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sábado, 30 de janeiro de 2016

PSV/Capítulo 14

- Claro que fez  bem em me ligar, Frazão (...) Não, não, eu ainda nem me deitei. (...)  Sim, é isso mesmo. Eu ainda não estava  totalmente  decidido, mas  agora, é o melhor a ser feito. (...) Sim, não posso deixar que Louise destrua Nara. Porque é isso que irá acontecer, caso ela  fique aí. (...) Continue  com seus planos, mon ami.  E se houver algum imprevisto, eu mesmo irei busca-la. (...) D’àccord, boa noite, Frazão.
 - Algum problema, Claude? – Pergunta Dadi, entrando com o chá.
- O mesmo problema, Dadi: Louise. Ela insiste em ter um integrante da  família Geraldy na política nacional.
- E a bola  da vez é Nara... – Comenta, enchendo a xícara  de chá.
- Ouí. Está sendo pressionada a casar-se com o vice-prefeito... – Esclarece Claude, sentando-se no sofá.
- Vai trazê-la para  cá?
- Eu estava desistindo de ficar, mas não vejo alternativa melhor no momento. – Afirma, levando a xícara aos lábios, bebendo um gole. – Vou fechar com Júlio.
- Vai comprar uma briga grande com sua mãe. – Sentencia Dadi,  imitando-o.
- Talvez, Dadi. Mas vamos torcer pra que ela continue detestando o Brasil. – Falou devolvendo a xícara à bandeja. – O chá estava ótimo. Obrigado e boa noite, Dadi. E amanhã é domingo, não precisa  acordar cedo, ouí?
E dizendo isso, foi para  seu quarto.
Dadi o acompanhou com o olhar. “Se eu não o  conhecesse, Claude, acreditaria mesmo que quer  ficar por  causa de Nara. Mas sabemos que é  por  Rosa, mesmo que seu orgulho não adimita.”  - Pensou enquanto recolhia tudo.


PSV


Rosa estacionou o carro na única vaga que encontrou, a três quadras da galeria.  Estava atrasada e ainda essa! O estacionamento em frente a galeria, na qual deixava o carro estava lotado. Talvez  estivesse na hora de  alugar  a vaga por trinta dias, pensou, pegando a  bolsa e a pasta do banco de trás.
Ativou o alarme e andou o  mais rápido que  pode, obedecendo ao semáforo de pedestres. O frio daquela manhã não ajudava muito, pensou ajeitando a  gola do casaco. E para uma segunda-feira, a semana começava bem. Bem mal, como diria Janete.
Finalmente chegou e empurrou a porta, entrando apressadamente, sem parar  na  recepção,  como era  seu  costume.
- Bom dia, Janete, estou  mega atrasada, eu sei. Depois colocamos o fim de semana em dia! – Falou sem parar,   andando e abrindo a porta  da sala   de John. Precisava se explicar  a ele o motivo de seu atraso.
- Rosa, espere! – Exclamou Janete, mas  Rosa mal a ouviu e já entrava na sala.
- John, me desculpe, eu atrasei porque... – Parou. De falar e andar. Ficou no lugar que estava,  como  se  tivesse  sido congelada.
- Rosa! – Disse John sorrindo e levantando-se, se aproximou dela. – Estava justamente falando de você. Que nunca se atrasa.
- Bom dia,  Rosa! – Cumprimentou-a  Júlio.
- Bom dia, Júlio.  – Retribuiu, respirando mais fundo que o  normal, antes de  continuar. -  Bom dia, senhor Geraldy. Me desculpem, eu não sabia que estariam aqui esta manhã.
- Esta e todas as outras, Rosa.  Acabamos de assinar o contrato e  Claude agora é oficialmente o administrador e  curador da galeria.
- Oh, eu...
- Parece que não  ficou satisfeita, senhorita. – Afirma Claude.
- Impressão sua. – Respondeu  tentando manter  a firmeza  na  voz. – John precisava mesmo de um prazo  maior. Tenho certeza que em pouco tempo conseguirá liquidar a promissórias e rever a administração.
- Então me acha um oportunista?
- Não, de forma alguma. A dívida  foi parar em sua  empresa, está  em seu direito.
- Seus  direitos também foram  mantidos, senhorita. Suas ações estão preservadas, uma  vez que não faziam parte da garantia do empréstimo.
- Está vendo como eu tinha razão em não envolvê-la nisso, querida? – Falou John, mal notando o  clima entre Rosa e Claude.
- É, eu acho que  sim...
- Então só falta  você rubricar as laudas e assinar a final, Rosa. O contrato continua igual ao que  você já leu. – Pediu Júlio.
- Ok. –  Concordou sentando-se na cadeira que Júlio ofereceu. Batia os olhos rapidamente nas  folhas  que  rubricava e mais atentamente nas  clausulas finais, antes de assinar.
- Algum problema? – Perguntou Claude, notando  a hesitação dela.
- Não, nenhum. Apenas  não  gosto de assinar sem ler. – Respondeu assinando em seguida.  -  Pronto. A galeria agora, é  toda  sua!
- Não diga isso.  Somos  sócios e embora  no  momento eu seja o majoritário, tenho certeza que nos daremos  muito bem.
- Bem, já que não teremos um brinde, vou imediatamente ao cartório fazer o registro. Assim que estiver tudo em ordem, eu entrego a vocês. – Falou Júlio unindo toas as vias  do contrato e guardando em sua  valise. – Bom dia a todos! É sempre um prazer negociar  com vocês!
-  John eu preciso explicar o meu atraso, foi...
- Creio que deve se explicar para o Claude, Rosa. Ele agora é o seu superior. E meu também, de forma que só posso  responder  por ele em sua ausência, o que não acontece no momento.
- Oh! Está bem... Senhor Geraldy eu...
- Se vamos  conviver, e vamos, por um bom tempo, é melhor  nos tratarmos por nossos nomes simplesmente, não acha?
- Ok. – Concordou – Claude – E sua voz tremeu – Eu me atrasei porque minha filha está doente, passou  toda a semana com febre alta, dor de garganta e os exames constataram que ela está com infecção nas amídalas mais uma vez. O médico aconselhou retira-las e vou precisar me ausentar por alguns dias. Tudo bem?
- Você não precisa me pedir permissão para se ausentar, Rosa. É sócia da galeria, não uma empregada.
- Certo, é que não  gosto de faltar. Adoro meu trabalho aqui.
- É o melhor a ser feito, Rosa.  Não é  bom para ela ficar tomando antibióticos a cada infecção. Isso só aumenta  a resistência da  bactéria.
- É eu sei. Por isso concordei dessa vez. Vai ser o melhor para ela.
- Então por que parece preocupada?
- É a primeira vez que Alex ficará hospitalizada, eu nem sei o que fazer direito!
- Siga as orientações  do médico e das enfermeiras  e tudo vai dar certo. Se quiser eu as  acompanho. – Sugeriu John.
- Obrigada, mas não se incomode.  Liz precisa de sua atenção também.
Claude  que apenas observava o diálogo, resolveu falar.
- Bem se  já está  tudo resolvido, eu gostaria de tomar  conhecimento das transações da  galeria,  do inventário, das  obras permanentes, free lancers, em trânsito... Poderia ser?
- Claro! -  Falou Rosa olhando para ele  e achando-o insensível. Será que agiria assim se  soubesse que Alex era  sua filha também? – Quer os arquivos  virtuais  ou prefere as planilhas impressas?
- Embora eu seja  fã do digitalizado,  aprendi com alguém que nunca se deve desprezar o papel. Seja ele qual for. – Respondeu encarando-a.
- Eu vou pedir à Janete que traga as pastas – Respondeu fugindo do olhar dele e  fingindo não entender o significado daquelas  palavras.
- Perfeito, Rosa. – Falou John – Eu me encarrego de explicar tudo e  você  pode adiantar  sua agenda  com ela, que eu sei é exatamente o que  vai fazer antes  de voltar para casa.


PSV



- Por que viemos à Champs-Elysées, Roberta? O Shopping fica em sentido contrário, não íamos fazer  compras?
- Shopping? Você acha que eu faço compras  em shoppings?
A mais bela avenida do mundo. Champs-Elysées  é um dos endereços mais movimentados e mais caros de Paris, repletos de lojas de grifes famosas,  desejadas e sonhadas para consumo de muitas  pessoas.
- Eu sei que você não faz. Mas eu faço.
- Foi por isso que sua mãe pediu a minha ajuda, querida. Não pode aparecer ao lado de Bernard com roupas de  lojas populares, onde qualquer uma  compra. Iria envergonhá-lo.
- Mas não é justamente do voto popular que vocês precisam?
- Por que ainda resiste, Nara? Os planos de sua mãe são maravilhosos.  Você  vai ser a esposa  do prefeito de Paris, a  cidade mais cobiçada do mundo.
- Ainda bem que  concordamos em alguma  coisa. Esses  são os planos dela para o futuro, não meus.
- Um futuro deslumbrante! – Comenta, pedindo ao motorista que estacionasse o carro e então desceram dele. E  foram andando pela  calçada.
- Deslumbrante? Eu não amo Bernard. Não sinto nada por ele!
- Amor? E quem pensa em amor, quando se tem poder, Nara?
- Mas  você  ama o Claude... Não ama?
- É claro que sim. – Respondeu rapidamente Roberta -  E vocês  vão acabar se amando também. Bernard é muito envolvente. Vai se apaixonar  por ele, tenho certeza.
- Como pode ter certeza, Roberta?
- E você como pode  ter certeza que não? Oras Nara, dê uma chance a você e a ele. Sua mãe sabe o que está  fazendo, meu bem! Vamos entrar nesta  loja.  Os vestidos aqui são exclusivos.
- Você é bem mais preparada que eu Roberta. Devia se casar  com Bernard em meu lugar.
- Mas ele escolheu você! E eu... Bem, eu ainda  continuo querendo seu irmão. Ele vai voltar Nara. E então se casará  comigo. Agora vamos  focar em você. Depois que escolher  vou lhe ensinar algumas... posturas condizentes  com sua  nova posição e...
Nara resolveu não argumentar mais. Tinha outros  planos em mente e eles não coincidiam com os de sua mãe.  Azar o dela pensou antes de sorrir para Roberta.
Ficou muito claro para ela que o encontro  com Bernard ao final da tarde não  foi por acaso. Jantaram em um dos  luxuosos restaurantes da Avenida, enquanto ele discursava  sobre sua plataforma de campanha e  o quanto o apoio   dela, Nara, seria importante para ele.


PSV


Com a infecção  controlada, a  cirurgia de Alex aconteceu poucos  dias  depois. Como explicara o médico, retirar as amígdalas doentes faria  o organismo de Alex deixar  de sobrecarregar seu sistema imune com infecções de repetição, que se  tornariam  cada  vez mais  fortes e  frequentes, sem ela.
Sendo criança, iria se recuperar bem rápido e fácil. Mas  o pós operatório a  deixaria manhosa,  pelo  incomodo do procedimento. A recomendação era de repouso em casa por sete dias. E o que animou mesmo Alex foi saber que sua alimentação deveria ser fria ou gelada nos três primeiros dias.
Poderia e deveria tomar sorvete tipo milk-shake, sopa fria, sucos de frutas doces, mingau frio, gelatina, iogurte, enfim tudo que  fosse gelado, o que Rosa a fazia  evitar antes.
Apesar  do desconforto inicial, Alex ganhou nota dez em seu retorno, cinco  dias  após a cirurgia. Deveria ainda manter alimentação fria, mas  já alternando com o levemente  morno e macio. Bolachas  crocantes nem pensar. Nada  de correr, pular ou nadar ainda.
Quando Rosa disse que  voltaria a galeria, a manha  foi maior. Tentou explicar que  não podia  mais faltar, que tinha um novo chefe e que seu trabalho estava  acumulado e se demorasse a voltar, talvez  precisasse ficar trabalhando  várias  noites para  coloca-lo em dia.
Isso bastou para que a manha diminuísse,  mas  Alex só se deixou convencer quando Rosa prometeu leva-la junto algumas  vezes para que brincasse no ateliê.
Como queria  ser inocente  como ela! O que  faria  dali para  frente? Como  iria  conviver diariamente  com Claude? E como ele a trataria?
Melhor não perder meu sono com essas perguntas e preocupações.  Não adiantaria em nada eu não dormir. Continuaria sem as  respostas..
 PSV
Claude terminou de tomar a xícara de café enquanto lia  o jornal.
- Não vai  comer nada? – Observou Dadi.
- Estou sem  fome e sem  vontade, Dadi. – Respondeu dobrando o jornal e deixando-o de lado.
E depois de um instante continuou.
- Ela  retorna hoje para a galeria.
- Garanto que ela está  tão apreensiva  quanto você. Talvez mais. Por que não diz que ainda a ama? Resolveria todo o problema.
-  Eu diria, se ela  ainda me amasse. Se é que amou mesmo. – Comentou levantando e colocando o paletó.
- A menina é um transtorno para  você? Saber que ela teve um  outro relacionamento que resultou em gravidez a faz amar menos?
- Eu nunca a amaria menos. É o motivo pelo qual teve a filha que me perturba.
- Dê uma  chance ao destino, Claude. Se  ele os  colocou juntos novamente é porque ainda há  o que acontecer entre  vocês.
- Ou é ele explicando o  porquê não há mais nada entre nós Dadi! Até mais tarde.



PSV 
Continua 02/02

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

PSV/Capítulo 13

Uma semana. Sete dias que   Rosa não dormia ou comia  direito. Seu autocontrole beirava  a  falência. Por que entre todos os investidores  do mundo justamente  Claude? Claro,  ele era interessado em Arte, mas adquirir a galeria iria exigir presença  constante, havia muitas parcerias com universidades, convênios e  contratos a gerir.
E seu cargo político em Paris, como ficaria? Por que estava sozinho? Por que ‘ela’ não estava  com ele já que era a escolha mais acertada e adequada para um “homem público”?
E por que,  por quê ele não entrava em contato para  fechar  ou não a negociação? Pelo que percebia, todos haviam  sido conquistados pelo charme e inteligência dele. E isso ele tinha, não podia  negar.
Até mesmo Alexandra estava encantada  por ele, perguntando a  toda  hora quando o veria de novo e se ele ia  mesmo ser o dono da galeria.
Oh, Deus, como  vou administrar essa situação? Estava em seus planos  contar a ela sobre  o pai mas nunca imaginou que iria encontra-lo novamente. Até quando conseguiria manter essa verdade escondida?
Tudo que Alex  sabia era que o pai estava longe, em outro país. A história de  cuidar  da mãe  doente, havia saído das considerações dela própria, provavelmente pela  doença de Liz e o modo cuidadoso de  John com ela, pois  fora  nessa  época que as perguntas  começaram.
Não viu  mal algum em deixar as coisas assim resolvidas na cabeça  de Alex, nem mesmo quando ela fantasiava com a história  dos  tamancos, comparando-as  com o conto de Cinderela. Mas agora começava a se arrepender.
Talvez  fosse melhor vender  suas  ações também. E procurar  um outro local de trabalho, quem sabe voltar a lecionar, já que  contaria  com  o aluguel do casarão como  parte de  sua  renda.
Mas isso seria  fugir. E fugir não resolveria  seus  problemas, porque onde quer  que  fosse eles iriam junto.
Além do mais,  eles  tinham o direito de saber que eram pai e filha. Mesmo que  Claude a rejeitasse depois.
Vai ser um choque e tanto para  todos, considerou. Nunca havia explicado  seu relacionamento, sequer citado o nome de Claude. Para Alexandra,  seu pai era Antônio. 
Contar era o  correto e era  o que faria, por mais que isso lhe  trouxesse problemas futuros. Claude  precisa saber que o dia de  seu aniversário é mais especial agora.
Se ele ficar  com a galeria terei  tempo e oportunidade de preparar  melhor o  momento para isso. Caso contrário, terei que  contar de qualquer maneira, antes que  volte para a França.
Não cobraria nada. Nem pensão nem mesmo que ele assumisse Alex legalmente.  Um escândalo a essa altura provavelmente acabaria  com sua carreira política.
E eu não  vou ser a causa disso. Não fui antes  e não serei agora.


PSV


Claude verificou se o celular  já estava totalmente carregado e tirou-o da energia. Conectou os  fones  de  ouvido ao aparelho e  buscou um aplicativo de músicas em sua  configuração, antes de vestir o casaco de moletom e guarda-lo no bolso interno.
- Vai correr outra vez? – Perguntou Dadi entrando na sala.
- Vou, Dadi. Preciso decidir o que quero e  correr me ajuda  bastante.
- Correr mais o ajuda a adiar a decisão que já tomou, é isso?
- Dadi...
- Você pode correr o quanto quiser. Poderia correr até a  França se  fosse possível e continuaria a sentir o mesmo. De que tem medo Claude?
- Eu não tenho medo de nada, Dadi... – Afirmou colocando os  fones.
- Então enfrente isso que está aí dentro - Fala Dadi apontando para o peito dele – Fique e tire a limpo as histórias que ouviu, inclusive de quando ela veio embora. Observe por si mesmo. Eu não acredito em nada que você ouviu sobre ela. Parece mais uma campanha  difamatória por ser mulher e atuar num mercado restrito aos homens...
- Eu volto em uma  ou duas  horas, d’àccord? – Foi a resposta dele, antes de pegar a chave do carro e sair, com destino ao Parque  do Ibirapuera.
A beleza do lugar o havia conquistado e curioso pesquisou a origem  do local. E surpreso, descobria que o significado de Ibirapuera, para os tupis,  não era  tão  romântico quanto supunha: "árvore apodrecida".  A região alagadiça havia sido parte de uma aldeia indígena na época da colonização, uma área de chácaras e pastagens e na década de 1920, foi transformado em um parque semelhante a existentes na Europa e Estados Unidos.   O plantio de eucaliptos australianos drenou o solo, contornado o obstáculo representado pelo terreno alagadiço.
Coube a Oscar Niemeyer a responsabilidade pelo projeto arquitetônico e a Roberto Burle Marx, o qual nunca foi executado sendo substituído pelo projeto do engenheiro agrônomo Otávio Augusto Teixeira Mendes.

Atualmente contava com ciclovia, treze quadras iluminadas, e pistas destinadas a corridas, passeios e descanso, todas integradas à área cultural.




Repassou todas essas informações enquanto fazia um rápido alongamento, ao lado de uma  das  pistas  de  corrida. Respirou fundo e trocando a música começou a correr.
E mais uma vez, questionou a vida. Que brincadeira era aquela de coloca-la novamente em seu caminho? Por que Rosa tinha que estar envolvida justamente com essa galeria?
Encontra-la no Brasil era uma possibilidade, algo que sabia poder acontecer, mas não era certeza. Não havia em sua cabeça probabilidade de que viesse a acontecer.
Se tivesse lido todo o conteúdo do relatório saberia do envolvimento dela  e teria  desistido do negócio.
Voilà, seja  sincero consigo mesmo, hã?  Teria ido a vernissage pela  simples  curiosidade de vê-la. Ela continuava  tão sedutora como quando a viu pela primeira vez...
Talvez seja melhor eu desistir e voltar aos meus projetos  acadêmicos e investir no que de melhor sei fazer: ensinar sobre arte.
Ou afundar de vez na lama da política, como Louise sonhava. Não, não me prestarei a esse papel pela segunda vez para tentar esquece-la!
Quanto mais tentava descobrir dela, desses últimos anos, mais  confuso ficava. Havia defendido sua tese e lecionado História da Arte na universidade e atuado como assistente de Elisabeth Smith no  departamento de pós graduação por um tempo.
Com o nascimento da  filha  deixara a universidade e depois  dos seis meses da licença maternidade,  assumira o cargo de assistente de John na galeria. Ninguém nunca  havia presenciado ou percebido qualquer atitude entre os dois que denunciasse o envolvimento. Mas  todos  concordavam que havia  carinho entre eles.
Mas todos eram apenas Júlio, Milton e Freitas, nesse momento. Com Júlio, tinha uma amizade  superficial pautada em negócios. Os  outros  dois, conhecera há uma semana. Enfim, não os conhecia tão bem a ponto de confiar  cegamente em seus  conceitos.
Na verdade não queria  acreditar em nenhum daqueles  comentários maldosos, mas Mon Dieu,  eles  explicavam ou talvez justificassem a volta  dela para  o Brasil!
Aumentou a  força e a velocidade de  seus  passos, como se isso fizesse esses pensamentos passarem mais  rápido também,  a ponto de não percebê-los.
Mas a única  coisa que  conseguiu foi acelerar ainda mais  suas  dúvidas.
Que outra poderia ter sido a causa dessa decisão dela? O mais amargo de tudo era pensar que tinha sido trocado por uma galeria. Só uma ambição desse tipo acobertaria a relação dela com John Smith.
E a menina? Seria mesmo filha dele, teria sido planejada? Como pude me enganar  tanto com ela? Com seu caráter? Estariam os dois esperando que Elizabeth morresse para assumirem o caso publicamente?
Não, não deve ser isso. John empenhou todo o patrimônio para custear um tratamento de  última  geração a esposa e Rosa tem apenas dez por cento das ações, embutidas na restauração do casarão, bancada por Smith.
Isso não faz sentido... Por que ela se submeteria a ser amante de um homem em troca de dez por cento de uma empresa?  O que a manteria presa numa  relação desse tipo? Smith a estaria forçando, chantageando? Mas  com o que e por quê?
Só percebeu que chovia quando o pingos ficaram mais grossos e o vento os fez fustigar seu rosto. Contornou a pista e  voltou para o estacionamento do portão quatro.
Quando entrou no carro estava decidido a descobrir a verdade. Mesmo que isso o fizesse deixar de ama-la.


PSV


Louise separou os dedos e a cortina voltou ao seu lugar a frente daquela imensa janela. Afastou-se dela e caminhou para  fora  de seu quarto como se medisse os passos. Lenta e friamente.
Desceu a escada contando mentalmente cada degrau e chegou  ao vinte e três. Apoiou-se no corrimão e sem emoção alguma observou o esmalte das unhas enquanto esperava Nara entrar.
- O que ele queria dessa vez? – Perguntou quebrando o  silêncio da casa.
- Mon Dieu, mamãe! Quer me matar  de susto? – Respondeu Nara com  o  coração disparado. E antes de girar  o corpo, escondeu algo dentro da jaqueta, abotoando-a.
- Sem dramas, Nara. O que ele fazia  em minha casa? – Insistiu  Louise, acentuando o  ‘ele’.
- Esta casa é minha também. Posso receber meus amigos, não posso?
- E desde quando Frazão é seu amigo? Ah, claro, deixe-me responder por  você. Desde que Claude  foi embora. O que ele queria, Nara?
- Ele trouxe algumas  caixas com pertences  do Claude. Objetos e livros que ele mantinha na sala que ocupava na prefeitura, só isso. Algum problema eu ter  recebido e acomodado tudo na biblioteca?
Louise olhou  fixamente para  a filha, analisando sua  postural corporal.
- Nenhum se for só isso mesmo Nara. 
- E o que mais seria? – perguntou Nara subindo alguns degraus.
- Não sei. O que sei,  é que Frazão era o braço direito do seu irmão, não seu. Seria... – Pausa -  Pouco prudente de sua parte tentar me enganar.
- Mamãe, eu nunca  consegui engana-la com minhas notas no colégio. – Comenta  Nara subindo mais alguns  degraus. – Que  motivos  eu teria  para engana-la agora?
- Está  coberta de razão. Você nunca  foi esperta o suficiente para manipular seu  boletim, sempre deixou rasuras. E  espero que não as  deixe transparecer também no  seu jantar  de  noivado, querida. Boa noite!
Nara chegava ao topo da escada e parou por  poucos  segundos. Esteve a ponto  de reagir e falar bem alto que não ia se  submeter a essa  ideia insana.
Mas no último instante, apertou os lábios e  conteve-se, lembrado dos  conselhos de Frazão: concordar com  Louise em tudo.
- Eu sou sua  filha, mamãe. Não  vou decepciona-la. – Respondeu abrindo a porta  de seu quarto – Boa noite!
Assim que entrou fechou a porta com a chave e tirou o novo passaporte de dentro da jaqueta. O antigo já havia expirado.
Conferiu vagarosamente as informações contidas nele. E quando o  fechou sussurrou para  si mesma, olhando na direção e que Louise estaria:
- Sem rasuras dessa vez, mamãe, sem rasuras...

PSV   
                                                                             Próximo capítlulo - 30/01

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

PSV/Capítulo 12

John e Liz cortaram a fita que dava acesso ao salão de exposições. [palmas]
Rosa queria mover  os pés e  ficar ao lado deles mas suas pernas estavam paralisadas. Não se atrevia a enfrentar  de novo o olhar duro e impessoal de  Claude. Não, impessoal não. Dilacerante.
- Ei, Claude, pare  de olhar assim para ela!
- Todos nos hipnotizamos com ela.  Mas não perca seu tempo. – Falou Júlio.
- Por que diz isso? Ela é casada? 
- Não. Mas é  como se fosse. Recusa qualquer convite para sair, além de ser a protegida   de John Smith. – Comenta Milton.
- Protegida?
- É o que dizem. Veja, tudo que sabemos é que John e Liz  foram professores dela. Então de repente  ela  foi para o exterior por  ordem de Liz. Começaram os boatos que Liz queria se livrar  da aluna, por  causa de um suposto relacionamento entre ela e seu marido. E então  tão de repente quanto foi, ela voltou.– Falou  Freitas.
-  Isso são só boatos. – Afirmou Júlio.
- Por que a defende?  Está interessado nela? – Pergunta Claude.
- Nela não. Na babá. – Diz apontando para Silvia que de mãos dadas  com Alexandra se aproximava de Rosa.
- O velho trata a menina  como se  fosse neta dele – Diz Milton inclinando a cabeça em direção a Claude. -  Ninguém fala nada mas todo mundo pensa que  é filha dele.
-  Milton, às  vezes  você me enoja, cara!  - Comenta Júlio -  Me diz que vantagem você leva alimentando e espalhando esses  boatos?
- Nenhuma! – Exclama Freitas – Ele deve fazer isso apenas para  se  vingar  do fora que levou dela! Vamos à sala de exposições?


PSV


- Pode deixar que eu atendo Elise! -  Exclamou em alto tom Nara, correndo para a porta de entrada.
- Boa noite, Nara!
- Frazão! Que  bom que  você  veio! – Disse  abraçando-o.  - Eu sei que já está tarde mas...
- Eu fiquei preocupado contigo. O que  foi que aconteceu? Problemas com  Louise?
- Vamos até a biblioteca. É o único lugar que eu acho seguro mesmo  estando sozinha. As paredes  são grossas e ninguém vai nos ouvir.
- Mon Dieu!  Você  está me assustando  garota!
- Não, eu estou assustada, Frazão! – Disse entrando depois dele. E sentaram-se no sofá. -  Ontem minha mãe ofereceu um almoço  para algumas  pessoas  do partido, entre eles Bernard.
- Isso é  corriqueiro, Nara.  É normal apoiadores de  partidos políticos oferecerem festas, recepções, jantares... Faz parte das obrigações, digamos assim.
- E é  corriqueiro também  oferecer a filha  em casamento? É uma  das  obrigações?
- Como é que é?
- É, é isso mesmo que  você entendeu. Minha mãe quer  me obrigar a casar com Bernard pra ser a primeira  dama do país, a longo prazo.
- Mon Dieu, Louise está obcecada pelo poder e perdeu  a noção, perdeu o  senso  da decência!
- Ela perdeu  foi a dignidade e quer que eu perca a minha. Mas eu não vou,  Frazão! Não vou me casar  com ele! Eu vou para o Brasil, e você  vai me ajudar!


PSV



 Alexandra  soltou a mão de Sílvia e correu até Rosa
- Mamãe você esqueceu de “i” me busca”?
- Não consegui convencê-la a esperar, Rosa. Ficou espiando e quando viu cortarem a fita...
- Não tem problema, Sílvia.  E eu não a esqueci, meu amor! Apenas me enrolei um pouquinho e atrasei. Mas agora que está aqui, podemos passear juntas pela galeria!
- Oba! – Exclamou Alex, excitada, batendo palmas.
- Lembre-se de não mexer nos trabalhos, Alex! Nossos dedinhos não tem olhos! – Brincou  John, movimentando os dedos e  terminando por  coloca-los sobre a cabeça dela, num carinho afetuoso.
- Dedinhos com  olhos! – Repetiu rindo e olhando para a ponta  dos próprio dedos  -  Adoro suas  brincadeiras, padrinho! - E abraçou John onde o alcançava - nas pernas.
- Assim eu vou ficar  com ciúmes, honey! – Exclamou Liz, fingindo-se chateada.
- Ah, não precisa  madrinha! Eu amo você também! – Retrucou Alex, abraçando-a também. – Vamos, mamãe?
- Vamos. - Respondeu Rosa pegando na mão que  a filha lhe oferecia.
Não foi necessário terminar de endireitar o corpo para  dar o primeiro passo, nem levantar o olhar para perceber que os sapatos dos quais precisou desviar estavam nos pés de Claude.


PSV


Quando Rosa finalmente levantou a cabeça Júlio  cumprimentou a  ela e aos demais.
- Boa noite a  todos e parabéns, Rosa! Como sempre você  foi maravilhosa.
- Obrigada, Júlio. Mas não fiz  tudo sozinha. Sérgio e Janete também merecem elogios.
- Tenho certeza  que sim, mas não seja  tão modesta!  Você é a mentora intelectual de todo esse evento, sabemos  disso.
- Rosa é sempre  competente em tudo que faz, Júlio. – Comenta John.
- Eu agradeço as  palavras de vocês  dois, mas tenho certeza que não foi  para isso que  você veio aqui, Júlio e sim para apreciar e avaliar monetariamente esses trabalhos. Acertei?
- Como sempre. – Respondeu, sorrindo – E também para apresentar a vocês o investidor do qual falei. -  John, Liz, Rosa... Claude Geraldy.
Claude cumprimentou Elizabeth primeiro. Ela olhou-o com curiosidade, retribuindo o cumprimento.  De onde o conhecia?
Em seguida  John e então olhou para Rosa:
- Encantado, senhorita! – Falou sem colocar emoção alguma  na  voz.
- Eu... Seja  bem vindo, senhor  Geraldy. – Respondeu tentando ser  tão indiferente quanto ele, e torceu para  que ninguém  tivesse  notado o tremor em suas mãos ao aceitar   a dele.
E ninguém pareceu reparar, a não ser o  próprio Claude. Soube  disso pela maneira como ele  controlou sua mão  na dele, segurando-a um pouco mais que  o necessário. O suficiente para que ela reparasse na aliança.
Júlio continuou as apresentações.
- ...E esta é ‘nossa’ Alexandra, filha de Rosa.
- Oh, tão encantadora quanto a mãe. É um prazer  conhecê-la, mademoiselle Alexandra. – Falou Claude abaixando-se a altura da menina.
Diferente de  seu comportamento habitual, Alex sorriu timidamente para ele.
- Rosa por que não deixa Alex conosco e os acompanha pela galeria? – Manifestou-se Liz -  Assim Claude  vai se ambientando a ela.  Posso chama-lo assim, não é?
- Ouí. Nós franceses nem somos  tão formais quanto parecemos,  hã? Me sentirei imensamente honrado, senhora Smith
- Oh, por  favor, apenas Elizabeth. Ou Liz como todos  me chamam.
- Querida, a mamãe já  volta para ficar  com você, ok?
- Por que não a leva junto? Eu não me incomodaria.
Mas eu sim, pensou Rosa. Entretanto o brilho no olhar  da filha a fez  concordar e circularam pelo salão, apreciando os trabalhos. Às vezes Claude fazia alguma observação e perguntava a cada artista sobre a estética dos trabalhos, escutando paciente e interessadamente.
Quando deu por si estavam apenas os três juntos. O resto do grupo se  dispersara. Alexandra parecia ter perdido a timidez  inicial e  conversava  com Claude  como se  o conhecesse a vida  toda, inclusive estava de mãos dadas  com ele.
- Se eu não os  conhecesse, Rosa,  diria que eram pai, mãe e filha. – Falou Liz, baixinho, aproximando-se dela.
Coincidentemente nesse instante Alexandra falou alguma coisa que fez  Claude sorrir e seus olhares se cruzaram...
Uma hora depois, Alexandra insistiu para  Claude  conhecer a sala-atelier e dar uma “nota” em seus desenhos. Rosa sentia-se cada vez mais desconfortável.
Quando Alex começou a dar  sinais de cansaço, Rosa  desculpou-se e despedindo-se  foi para casa.
Claude confirmou o interesse pela transferência da galeria com John e Liz, mas pediu mais  alguns dias para decidir. Havia muito o que pensar agora.


PSV


Bernard saltou  do carro e acionou o alarme. Ajustou melhor  o óculos escuro enquanto caminhava para  o prédio  da prefeitura. Atravessou o saguão a passos largos, cumprimentando as pessoas com quem cruzava e entrou no elevador.
Apertou o número que o levaria até  seu gabinete e relaxou. O apoio de Louise  Geraldy à  sua candidatura já lhe  rendia os primeiros  frutos.  Empresários já o procuravam, dispostos a  colaborar em sua  campanha, em troca de futuras parcerias, um terreno  que  lhe garantiria  excelentes  colheitas, tanto em qualidade quanto em quantidade.
E de quebra, havia Roberta, uma mulher cheia de peripécias,   considerou ainda deixando um sorriso cínico aflorar em seus lábios. Esse sim era um fruto perigoso. Roberta era um terreno acidentado, um campo minado e teria que  ser  muito cuidadoso ao andar  por ele. Caso contrário seus planos iriam literalmente para o espaço.
O elevador parou e a porta se abriu. Bernard retomou sua aura política e entrou no gabinete.
Valèrie,  sua secretária, rapidamente  levantou-se e caminhou até a frente de sua mesa  tentando inutilmente controlar a tensão que sentia.
- O que  foi Valèrie? Por que está  tão nervosa?
-  Senhor Bernard, eu... Eu tentei  impedi-la, falei que não estava mas ela não acreditou e invadiu sua  sala depois de me insultar e quase derrubar. Eu pedi que se retirasse e esperasse na ante sala, mas ela recusou e  ainda ameaçou me despedir, disse que em poder para isso e...
-  Acalme-se Valèrie. Apenas eu posso despedi-la  e não tenho essa intenção. Agora  diga, quem está lá dentro? – Perguntou ponderando que, se  fosse Roberta, ela tinha perdido  toda sua sanidade.
- É a senhora Geraldy. Louise  Geraldy.
- Ah! – Murmurou respirando aliviado. – Está tudo bem, vamos  relevar esse incidente. Ela se dedicou demais e  está muito abalada desde que Claude renunciou ao partido. Posso contar  com sua  discrição de sempre, não posso?
- Sim senhor.
- Eu sabia que ia  compreender. É por isso que  confio em você, Valerie. Se não houver nada de urgente, tire  o resto da tarde para você. E isso não é uma sugestão, é uma ordem.
- O prefeito! Ele quer falar com o senhor ainda hoje.
- D’àccord. Assim que eu dispensar a senhora Louise, irei ter  com ele. Boa tarde, Valerie.
Bernard entrou em sua  sala. Louise estava confortavelmente sentada em sua cadeira, o que não o agradou.
- O que  pensa que está  fazendo  Louise? Este  gabinete não é a sua casa e minha secretária não é a sua  filha.
- Mon Dieu, quanto ressentimento! – Diz levantando e aproximando-se de Bernard.
- Não gosto que interfiram no meu ambiente de trabalho. Aqui dentro eu sou a autoridade.
- Está bem, já entendi! Quer que eu me desculpe  com sua “secretária”? – Pergunta ironicamente.
- Não será necessário, eu  já  contornei a situação com ela. E sim, Valèrie é tão somente  minha secretária. Eu não  costumo  misturar trabalho com prazer.
- É mesmo? – Falou colocando as mãos sobre os ombros dele – Devia experimentar, é uma aventura e tanto! – E deslizou as mãos para baixo, sensualmente.
- Você é louca! O que pensa que está  fazendo? – Reclamou ele, tentando livrar-se dela.
- Estou deixando bem claro a você que quero levar  vantagem em todos os  nossos negócios...
- Esse seu jogo é muito perigoso, Louise. E sujo.
- Política é um jogo, meu caro. Sujo. Por vezes imundo, onde quem sabe trapacear se  dá melhor.  Ou sendo mais... romântica, é  a arte de negociar  interesses em comum para alcançar determinado objetivo, geralmente o  exercício do poder. E eu quero ele todinho para  mim. E se você  for gentil comigo, eu posso compartilhar ele com você...



PSV
                                                   Continua

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

PSV/Capítulo 11

Roberta sentou-se na cama e espreguiçou  deixando que o lençol escorregasse até a cintura, sensualmente, expondo seu corpo nu.
- É melhor levantar e  colocar sua roupa ou chegaremos atrasados  a esse almoço. -  Falou Bernard olhando-a, enquanto ajustava o cinto   em  sua  calça.
- Tem razão. Não é  conveniente levantar a ira  de Louise nesse momento. – E levantando-se caminhou até  o banheiro enquanto ele a admirava.
Tomou um rápido banho e colocando  o vestido, pediu que ele a ajudasse com o zíper.
- Precisamos  ser  cuidadosos até que você se case com minha futura cunhadinha. Louise não deve suspeitar do nosso relacionamento.
- Tem tanta  certeza assim que Claude  vai casar com você e aceitar esse cargo  diplomático ?
- Não se preocupe, eu saberei convencê-lo. – Afirmou -  Não  foi o que  fiz  com você? – Perguntou voltando-se e passando seus  braços pelo pescoço dele.
- E muito bem feito por  sinal! – Exclamou beijando-a.
Cerca de quarenta minutos  depois chegavam separados á mansão.


PSV


Claude pagou a  conta  do restaurante e esperou que Dadi  voltasse do toalete. Caminharam para o estacionamento, onde estava o carro que Claude havia alugado pela manhã.
- Desculpe, você está  com pressa de  voltar para o  flat e eu atrasando tudo.  Devia ter  trazido uma amiga  para almoçar com você e não uma  velha como eu.
- Você não é velha e eu não sei o que é ter  pressa desde que  chegamos ao Brasil, hã?
- E quanto à amiga?
- Primeiro os negócios, Dadi. E é melhor parar por aí, porque sei exatamente onde quer  chegar.
- Não me  culpe por tentar!
- Sabe que eu nunca faria isso. Mas  por favor, hoje, não.
- Está bem, meu filho! Perdoe-me de novo, eu só quero vê-lo feliz e não comer mais  comida de restaurante!
Claude  soltou uma sonora  gargalhada.
- Quer saber? Eu também não. Vamos procurar um supermercado e fazer compras, ouí?
- Não vai se atrasar para a vernissage?
- Dadi querida, não é meu casamento é só uma exposição de arte. Ninguém vai reparar se eu chegar depois da abertura... –Comentou fazendo uma meia  careta para ela.


PSV



Mas não foi  o que aconteceu.  Claude chegou a galeria pontualmente, ao lado de Júlio e seu amigo Freitas.

Localizada em uma das regiões mais tradicionais e calma de São Paulo, a Galeria Athena  estava instalada em uma casa construída em 1936,  completamente restaurada para abriga-la. Era o que Claude se lembrava da única página lida do relatório. E condizia com a realidade do que via a  sua  frente.





Ficara  tão envolvido com o aluguel do carro e as  compras que não tivera  tempo de  voltar a ler o documento. Mas  faria isso assim que retornasse  da  vernissage.  Não tinha intenção de demorar por ali. Voltaria logo depois de conhecer John Smith.
Foram recepcionados logo no portão de entrada, recebendo um mini catálogo. Nele, além de informações  sobre os artistas e suas  obras, havia um croqui, ilustrando os ambientes internos da galeria, que ele olhou distraidamente.
Enquanto caminhavam pelo pátio, observou com atenção a disposição de cada um deles: sala de administração, salão para exposição de arte, banheiros distintos para visitantes e  funcionários, um ateliê-escola, área de estoque e armazenamento de objetos de arte e um amplo espaço nos  fundos. Muito bem organizado, pensou gostando do que via.
Assim que entraram um  garçom elegantemente  vestido os  serviu com uma  taça de champanhe, desejando boas  vindas.
- Então, gostou do que viu até agora? – Perguntou Júlio ansioso.
- Muito. – Respondeu Claude provando a bebida.
- Então até que John faça a abertura e venha falar conosco vamos  circular. Você está no Brasil, precisa aumentar seu circulo de amizades!
-  Júlio! – Exclamou alguém aproximando-se – Não me  diga que desistiu da carreira de corretor e  vai se torar um marchand?
- É claro que não Milton. Embora eu seja um apreciador de arte em geral, estou aqui a negócios. Lembra-se do meu investidor francês? Aqui está ele: Claude Geraldy. – Falou apresentando-os.
- Você disse negócios, no plural.  Um é sobre o destino da galeria, não me  diga que  o outro é “ela”, ainda...
- Pode crer que é!
- Você não desiste mesmo, não é?
- Desistir jamais, esse é meu lema!


PSV


No andar  superior da galeria, na sala onde  ficava o ateliê, Alexandra  comeu a última  bolacha e abriu seu livro de colorir.
- Mamãe, quando é que eu “vou i” pra escola?
- Quando é que eu vou, Alex, é assim que  se fala.  E  você  vai em  breve meu bem! Eu só preciso visitar as escolas que selecionei e escolher  uma delas. – Explicou Rosa..
- E por que  que você tem que visitar elas? “Nun é eu” que vou estudar lá?
Uma vez  mais, uma observação da filha  a deixava surpresa.
- É sim, meu anjo. – Respondeu sem corrigi-la dessa vez –  Mas as mamãe precisa saber se na escola  estão preparados  para cuidar  de você tão bem como a Sílvia  cuida. Entendeu?
- Ah... A Sílvia não vai pode ir  comigo pra escola?
- Nem ela, nem a mamãe. Poderemos levar  você e esperar que entre com a professora...
- Rosa, John já vai falar e pediu a sua presença – Diz Silvia entrando na sala.
-  Ah, ok Sílvia! A mamãe tem que ir querida. Comporte-se.
- Depois você deixa eu descer lá na festa, só um pouquinho? – Pede Alexandra franzindo os olhos e encostando o dedo indicador ao polegar.
- Eu mesma  venho buscar você, combinado? – Diz  Rosa, beijando a filha e  levantando-se.
- Combinado! – Responde Alexandra sorrindo.
- Sílvia, eu venho pegar Alex assim que apresentar os artistas. Desse modo você também se diverte, ok? – Falou Rosa, já na porta.
- E quem disse que eu não me  divirto com ela?
- Oh, eu tenho certeza que se diverte, mas  estou falando de  outro  tipo de  diversão, do gênero masculino, alto, simpático, que usa terno e adora números. Por que não dá uma chance a ele?
E sem esperar  resposta desceu pisando cuidadosamente em cada  degrau. Caminhou em direção a  John e Elisabeth enquanto olhava em geral para os  convidados. A casa estava cheia.
Conferiu as laudas  do que John falaria e a  inconfundível risada de Júlio chamou sua atenção. Olhou para o grupo onde ele estava e eu coração disparou. Aquele jeito de colocar a mão no bolso...
Então respirou, fechou os olhos e  convenceu-se que aquilo  era impossível. Claude estava na França, desfrutando de sua carreira política e não ali, na vernissage.
Estou nervosa e minha mente está me pregando peças. Assim que eu abrir os olhos, verei que é apenas um amigo de Júlio, pensou abrindo-os.
- Rosa algum problema, querida? – Perguntou Liz notando  seu deconforto.
- Não, nenhum... – Respondeu Rosa reparando em Milton ao lado de Júlio. – Eu estou bem. É só aquele frisson da abertura, Liz. Já  vai passar.  – Completou olhando-a antes  de  voltar o olhar para o grupo.
Como pudera confundi-los? Claude era mais alto, mais maduro  e  mais... Chega, Rosa! Concentre-se, ok? – Ordenou a si mesma.
John chamou a  atenção de todos.
- Senhoras e senhores, desde já nós da Galeria Athena agradecemos suas presenças. Para nós é muito  emocionante compartilhar com todos essa exposição. E por que é emocionante? Para mim, porque junta várias coisas importantes, entre elas a recuperação de minha esposa, para quem dedico esse momento de celebração da arte, do resultado da colaboração de três universidades, uma das quais  holandesa. [palmas]. Vocês poderão observar os resultados dessa colaboração apreciando essa nova geração de profissionais que aqui iniciam a realização de um sonho, que é lançar-se  no mundo das artes.
- Vernissage, sabemos,  é um evento cultural, um encontro prévio entre pintores, escultores e fotógrafos para a inauguração de uma amostra de arte. De origem francesa [...]
Claude saiu do banheiro escutando as palavras de John e apressou os passos.
- Droga, perdi  o começo da explanação! – Murmurou procurando Júlio entre os  convidados, já que agora um pilar, fotógrafos e convidados limitavam  sua passagem e visão. Mas não pretendia empurrar ninguém, aguardaria o final da preleção, quando todos se movimentassem para o salão de exposições.
Um garçom   se arriscava equilibrando uma bandeja com taças cheias e  aproximou-se dele. E entregado uma delas disse em tom de confidência:
- Com licença,  aquela senhorita de vermelho, do outro lado da sala está lhe oferecendo  um brinde e um prazeroso fim de noite, senhor.
Como já tinha a taça na mão e o garçom se distanciou, não viu  outra  saída a não ser localizar a tal senhorita. Retribuiu o sorriso e ergueu a taça, deixando discretamente à mostra a aliança que usava.
A moça fez um gesto de decepcionada compreensão e ergueu sua taça também, numa saudação final.
Claude apoiou seu  corpo no pilar. Abaixou a taça e a cabeça, olhando para  sua mão e sorriu tristemente.  Aquela era a aliança  com a qual  casaria oficialmente com Rosa. Sempre a usava nesses  eventos, para afastar mulheres sedutoras, como aquela.  
- Por esse motivo esmeramos  na qualidade da exposição e na organização do evento. Nossos artistas são contemporâneos e extraordinários e sabemos que a primeira impressão é  a que fica. Em virtude de um momento inesperado em minha vida particular, os trabalhos foram selecionados pela minha assistente e é a ela que  vou passar a palavra a ela: Rosa, tenha a gentileza de continuar...
Rosa, que infeliz coincidência, pensou Claude relaxando o corpo. Claro que não era ela. Rosa devia ser um nome tão comum no  Brasil quanto o seu era na França...
- Boa noite a todos! Eu vou tentar ser breve para que possamos desfrutar de tudo isso.  Foi uma honra e uma responsabilidade muito grande selecionar esses trabalhos...
Claude endireitou o corpo. Sua  respiração ficou pesada. Sentiu as narinas se dilatarem e seu sangue pareceu ferver dentro das artérias.
- Devo estar ficando louco! -  Resmungou atraindo a atenção de uma senhora ao seu lado.
- O que foi que disse, rapaz?
- Pardon, eu creio que pensei alto demais... – Desculpou-se saindo detrás  do pilar.
Foi abrindo caminho entre as pessoas o olhar fixo, e acabou chegando ao grupo onde Júlio estava, a  menos de  dois metros de Rosa.
Ela sorria enquanto falava e olhou para John, procurado sua aprovação e depois para a folha em sua mão, pois não queria sair do roteiro que havia traçado. 
 - E  esse não foi um trabalho individual. – Falava  quando notou  uma pequena movimentação entre os convidados e levantou o olhar, pensando ser Alexandra, desobedecendo suas  ordens de espera-la. - Por isso quero... – e o que encontrou foi um olhar duro, frio e indecifrável.
Claude! Seu coração pareceu parar para em seguida disparar. Podia jurar que se abrisse a boca ele sairia   por ela,  antes das palavras. Estremeceu e por mais que ordenasse a seu cérebro que se  controlasse,  ele não a obedecia.
- Rosa, está tremendo... Não se sente bem, querida? – Perguntou Liz preocupada novamente.
O que ele fazia ali, ao lado de Júlio? Turismo pelo Brasil, talvez procurando inspiração para um novo livro ou então... Oh Deus, não pode ser! Claude não pode ser  o investidor! Seria muita... crueldade.
- O que? Oh, não está  tudo bem! – Conseguiu dizer finalmente -  Me  perdoem, eu ensaiei tanto e mesmo assim  acabei me perdendo... - Mas já  me localizei – Eu... Eu quero chamar aqui,   , as pessoas que fizeram a diferença para que  toda essa estrutura existisse: Janete Fraga e Sérgio Camargo.[palmas]
- Sérgio por sinal, é nosso  primeiro pupilo e em breve estará nos presenteando com sua própria vernissage. [palmas].
- E é claro os protagonistas da  noite,  os artistas: Alabá Dakarai, Hugo Lombardie e Nínica Vendrini. [palmas].
 - De todas as linguagens  criadas pelo  homem, com seus  símbolos e mistérios,  a Arte sem dúvida é a que mais exige em seu processo de criação. O artista aborda um tema, dentro de um contexto, seja ele sentimental, social, econômico, histórico ou outro qualquer. E tem que usar o seu talento para transformar seu pensamento em algo palpável e único, bonito ou não aos olhos  de quem observa. É uma árdua, porém nobre e deliciosa tarefa. [palmas]
- Eu busquei reunir  trabalhos que abordassem não só o ser humano físico, mas a existência humana do corpo e da alma, a essência,  o transcendental.  E coincidentemente diante dos últimos acontecimentos no Brasil e na França, estes nos levarão a uma reflexão sobre o nosso comportamento para  com o planeta, a casa da qual somos hóspedes. [palmas]
- Não vou discutir todo o tema, pois os  trabalhos falam por si. São suficientemente fortes e tenho certeza que provocarão em todos, como observadores, muitas associações. Desejo a todos um interessante e prazeroso encontro com a provocação.
Ergueu o olhar para agradecer as palmas, mas apenas conseguiu acenar com a cabeça ao enxergar Claude  aplaudindo-a lentamente. 


                                    PSV 
                                                 Continua 22/01