Pages

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

PSV/Capítulo 10

Claude tirou os papéis do envelope e começou a ler.  Chegava ao fim da primeira página quando seu celular tocou. Frazão -  constatou atendendo a ligação.
- Frazão, mon ami, o que o fez ligar pra mim numa sexta-feira à esta hora? Perdeu os sono ou alguma francesa?
- A piada seria engraçada se a noite não tivesse sido trágica por aqui Claude. Estou ligando pra dizer que estamos bem.
- Trágica? O que houve, aconteceu algo com Nara?
- Você não viu as notícias?
- Não, eu nem liguei a TV hoje, Frazão! – Respondeu fazendo exatamente isso.
- Cara, Paris está uma loucura, foram vários atentados terroristas, o maior de que se tem notícia na história da França. Ataques simultâneos, com explosões perto do Stade de France e pelo menos seis ataques com fuzis.
- Mon Dieu! – Exclama Claude vendo as imagens – Minha... família esta bem, algum conhecido é vítima?
- Sua família e a de Roberta estão bem. Ainda não divulgaram nenhuma lista de vítimas, então eu não sei,  mas estima-se que mais de cem pessoas tenham sido mortas. A polícia emitiu um alerta pedindo que os parisienses não deixem suas casas, a não ser em caso de extrema necessidade. Bernard, o vice-prefeito de Paris,  afirmou que os ataques aconteceram ao mesmo tempo, e o presidente Hollande fez uma reunião, declarando em rede nacional estado de emergência em toda a França.  As fronteiras estão fechadas, mon ami.
- Estou vendo isso agora,  Frazão. É uma  situação indescritível... Esses malditos terroristas!
- Além de terroristas, suicidas.
 - Covardes, você quer dizer, hã? Se matam para escapar da  punição...
- É bem por aí, Claude. Mas e você, tudo bem? Como está o Brasil?
- Politica,  econômica e ambientalmente um caos, hã? Há alguns  dias, o rompimento de barragens de contenção de rejeitos de mineração desencadeou uma avalanche de lama,  soterrando tudo o que havia por onde  passava, deixando vítimas fatais e um enorme prejuízo ambiental e material. É um dos piores desastres ocorridos no Brasil.
- Eu soube pelas redes  sociais e espero que a mineradora seja responsabilizada e repare o estrago, se é que há  como fazer isso. Mas, e você,  já  decidiu o que quer?
- Não. Há alguns pontos  do negócio que  Júlio não informou, não sei se intencionalmente.  Eu estava justamente começando a ler  um relatório a fim de decidir.
- Espero que opte pelo seu melhor, mon ami. Bem, eu vou desligar e ver em que posso ajudar por aqui. 
- Frazão, obrigado por se preocupar  comigo, hã? E me mantenha informado, d’àccord?
- Qualquer notícia relevante eu ligo pra você. Au revoir.
- Au revoir, mon ami.

Imediatamente Claude ligou para Nara e certificou-se que estava bem, embora assustada e temerosa,  como todos os franceses. 
Em seguida, tentou continuar a leitura, mas já não tinha concentração suficiente. Passou um bom tempo em frente a TV, horrorizado com aquele cenário devastador em seu pais, até decidir tentar  dormir.



PSV




- Liz está tentando disfarçar, mas tem sentido algum  desconforto, não é Joana?
- Sim, John. Está constantemente distraída e pouco animada em sair, como quando  voltou. Será efeito dos novos remédios?
- Não sei, mas  se ela  continuar assim, depressiva,  voltaremos antes da data prevista ao médico.
- Muito bem já cheguei para o café da manhã,  podem parar de falar de mim! – Exclamou Elizabeth, sentando-se a mesa.
- Falava de  você mesmo, darling. Do quanto aparentemente tem estado cansada esses últimos  dias.
- Um mal estar passageiro, nada demais. Você sabe,  sempre que os médicos  trocam a medicação nosso organismo leva um tempo para se adaptar. O meu pelo menos, leva.
- E por falar nisso, aqui estão eles! – Afirmou Joana, entregando alguns  comprimidos a Elizabeth.
- Será que um dia me livrarei deles?
- Tenho fé que sim, Liz.
- A que horas  vamos para a galeria?
- Tem certeza que está bem o suficiente pra ir até lá? Vai haver muitas pessoas falando, música ambiente, luz, fotógrafos...
- É justamente  disso que preciso: agitação.
-  Temos que estar lá por  volta das vinte horas e trinta minutos, o evento tem início às vinte  e uma. Mas se...
- Eu vou estar bem, John.
- Já separou sua roupa? – Pergunta Joana
- Assim que eu  terminar o café iremos, Joana. Você  vai me ajudar a escolher. Alguma novidade sobre a tragédia na França?
- Nenhuma, Liz, a não ser o número de mortos que aumentou e...


PSV


Rosa abriu os olhos e respirou fundo.  Estava apreensiva pela abertura  da vernissage e não entendia o porquê. Já havia  organizado outras e tudo dera certo, então  por quê essa sensação de que algo lhe escapava das mãos?
Deve ser  porque simbolicamente ela representa meu último trabalho, antes que o novo dono surja! – Exclamou a si mesma, em pensamento.
Preguiçosamente levantou-se e foi para o banheiro. Fez uma careta ao ver as olheiras em  seu reflexo no espelho, consequência daquela  noite  mal dormida.
- Nada que um banho frio, uma  boa  camada de maquiagem e um café não resolvam. – Falou alto – E não necessariamente nesta ordem! – Completou e  foi para a  cozinha.
Fez  o café pensando em que roupa usaria, já que não  comprara nenhuma para o evento. Talvez ainda desse empo de fazer  isso e...
Não, tinha  alguns  vestidos  que usara apenas  uma vez e qualquer um deles serviria. Queria ter uma  conversa séria com quem inventou a tolice de que  roupa não se repete, pensou sorrindo.
Ligou a televisão, num canal qualquer e sentou-se  no sofá.  Gostava de  começar o dia informada e procurou um canal de notícias, enquanto tomava vagarosamente o café. Mas o que ouviu a fez ficar estática, e seu coração pulsou violentamente.
“Os ataques de ontem, com tiros e explosões deixaram até agora 153 mortos em Paris, na pior violência a atingir a França desde a Segunda Guerra,  dez meses depois da carnificina no semanário satírico Charlie Hebdo. Cerca de cem pessoas morreram na casa de shows Bataclan, no centro da capital francesa, enquanto ao menos outras 20 morreram em outros cinco locais dentro e na região de Paris, incluindo restaurantes e bares lotados.”
- Meu Deus! – Exclamou aumentando o som, prestando maior atenção, querendo saber mais. – Senhor, tenha  piedade de nós... – Murmurou emocionada – E por favor, que  ele esteja bem! – Pediu baixinho, pensando em Claude.
Correu por outros canais, mas as informações eram as mesmas. Desligou a  TV e voltou a cozinha bem mais  calma e  controlada. Não sabia como,  mas  tinha  certeza que ele  estava bem.   Preparou a mesa para  quando Alex acordasse, deixando tudo a mão e foi para o banho.


PSV


Louise deu algumas  ordens à governanta e atravessando todo o  hall com passos determinados abriu a porta da biblioteca.
- Muito bem Nara, chega de ocupar o lugar de Claude nessa maldita biblioteca. Suba e arrume-se, eu preciso de você nesse almoço.
- Precisa de mim? Eu pensei que você  só precisasse de Roberta. – Respondeu sem levantar os olhos do livro.
-  Querida, não é  hora  para  dramas e  surtos de ciúmes. É hora de  ocupar o seu lugar no mundo. – Falou tentando parecer amorosa.
- O que quer dizer  com isso, mamãe? – Perguntou olhando para a mãe, então.
- Quero dizer que não a mantive em  um conceituado colégio para que mofe aqui dentro. – Explicou-se girando o corpo enquanto apontava ara todos os cantos da biblioteca.
- Bem, eu acho que esse  é o meu lugar  no mundo, já que não me deixa  trabalhar nem mesmo em nossas empresas. – Argumentou  fechando o livro.
- E o que  você faria em meio a tantos   números, planilhas, tabelas, relatórios fiscais? Não, querida, eu a quero em um nível mais alto que esse, onde não precise fazer nada, a não ser  sorrir a  vida  toda.
- Isso me soa  muito falso, mamãe. Ninguém passa a vida  toda  sorrindo. Eu gostaria de...
- Não me importa o que  você  gostaria. – Fala Louise, deixando o falso carinho de lado -   Seu irmão nos  deixou numa  situação delicada perante o partido.  Logo teremos eleições e esse  almoço servirá como um pedido de desculpas pela tolice dele e ao mesmo tempo afirmará  nosso apoio à Bernard.
- Bernard, o vice-prefeito?
- Exatamente. Ele tem sido muito elogiado pelas atitudes diante dos últimos acontecimentos e o queremos como candidato a  prefeitura de Paris.
- Mamãe, não entendo por que precisa de mim. Eu não quero me envolver  com politica, a não ser dando o meu voto.  Se é isso que deseja, pode  contar  com ele para Bernard.
- Não seja infantil, Nara!
- Mon Dieu, eu não vejo outro jeito de ser útil ao partido.
- Mas eu vejo. Bernard é solteiro. E o partido quer que ele  se case antes da  convenção que o escolherá como candidato oficial. É aí que  você entra querida. Vai se casar com ele e ser a primeira dama da capital francesa. E futuramente da própria França.
- Você está louca! Eu não quero ser fantoche de ninguém! Por que não “convida” Roberta? Ela adoraria ser  primeira dama! Aposto que nem se  importaria de não ser com Claude.
- Não diga asneiras. Tenho outros planos para seu irmão. Já que ele  quer passar um tempo  fora  do país, estou articulando para que seja  acreditado por lá como embaixador ou na pior hipótese, cônsul.
- E onde  ela entra nessa história?
- Roberta viajará ao Brasil com a missão de  convencer seu irmão a aceitar. Está disposta até a se casar  com ele por lá mesmo, sem nenhuma pompa.
- Vai perder tempo, Claude não quer mais  nada  com a política. E nem com ela. Nunca  quis.
- Querida, aprenda uma  coisa:  nós mulheres fazemos  política desde que nascemos. E quando queremos convencer um homem de alguma  coisa temos um argumento infalível: o sexo.
- Isso é nojento... Repugnante! Eu não vou compactuar com essa sujeira toda...
- A política é mesmo um jogo sujo, meu bem. Acostume-se e tire o melhor proveito que conseguir.
- Acostumar?  Não ouviu o  que eu disse?  Não vou fazer parte  disso!
- Infelizmente você não tem opção. Vai me obedecer, Nara. Vai se casar com Bernard. – Afirmou Louise,  abrindo a porta para  sair.
- O que  você ganha com tudo isso? -  Pediu Nara, tentando manter a  voz  segura.
- A presidência do partido. Uma  forma muito mais fácil de ter poder, sem precisar ser eleita pelo povo. – Respondeu friamente. -  Agora suba e  arrume-se adequadamente. E não ouse  se trancar  no quarto. Eu posso casá-la amanhã mesmo e depois interna-la numa clínica de repouso. Eleitores adoram essas histórias de candidatos que amam suas esposas independente de qualquer  coisa...


PSV

                                                  Continua 18/01

0 comentários:

Postar um comentário