense pelo lado bom para você. Não terá que ir para a cama comigo hoje.
- Você  faz parecer pior do que é. Por que tem tanto prazer em me humilhar dessa  forma?
- Pardon, não  foi minha intenção, acredite! – Afirmou ele, parecendo ser  verdadeiro.
- Está bem, vamos esquecer isso. Vou comer um pedaço do bolo, para que Dadi não se chateie e  voltar para casa.
- Mon Dieu! Está com tanta pressa assim, para  ver-se livre de mim?
- Eu fiz parecer isso?  Perdão. Não  foi minha intenção, acredite! – Respondeu usando as mesmas  palavras dele, sem perceber de imediato.
Então imaginou que ele respondesse  com grosseria, entendendo isso como sarcasmo. Mas Claude soltou uma risada tão natural e verdadeira que Rosa desarmou-se e acabou rindo com ele, esquecendo-se  do  bolo.
E isso fez a tensão entre eles desaparecer. 





- Foi você quem desenvolveu esse projeto não foi? – Perguntou Claude em seguida.
- Foi sim, como percebeu? Não leva minha assinatura em lugar nenhum!
- Eu reconheceria a originalidade do seu estilo até em outro planeta, Rosa...
E eu o seu...  Pensou Rosa vendo alguns desenhos dele ao lado dos  seus.
- Mas  como pôde observar o projeto está inacabado. E agora que  administra a galeria,  o que sugere para essa área mais baixa  do porão?
- Eu achei a sua ideia dos espelhos fantástica. – Afirmou Claude – Fará  com que ele pareça maior dando a ideia de que não tem fim.
- O engenheiro não pensa assim... – Queixou-se Rosa num tom de desanimo – Aliás, ele não concorda  em nada comigo! – Concluiu soltando  o corpo no encosto da cadeira, cruzando os  braços.
Claude sorriu da reação de Rosa. Parecia muito mais uma criança contrariada que a  mulher decidida que era.
- A arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver. – Diz bem humorado.
- Pois é, Paul Klee sabia do que falava... – Respondeu ela.
- Engenheiros. – Disse  Claude com desdém. - Eles   pensam matemática e não artisticamente. Não veem as  coisas como nós  artistas as vemos. Por que não o dispensou ainda e contratou um arquiteto?
- Porque no contrato há uma clausula para ambas as partes, de multa.  Fizemos isso como garantia de que ele não abandonasse a obra. E infelizmente o assinamos  em meio aos problemas de Liz,  alguns  dias antes  do primeiro diagnóstico. É claro que ele não aceitou cancelar o contrato, nem mesmo sem precisar  devolver os dez por cento de adiantamento. Então ficamos presos nessa situação e adiamos o projeto, que será reajustado obviamente. Portanto, se você for coloca-lo em prática, esteja preparado.
- Esse  espaço seria muito útil para a galeria. – Comentou Claude. – Acho que devemos investir e insistir nele.
- Mas Claude, estamos sem recursos. O prédio é o meu capital. Quero dizer, o de Alexandra. – Corrigiu-se -  E Liz e John não terão como investir a não ser que vendam o apartamento.  E eu não  vou deixar que façam isso.
- Não estava me referindo a eles, Rosa. Mas você acaba de dar a solução para o problema do contrato.
Rosa olha para ele sem entender sua observação.
 - Não alcançou meu raciocínio ainda não é? John assinou o contrato não eu. Portanto posso declinar dele. Tenho certeza que pode ser anulado, sem prejuízo para nenhuma das partes.  Falaremos  com Júlio e Freitas amanhã mesmo. Eles saberão como conduzir tudo e  logo estaremos livres desse engenheiro marrento. - Falou levantando-se  e servindo dois cafés.
Deu uma das xícaras a ela e pegou um pedaço de bolo para si.
- Pode ser a sua receita – Disse mordendo-o – Mas nunca  fica igual ao seu. - Concluiu depois de comê-lo.
- Dadi pode  se ofender se  ouvir isso Claude. – Falou sem graça.
- Então não conte a ela, ouí? – Devolveu piscando e servindo-se de outro pedaço. – Me acompanha agora?
Rosa sorriu e serviu-se também. E então voltaram ao projeto, anotando várias ideias e objetivos. Claude incluiu o quintal do casarão na reforma. Um jardim sempre  pode abrigar esculturas e instalações.   Um espaço gourmet com entrada  lateral,  independente da galeria, mas com vista  total para ela, substituindo partes  da parede de alvenaria por Blindex também entrou na  conta.
Entremeio ao projeto, falavam de outros assuntos e Claude comentou que se tivessem combinado  a noite não seria  tão perfeita. A única  falha era a falta de Alexandra.
Rosa emocionou-se ao ouvi-lo falar assim. Separou os lábios, procurando palavras para falar  algo do tipo “Alexandra também sente   sua  falta, Claude. Todas as noites desde que nasceu. Ela e eu também...”
Mas Claude já havia mudado de assunto outra vez e a oportunidade se  perdeu no ar. Talvez ainda não seja a hora certa, consolou-se Rosa respondendo a ele sobre  a história do bairro.
Já passava das vinte e três horas quando Claude acompanhou Rosa até o carro e recomendou que ela não parasse nos  sinais vermelhos por nada. Só subiu de volta ao seu apartamento quando  perdeu o carro de vista.
E só conseguiu deitar e relaxar quando recebeu a mensagem dela dizendo que já estava dentro de casa, e que  Alex dormia tranquilamente.



PSV



Nara estava dentro de seu quarto de costas para a porta fechada e assustouse ao ouvir a voz de Roberta.
- Elisete disse que estava aqui então subi... Vai viajar? – Perguntou olhando para a mala aberta em cima  da cama.
- Ouí. – Respondeu simplesmente, sem querer entrar em muitos  detalhes.
- Uau! Com todas essas  roupas  imagino que farão uma tournet e tanto!
- Eu  vou viajar  sozinha, Roberta.
- Mas como? Nem Bernard, nem Louise ou outra pessoa do partido irá acompanha-la?
- Não será uma viagem de negócios, ou de política. Na verdade, você é a primeira a saber sobre ela.
- Já sei, vai passar uns dias...  Fez uma pausa e corrigiu-se olhando  para a mala -  Muitos dias em sua  casa de veraneio, acertei?
- Não. Estou indo embora Roberta. Para o Brasil.
- Oh... Está  fugindo chèrie?
- Estou. – Confirmou Nara - Estou fugindo de uma vida que não quero para  mim. Embora ninguém tenha perguntado, eu havia feito planos de trabalhar nas empresas  da família e  de continuar meus estudos. Mas  não  vou fugir no sentido literal da palavra.
- Se está arrumando as malas é porque já tem   uma data  definida e ela deve  estar próxima. – Comenta Roberta  planejando seus  próximos passos.
- D’àccord. Em uma  semana, dez  dias no máximo.
- É claro que Claude está de  acordo com essa sua atitude...
- Completamente de acordo.
- Vai morar  com ele, não é?
- De imediato sim. Mas pretendo ter meu próprio espaço. Não preciso que ele perca  a liberdade por minha  causa.
- Sua mãe não    aprovará  isso, Nara. Rela  conta  com você. Tem certeza que está pronta para enfrenta-la?
- Não vou enfrenta-la. Talvez eu até me despeça quando estiver saindo para o aeroporto. Se  ela vai aprovar, gostar ou não; se ela vai aceitar ou entender, será problema dela, não meu.
- Mas e seu compromisso com Bernard?
- Oficialmente eu não tenho nenhum compromisso com ele e sentimentalmente muito menos.
Roberta observou  Nara separar  mais algumas  roupas do armário enquanto pensava.  Então perguntou:
- Você se ofenderia caso eu... Ocupasse o seu lugar junto a Bernard?
- Eu? É lógico que não, Roberta. Mas vai desistir de Claude?
- Desistir de Claude? Não, meu bem. Seu irmão vai estar sempre  na minha lista de esperas. No primeiro lugar. Estou apenas  cogitando algo mais imediato, que não necessite de  esperas. – E  que seja mais lucrativo – Completou em pensamento.
- Sabe Roberta, eu não entendo esse seu amor por ele. Tem certeza que é amor?
- Nara, eu amo seu irmão desde que era uma pirralha de quinze anos...
Nara tentou entender a  explicação de  Roberta. Mas não  encontrava sentido nela.
- Eu acho que  você  se iludiu e que  minha mãe  tem muita culpa nisso. Sei também que  vai parecer  cruel, mas não há  outro modo de dizer, Roberta. Claude, nunca  vai amá-la. A única  mulher que ele ama é Rosa.
- Seu irmão é quem foi iludido, chèrie. O que ele sentiu por essa brasileira foi apenas uma  paixão, uma atração física. Se eles se amassem de fato, estariam juntos e “ela” não o teria  deixado daquele modo tão inesperado. Claude  vai  voltar e  se render a mim.
- Acredita mesmo nisso, não é?
- Sim.
- E caso ele volte o que fará se  estiver  com Bernard?
- Divórcios servem para isso, Nara. Deixamos alguém que não queremos mais por outro alguém que nos  faça feliz.   Fez uma pausa e levantou-se.  - Eu ia convida-la para um café, mas fica pra outro dia. E caso precise de ajuda para o seu plano de fuga, conte  comigo.
Roberta caminhou até a porta e parou, como se  fosse  revelar algo.  Mas apenas sorriu e despediu-se:
 - Au revoir, chèrie! Não precisa me acompanhar continue sua tarefa.
Nara despediu-se e  voltou a  dobrar e  colocar suas  roupas na mala. Jamais entenderia Roberta. E jamais  concordaria  com ela. Não podia ser  amor o que sentia  por Claude. Parecia mais com obsessão. A pior delas, pois  tinha certeza que se Claude casasse com ela seria infeliz pelo resto da  vida. Mais infeliz do que era agora, sem Rosa.   Balançou a cabeça, tirando essa ideia  do pensamento. Isso não aconteceria. Claude estava no Brasil,  bem perto de Rosa. E não era uma proximidade apenas geográfica, tinha  certeza  disso.



PSV



Roberta saiu da mansão  com  um sorriso malicioso nos lábios bem pintados.  Com Nara fora  da jogada seria muito mais fácil convencer a Bernard que seria uma boa  substituta.
Substituta  não, oras!  Bastava a experiência de querer substituir  Rosa, a queridinha de Claude. Eu serei a única! A líder. A  indispensável. A insubstituível. Prevaleceria até mesmo sobre a poderosa Louise Geraldy. Tanto com Bernard quanto no partido. Com  Bernard, ela não teria mais vínculo algum. Já  com o partido, quem sabe lhe sobrasse uma participaçãozinha. Voluntária, é  claro.
Este seria  o seu triunfo. Tiraria de Louise qualquer  chance, qualquer possibilidade, qualquer oportunidade de  continuar  se dando bem.  Já podia até sentir o   gosto doce da  vingança e sua  saliva. E isso transbordava em  sua   boca.



PSV


                              Continua na próxima semana