- Acorda, chérie! –
Sussurava ele em seu ouvido. – Não finja que está dormindo, hã? Eu percebi o
seu tremor e sua pele está toda
arrepiada...
- Hummmm – Resmungou de olhos fechados. – Tem certeza que
precisamos ir hoje?
- Absoluta. - Respondeu passeando pelos braços dela com os dedos. – É o último dia do festival. – Completou deslizando os lábios
pelo rosto dela.
- E o nosso último dia aqui. – Murmurou, passando os braços
pelo pescoço dele, deixando-se ser beijada.
Era a última semana que passavam em Amsterdã. Ambos já haviam
cumprido seus projetos acadêmicos. A
pesquisa de Rosa e o curso de Claude estavam encerrados.
O Amsterfest era um evento
da Escola de Arte de Amsterdã onde todas as áreas de estudo da Arte promoviam e
desenvolviam ações que deveriam
conversar entre si, primando pelas
tradições holandesas. Mas em
tempos de globalização, um dos desafios era reproduzir tradições de outros
países, num contexto artístico-social.
Os alunos dos últimos
períodos da graduação eram os responsáveis pela organização e
desenvolvimento do evento. Os fundos
arrecadados pela venda de souvenirs
eram revertidos às entidades assistenciais.
- Este é o melhor ano
do evento! – Ouviram do coordenador
do projeto – Foi um prazer tê-los
em nossa escola.
- Nós é que agradecemos pela hospitalidade e cordialidade com
que fomos tratados,
Erjan!
- É uma pena que já tenha que partir. Seu compromisso e
responsabilidade ficaram evidentes em suas
notas, Rosa. E suas aulas foram fantásticas, Claude. Poderia ficar e nos
brindar com um outro curso, que acha?
- Oh, ficamos extremamente lisonjeados, mas temos algo mais
importante para realizar no momento. – Responde abraçando Rosa pelos ombros –
Quem sabe numa outra ocasião?
- Está certo! O amor em primeiro lugar! Divirtam-se por aí! E
não deixem de passar no meu estander.
O evento era grandioso. Passaram a manhã toda apreciando
as criações e produções artísticas de
cada estande dos estudantes de artes visuais e música. Alguns shows estavam
agendados para o final da tarde, antecedendo o encerramento da festa.
Almoçaram em um dos
quiosques na praça de alimentação. Depois Rosa quis procurar por souvenirs, lembrancinhas que pudesse levar
para amigos. Havia visto muito coisa nas
lojas da cidade, mas como boa
brasileira, deixara para a última
hora e agora, era comprar ou comprar.
E foi no estander de Erjan que encontraram várias
opões e modelos em miniatura, com ícones holandeses: os moinhos de vento,
bicicletas, os tamancos, réplicas de
obras de arte, azulejos, vasos, tulipas,
e doces típicos, principalmente balas.
Eram objetos tão
encantadores quer não sabia o que levar
para quem.
- Por que não leva um par
dos nossos tamancos para seus
amigos? - Sugeriu Erjan, que os atendia pessoalmente. - São excelentes objetos
de decoração além de poderem ser usados,
principalmente no inverno. Conhecem a história deles? –
- Não. – Responderam
ao mesmo tempo Claude e ela.
- Estão com tempo, querem saber?
- Eu adoraria! – Respondeu Rosa. - Claude?
- Também fiquei curioso, hã?
Essas histórias nos dizem muito sobre o perfil de um povo. Entendo
essas tradições como a coluna vertebral na formação cultural de qualquer pessoa. É através delas que construímos muitos
conceitos...
- Pois bem – Começou
Erjan - Esses sapatos de madeira tem
sua origem datada do ano de 1200. Eram usados por camponeses em seus trabalhos,
para proteger os pés do frio, da umidade e da terra. Apesar de parecerem muito
pesados, são feitos da madeira do álamo ou salgueiro, madeira mais leve de fácil entalhe. O chamamos carinhosamente de Klompen, porque quando caminhamos com
ele, faz o som de “kloc, kloc, kloc”.
- Alguns são decorados e outros não, alguma razão para isso?
– Pergunta Claude parecendo interessado.
- Pela tradição, os
tamancos sem pintura eram
usados durante a semana e os decorados para ir a igreja, com uma certa regra: os
homens usavam os pintados de preto e branco e as mulheres usavam os pintados
com motivo floral.
- É uma pena que com a
modernização deixaram essas tradições de
lado. – Comenta Rosa, apreciando os tamancos enfileirados em
prateleiras numa parede.
- É o ônus que pagamos pelo progresso, chèrie. –
Comentou Claude, ao lado dela.
- Em algumas cidades pequenas ainda é possível encontrar
pessoas que os utilizam, para trabalhar no jardim ou no campo. E são usados
como parte essencial da vestimenta tradicional para a "Klompendanskunst".
- Mon Dieu, pode repetir
essa palavra, por favor?
- Klompendans kunst,
a dança de tamancos. – Repetiu Erjan, sorrindo. - São mais
leves que os tradicionais e os dançarinos tem que criar o ritmo batendo os
bicos e saltos dos tamancos em um piso de madeira.
- Como no sapateado ou na
catira! – Exclama Rosa. – Uma
dança típica do interior brasileiro – Explica.
- Sim, dizem que o sapateado tem aí sua origem. E outra lenda,
mais romântica, reza que os jovens holandeses presenteavam
suas noivas com um par de tamancos esculpidos em madeira.
- Voilà! -
Murmurou Claude pegando do mostruário o
par de tamancos que Rosa não parava
de admirar. – Eu não sou holandês, nem vou ter
tempo de esculpir um, mas você pode ser minha noiva. – E os
colocou nas mãos dela. - Rosa, quer se casar comigo?
Surpresa, Rosa ficou
sem ação por um instante, para em seguida responder.
- Eu... Sim, claro que quero! - E passou seus
braços pelo pescoço dele,
enquanto era enlaçada pela
cintura.
O gesto fez com que
os tamancos batessem e fizessem o falado som de “kloc, kloc,
kloc”. Sorriram um para o outro, antes
de selarem o compromisso com um beijo.
Erjan mais que depressa registrou o momento, com seu celular
e depois de felicita-los, pediu autorização para colocar a imagem na galeria virtual de sua
loja. Uma tradição particular sua.
Ainda comemoraram o
fato, com uma dose de genebra, um licor holandês, feito a base de cereais. Erjan embalou
os souvenirs escolhidos por Rosa e logo
Claude e ela estavam de novo circulando pelo festival.
O único espaço que
ainda não tinham visitado era o de artes cênicas, instalado no ginásio de
esportes da escola.
Como o folheto que receberam na entrada explicava, todo ano
homenageava-se algum lugar, artista ou
personagem fortemente ligado ao
show business mundial.
Não precisaram se esforçar para concluir em que o ginásio fora transformado: Las Vegas.
Famosa por seus cassinos,
Las Vegas foi cenário para vários filmes e lá estavam os
pôsteres deles: 007 - Os Diamantes São Eternos, Assalto em Las Vegas, A Três
Mil Milhas do Inferno, Onze Homens e um Segredo, Miss Simpatia 2, Resident
Evil: Extinction, Looney Tunes - De
Volta à Ação, , Quebrando a Banca, Se Beber, Não Case, CSI e outros.
E os futuros atores
levaram a sério a proposta. A instalação
cênica começava com a réplica de um cassino, onde podia-se jogar pra
valer, enquanto uma e outra cena eram interpretadas por toda a extensão do ginásio.
Enfileirados lado a
lado, painéis indicavam o caminho para uma capela, ao mesmo tempo que
explicavam o motivo dessa instalação estar presente ali.
Las
Vegas possui grande reputação na indústria casamenteira. Ganhou essa fama numa
época em que a prostituição era liberada, mas os hotéis só aceitavam casais que
comprovassem elo matrimonial.
Então, pequenas capelas surgiram para realizar
cerimônias relâmpagos e daí o casal podia comprovar a união e se hospedar nos
hotéis sem maiores problemas. Com o passar dos anos a prostituição passou a ser
proibida em Las Vegas e as capelas
perderam o foco inicial.
Como
a cidade atraía muitos visitantes e dentre eles haviam interessados em um
casamento real, as cerimônias começaram
a ganhar credibilidade, principalmente após a união de Elvis e Priscilla
Presley entre outras celebridades.
Ao
contrário do que muitos pensam, casar em Vegas é lícito e possui validade legal
nos EUA.
Mas foi a ultima placa
que atraiu a atenção de Claude.
“Está apaixonado, quer romantismo e excentricidade? Case-se aqui, em Vegas, onde não há limites
para a sua felicidade.”
Era o que dizia em meio às luzes de neon o último painel, ao
lado da réplica de uma capela típica de
Vegas.
- Bem vindos a minha
humilde capela, onde casamentos relâmpagos acontecem para quem não quer cometer
o pecado do sexo sem estar casado. – Falou piscando um
dos atores, que pelas vestimentas devia ser o religioso da capela – E então?- Perguntou - Prontos
para casar em Vegas?
Claude sorriu e assentiu com a cabeça, dizendo:
- Ouí, o que temos que fazer?
- Claude? - Murmurou
Rosa.
- Como em qualquer
casamento, assinar o termo
oficial de concordância e responsabilidade. – Respondeu estendendo uma caneta a
Claude.
Claude segurou a caneta e
voltou-se para Rosa:
- Você aceitou, hã? Agora não pode voltar atrás! – Exclamou assinando o pedido no livro de registros.
- Mas Claude...
- Sem mas, chèrie... Não podemos “viver em pecado”, d’àccord? Seja uma boa aluna e faça a lição de casa, agora, oui?
– Pediu entregando a caneta a ela.
- Ok, você venceu! – Respondeu assinando o mesmo termo.
Em minutos foram vestidos com roupas típicas holandesas
e Claude insistiu para que ela usasse os
tamancos. Considerando que “estavam” em Vegas, onde nenhum sonho é impossível,
tiveram como padrinhos nada menos que Elvis Presley, Vincent Van Gogh e Michael
Jackson.
Após dizerem sim à pergunta “É de sua livre e espontânea vontade...” foram declarados marido e mulher
e a cerimônia foi encerrada enquanto se
beijaram.
Receberam até mesmo uma
certidão de casamento imprimida
na hora, que obviamente não tinha outro
valor senão sentimental.
“As fotos e o vídeo estariam disponíveis para download no site da Escola em breve.” – Era a
observação que constava na certidão.
- Mamãe, você tá acordada? – A voz suave e apreensiva de Alex
juntamente com suas fracas e apressados batidas na porta
trouxeram Rosa de volta ao presente.
Não era hábito da filha acordar durante a noite. Praticamente
pulou da cama e correu até a porta, abrindo-a.
- Filha, o que foi? O
que aconteceu? – Perguntou tentando verificar a temperatura de Alex com a mão.
- Eu esqueci do xixi e tô com vontade! Mas tô
com medo, você pode ir comigo no banheiro? – Explicou-se Alex.
- É claro que eu posso, meu amor! – Respondeu Rosa, aliviada,
abraçando a filha.
Alex não tinha nada! E ela
também não teria mais lembranças. Pelo menos não por aquela noite,
determinou.
PSV
Continua 15/01




1 comentários:
Tá lindo demais, como sempre, Soniaaaaaaaaaaaaaaaaa!
Ansiosa pra ver eles se encontrarem na Galeria. Adorandooooooo!!! Bjs
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