Roberta sentou-se na cama e espreguiçou deixando que o lençol escorregasse até a
cintura, sensualmente,
expondo seu corpo nu.
- É melhor levantar e
colocar sua roupa ou chegaremos atrasados a esse almoço. - Falou Bernard olhando-a, enquanto ajustava o
cinto em sua
calça.
- Tem razão. Não é conveniente
levantar a ira de Louise nesse momento.
– E levantando-se caminhou até o
banheiro enquanto ele a admirava.
Tomou um rápido banho e colocando o vestido, pediu que ele a ajudasse com o
zíper.
- Precisamos ser cuidadosos até que você se case com minha
futura cunhadinha. Louise não deve suspeitar do nosso relacionamento.
- Tem tanta certeza
assim que Claude vai casar com você e aceitar
esse cargo diplomático ?
- Não se preocupe, eu saberei convencê-lo. – Afirmou - Não
foi o que fiz com você? – Perguntou voltando-se e passando seus braços pelo pescoço dele.
- E muito bem feito por
sinal! – Exclamou beijando-a.
Cerca de quarenta minutos
depois chegavam separados á mansão.
PSV
Claude pagou a
conta do restaurante e esperou
que Dadi voltasse do toalete. Caminharam
para o estacionamento, onde estava o carro que Claude havia alugado pela manhã.
- Desculpe, você está
com pressa de voltar para o flat e eu atrasando tudo. Devia ter
trazido uma amiga para almoçar com
você e não uma velha como eu.
- Você não é velha e eu não sei o que é ter pressa desde que chegamos ao Brasil, hã?
- E quanto à amiga?
- Primeiro os negócios, Dadi. E é melhor parar por aí, porque
sei exatamente onde quer chegar.
- Não me culpe por
tentar!
- Sabe que eu nunca faria isso. Mas por favor, hoje, não.
- Está bem, meu filho! Perdoe-me de novo, eu só quero vê-lo
feliz e não comer mais comida de
restaurante!
Claude soltou uma
sonora gargalhada.
- Quer saber? Eu também não. Vamos procurar um supermercado e
fazer compras, ouí?
- Não vai se atrasar para a vernissage?
- Dadi querida, não é meu casamento é só uma exposição de
arte. Ninguém vai reparar se eu chegar depois da abertura... –Comentou fazendo
uma meia careta para ela.
PSV
Mas não foi o que
aconteceu. Claude chegou a galeria
pontualmente, ao lado de Júlio e seu amigo Freitas.
Localizada em uma das regiões mais tradicionais e calma de
São Paulo, a Galeria Athena estava
instalada em uma casa construída em 1936, completamente restaurada para abriga-la. Era o
que Claude se lembrava da única página lida do relatório. E condizia com a
realidade do que via a sua frente.
Ficara tão envolvido
com o aluguel do carro e as compras que
não tivera tempo de voltar a ler o documento. Mas faria isso assim que retornasse da
vernissage. Não tinha intenção de
demorar por ali. Voltaria logo depois de conhecer John Smith.
Foram recepcionados logo no portão de entrada, recebendo um
mini catálogo. Nele, além de informações
sobre os artistas e suas obras,
havia um croqui, ilustrando os ambientes internos da galeria, que ele olhou distraidamente.
Enquanto caminhavam pelo pátio, observou com atenção a
disposição de cada um deles: sala de administração, salão para exposição de
arte, banheiros distintos para visitantes e
funcionários, um ateliê-escola, área de estoque e armazenamento de
objetos de arte e um amplo espaço nos
fundos. Muito bem organizado, pensou gostando do que via.
Assim que entraram um
garçom elegantemente vestido
os serviu com uma taça de champanhe, desejando boas vindas.
- Então, gostou do que viu até agora? – Perguntou Júlio
ansioso.
- Muito. – Respondeu Claude provando a bebida.
- Então até que John faça a abertura e venha falar conosco
vamos circular. Você está no Brasil, precisa
aumentar seu circulo de amizades!
- Júlio! – Exclamou
alguém aproximando-se – Não me diga que
desistiu da carreira de corretor e vai
se torar um marchand?
- É claro que não Milton. Embora eu seja um apreciador de arte em geral, estou aqui
a negócios. Lembra-se do meu investidor francês? Aqui está ele: Claude Geraldy.
– Falou apresentando-os.
- Você disse negócios, no plural. Um é sobre o destino da galeria, não me diga que
o outro é “ela”, ainda...
- Pode crer que é!
- Você não desiste mesmo, não é?
- Desistir jamais, esse é meu lema!
PSV
No andar superior da galeria, na sala onde ficava o ateliê, Alexandra comeu a última bolacha e abriu seu livro de colorir.
No andar superior da galeria, na sala onde ficava o ateliê, Alexandra comeu a última bolacha e abriu seu livro de colorir.
- Mamãe, quando é que eu “vou i” pra escola?
- Quando é que eu vou, Alex, é assim que se fala.
E você vai em
breve meu bem! Eu só preciso visitar as escolas que selecionei e
escolher uma delas. – Explicou Rosa..
- E por que que você
tem que visitar elas? “Nun é eu” que vou estudar lá?
Uma vez mais, uma observação
da filha a deixava surpresa.
- É sim, meu anjo. – Respondeu sem corrigi-la dessa vez
– Mas as mamãe precisa saber se na
escola estão preparados para cuidar
de você tão bem como a Sílvia
cuida. Entendeu?
- Ah... A Sílvia não vai pode ir comigo pra escola?
- Nem ela, nem a mamãe. Poderemos levar você e esperar que entre com a professora...
- Rosa, John já vai falar e pediu a sua presença – Diz Silvia
entrando na sala.
- Ah, ok Sílvia! A
mamãe tem que ir querida. Comporte-se.
- Depois você deixa eu descer lá na festa, só um pouquinho? –
Pede Alexandra franzindo os olhos e encostando o dedo indicador ao polegar.
- Eu mesma venho
buscar você, combinado? – Diz Rosa,
beijando a filha e levantando-se.
- Combinado! – Responde Alexandra sorrindo.
- Sílvia, eu venho pegar Alex assim que apresentar os
artistas. Desse modo você também se diverte, ok? – Falou Rosa, já na porta.
- E quem disse que eu não me
divirto com ela?
- Oh, eu tenho certeza que se diverte, mas estou falando de outro
tipo de diversão, do gênero
masculino, alto, simpático, que usa terno e adora números. Por que não dá uma
chance a ele?
E sem esperar resposta
desceu pisando cuidadosamente em cada
degrau. Caminhou em direção a
John e Elisabeth enquanto olhava em geral para os convidados. A casa estava cheia.
Conferiu as laudas do que
John falaria e a inconfundível risada de
Júlio chamou sua atenção. Olhou para o grupo onde ele estava e eu coração
disparou. Aquele jeito de colocar a mão no bolso...
Então respirou, fechou os olhos e convenceu-se que aquilo era impossível. Claude estava na França,
desfrutando de sua carreira política e não ali, na vernissage.
Estou nervosa e minha mente está me pregando peças. Assim que
eu abrir os olhos, verei que é apenas um amigo de Júlio, pensou abrindo-os.
- Rosa algum problema, querida? – Perguntou Liz notando seu deconforto.
- Não, nenhum... – Respondeu Rosa reparando em Milton ao lado
de Júlio. – Eu estou bem. É só aquele frisson
da abertura, Liz. Já vai passar. – Completou olhando-a antes de
voltar o olhar para o grupo.
Como pudera confundi-los? Claude era mais alto, mais
maduro e
mais... Chega, Rosa! Concentre-se, ok? – Ordenou a si mesma.
John chamou a atenção
de todos.
- Senhoras e senhores, desde já nós da Galeria Athena
agradecemos suas presenças. Para nós é muito
emocionante compartilhar com todos essa exposição. E por que é emocionante?
Para mim, porque junta várias coisas importantes, entre elas a recuperação de
minha esposa, para quem dedico esse momento de celebração da arte, do resultado
da colaboração de três universidades, uma das quais holandesa. [palmas]. Vocês poderão observar os
resultados dessa colaboração apreciando essa nova geração de profissionais que
aqui iniciam a realização de um sonho, que é lançar-se no mundo das artes.
- Vernissage, sabemos,
é um evento cultural, um encontro prévio entre pintores, escultores e
fotógrafos para a inauguração de uma amostra de arte. De origem francesa [...]
Claude saiu do banheiro escutando as palavras de John e
apressou os passos.
- Droga, perdi o
começo da explanação! – Murmurou procurando Júlio entre os convidados, já que agora um pilar, fotógrafos
e convidados limitavam sua passagem e
visão. Mas não pretendia empurrar ninguém, aguardaria o final da preleção,
quando todos se movimentassem para o salão de exposições.
Um garçom se
arriscava equilibrando uma bandeja com taças cheias e aproximou-se dele. E entregado uma delas
disse em tom de confidência:
- Com licença, aquela
senhorita de vermelho, do outro lado da sala está lhe oferecendo um brinde e um prazeroso fim de noite,
senhor.
Como já tinha a taça na mão e o garçom se distanciou, não
viu outra saída a não ser localizar a tal senhorita.
Retribuiu o sorriso e ergueu a taça, deixando discretamente à mostra a aliança que usava.
A moça fez um gesto de decepcionada compreensão e ergueu sua taça também,
numa saudação final.
Claude apoiou seu
corpo no pilar. Abaixou a taça e a cabeça, olhando para sua mão e sorriu tristemente. Aquela era a aliança com a qual
casaria oficialmente com Rosa. Sempre a usava nesses eventos, para afastar mulheres sedutoras,
como aquela.
- Por esse motivo esmeramos
na qualidade da exposição e na organização do evento. Nossos artistas
são contemporâneos e extraordinários e sabemos que a primeira impressão é a que fica. Em virtude de um momento
inesperado em minha vida particular,
os trabalhos foram selecionados pela minha assistente e é a ela que vou passar a palavra a ela: Rosa, tenha a
gentileza de continuar...
Rosa, que infeliz coincidência, pensou Claude relaxando o
corpo. Claro que não era ela. Rosa devia ser um nome tão comum no Brasil quanto o seu era na França...
- Boa noite a todos! Eu vou tentar ser breve para que
possamos desfrutar de tudo isso. Foi uma
honra e uma responsabilidade muito grande selecionar esses trabalhos...
Claude endireitou o corpo. Sua respiração ficou pesada. Sentiu as narinas se
dilatarem e seu sangue pareceu ferver dentro das artérias.
- Devo estar ficando louco! -
Resmungou atraindo a atenção de uma senhora ao seu lado.
- O que foi que disse, rapaz?
- Pardon, eu creio que pensei alto demais... – Desculpou-se
saindo detrás do pilar.
Foi abrindo caminho entre as pessoas o olhar fixo, e acabou
chegando ao grupo onde Júlio estava, a
menos de dois metros de Rosa.
Ela sorria enquanto falava e olhou para John, procurado sua
aprovação e depois para a folha em sua mão, pois não queria sair do roteiro que
havia traçado.
- E esse não foi um trabalho individual. – Falava quando notou
uma pequena movimentação entre os convidados e levantou o olhar,
pensando ser Alexandra, desobedecendo suas
ordens de espera-la. - Por isso quero... – e o que encontrou foi um
olhar duro, frio e indecifrável.
Claude! Seu coração pareceu parar para em seguida disparar.
Podia jurar que se abrisse a boca ele sairia
por ela, antes das palavras. Estremeceu
e por mais que ordenasse a seu cérebro que se
controlasse, ele não a obedecia.
- Rosa, está tremendo... Não se sente bem, querida? –
Perguntou Liz preocupada novamente.
O que ele fazia ali, ao lado de Júlio? Turismo pelo Brasil,
talvez procurando inspiração para um novo livro ou então... Oh Deus, não pode
ser! Claude não pode ser o investidor!
Seria muita... crueldade.
- O que? Oh, não está
tudo bem! – Conseguiu dizer finalmente - Me perdoem,
eu ensaiei tanto e mesmo assim acabei me
perdendo... - Mas já me localizei –
Eu... Eu quero chamar aqui, , as
pessoas que fizeram a diferença para que
toda essa estrutura existisse: Janete Fraga e Sérgio Camargo.[palmas]
- Sérgio por sinal, é nosso
primeiro pupilo e em breve estará nos presenteando com sua própria
vernissage. [palmas].
- E é claro os protagonistas da noite, os artistas: Alabá Dakarai, Hugo Lombardie e
Nínica Vendrini. [palmas].
- De todas as
linguagens criadas pelo homem, com seus símbolos e mistérios, a Arte sem dúvida é a que mais exige em seu
processo de criação. O artista aborda um tema, dentro de um contexto, seja ele
sentimental, social, econômico, histórico ou outro qualquer. E tem que usar o
seu talento para transformar seu pensamento em algo palpável e único, bonito ou
não aos olhos de quem observa. É uma
árdua, porém nobre e deliciosa tarefa. [palmas]
- Eu busquei reunir trabalhos que abordassem não só o ser humano
físico, mas a existência humana do corpo e da alma, a essência, o transcendental. E coincidentemente diante dos últimos acontecimentos
no Brasil e na França, estes nos levarão a uma reflexão sobre o nosso
comportamento para com o planeta, a casa
da qual somos hóspedes. [palmas]
- Não vou discutir todo o tema, pois os trabalhos falam por si. São suficientemente
fortes e tenho certeza que provocarão em todos, como observadores, muitas
associações. Desejo a todos um interessante e prazeroso encontro com a
provocação.
Ergueu o olhar para agradecer as palmas, mas apenas conseguiu
acenar com a cabeça ao enxergar Claude aplaudindo-a lentamente.
PSV
Continua 22/01


0 comentários:
Postar um comentário