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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

PSV/Capítulo 6

Rosa reescreveu mais uma vez o termo de abertura da vernissage. Enquanto dava o comando de imprimir verificou a hora. Correu até a cozinha e abriu o forno. Gostava de preparar o café da manhã de todos o dias. Era um dos  poucos mimos que a falta de tempo lhe permitia dar à Alex.  O bolo estava pronto. Com cuidado tirou do forno e despejou sobre ele a cobertura de chocolate. “Cenoura  com chocolate? Não me parece uma  boa  combinação!” Foram as palavras que passaram em sua mente, naquele momento.
Não foi a lembrança das  palavras que a fizeram estremecer e sim a lembrança da voz, da pessoa dona  daquela voz. E do seu coração.
- Droga, eu não vou chorar agora! - Resmungou limpando o excesso de  cobertura que escorreu fora do prato. Assim como ele, Alex também gostava do bolo morno.
Sem lágrimas Rosa! – Ordenou a si mesma, apertando os olhos e engolindo em seco.
Voltou a passos largos para seu quarto. Precisava ser rápida  pois  logo Alex acordaria. Retirou a folha da bandeja. Gostava de corrigir no papel, embora  isso não fosse politica e sustentavelmente correto.  Com a folha nas mãos, leu e releu andando pelo quarto.
“Vernissage, sabemos,  é um evento cultural, um encontro prévio entre pintores, escultores e fotógrafos para a inauguração de uma amostra de arte. De origem francesa, a palavra deve-se a um fato pitoresco da história da arte plástica: na inauguração de uma exposição de pinturas a óleo, os artistas, para conservar a tela   deixavam para dar os últimos retoques com verniz na presença dos convidados, que iriam apreciá-las antes do público geral. Sentia-se então, no ar, o cheiro do verniz. Do verniz, vernissage.   E qual o propósito atual de uma vernissage? A finalidade é que um grupo seleto de convidados, como vocês,  conheçam a obra do artista e a divulguem. Por esse motivo esmeramos  na qualidade da exposição e na organização do evento. Nossos artistas são contemporâneos e extraordinários, mas sabemos que a primeira impressão é o a que fica.”
- Horrível! – Exclamou fazendo uma careta e girando o corpo de frente para a porta, que se abria nesse  momento.
- Ah, mamãe não é não! -  Eu adoro esses  sapatinhos de madeira! – Exclamou Alexandra dando alguns passos,  desfilando.  E quando parou    girou o corpo, quase  como uma  bailarina. Desequilibrou-se quando a saia  que vestia enroscou em seus pés. Esperta, puxou-a nas laterais e nada  aconteceu.
Rosa até tentou ralhar  com a  filha, mas não conteve um sorriso. Além de estar com suas  roupas, havia se “maquiado” com batom e sombra.  
- Outra vez brincando  com minhas  roupas, não é? – Falou em um tom de amável censura.
- Mas a maquiagem é minha, a que eu ganhei da madrinha! – Defendeu-se a  pequena. – Fiquei bonita que nem você?
- Você não precisa  ficar  bonita “igual” a mim, porque você é  bonita por si só, ok? Bom dia, meu amor! – Disse Rosa aproximando-se da filha, abraçando e beijando-a. – Meu bebê já é uma mocinha,  está até acordando sozinha!
- Bom dia, mamãe! – Respondeu de  volta Alex,  retribuindo o carinho da mãe e dando um largo sorriso – Aham! Eu tava ‘brincano’  que  o meu quarto era a galeria  e eu era  você e eu arrumei  meus  brinquedos ‘ingual’ você faz lá...
- Você estava brincando e espalhou seus brinquedos outra vez, igual eu faço? Ah, mocinha, vai ter  que  coloca-los  de  volta  no lugar! Nada de pedir à Silvia que  faça isso.
- Mas ela pode me ajudar, né?
- Eu vou pensar no seu caso depois de ver o tamanho do estrago. Não está com fome?
- Aham!
- Então vamos tirar essa roupa e fazer o nosso café da manhã, ok?
- Ah, mamãe, deixa eu ficar  com ela!
- Está bem. Pode ficar  com ela para  tomar  seu desjejum. Mas  vamos pentear e prender seu cabelo.
Rosa amarrou o cabelo da filha  num rabo de cavalo alto, deixando a mostra aquela marquinha parecida com uma  estrela, bem atrás   da orelha esquerda. Suspirou e seu coração apertou dentro do peito. A genética é mesmo engenhosa, pensou enquanto sua mente trazia a mesma imagem em outra  pessoa.
- Oba! Amo você, mamãe! Eu  queria já ser grande pra poder ir de noite com você nas festas da galeria também.
- Hummm... Eu acho que dessa vez poderá ir  comigo. – Falou expulsando mais uma vez  aquela  sensação de si.
- De verdade?
- Claro que de verdade,  querida! Só peço que seja obediente e comportada. Combinado?
- Yes! A Silvia pode ir  junto?
- Perguntaremos a ela quando chegar. Agora vamos pra  cozinha. O que vai querer hoje? Suco, leite, chá...?
- Leite com chocolate. E você  deixa eu tomar naquela canequinha do beijo hoje?
- Deixo, meu bem. Ela é  sua  esqueceu que a dei a você?

- ‘Mais’ eu tenho medo de quebrar ela, mamãe...




- Mas isso não vai acontecer, Alex! Você não vai quebra-la. Não quer tirar esses  tamancos de madeira para  ficar  mais confortável?

- Não, eu gosto de ficar  com ele.  – Respondeu sentando-se a mesa e balançando as pernas. - Mamãe, você  conta  de novo  como ganhou esse sapato do meu papai?  Quando é que a mamãe dele vai sarar e ele vai vir me ver?
Rosa estava de costas para a filha. Fechou os olhos e mordeu os lábios. Sabia que não poderia esconder a verdade da filha  por muito mais tempo. Ela tinha o direito de saber e conhecer Claude. Só não sabia como ele iria reagir, tanto tempo depois.
Abriu a boca para responder, mas Sílvia entrou na cozinha neste momento. Dizer que Silvia era a babá de Alexandra era pouco. Era muito mais que isso. Era uma amiga irmã.
- Bom dia! Desculpe o atraso Rosa. Perdi o ônibus... Bom dia, Alex!
- Mas não perdeu o café da manhã! Bom dia, Silvia.  Sente-se e nos faça companhia! – Respondeu colocado o bolo de cenoura sobre a mesa.
- Bom dia, Silvia! – Falou Alex, pegando cuidadosamente a caneca com leite.
- Hummm, bolo de cenoura! – Exclamou Silvia -  Adoro! Posso servir, você, Alexandra?
- Humhum! – Resmungou Alex, pois estava  com a boca cheia de leite. – Silvia,  você pode ir  comigo e com a minha mamãe na festa da galeria?
- Eu acho que sim...
- Eba!!!! E você  pode me ajudar a guardar meus brinquedos?
- Filha, o que foi que eu disse a você? – Repreendeu-a Rosa.
- Tá bom, eu guardo sozinha...
- Sem problemas, Rosa. Nossa mocinha andou brincando de galeria de novo, não foi? Pois então vamos fazer assim: Eu serei a supervisora da sua galeria e vou observar se  guarda as obras de arte no lugar certo.
E esquecendo momentaneamente da história dos  tamancos holandeses, pois tinha certeza que a filha voltaria ao assunto ainda naquele dia, Rosa observou Alex terminar o café fazendo planos para finalmente ir  à galeria “de noite”.
Voltou ao quarto, tomou banho e se arrumou para mais um dos dias de intenso trabalho na galeria, antes da vernissage acontecer.
Bateu o olho no último parágrafo do texto e sem demora pegou a caneta e acrescentou algumas palavras  escrevendo rapidamente a ideia nova: Nossos artistas são contemporâneos e extraordinários na expressão de sua arte. Mas sabemos o poder do impressionismo, afinal, a primeira impressão é o a que fica.
Sorriu  satisfeita. Gostava de brincar com as palavras e esse simples trocadilho expressão/impressionismo/impressão lhe pareceu ótimo.

PSV

Uma pequena e rápida turbulência fez  com  que Claude abrisse os olhos. Tão rápida que os outros   passageiros  não se  abalaram. Dadi também dormia tranquilamente. 
Preciso me esticar um  pouco, pensou levantando-se para ir ao banheiro exclusivo a   classe executiva. Na  volta, parou em um bar à bordo,  que fica entre a primeira e a segunda sessão da área executiva,  com alguns snacks e bebidas.
Encheu o copo com várias pedras  de gelo e despejou uma porção de whisky sobre eles. Não era o seu preferido, mas serviria. Quem sabe com ele conseguisse  dormir.





 De volta a sua  poltrona sentou-se e estava com o copo nos lábios  para o primeiro gole quando ouviu a voz de Dadi:
- Não vai lhe fazer bem beber sem ter comido nada,  Claude.
- Não se preocupe Dadi. Tem mais gelo que  whisky neste  copo, portanto mais água que álcool.  Eu vou sobreviver.
- É, eu sei que  vai. E viver, quando vai? Quando vai parar de se esconder atrás dessas lembranças?
-   Que lembranças Dadi? – Perguntou recolocando os  fones de ouvido e sorrindo para ela, antes de tomar mais um gole e fechar os  olhos, recostando-se.
Dadi não insistiu. Teria muito tempo no Brasil para  convencê-lo a procurar por Rosa e não ver mais aquele sorriso triste.  Não seria tão difícil assim localiza-la, afinal a arte os aproximara uma vez,   por quê  não de novo?
Claude levou o  copo mais uma vez até a boca e terminou  com a  bebida. Concluiu que se insistia nessas lembranças era justamente para viver.  Talvez Dadi, Frazão e Nara estivessem com a razão ao sugerir que  a procurasse... Não, não farei isso. Ela me  deixou! Droga, onde foi que errei?  
E voltou  ao ponto em tinha parado de sua  história   com Rosa: a primeira noite que passaram juntos.


PSV


1 comentários:

Carliane disse...

Soniaaaaaaaaaaaaaaa, não enrola igual novela quero ler a primeira noite de amor deeeeeeellllllleeeeeeessssss

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