Pages

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

PSV/Capítulo 13

Uma semana. Sete dias que   Rosa não dormia ou comia  direito. Seu autocontrole beirava  a  falência. Por que entre todos os investidores  do mundo justamente  Claude? Claro,  ele era interessado em Arte, mas adquirir a galeria iria exigir presença  constante, havia muitas parcerias com universidades, convênios e  contratos a gerir.
E seu cargo político em Paris, como ficaria? Por que estava sozinho? Por que ‘ela’ não estava  com ele já que era a escolha mais acertada e adequada para um “homem público”?
E por que,  por quê ele não entrava em contato para  fechar  ou não a negociação? Pelo que percebia, todos haviam  sido conquistados pelo charme e inteligência dele. E isso ele tinha, não podia  negar.
Até mesmo Alexandra estava encantada  por ele, perguntando a  toda  hora quando o veria de novo e se ele ia  mesmo ser o dono da galeria.
Oh, Deus, como  vou administrar essa situação? Estava em seus planos  contar a ela sobre  o pai mas nunca imaginou que iria encontra-lo novamente. Até quando conseguiria manter essa verdade escondida?
Tudo que Alex  sabia era que o pai estava longe, em outro país. A história de  cuidar  da mãe  doente, havia saído das considerações dela própria, provavelmente pela  doença de Liz e o modo cuidadoso de  John com ela, pois  fora  nessa  época que as perguntas  começaram.
Não viu  mal algum em deixar as coisas assim resolvidas na cabeça  de Alex, nem mesmo quando ela fantasiava com a história  dos  tamancos, comparando-as  com o conto de Cinderela. Mas agora começava a se arrepender.
Talvez  fosse melhor vender  suas  ações também. E procurar  um outro local de trabalho, quem sabe voltar a lecionar, já que  contaria  com  o aluguel do casarão como  parte de  sua  renda.
Mas isso seria  fugir. E fugir não resolveria  seus  problemas, porque onde quer  que  fosse eles iriam junto.
Além do mais,  eles  tinham o direito de saber que eram pai e filha. Mesmo que  Claude a rejeitasse depois.
Vai ser um choque e tanto para  todos, considerou. Nunca havia explicado  seu relacionamento, sequer citado o nome de Claude. Para Alexandra,  seu pai era Antônio. 
Contar era o  correto e era  o que faria, por mais que isso lhe  trouxesse problemas futuros. Claude  precisa saber que o dia de  seu aniversário é mais especial agora.
Se ele ficar  com a galeria terei  tempo e oportunidade de preparar  melhor o  momento para isso. Caso contrário, terei que  contar de qualquer maneira, antes que  volte para a França.
Não cobraria nada. Nem pensão nem mesmo que ele assumisse Alex legalmente.  Um escândalo a essa altura provavelmente acabaria  com sua carreira política.
E eu não  vou ser a causa disso. Não fui antes  e não serei agora.


PSV


Claude verificou se o celular  já estava totalmente carregado e tirou-o da energia. Conectou os  fones  de  ouvido ao aparelho e  buscou um aplicativo de músicas em sua  configuração, antes de vestir o casaco de moletom e guarda-lo no bolso interno.
- Vai correr outra vez? – Perguntou Dadi entrando na sala.
- Vou, Dadi. Preciso decidir o que quero e  correr me ajuda  bastante.
- Correr mais o ajuda a adiar a decisão que já tomou, é isso?
- Dadi...
- Você pode correr o quanto quiser. Poderia correr até a  França se  fosse possível e continuaria a sentir o mesmo. De que tem medo Claude?
- Eu não tenho medo de nada, Dadi... – Afirmou colocando os  fones.
- Então enfrente isso que está aí dentro - Fala Dadi apontando para o peito dele – Fique e tire a limpo as histórias que ouviu, inclusive de quando ela veio embora. Observe por si mesmo. Eu não acredito em nada que você ouviu sobre ela. Parece mais uma campanha  difamatória por ser mulher e atuar num mercado restrito aos homens...
- Eu volto em uma  ou duas  horas, d’àccord? – Foi a resposta dele, antes de pegar a chave do carro e sair, com destino ao Parque  do Ibirapuera.
A beleza do lugar o havia conquistado e curioso pesquisou a origem  do local. E surpreso, descobria que o significado de Ibirapuera, para os tupis,  não era  tão  romântico quanto supunha: "árvore apodrecida".  A região alagadiça havia sido parte de uma aldeia indígena na época da colonização, uma área de chácaras e pastagens e na década de 1920, foi transformado em um parque semelhante a existentes na Europa e Estados Unidos.   O plantio de eucaliptos australianos drenou o solo, contornado o obstáculo representado pelo terreno alagadiço.
Coube a Oscar Niemeyer a responsabilidade pelo projeto arquitetônico e a Roberto Burle Marx, o qual nunca foi executado sendo substituído pelo projeto do engenheiro agrônomo Otávio Augusto Teixeira Mendes.

Atualmente contava com ciclovia, treze quadras iluminadas, e pistas destinadas a corridas, passeios e descanso, todas integradas à área cultural.




Repassou todas essas informações enquanto fazia um rápido alongamento, ao lado de uma  das  pistas  de  corrida. Respirou fundo e trocando a música começou a correr.
E mais uma vez, questionou a vida. Que brincadeira era aquela de coloca-la novamente em seu caminho? Por que Rosa tinha que estar envolvida justamente com essa galeria?
Encontra-la no Brasil era uma possibilidade, algo que sabia poder acontecer, mas não era certeza. Não havia em sua cabeça probabilidade de que viesse a acontecer.
Se tivesse lido todo o conteúdo do relatório saberia do envolvimento dela  e teria  desistido do negócio.
Voilà, seja  sincero consigo mesmo, hã?  Teria ido a vernissage pela  simples  curiosidade de vê-la. Ela continuava  tão sedutora como quando a viu pela primeira vez...
Talvez seja melhor eu desistir e voltar aos meus projetos  acadêmicos e investir no que de melhor sei fazer: ensinar sobre arte.
Ou afundar de vez na lama da política, como Louise sonhava. Não, não me prestarei a esse papel pela segunda vez para tentar esquece-la!
Quanto mais tentava descobrir dela, desses últimos anos, mais  confuso ficava. Havia defendido sua tese e lecionado História da Arte na universidade e atuado como assistente de Elisabeth Smith no  departamento de pós graduação por um tempo.
Com o nascimento da  filha  deixara a universidade e depois  dos seis meses da licença maternidade,  assumira o cargo de assistente de John na galeria. Ninguém nunca  havia presenciado ou percebido qualquer atitude entre os dois que denunciasse o envolvimento. Mas  todos  concordavam que havia  carinho entre eles.
Mas todos eram apenas Júlio, Milton e Freitas, nesse momento. Com Júlio, tinha uma amizade  superficial pautada em negócios. Os  outros  dois, conhecera há uma semana. Enfim, não os conhecia tão bem a ponto de confiar  cegamente em seus  conceitos.
Na verdade não queria  acreditar em nenhum daqueles  comentários maldosos, mas Mon Dieu,  eles  explicavam ou talvez justificassem a volta  dela para  o Brasil!
Aumentou a  força e a velocidade de  seus  passos, como se isso fizesse esses pensamentos passarem mais  rápido também,  a ponto de não percebê-los.
Mas a única  coisa que  conseguiu foi acelerar ainda mais  suas  dúvidas.
Que outra poderia ter sido a causa dessa decisão dela? O mais amargo de tudo era pensar que tinha sido trocado por uma galeria. Só uma ambição desse tipo acobertaria a relação dela com John Smith.
E a menina? Seria mesmo filha dele, teria sido planejada? Como pude me enganar  tanto com ela? Com seu caráter? Estariam os dois esperando que Elizabeth morresse para assumirem o caso publicamente?
Não, não deve ser isso. John empenhou todo o patrimônio para custear um tratamento de  última  geração a esposa e Rosa tem apenas dez por cento das ações, embutidas na restauração do casarão, bancada por Smith.
Isso não faz sentido... Por que ela se submeteria a ser amante de um homem em troca de dez por cento de uma empresa?  O que a manteria presa numa  relação desse tipo? Smith a estaria forçando, chantageando? Mas  com o que e por quê?
Só percebeu que chovia quando o pingos ficaram mais grossos e o vento os fez fustigar seu rosto. Contornou a pista e  voltou para o estacionamento do portão quatro.
Quando entrou no carro estava decidido a descobrir a verdade. Mesmo que isso o fizesse deixar de ama-la.


PSV


Louise separou os dedos e a cortina voltou ao seu lugar a frente daquela imensa janela. Afastou-se dela e caminhou para  fora  de seu quarto como se medisse os passos. Lenta e friamente.
Desceu a escada contando mentalmente cada degrau e chegou  ao vinte e três. Apoiou-se no corrimão e sem emoção alguma observou o esmalte das unhas enquanto esperava Nara entrar.
- O que ele queria dessa vez? – Perguntou quebrando o  silêncio da casa.
- Mon Dieu, mamãe! Quer me matar  de susto? – Respondeu Nara com  o  coração disparado. E antes de girar  o corpo, escondeu algo dentro da jaqueta, abotoando-a.
- Sem dramas, Nara. O que ele fazia  em minha casa? – Insistiu  Louise, acentuando o  ‘ele’.
- Esta casa é minha também. Posso receber meus amigos, não posso?
- E desde quando Frazão é seu amigo? Ah, claro, deixe-me responder por  você. Desde que Claude  foi embora. O que ele queria, Nara?
- Ele trouxe algumas  caixas com pertences  do Claude. Objetos e livros que ele mantinha na sala que ocupava na prefeitura, só isso. Algum problema eu ter  recebido e acomodado tudo na biblioteca?
Louise olhou  fixamente para  a filha, analisando sua  postural corporal.
- Nenhum se for só isso mesmo Nara. 
- E o que mais seria? – perguntou Nara subindo alguns degraus.
- Não sei. O que sei,  é que Frazão era o braço direito do seu irmão, não seu. Seria... – Pausa -  Pouco prudente de sua parte tentar me enganar.
- Mamãe, eu nunca  consegui engana-la com minhas notas no colégio. – Comenta  Nara subindo mais alguns  degraus. – Que  motivos  eu teria  para engana-la agora?
- Está  coberta de razão. Você nunca  foi esperta o suficiente para manipular seu  boletim, sempre deixou rasuras. E  espero que não as  deixe transparecer também no  seu jantar  de  noivado, querida. Boa noite!
Nara chegava ao topo da escada e parou por  poucos  segundos. Esteve a ponto  de reagir e falar bem alto que não ia se  submeter a essa  ideia insana.
Mas no último instante, apertou os lábios e  conteve-se, lembrado dos  conselhos de Frazão: concordar com  Louise em tudo.
- Eu sou sua  filha, mamãe. Não  vou decepciona-la. – Respondeu abrindo a porta  de seu quarto – Boa noite!
Assim que entrou fechou a porta com a chave e tirou o novo passaporte de dentro da jaqueta. O antigo já havia expirado.
Conferiu vagarosamente as informações contidas nele. E quando o  fechou sussurrou para  si mesma, olhando na direção e que Louise estaria:
- Sem rasuras dessa vez, mamãe, sem rasuras...

PSV   
                                                                             Próximo capítlulo - 30/01

0 comentários:

Postar um comentário