Claude tirou os papéis do envelope e começou a ler. Chegava ao fim da primeira página quando seu
celular tocou. Frazão - constatou
atendendo a ligação.
- Frazão, mon ami, o que o fez ligar pra mim numa sexta-feira
à esta hora? Perdeu os sono ou alguma francesa?
- A piada seria engraçada se a noite não tivesse sido trágica
por aqui Claude. Estou ligando pra dizer que estamos bem.
- Trágica? O que houve, aconteceu algo com Nara?
- Você não viu as notícias?
- Não, eu nem liguei a TV hoje, Frazão! – Respondeu fazendo
exatamente isso.
- Cara, Paris está uma loucura, foram vários atentados
terroristas, o maior de que se tem notícia na história da França. Ataques
simultâneos, com explosões perto do Stade de France e pelo menos seis ataques
com fuzis.
- Mon Dieu! – Exclama Claude vendo as imagens – Minha...
família esta bem, algum conhecido é vítima?
- Sua família e a de Roberta estão bem. Ainda não divulgaram
nenhuma lista de vítimas, então eu não sei,
mas estima-se que mais de cem pessoas tenham sido mortas. A polícia
emitiu um alerta pedindo que os parisienses não deixem suas casas, a não ser em
caso de extrema necessidade. Bernard, o vice-prefeito de Paris, afirmou que os ataques aconteceram ao mesmo
tempo, e o presidente Hollande fez uma reunião, declarando em rede nacional
estado de emergência em toda a França.
As fronteiras estão fechadas, mon ami.
- Estou vendo isso agora,
Frazão. É uma situação
indescritível... Esses malditos terroristas!
- Além de terroristas, suicidas.
- Covardes, você quer
dizer, hã? Se matam para escapar da
punição...
- É bem por aí, Claude. Mas e você, tudo bem? Como está o
Brasil?
- Politica, econômica
e ambientalmente um caos, hã? Há alguns
dias, o rompimento de barragens de contenção de rejeitos de mineração
desencadeou uma avalanche de lama,
soterrando tudo o que havia por onde
passava, deixando vítimas fatais e um enorme prejuízo ambiental e
material. É um dos piores desastres ocorridos no Brasil.
- Eu soube pelas redes
sociais e espero que a mineradora seja responsabilizada e repare o
estrago, se é que há como fazer isso.
Mas, e você, já decidiu o que quer?
- Não. Há alguns pontos
do negócio que Júlio não
informou, não sei se intencionalmente. Eu estava justamente começando a ler um relatório a fim de decidir.
- Espero que opte pelo seu melhor, mon ami. Bem, eu vou
desligar e ver em que posso ajudar por aqui.
- Frazão, obrigado por se preocupar comigo, hã? E me mantenha informado,
d’àccord?
- Qualquer notícia relevante eu ligo pra você. Au revoir.
- Au revoir, mon ami.
Imediatamente Claude ligou para Nara e certificou-se que
estava bem, embora assustada e temerosa,
como todos os franceses.
Em seguida, tentou continuar a leitura, mas já não tinha
concentração suficiente. Passou um bom tempo em frente a TV, horrorizado com
aquele cenário devastador em seu pais, até decidir tentar dormir.
PSV
- Liz está tentando disfarçar, mas tem sentido algum desconforto, não é Joana?
- Sim, John. Está constantemente distraída e pouco animada em
sair, como quando voltou. Será efeito
dos novos remédios?
- Não sei, mas se
ela continuar assim, depressiva, voltaremos antes da data prevista ao médico.
- Muito bem já cheguei para o café da manhã, podem parar de falar de mim! – Exclamou
Elizabeth, sentando-se a mesa.
- Falava de você
mesmo, darling. Do quanto aparentemente tem estado cansada esses últimos dias.
- Um mal estar passageiro, nada demais. Você sabe, sempre que os médicos trocam a medicação nosso organismo leva um
tempo para se adaptar. O meu pelo menos, leva.
- E por falar nisso, aqui estão eles! – Afirmou Joana,
entregando alguns comprimidos a
Elizabeth.
- Será que um dia me livrarei deles?
- Tenho fé que sim, Liz.
- A que horas vamos
para a galeria?
- Tem certeza que está bem o suficiente pra ir até lá? Vai
haver muitas pessoas falando, música ambiente, luz, fotógrafos...
- É justamente disso
que preciso: agitação.
- Temos que estar lá
por volta das vinte horas e trinta
minutos, o evento tem início às vinte e
uma. Mas se...
- Eu vou estar bem, John.
- Já separou sua roupa? – Pergunta Joana
- Assim que eu
terminar o café iremos, Joana. Você
vai me ajudar a escolher. Alguma novidade sobre a tragédia na França?
- Nenhuma, Liz, a não ser o número de mortos que aumentou
e...
PSV
Rosa abriu os olhos e respirou fundo. Estava apreensiva pela abertura da vernissage e não entendia o porquê. Já
havia organizado outras e tudo dera
certo, então por quê essa sensação de
que algo lhe escapava das mãos?
Deve ser porque
simbolicamente ela representa meu último trabalho, antes que o novo dono surja!
– Exclamou a si mesma, em pensamento.
Preguiçosamente levantou-se e foi para o banheiro. Fez uma
careta ao ver as olheiras em seu reflexo
no espelho, consequência daquela
noite mal dormida.
- Nada que um banho frio, uma
boa camada de maquiagem e um café
não resolvam. – Falou alto – E não necessariamente nesta ordem! – Completou
e foi para a cozinha.
Fez o café pensando em
que roupa usaria, já que não comprara
nenhuma para o evento. Talvez ainda desse empo de fazer isso e...
Não, tinha alguns vestidos
que usara apenas uma vez e
qualquer um deles serviria. Queria ter uma
conversa séria com quem inventou a tolice de que roupa não se repete, pensou sorrindo.
Ligou a televisão, num canal qualquer e sentou-se no sofá.
Gostava de começar o dia
informada e procurou um canal de notícias, enquanto tomava vagarosamente o
café. Mas o que ouviu a fez ficar estática, e seu coração pulsou violentamente.
“Os ataques de ontem,
com tiros e explosões deixaram até agora 153 mortos em Paris, na pior violência
a atingir a França desde a Segunda Guerra, dez meses depois da carnificina no semanário
satírico Charlie Hebdo. Cerca de cem pessoas morreram na casa de shows
Bataclan, no centro da capital francesa, enquanto ao menos outras 20 morreram
em outros cinco locais dentro e na região de Paris, incluindo restaurantes e
bares lotados.”
- Meu Deus! – Exclamou aumentando o som, prestando maior
atenção, querendo saber mais. – Senhor, tenha
piedade de nós... – Murmurou emocionada – E por favor, que ele esteja bem! – Pediu baixinho, pensando em
Claude.
Correu por outros canais, mas as informações eram as mesmas.
Desligou a TV e voltou a cozinha bem
mais calma e controlada. Não sabia como, mas
tinha certeza que ele estava bem.
Preparou a mesa para quando Alex acordasse, deixando tudo a mão e
foi para o banho.
PSV
Louise deu algumas
ordens à governanta e atravessando todo o hall com passos determinados abriu a porta da
biblioteca.
- Muito bem Nara, chega de ocupar o lugar de Claude nessa
maldita biblioteca. Suba e arrume-se, eu preciso de você nesse almoço.
- Precisa de mim? Eu pensei que você só precisasse de Roberta. – Respondeu sem
levantar os olhos do livro.
- Querida, não é hora
para dramas e surtos de ciúmes. É hora de ocupar o seu lugar no mundo. – Falou tentando
parecer amorosa.
- O que quer dizer com
isso, mamãe? – Perguntou olhando para a mãe, então.
- Quero dizer que não a mantive em um conceituado colégio para que mofe aqui dentro.
– Explicou-se girando o corpo enquanto apontava ara todos os cantos da
biblioteca.
- Bem, eu acho que esse
é o meu lugar no mundo, já que
não me deixa trabalhar nem mesmo em
nossas empresas. – Argumentou fechando o
livro.
- E o que você faria em
meio a tantos números, planilhas,
tabelas, relatórios fiscais? Não, querida, eu a quero em um nível mais alto que
esse, onde não precise fazer nada, a não ser sorrir a
vida toda.
- Isso me soa muito
falso, mamãe. Ninguém passa a vida
toda sorrindo. Eu gostaria de...
- Não me importa o que
você gostaria. – Fala Louise,
deixando o falso carinho de lado - Seu
irmão nos deixou numa situação delicada perante o partido. Logo teremos eleições e esse almoço servirá como um pedido de desculpas
pela tolice dele e ao mesmo tempo afirmará nosso apoio à Bernard.
- Bernard, o vice-prefeito?
- Exatamente. Ele tem sido muito elogiado pelas atitudes
diante dos últimos acontecimentos e o queremos como candidato a prefeitura de Paris.
- Mamãe, não entendo por que precisa de mim. Eu não quero me
envolver com politica, a não ser dando o
meu voto. Se é isso que deseja,
pode contar com ele para Bernard.
- Não seja infantil, Nara!
- Mon Dieu, eu não vejo outro jeito de ser útil ao partido.
- Mas eu vejo. Bernard é solteiro. E o partido quer que
ele se case antes da convenção que o escolherá como candidato
oficial. É aí que você entra querida.
Vai se casar com ele e ser a primeira dama da capital francesa. E futuramente
da própria França.
- Você está louca! Eu não quero ser fantoche de ninguém! Por
que não “convida” Roberta? Ela adoraria ser
primeira dama! Aposto que nem se
importaria de não ser com Claude.
- Não diga asneiras. Tenho outros planos para seu irmão. Já
que ele quer passar um tempo fora
do país, estou articulando para que seja
acreditado por lá como embaixador ou na pior hipótese, cônsul.
- E onde ela entra
nessa história?
- Roberta viajará ao Brasil com a missão de convencer seu irmão a aceitar. Está disposta
até a se casar com ele por lá mesmo, sem
nenhuma pompa.
- Vai perder tempo, Claude não quer mais nada
com a política. E nem com ela. Nunca
quis.
- Querida, aprenda uma
coisa: nós mulheres fazemos política desde que nascemos. E quando
queremos convencer um homem de alguma
coisa temos um argumento infalível: o sexo.
- Isso é nojento... Repugnante! Eu não vou compactuar com
essa sujeira toda...
- A política é mesmo um jogo sujo, meu bem. Acostume-se e
tire o melhor proveito que conseguir.
- Acostumar? Não ouviu
o que eu disse? Não vou fazer parte disso!
- Infelizmente você não tem opção. Vai me obedecer, Nara. Vai
se casar com Bernard. – Afirmou Louise,
abrindo a porta para sair.
- O que você ganha com
tudo isso? - Pediu Nara, tentando manter
a voz
segura.
- A presidência do partido. Uma forma muito mais fácil de ter poder, sem
precisar ser eleita pelo povo. – Respondeu friamente. - Agora suba e arrume-se adequadamente. E não ouse se trancar
no quarto. Eu posso casá-la amanhã mesmo e depois interna-la numa
clínica de repouso. Eleitores adoram essas histórias de candidatos que amam
suas esposas independente de qualquer
coisa...
PSV
Continua 18/01

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