- Claro que fez bem em
me ligar, Frazão (...) Não, não, eu ainda nem me deitei. (...) Sim, é isso mesmo. Eu ainda não estava totalmente
decidido, mas agora, é o melhor a
ser feito. (...) Sim, não posso deixar que Louise destrua Nara. Porque é isso
que irá acontecer, caso ela fique aí.
(...) Continue com seus planos, mon
ami. E se houver algum imprevisto, eu
mesmo irei busca-la. (...) D’àccord, boa noite, Frazão.
- Algum problema,
Claude? – Pergunta Dadi, entrando com o chá.
- O mesmo problema, Dadi: Louise. Ela insiste em ter um
integrante da família Geraldy na
política nacional.
- E a bola da vez é
Nara... – Comenta, enchendo a xícara de
chá.
- Ouí. Está sendo pressionada a casar-se com o
vice-prefeito... – Esclarece Claude, sentando-se no sofá.
- Vai trazê-la para
cá?
- Eu estava desistindo de ficar, mas não vejo alternativa melhor
no momento. – Afirma, levando a xícara aos lábios, bebendo um gole. – Vou
fechar com Júlio.
- Vai comprar uma briga grande com sua mãe. – Sentencia
Dadi, imitando-o.
- Talvez, Dadi. Mas vamos torcer pra que ela continue
detestando o Brasil. – Falou devolvendo a xícara à bandeja. – O chá estava
ótimo. Obrigado e boa noite, Dadi. E amanhã é domingo, não precisa acordar cedo, ouí?
E dizendo isso, foi para
seu quarto.
Dadi o acompanhou com o olhar. “Se eu não o conhecesse, Claude, acreditaria mesmo que
quer ficar por causa de Nara. Mas sabemos que é por
Rosa, mesmo que seu orgulho não adimita.” - Pensou enquanto recolhia tudo.
PSV
Rosa estacionou o carro na única vaga que encontrou, a três
quadras da galeria. Estava atrasada e
ainda essa! O estacionamento em frente a galeria, na qual deixava o carro
estava lotado. Talvez estivesse na hora
de alugar a vaga por trinta dias, pensou, pegando
a bolsa e a pasta do banco de trás.
Ativou o alarme e andou o
mais rápido que pode, obedecendo
ao semáforo de pedestres. O frio daquela manhã não ajudava muito, pensou
ajeitando a gola do casaco. E para uma
segunda-feira, a semana começava bem. Bem mal, como diria Janete.
Finalmente chegou e empurrou a porta, entrando
apressadamente, sem parar na recepção,
como era seu costume.
- Bom dia, Janete, estou
mega atrasada, eu sei. Depois colocamos o fim de semana em dia! – Falou
sem parar, andando e abrindo a
porta da sala de John. Precisava se explicar a ele o motivo de seu atraso.
- Rosa, espere! – Exclamou Janete, mas Rosa mal a ouviu e já entrava na sala.
- John, me desculpe, eu atrasei porque... – Parou. De falar e
andar. Ficou no lugar que estava,
como se tivesse
sido congelada.
- Rosa! – Disse John sorrindo e levantando-se, se aproximou
dela. – Estava justamente falando de você. Que nunca se atrasa.
- Bom dia, Rosa! –
Cumprimentou-a Júlio.
- Bom dia, Júlio. –
Retribuiu, respirando mais fundo que o normal,
antes de continuar. - Bom dia, senhor Geraldy. Me desculpem, eu não
sabia que estariam aqui esta manhã.
- Esta e todas as outras, Rosa. Acabamos de assinar o contrato e Claude agora é oficialmente o administrador
e curador da galeria.
- Oh, eu...
- Parece que não ficou
satisfeita, senhorita. – Afirma Claude.
- Impressão sua. – Respondeu
tentando manter a firmeza na
voz. – John precisava mesmo de um prazo
maior. Tenho certeza que em pouco tempo conseguirá liquidar a
promissórias e rever a administração.
- Então me acha um oportunista?
- Não, de forma alguma. A dívida foi parar em sua empresa, está
em seu direito.
- Seus direitos também
foram mantidos, senhorita. Suas ações
estão preservadas, uma vez que não
faziam parte da garantia do empréstimo.
- Está vendo como eu tinha razão em não envolvê-la nisso,
querida? – Falou John, mal notando o
clima entre Rosa e Claude.
- É, eu acho que sim...
- Então só falta você
rubricar as laudas e assinar a final, Rosa. O contrato continua igual ao
que você já leu. – Pediu Júlio.
- Ok. – Concordou
sentando-se na cadeira que Júlio ofereceu. Batia os olhos rapidamente nas folhas
que rubricava e mais atentamente
nas clausulas finais, antes de assinar.
- Algum problema? – Perguntou Claude, notando a hesitação dela.
- Não, nenhum. Apenas
não gosto de assinar sem ler. –
Respondeu assinando em seguida. - Pronto. A galeria agora, é toda
sua!
- Não diga isso.
Somos sócios e embora no
momento eu seja o majoritário, tenho certeza que nos daremos muito bem.
- Bem, já que não teremos um brinde, vou imediatamente ao
cartório fazer o registro. Assim que estiver tudo em ordem, eu entrego a vocês.
– Falou Júlio unindo toas as vias do
contrato e guardando em sua valise. –
Bom dia a todos! É sempre um prazer negociar
com vocês!
- John eu preciso
explicar o meu atraso, foi...
- Creio que deve se explicar para o Claude, Rosa. Ele agora é
o seu superior. E meu
também, de forma que só posso
responder por ele em sua
ausência, o que não acontece no momento.
- Oh! Está bem... Senhor Geraldy eu...
- Se vamos conviver, e
vamos, por um bom tempo, é melhor nos
tratarmos por nossos nomes simplesmente, não acha?
- Ok. – Concordou – Claude – E sua voz tremeu – Eu me atrasei
porque minha filha está doente, passou
toda a semana com febre alta, dor de garganta e os exames constataram
que ela está com infecção nas amídalas mais uma vez. O médico aconselhou
retira-las e vou precisar me
ausentar por alguns dias. Tudo bem?
- Você não precisa me pedir permissão para se ausentar, Rosa.
É sócia da galeria, não uma empregada.
- Certo, é que não
gosto de faltar. Adoro meu trabalho aqui.
- É o melhor a ser feito, Rosa. Não é
bom para ela ficar tomando antibióticos a cada infecção. Isso só
aumenta a resistência da bactéria.
- É eu sei. Por isso concordei dessa vez. Vai ser o melhor
para ela.
- Então por que parece preocupada?
- É a primeira vez que Alex ficará hospitalizada, eu nem sei
o que fazer direito!
- Siga as orientações
do médico e das enfermeiras e tudo
vai dar certo. Se quiser eu as
acompanho. – Sugeriu John.
- Obrigada, mas não se incomode. Liz precisa de sua atenção também.
Claude que apenas
observava o diálogo, resolveu falar.
- Bem se já está tudo resolvido, eu gostaria de tomar conhecimento das transações da galeria, do inventário, das obras permanentes, free lancers, em trânsito... Poderia ser?
- Claro! - Falou Rosa
olhando para ele e achando-o insensível.
Será que agiria assim se soubesse que
Alex era sua filha também? – Quer os
arquivos virtuais ou prefere as planilhas impressas?
- Embora eu seja fã do
digitalizado, aprendi com alguém que
nunca se deve desprezar o papel. Seja ele qual for. – Respondeu encarando-a.
- Eu vou pedir à Janete que traga as pastas – Respondeu
fugindo do olhar dele e fingindo não
entender o significado daquelas
palavras.
- Perfeito, Rosa. – Falou John – Eu me encarrego de explicar
tudo e você pode adiantar
sua agenda com ela, que eu sei é exatamente
o que vai fazer antes de voltar para casa.
PSV
- Por que viemos à Champs-Elysées, Roberta? O Shopping fica
em sentido contrário, não íamos fazer
compras?
- Shopping? Você acha que eu faço compras em shoppings?
A mais bela
avenida do mundo. Champs-Elysées é um
dos endereços mais movimentados e mais caros de Paris, repletos de lojas de
grifes famosas, desejadas e sonhadas
para consumo de muitas pessoas.
- Eu sei que você não faz. Mas eu faço.
- Foi por isso que sua mãe pediu a minha ajuda, querida. Não
pode aparecer ao lado de Bernard com roupas de
lojas populares, onde qualquer uma
compra. Iria envergonhá-lo.
- Mas não é justamente do voto popular que vocês precisam?
- Por que ainda resiste, Nara? Os planos de sua mãe são
maravilhosos. Você vai ser a esposa do prefeito de Paris, a cidade mais cobiçada do mundo.
- Ainda bem que
concordamos em alguma coisa.
Esses são os planos dela para o futuro, não
meus.
- Um futuro deslumbrante! – Comenta, pedindo ao motorista que
estacionasse o carro e então desceram dele. E
foram andando pela calçada.
- Deslumbrante? Eu não amo Bernard. Não sinto nada por ele!
- Amor? E quem pensa em amor, quando se tem poder, Nara?
- Mas você ama o Claude... Não ama?
- É claro que sim. – Respondeu rapidamente Roberta - E vocês
vão acabar se amando também. Bernard é muito envolvente. Vai se
apaixonar por ele, tenho certeza.
- Como pode ter certeza, Roberta?
- E você como pode ter
certeza que não? Oras Nara, dê uma chance a você e a ele. Sua mãe sabe o que
está fazendo, meu bem! Vamos entrar
nesta loja. Os vestidos aqui são exclusivos.
- Você é bem mais preparada que eu Roberta. Devia se
casar com Bernard em meu lugar.
- Mas ele escolheu você! E eu... Bem, eu ainda continuo querendo seu irmão. Ele vai voltar
Nara. E então se casará comigo. Agora
vamos focar em você. Depois que
escolher vou lhe ensinar algumas...
posturas condizentes com sua nova posição e...
Nara resolveu não argumentar mais. Tinha outros planos em mente e eles não coincidiam com os
de sua mãe. Azar o dela pensou antes de
sorrir para Roberta.
Ficou muito claro para ela que o encontro com Bernard ao final da tarde não foi por acaso. Jantaram em um dos luxuosos restaurantes da Avenida, enquanto
ele discursava sobre sua plataforma de
campanha e o quanto o apoio dela, Nara, seria importante para ele.
PSV
Com a infecção
controlada, a cirurgia de Alex aconteceu
poucos dias depois. Como explicara o médico, retirar as
amígdalas doentes faria o organismo de
Alex deixar de sobrecarregar seu sistema
imune com infecções de repetição, que se
tornariam cada vez mais
fortes e frequentes, sem ela.
Sendo criança, iria se recuperar bem rápido e fácil. Mas o pós operatório a deixaria manhosa, pelo
incomodo do procedimento. A recomendação era de repouso em casa por sete
dias. E o que animou mesmo Alex foi saber que sua alimentação deveria ser fria
ou gelada nos três primeiros dias.
Poderia e deveria tomar sorvete tipo milk-shake, sopa fria,
sucos de frutas doces, mingau frio, gelatina, iogurte, enfim tudo que fosse gelado, o que Rosa a fazia evitar antes.
Apesar do desconforto
inicial, Alex ganhou nota dez em seu retorno, cinco dias
após a cirurgia. Deveria ainda manter alimentação fria, mas já alternando com o levemente morno e macio. Bolachas crocantes nem pensar. Nada de correr, pular ou nadar ainda.
Quando Rosa disse que
voltaria a galeria, a manha foi
maior. Tentou explicar que não
podia mais faltar, que tinha um novo
chefe e que seu trabalho estava
acumulado e se demorasse a voltar, talvez precisasse ficar trabalhando várias
noites para coloca-lo em dia.
Isso bastou para que a manha diminuísse, mas
Alex só se deixou convencer quando Rosa prometeu leva-la junto
algumas vezes para que brincasse no
ateliê.
Como queria ser
inocente como ela! O que faria
dali para frente? Como iria
conviver diariamente com Claude?
E como ele a trataria?
Melhor não perder meu sono com essas perguntas e
preocupações. Não adiantaria em nada eu
não dormir. Continuaria sem as
respostas..
PSV
Claude terminou de tomar a xícara de café enquanto lia o jornal.
- Não vai comer nada?
– Observou Dadi.
- Estou sem fome e
sem vontade, Dadi. – Respondeu dobrando
o jornal e deixando-o de lado.
E depois de um instante continuou.
- Ela retorna hoje
para a galeria.
- Garanto que ela está
tão apreensiva quanto você.
Talvez mais. Por que não diz que ainda a ama? Resolveria todo o problema.
- Eu diria, se
ela ainda me amasse. Se é que amou
mesmo. – Comentou levantando e colocando o paletó.
- A menina é um transtorno para você? Saber que ela teve um outro relacionamento que resultou em gravidez
a faz amar menos?
- Eu nunca a amaria menos. É o motivo pelo qual teve a filha
que me perturba.
- Dê uma chance ao
destino, Claude. Se ele os colocou juntos novamente é porque ainda
há o que acontecer entre vocês.
- Ou é ele explicando o
porquê não há mais nada entre nós Dadi! Até mais tarde.
PSV
Continua 02/02


