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sexta-feira, 29 de abril de 2016

PSV/Capítulo 34

PSV



Do lado de fora, Beto ajeitou  a mochila nas  costas  e puxou a mala para  fora do apartamento. Então, deu uma última e nostálgica olhada para  ele antes de fechar a porta e seguir pelo corredor.
- Sem dramas e sem melancolia, Beto. – Disse a si mesmo entrando no elevador.
No térreo, entregou as  chaves ao administrador, assinando o termo de permissão para que  fosse alugado em sua  ausência. Afinal seria um desperdício deixar o imóvel “abandonado” por  tantos  meses, já que não pretendia  voltar  tão cedo à França.
Mas também não tinha pressa em chegar a Itália, onde assinaria o contrato e faria já alguns testes, antes de seguir para o Brasil. Por isso,  descartara a ideia de ir de avião e se estressar com o traslado do centro da cidade até o aeroporto, tempo com check-in, espera pelas bagagens, sem contar o possível atraso no voo.
Iria se despedir com classe. Agora, que dispunha de tempo livre e todo seu, iria de Paris a Roma de trem. Sem burocracia no embarque,  bagagem ao seu lado, conforto, pontualidade e praticamente nenhum atraso.
Outra razão é que precisava readaptar os olhos, recuperar  seu olhar fotográfico para o belo, coisa que havia deixado de lado nos últimos anos, naquele trabalho   frio e calculista de seguir  pessoas e registar  suas infidelidades.
Para fotografar Arte é preciso um olhar a mais antes de apertar o obturador; é  preciso um ideal, uma visão, um sentimento e uma leitura própria de mundo.
Portanto, nada melhor que, expor seu olhar   às belas paisagens que veria nessa viagem. Como dizia um de seus  professores, fotografar é registrar alguma coisa que você queira guardar na memória, mas para guardar na memória é preciso antes vivê-la com o olhar.



PSV



Claude repassou todas as instruções e encerrou a reunião. Sérgio e Janete levantaram-se ao mesmo tempo e saíram da  sala. Rosa demorou propositalmente mantendo-se sentada.  Estava há dois  dias  lutando  contra  sua  covardia para falar com ele.
Suspirou e fechou sua agenda com uma  força maior que a normal. O ruído fez Claude  voltar  seu olhar  para ela.
- Algum problema, ainda discorda de algo?
- Não,  concordo com  todas as  suas  indicações...
- Então?
- É que... Bem eu queria  falar  com você sobre... Sobre...
- Não vou desistir de  você às quartas-feiras. – Afirmou sem  deixar de olha-la.
- Droga! – Exclamou Rosa levantando-se -   Por que  você sempre quer  dificultar  tudo?
- Não estou dificultando. Deixei bem claro desde o começo que eu decido quando vamos parar.
- Eu me recordo muito bem desse detalhe. Mas não é sobre isso  que eu queria falar.
- Queria? Então não quer mais?
- É claro que quero!   Importa-se que eu  venha à galeria somente  depois do almoço?
- Posso saber o motivo antes  de responder?
- Alex. Eu gostaria de passar as manhãs  com ela. Ao menos este  resto de ano, já que no próximo ano a escola será período integral. Além do mais, Sílvia vai  tirar  suas  férias em breve  e eu não tenho com quem  deixa-la. Joana sempre  me socorria, mas  ela também está  viajando...
- D’àccord. Não tenho nada  contra. Afinal você tem dez por cento de tudo isso, além de ser a  dona do prédio.
- Não, não sou. O imóvel está registrado em nome de Alexandra. Foi uma  da  condições que  impus para a instalação da galeria. Vou avisar Janete e a partir de segunda já não venho pela manhã. Obrigada pela compreensão.
- Não tem porque agradecer. Mas  me diga hoje é sábado, por que não a trouxe?
- Ela não acordou sozinha e achei melhor deixa-la dormir um pouco mais.  Além do mais, ela não  nos  daria sossego durante essa reunião. Quem sabe o próximo... - Disse isso e juntou suas  coisas. 
Então, caminhou para a porta, indecisa. Claude pareceu perceber essa indecisão e  perguntou:
- Era só isso mesmo?
Rosa voltou-se para ele.
- Na verdade não. Eu acho que  minha echarpe  ficou na  sua  casa, não a encontro em lugar  algum. Você a viu, a encontrou em seu quarto?
- Voilà, creio que não devo pensar que a esqueceu para  ter uma desculpa e poder  voltar, não é?
- Não, eu não a esqueci de propósito.
- D’àccord. Dadi a encontrou, no sofá  da sala, sob as almofadas.
- Oh, céus! Ainda bem que ela não sabe que é  minha senão o que  iria pensar... O que foi, por que está  com esse  sorrisinho no canto da boca?
- Ela  viu você entrando no prédio, hã? E reconheceu a echarpe. Mas não se preocupe eu disse que foi uma reunião de negócios, assuntos  da galeria que tinham que ser  resolvidos.
- E Dadi acreditou? – Questionou desconfiada.
- E que  motivos ela  teria para não acreditar? – Revidou ele erguendo uma das  sobrancelhas.
- Você tem razão, como sempre. Não há motivos para ela suspeitar  sobre nada. Será que pode   me devolvê-la?
- Ouí.  Na próxima quarta-feira.
- Mas...
- A não ser que queira me  fazer uma visita  extra...
- Não! E muito obrigada por nada! – Exclama virando as  costas -  Você é... É detestável! -  Diz  com toda dignidade que é  capaz antes  de sair  da  sala.





PSV




Nara ignorou as palavras da recepcionista e afastando-a da porta entrou na sala da presidência, onde Frazão estava.
- Frazão eu preciso falar  com você e tem que ser agora!
- Desculpe, eu tentei impedi-la, mas ela não quis me ouvir...- Tentou explicar-se a  moça, aflita.
- Está  tudo bem, Simone! – Disse Frazão olhando-a calmamente. -  Camille – Disse  voltando-se para a secretária – Deixe-nos a sós e explique a Simone sobre Nara, sim?
- Sim senhor, com licença. – Disse levantando-se - Venha  Simone. Não se preocupe, você é nova aqui e não tem obrigação de conhecer todos.  Nara é uma das herd...  – Foi tudo que Nara  ouviu até que a secretária  fechasse a porta  por  completo.
- Então,  o que houve para  deixa-la assim tão exaltada? – Pergunta Frazão, só então reparando que Nara trajava  roupas de ginástica.
Nara sentou-se na cadeira em frente  à mesa e entregou um envelope a ele enquanto dizia:
- Isso!
Frazão abriu o envelope e algumas  fotos escorregaram de dentro dele. Não precisou pedir  mais explicações. As  fotos  mostravam Louise e Bernard se despedindo ao sair daquele hotel, em restaurantes e até mesmo do prédio onde ele morava. Todas semelhantes às que ele mesmo tinha, guardadas em  sua  gaveta. Mesmo  tirando suas  próprias  conclusões, perguntou:
- Como isso chegou até  você?
- Eu estava saindo para uma caminhada, como faço todos os dias e um garoto me entregou assim que sai para a rua.
- Mostrou a mais alguém?
- Não, vim  direto pra cá, apesar da vontade de esfrega-las  na cara dela!
- Acalme-se Nara.
- Você não está surpreso. Já sabia disso, não é?
- Sim, eu já sabia.
- E não ia  me falar nada!
- Não, não ia. Você já descobriu muitas fraquezas de sua mãe  e já decidiu não compactuar  com ela e ir embora. Não achei necessário que se desgastasse  com mais essa...
- Baixaria. – Completou Nara -  Eu sinto tanto nojo dos dois!
Frazão colocou os dedos sobre  o puxador da gaveta e  hesitou por um momento. Dane-se, pensou abrindo-a e retirando um envelope semelhante ao de Nara.
- É melhor se preparar para o que  vai ver. Já mais uma pessoa envolvida  nessa história. – Comenta tirando fotos  do envelope, sob o olhar de  Nara.
- Quem?
- Veja você mesma! – Diz entregando algumas  fotos a ela.
- Não pode ser... – Começou a falar Nara passando as fotos uma a uma.
- Mas é. – Afirmou Frazão.
- Roberta! – Exclama ainda incrédula– Ele... Bernard está saindo com as duas,  fazendo jogo duplo e eu seria a terceira... A reserva!  Mon Dieu, acho que  vou vomitar...
E correu para o banheiro particular da sala da presidência. Quando voltou a sala, havia água e café a sua  disposição.
- Sente-se melhor? – Perguntou Frazão.
- Sim, obrigada. Acho que coloquei tudo que sentia para  fora, me desculpe.
- Venha, vamos dar uma  volta pelo jardim. Um pouco de ar fresco vai lhe fazer bem enquanto conto como descobri isso tudo.




PSV




Rosa colocou a  chave na  fechadura e suas  mãos   tremeram ligeiramente. Virou-a, abriu a porta e entrou no apartamento de Claude.
Já havia estacionado o carro quando atendeu a ligação dele. “Use a  cópia da chave e entre. Estou saindo de um congestionamento e devo chegar em uns  vinte  minutos.” E tão rápido quanto disse encerrou a ligação, não esperando por uma resposta. Ficou pasma  com a  confiança dele em que estivesse  com a chave.
E  ficou por um instante parada no centro da sala, tentada a ir embora. Poderia deixar um bilhete do tipo: “Não sou obrigada a nada” e voltar  para casa.  Seria um golpe certeiro na arrogância de Claude, pensava. Não, melhor não provoca-lo, alertou-a o outro lado de sua  consciência.
Lembrou-se da echarpe e foi até o  quarto. Devia estar  por lá. Começou a procura pelo banheiro. Nada.  Passou ao closet, abrindo o armário. Em vão também. Ao tentar abrir um dos  maleiros, no alto,   torceu  o pé. 
- Era só o que  faltava!  Esbravejou, culpando  o salto alto.
Tirou a sandália e caminhou mancando de  volta ao quarto. Sentou-se na  cama e massageou o pé  dolorido. Foi então que  reparou. A ponta  de sua echarpe escapava de um dos travesseiros. O do lado oposto ao que Claude  costumava ficar...
Puxou a echarpe e deitou-se, esticando a perna, o pé ainda dolorido. Claude estava demorado. Já estava ali há mais de vinte  minutos!
Enrolou a echarpe no braço e fechou os olhos  imaginando   porquê ele a colocaria ali.  E pensou como seria bom se ele ainda a amasse e estivessem juntos, como marido e mulher, como o casal que  foram um dia...
Mexeu-se na cama e abriu  os olhos  com aquela sensação de ter se perdido no tempo e de que era  observada.
E lá estavam eles. Os  olhos  de Claude. Fixos nela. 



- Acho que  dormi sem querer... – Murmurou erguendo e encostando o  corpo na cabeceira  da cama -   Há quanto tempo  está me observando?  - Perguntou piscando várias  vezes.
- Alguns minutos apenas. – Respondeu ele, depois de mais um gole da bebida que segurava -  Você parecia encantada. Pensava em como acorda-la... – Completou desprezando o resto da bebida, abandonando o copo no aparador.
E sem cerimônia tirou os sapatos e ajeitou-se ao lado dela, encostando-se  à cabeceira  também.
- Cansada? – Perguntou depois de um instante de silêncio, num quase  sorriso.
- Não. Eu torci o pé agora  a  pouco – Falou balançando ele -  Então deitei,  fechei os olhos por  um momento e acabei relaxando profundamente. – E então olhou para ele - Devia ter  esperado na sala?
- Não. – Disse tocando-a no rosto com a mão - Encontrar  você tão a vontade nessa cama foi a melhor coisa da minha noite... Até agora. -  Completou inclinando a cabeça e beijando-a.
O corpo de Claude ajustou-se ao dela primeiro. Então sua mão deslizou passando pelo ombro de Rosa até alcançar-lhe as  costas, e puxá-la fazendo-a prisioneira do seu  corpo.
E os lábios escorregaram até  o ouvido, e murmuram algumas  palavras enquanto a mão avançava  por sobre a blusa, ávida por soltar  cada um dos  seus botões.
Quando todos já estavam livres, desceu lentamente com  a ponta dos dedos sobre a pele arrepiada de Rosa e o  botão da calça jeans  deixou de ser obstáculo.
Percorreu o mesmo caminho com a língua, arrastando-a desde a lateral do pescoço até encostar no cós  da calça. Então ergueu seu torso e equilibrou-se antes de puxá-la para baixo, deixando as pernas de Rosa livres. Aproveitou esse momento de doce fragilidade dela e  num movimento sutil  juntou-lhe os braços acima da cabeça, e  usou a echarpe para prendê-los na altura  dos pulsos.
- O que está  fazendo? - E  voz  de Rosa  saiu rouca e tremida.
- Relaxa! – Respondeu ele calmamente, tirando a própria  roupa. -  Relaxa e aproveita o momento.
E sua  boca  cobriu a dela, evitando  o som de um novo protesto.  Não a  forçou nem exigiu que ela  entreabrisse os lábios, tolerando a resistência inicial.
Seus lábios pressionaram os  dela sedutoramente de segundo em segundo, esperando por  recompensa, que ela retribuísse.
Rosa  estava surpresa demais. Surpresa e apreensiva. Claude nunca havia usado  aquele tipo de fetiche antes. Mas não podia  negar que isso a deixara ainda  mais excitada.
E era  contra isso que lutava. Contra  as ondas de prazer que invadiam seu  corpo a cada  toque dele.  Contra  seu próprio corpo, traidor de suas  emoções.
Por que Claude  simplesmente não se satisfazia e acabava  logo com essa deliciosa tortura? Por que insistia em carícias  que a levavam a quase implorar para que ele a possuísse sem demora?
Ah, por que ele usava a mão daquela forma desaforada, quase  profana... E pra que resistir se sabia que era em vão? 
Deixou que um gemido escapasse de seus lábios e foi nesse momento que a língua  dele invadiu sua  boca  e a fez sentir o gosto de rum, com um leve toque de café.
Aquele gosto...  Não lhe era estranho...  Café Cubano, claro! Um dos drinks favoritos dele...
Um gosto  bom, de saudade, de felicidade que misturou seu desejo ao dele. Correspondeu abertamente ao beijo e  quando o sentiu diminuir a pressão e se afastar  tentou deter e segura-lo.
Enroscou suas  mãos  amarradas pela echarpe no pescoço de Claude, mas  ele lhe escapava, deslizando o corpo para baixo, num caminho molhado que seguiu até a parte triangular da sua lingerie inferior. Fechou os olhos e mordeu o lábio, contorcendo o corpo. 
Mas Claude voltou ligeiro, arranhando levemente a pele de seu abdômen com os dentes, antes de seguir em frente. E foi no pescoço, logo abaixo de sua orelha que ele ousou impor uma força maior, mordendo-a sensualmente.
Como se recebesse uma descarga elétrica  o corpo de Rosa soergueu, arqueando-se e colidindo contra o dele. Só então abriu os olhos e notou, chocada, que estava presa entre as pernas de Claude.
Seus olhares se  cruzaram no silêncio de um longo instante e quando Rosa separou os lábios para pedir que a desamarrasse, Claude a silenciou colocando seus  dedos sobre eles.
- Psssss... Não  fale nada, hã? – Pediu gentilmente,  descendo  suas mãos pelos  braços dela.
Então, forçou-os para cima e seus  dedos caminharam de  volta, até pousar em sua  cintura e  sem avisos a girar, deixando-a de costas  para si.
Acariciou-a  nos cabelos,  juntando-os pacientemente, para depois  coloca-los de lado. E inclinando-se até a nuca de Rosa,  comprimia seus lábios contra ela em pequenos beijos, aleatórios e úmidos.
Abriu o fecho do sutiã e deixou-a com as   costas  livres, mergulhando nela com as mãos espalmadas, em movimentos  circulares.
Subiu  com elas até os ombros e os polegares imprimiram a  força e a delicadeza necessárias naquela  região.  O tremor, e o movimento involuntário que a fez encolher os ombros  deram a Claude a certeza  de que podia seguir com seus carinhos.
Soltou os ombros e escorregou pela lateral,  obedecendo a  curva na cintura, e usando os polegares novamente, adentrou o cós da lingerie, sem deixar de descer e descer, até que a peça escapasse completamente. Então voltou a inclinar-se sobre  ela.
- Claude... – Sussurrou Rosa, a voz  tensa...
- Chhhhh, não se mexa, chèrie. – Respondeu encostando seu rosto rente a nuca de Rosa.
- Mas você está...  - Calou-se, sem saber que palavras usar -  Está me segurando nessa posição e eu não....
-  Não se impressione. Não farei nada que a deixe desconfortável ou constrangida, d’àccord?
Então Rosa sentiu que ele foi deslizando com uma das  faces, por  suas costas. Os pelos espessos e aparados da barba arranhando prazerosamente toda sua pele em parceria com  o ar quente  que  saia  da respiração pesada dele.
E não estava preparada para o atrevimento erótico de Claude, que não parou nem desviou de suas nádegas e  escolhendo uma de suas  pernas completou a jornada, detendo-se em seu pé. O mesmo que havia torcido.
Sentiu-o aquecer entre as mãos dele. Depois  sentiu a  respiração pesada, desta vez  seguida da umidade dos lábios dele sobre a extensão de seu pé, incluindo cada um de seus dedos...
Ainda tentava controlar o arrepio quando ele a voltou de costas e desamarrou seus pulsos, jogando a echarpe em algum canto.
Deitou-se  sobre ela e envolveu-a num longo beijo, antes de afastar-se  a procura do preservativo.
Um sentimento de mágoa tomou conta do coração de Rosa quando percebeu isso. E Claude  soube  exatamente a medida dela, quando a possuiu,  seus olhares se encontraram e os vestígios ainda estavam ali...
Apertou os lábios, querendo que tudo isso estivesse acontecendo de forma diferente. Mas agora já era tarde. Rosa nunca o perdoaria por tê-la submetido a essa  chantagem.


PSV   
                                                    Continua


sábado, 23 de abril de 2016

PSV/Capitulo 33

PSV




- Droga, onde foi que eu a coloquei... – Murmurou Rosa tirando todas as peças de roupa que usara na noite anterior, uma a uma,  de cima  da  poltrona. Nada.
Jogou-as de qualquer jeito de volta e saiu do quarto,  quase colidindo com a  filha.
- Alex, você pegou a echarpe da mamãe, filha?
- “E-char-pe”? Que que é isso, mamãe?
- É  aquele lenço que a mamãe  estava usando ontem.... Não pegou para  brincar de desfile?
- Humhum – Respondeu chacoalhando a cabeça negativamente.
- Só se eu deixei no carro! – Disse Rosa, ponderando. – Bem a mamãe já vai. Comporte-se,  hum?
Abraçou Alexandra e a  beijou carinhosamente.
- Eu posso descer de elevador  com você? E depois subir?
- Elevador não é brinquedo querida!
- Ah, só  hoje, só agora, mamãe! Assim eu  fico mais um pouquinho  com você...
E com esse argumento Alex ganhou um sorriso e a permissão de Rosa. Culpava-se  por trabalhar o dia todo e focar tão pouco com ela. Iria  rever esse conceito. Ainda mais agora que precisava aturar Claude e seu mau humor, além dos olhares e comentários.
-Sílvia, Alex vai descer  comigo! – Falou ela  um pouco mais alto enquanto pegava na mão da filha.
- Estarei esperando-a na volta. – Respondeu Sílvia aparecendo na sala e acompanhando-as até  o elevador.
O elevador desceu os  cinco andares com Alex  tagarelando sem parar. Seu último comentário provocou a risada  descontraída da mãe.
- “Os elevador devia te” controle de velocidade, não acha mamãe? Eu ia  colocar  bem devagarinho...
- Eu acho que  você  tem toda  razão, querida! – Comentou  vendo a porta  se abrir.
Saltaram as  duas  do elevador e o porteiro as  cumprimentou, brincando com Alexandra. Rosa despediu-se mais uma vez, ganhando um abraço bem apertado.
- Tchau mamãe! – Falou Alex  acenando com a mão, já dentro do elevador, apertando o botão para  voltar ao quinto andar em seguida.
A porta  fechou e Rosa aguardou até  a mensagem de Sílvia chegar, pelo celular: “Já estamos dentro de casa”.
Fazia isso por segurança, desde que assistira ao filme argentino ‘Sétimo’, onde duas crianças somem no próprio prédio ao apostar quem chega primeiro ao térreo: o pai, no elevador, ou ela, de escada. Claro aquilo era uma ficção, um filme de suspense. Não poderia acontecer ali, naquele prédio onde todos se conheciam,  mas,  mexeu com seu emocional de mãe e sentia-se melhor assim.




 PSV



A viagem à Amsterdã foi muito além do que previam Liz e John.  Descobriram que ali era  o destino dos sonhos para os amantes das Artes.







Em pleno outono, marcado pelas cores vermelho, amarelo, verde e marrom, a natureza fica linda logo antes de as árvores perderem as folhas.  E ainda tem um pouco de sol do final do verão,  propício para uma boa caminhada, sem pressa. Uma das melhores formas de conhecer a magia de Amsterdã.






A Praça Dam, onde estavam no momento, fica no centro de Amsterdam, com seus artistas  de rua. E de lá  pode-se ver uma grande estátua branca, o Monumento Nacional, em homenagem à Segunda Guerra Mundial na Holanda.






Era em uma das travessas da avenida em frente a praça que  ficava a loja de Erjan, com as mais variadas lembranças de Amsterdam.
A vontade era de levar quase tudo, pensava Liz, encantada.  Além dos artigos expostos, Erjan convidava o cliente, na maioria turistas,  a interagir. Podia-se dizer que a loja se parecia mais era uma pequena galeria de Arte, que capturava não apenas a imagem, mas também o espírito de Amsterdã.
A primeira  coisa que qualquer cliente via era um imenso quebra cabeças de fotografia, na parede oposta à da entrada. Aquilo chamou a atenção de Liz, mas ficou em segundo plano, pois assim que chegaram,  o grupo de  turistas deixava a loja carregados de souvernirs, e Erjam fechou-a com a típica placa “Closed”. 
E uma gostosa conversa  tomou conta dos três, enquanto Erjan os  conduzia por todas as partes da loja, instalada em uma  antiga  casa, o que os remetia à Galeria no casarão. Trocaram várias ideias e informações. E calcularam o valor  de possíveis  negócios, em algumas  peças do interesse de John e Liz. Erjan era muito simpático e não poupava esforços para  agradar os novos amigos. Por  mais de duas horas apreciaram joias,  pinturas, porcelanas, e tantas outras preciosidades da Arte, dos mais sofisticados aos mais simples.
Liz separou várias  peças pequenas, para presentear todos da galeria e alguns  outros amigos. Então Erjan os convidou para um café, ali na própria loja.
O espaço gourmet ficava nos  fundos da  loja,  numa construção à parte, semelhante às nossas edículas.  Uma das  funcionarias já havia  organizado e colocado o serviço em uma das  mesas.
- Sua loja fica em área movimentada, Erjan. Nunca  foi assaltado ou roubado? – Pergunta  John, servindo-se de uma  torrada  confeitada de anis.
Havia ainda queijos, pães e stroopwafel, um waffle com melaço, café, chá e leite. Além de geleias e manteiga.
- Desde que comecei a trabalhar com arte escuto de amigos e essa mesma pergunta. Mas, me diga você, John. Quem rouba arte?
John ficou surpreso com a devolutiva da pergunta e pensou alguns instantes antes de responder. E o fez logo depois de  um gole  de  café.
- Você é uma pessoa inteligente, Erjan.  Acabo de entender que não  importa  muito quem roube, mas  porquê.
- Bravo mijn vriend! – Exclama Erjan sorrindo. – E foi tentando elucidar essa questão que participei como consultor, a pedido de uma  amiga  na elaboração de um livro  sobre o assunto. O marido dela,  um advogado,  analisou casos de roubo de arte que foram solucionados na Europa, e o resultado dessa análise foi impressionante. – E faz uma pausa.
- Pode nos contar qual foi? – Pergunta Liz. -  Isso me parece interessantíssimo!
- Se não estiverem com pressa, porque  o assunto é longo!
- Estamos em férias, Erjan. Temos  todo o tempo do mundo. – Confirma o interesse John.
- Pois bem, isso de que roubo de arte é algo patrocinado por um grande colecionador milionário não passa de mito e ficção  hollywoodiana. Concluímos que existem tipos de ladrões de Arte, se é que podemos  classificar assim. Vou tentar  resumir para  vocês. Existe o ladrão comum, que não tem qualquer interesse em Arte e rouba apenas para fazer dinheiro e sustentar seus vícios. Esses, geralmente são funcionários da instituição ou pessoa vitimada, às vezes facilitando o acesso dos verdadeiros bandidos em troca de alguma  vantagem econômica.
-São pessoas  sem interesse no aspecto cultural da obra. Aliás, nem devem imaginar o  valor comercial delas. Que pena! – Observa John.
-  Exatamente. Depois, podemos falar dos cleptomaníacos, aqueles que  roubam  por prazer, por  compulsão. Talvez os mais inofensivos.
-  Concordo, já que a cleptomania é um distúrbio psicopatológico que faz a pessoa começar a roubar coisas diversas independente do valor... – Comenta  Liz.
- Em conta partida, temos narcotraficantes ou criminosos que resolvem roubar arte para usa-la como moeda de troca em negociações mais que ilícitas, tipo  cocaína, heroína e até  plutônio, e grupos terroristas, que roubam pela posição política e em troca, exigem a libertação de integrantes do grupo presos.
- Os mais perigosos. – Afirma Liz.
- Sim esses são capazes de qualquer coisa, muitas vezes baseados em fundamentalismos religiosos. – Emenda Erjan. – E por fim, temos a classe do sequestrador de obra de arte. Ele rouba e estipula um valor de recompensa ou resgate.
- Esse se arrisca mais. Nem sempre o tutor ou proprietário de uma obra  de Arte vai ter o valor em espécie. E se tiver, ainda tem o risco de  receber uma  falsificação.
- Todas as possibilidades estão descritas no livro. É uma leitura que  recomendo e exijo. – Falou sorrindo – Pois vou presenteá-los  com dois exemplares!
- God! Que maravilha! – Ficamos  muitos gratos, Erjan!







PSV


- Hum, mas que cheiro bom é esse? – Perguntou Claude invadindo a cozinha e tirando os  fones  do ouvido. – Bom dia Dadi!
- Bom dia! Eu fiz um bolo para o café da manhã. – Respondeu Dadi  girando o corpo da pia  com  uma travessa na mão, colocando-a numa  pequena mesa.
Claude pegou um dos pedaços do bolo e o devorou em duas mordidas.
- Voilà, muito bom mesmo! Do que é?
 Dadi esperou que ele repetisse o ato.
- Receita  da Rosa, bolo de cenoura. Ainda falta a cobertura de chocolate. – Respondeu observando Claude reagir desgostoso, mastigar e engolir lentamente a última mordida.
- Preciso de um banho. – Foi tudo que ele disse antes de deixar a cozinha.
- Não demore, eu já  vou passar o café. – Disse ela antes que ele sumisse para dentro do apartamento, despejando a cobertura  sobre os pedaços  do bolo.
Arrumou a mesa e foi para a sala. Logo reparou nas almofadas, fora  do lugar, e foi ajeitá-las. Ao levantar uma delas encontrou a echarpe e a lembrou-se da noite anterior.
Então não se enganara. A mulher da noite passada era Rosa!
- Dadi, eu não a trouxe  comigo como empregada doméstica, você sabe disso. – Falou Claude  retornando. – O condomínio disponibiliza uma  faxineira a cada quinze dias não é isso?
- As almofadas estavam fora  do lugar,  estava apenas arrumando-as.  – Respondeu escondendo a echarpe no bolso do seu avental.
- D’àccord, então venha se senta  à mesa  comigo. Ainda estou com fome, acredita?
- Correu  por  quanto tempo?
- Quase duas  horas, hã?
- Mon Dieu, e o que o aborreceu tanto para isso?
- Aborrecimento? Não, ao contrário, eu acordei  extremamente disposto.
- Sei... E essa disposição toda atende pelo nome  de Rosa. – Afirma Dadi.
- Não sei do que está falando, Dadi. O bolo é  bom e  pouco importa de quem é a receita, hã?
- Pois bem, já que não me  trouxe  como sua empregada  doméstica, vou me intrometer. – Explica-se Dadi, tirando a echarpe  do  bolso e mostrando-a a ele.
- Onde achou isso? – Pergunta  Claude, surpreso.
- Sob as almofadas. E nem tente  negar  que é dela, porque ontem a noite eu a vi entrando no prédio. O que está pretendendo, Claude?
- Não vou negar e não pretendo nada, Dadi.  Ela realmente esteve aqui. Tratamos de negócios.
- Numa quarta à noite, período em  que eu não estou em casa.
 - Coincidência Dadi, apenas isso. Tínhamos algo a  resolver que não deu tempo durante  o dia.
- Podia ter me avisado, eu  deixaria algo preparado para  comerem...
- Desnecessário.   Além do mais, eu não tinha certeza se ela viria.
- Bem, eu espero mesmo que saibam o que estão fazendo. – Disse colocando a echarpe ao lado da mão dele. -  Porque em meio a tudo isso há uma criança que poderia ser sua  filha,  Claude. – Finalizou vendo-o se levantar.
- Mas não é. E eu seria incapaz de magoar uma  criança, Dadi,   sendo ela minha  filha ou não.  Vou leva-la e devolvê-la. -  Concluiu pegando a echarpe.
Foi até o quarto e colocou o blazer que estava sobre a cama, deixando em seu lugar, a  echarpe.
Ao sair avisou a Dadi que não almoçaria em casa, pois  iria voltar à Embaixada Francesa, em busca  de documento  para o visto de permanência.
Dadi permaneceu sentada  por mais alguns minutos, pensando em sua  própria fala: “em meio a tudo isso há uma criança que poderia ser sua  filha.”
- Mas é claro que pode! – Exclamou levantando-se num ímpeto.
E foi ao quarto de Claude em busca de provas: fotografias de Claude quando criança. Trouxeram uma caixa cheia delas da França.  Como não fizera isso antes logo que notou a semelhança entre os dois?
Ao cruzar o quarto em direção ao armário notou a echarpe, jogada  sobre a cama e sorriu.



PSV




Liz separou as  peças que  levaria  com ela e  juntamente  com John conferiram as  pelas  que seriam despachadas por Erjan posteriormente, para que não excedessem ao peso da bagagem na  volta ao Brasil.
- Espero sinceramente que  tenham ficado satisfeitos com o que  adquiriram. – Falou Erjan  recebendo a  nota  fiscal das  mãos  de sua  funcionária.
E antes de entrega-la, checou item por item. Então seu  celular  tocou. Ao ver  a origem da  ligação, pediu desculpas e afastou-se, atendendo. Poucos  minutos  depois voltou.
 - Eu peço desculpas mais uma vez, mas não podia  deixar de atender. Espero que entendam...
- Claro que entendemos. E pode  ficar feliz e sentir-se realizado, Erjan! Estamos  tão satisfeitos que  pretendemos  abrir um espaço semelhante ao seu na  galeria, com peças de antiquários. Há muitas  pessoas que querem se desfazer dessas peças  familiares e acabam jogando fora.
- Isso é abominável! – Exclamou Erjan.
- Mas, muitas  vezes é o que acontece. Principalmente entre as pessoas menos esclarecidas, que não veem esses objetos como arte ou herança  histórica e cultural.
- Poderiam doar então, para os museus da cidade.
- Muitos  museus no Brasil  estão fechando por  falta de verbas e manutenção, acredita meu amigo? Precisamos é  mudar a cabeça das crianças e dos jovens para que isso não se repita  ni futuro.
- Concordo. Educação é a saída para  todas as  crises da humanidade...
- Mas voltando, vou copiar sua  ideia do  espaço gourmet. – Emendou Liz. –  Será um atrativo a mais e atrairá curiosos que poderão se  tornar clientes e  multiplicadores de transmissão de  conhecimento. Sérgio poderia atuar como coacher e transmitir os valores, ideias e percepções dos criadores das obras.
- Excelente ideia, darling. Mas  temos que  discutir isso com Rosa e Claude. Principalmente  com Claude – Reforçou John.
-  Perdoem minha indiscrição, mas será que  falam dos mesmos  Claude e Rosa que  conheci alguns aos atrás na Escola de Arte de Amsterdã?
Liz e John trocam olhares.
- Falamos de Claude Geraldy. – Diz Liz primeiro.
- Isso mesmo! O casal Claude e Rosa Geraldy!  - Exclama  Erjan. -  Ele era um dos professores e ela se não me falha a memória fazia algum curso de extensão...
- Well, a menos que existam dois deles um de nós está equivocado. Claude e Rosa que  conhecemos não são casados, nem formam um casal... – Explica John.
- Será possível tamanha  coincidência? – Fala Liz.
- Bem podemos tirar a dúvida através da imagem. – Vai explicando  Erjan enquanto caminha -  Estão vendo esse  mural  imenso de fotos? Tenho o hábito de “clicar”  todos os que passam pela loja e  vou montado esses painéis...
E aproximando-se o máximo  possível, continua  sua  explicação:
- Venham e  ajudem-me a localiza-los!  Adianto que  sou uma  pessoa  muito organizada e os painéis estão dispostos em ordem cronológica. Portando a imagem deles deve estar bem nessa região e aponta alguns painéis mais  centralizados.
Foi Liz quem os reconheceu em meio a tantos  outros  rostos.
- Oh, Lord! Ali estão eles, John! – Exclamou sorrindo, indicando  um dos painéis.
Erjan retirou o painel da parede e juntos  confirmaram que  falavam das mesmas pessoas.
- Disseram que eles não são um casal, nem casados. – Falou Erjan – Mas essa  foto é o momento exato em que Claude a pediu em casamento e ela aceitou. Foi logo depois de eu ter contado sobre a lenda dos tamancos esculpidos em madeira, onde os  jovens camponeses presenteiam suas  noivas com uma par deles e...




PSV


                               Continua na próxima semana




sexta-feira, 15 de abril de 2016

PSV/Capítulo 32


      PSV


Rosa terminou de secar o cabelo e voltou  para o quarto.
- Alexandra... Outra vez acordou sem a minha ajuda? Bom dia, meu amor!
- Bom dia  mamãe! – Respondeu Alex - Sabe por que eu acordei cedo?
- Não, por quê?
- Porque eu quero duas  coisinhas...
- Duas, logo pela manhã? Ok, vamos lá qual a primeira?
- Eu quero ir   com você pra  ver o Claude. Eu tô com saudade dele.
Rosa mordeu o lábio. Isso poderia estar resolvido se Claude não fosse  tão... Tão estúpido!
- Alex,  a Galeria é o meu local de trabalho. E do Claude também. E hoje é sexta-feira, você tem escola, mocinha!
Alex abaixou a cabeça em direção a sua mão e contou alguma  coisa nos dedos, antes de argumentar.
- Mas amanhã é sábado e não tem escola, você me leva?
- Está bem, amanhã  você vai comigo.  – Claude que pense o que quiser. – Refletiu Rosa – E a segunda  vontade?
-  E acordei cedo pra ajudar  a fazer o bolo de cenoura! – Continuou enquanto andava pelo quarto, vestindo o casaco de Rosa, que lhe servia de vestido.
- Oh, eu fico muito feliz que queira  ajudar, mas hoje a mamãe  perdeu a hora e não vai dar tempo de fazer   bolo.
- Ah... – Murmurou Alex, sentando-se  na cama,  visivelmente  decepcionada.
- Mas  podemos  fazer quando você  chegar da escola, o que acha? – Disse Rosa tentando anima-la.
-  Oba!! E você  deixa eu comer um pedaço antes  do jantar?
- Filha, antes do jantar não... – Começou a falar, olhando-a pelo espelho enquanto passava   batom. E não resistiu a  carinha de vontade e ansiedade que ela  fazia. -  Não devemos mas hoje nós  duas  vamos  comer  bolo de cenoura, antes  do jantar.
E voltou-se para a filha.
 - Fechado?
Alexandra estalou os olhos, incrédula, e desceu da cama  num pulo.
- Yes, yes! – Exclamou abraçando Rosa – Amo  você mamãe!
- Eu também te amo muito! – E retribuiu o abraço, soltando-a em seguida, para  calçar os sapatos.
Sentou  na beira da cama enquanto Alex rodopiava com  as mãos nos   bolsos  do casaco, cantarolando uma  música  infantil.
- Muito bem garota, pare de girar ou  acabará caindo, hã? – Pediu Rosa em tom de ordem – E me dê esse casaco, mocinha. Ele vai para  o armário.
 - Ih, tem  um papelzinho aqui, óh! – Falou Alex  tirando a mão do bolso e a estendendo para  a mãe, antes de despir o casaco.
Imediatamente o sorrido de Rosa desapareceu. O bilhete de Claude. Havia se esquecido dele.  Pegou o papel com a mão trêmula e o apertou com força, até transformá-lo em uma  pequena  bolinha.
Então a jogou displicentemente sobre o aparador que lhe  servia de penteadeira e pendurou o casaco.
O barulho de uma porta fechando chamou a atenção de Alexandra, que saiu correndo enquanto dizia:
- A  Silvia chegou! Eu vou “convida” ela pra comer bolo “coagente” antes do jantar!



 PSV




John e  Liz percorriam a feira de arte ao lado de Pepa, Carlos  seu marido e Antônio.
A simplicidade dos espaços    se aliavam ao requinte e luxo das peças, harmoniosamente distribuídas em áreas distintas: quadros,  esculturas, joias,  moveis, fotografias,  livros raros e tantos outros objetos que representavam as demais linguagens da arte. Monitores orientavam os visitantes passando informações sobre  o período da peça  na linha  do tempo da  história da Arte e curiosidades sobre  o artista e seu processo de criação.
E num evento desse  porte não poderia  faltar um espaço gourmet. Incrivelmente funcional e acolhedor.   Era nele que, depois de andarem boa  parte da manhã e começo da tarde, estavam confortavelmente instalados e sendo servidos.
- Realmente este é um evento imperdível! – Diz John – Com certeza  voltaremos  no próximo, não é darling?
- Seria um prazer! Isto é o  sonho de qualquer colecionador ou apreciador da  boa  arte.
- É um grande  ponto de encontro Liz! – Fala Pepa -   Curadores,  representantes de museus, antiquários,  galerias, designers  e  amantes da arte de todo o mundo. É “a” feira,  com  padrão de excelência no mercado de Arte.
- A feira evoluiu muito. – Comentou Carlos – O que veem é o resultado de um trabalho de anos  antes da existência  dela. Só recentemente adquiriu reputação em excelência, perícia e  elegância, além da qualidade na exibição dos itens à venda.  Como chegamos a essas exposições memoráveis? ​​Com iniciativas inovadoras que mudaram a forma de fazer negócios com e em Arte.
- Deve ser  sido um trabalho árduo então... – Questiona John.
- Na verdade,  essa feira  deriva de um evento acadêmico, o “Amsterfest”.  Um evento  da  Escola de Arte de Amsterdã que  foi ganhando força e vulto e se transformou nessa maravilha.
- Eu gostaria muito de conhecer o responsável por ela. -  Ponderou Liz, tomando num gole da bebida.
- Pois você está com sorte! – Exclamou Antônio levantando-se – Vai  conhecer não só o  responsável como o  idealizador de tudo isso! – Continuou falando enquanto sorria e estendia a mão para alguém que se aproximava.
Todos a mesa o seguiram com o olhar.
- Erjan!  Disse Carlos cumprimentando-o – Gostaria que conhecesse dois amigos de longa data.
John e  Liz  se levantaram para os  cumprimentos. Erjan era uma  pessoa simpática à primeira vista e quando soube que ambos eram curadores de uma galeria no  Brasil a empatia aumentou ainda mais entre todos.
Erjan puxou uma cadeira vaga da mesa ao lado e engajou um animado bate papo,  esclarecendo algumas  dúvidas e curiosidades do casal.
John questionou sobre a autenticidade das peças e a segurança das mesmas num evento desse porte, que pode atrair os famosos ladrões  ou falsificadores de arte.
Escutaram com atenção a  explicação de Erjam, que durou alguns  minutos:
- Essa era uma das minhas maiores preocupações, John. – A feira é uma vitrine, temos as melhores e mais tradicionais obras de arte do mercado atual. Você pode ver e comprar uma grande variedade de joias, fotografias,  porcelanas e tantas outras peças e  com o tempo  veio a experiência. Sempre primamos pela veracidade de cada obra e graças a uma parceria com  um  amigo advogado, professor de criminologia em uma  universidade de Amsterdam e especialista em roubo, montamos uma equipe e  a autenticidade de cada pintura e objeto é garantida após um processo de seleção. São especialistas internacionais que examinam todas as obras de arte  autenticando-as  para a compra com toda confiança possível. Contamos também com um banco de dados privado de arte roubada, que fornece informações e objetos roubados são removidos imediatamente do evento e  denunciados.
- Um belo trabalho em equipe, realmente. – Parabenizou-o Liz.
- Que tem se multiplicado. – Afirmou Erjan.  
-  Eu disse à John, que  aqui seria  uma grande oportunidade de negócios para ele, Erjan. Por que não marcamos uma  visita à  sua loja?
- Mas claro, por que não? Vai ser um prazer negociar  com vocês. Saibam que tenho um enorme desejo de conhecer  o Brasil e...



PSV



Alex esperou que  Rosa colocasse o pedaço de bolo no prato e usou dois dedinhos  para partir e leva-lo à boca, desprezando  o garfo. Era terça-feira e feriado. Silvia tinha folga nesses dias.
- Alex! Onde estão seus  bons modos, hum? – Ralhou Rosa gentilmente.
- Ah, mamãe! Assim é mais  gostoso! – Respondeu tirando outra porção da fatia do mesmo modo. – Por que  você não tenta?
Rosa estava com o garfo próximo ao seu pedaço de bolo quando ouviu isso da  filha.  Parou o movimento e  devolveu a faca  à mesa e imitou-a.
- Não é que  você tem razão? -  Falou depois de comer um minúsculo pedaço da fatia e lamber a cobertura de chocolate do dedo. – Mas só devemos  fazer isso em casa e nunca na  frente  das visitas,  ok?
- Por que, mamãe?
- Porque é falta de  etiqueta, de  bons modos, Alex. Além de ser falta de higiene comer  com a mão.
- Mas a minha mão tá limpinha! – Disse estendendo-a para a frente, tentando provar  sua  fala.
- E o que é todo esse chocolate no seu dedo?
Alex recolheu a mão, virando-a para si e lambeu a ponta dosdedos.
- Pronto, não tem mais! – Exclamou sorrindo.
Rosa chacoalhou lateralmente a cabeça e acabou rindo também.
- Você deixa eu ir  todo sábado  com  você na galeria? O Claude disse que eu posso, ele fez um monte de desenho comigo... Ele desenhou você, sabia?
-Ah é? E onde está que não me mostrou?
- Ele não acabou de “faze” não... A gente  “tava  brincano” de escolinha e ele levo pra casa “de tarefa”. – Falou Alex acabando de  comer o  bolo. – Posso assistir TV?
- Pode. Depois de lavar as mãos. – Respondeu Rosa pensativa.
Alex então empurrou a cadeira até a pia da cozinha e lavou as mãos com detergente.
- Pronto! Você pode ficar  comigo lá,  hoje, vendo TV?
- Caro que sim, meu amor! Só vou  ajeitar a cozinha, ok?
Alexandra concordou com a cabeça e pulando da cadeira  correu para a sala, ligando a TV. Rosa ouviu o  som de um desenho animado mas logo seus pensamentos o trocaram por outros  sons, como a voz  de Claude  cumprimentando  Alex no sábado passado.
Em que momento você me  retratou que eu não vi, Claude? E por que  fez isso? Deve ter feito quando desci para atender Dona Antonieta, nossa vizinha... – Ponderou enquanto guardava o bolo e o resto do café  da manhã na geladeira antes de lavar  a louça  suja.
E pareceu  ficar  triste quando mais tarde subi e disse a Alex que já estava na hora de irmos. Isso era  algo que tinha que agradecer: Claude não desprezar Alex!
Fechou a  torneira e observou a água sumir pelo ralo da pia.
Quando ele  souber, me desprezará ainda mais. Preciso arrumar  coragem e contar, ele não pode  continuar  pensando que ela é filha de John!
-  Mamãe vem! Vai começar a Elsa! – Gritou Alex, animada.
- Estou indo, querida! – Respondeu Rosa voltando à realidade.
Enxugou as mãos, cobriu a louça com uma toalha limpa e foi para a sala. Alex estava deitada  no chão, sobre o tapete e em meio a alguma  almofadas.
- Deita aqui comigo, mamãe! – Pediu ela, carinhosa.
E foi o que Rosa fez. Deitou-se ao lado da filha empurrando para o fundo esses pensamentos. Teria muitas  noites para  pensar e planejar algo. Agora era agora e tinha o dia  todo disponível para faze as  vontades de Alex.
Assistiam ao filme e as observações de Alex sobre ele eram pontuais. A cada cena ela explicava à mãe o  por quê daquilo acontecer. Repetia as falas até mesmo antes das personagens.
Rosa só reparou no silêncio  da filha quando o filme  já estava no fim confirmando sua suspeita: Alex dormira. Também pudera, mesmo sendo feriado haviam acordado muito cedo!
Pensou em leva-la para a cama, mas   poderia acorda-la.  Melhor que  ficassem ali mesmo. Abaixou o som da TV e pegou o livro de História da Arte que estava lendo. Abriu-o na página marcada  e leu três delas, sobre a vida de Picasso, precursor do cubismo,  uma escola que não era a sua  favorita.  A quarta página começava com uma das  citações  do pintor: Nada mais.
“No mundo nada mais existe a não ser o amor. Qualquer que ele seja.”
Talvez o sono  de Alex a tenha deixado sonolenta também. Piscou pesadamente e releu a frase. Então o livro escapou  de suas mãos, as folhas se agitaram e um  pedaço de papel caiu de dentro delas.
 “Precisamos conversar sobre  tudo -  Claude”
Apesar de alisado percebia-se no papel as marcas de ter sido amassado.  É assim que está nosso amor, Claude. Cheio de dobras e marcas...
Então devolveu o pedaço de papel para dentro do livro, sem olhar  a página e largou-o no chão, pouco acima de sua  cabeça. Depois abraçou Alexandra e fechou os olhos, disposta a sonhar  os mesmos  sonhos  da filha.



PSV




- Como assim devo procurar outra pessoa Beto? – Perguntou Roberta do outro lado  da mesa.
- Eu sinto muito Roberta, mas esse é meu último trabalho para  você. –  Explicou ele, entregando o envelope como de  costume. – Aí dentro tem alguns nomes, de  total  confiança.
- Por que está  fazendo isso? Posso aumentar seus honorários, faça a proposta. Quanto quer?
- Não quero nada. Estou deixando todos os meus clientes. Na verdade estou deixando a França.
- Vai ser detetive em outro país? Vai trocar euros pelo que?
- Pela minha integridade Roberta. Cansei dessa coisa de seguir  pessoas e fotografá-las em seus desvios de conduta. Já estava com a decisão tomada quando recebi  um convite para voltar a fotografar  arte. E é isso que  vou fazer!
- Vai trabalhar  para  alguma revista  concorrente? -  Pergunta em tom  de piada.
- É uma revista italiana que acompanha exposições internacionais. A próxima é  no  Brasil, em São Paulo.
- Brasil? Que interessante, talvez  você  possa fazer um ultimo trabalho por lá então... Nada de tão invasivo, Beto. Eu pago adiantado e você me manda as fotos por  e-mail.
- E o que seria?
- Quem, no caso. Claude. Ele foi para  São Paulo.
- Ele está com alguém?
- É justamente isso que quero  saber. Posso contar  com você?
- Roberta não estou indo amanhã para lá. A exposição só deve acontecer em uns  dois meses, talvez três.
- Tudo bem, eu posso esperar. – Diz tirando o  talão de cheques da  bolsa.
- Não, eu prefiro que  você me pague  depois. Caso eu faça as fotos.
- Eu sei que vai fazer. – Respondeu Roberta sorrindo e guardando o talão. – E sobre o que é a exposição?
- Sobre o Renascimento. Organizada e viabilizada por  ninguém menos que  Egídio e Catarina Vasconcelos, donos da...



PSV



Janete segurou as  fotos  que Sérgio lhe devolveu e perguntou:
- E então,  o que me diz agora que viu as fotografias?
- Que as suas  suspeitas tem fundamento. Alexandra se  parece com ele em alguns pontos. Mas também se parece demais  com Rosa...
- É uma combinação perfeita  do dois! – Exclama colocando a fotografia de Alex  sobre o pequeno balcão.  –  O formato do rosto,  os olhos e a boca... É tudo dele. Porém o jeito de olhar e o sorriso são heranças de Rosa.
- Bem isso de parece não  quer dizer nada.  Li  em algum lugar que há pelo menos sete pessoas iguais a cada um de nós no mundo e mesmo sem relação de parentesco, elas terão características muito  próximas das nossas.
- Eu não duvido disso. Até aceitaria essa hipótese, caso Rosa não tivesse voltado da Europa grávida.
- Claude não é o único europeu do mundo Janete...
- Rosa nunca revelou o nome desse europeu.  Mas em algumas  conversas, deixou escapar que  era francês e que haviam se conhecido em Amsterdã. Tem que ser Claude!
- Então ele  comprou a galeria para se  reaproximar dela e da  filha?
- Eu acho que não. Ele nem sabia que  Rosa estava grávida, ela não contou. Acredito que foi uma grande  coincidência. – Replicou Janete guardando a foto de Alex na pasta, com as  outras.
- Pensando bem, sua teoria faz  sentido.  Eles estão sempre se evitando e quando ficam juntos dá pra sentir a tensão entre eles, como agora a pouco, antes que saíssem.
- Pois é. Mais alguns minutos e teríamos portas batendo outra vez.  Bem, tudo fechado, só falta ativar o alarme. Vamos?
- Vamos. – Responde Sérgio alcançando o alarme, ativando-o.
Então segurou a  porta até Janete passar e trancou-a com a chave.
- Mas tem um lado positivo nisso tudo. – Foi dizendo enquanto caminhavam para o estacionamento - Alex parece gostar de Claude e ele dela.
- Parece não. Eles se dão muito bem. Não reparou sábado, como se divertiram no ateliê? Tomara que Rosa conte  logo a ele e que se acertem. Vou adorar  ver esses  três felizes!
- Eu também.  Rosa merece.
- É claro que eu não preciso pedir silêncio a você  sobre esse assunto não é?
- Claro que não Jane. Até porque é assunto deles e em  assunto de marido e mulher...
- Ninguém  mete a colher. – Completou Janete, enquanto entravam no carro.




PSV




“Não se atrase” - Lembrou-se Rosa,  do tom  de quase ordem  na  voz  fria de Claude, antes que deixasse a sala dele naquela tarde.
Olhou o relógio e estacionou o carro calmamente. Até pensara em se atrasar só para irrita-lo, mas, depois concluiu que  quanto mais cedo  fosse, mais cedo voltaria.
Retocou o batom e ajeitou  o cabelo com os dedos antes de descer do carro e atravessar a calçada até a portaria  do edifício, segurando a echarpe que a brisa noturna teimava em afastar de seus ombros.
 Um táxi saia, fazendo a  conversão.
Rosa Identificou-se ao porteiro e assim que ele conferiu e confirmou-a numa lista  pode entrar.
De dentro do táxi, já  do outro lado da avenida, Dadi  reparou melhor naquela silhueta feminina,  parada em frente à portaria. “Rosa?”– Pensou apertando os olhos, na tentativa de ver melhor, mas o tráfego de veículos e a distância aumentada não a ajudaram.
“Não, não deve ser...” – Concluiu voltando sua atenção para o percurso à sua frente. 


 
PSV




Foram vários toques na campainha, até Rosa ser atendida por um Claude de roupão, com uma  toalha na mão livre.  Assim que a viu, abriu a porta esperando que ela entrasse.
- Voilà, está adiantada! – Observou Claude. – Não imaginei que estivesse tão ansiosa pelo nosso encontro. – Concluiu com sarcasmo.
- E não estou. Apenas pensei que  vindo antes, volto antes para  minha casa.
- Não necessariamente. – Disse Claude sem emoção na voz dessa vez. – Não cruzou com Dadi? Ela acabou de sair.
- Você disse que ela saia cedo e só voltava no outro dia.
- Pois é, mas hoje ela  não quis folgar de dia.
- Bem, eu não a  vi. Está  com medo, preocupado com sua reputação caso ela me veja aqui, com você? – Revidou sem conseguir desviar os olhos dos movimentos  que ele fazia, ao enxugar os  cabelos.
- Com a minha não. Mas talvez ela mude  o conceito sobre a sua. – Disse apontando-a como dedo, antes de  jogar a toalha  sobre o ombro.
Rosa mordeu o lábio e desviou o olhar. Olhou para o chão e fechou a mão controlando a  vontade de esbofeteá-lo.
– Se a minha  conduta lhe parece  irregular, devo lembra-lo que é  culpa  sua. Você   colocou-me nessa situação.
- D`áccord. Mas não  vamos perder seu precioso tempo com uma  discussão sobre nossas culpas. Vamos aproveita-lo  de  forma mais interessante e prazerosa, hã? – Murmurou Claude sorrindo.
Então roubou a echarpe em um gesto firme e sentiu o perfume antes de  despreza-la e puxar Rosa pela cintura até que  suas  bocas ficassem a poucos milímetros uma  da  outra.
Rosa separou os lábios disposta a argumentar em sua  defesa, mas  o único som que  escapou de  sua boca foi um gemido,  abafado pela  boca de  Claude.
Tentou empurra-lo e tudo que  conseguiu foi que ele a apertasse mais. Insistiu usando nos braços toda  força que  foi capaz e por alguns segundos sua  boca  ficou livre. O tempo suficiente para  soltar uma exclamação desgostosa enquanto seu corpo caia, acompanhado pelo de Claude.
O sofá a acolheu primeiro. O  peso de Claude a manteve nele e seu rosto  foi coberto pela toalha,  impedindo-a de conferir a expressão de Claude.
Preparou-se para uma grosseria da parte dele, porém, sentiu a toalha deslizar suavemente para o lado.
- O lá lá  – Murmurou Claude divertindo-se – E isso foi tudo que conseguiu chèrrie... – E não segurou uma gostosa risada.
- Ah, não  zombe  de mim! - Exclamou Rosa irritada, tentando acerta-lo no peito com os punhos fechados.
 E só se deu conta do quanto essa luta era inútil e desfavorável a ela quando já estava sendo carregada por ele  para o quarto.




 PSV 



                           Continua na próxima semana