Rosa reescreveu mais uma vez o termo de abertura da vernissage. Enquanto dava o comando de
imprimir verificou a hora. Correu até a cozinha e abriu o forno. Gostava de
preparar o café da manhã de todos o dias. Era um dos poucos mimos que a falta de tempo lhe
permitia dar à Alex. O bolo estava
pronto. Com cuidado tirou do forno e despejou sobre ele a cobertura de
chocolate. “Cenoura com chocolate? Não
me parece uma boa combinação!” Foram as palavras que passaram
em sua mente, naquele momento.
Não foi a lembrança das
palavras que a fizeram estremecer e sim a lembrança da voz, da pessoa
dona daquela voz. E do seu coração.
- Droga, eu não vou chorar agora! - Resmungou limpando o
excesso de cobertura que escorreu fora
do prato. Assim como ele, Alex também gostava do bolo morno.
Sem lágrimas Rosa! – Ordenou a si mesma, apertando os olhos e
engolindo em seco.
Voltou a passos largos para seu quarto. Precisava ser rápida pois
logo Alex acordaria. Retirou a folha da bandeja. Gostava de corrigir no
papel, embora isso não fosse politica e
sustentavelmente correto. Com a folha
nas mãos, leu e releu andando pelo quarto.
“Vernissage, sabemos, é um evento cultural, um encontro prévio entre
pintores, escultores e fotógrafos para a inauguração de uma amostra de arte. De
origem francesa, a palavra deve-se a um fato pitoresco da história da arte
plástica: na inauguração de uma exposição de pinturas a óleo, os artistas, para
conservar a tela deixavam para dar os
últimos retoques com verniz na presença dos convidados, que iriam apreciá-las
antes do público geral. Sentia-se então, no ar, o cheiro do verniz. Do verniz,
vernissage. E qual o propósito atual de
uma vernissage? A finalidade é que um grupo seleto de convidados, como
vocês, conheçam a obra do artista e a
divulguem. Por esse motivo esmeramos na
qualidade da exposição e na organização do evento. Nossos artistas são
contemporâneos e extraordinários, mas sabemos que a primeira impressão é o a
que fica.”
- Horrível! – Exclamou fazendo uma careta e girando o corpo de
frente para a porta, que se abria nesse
momento.
- Ah, mamãe não é não! -
Eu adoro esses sapatinhos de
madeira! – Exclamou Alexandra dando alguns passos, desfilando.
E quando parou girou o corpo,
quase como uma bailarina. Desequilibrou-se quando a
saia que vestia enroscou em seus pés.
Esperta, puxou-a nas laterais e nada
aconteceu.
Rosa até tentou ralhar
com a filha, mas não conteve um
sorriso. Além de estar com suas roupas,
havia se “maquiado” com batom e sombra.
- Outra vez brincando
com minhas roupas, não é? – Falou
em um tom de amável censura.
- Mas a maquiagem é minha, a que eu ganhei da madrinha! –
Defendeu-se a pequena. – Fiquei bonita
que nem você?
- Você não precisa
ficar bonita “igual” a mim, porque
você é bonita por si só, ok? Bom dia,
meu amor! – Disse Rosa aproximando-se da filha, abraçando e beijando-a. – Meu
bebê já é uma mocinha, está até
acordando sozinha!
- Bom dia, mamãe! – Respondeu de volta Alex, retribuindo o carinho da mãe e dando um largo
sorriso – Aham! Eu tava ‘brincano’ que o meu quarto era a galeria e eu era
você e eu arrumei meus brinquedos ‘ingual’ você faz lá...
- Você estava brincando e espalhou seus brinquedos outra vez,
igual eu faço? Ah, mocinha, vai ter
que coloca-los de volta no lugar! Nada de pedir à Silvia que faça isso.
- Mas ela pode me ajudar, né?
- Eu vou pensar no seu caso depois de ver o tamanho do
estrago. Não está com fome?
- Aham!
- Então vamos tirar essa roupa e fazer o nosso café da manhã,
ok?
- Ah, mamãe, deixa eu ficar
com ela!
- Está bem. Pode ficar
com ela para tomar seu desjejum. Mas vamos pentear e prender seu cabelo.
Rosa amarrou o cabelo da filha num rabo de cavalo alto, deixando a mostra
aquela marquinha parecida com uma
estrela, bem atrás da orelha
esquerda. Suspirou e seu coração apertou dentro do peito. A genética é mesmo
engenhosa, pensou enquanto sua mente trazia a mesma imagem em outra pessoa.
- Oba! Amo você, mamãe! Eu queria já ser grande pra poder ir de noite com
você nas festas da galeria também.
- Hummm... Eu acho que dessa vez poderá ir comigo. – Falou expulsando mais uma vez aquela
sensação de si.
- De verdade?
- Claro que de verdade,
querida! Só peço que seja obediente e comportada. Combinado?
- Yes! A Silvia pode ir
junto?
- Perguntaremos a ela quando chegar. Agora vamos pra cozinha. O que vai querer hoje? Suco, leite,
chá...?
- Leite com chocolate. E você
deixa eu tomar naquela canequinha do beijo hoje?
- Deixo, meu bem. Ela é
sua esqueceu que a dei a você?
- ‘Mais’ eu tenho medo de quebrar ela, mamãe...
- Mas isso não vai acontecer, Alex! Você não vai quebra-la. Não
quer tirar esses tamancos de madeira
para ficar mais confortável?
- Não, eu gosto de ficar
com ele. – Respondeu sentando-se
a mesa e balançando as pernas. - Mamãe, você
conta de novo como ganhou esse sapato do meu papai? Quando é que a mamãe dele vai sarar e ele vai
vir me ver?
Rosa estava de costas para a filha. Fechou os olhos e mordeu
os lábios. Sabia que não poderia esconder a verdade da filha por muito mais tempo. Ela tinha o direito de
saber e conhecer Claude. Só não sabia como ele iria reagir, tanto tempo depois.
Abriu a boca para responder, mas Sílvia entrou na cozinha
neste momento. Dizer que Silvia era a babá de Alexandra era pouco. Era muito
mais que isso. Era uma amiga irmã.
- Bom dia! Desculpe o atraso Rosa. Perdi o ônibus... Bom dia,
Alex!
- Mas não perdeu o café da manhã! Bom dia, Silvia. Sente-se e nos faça companhia! – Respondeu
colocado o bolo de cenoura sobre a mesa.
- Bom dia, Silvia! – Falou Alex, pegando cuidadosamente a
caneca com leite.
- Hummm, bolo de cenoura! – Exclamou Silvia - Adoro! Posso servir, você, Alexandra?
- Humhum! – Resmungou Alex, pois estava com a boca cheia de leite. – Silvia, você pode ir
comigo e com a minha mamãe na festa da galeria?
- Eu acho que sim...
- Eba!!!! E você pode
me ajudar a guardar meus brinquedos?
- Filha, o que foi que eu disse a você? – Repreendeu-a Rosa.
- Tá bom, eu guardo sozinha...
- Sem problemas, Rosa. Nossa mocinha andou brincando de
galeria de novo, não foi? Pois então vamos fazer assim: Eu serei a supervisora
da sua galeria e vou observar se guarda
as obras de arte no lugar certo.
E esquecendo momentaneamente da história dos tamancos holandeses, pois tinha certeza que a
filha voltaria ao assunto ainda naquele dia, Rosa observou Alex terminar o café
fazendo planos para finalmente ir à
galeria “de noite”.
Voltou ao quarto, tomou banho e se arrumou para mais um dos dias
de intenso trabalho na galeria, antes da vernissage acontecer.
Bateu o olho no último parágrafo do texto e sem demora pegou
a caneta e acrescentou algumas palavras
escrevendo rapidamente a ideia nova: Nossos artistas são contemporâneos e extraordinários na
expressão de sua arte. Mas sabemos o poder do impressionismo, afinal, a primeira
impressão é o a que fica.
Sorriu satisfeita.
Gostava de brincar com as palavras e esse simples trocadilho expressão/impressionismo/impressão
lhe pareceu ótimo.
PSV
Uma pequena e rápida turbulência fez com
que Claude abrisse os olhos. Tão rápida que os outros passageiros
não se abalaram. Dadi também
dormia tranquilamente.
Preciso me esticar um pouco,
pensou levantando-se para ir ao banheiro exclusivo a classe executiva. Na volta, parou em um bar à bordo, que fica entre a primeira e a segunda sessão da área executiva, com alguns snacks e bebidas.
Encheu o copo com várias pedras de gelo e despejou uma porção de whisky sobre
eles. Não era o seu preferido, mas serviria. Quem sabe com ele conseguisse dormir.
- Não vai lhe fazer bem beber sem ter comido nada, Claude.
- Não se preocupe Dadi. Tem mais gelo que whisky neste
copo, portanto mais água que álcool.
Eu vou sobreviver.
- É, eu sei que vai. E
viver, quando vai? Quando vai parar de se esconder atrás dessas lembranças?
- Que lembranças
Dadi? – Perguntou recolocando os fones
de ouvido e sorrindo para ela, antes de tomar mais um gole e fechar os olhos, recostando-se.
Dadi não insistiu. Teria muito tempo no Brasil para convencê-lo a procurar por Rosa e não ver
mais aquele sorriso triste. Não seria
tão difícil assim localiza-la, afinal a arte os aproximara uma vez, por quê
não de novo?
Claude levou o copo
mais uma vez até a boca e terminou com
a bebida. Concluiu que se insistia
nessas lembranças era justamente para viver. Talvez Dadi, Frazão e Nara estivessem com a
razão ao sugerir que a procurasse...
Não, não farei isso. Ela me deixou!
Droga, onde foi que errei?
E voltou ao ponto em
tinha parado de sua história com Rosa: a primeira noite que passaram
juntos.
PSV



1 comentários:
Soniaaaaaaaaaaaaaaa, não enrola igual novela quero ler a primeira noite de amor deeeeeeellllllleeeeeeessssss
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