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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

PSV/Capítulo 44

PSV



Sérgio aproveitou a pouca luz do entardecer para  tirar mais fotos dos casarões  em torno da galeria, em sua maioria restaurados. Fez o caminho de  retorno observando os pontos  de referência e logo estava de volta à quadra da galeria.
Continuou fotografando rua acima. O bairro, descobrira  em suas  pesquisas,  era um  dos mais tradicionais da cidade de São Paulo,  colonizado por italianos e famoso por sua gastronomia e cultura com diversas cantinas italianas e boas opções de teatro.
Para quem conhece a  Itália, o lugar era o aconchego de um bairro italiano no coração de São Paulo.
Em frente ao restaurante onde estivera algumas  vezes  com o pessoal da galeria,   admirou mais uma vez a harmonia da arquitetura ali  presente,  visivelmente uma  herança da arquitetura  europeia.
Já estava no quarto click da câmera quando  ouviu a pergunta.
- Poderia explicar por que insiste em fotografar o restaurante?
Beto abaixou a câmera e virou o corpo.
- Pardon, eu não estava fotografando o restaurante em si. Estou interessado no prédio e em sua conservação.
- Sinto muito, ele está  com minha família há mais de cinquenta anos e não está à venda.
- Oh, não, não!  Não quero compra-lo.  Meu interesse é puramente artístico. – explicou-se Beto. -  Que  falta de educação  a minha. Eu sou Beto Dhurent, e estou a frente  dos trabalhos na exposição da Galeria Athena.
- Sim eu o reconheci. – Ddz  Cleide -  Já esteve aqui com os proprietários da galeria. Cleide Barcellos. – apresenta-se - Sou a proprietária do restaurante.
- É um prazer conhecê-la, Cleide. Você  disse cinquenta anos. Será que teria alguma foto antiga  dele?
- Várias.  
- Voilà, voilà! – exclama Beto eufórico -  Poderia me mostrar?
- Sim, mas não de imediato. Estão num álbum em minha casa.
- Amanhã? – pede Beto - Nesse mesmo horário?
- Ok. Amanhã. – concorda Cleide. -  Bem, eu tenho que entrar. – Afirmou quando Beto não saia de sua  frente.
- Ah, claro! – exclamou  ele percebendo sua  falta de atenção. – Tenha uma excelente noite. – desejou deixando que Cleide passasse.
E a acompanhou com o olhar até que ela entrasse no restaurante.



PSV



Roberta ignorou a hora e entrou, surpreendendo-se  pelo bom gosto na disposição e exposição das obras. A Eros era uma galeria  voltada à  Arte Contemporânea, constatou olhando rapidamente pelas  três  paredes a  sua frente.
A funcionária que a observava confirmou com  um suspiro resignado que sairia mais tarde naquele dia.  Trocou  o  cansaço por um sorriso e aproximou-se da  provável nova cliente.  Nunca a  tinha  visto  por ali e pelas roupas podia-se dizer que era  alguém  acima  da  classe média que costumava  frequentar a Eros.
Bem se eu fizer uma  boa venda, a comissão valerá o sacrifício de sair mais tarde.
- Com licença,  posso ajuda-la senhora? – perguntou amavelmente.
- Ouí.  Milton está?
-  Sim, a quem devo anunciar?

- Roberta. Roberta Vermont. 



Ninica afastou-se até a sala de Milton. Bateu e entrou.
- Com licença, Milton...
- Sim, você  pode ir,  Ninica. Trave a  porta por fora e...
- Não, não é isso. Você tem visita.
- À essa hora... – reclama olhando para  o relógio. – Quem é?
- Roberta Vermont.
- Não conheço nenhuma Roberta...
- Ela não parece ser  brasileira. Pelo sotaque  diria que é  francesa.
- Olalá! – exclamou Milton – Mande-a entrar. E depois  pode ir.
- Está bem. Até amanhã.
Ninica encaminhou Roberta até a sala de Milton e retirou-se.
- Roberta Vermont. – disse admirando-a -  Eu a conheço? – perguntou enquanto ela sentava em uma das cadeiras a  sua frente.
- Não, eu o conheço. – afirmou  Roberta -  Mas não tão intimamente quanto  gostaria. – e sorriu sedutoramente.
- Oh,  e em que posso ajuda-la?
-  Podia  começar me  convidando para  jantar.  Estou faminta.
Milton soltou  o  corpo sobre o encosto de  sua  cadeira e  olhou para  Roberta tentando avaliar sua intenção. Apoiou a ponta  da caneta em cima do papel a sua  frente e rodou-a várias vezes, antes de perguntar:
- Gostaria de jantar comigo?
- Mulheres francesas não gostam de perguntas, Milton.
- Jante comigo. – disse com  um leve levantar  das sobrancelhas,  mudando o tom da voz.
- Agora está sendo muito exigente. – replicou Roberta sustentando  o olhar. – Isso não é  bom.
- Quer jantar comigo? – tentou Milton mais uma vez.
- Outra pergunta.  Você  pode  fazer melhor  que isso, eu tenho certeza.
Milton deu um sorriso cafajeste e largou a caneta, displicentemente antes de levantar-se e dizer:
- Eu vou jantar.  Se quiser me acompanhar...
Roberta retribuiu o sorriso.
- Agora sim começamos a nos entender. – disse antes de acompanha-lo.



PSV


Rosa deixou a travessa  sobre a mesa antes  de pegar o celular  e  conferir a chegada  de mensagens. “Oi mamãe”. Três  vezes.
Sorriu e dizendo a Dadi que já  voltava caminhou para  o interior do apartamento devolvendo vários  “ois” a Alex. Era assim   há alguns  dias, desde que Claude  dera  um celular que já não usava mais para a filha, sob sua  desaprovação. Não  via  necessidade de uma criança  de cinco anos ter um celular.
O jeito foi criar  regras: Só usar  em casa e sob a vigilância de um adulto, por alguns  minutos; nunca leva-lo a escola, nem à mesa durante as refeições eram algumas  delas.
Sorriu, admitindo que  se encantava  com as  descobertas de Alex e  sua  facilidade em escrever algumas palavras.  Encontrou-a deitada em  seu quarto.
- Muito bem, mocinha, já  chega por hoje...
- Ah, mamãe, só mais um “poquinho”!
- Sinto muito mas não hum? O jantar está pronto e eles  estão  chegando.
- Ah, “mais”... – a saída  de Claude  do closet chama  sua atenção – Papai  fala  pra mamãe “dexá” eu “brincá” mais  um “poco”  com o celular que  você me deu?
- Ela já mandou  você  desligar?
- Já, mas eu queria  “brincá” mais! – pede manhosa.
Claude  dá uma  rápida olhada  para  Rosa e senta-se ao lado de Alex.
- Já brincou  o  suficiente por esta noite, Alexandra. Agora seja uma  boa  garota e obedeça  sua mãe.  – diz Claude. – Combinamos isso, não foi? – questionou-a ainda.
- Ouí... – responde sacudindo a cabeça e fazendo bico.
- Então desligue o celular  se  não quiser perdê-lo. – alertou-a de maneira  firme, porém carinhosa.
- Tá  bom! – eespondeu com  uma leve cara  de  birra que  desapareceu assim que  ouviu a campainha. – Eles “chegaro”, eu  vou abrir  a porta! – exclamou largando   o celular sobre a cama.
E  correu para  a sala.
- Dadi, eu abro a porta pra  tia Janete e pra tia Nara e...
Claude  se levantou e Rosa aproximou-se. Ela  ajeitou a gola  da camisa que ele vestia.
- Obrigada por me apoiar! – sussurrou antes de beijá-lo suavemente sobre os lábios.
-  Acho que estou aprendendo rápido hã? Explicar a regra com confiança e calmamente,  quando disser "não" sempre explicar por quê   para que ela  obedeça sem  ser  por  medo.
- E nunca  desautorizar o outro, exatamente como fez.– respondeu Rosa.  – Será que conseguiremos sempre?
-  É claro que sim. – Afirmou Claude  sorrindo. -  Vamos? – perguntou oferecendo o braço a ela.



PSV


- E o que eu lucraria  com isso? – pergunta Milton servindo as   taças com  mais  vinho.
- Alguns milhares  de euros e a queridinha dele, que parece  ser a  sua  também. – responde Roberta entre os  goles que  bebia
- Com ciúmes?
- Com ódio. – afirmou Roberta. – Essa mulher atravessou  meu  caminho duas  vezes.  Quero atingi-la no que  mais vai lhe  doer.
- Tirar a menina deles não vai separa-los Vai uni-los ainda mais.
- Por algum tempo. Até  começarem a  culpar um ao outro e essa  culpa vai destruir o lindo amor que sentem. 
- Então você o consolará...
- E o convencerei a voltar  comigo para a França, onde a menina estará mais  segura.
- Mais segura? Com todos  esses  ataques  terroristas acontecendo  por lá, isso soa  como uma piada.
- Ela ficará segura  em um internato, eu garanto. – afirmou Roberta  sorrindo de forma  sarcástica.
- E então? – perguntou depois de um longo silencio. – Já  lhe  dei todas as  razoes e  justificativas. O destino foi muito complacente  colocando-o em meu caminho, mas meu tempo aqui é  curto. Preciso saber  se  está  disposto a  me ajudar.
- Você  tem essa noite para pensar. Quero a resposta amanhã logo cedo.
Milton sorriu e usando sua melhor  cara de cafajeste levantou-se da mesa  dizendo:
-Se quer uma resposta  logo cedo me acompanhe. Eu penso muito melhor com uma mulher na cama.  Espero que sendo francesa  esteja  aberta a essa oportunidade sem necessidade de  perguntas...


PSV



Quando Claude voltou à sala,  Dadi servia  o café.
- E  volta  o pai do ano! – brinca  Frazão
- Mon Dieu, hoje ela  extrapolou o horário hã?  Praticamente chegou ao quarto  dormindo.
- Também com  esses  tios que  fazem as  vontades  dela. Até  bola jogaram  com ela. – falou Rosa.
- Foi muito inteligente sua ideia de fazê-la tomar  banho e  colocar  o pijaminha logo após  a  sobremesa, Rosa.  -  observou Janete.
- Ah, são truques que a gente  aprende com o tempo Jane. Evita  pirracinhas.
- Eu estou chateada. – diz Nara. – Vocês podiam muito bem ir ao teatro  conosco.
- Prometo que iremos um outro  dia, querida.  Hoje eu faria  feio. Iria dormir na metade  da peça.
- Está bem vou perdoa-la dessa  vez. – falou Nara. -  Sei que tem trabalhado muito na  galeria...
- Bem,  acho melhor irmos ou chegaremos  atrasados. – observou Sérgio levantando-se  e sendo imitado pelos outros.
Despediram-se de Dadi e  formam acompanhados até a porta  por Claude e Rosa.
- Tenham cuidado nos  semáforos, ok? – pediu Rosa enquanto se afastavam em direção ao elevador.
 Assim que  fechou a porta sentiu as mãos de Claude em seus ombros.
- Humm...  Isso é tudo que preciso antes  de  dormir: uma massagem!
-  Eu acredito que  vai ganhar  bem mais que isso, chèrie... -  escutou-o sussurrar em seu ouvido, antes de vê-lo estender  o braço, apagar  a luz e carrega-la para o quarto.


PSV



Milton  saiu  da cama cuidadosamente e sentou-se  no pequeno sofá.  Dali poderia observar Roberta antes que ela  acordasse, o  que  de certo não   demoraria.
Aceitar ou não o que ela  lhe  propunha? Claro que  queria  Rosa. Nem  que  fosse  por apenas uma  noite. Envolver a menina não. Não  era  do seu agrado mas era  a oportunidade que  queria.
Não havia  simpatizado com aquele francês desde o inicio. Ele sempre  lhe parecera uma ameaça e agora  sabia  o porquê. Era ele quem tinha o coração de Rosa. Eram dele e para ele os pensamentos e sentimentos dela.
Tombou o a cabeça no encosto  do sofá e olhou para o teto.
Maldito francês! Aparecer logo agora que estava à altura  dela, agora que também era dono de uma galeria. A única  coisa  boa foi descobrir que ela  nunca  havia  sido amante de John Smith.
Mas será minha. E isso vai abalar, não, isso vai acabar  com essa  relação.    E eu  vou salvar  a sua  filha, Rosa. Vou ser  seu herói e vai me agradecer o resto  da vida...
Roberta espreguiçou e chamou sua atenção  novamente.
- Bonjour!  - exclamou Roberta puxando o  corpo para  trás. –  Conseguiu pensar? – perguntou esticando o braço até alcançar o  maço de cigarros.
- Em tudo. – respondeu Milton voltando para a cama, aceitando o cigarro que ela lhe oferecia. – P que quer  que eu faça primeiro?
-  Primeiro descubra os horários   da bastarda durante a semana. Escola, saídas etc.  E se possível as preferências. O que  gosta de comer, assistir, brincar... Qualquer  coisa que  possa servir de chamariz para  atraí-la. Ah, e não se esqueça de observar  quem está  com  ela. Comece segunda-feira.
-  E você o que  vai  fazer?
- Assim que tiver esses dados, você saberá.  – dá uma tragada soltando a  fumaça lentamente. - Até lá tenho que terminar algo que  comecei. – e encara  Milton -  Na França.


PSV


Cleide observava a reação de Beto ao virar  as páginas do álbum de fotografias, há décadas na família. Notou que os  olhos  brilhavam e os lábios formavam a linha do sorriso de alguém encantado. Não encantado não. Apaixonado. Era assim que ele olhava para aquelas  fotos.
- Isso é  incrível! – Exclamou Beto desviando rapidamente os olhos  das  fotos  para Cleide. – Tem noção  do tesouro que tem em mãos?
- São apenas fotografias. – respondeu  ela
- Apenas  fotografias? - espantou-se se Beto. – Nunca é apenas uma  fotografia! – Exclama  baixando os olhos enquanto procura  uma  explicação.
Então passa a ponta dos  dedos sobre as  fotografias, antes de se expressar.
 - “Clicar”  é imortalizar algo num momento único para onde não mais  se volta a não ser olhando para esse registro,  único e eterno. – e levanta o olhar até encontrar o de Cleide. -  Fotografar é  sentir a  magia do momentos e captura-la para a eternidade. É como... Como olhar para quem se ama... (?)
E por alguns instantes permaneceram quietos, mergulhados num misterioso silêncio; num  olhar que beira a promessas.
Que tumultua o coração e a mente, silenciado as palavras. Que  grita e pergunta dentro da alma e que apenas o silêncio é capaz de escutar e  responder.
Não tiveram pressa em fugir desse momento. Por alguma estranha razão, mesmo sem se  falarem,  sabiam que  teriam tempo para  decifrar esse mistério.


 PSV

                                  Continua...