Nara observou o carro do irmão passando pelo portão e fazer
todo o trajeto do jardim até a
frente da mansão. Mas ele não parou como
esperava. Continuava com o hábito de circular
a lateral da casa até alcançar a área do fundo para estacionar e entrar pela
cozinha. Sua mãe detestava essa atitude dele. Mas, reconheceu que Dadi sempre
os tratara com mais
paciência e carinho que ela.
Apressou-se a
sair da
biblioteca e foi ao encontro dele. Com certeza a esta hora Dadi e um
café forte e fresco já estariam a espera dele. Há anos ela mantinha esse
costume, desde que o irmão voltara de
Amsterdã casado e fora abandonado.
Desde então, tornara-se
outro homem. Evitava a diversão e quando o convenciam a participar de
uma, o fazia com um cinismo impressionante.
Chegou a tempo de ouvi-lo dizer a Dadi:
- Não sei como farei sem seu café todas as tardes, Dadi. – E levou a xicara aos
lábios, sorvendo um gole do café.
- É só parar com essa
ideia maluca de ir para o Brasil! – Exclamou Nara, abraçando-o pelos ombros.
- Não é uma ideia maluca. – Respondeu quase secamente.
- Mas jogar sua carreira politica fora, sim.
- Às vezes você me
assusta, Nara! Se eu não a estivesse
vendo, juraria que era nossa mãe a falar isso.
- Pois nesse ponto,
concordo com ela. – Rebateu, sentando-se enquanto Dadi a servia. –Você sabe que pode ser reeleito, não sabe?
- Não, não posso. Assinei minha renúncia hoje. E cancelei
minha filiação ao partido.
- Mon Dieu! Depois de todo esse tempo, deixar tudo que você
construiu... Quando mamãe souber,
vai ter uma crise daquelas!
- O que foi que
eu construí, além da minha infelicidade?
– Pergunta friamente.
- Não pode negar que atuou de
forma positiva todos esses anos! Teve a maioria dos seus projetos
aprovados e realizados. Alguns ainda estão em andamento! Como pode
abandonar as coisas assim?
- Eu não estou abandonando nada, Nara. Isso nunca foi meu,
nunca foi minha vontade. Fui fraco e cedi aos caprichos de nossa mãe. Mas agora, recuperei o bom senso e
o controle da minha vida.
- Bom senso? Ir ao Brasil atrás de uma mulher que o abandonou
é ter bom senso, Claude? – E
imediatamente arrependeu-se do que
disse. Me desculpe, eu não...
Claude respirou fundo e apertou os lábios, antes de
responder, interrompendo-a:
- Não precisa se
desculpar, afinal foi isso mesmo
que aconteceu, não foi? – Disse, tomando
de uma só vez o que restava
do café, antes de jogar o guardanapo sobre a mesa e se retirar.
- Não devia ter tocado
nesse assunto, menina. – Comentou Dadi -
Sabe o quanto ele ainda sente.
- Eu sei, Dadi. Foi
num impulso, quando vi já tinha
deixado meu pensamento sair pela boca.
- Sabe o que eu penso, Nara? Que essa historia de abandono
está mal contada, sempre esteve...
- Por que diz isso,
Dadi? Sabe de alguma coisa, tem
noticias dela?
- Não. É só uma sensação que ficou no meu coração.
- Entendi. – Exclamou Nara não insistindo. No fundo também
pensava assim. – Eu vou falar com ele.
Até o jantar, Dadi.
Nara foi de novo a biblioteca. Tinha certeza que o
encontraria lá. Abriu a porta e o encontrou segurando um livro nas mãos, encostado a janela. O livro estava aberto, mas Claude olhava
pela vidraça.
- Claude... – Falou da porta, mas ele não a olhou. – Claude,
eu sinto muito – Continuou entrando e fechando a porta – Não devia ter falado daquela forma. Pode me perdoar?
Claude voltou-se
lentamente para a irmã mas nada disse de imediato. Então voltou a olhar pela
janela e com um quase
imperceptível suspiro falou:
- Não estou indo atrás de ninguém, Nara. Nem poderia, porque
eu não sei onde ela está. Não sei nem se
voltou ao Brasil. Você sabe que
sempre quis atuar no meu campo profissional e Júlio me garantiu que a galeria
tem um ótimo retorno. Talvez eu até
volte a pintar. Preciso me afastar
de tudo isso, será que pode me entender?
- Creio que sim. Mamãe nunca
vai apoiar a sua escolha pelo
campo das Artes Plásticas. Eu queria tanto que
você superasse e eliminasse essa
mágoa aí de dentro! – Exclama indicando o peito do irmão. - Pensei que... – Hesitou um instante – Pensei que fosse se acertar com Roberta e quem sabe ser feliz
novamente.
- Nara, você precisa parar de ler romances que terminam com essa mentira
de “foram felizes para sempre”.
- Mas Roberta ama você. Por que não?
- Porque eu não a amo. Se já não consegui ser ou fazer feliz
alguém que amava, não será com
outra por quem não sinto nada que
conseguirei.
- Sabe que mamãe espera por isso, não? E Roberta também...
Conta com isso, que a pedirá em casamento após todos esses anos de dedicação a você.
- Eu nunca pedi a ela
que dedicasse seu tempo a mim,
pelo contrário, sempre a desencorajei. Esse interesse todo é apenas armação. O que ela realmente deseja é
adquirir status de nobreza. Tornar-se uma baronesa, já que carregamos esse
fardo.
- Fardo? Se mamãe o escuta falando assim de nossa linhagem,
de nossos antepassados vai ouvir “aquele” sermão!
- Eu nunca dei importância a esse fato de ser
descendente do barão de Gérando, “um jurista, filantropo, filósofo e antropólogo francês”, como ela
gosta de ressaltar. Um detalhe que não me fez melhor que ninguém.
- Pois mamãe acha Roberta a candidata perfeita para ter com
você alguns netos, seus herdeiros.
- Basta Nara. Mamãe alimenta essa ilusão desde que éramos
crianças. Tudo que sinto por Roberta é
tolerância. Talvez uma afeição pelo fato de crescermos no mesmo
nobre ambiente francês, o que não a torna tão nobre assim.
- Mas você a namorou antes de... Antes de ir a Amsterdã.
– Corrigiu-se a tempo.
- Não nego que saímos algumas vezes, mas nunca a pedi em namoro ou prometi casamento.
- Você não, mas a
mamãe.
Claude sorriu sarcasticamente.
- Quer saber? Se nossa
mãe gosta tanto assim de Roberta, devia se casar com ela e ter seus herdeiros porque eu não os
terei. Nem com Roberta, nem com outra mulher qualquer.
- Não fale assim. Você ainda
vai encontrar alguém para ser
feliz!
- Nara...
- Está bem, está bem!
Eu não falo mais isso. Contudo, é o que
eu mais desejo sabia? Que você volte a
viver.
- Eu não estou morto, Nara.
- Mas vive como se
estivesse. Olha eu tinha quinze anos quando tudo aconteceu. Nem sei ao certo o
quê ou como as coisas aconteceram, mas ela também te amava.
- Você era praticamente uma criança que não entendia e nem
entende agora nada de amor, de
relacionamentos.
- Por isso mesmo, meu teimoso irmãozinho! Eu gostei dela assim que a vi e... – Cala-se diante
do olhar do irmão. - Voilà, já entendi. Diga que me perdoa e eu o deixo
aqui com suas... rabugices.
- Eu a perdoo. – Disse sem olhar para a irmã. - Quantas vezes já a tinha perdoado por esse mesmo motivo?
- Já pode ir. – Continuou ao ver que ela não saia do lugar.
- Quer saber? Você
pode tentar me afastar de você quantas
vezes quiser. Pode ser irônico, mal humorado, ranzinza que eu não ligo.
Eu vou, mas eu volto! – E deu um beijo no rosto dele antes
de sair.
Claude permaneceu
na biblioteca. E talvez ficasse por
lá a noite toda, não fosse Dadi o forçar a jantar ao
lado da irmã..
PSV
Dadi serviu a sobremesa que Claude dispensou, mas esperava a irmã terminar,
enquanto a ouvia pacientemente sobre
seus planos futuros estudos, carreira, vida quando o som de algumas portas
batidas o fizeram se calar.
Então, passos curtos e nervosos de um salto alto marcando um
ritmo seco foram se aproximando pacientemente, até que uma indignada Louise Geraldy entrasse
na sala de jantar. E atrás dela, Roberta.
- Claude, me diga que é brincadeira do Oliver, que você não fez a loucura de abandonar a política!
- Boa noite para você
também, “mamãe”. – E a ironia era evidente. Roberta... – Sussurrou num movimento de
cabeça. - Vejo que seu informante não demorou
com a notícia. – Concluiu.
- Oliver não é meu informante.
Apenas me mantem a par dos
acontecimentos do partido!
- Tem razão. Ele deve ser melhor amante que informante. –
Responde secamente.
- Claude! – Exclama Nara perplexa com o que escuta.
- Como ousa sugerir tal situação, Claude? Eu ordeno que
retire o que disse, neste instante! – Diz Louise, tentando manter a classe.
- Oras! Todo o Partido sabe disso. Deveria ter pedido sigilo
ao seu, como devo chama-lo? Amigo? Ou ele pretende ocupar o cargo de padrasto
nesta casa?
- Como se atreve a
falar nesse tom comigo, Claude? Eu sou sua mãe, exijo respeito! – Agora seu tom
era alto o suficiente para atrair a entrada de Dadi na sala.
- Dona Louise, acalme-se por favor. – Pede Dadi, tentando ajudar.
- Devia ter se dado ao respeito então, “mamãe”. –
Novamente a ironia ao se referir a ela.
- Seu cretino! O partido tinha planos para você! De conselheiro a prefeito, com um mandato de
seis anos, depois o parlamento e a
presidência do pais!
- O Partido ou você? Eu nunca
quis cargo público! Você se aproveitou da minha vulnerabilidade naquele
momento e me induziu, dizendo que com o
tempo e as obrigações eu esqueceria
dela. Mas eu nunca a esqueci. Sabe por
quê? Porque eu não quero.
- Seu estúpido! Vai matar sua vida política, como seu pai fez!
- Exatamente. Seu amante não soube dar a notícia toda? Eu não
só a matei, como fiz o velório e já a enterrei. Definitivamente. Como meu pai fez.
- Não! – Grita Louise, descontrolada. – Não pode ser verdade,
eu tenho tudo planejado seu casamento com Roberta, sua campanha...
- Claude, - Fala
Roberta, até então calada - meus pais
já concordaram! – E aproxima-se dele
- Estão apenas esperando o seu pedido
formal, meu amor!
- Está vendo? – Fala Louise – Não tem com o que se preocupar,
Roberta será a melhor primeira dama que
este país já teve!
Claude sorri cinicamente para a mãe, antes de segurar as mãos de Roberta.
- Escuta com atenção Roberta. Eu nunca prometi casamento para você. Até porque eu já sou casado.
- Mas o seu casamento não...
- Por que você não
quer entender? Eu não te amo, não te desejo, não quero nada contigo!
- É por causa dela, não é?
Daquela maldita brasileirinha que atravessou o meu caminho!
- É. – Afirmou Claude tranquilamente. - Eu nunca vou amar outra pessoa, porque eu amo somente
a ela.
Os olhos de Roberta
adquirem um tom mais escuro e
profundamente frio, vingativo. Brilham umedecidos por lágrimas de ódio,
que não chegam a cair.
- Você diz isso assim, com essa... Com essa naturalidade, na
minha cara? Eu devia ter matado ela e não...
- Cale-se, Roberta e deixe de dizer sandices! – Grita Louise.
- Claude está desorientado, passando por
um momento de recaída, não é filho? Amanhã mesmo, nas primeiras horas do
dia pediremos a anulação de sua renúncia
e desfiliação e tudo voltará ao normal.
- Amanhã mesmo, nas primeiras
horas do dia estarei voando para longe
daqui e de vocês duas. – Fala
Claude olhando para Louise e Roberta.
Louise colocou as mãos na cabeça apertando-as com força.
- Minha cabeça! - Exclamou e cambaleou algumas veze antes de procurar um lugar para
sentar-se.
-Mamãe, o que você tem? Está vendo só o que fez Claude?
Aproveitando a fala da filha,
Louise desceu as mãos para o peito, repousando-as sobre o coração.
- Eu não estou bem... Mon Dieu, não consigo respirar!
- Pare de fingir mamãe!
- Claude, como pode dizer isso com ela assim? – Pergunta Nara,
tentando acalmar a mãe.
- Meus remédios! Dadi, faça alguma coisa de útil!
Dadi saiu da sala e
voltou rapidamente
com um copo d’água e alguns comprimidos.
- Dona Louise, seus
remédios!
- Dadi, até quando vai compactuar com esse teatro? Sabe tão bem quanto eu que
essas pílulas de açúcar só servem para adoçar o fel que ela destila!
- Claude! – Exclamam juntas Nara e Roberta.
- Estou farto das suas
tramoias, dos seus ataques e chiliques toda vez que não faço
a sua vontade! Exclamou Claude olhando
para Louise. - Eu posso parecer com meu pai, mas eu não sou ele!
- O que foi que andou
dizendo a ele, sua empregada intrometida? – Gritou Louise, empurrando com a mão
o copo d’água que Dadi lhe oferecia e ficando em pé totalmente recuperada. – Eu
devia ter feito isso antes, muitos anos atrás! Mas sempre é tempo de
corrigir um erro: Você está despedida!
- Não pode despedir a Dadi assim, mamãe! – Nara intercede.
- Eu posso o que eu quiser, Nara! Agora saia da minha frente.
– Diz empurrando a filha para o lado – Venha
comigo Roberta! E você – Diz
virando-se para Dadi – Tem amanhã para sair daqui.
Sai da sala e sobe a escada.
Roberta aproxima-se de Claude e diz:
- Isso não vai ficar assim. Eu vou dar um tempo para você pensar e ordenar de novo suas ideias. Viaje e divirta-se com todas que
quiser, até mesmo com “ela”, porque quando voltar você só terá a mim!
- Não tenho intenção de
voltar, Roberta.
- E eu não tenho intenção de perder você outra vez!
- O que está esperando Roberta? - Grita Louise do alto da escada.
- O que foi isso que
aconteceu aqui, alguém quer por favor me
explicar? – Pede enquanto Roberta vai atrás de Louise.
- Acho que você não está mais em Narnia, Nara. – Diz Claude -
Bem vinda ao mundo real de Louise Geraldy.
- Ela não pode ter falado sério sobre despedir
Dadi! E você, Claude, sobre não voltar!
- Eu acho que ela não estava brincando menina...
- Você poderá me visitar
quando quiser, ma petit. Quanto a você, não se preocupe Dadi. Vai comigo e não aceito recusa.
Continua



4 comentários:
já tou amando, apesar de não gostar desse Claude bruto e idiota, kkk
aposto que foi Roberta que aprontou pra separar os dois, poxaaa
NARA COMO IRMÃ DE CLAUDE DSSA VEZ VAI SER BOA,?
Também adorei a Nara como irmã do Claude do que como noiva. Agora a Roberta e a mãe dele vão aprontar muito com Rosa e Claude, aliás pelo visto já aprontaram. Amando demais!!!
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