PSV
Pouco mais de três horas
depois, Liz deixava o centro cirúrgico.
Como o período de recuperação é mínimo
no dia seguinte ela poderia retornar ao seu estilo de vida normal, e a
única sequela seria um leve inchaço no local aonde houve a fixação do capacete.
Ressonâncias magnéticas seriam feitas a fim de certificar a regressão do tumor, combinados com sessões de audiometrias.
Já os exames de rotina, deveriam ser realizados aos seis
meses, um ano, dois anos, três anos e quatro anos vindouros. Por sugestão
de Afrânio, não esperariam seis meses. Fariam a primeira
manutenção em três meses.
PSV
Quando Rosa retornou a galeria passava das treze horas. John
já os havia informado sobre Liz e Claude
havia saído para almoçar.
Que bom que alguém tem apetite nessa história, pensou, depois
de pedir a Janete que a avisasse assim que ele pusesse um de seus pés na
galeria.
Janete chegou a
formular uma brincadeira, mas a maneira
séria com que Rosa falara a fez se
reservar. Pelo jeito, só derrubar os muros não seria suficiente. Claude teria
muito trabalho com os resíduos dessa destruição.
Em sua sala, Rosa dedicou-se a
colocar em dia os papéis a seu alcance. Era muito mais fácil que
colocar seus pensamentos em ordem. Largou os papeis
sobre a mesa e foi até a janela.
Olhar para o céu sempre a acalmava.
E o céu hoje, assim como eu
não está ensolarado...
Iria sim, se sujeitar
à vontade de Claude. Ele queria um
casamento? Pois bem, ele o teria mas com
algumas condições. A primeira delas
seria um cont.. .
- Rosa, ele chegou! – Escutou o aviso de Janete pelo
interfone.
Correu até a mesa e perguntou:
- Ele perguntou por mim?
- Sim. E foi direto para a sala dele.
- Ok. Obrigada, Janete.
Ficou por alguns instantes no mesmo lugar, como se o chão
tivesse forças para prendê-la. Então, caminhou até a porta e segurou a
maçaneta. Mas no meio do giro soltou-a e afastou-se de costas, vagarosamente até bater contra sua mesa.
- Não pode desistir agora, Rosa, não pode! – Falou a si mesma. -
Admita que não está com medo de aceitar a proposta dele, e sim de que ele perceba o quanto ainda o deseja e... Ama. Mas
isso de amá-lo ele jamais vai saber!
Limpou uma lágrima teimosa que escapou de um dos olhos,
apesar das várias piscadas que deu. Endireitou o corpo e decidida saiu.
Estava tão decidida quanto tensa. Sua mão tremeu quando a levantou. Fechou o
punho e deu uma batida na porta, abrindo-a, no mesmo instante em que escutava
um “entre”.
- Ah, finalmente chegou! -
Ouviu depois que Claude olhou para
o relógio. - Espero que essas
horas a mais a tenham feito tomar a decisão certa.
- Sabe muito bem porque me atrasei. – Explicou-se
sem vontade - E a cirurgia foi um sucesso, obrigada por perguntar.
- Completou sarcástica.
- Ouí. Foi tão bem
sucedida que Elisabeth já voltou para o
quarto. – Respondeu tranquilamente. - Aliás, um apartamento. Espaçoso, claro e arejado, pintado
em tom pastel, com persiana automática, TV a cabo e conexão wi-fi. – Concluiu
usando o mesmo tom de Rosa.
Ficou surpresa por
entender que ele havia ido até o hospital, mas não conseguiu se conter:
- Claro, você tinha
que jogar na minha cara o que o seu
dinheiro está financiando.
- Foi isso que entendeu ou foi o que quis entender?
- Foi o que você quis
que eu entendesse!
- D’àccord. Vamos
parar com essa discussão idiota e ir à
que interessa. Qual é a sua resposta?
- Eu aceito. Quero dizer, eu vou me submeter a sua chantagem, mas... – Parou no meio da frase.
- Mas?
- Faremos um contrato. Eu quero um prazo. Reataremos nosso
“casamento” por um tempo determinado. Com separação total de bens. Eu não quero
nada que venha de você.
- Sem chance.
- Sem chance? Por quê?
Contratos de casamentos são comuns...
- Mas o nosso não é
comum. – E recostou-se na cadeira. -
E não será necessário porque eu pensei no que disse, sobre não termos nos casado. Você tem razão. Fomos
apenas amantes e voltaremos a ser apenas
amantes.
- Você está indo longe demais! Eu não vou ser sua amante!
- Vai sim. Caso contrário me obrigará a amortizar os comodities da galeria que a Bolsa de
Valores detém como depositária. Eu deixaria de ser apenas um investidor
interessado nos lucros e passaria a ser
oficialmente o sócio majoritário,
o que excluiria de vez o seu ‘ex-amante’
da jogada. Ou melhor, da galeria.
- Por que está fazendo isso? – Perguntou depois de um longo
silêncio.
- Por prazer, oras! – E levantou-se aproximando-se dela. -
Rosa! John vai viajar pelo mundo com a esposa – E acentuou o termo – Você vai
ficar aqui, sozinha como eu. É questão de unir o útil ao agradável. Vai
ver, ou melhor, vai recordar que nos
damos muito bem na cama.
Rosa virou as costas
para Claude, fechou os olhos e respirou
fundo, sentindo-se mal. Por que segurava
a vontade de acertar o rosto de Claude
como ele merecia?
- Estou esperando. Quero ouvir que aceita.
- OK. Eu aceito. – Respondeu o mais friamente que conseguiu, sem olhar para ele.
- Perfeito. Encontros quando e na hora que eu quiser. - Afirmou
voltando a sentar-se na cadeira.
Indignada com tanta frieza, juntou o que lhe restava de forças e aproximou-se da mesa dele. Esperou
até que ele a olhasse, e embora seus olhos
marejados dificultassem a visão,
encarou-o e perguntou:
- Quando você se
tornou esse cafajeste?
- Melhor se perguntar ‘quem’ me tornou um. – Respondeu levantando-se e
deixando-a sozinha.
PSV
Rosa esperou o voo da British
Airways, para a Inglaterra, decolar e sumir
de vista, engolido pelo céu azul, quase dourado, do entardecer. Um dia raro para a cidade de São Paulo,
sempre tão devorada pela poluição.
Mais uma vez, despediu-se
mentalmente de John e Liz. Na saída do terminal, Alex avistou
uma sorveteria na praça de alimentação. Parou por lá e segurando firme a mão de Alex esperou até ter
o pedido atendido e então ocuparam uma das
simpáticas mesinhas disponíveis.
- Gostou de ver os aviões assim de pertinho?
- Gostei mamãe! – Respondeu Alex, lambendo o sorvete. - Um dia você me leva pra andar de avião?
- Levo sim meu bem!
Faremos uma viagem para... Para onde você quer ir?
- Hummmm.... – Resmunga Alex antes de outra lambida - Pra um lugar que tiver castelo!
- Perfeito! – Concordou sorrindo para a filha -
Iremos a um lugar cheio de castelos.
- E sorvete de morango! – Falou usando a colher, dessa vez.
- E sorvete de morango! – Concordou Rosa - Com casquinha de chocolate. Acertei?
- Aham. - Emendou Alex mordendo a casquinha. – A gente vai pra galeria agora?
-Não, vamos para casa!
- Ah, que peninha, eu queria ‘vê’ o Claude. - Explicou desapontada, ocupando-se com o resto
do sorvete.
Claude. Há dez dias sobressaltava-se
a cada vez que ele a olhava ou lhe dirigia a palavra. Mas sempre eram assuntos da galeria. Até quando
ele a torturaria desse jeito?
Nem uma palavra, nenhum comentário, nenhum “encontro marcado
em local e hora que ele quisesse...”
Quem sabe ele havia pensado melhor e desistido?
- Pronto já acabei! – Exclamou Alex.
- Mamãe a gente ‘podi i’
eu já acabei! – Insistiu a menina.
- Já acabou? Claro filha,
podemos ir.
PSV
Frazão entrou no
apartamento enquanto falava com Claude
ao celular.
- É claro que não disse nada a ela, mon ami. Mas você sabe o que penso...
- Não discordo de você. – Foi a resposta de Claude - Só não sei se Nara suportaria descobrir essa
verdade.
- Ela amadureceu muito Claude. Creio até que Louise está
perdendo o controle sobre ela.
- Assim espero. De qualquer modo não posso explicar por
telefone.
- Não. E não pense que Nara se contentou com a explicação que dei. Ela vai procurar Claude, vai investigar e
seria melhor saber por você. –
Argumentou sentando-se no sofá.
- Ouí. Continue
cuidando de Nara e das investigações por mim, Frazão. Eu... Preciso de um tempo ainda, antes de
trazê-la para cá.
- Claude Antoine
precisando de tempo? O que houve? Já se encontrou
com... Já se envolveu com alguém? – Corrigiu-se a tempo de pronunciar o nome de Rosa.
- Não. Não me envolvi com ninguém. Au revoir, mon ami. –
Escuta Claude falar rapidamente,
encerrando a ligação.
- Bonne nuit pra você também! – Exclamou olhando para o
celular. – Só não pense que me engana francês...
Então deixou o celular
sobre o aparador e foi para o quarto.
PSV
Dadi viu quando Claude
guardou o celular e aproximou-se.
- Claude o que vai querer para o jantar?
- Nada Dadi, estou sem fome.
- Agora toda noite é isso. Vai acabar doente desse jeito!
- Não vou não, Dadi. Mas obrigado por se preocupar, hã?
Vou tomar um banho e
tentar dormir.
- Às oito horas da noite?
Claude olha para o relógio antes de responder.
- Voilà! Talvez eu
leia um pouco ou assista a um filme
então. Boa noite, Dadi.
- Boa noite. – Responde acompanhando-o com um olhar
preocupado.
Quando saiu do banho, Claude encontrou uma bandeja sobre o rack da televisão. Um lanche natural,
um copo duplo de suco e uma fruta.
Sorriu pela preocupação de Dadi. Pela manhã a agradeceria. Acabou
tomando o suco. Quanto ao lanche, quem sabe mais tarde se sentisse fome.
Sentia-se frustrado por Rosa não ter voltado à galeria com a
menina. Mas que diabos! Por que me
afeiçoei a ela?
Porque você ainda ama a mãe dela, foi a reposta que ouviu de
si mesmo. É por isso também que está adiando trazê-la ao apartamento. Tem medo
que ela perceba isso.
Dieu! Como podia ama-la depois de tudo? Não, o amor não fazia nem faria parte do seu acordo com ela. Continuaria
com seu plano. Rosa deve acreditar
que se trata de vingança. Vingança e nada mais.
Algumas noites de sexo
sem compromisso, tratando-a apenas como
amante e também se convenceria disso.
PSV
Continua 02/03



