- Tem que haver outra saída, John! – Exclamou Rosa
massageando a nuca e fechando os olhos
por um instante. - A galeria é o único patrimônio que
resta a vocês...
- Rosa, como eu disse, não se
preocupe. As suas ações estão fora
da venda.
- Não são elas que me preocupam.
Isso tudo é o seu projeto de vida. Seu e de Elisabeth. Não é justo! – Exclamou
sentando-se no sofá.
- Pode não ser justo, minha querida, mas o grupo que incorporou a financeira adquiriu a dívida e pelos boatos
vão executá-la. Está tudo dentro
das leis brasileiras.
- Leis brasileiras?! E onde estão elas quando se precisa de
um tratamento como o de Elisabeth? Vou vender
minhas ações e ajuda-los. Não quero trabalhar com outro sócio ou patrão.
- É claro que não vai fazer isso. Eu não vou deixar. Além do mais vai continuar
trabalhando comigo.
- Não será o mesmo que trabalhar para você...
- Temos uma carta na
manga, Rosa. Os quadros e esculturas que estão segurados em nossos nomes. Assim que
conseguirmos uma boa venda, teremos capital para reaver a galeria. Ou, na pior das
hipóteses, comprar ações aos poucos, até
reavê-la por completo.
- Eu queria ter a sua fé, John.
- Você tem. Apenas não confia nela. Mas eu confio em você.
Algum imprevisto com nossa última
exposição, eu como proprietário? –
Pergunta John mudando o foco da conversa.
- Nenhum. Tudo de
acordo com nosso cronograma, as peças já
chegaram, estão separadas e prontas para serem posicionadas. – Rosa suspira profundamente. – E Elisabeth, como
está hoje?
- Ansiosa e animada para
voltar. Ela sente muito a falta
de vocês.
- Nós também a dela. Vão chegar a tempo da abertura, não vão?
– Indaga, ansiosa.
- Tenho uma surpresa: chegaremos depois de amanhã. A companhia aérea autorizou a troca das passagens.
- Oh, isso é maravilhoso! Eu sabia que ia conseguir, John! Eu mesma vou busca-los no aeroporto!
- Está vendo como tem fé? -
Responde ele, de maneira
divertida e sincera. – Tudo se
resolve nessa vida, Rosa.
“Tudo não. Algumas vão
ficar pendentes para outra vida” –
Pensa Rosa, melancolicamente.
- Rosa? Está me ouvindo? Rosa?!
- Estou ouvindo sim, John. Desculpe-me, eu me distraí com
sua colocação...
- Deve estar cansada, tendo que organizar tudo sozinha. Eu é
que devia ter ligado de dia. Vá descansar, querida.
Boa noite.
- Não é nada disso,
John, eu...
- Boa noite, Rosa! Vá
se deitar e tenha bons sonhos. – Diz ele de maneira firme e
paternal. - Agora, ok?
- Ok, você ganhou. Desta vez! – Responde Rosa com um meio
sorriso. Boa noite, meu amigo! E dê um beijo em Liz por mim. Bye!
Rosa estendeu o braço
e repôs o fone em sua base. Por alguns instantes seu olhar perdeu-se no reflexo que as luzes dos outros prédios faziam na janela do seu apartamento, levando-a
ao passado. Mas um ruído a trouxe
de volta ao presente,
fazendo-a sacudir levemente a cabeça.
Esse assunto estava encerrado e enterrado. Para sempre. A não
ser por um detalhe precioso, a razão do seu viver...
PSV
John Smith desligou o celular, colocou-o sobre o aparador e
já se preparava para ficar em pé, quando
ouviu a voz da
esposa:
- Com quem falava, John?
- Darling! – Exclamou ele andando rapidamente até ela. – Não devia ter saído da cama
sozinha. Por que não me esperou?
- Eu precisava ir ao banheiro e não dava para esperar. Além
do mais já estou liberada para essas
movimentações habituais e necessárias.
- Eu sei disso, sua
recuperação foi excepcional. Só não quero que aconteça nada que nos
impeça de voltar, como desejamos!
- Não vai acontecer nada, honey. Podemos ficar um pouco por aqui? Estou farta da
paisagem daquele quarto.
- Evidente que sim, Liz. – Respondeu John, conduzindo a
esposa até o pequeno sofá, onde estivera até então. – Quer ver TV?
- Não, apenas ficar por aqui...
Há três meses aquele era o cenário de Elisabeth: um
apartamento hospitalar, dentro da Universidade de Medicina da Carolina do Sul,
sendo o quarto, o local onde passava a maior
parte do tempo, desde a confirmação do diagnóstico.
- Não me disse com quem falava... – Comentou ela.
- Com Rosa. Ela mandou
um beijo para você e vai nos buscar no
aeroporto.
- Eu sinto tanta culpa por tudo que está acontecendo... Tantos anos de investimento,
pessoal e financeiro, e de repente isso!
- Não tem que se sentir
culpada de nada, Liz.
Investimentos existem para isso.
Para serem usados quando necessário.
- Mas...
- Mas que bom que
pudemos contar com esse investimento e solucionar o seu
problema. Quanto a galeria, ela ainda vai
voltar às nossas mãos, creia nisso. Entenda que o empréstimo apenas mudou de credor. Daremos um jeito de
reavê-la, você vai ver! Vai ver e
participar do processo, como antes.
- Não sei o que seria de mim sem você, John! – Declara segurando a mão do marido.
- Eu é que não seria nada sem você... – Responde acomodando-a
gentilmente junto a ele.
- E Rosa, como reagiu à notícia?
- Queria vender os dez por cento de ações dela, que não entram
nos commodities para nos ajudar e porquê
não gostaria de trabalhar para outro sócio ou patrão
- É claro que você a fez desistir dessa ideia...
- Sim. – Respondeu com um sorriso – Eu disse que não a
deixaria fazer isso, já que continuarei
por lá, como curador e ela como minha assistente direta, além de acionista.
- E como vai ficar a
situação do prédio?
- Bem o casarão é
propriedade de Rosa. Os custos da
restauração e adaptação assumiram o valor do aluguel a ser pago por um
determinado período, que deve estar
vencendo.
- Sendo assim, o “novo” proprietário terá que arcar com esse custo também.
- Sim. O combinado era eu pagar cinquenta por cento do aluguel depois deste prazo. Esse investidor terá que
pagar o
valor integral, a preço de mercado atual.
- Eu não consigo entender o interesse dele nessa hipoteca.
Tudo bem que o acervo cobre o montante, mas daqui pra frente ele só terá lucros a médio e longo prazo. Você o conhece?
- Não. Freitas intermediou toda a negociação. As
commodities foram negociadas numa transação comercial de mercado à vista,
num contrato de pagamento/entrega, negociadas internamente na Bolsa de
Valores.
- E quando o conheceremos?
- Provavelmente depois da vernissage.
- Ainda bem que Rosa não perderá esse patrimônio...
- Bendita a hora que
tivemos a ideia de registra-lo em nome
de A... – O toque do celular o faz parar
de falar – Por falar em hora, hora
do remédio, Liz. E depois, repouso!
Elisabeth ainda
resmungou, contrariada. Mas, acabou acatando o pedido do marido.
Continua


2 comentários:
COMEÇOU LEGAL ÓTIMO.
Já começou com gostinho de quero maissssssss!!! Ameiiii! Tudo bem amarradinho e mto bem ilustrado, como sempre! Parabénssss, amiga vc não perdeu a forma de sempre... uhuuuuuu!
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