Uma semana. Sete dias que
Rosa não dormia ou comia direito. Seu autocontrole beirava a
falência. Por que entre todos os investidores do mundo justamente Claude? Claro, ele era interessado em Arte, mas adquirir a galeria iria exigir presença constante, havia muitas parcerias com universidades, convênios e contratos a gerir.
E seu cargo político em Paris, como ficaria? Por que estava
sozinho? Por que ‘ela’ não estava com
ele já que era a escolha mais acertada e adequada para um “homem público”?
E por que, por quê ele
não entrava em contato para fechar ou não a negociação? Pelo que percebia, todos
haviam sido conquistados pelo charme e
inteligência dele. E isso ele tinha, não podia
negar.
Até mesmo Alexandra estava encantada por ele, perguntando a toda
hora quando o veria de novo e se ele ia
mesmo ser o dono da galeria.
Oh, Deus, como vou
administrar essa situação? Estava em seus planos contar a ela sobre o pai mas nunca imaginou que iria encontra-lo
novamente. Até quando conseguiria manter essa verdade escondida?
Tudo que Alex sabia
era que o pai estava longe, em outro país. A história de cuidar
da mãe doente, havia saído das
considerações dela própria, provavelmente pela
doença de Liz e o modo cuidadoso de
John com ela, pois fora nessa
época que as perguntas começaram.
Não viu mal algum em
deixar as coisas assim resolvidas na cabeça
de Alex, nem mesmo quando ela fantasiava com a história dos
tamancos, comparando-as com o
conto de Cinderela. Mas agora começava a se arrepender.
Talvez fosse melhor
vender suas ações também. E procurar um outro local de trabalho, quem sabe voltar
a lecionar, já que contaria com o
aluguel do casarão como parte de sua
renda.
Mas isso seria fugir.
E fugir não resolveria seus problemas, porque onde quer que
fosse eles iriam junto.
Além do mais, eles tinham o direito de saber que eram pai e
filha. Mesmo que Claude a rejeitasse
depois.
Vai ser um choque e tanto para todos, considerou. Nunca havia explicado seu relacionamento, sequer citado o nome de
Claude. Para Alexandra, seu pai era Antônio.
Contar era o correto e
era o que faria, por mais que isso
lhe trouxesse problemas futuros.
Claude precisa saber que o dia de seu aniversário é mais especial agora.
Se ele ficar com a
galeria terei tempo e oportunidade de
preparar melhor o momento
para isso. Caso contrário, terei que
contar de qualquer maneira, antes que
volte para a França.
Não cobraria nada. Nem pensão nem mesmo que ele assumisse Alex
legalmente. Um escândalo a essa altura
provavelmente acabaria com sua carreira
política.
E eu não vou ser a
causa disso. Não fui antes e não serei
agora.
PSV
Claude verificou se o celular
já estava totalmente carregado e tirou-o da energia. Conectou os fones
de ouvido ao aparelho e buscou um aplicativo de músicas em sua configuração, antes de vestir o casaco de
moletom e guarda-lo no bolso interno.
- Vai correr outra vez? – Perguntou Dadi entrando na sala.
- Vou, Dadi. Preciso decidir o que quero e correr me ajuda bastante.
- Correr mais o ajuda a adiar a decisão que já tomou, é isso?
- Dadi...
- Você pode correr o quanto quiser. Poderia correr até a França se
fosse possível e continuaria a sentir o mesmo. De que tem medo Claude?
- Eu não tenho medo de nada, Dadi... – Afirmou colocando
os fones.
- Então enfrente isso que está aí dentro - Fala Dadi
apontando para o peito dele – Fique e tire a limpo as histórias que ouviu,
inclusive de quando ela veio embora. Observe por si mesmo. Eu não acredito em
nada que você ouviu sobre ela. Parece mais uma campanha difamatória por ser mulher e atuar num
mercado restrito aos homens...
- Eu volto em uma ou
duas horas, d’àccord? – Foi a resposta
dele, antes de pegar a chave do carro e sair, com destino ao Parque do Ibirapuera.
A beleza do lugar o havia conquistado e curioso pesquisou a
origem do local. E surpreso, descobria
que o significado de Ibirapuera, para os tupis,
não era tão romântico quanto supunha: "árvore
apodrecida". A região alagadiça
havia sido parte de uma aldeia indígena na época da colonização, uma área de
chácaras e pastagens e na década de 1920, foi transformado em um parque
semelhante a existentes na Europa e Estados Unidos. O
plantio de eucaliptos australianos drenou o solo, contornado o obstáculo representado
pelo terreno alagadiço.
Coube a Oscar Niemeyer a responsabilidade pelo projeto
arquitetônico e a Roberto Burle Marx, o qual nunca foi executado sendo
substituído pelo projeto do engenheiro agrônomo Otávio Augusto Teixeira Mendes.
Atualmente contava com ciclovia, treze quadras iluminadas, e
pistas destinadas a corridas, passeios e descanso, todas integradas à área
cultural.
Repassou todas essas informações enquanto fazia um rápido
alongamento, ao lado de uma das pistas
de corrida. Respirou fundo e
trocando a música começou a correr.
E mais uma vez, questionou a vida. Que brincadeira era aquela
de coloca-la novamente em seu caminho? Por que Rosa tinha que estar envolvida
justamente com essa galeria?
Encontra-la no Brasil era uma possibilidade, algo que sabia
poder acontecer, mas não era certeza. Não havia em sua cabeça probabilidade de
que viesse a acontecer.
Se tivesse lido todo o conteúdo do relatório saberia do
envolvimento dela e teria desistido do negócio.
Voilà, seja sincero
consigo mesmo, hã? Teria ido a vernissage pela simples
curiosidade de vê-la. Ela continuava
tão sedutora como quando a viu pela primeira vez...
Talvez seja melhor eu desistir e voltar aos meus
projetos acadêmicos e investir no que
de melhor sei fazer: ensinar
sobre arte.
Ou afundar de vez na lama da política, como Louise sonhava.
Não, não me prestarei a esse papel pela segunda vez para tentar esquece-la!
Quanto mais tentava descobrir dela, desses últimos anos,
mais confuso ficava. Havia defendido sua
tese e lecionado História da Arte na universidade e atuado como assistente de
Elisabeth Smith no departamento de pós
graduação por um tempo.
Com o nascimento da
filha deixara a universidade e
depois dos seis meses da licença
maternidade, assumira o cargo de
assistente de John na galeria. Ninguém nunca
havia presenciado ou percebido qualquer atitude entre os dois que
denunciasse o envolvimento. Mas
todos concordavam que havia carinho entre eles.
Mas todos eram apenas Júlio, Milton e Freitas, nesse momento.
Com Júlio, tinha uma amizade superficial
pautada em negócios. Os outros dois, conhecera há uma semana. Enfim, não os
conhecia tão bem a ponto de confiar
cegamente em seus conceitos.
Na verdade não queria
acreditar em nenhum daqueles
comentários maldosos, mas Mon Dieu,
eles explicavam ou talvez
justificassem a volta dela para o Brasil!
Aumentou a força e a
velocidade de seus passos, como se isso fizesse esses
pensamentos passarem mais rápido
também, a ponto de não percebê-los.
Mas a única coisa
que conseguiu foi acelerar ainda
mais suas dúvidas.
Que outra poderia ter sido a causa dessa decisão dela? O mais amargo de tudo
era pensar que tinha sido trocado por uma galeria. Só uma ambição desse tipo
acobertaria a relação dela com John Smith.
E a menina? Seria mesmo filha dele, teria sido planejada?
Como pude me enganar tanto com ela? Com
seu caráter? Estariam os dois esperando que Elizabeth morresse para assumirem o
caso publicamente?
Não, não deve ser isso. John empenhou todo o patrimônio para
custear um tratamento de última geração a esposa e Rosa tem apenas dez por
cento das ações, embutidas na restauração do casarão, bancada por Smith.
Isso não faz sentido... Por que ela se submeteria a ser
amante de um homem em troca de dez por cento de uma empresa? O que a manteria presa numa relação desse tipo? Smith a estaria forçando,
chantageando? Mas com o que e por quê?
Só percebeu que chovia quando o pingos ficaram mais grossos e
o vento os fez fustigar seu rosto. Contornou a pista e voltou para o estacionamento do portão
quatro.
Quando entrou no carro estava decidido a descobrir a verdade.
Mesmo que isso o fizesse deixar de ama-la.
PSV
Louise separou os dedos e a cortina voltou ao seu lugar a
frente daquela imensa janela. Afastou-se dela e caminhou para fora
de seu quarto como se medisse os passos. Lenta e friamente.
Desceu a escada contando mentalmente cada degrau e
chegou ao vinte e três. Apoiou-se no
corrimão e sem emoção alguma observou o esmalte das unhas enquanto esperava
Nara entrar.
- O que ele queria dessa vez? – Perguntou quebrando o silêncio da casa.
- Mon Dieu, mamãe! Quer me matar de susto? – Respondeu Nara com o
coração disparado. E antes de girar
o corpo, escondeu algo dentro da jaqueta, abotoando-a.
- Sem dramas, Nara. O que ele fazia em minha casa? – Insistiu Louise, acentuando o ‘ele’.
- Esta casa é minha também. Posso receber meus amigos, não
posso?
- E desde quando Frazão é seu amigo? Ah, claro, deixe-me responder
por você. Desde que Claude foi embora. O que ele queria, Nara?
- Ele trouxe algumas
caixas com pertences do Claude.
Objetos e livros que ele mantinha na sala que ocupava na prefeitura, só isso.
Algum problema eu ter recebido e
acomodado tudo na biblioteca?
Louise olhou fixamente
para a filha, analisando sua postural corporal.
- Nenhum se for só isso mesmo Nara.
- E o que mais seria? – perguntou Nara subindo alguns
degraus.
- Não sei. O que sei,
é que Frazão era o braço direito do seu irmão, não seu. Seria... – Pausa
- Pouco prudente de sua parte tentar me
enganar.
- Mamãe, eu nunca
consegui engana-la com minhas notas no colégio. – Comenta Nara subindo mais alguns degraus. – Que motivos
eu teria para engana-la agora?
- Está coberta de
razão. Você nunca foi esperta o
suficiente para manipular seu boletim,
sempre deixou rasuras. E espero que não
as deixe transparecer também no seu jantar
de noivado, querida. Boa noite!
Nara chegava ao topo da escada e parou por poucos
segundos. Esteve a ponto de
reagir e falar bem alto que não ia se
submeter a essa ideia insana.
Mas no último instante, apertou os lábios e conteve-se, lembrado dos conselhos de Frazão: concordar com Louise em tudo.
- Eu sou sua filha,
mamãe. Não vou decepciona-la. –
Respondeu abrindo a porta de seu quarto
– Boa noite!
Assim que entrou fechou a porta com a chave e tirou o novo passaporte
de dentro da jaqueta. O antigo já havia expirado.
Conferiu vagarosamente as informações contidas nele. E quando
o fechou sussurrou para si mesma, olhando na direção e que Louise
estaria:
- Sem rasuras dessa vez, mamãe, sem rasuras...
PSV
Próximo capítlulo - 30/01


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