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sábado, 2 de janeiro de 2016

PSV/Capítulo 1

- Tem que haver outra saída, John! – Exclamou Rosa massageando a nuca e fechando os olhos  por um instante. -  A galeria é o único patrimônio que resta a  vocês...
- Rosa, como eu disse, não se  preocupe. As suas ações estão fora  da venda.
- Não são elas que me  preocupam. Isso tudo é o seu projeto de vida. Seu e de Elisabeth. Não é justo! – Exclamou sentando-se  no sofá.
- Pode não ser justo, minha querida, mas o  grupo que incorporou a financeira adquiriu  a dívida e pelos  boatos  vão executá-la. Está tudo  dentro das leis brasileiras.
- Leis brasileiras?! E onde estão elas quando se precisa de um tratamento como o de Elisabeth? Vou vender  minhas ações e ajuda-los. Não quero trabalhar  com outro sócio ou patrão.
- É claro que não vai fazer isso. Eu não  vou deixar. Além do mais vai continuar trabalhando comigo.
- Não será o mesmo que trabalhar para você...
- Temos uma  carta na manga, Rosa. Os quadros e esculturas que estão segurados em nossos nomes.  Assim que  conseguirmos uma  boa  venda, teremos capital para  reaver a galeria. Ou, na pior das hipóteses,  comprar ações aos poucos, até reavê-la  por  completo.
- Eu queria ter  a  sua fé, John.
- Você tem. Apenas não confia nela. Mas eu confio em você. Algum imprevisto  com nossa última exposição, eu como  proprietário? – Pergunta John  mudando o foco da  conversa.
-  Nenhum. Tudo de acordo com nosso cronograma,  as peças já chegaram, estão separadas e prontas para serem posicionadas. – Rosa  suspira profundamente. – E Elisabeth, como está hoje?
- Ansiosa e animada para  voltar.  Ela sente muito a falta de vocês.
- Nós também a dela. Vão chegar a tempo da abertura, não vão? – Indaga, ansiosa.
- Tenho uma surpresa: chegaremos depois de amanhã. A  companhia aérea autorizou a  troca das passagens.
- Oh, isso é maravilhoso! Eu sabia que ia  conseguir, John! Eu mesma  vou busca-los no aeroporto!
- Está vendo como tem fé? -  Responde ele, de maneira  divertida e sincera. – Tudo se  resolve nessa vida, Rosa. 
“Tudo não. Algumas  vão ficar pendentes para outra  vida” – Pensa  Rosa, melancolicamente.
- Rosa? Está me ouvindo? Rosa?!
- Estou ouvindo sim, John. Desculpe-me, eu me distraí com sua  colocação...
- Deve estar cansada, tendo que organizar tudo sozinha. Eu é que devia  ter  ligado de dia. Vá descansar, querida. Boa  noite.
- Não é nada   disso, John, eu...
- Boa  noite, Rosa! Vá se  deitar e tenha bons  sonhos. – Diz ele de maneira firme e paternal. - Agora, ok?
- Ok, você ganhou. Desta vez! – Responde Rosa com um meio sorriso. Boa noite, meu amigo! E dê um beijo em Liz por mim. Bye!
Rosa  estendeu o braço e repôs o fone em sua base. Por alguns instantes seu olhar  perdeu-se no reflexo  que as luzes dos  outros prédios  faziam na janela do seu apartamento, levando-a ao passado.  Mas um ruído  a trouxe  de  volta ao presente, fazendo-a  sacudir levemente  a cabeça.
Esse assunto estava encerrado e enterrado. Para sempre. A não ser por um detalhe precioso, a razão do seu viver...

PSV


John Smith desligou o celular, colocou-o sobre o aparador e já se preparava para  ficar em pé, quando ouviu a  voz  da  esposa:
- Com quem falava, John?
- Darling! – Exclamou ele andando rapidamente  até ela. – Não devia ter saído da cama sozinha. Por que não me esperou?
- Eu precisava ir ao banheiro e não dava para esperar. Além do mais já  estou liberada para essas movimentações habituais e necessárias.
- Eu sei disso, sua  recuperação foi excepcional. Só não quero que aconteça nada que nos impeça de  voltar, como desejamos!
- Não vai acontecer nada, honey. Podemos  ficar um pouco por aqui? Estou farta da paisagem daquele quarto.
- Evidente que sim, Liz. – Respondeu John, conduzindo a esposa até o pequeno sofá, onde estivera até então. – Quer ver TV?
- Não, apenas ficar  por aqui...

Há três meses aquele era o cenário de Elisabeth: um apartamento hospitalar, dentro da  Universidade de Medicina da Carolina do Sul,   sendo o quarto, o local onde passava  a maior parte do tempo, desde a confirmação do diagnóstico.






- Não me disse com quem falava... – Comentou ela.
- Com Rosa. Ela  mandou um beijo para  você e vai nos buscar no aeroporto.
- Eu sinto tanta culpa por tudo que está  acontecendo... Tantos anos de investimento, pessoal e financeiro, e de repente isso!
- Não tem que se sentir  culpada de nada, Liz.  Investimentos existem para isso.  Para serem usados  quando necessário. 
- Mas...
- Mas que  bom que pudemos  contar  com esse investimento e solucionar o seu problema. Quanto a galeria, ela ainda vai  voltar às nossas mãos, creia nisso. Entenda que o empréstimo apenas  mudou de credor. Daremos um jeito de reavê-la, você  vai ver! Vai ver e participar do processo, como antes.
- Não sei o que seria de mim sem você,  John! – Declara segurando a mão do marido.
- Eu é que não seria nada sem você... – Responde acomodando-a gentilmente junto a ele.
- E Rosa, como reagiu à notícia?
- Queria vender os dez por cento de ações dela, que não entram nos  commodities para nos ajudar e porquê não gostaria de trabalhar para outro sócio ou patrão
- É claro que você a fez desistir dessa ideia...
- Sim. – Respondeu com um sorriso – Eu disse que não a deixaria  fazer isso, já que  continuarei  por lá, como curador e ela como minha assistente  direta, além de acionista.
- E  como vai ficar a situação do prédio?
- Bem o casarão é   propriedade de Rosa. Os  custos da restauração e adaptação assumiram o valor do aluguel a ser pago por um determinado período, que  deve estar vencendo.
- Sendo assim, o “novo” proprietário terá que arcar  com esse custo também.
- Sim. O combinado era eu pagar cinquenta  por cento do aluguel depois  deste prazo. Esse investidor terá que pagar  o  valor integral, a preço de mercado atual.
- Eu não consigo entender o interesse dele nessa hipoteca. Tudo bem que o acervo cobre o montante, mas daqui pra frente  ele só terá lucros a médio e longo  prazo. Você o conhece?
- Não. Freitas intermediou toda a negociação. As  commodities foram negociadas numa transação comercial de mercado à vista, num contrato de pagamento/entrega, negociadas internamente na Bolsa de Valores. 
- E quando o conheceremos?
- Provavelmente depois da vernissage.
- Ainda bem que Rosa não perderá esse patrimônio...
- Bendita a hora  que tivemos a ideia de  registra-lo em nome de A... –  O toque do celular o faz  parar  de falar – Por  falar em hora, hora do remédio, Liz. E depois, repouso!
Elisabeth ainda  resmungou, contrariada. Mas, acabou acatando o pedido do marido.


Continua

2 comentários:

Unknown disse...

COMEÇOU LEGAL ÓTIMO.

Carliane disse...

Já começou com gostinho de quero maissssssss!!! Ameiiii! Tudo bem amarradinho e mto bem ilustrado, como sempre! Parabénssss, amiga vc não perdeu a forma de sempre... uhuuuuuu!

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