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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

PSV/Capítulo 11

Roberta sentou-se na cama e espreguiçou  deixando que o lençol escorregasse até a cintura, sensualmente, expondo seu corpo nu.
- É melhor levantar e  colocar sua roupa ou chegaremos atrasados  a esse almoço. -  Falou Bernard olhando-a, enquanto ajustava o cinto   em  sua  calça.
- Tem razão. Não é  conveniente levantar a ira  de Louise nesse momento. – E levantando-se caminhou até  o banheiro enquanto ele a admirava.
Tomou um rápido banho e colocando  o vestido, pediu que ele a ajudasse com o zíper.
- Precisamos  ser  cuidadosos até que você se case com minha futura cunhadinha. Louise não deve suspeitar do nosso relacionamento.
- Tem tanta  certeza assim que Claude  vai casar com você e aceitar esse cargo  diplomático ?
- Não se preocupe, eu saberei convencê-lo. – Afirmou -  Não  foi o que  fiz  com você? – Perguntou voltando-se e passando seus  braços pelo pescoço dele.
- E muito bem feito por  sinal! – Exclamou beijando-a.
Cerca de quarenta minutos  depois chegavam separados á mansão.


PSV


Claude pagou a  conta  do restaurante e esperou que Dadi  voltasse do toalete. Caminharam para o estacionamento, onde estava o carro que Claude havia alugado pela manhã.
- Desculpe, você está  com pressa de  voltar para o  flat e eu atrasando tudo.  Devia ter  trazido uma amiga  para almoçar com você e não uma  velha como eu.
- Você não é velha e eu não sei o que é ter  pressa desde que  chegamos ao Brasil, hã?
- E quanto à amiga?
- Primeiro os negócios, Dadi. E é melhor parar por aí, porque sei exatamente onde quer  chegar.
- Não me  culpe por tentar!
- Sabe que eu nunca faria isso. Mas  por favor, hoje, não.
- Está bem, meu filho! Perdoe-me de novo, eu só quero vê-lo feliz e não comer mais  comida de restaurante!
Claude  soltou uma sonora  gargalhada.
- Quer saber? Eu também não. Vamos procurar um supermercado e fazer compras, ouí?
- Não vai se atrasar para a vernissage?
- Dadi querida, não é meu casamento é só uma exposição de arte. Ninguém vai reparar se eu chegar depois da abertura... –Comentou fazendo uma meia  careta para ela.


PSV



Mas não foi  o que aconteceu.  Claude chegou a galeria pontualmente, ao lado de Júlio e seu amigo Freitas.

Localizada em uma das regiões mais tradicionais e calma de São Paulo, a Galeria Athena  estava instalada em uma casa construída em 1936,  completamente restaurada para abriga-la. Era o que Claude se lembrava da única página lida do relatório. E condizia com a realidade do que via a  sua  frente.





Ficara  tão envolvido com o aluguel do carro e as  compras que não tivera  tempo de  voltar a ler o documento. Mas  faria isso assim que retornasse  da  vernissage.  Não tinha intenção de demorar por ali. Voltaria logo depois de conhecer John Smith.
Foram recepcionados logo no portão de entrada, recebendo um mini catálogo. Nele, além de informações  sobre os artistas e suas  obras, havia um croqui, ilustrando os ambientes internos da galeria, que ele olhou distraidamente.
Enquanto caminhavam pelo pátio, observou com atenção a disposição de cada um deles: sala de administração, salão para exposição de arte, banheiros distintos para visitantes e  funcionários, um ateliê-escola, área de estoque e armazenamento de objetos de arte e um amplo espaço nos  fundos. Muito bem organizado, pensou gostando do que via.
Assim que entraram um  garçom elegantemente  vestido os  serviu com uma  taça de champanhe, desejando boas  vindas.
- Então, gostou do que viu até agora? – Perguntou Júlio ansioso.
- Muito. – Respondeu Claude provando a bebida.
- Então até que John faça a abertura e venha falar conosco vamos  circular. Você está no Brasil, precisa aumentar seu circulo de amizades!
-  Júlio! – Exclamou alguém aproximando-se – Não me  diga que desistiu da carreira de corretor e  vai se torar um marchand?
- É claro que não Milton. Embora eu seja um apreciador de arte em geral, estou aqui a negócios. Lembra-se do meu investidor francês? Aqui está ele: Claude Geraldy. – Falou apresentando-os.
- Você disse negócios, no plural.  Um é sobre o destino da galeria, não me  diga que  o outro é “ela”, ainda...
- Pode crer que é!
- Você não desiste mesmo, não é?
- Desistir jamais, esse é meu lema!


PSV


No andar  superior da galeria, na sala onde  ficava o ateliê, Alexandra  comeu a última  bolacha e abriu seu livro de colorir.
- Mamãe, quando é que eu “vou i” pra escola?
- Quando é que eu vou, Alex, é assim que  se fala.  E  você  vai em  breve meu bem! Eu só preciso visitar as escolas que selecionei e escolher  uma delas. – Explicou Rosa..
- E por que  que você tem que visitar elas? “Nun é eu” que vou estudar lá?
Uma vez  mais, uma observação da filha  a deixava surpresa.
- É sim, meu anjo. – Respondeu sem corrigi-la dessa vez –  Mas as mamãe precisa saber se na escola  estão preparados  para cuidar  de você tão bem como a Sílvia  cuida. Entendeu?
- Ah... A Sílvia não vai pode ir  comigo pra escola?
- Nem ela, nem a mamãe. Poderemos levar  você e esperar que entre com a professora...
- Rosa, John já vai falar e pediu a sua presença – Diz Silvia entrando na sala.
-  Ah, ok Sílvia! A mamãe tem que ir querida. Comporte-se.
- Depois você deixa eu descer lá na festa, só um pouquinho? – Pede Alexandra franzindo os olhos e encostando o dedo indicador ao polegar.
- Eu mesma  venho buscar você, combinado? – Diz  Rosa, beijando a filha e  levantando-se.
- Combinado! – Responde Alexandra sorrindo.
- Sílvia, eu venho pegar Alex assim que apresentar os artistas. Desse modo você também se diverte, ok? – Falou Rosa, já na porta.
- E quem disse que eu não me  divirto com ela?
- Oh, eu tenho certeza que se diverte, mas  estou falando de  outro  tipo de  diversão, do gênero masculino, alto, simpático, que usa terno e adora números. Por que não dá uma chance a ele?
E sem esperar  resposta desceu pisando cuidadosamente em cada  degrau. Caminhou em direção a  John e Elisabeth enquanto olhava em geral para os  convidados. A casa estava cheia.
Conferiu as laudas  do que John falaria e a  inconfundível risada de Júlio chamou sua atenção. Olhou para o grupo onde ele estava e eu coração disparou. Aquele jeito de colocar a mão no bolso...
Então respirou, fechou os olhos e  convenceu-se que aquilo  era impossível. Claude estava na França, desfrutando de sua carreira política e não ali, na vernissage.
Estou nervosa e minha mente está me pregando peças. Assim que eu abrir os olhos, verei que é apenas um amigo de Júlio, pensou abrindo-os.
- Rosa algum problema, querida? – Perguntou Liz notando  seu deconforto.
- Não, nenhum... – Respondeu Rosa reparando em Milton ao lado de Júlio. – Eu estou bem. É só aquele frisson da abertura, Liz. Já  vai passar.  – Completou olhando-a antes  de  voltar o olhar para o grupo.
Como pudera confundi-los? Claude era mais alto, mais maduro  e  mais... Chega, Rosa! Concentre-se, ok? – Ordenou a si mesma.
John chamou a  atenção de todos.
- Senhoras e senhores, desde já nós da Galeria Athena agradecemos suas presenças. Para nós é muito  emocionante compartilhar com todos essa exposição. E por que é emocionante? Para mim, porque junta várias coisas importantes, entre elas a recuperação de minha esposa, para quem dedico esse momento de celebração da arte, do resultado da colaboração de três universidades, uma das quais  holandesa. [palmas]. Vocês poderão observar os resultados dessa colaboração apreciando essa nova geração de profissionais que aqui iniciam a realização de um sonho, que é lançar-se  no mundo das artes.
- Vernissage, sabemos,  é um evento cultural, um encontro prévio entre pintores, escultores e fotógrafos para a inauguração de uma amostra de arte. De origem francesa [...]
Claude saiu do banheiro escutando as palavras de John e apressou os passos.
- Droga, perdi  o começo da explanação! – Murmurou procurando Júlio entre os  convidados, já que agora um pilar, fotógrafos e convidados limitavam  sua passagem e visão. Mas não pretendia empurrar ninguém, aguardaria o final da preleção, quando todos se movimentassem para o salão de exposições.
Um garçom   se arriscava equilibrando uma bandeja com taças cheias e  aproximou-se dele. E entregado uma delas disse em tom de confidência:
- Com licença,  aquela senhorita de vermelho, do outro lado da sala está lhe oferecendo  um brinde e um prazeroso fim de noite, senhor.
Como já tinha a taça na mão e o garçom se distanciou, não viu  outra  saída a não ser localizar a tal senhorita. Retribuiu o sorriso e ergueu a taça, deixando discretamente à mostra a aliança que usava.
A moça fez um gesto de decepcionada compreensão e ergueu sua taça também, numa saudação final.
Claude apoiou seu  corpo no pilar. Abaixou a taça e a cabeça, olhando para  sua mão e sorriu tristemente.  Aquela era a aliança  com a qual  casaria oficialmente com Rosa. Sempre a usava nesses  eventos, para afastar mulheres sedutoras, como aquela.  
- Por esse motivo esmeramos  na qualidade da exposição e na organização do evento. Nossos artistas são contemporâneos e extraordinários e sabemos que a primeira impressão é  a que fica. Em virtude de um momento inesperado em minha vida particular, os trabalhos foram selecionados pela minha assistente e é a ela que  vou passar a palavra a ela: Rosa, tenha a gentileza de continuar...
Rosa, que infeliz coincidência, pensou Claude relaxando o corpo. Claro que não era ela. Rosa devia ser um nome tão comum no  Brasil quanto o seu era na França...
- Boa noite a todos! Eu vou tentar ser breve para que possamos desfrutar de tudo isso.  Foi uma honra e uma responsabilidade muito grande selecionar esses trabalhos...
Claude endireitou o corpo. Sua  respiração ficou pesada. Sentiu as narinas se dilatarem e seu sangue pareceu ferver dentro das artérias.
- Devo estar ficando louco! -  Resmungou atraindo a atenção de uma senhora ao seu lado.
- O que foi que disse, rapaz?
- Pardon, eu creio que pensei alto demais... – Desculpou-se saindo detrás  do pilar.
Foi abrindo caminho entre as pessoas o olhar fixo, e acabou chegando ao grupo onde Júlio estava, a  menos de  dois metros de Rosa.
Ela sorria enquanto falava e olhou para John, procurado sua aprovação e depois para a folha em sua mão, pois não queria sair do roteiro que havia traçado. 
 - E  esse não foi um trabalho individual. – Falava  quando notou  uma pequena movimentação entre os convidados e levantou o olhar, pensando ser Alexandra, desobedecendo suas  ordens de espera-la. - Por isso quero... – e o que encontrou foi um olhar duro, frio e indecifrável.
Claude! Seu coração pareceu parar para em seguida disparar. Podia jurar que se abrisse a boca ele sairia   por ela,  antes das palavras. Estremeceu e por mais que ordenasse a seu cérebro que se  controlasse,  ele não a obedecia.
- Rosa, está tremendo... Não se sente bem, querida? – Perguntou Liz preocupada novamente.
O que ele fazia ali, ao lado de Júlio? Turismo pelo Brasil, talvez procurando inspiração para um novo livro ou então... Oh Deus, não pode ser! Claude não pode ser  o investidor! Seria muita... crueldade.
- O que? Oh, não está  tudo bem! – Conseguiu dizer finalmente -  Me  perdoem, eu ensaiei tanto e mesmo assim  acabei me perdendo... - Mas já  me localizei – Eu... Eu quero chamar aqui,   , as pessoas que fizeram a diferença para que  toda essa estrutura existisse: Janete Fraga e Sérgio Camargo.[palmas]
- Sérgio por sinal, é nosso  primeiro pupilo e em breve estará nos presenteando com sua própria vernissage. [palmas].
- E é claro os protagonistas da  noite,  os artistas: Alabá Dakarai, Hugo Lombardie e Nínica Vendrini. [palmas].
 - De todas as linguagens  criadas pelo  homem, com seus  símbolos e mistérios,  a Arte sem dúvida é a que mais exige em seu processo de criação. O artista aborda um tema, dentro de um contexto, seja ele sentimental, social, econômico, histórico ou outro qualquer. E tem que usar o seu talento para transformar seu pensamento em algo palpável e único, bonito ou não aos olhos  de quem observa. É uma árdua, porém nobre e deliciosa tarefa. [palmas]
- Eu busquei reunir  trabalhos que abordassem não só o ser humano físico, mas a existência humana do corpo e da alma, a essência,  o transcendental.  E coincidentemente diante dos últimos acontecimentos no Brasil e na França, estes nos levarão a uma reflexão sobre o nosso comportamento para  com o planeta, a casa da qual somos hóspedes. [palmas]
- Não vou discutir todo o tema, pois os  trabalhos falam por si. São suficientemente fortes e tenho certeza que provocarão em todos, como observadores, muitas associações. Desejo a todos um interessante e prazeroso encontro com a provocação.
Ergueu o olhar para agradecer as palmas, mas apenas conseguiu acenar com a cabeça ao enxergar Claude  aplaudindo-a lentamente. 


                                    PSV 
                                                 Continua 22/01

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