PSV
Do lado de fora, Beto ajeitou
a mochila nas costas e puxou a mala para fora do apartamento. Então, deu uma última e
nostálgica olhada para ele antes de
fechar a porta e seguir pelo corredor.
- Sem dramas e sem melancolia, Beto. – Disse a si mesmo
entrando no elevador.
No térreo, entregou as
chaves ao administrador, assinando o termo de permissão para que fosse alugado em sua ausência. Afinal seria um desperdício deixar
o imóvel “abandonado” por tantos meses, já que não pretendia voltar
tão cedo à França.
Mas também não tinha pressa em chegar a Itália, onde
assinaria o contrato e faria já alguns testes, antes de seguir para o Brasil.
Por isso, descartara a ideia de ir de
avião e se estressar com o traslado do centro da cidade até o aeroporto, tempo com
check-in, espera pelas bagagens, sem contar o possível atraso no voo.
Iria se despedir com classe. Agora, que dispunha de tempo livre
e todo seu, iria de Paris a Roma de trem. Sem burocracia no embarque, bagagem ao seu lado, conforto, pontualidade e
praticamente nenhum atraso.
Outra razão é que precisava readaptar os olhos,
recuperar seu olhar fotográfico para o
belo, coisa que havia
deixado de lado nos últimos anos, naquele trabalho frio e calculista de seguir pessoas e registar suas infidelidades.
Para fotografar Arte é preciso um olhar a mais antes de
apertar o obturador; é preciso um ideal,
uma visão, um sentimento e uma leitura própria de mundo.
Portanto, nada melhor que, expor seu olhar às belas paisagens que veria nessa viagem.
Como dizia um de seus professores, fotografar
é registrar alguma coisa que você queira guardar na memória, mas para guardar
na memória é preciso antes vivê-la com o olhar.
PSV
Claude repassou todas as instruções e encerrou a reunião. Sérgio
e Janete levantaram-se ao mesmo tempo e saíram da sala. Rosa demorou propositalmente
mantendo-se sentada. Estava há dois dias
lutando contra sua
covardia para falar com ele.
Suspirou e fechou sua agenda com uma força maior que a normal. O ruído fez
Claude voltar seu olhar
para ela.
- Algum problema, ainda discorda de algo?
- Não, concordo
com todas as suas
indicações...
- Então?
- É que... Bem eu queria
falar com você sobre... Sobre...
- Não vou desistir de
você às quartas-feiras. – Afirmou sem
deixar de olha-la.
- Droga! – Exclamou Rosa levantando-se - Por que
você sempre quer dificultar tudo?
- Não estou dificultando. Deixei bem claro desde o começo que
eu decido quando vamos parar.
- Eu me recordo muito bem desse detalhe. Mas não é sobre
isso que eu queria falar.
- Queria? Então não quer mais?
- É claro que quero!
Importa-se que eu venha à galeria
somente depois do almoço?
- Posso saber o motivo antes
de responder?
- Alex. Eu gostaria de passar as manhãs com ela. Ao menos este resto de ano, já que no próximo ano a escola
será período integral. Além do mais, Sílvia vai
tirar suas férias em breve e eu não tenho com quem deixa-la. Joana sempre me socorria, mas ela também está viajando...
- D’àccord. Não tenho nada
contra. Afinal você tem dez por cento de tudo isso, além de ser a dona do prédio.
- Não, não sou. O imóvel está registrado em nome de
Alexandra. Foi uma da condições que
impus para a instalação da galeria. Vou avisar Janete e a partir de
segunda já não venho pela manhã. Obrigada pela compreensão.
- Não tem porque agradecer. Mas me diga hoje é sábado, por que não a trouxe?
- Ela não acordou sozinha e achei melhor deixa-la dormir um
pouco mais. Além do mais, ela não nos
daria sossego durante essa reunião. Quem sabe o próximo... - Disse isso
e juntou suas coisas.
Então, caminhou para a porta, indecisa. Claude pareceu
perceber essa indecisão e perguntou:
- Era só isso mesmo?
Rosa voltou-se para ele.
- Na verdade não. Eu acho que
minha echarpe ficou na sua
casa, não a encontro em lugar
algum. Você a viu, a encontrou em seu quarto?
- Voilà, creio que não devo pensar que a esqueceu para ter uma desculpa e poder voltar, não é?
- Não, eu não a esqueci de propósito.
- D’àccord. Dadi a encontrou, no sofá da sala, sob as almofadas.
- Oh, céus! Ainda bem que ela não sabe que é minha senão o que iria pensar... O que foi, por que está com esse
sorrisinho no canto da boca?
- Ela viu você
entrando no prédio, hã? E reconheceu a echarpe. Mas não se preocupe eu disse
que foi uma reunião de negócios, assuntos
da galeria que tinham que ser
resolvidos.
- E Dadi acreditou? – Questionou desconfiada.
- E que motivos
ela teria para não acreditar? – Revidou
ele erguendo uma das sobrancelhas.
- Você tem razão, como sempre. Não há motivos para ela
suspeitar sobre nada. Será que pode me devolvê-la?
- Ouí. Na próxima
quarta-feira.
- Mas...
- A não ser que queira me
fazer uma visita extra...
- Não! E muito obrigada por nada! – Exclama virando as costas -
Você é... É detestável! -
Diz com toda dignidade que é capaz antes
de sair da sala.
PSV
Nara ignorou as palavras da recepcionista e afastando-a da
porta entrou na sala da presidência, onde Frazão estava.
- Frazão eu preciso falar
com você e tem que ser agora!
- Desculpe, eu tentei impedi-la, mas ela não quis me
ouvir...- Tentou explicar-se a moça,
aflita.
- Está tudo bem,
Simone! – Disse Frazão olhando-a calmamente. -
Camille – Disse voltando-se para
a secretária – Deixe-nos a sós e explique a Simone sobre Nara, sim?
- Sim senhor, com licença. – Disse levantando-se - Venha Simone. Não se preocupe, você é nova aqui e
não tem obrigação de conhecer todos.
Nara é uma das herd... – Foi tudo
que Nara ouviu até que a secretária fechasse a porta por
completo.
- Então, o que houve
para deixa-la assim tão exaltada? –
Pergunta Frazão, só então reparando que Nara trajava roupas de ginástica.
Nara sentou-se na cadeira em frente à mesa e entregou um envelope a ele enquanto
dizia:
- Isso!
Frazão abriu o envelope e algumas fotos escorregaram de dentro dele. Não
precisou pedir mais explicações. As fotos
mostravam Louise e Bernard se despedindo ao sair daquele hotel, em
restaurantes e até mesmo do prédio onde ele morava. Todas semelhantes às que
ele mesmo tinha, guardadas em sua gaveta. Mesmo
tirando suas próprias conclusões, perguntou:
- Como isso chegou até
você?
- Eu estava saindo para uma caminhada, como faço todos os
dias e um garoto me entregou assim que sai para a rua.
- Mostrou a mais alguém?
- Não, vim direto pra
cá, apesar da vontade de esfrega-las na
cara dela!
- Acalme-se Nara.
- Você não está surpreso. Já sabia disso, não é?
- Sim, eu já sabia.
- E não ia me falar
nada!
- Não, não ia. Você já descobriu muitas fraquezas de sua mãe
e já decidiu não compactuar
com ela e ir embora. Não achei necessário que se desgastasse com mais essa...
- Baixaria. – Completou Nara - Eu sinto tanto nojo dos dois!
Frazão colocou os dedos sobre
o puxador da gaveta e hesitou por
um momento. Dane-se, pensou abrindo-a e retirando um envelope semelhante ao de
Nara.
- É melhor se preparar para o que vai ver. Já mais uma pessoa envolvida nessa história. – Comenta tirando fotos do envelope, sob o olhar de Nara.
- Quem?
- Veja você mesma! – Diz entregando algumas fotos a ela.
- Não pode ser... – Começou a falar Nara passando as fotos uma a uma.
- Mas é. – Afirmou Frazão.
- Roberta! – Exclama ainda incrédula– Ele... Bernard está
saindo com as duas, fazendo jogo duplo e
eu seria a terceira... A reserva! Mon
Dieu, acho que vou vomitar...
E correu para o banheiro particular da sala da presidência.
Quando voltou a sala, havia água e café a sua
disposição.
- Sente-se melhor? – Perguntou Frazão.
- Sim, obrigada. Acho que coloquei tudo que sentia para fora, me desculpe.
- Venha, vamos dar uma
volta pelo jardim. Um pouco de ar fresco vai lhe fazer bem enquanto
conto como descobri isso tudo.
PSV
Rosa colocou a chave
na fechadura e suas mãos
tremeram ligeiramente. Virou-a, abriu a porta e entrou no apartamento de
Claude.
Já havia estacionado o carro quando atendeu a ligação dele. “Use
a cópia da chave e entre. Estou saindo
de um congestionamento e devo chegar em uns
vinte minutos.” E tão rápido
quanto disse encerrou a ligação, não esperando por uma resposta. Ficou
pasma com a confiança dele em que estivesse com a chave.
E ficou por um
instante parada no centro da sala, tentada a ir embora. Poderia deixar um
bilhete do tipo: “Não sou obrigada a nada” e voltar para casa.
Seria um golpe certeiro na arrogância de Claude, pensava. Não, melhor
não provoca-lo, alertou-a o outro lado de sua
consciência.
Lembrou-se da echarpe e foi até o quarto. Devia estar por lá. Começou a procura pelo banheiro.
Nada. Passou ao closet, abrindo o
armário. Em vão também. Ao tentar abrir um dos
maleiros, no alto, torceu o pé.
- Era só o que
faltava! Esbravejou, culpando o salto alto.
Tirou a sandália e caminhou mancando de volta ao quarto. Sentou-se na cama e massageou o pé dolorido. Foi então que reparou. A ponta de sua echarpe escapava de um dos
travesseiros. O do lado oposto ao que Claude
costumava ficar...
Puxou a echarpe e deitou-se, esticando a perna, o pé ainda
dolorido. Claude estava demorado. Já estava ali há mais de vinte minutos!
Enrolou a echarpe no braço e fechou os olhos imaginando porquê ele a colocaria ali. E pensou como seria bom se ele ainda a amasse
e estivessem juntos, como marido e mulher, como o casal que foram um dia...
Mexeu-se na cama e abriu
os olhos com aquela sensação de
ter se perdido no tempo e de que era
observada.
E lá estavam eles. Os
olhos de Claude. Fixos nela.
- Acho que dormi sem
querer... – Murmurou erguendo e encostando o
corpo na cabeceira da cama - Há
quanto tempo está me observando? - Perguntou piscando várias vezes.
- Alguns minutos apenas. – Respondeu ele, depois de mais um
gole da bebida que segurava - Você
parecia encantada. Pensava em como acorda-la... – Completou desprezando o resto
da bebida, abandonando o copo no aparador.
E sem cerimônia tirou os sapatos e ajeitou-se ao lado dela,
encostando-se à cabeceira também.
- Cansada? – Perguntou depois de um instante de silêncio, num
quase sorriso.
- Não. Eu torci o pé agora
a pouco – Falou balançando ele - Então deitei,
fechei os olhos por um momento e
acabei relaxando profundamente. – E então olhou para ele - Devia ter esperado na sala?
- Não. – Disse tocando-a no rosto com a mão - Encontrar você tão a vontade nessa cama foi a melhor
coisa da minha noite... Até agora. - Completou inclinando a cabeça e beijando-a.
O corpo de Claude ajustou-se ao dela primeiro. Então sua mão
deslizou passando pelo ombro de Rosa até alcançar-lhe as costas, e puxá-la fazendo-a prisioneira do
seu corpo.
E os lábios escorregaram até
o ouvido, e murmuram algumas
palavras enquanto a mão avançava
por sobre a blusa, ávida por soltar
cada um dos seus botões.
Quando todos já estavam livres, desceu lentamente com a ponta dos dedos sobre a pele arrepiada de
Rosa e o botão da calça jeans deixou de ser obstáculo.
Percorreu o mesmo caminho com a língua, arrastando-a desde a
lateral do pescoço até encostar no cós
da calça. Então ergueu seu torso e equilibrou-se antes de puxá-la para
baixo, deixando as pernas de Rosa livres. Aproveitou esse momento de doce
fragilidade dela e num movimento sutil juntou-lhe os braços acima da cabeça, e usou a echarpe para prendê-los na altura dos pulsos.
- O que está fazendo?
- E voz
de Rosa saiu rouca e tremida.
- Relaxa! – Respondeu ele calmamente, tirando a própria roupa. - Relaxa e aproveita o momento.
E sua boca cobriu a dela, evitando o som de um novo protesto. Não a
forçou nem exigiu que ela entreabrisse
os lábios, tolerando a resistência inicial.
Seus lábios pressionaram os
dela sedutoramente de segundo em segundo, esperando por recompensa, que ela retribuísse.
Rosa estava surpresa
demais. Surpresa e apreensiva. Claude nunca havia usado aquele tipo de fetiche antes. Mas não
podia negar que isso a deixara
ainda mais excitada.
E era contra isso que
lutava. Contra as ondas de prazer que
invadiam seu corpo a cada toque dele.
Contra seu próprio corpo, traidor
de suas emoções.
Por que Claude
simplesmente não se satisfazia e acabava
logo com essa deliciosa tortura? Por que insistia em carícias que a levavam a quase implorar para que ele a
possuísse sem demora?
Ah, por que ele usava a mão daquela forma desaforada,
quase profana... E pra que resistir se
sabia que era em vão?
Deixou que um gemido escapasse de seus lábios e foi nesse
momento que a língua dele invadiu
sua boca
e a fez sentir o gosto de rum, com um leve toque de café.
Aquele gosto... Não lhe
era estranho... Café Cubano, claro! Um dos
drinks favoritos dele...
Um gosto bom, de
saudade, de felicidade que misturou seu desejo ao dele. Correspondeu
abertamente ao beijo e quando o sentiu
diminuir a pressão e se afastar tentou deter
e segura-lo.
Enroscou suas
mãos amarradas pela echarpe no
pescoço de Claude, mas ele lhe escapava,
deslizando o corpo para baixo, num caminho molhado que seguiu até a parte
triangular da sua lingerie inferior. Fechou os olhos e mordeu o lábio,
contorcendo o corpo.
Mas Claude voltou ligeiro, arranhando levemente a pele de seu
abdômen com os dentes, antes de seguir em frente. E foi no pescoço, logo abaixo
de sua orelha que ele ousou impor uma força maior, mordendo-a sensualmente.
Como se recebesse uma descarga elétrica o corpo de Rosa soergueu, arqueando-se e colidindo
contra o dele. Só então abriu os olhos e notou, chocada, que estava presa entre
as pernas de Claude.
Seus olhares se
cruzaram no silêncio de um longo instante e quando Rosa separou os
lábios para pedir que a desamarrasse, Claude a silenciou colocando seus dedos sobre eles.
- Psssss... Não fale
nada, hã? – Pediu gentilmente,
descendo suas mãos pelos braços dela.
Então, forçou-os para cima e seus dedos caminharam de volta, até pousar em sua cintura e
sem avisos a girar, deixando-a de costas
para si.
Acariciou-a nos cabelos,
juntando-os pacientemente, para depois coloca-los de lado. E inclinando-se até a
nuca de Rosa, comprimia seus lábios contra
ela em pequenos beijos,
aleatórios e úmidos.
Abriu o fecho do sutiã e deixou-a com as costas
livres, mergulhando nela com as mãos espalmadas, em movimentos circulares.
Subiu com elas até os
ombros e os polegares imprimiram a força
e a delicadeza necessárias naquela
região. O tremor, e o movimento
involuntário que a fez encolher os ombros deram a Claude a certeza de que podia seguir com
seus carinhos.
Soltou os ombros e escorregou pela lateral, obedecendo a
curva na cintura, e usando os polegares novamente, adentrou o cós da
lingerie, sem deixar de descer e descer, até que a peça escapasse completamente.
Então voltou a inclinar-se sobre ela.
- Claude... – Sussurrou Rosa, a voz tensa...
- Chhhhh, não se mexa, chèrie. – Respondeu encostando seu
rosto rente a nuca de Rosa.
- Mas você está... - Calou-se,
sem saber que palavras usar - Está me
segurando nessa posição e eu não....
- Não se impressione.
Não farei nada que a deixe desconfortável ou constrangida, d’àccord?
Então Rosa sentiu que ele foi deslizando com uma das faces, por
suas costas. Os pelos espessos e aparados da barba arranhando prazerosamente
toda sua pele em parceria com o ar
quente que saia da
respiração pesada dele.
E não estava preparada para o atrevimento erótico de Claude,
que não parou nem desviou de suas nádegas e escolhendo uma de suas pernas completou a jornada, detendo-se em seu
pé. O mesmo que havia torcido.
Sentiu-o aquecer entre as mãos dele. Depois sentiu a
respiração pesada, desta vez
seguida da umidade dos lábios dele sobre a extensão de seu pé, incluindo
cada um de seus dedos...
Ainda tentava controlar o arrepio quando ele a voltou de
costas e desamarrou seus pulsos, jogando a echarpe em algum canto.
Deitou-se sobre ela e
envolveu-a num longo beijo, antes de afastar-se a procura do preservativo.
Um sentimento de mágoa tomou conta do coração de Rosa quando
percebeu isso. E Claude soube exatamente a medida dela, quando a possuiu, seus olhares se encontraram e os vestígios ainda
estavam ali...
Apertou os lábios, querendo que tudo isso estivesse
acontecendo de forma diferente. Mas agora já era tarde. Rosa nunca o perdoaria por tê-la submetido a essa chantagem.
PSV
Continua




