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Sérgio aproveitou a pouca luz do entardecer para tirar mais fotos dos casarões em torno da galeria, em sua maioria
restaurados. Fez o caminho de retorno
observando os pontos de referência e
logo estava de volta à quadra da galeria.
Continuou fotografando rua acima. O bairro, descobrira em suas
pesquisas, era um dos mais tradicionais da cidade de São
Paulo, colonizado por italianos e famoso
por sua gastronomia e cultura com diversas cantinas italianas e boas opções de
teatro.
Para quem conhece a
Itália, o lugar era o aconchego de um bairro italiano no coração de São
Paulo.
Em frente ao restaurante onde estivera algumas vezes
com o pessoal da galeria, admirou
mais uma vez a harmonia da arquitetura ali
presente, visivelmente uma herança da arquitetura europeia.
Já estava no quarto click da câmera quando ouviu a pergunta.
- Poderia explicar por que insiste em fotografar o
restaurante?
Beto abaixou a câmera e virou o corpo.
- Pardon, eu não estava fotografando o restaurante em si.
Estou interessado no prédio e em sua conservação.
- Sinto muito, ele está
com minha família há mais de cinquenta anos e não está à venda.
- Oh, não, não! Não
quero compra-lo. Meu interesse é
puramente artístico. – explicou-se Beto. - Que
falta de educação a minha. Eu sou
Beto Dhurent, e estou a frente dos
trabalhos na exposição da Galeria Athena.
- Sim eu o reconheci. – Ddz
Cleide - Já esteve aqui com os
proprietários da galeria. Cleide Barcellos. – apresenta-se - Sou a proprietária
do restaurante.
- É um prazer conhecê-la, Cleide. Você disse cinquenta anos. Será que teria alguma
foto antiga dele?
- Várias.
- Voilà, voilà! – exclama Beto eufórico - Poderia me mostrar?
- Sim, mas não de imediato. Estão num álbum em minha casa.
- Amanhã? – pede Beto - Nesse mesmo horário?
- Ok. Amanhã. – concorda Cleide. - Bem, eu tenho que entrar. – Afirmou quando
Beto não saia de sua frente.
- Ah, claro! – exclamou
ele percebendo sua falta de
atenção. – Tenha uma excelente noite. – desejou deixando que Cleide passasse.
E a acompanhou com o olhar até que ela entrasse no
restaurante.
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Roberta ignorou a hora e entrou, surpreendendo-se pelo bom gosto na disposição e exposição das
obras. A Eros era uma galeria voltada
à Arte Contemporânea, constatou olhando
rapidamente pelas três paredes a
sua frente.
A funcionária que a observava confirmou com um suspiro resignado que sairia mais tarde
naquele dia. Trocou o
cansaço por um sorriso e aproximou-se da
provável nova cliente. Nunca
a tinha
visto por ali e pelas roupas
podia-se dizer que era alguém acima
da classe média que
costumava frequentar a Eros.
Bem se eu fizer uma
boa venda, a comissão valerá o sacrifício de sair mais tarde.
- Com licença, posso
ajuda-la senhora? – perguntou amavelmente.
- Ouí. Milton está?
- Sim, a quem devo
anunciar?
- Roberta. Roberta Vermont.
Ninica afastou-se até a sala de Milton. Bateu e entrou.
- Com licença, Milton...
- Sim, você pode
ir, Ninica. Trave a porta por fora e...
- Não, não é isso. Você tem visita.
- À essa hora... – reclama olhando para o relógio. – Quem é?
- Roberta Vermont.
- Não conheço nenhuma Roberta...
- Ela não parece ser
brasileira. Pelo sotaque diria
que é francesa.
- Olalá! – exclamou Milton – Mande-a entrar. E depois pode ir.
- Está bem. Até amanhã.
Ninica encaminhou Roberta até a sala de Milton e retirou-se.
- Roberta Vermont. – disse admirando-a - Eu a conheço? – perguntou enquanto ela
sentava em uma das cadeiras a sua
frente.
- Não, eu o conheço. – afirmou Roberta - Mas não tão intimamente quanto gostaria. – e sorriu sedutoramente.
- Oh, e em que posso
ajuda-la?
- Podia começar me
convidando para jantar. Estou faminta.
Milton soltou o corpo sobre o encosto de sua
cadeira e olhou para Roberta tentando avaliar sua intenção. Apoiou
a ponta da caneta em cima do papel a
sua frente e rodou-a várias vezes, antes
de perguntar:
- Gostaria de jantar comigo?
- Mulheres francesas não gostam de perguntas, Milton.
- Jante comigo. – disse com
um leve levantar das
sobrancelhas, mudando o tom da voz.
- Agora está sendo muito exigente. – replicou Roberta
sustentando o olhar. – Isso não é bom.
- Quer jantar comigo? – tentou Milton mais uma vez.
- Outra pergunta.
Você pode fazer melhor
que isso, eu tenho certeza.
Milton deu um sorriso cafajeste e largou a caneta,
displicentemente antes de levantar-se e dizer:
- Eu vou jantar. Se
quiser me acompanhar...
Roberta retribuiu o sorriso.
- Agora sim começamos a nos entender. – disse antes de acompanha-lo.
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Rosa deixou a travessa
sobre a mesa antes de pegar o
celular e conferir a chegada de mensagens. “Oi mamãe”. Três vezes.
Sorriu e dizendo a Dadi que já voltava caminhou para o interior do apartamento devolvendo vários “ois” a Alex. Era assim há alguns
dias, desde que Claude dera um celular que já não usava mais para a
filha, sob sua desaprovação. Não via
necessidade de uma criança de
cinco anos ter um celular.
O jeito foi criar
regras: Só usar em casa e sob a
vigilância de um adulto, por alguns
minutos; nunca leva-lo a escola, nem à mesa durante as refeições eram
algumas delas.
Sorriu, admitindo que
se encantava com as descobertas de Alex e sua
facilidade em escrever algumas palavras.
Encontrou-a deitada em seu
quarto.
- Muito bem, mocinha, já
chega por hoje...
- Ah, mamãe, só mais um “poquinho”!
- Sinto muito mas não hum? O jantar está pronto e eles estão
chegando.
- Ah, “mais”... – a saída
de Claude do closet chama sua atenção – Papai fala
pra mamãe “dexá” eu “brincá” mais
um “poco” com o celular que você me deu?
- Ela já mandou
você desligar?
- Já, mas eu queria
“brincá” mais! – pede manhosa.
Claude dá uma rápida olhada
para Rosa e senta-se ao lado de
Alex.
- Já brincou o suficiente por esta noite, Alexandra. Agora seja
uma boa
garota e obedeça sua mãe. – diz Claude. – Combinamos isso, não foi? – questionou-a
ainda.
- Ouí... – responde sacudindo a cabeça e fazendo bico.
- Então desligue o celular
se não quiser perdê-lo. – alertou-a
de maneira firme, porém carinhosa.
- Tá bom! – eespondeu
com uma leve cara de
birra que desapareceu assim
que ouviu a campainha. – Eles “chegaro”,
eu vou abrir a porta! – exclamou largando o celular sobre a cama.
E correu para a sala.
- Dadi, eu abro a porta pra
tia Janete e pra tia Nara e...
Claude se levantou e Rosa
aproximou-se. Ela ajeitou a gola da camisa que ele vestia.
- Obrigada por me apoiar! – sussurrou antes de beijá-lo suavemente
sobre os lábios.
- Acho que estou aprendendo
rápido hã? Explicar a
regra com confiança e calmamente, quando disser "não" sempre explicar por quê para
que ela obedeça sem ser
por medo.
- E nunca desautorizar
o outro, exatamente como fez.– respondeu Rosa.
– Será que conseguiremos sempre?
- É claro que sim. –
Afirmou Claude sorrindo. - Vamos? – perguntou oferecendo o braço a ela.
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- E o que eu
lucraria com isso? – pergunta Milton
servindo as taças com mais
vinho.
- Alguns
milhares de euros e a queridinha dele,
que parece ser a sua
também. – responde Roberta entre os
goles que bebia
- Com
ciúmes?
- Com ódio.
– afirmou Roberta. – Essa mulher atravessou
meu caminho duas vezes.
Quero atingi-la no que mais vai
lhe doer.
- Tirar a menina
deles não vai separa-los Vai uni-los ainda mais.
- Por algum
tempo. Até começarem a culpar um ao outro e essa culpa vai destruir o lindo amor que
sentem.
- Então você o consolará...
- E o convencerei a voltar
comigo para a França, onde a menina estará mais segura.
- Mais segura? Com todos
esses ataques terroristas acontecendo por lá, isso soa como uma piada.
- Ela ficará segura em
um internato, eu garanto. – afirmou Roberta
sorrindo de forma sarcástica.
- E então? – perguntou depois de um longo silencio. – Já lhe
dei todas as razoes e justificativas. O destino foi muito
complacente colocando-o em meu caminho,
mas meu tempo aqui é curto. Preciso
saber se
está disposto a me ajudar.
- Você tem essa noite
para pensar. Quero a resposta amanhã logo cedo.
Milton sorriu e usando sua melhor cara de cafajeste levantou-se da mesa dizendo:
-Se quer uma resposta
logo cedo me acompanhe. Eu penso muito melhor com uma mulher na cama. Espero que sendo francesa esteja
aberta a essa oportunidade sem necessidade de perguntas...
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Quando Claude voltou à sala,
Dadi servia o café.
- E volta o pai do ano! – brinca Frazão
- Mon Dieu, hoje ela
extrapolou o horário hã? Praticamente chegou ao quarto dormindo.
- Também com
esses tios que fazem as
vontades dela. Até bola jogaram
com ela. – falou Rosa.
- Foi muito inteligente sua ideia de fazê-la tomar banho e
colocar o pijaminha logo após a
sobremesa, Rosa. - observou Janete.
- Ah, são truques que a gente
aprende com o tempo Jane. Evita
pirracinhas.
- Eu estou chateada. – diz Nara. – Vocês podiam muito bem ir
ao teatro conosco.
- Prometo que iremos um outro
dia, querida. Hoje eu faria feio. Iria dormir na metade da peça.
- Está bem vou perdoa-la dessa vez. – falou Nara. - Sei que tem trabalhado muito na galeria...
- Bem, acho melhor
irmos ou chegaremos atrasados. – observou
Sérgio levantando-se e sendo imitado
pelos outros.
Despediram-se de Dadi e
formam acompanhados até a porta
por Claude e Rosa.
- Tenham cuidado nos
semáforos, ok? – pediu Rosa enquanto se afastavam em direção ao
elevador.
Assim que fechou a porta sentiu as mãos de Claude em
seus ombros.
- Humm... Isso é tudo
que preciso antes de dormir: uma massagem!
- Eu acredito que vai ganhar
bem mais que isso, chèrie... - escutou-o
sussurrar em seu ouvido, antes de vê-lo estender o braço, apagar a luz e carrega-la para o quarto.
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Milton saiu da cama cuidadosamente e sentou-se no pequeno sofá. Dali poderia observar Roberta antes que ela acordasse, o
que de certo não demoraria.
Aceitar ou não o que ela
lhe propunha? Claro que queria
Rosa. Nem que fosse
por apenas uma noite. Envolver a
menina não. Não era do seu agrado mas era a oportunidade que queria.
Não havia simpatizado
com aquele francês desde o inicio. Ele sempre
lhe parecera uma ameaça e agora
sabia o porquê. Era ele quem
tinha o coração de Rosa. Eram dele e para ele os pensamentos e sentimentos
dela.
Tombou o a cabeça no encosto
do sofá e olhou para o teto.
Maldito francês! Aparecer logo agora que estava à altura dela, agora que também era dono de uma
galeria. A única coisa boa foi descobrir que ela nunca
havia sido amante de John Smith.
Mas será minha. E isso vai abalar, não, isso vai acabar com essa
relação. E eu vou salvar
a sua filha, Rosa. Vou ser seu herói e vai me agradecer o resto da vida...
Roberta espreguiçou e chamou sua atenção novamente.
- Bonjour! - exclamou
Roberta puxando o corpo para trás. –
Conseguiu pensar? – perguntou esticando o braço até alcançar o maço de cigarros.
- Em tudo. – respondeu Milton voltando para a cama, aceitando
o cigarro que ela lhe oferecia. – P que quer
que eu faça primeiro?
- Primeiro descubra os
horários da bastarda durante a semana.
Escola, saídas etc. E se possível as preferências. O
que gosta de comer, assistir, brincar...
Qualquer coisa que possa servir de chamariz para atraí-la. Ah, e não se esqueça de observar quem está
com ela. Comece segunda-feira.
- E você o que vai
fazer?
- Assim que tiver esses dados, você saberá. – dá uma tragada soltando a fumaça lentamente. - Até lá tenho que
terminar algo que comecei. – e
encara Milton - Na França.
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Cleide observava a reação de Beto ao virar as páginas do álbum de fotografias, há décadas
na família. Notou que os olhos brilhavam e os lábios formavam a linha do
sorriso de alguém encantado. Não encantado não. Apaixonado. Era assim que ele
olhava para aquelas fotos.
- Isso é incrível! –
Exclamou Beto desviando rapidamente os olhos
das fotos para Cleide. – Tem noção do tesouro que tem em mãos?
- São apenas fotografias. – respondeu ela
- Apenas fotografias?
- espantou-se se Beto. – Nunca é apenas uma
fotografia! – Exclama baixando os
olhos enquanto procura uma explicação.
Então passa a ponta dos
dedos sobre as fotografias, antes
de se expressar.
- “Clicar” é imortalizar algo num momento único para onde
não mais se volta a não ser olhando para
esse registro, único e eterno. – e
levanta o olhar até encontrar o de Cleide. - Fotografar é sentir a
magia do momentos e captura-la para a eternidade. É como... Como olhar para quem se
ama... (?)
E por alguns instantes permaneceram quietos, mergulhados num misterioso silêncio; num olhar que beira a
promessas.
Que tumultua o coração e a mente, silenciado as palavras. Que grita e pergunta
dentro da alma e que apenas o silêncio é capaz de escutar e responder.
Não tiveram pressa em fugir desse momento. Por alguma estranha razão, mesmo sem se falarem, sabiam
que teriam tempo para decifrar esse mistério.
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Continua...

