John e Liz cortaram a fita que dava acesso ao salão de
exposições. [palmas]
Rosa queria mover os
pés e ficar ao lado deles mas suas
pernas estavam paralisadas. Não se atrevia a enfrentar de novo o olhar duro e impessoal de Claude. Não, impessoal não. Dilacerante.
- Ei, Claude, pare de
olhar assim para ela!
- Todos nos hipnotizamos com ela. Mas não perca seu tempo. – Falou Júlio.
- Por que diz isso? Ela é casada?
- Não. Mas é como se
fosse. Recusa qualquer convite para sair, além de ser a protegida de
John Smith. – Comenta Milton.
- Protegida?
- É o que dizem. Veja, tudo que sabemos é que John e Liz foram professores dela. Então de repente ela
foi para o exterior por ordem de
Liz. Começaram os boatos que Liz queria se livrar da aluna, por
causa de um suposto relacionamento entre ela e seu marido. E então tão de repente quanto foi, ela voltou.–
Falou Freitas.
- Isso são só boatos.
– Afirmou Júlio.
- Por que a defende?
Está interessado nela? – Pergunta Claude.
- Nela não. Na babá. – Diz apontando para Silvia que de mãos
dadas com Alexandra se aproximava de
Rosa.
- O velho trata a menina
como se fosse neta dele – Diz
Milton inclinando a cabeça em direção a Claude. - Ninguém fala nada mas todo mundo pensa
que é filha dele.
- Milton, às vezes
você me enoja, cara! - Comenta
Júlio - Me diz que vantagem você leva
alimentando e espalhando esses boatos?
- Nenhuma! – Exclama Freitas – Ele deve fazer isso apenas
para se
vingar do fora que levou dela!
Vamos à sala de exposições?
PSV
- Pode deixar que eu atendo Elise! - Exclamou em alto tom Nara, correndo para a
porta de entrada.
- Boa noite, Nara!
- Frazão! Que bom
que você
veio! – Disse abraçando-o. - Eu sei que já está tarde mas...
- Eu fiquei preocupado contigo. O que foi que aconteceu? Problemas com Louise?
- Vamos até a biblioteca. É o único lugar que eu acho seguro
mesmo estando sozinha. As paredes são grossas e ninguém vai nos ouvir.
- Mon Dieu! Você está me assustando garota!
- Não, eu estou assustada, Frazão! – Disse entrando depois
dele. E sentaram-se no sofá. - Ontem
minha mãe ofereceu um almoço para
algumas pessoas do partido, entre eles Bernard.
- Isso é corriqueiro,
Nara. É normal apoiadores de partidos políticos oferecerem festas,
recepções, jantares... Faz parte das obrigações, digamos assim.
- E é corriqueiro
também oferecer a filha em casamento? É uma das
obrigações?
- Como é que é?
- É, é isso mesmo que
você entendeu. Minha mãe quer me
obrigar a casar com Bernard pra ser a primeira
dama do país, a longo prazo.
- Mon Dieu, Louise está obcecada pelo poder e perdeu a noção, perdeu o senso
da decência!
- Ela perdeu foi a
dignidade e quer que eu perca a minha. Mas eu não vou, Frazão! Não vou me casar com ele! Eu vou para o Brasil, e você vai me ajudar!
PSV
Alexandra soltou a mão de Sílvia e correu até Rosa
- Mamãe você esqueceu de “i” me busca”?
- Não consegui convencê-la a esperar, Rosa. Ficou espiando e
quando viu cortarem a fita...
- Não tem problema, Sílvia. E eu não a esqueci, meu amor! Apenas me
enrolei um pouquinho e atrasei. Mas agora que está aqui, podemos passear juntas
pela galeria!
- Oba! – Exclamou Alex, excitada, batendo palmas.
- Lembre-se de não mexer nos trabalhos, Alex! Nossos dedinhos
não tem olhos! – Brincou John,
movimentando os dedos e terminando
por coloca-los sobre a cabeça dela, num
carinho afetuoso.
- Dedinhos com olhos!
– Repetiu rindo e olhando para a ponta
dos próprio dedos - Adoro suas
brincadeiras, padrinho! - E abraçou John onde o alcançava - nas pernas.
- Assim eu vou ficar
com ciúmes, honey! – Exclamou Liz, fingindo-se chateada.
- Ah, não precisa
madrinha! Eu amo você também! – Retrucou Alex, abraçando-a também. –
Vamos, mamãe?
- Vamos. - Respondeu Rosa pegando na mão que a filha lhe oferecia.
Não foi necessário terminar de endireitar o corpo para dar o primeiro passo, nem levantar o olhar
para perceber que os sapatos dos quais precisou desviar estavam nos pés de
Claude.
PSV
Quando Rosa finalmente levantou a cabeça Júlio cumprimentou a
ela e aos demais.
- Boa noite a todos e
parabéns, Rosa! Como sempre você foi
maravilhosa.
- Obrigada, Júlio. Mas não fiz tudo sozinha. Sérgio e Janete também merecem
elogios.
- Tenho certeza que
sim, mas não seja tão modesta! Você é a mentora intelectual de todo esse
evento, sabemos disso.
- Rosa é sempre
competente em tudo que faz, Júlio. – Comenta John.
- Eu agradeço as
palavras de vocês dois, mas tenho
certeza que não foi para isso que você veio aqui, Júlio e sim para apreciar e
avaliar monetariamente esses trabalhos. Acertei?
- Como sempre. – Respondeu, sorrindo – E também para
apresentar a vocês o investidor do qual falei. - John, Liz, Rosa... Claude Geraldy.
Claude cumprimentou Elizabeth primeiro. Ela olhou-o com
curiosidade, retribuindo o cumprimento.
De onde o conhecia?
Em seguida John e
então olhou para Rosa:
- Encantado, senhorita! – Falou sem colocar emoção
alguma na voz.
- Eu... Seja bem
vindo, senhor Geraldy. – Respondeu
tentando ser tão indiferente quanto ele,
e torceu para que ninguém tivesse
notado o tremor em suas mãos ao aceitar
a dele.
E ninguém pareceu reparar, a não ser o próprio Claude. Soube disso pela maneira como ele controlou sua mão na dele, segurando-a um pouco mais que o necessário. O suficiente para que ela
reparasse na aliança.
Júlio continuou as apresentações.
- ...E esta é ‘nossa’ Alexandra, filha de Rosa.
- Oh, tão encantadora quanto a mãe. É um prazer conhecê-la, mademoiselle Alexandra. – Falou
Claude abaixando-se a altura da menina.
Diferente de seu
comportamento habitual, Alex sorriu timidamente para ele.
- Rosa por que não deixa Alex conosco e os acompanha pela
galeria? – Manifestou-se Liz - Assim
Claude vai se ambientando a ela. Posso chama-lo assim, não é?
- Ouí. Nós franceses nem somos tão formais quanto parecemos, hã? Me sentirei imensamente honrado, senhora
Smith
- Oh, por favor,
apenas Elizabeth. Ou Liz como todos me
chamam.
- Querida, a mamãe já
volta para ficar com você, ok?
- Por que não a leva junto? Eu não me incomodaria.
Mas eu sim, pensou Rosa. Entretanto o brilho no olhar da filha a fez concordar e circularam pelo salão, apreciando
os trabalhos. Às vezes Claude fazia alguma observação e perguntava a cada
artista sobre a estética dos trabalhos, escutando paciente e interessadamente.
Quando deu por si estavam apenas os três juntos. O resto do
grupo se dispersara. Alexandra parecia
ter perdido a timidez inicial e conversava
com Claude como se o conhecesse a vida toda, inclusive estava de mãos dadas com ele.
- Se eu não os
conhecesse, Rosa, diria que eram
pai, mãe e filha. – Falou Liz, baixinho, aproximando-se dela.
Coincidentemente nesse instante Alexandra falou alguma coisa
que fez Claude sorrir e seus olhares se
cruzaram...
Uma hora depois, Alexandra insistiu para Claude
conhecer a sala-atelier e dar uma “nota” em seus desenhos. Rosa sentia-se
cada vez mais desconfortável.
Quando Alex começou a dar
sinais de cansaço, Rosa
desculpou-se e despedindo-se foi
para casa.
Claude confirmou o interesse pela transferência da galeria
com John e Liz, mas pediu mais alguns
dias para decidir. Havia muito o que pensar agora.
PSV
Bernard saltou do
carro e acionou o alarme. Ajustou melhor
o óculos escuro enquanto caminhava para
o prédio da prefeitura.
Atravessou o saguão a passos largos, cumprimentando as pessoas com quem cruzava
e entrou no elevador.
Apertou o número que o levaria até seu gabinete e relaxou. O apoio de
Louise Geraldy à sua candidatura já lhe rendia os primeiros frutos.
Empresários já o procuravam, dispostos a
colaborar em sua campanha, em
troca de futuras parcerias, um terreno
que lhe garantiria excelentes
colheitas, tanto em qualidade quanto em quantidade.
E de quebra, havia Roberta, uma mulher cheia de peripécias, considerou ainda deixando um sorriso cínico
aflorar em seus lábios. Esse sim era um fruto perigoso. Roberta era um terreno acidentado,
um campo minado e teria que ser muito cuidadoso ao andar por ele. Caso contrário seus planos iriam literalmente
para o espaço.
O elevador parou e a porta se abriu. Bernard retomou sua aura
política e entrou no gabinete.
Valèrie, sua
secretária, rapidamente levantou-se e
caminhou até a frente de sua mesa
tentando inutilmente controlar a tensão que sentia.
- O que foi Valèrie?
Por que está tão nervosa?
- Senhor Bernard,
eu... Eu tentei impedi-la, falei que não
estava mas ela não acreditou e invadiu sua
sala depois de me insultar e quase derrubar. Eu pedi que se retirasse e
esperasse na ante sala, mas ela recusou e
ainda ameaçou me despedir, disse que em poder para isso e...
- Acalme-se Valèrie.
Apenas eu posso despedi-la e não tenho
essa intenção. Agora diga, quem está lá
dentro? – Perguntou ponderando que, se
fosse Roberta, ela tinha perdido
toda sua sanidade.
- É a senhora Geraldy. Louise
Geraldy.
- Ah! – Murmurou respirando aliviado. – Está tudo bem,
vamos relevar esse incidente. Ela se
dedicou demais e está muito abalada
desde que Claude renunciou ao partido. Posso contar com sua
discrição de sempre, não posso?
- Sim senhor.
- Eu sabia que ia
compreender. É por isso que
confio em você, Valerie. Se não houver nada de urgente, tire o resto da tarde para você. E isso não é uma
sugestão, é uma ordem.
- O prefeito! Ele quer falar com o senhor ainda hoje.
- D’àccord. Assim que eu dispensar a senhora Louise, irei
ter com ele. Boa tarde, Valerie.
Bernard entrou em sua
sala. Louise estava confortavelmente sentada em sua cadeira, o que não o
agradou.
- O que pensa que
está fazendo Louise? Este
gabinete não é a sua casa e minha secretária não é a sua filha.
- Mon Dieu, quanto ressentimento! – Diz levantando e
aproximando-se de Bernard.
- Não gosto que interfiram no meu ambiente de trabalho. Aqui
dentro eu sou a autoridade.
- Está bem, já entendi! Quer que eu me desculpe com sua “secretária”? – Pergunta
ironicamente.
- Não será necessário, eu
já contornei a situação com ela.
E sim, Valèrie é tão somente minha
secretária. Eu não costumo misturar trabalho com prazer.
- É mesmo? – Falou colocando as mãos sobre os ombros dele –
Devia experimentar, é uma aventura e tanto! – E deslizou as mãos para baixo,
sensualmente.
- Você é louca! O que pensa que está fazendo? – Reclamou ele, tentando livrar-se
dela.
- Estou deixando bem claro a você que quero levar vantagem em todos os nossos negócios...
- Esse seu jogo é muito perigoso, Louise. E sujo.
- Política é um jogo, meu caro. Sujo. Por vezes imundo, onde
quem sabe trapacear se dá melhor. Ou sendo mais... romântica, é a arte de negociar interesses em comum para alcançar determinado
objetivo, geralmente o exercício do
poder. E eu quero ele todinho para mim.
E se você for gentil comigo, eu posso
compartilhar ele com você...
PSV
Continua

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