Pages

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

PSV/Capítulo 24


PSV


Pouco mais de três horas  depois, Liz deixava o centro cirúrgico.  Como o período de recuperação é mínimo  no dia seguinte ela poderia retornar ao seu estilo de vida normal, e a única sequela seria um leve inchaço no local aonde houve a fixação do capacete.
Ressonâncias magnéticas seriam feitas a fim de certificar a  regressão do tumor,   combinados com sessões de audiometrias.
Já os exames de rotina, deveriam ser realizados aos seis meses, um ano, dois anos, três anos e quatro anos vindouros. Por sugestão de  Afrânio,  não esperariam seis meses. Fariam a primeira manutenção em três meses.



PSV



Quando Rosa retornou a galeria passava das treze horas. John já os havia  informado sobre Liz e Claude havia saído para almoçar.
Que bom que alguém tem apetite nessa história, pensou, depois de pedir a Janete que a avisasse assim que ele pusesse um de seus pés na galeria.
Janete  chegou a formular uma  brincadeira, mas a maneira séria com que Rosa falara a fez  se reservar. Pelo jeito, só derrubar os muros não seria suficiente. Claude teria muito trabalho com os resíduos dessa destruição.
Em sua  sala, Rosa  dedicou-se a  colocar     em dia os  papéis a seu alcance. Era muito mais  fácil que  colocar seus pensamentos em ordem. Largou os  papeis  sobre a mesa e  foi até a janela. Olhar para o céu sempre a acalmava.
E o céu hoje, assim como eu   não está ensolarado...
Iria sim,  se sujeitar à vontade  de Claude. Ele queria um casamento? Pois bem, ele o teria  mas com algumas  condições. A primeira delas seria um cont..  .
- Rosa, ele chegou! – Escutou o aviso de Janete pelo interfone.
Correu até a mesa e perguntou:
- Ele perguntou por mim?
 - Sim. E  foi direto para a sala dele.
- Ok. Obrigada, Janete.
Ficou por alguns instantes no mesmo lugar, como se o chão tivesse forças para prendê-la. Então, caminhou até a porta e segurou a maçaneta. Mas no meio do giro soltou-a e afastou-se de costas,  vagarosamente até bater  contra sua mesa. 
- Não pode desistir agora, Rosa, não pode!  – Falou a si mesma.  -  Admita que não está  com  medo de aceitar a  proposta dele, e sim de que ele  perceba o quanto ainda o deseja e... Ama. Mas isso  de amá-lo ele jamais vai saber!
Limpou uma lágrima teimosa que escapou de um dos olhos, apesar das várias  piscadas que deu.  Endireitou o corpo e decidida saiu.
Estava tão decidida quanto tensa.  Sua mão tremeu quando a levantou. Fechou o punho e deu uma batida na porta, abrindo-a, no mesmo instante em que escutava um “entre”.
- Ah, finalmente chegou! -  Ouviu depois que Claude olhou para  o relógio. -  Espero que essas horas a mais a  tenham feito  tomar a decisão certa.
- Sabe muito bem porque me atrasei.  – Explicou-se  sem  vontade - E a cirurgia  foi um sucesso, obrigada por perguntar. -  Completou sarcástica.
- Ouí. Foi  tão bem sucedida que  Elisabeth já voltou para o quarto. – Respondeu tranquilamente. -  Aliás,  um apartamento. Espaçoso, claro e arejado, pintado em tom pastel, com persiana automática, TV a cabo e conexão wi-fi. – Concluiu usando o mesmo tom de Rosa.
Ficou surpresa por  entender que ele havia ido até o hospital, mas não conseguiu se  conter:
- Claro, você  tinha que jogar na minha cara  o que o seu dinheiro está financiando.
- Foi isso que entendeu ou foi o que quis entender?
- Foi o que  você quis que eu entendesse!
- D’àccord.  Vamos parar  com essa discussão idiota e ir à que interessa.  Qual é a sua resposta?
- Eu aceito. Quero dizer, eu vou me submeter a  sua chantagem, mas... – Parou no meio da frase.
- Mas?
- Faremos um contrato. Eu quero um prazo. Reataremos nosso “casamento” por um tempo determinado. Com separação total de bens. Eu não quero nada que  venha de você.
- Sem chance.
 - Sem chance? Por quê? Contratos de casamentos são comuns...
- Mas o nosso não é  comum. – E recostou-se na cadeira. -  E não será necessário porque eu pensei no que disse, sobre não  termos nos casado. Você tem razão. Fomos apenas amantes e voltaremos a  ser apenas amantes.
- Você está indo longe demais! Eu não  vou ser sua amante!
- Vai sim. Caso contrário me obrigará a amortizar  os comodities da galeria que a Bolsa de Valores detém como depositária. Eu deixaria de ser apenas um investidor interessado nos lucros e passaria a ser  oficialmente o sócio majoritário,  o que  excluiria de vez o seu ‘ex-amante’ da jogada. Ou melhor, da galeria.
- Por que está fazendo isso? – Perguntou depois de um longo silêncio.
-  Por prazer,  oras! – E levantou-se aproximando-se dela. - Rosa! John vai viajar pelo mundo com a esposa – E acentuou o termo – Você vai ficar aqui, sozinha como eu. É questão de unir o útil ao agradável. Vai ver,  ou melhor, vai recordar que nos damos muito bem na cama.
Rosa virou as  costas para Claude,  fechou os olhos e respirou fundo, sentindo-se mal.  Por que segurava a vontade de  acertar o rosto de Claude como ele merecia?
- Estou esperando. Quero ouvir  que aceita.
- OK. Eu aceito. – Respondeu o  mais friamente que  conseguiu, sem olhar para ele.
- Perfeito. Encontros quando e na hora que eu quiser. - Afirmou voltando a sentar-se na cadeira.
Indignada com tanta frieza, juntou o que lhe restava de  forças e aproximou-se da mesa dele. Esperou até que ele a olhasse, e  embora seus olhos marejados dificultassem a visão,  encarou-o   e perguntou:
- Quando você se  tornou esse cafajeste?
- Melhor se perguntar ‘quem’ me  tornou um. – Respondeu levantando-se e deixando-a sozinha.



PSV



Rosa esperou o voo da  British Airways, para a Inglaterra, decolar e  sumir de vista, engolido pelo céu azul, quase dourado, do entardecer.  Um dia raro para a cidade de São Paulo, sempre tão devorada pela poluição.
Mais uma vez,  despediu-se mentalmente de John e Liz.  Na saída do   terminal, Alex   avistou uma  sorveteria na  praça de alimentação. Parou por lá e  segurando firme a mão de Alex esperou até ter o pedido atendido e então ocuparam uma das  simpáticas mesinhas disponíveis.





- Gostou de ver os aviões assim de pertinho?
- Gostei mamãe! – Respondeu Alex, lambendo o sorvete. -  Um dia você me leva  pra andar de avião?
- Levo sim  meu bem! Faremos uma viagem para... Para onde você quer ir?
- Hummmm.... – Resmunga Alex antes de  outra lambida - Pra um lugar que tiver castelo!
- Perfeito! – Concordou sorrindo para  a filha -  Iremos a um lugar cheio de castelos.
- E sorvete de morango! – Falou usando a colher, dessa vez.
- E sorvete de morango! – Concordou Rosa  - Com casquinha de chocolate. Acertei? 
- Aham. - Emendou Alex mordendo a casquinha. – A gente  vai pra galeria agora?
-Não, vamos para casa!
- Ah, que peninha, eu queria ‘vê’ o Claude. -  Explicou desapontada, ocupando-se com o resto do sorvete.
Claude.  Há dez dias sobressaltava-se a cada vez que ele a olhava ou  lhe  dirigia a palavra.  Mas sempre eram assuntos da galeria.  Até  quando ele a torturaria desse jeito?
Nem uma palavra, nenhum comentário, nenhum “encontro marcado em local e hora que ele quisesse...”
Quem sabe ele havia pensado melhor e desistido? 
- Pronto já acabei! – Exclamou Alex.
- Mamãe a gente ‘podi i’  eu já acabei! – Insistiu a menina.
-  Já acabou? Claro filha, podemos ir.



PSV


Frazão entrou no  apartamento enquanto falava  com Claude ao celular.
- É claro que não disse nada a ela, mon ami. Mas  você sabe o que penso...
- Não discordo de você. – Foi a resposta de Claude -   Só não sei se Nara suportaria descobrir essa verdade.
- Ela amadureceu muito Claude. Creio até que Louise está perdendo o  controle sobre ela.
- Assim espero. De qualquer modo não posso explicar por telefone.
- Não. E não pense que Nara se contentou com  a explicação que dei.  Ela vai procurar Claude, vai investigar e seria melhor saber  por você. – Argumentou sentando-se no sofá.
-  Ouí. Continue cuidando de Nara e das investigações por mim, Frazão.  Eu... Preciso de um tempo ainda, antes de trazê-la para cá.
-  Claude Antoine precisando de tempo? O que houve? Já  se encontrou com... Já se envolveu com alguém? – Corrigiu-se a tempo de pronunciar  o nome de Rosa.
- Não. Não me envolvi com ninguém. Au revoir, mon ami. – Escuta Claude falar rapidamente,  encerrando a ligação.
- Bonne nuit pra você também! – Exclamou olhando para o celular. – Só não pense que me engana francês...
Então deixou o  celular sobre  o aparador e foi para  o quarto.


PSV


Dadi viu quando Claude  guardou o  celular  e aproximou-se.
- Claude o que vai querer para o jantar?
- Nada Dadi, estou sem fome.
- Agora toda noite é isso. Vai acabar doente desse  jeito!
- Não vou não, Dadi. Mas obrigado por se preocupar, hã? Vou tomar um banho e tentar  dormir.
- Às oito horas da noite?
Claude olha para o relógio antes de responder.
- Voilà! Talvez  eu leia  um pouco ou assista a um filme então. Boa noite, Dadi.
- Boa noite. – Responde acompanhando-o com um olhar preocupado.
Quando saiu do banho, Claude encontrou uma bandeja sobre  o rack da televisão. Um lanche natural, um  copo duplo de suco e uma fruta. Sorriu pela preocupação de Dadi.  Pela manhã a agradeceria. Acabou tomando o suco. Quanto ao lanche, quem sabe mais tarde se sentisse fome.
Sentia-se frustrado por Rosa não ter voltado à galeria com a menina. Mas que  diabos! Por que me afeiçoei a ela?
Porque você ainda ama a mãe dela, foi a reposta que ouviu de si mesmo. É por isso também que está adiando trazê-la ao apartamento. Tem medo que ela  perceba isso.
Dieu! Como podia ama-la depois de tudo?  Não, o amor não fazia nem faria parte  do seu acordo com ela.  Continuaria  com seu plano. Rosa deve acreditar  que se trata de vingança. Vingança e nada mais.
Algumas  noites de sexo sem compromisso, tratando-a apenas  como amante e também se convenceria disso.




PSV

                                              Continua 02/03

sábado, 27 de fevereiro de 2016

PSV/Capítulo 23

PSV

Rosa apertou a maçaneta para baixo e abriu a porta devagar.
- Liz, podemos entrar? – Perguntou colocando a cabeça no vão de abertura.
- Rosa! Claro que sim, honey, entrem! Que  bom que chegaram,  Joana ficou a tarde  toda,  mas agora estou me  sentindo só e abandonada.
Elisabete estava sentada em uma  poltrona ao lado da cama.
- Eu não ganho um abraço da minha menina? – Perguntou  abrindo os braços para Alexandra.
-  A mamãe falou que você vai  ficar boa igual eu, madrinha. – Falou a menina enquanto Liz a colocava sentada em seu colo.  – Você tá com medo?  Eu tava, mas aí eu dormi e não vi nada, nadica!
-Alex! – Advertiu-a Rosa. – Sem perguntas, esqueceu?
- Deixe-a, Rosa. É natural que tenha curiosidade, principalmente  depois de passar por uma cirurgia.
- Você e John a mimam demais, isso sim!
- Estamos no nosso papel de avós, darling!  Postiços, mas com muito amor! – Completou beijando Alexandra.
- E John  por  que não está aqui com você?
- Desceu até a sala do Afrânio para resolver sobre...
- Querida, tudo resolvido...  Rosa! Alex! – John abria a porta, entrando.
Rosa se  voltou e sorriu para ele. E no instante seguinte seu sorriso morreu e desviou o olhar.
- Claude! – Exclamou Alexandra  alegremente,  correndo ao seu encontro. – Você também vai operar alguma coisa?
E quando Rosa  deu por si, Alex estava nos braços de Claude com os bracinhos em volta  do pescoço dele. E ele sorria, respondendo que não.
Quantas vezes imaginou essa cena: Alex nos  braços  do pai?
Então uma risada mais alta dos dois a trouxe de volta á realidade.
- Alexandra, que modos são esses? – Falou um tanto ríspida.
E imediatamente sentiu que  tornava-se o centro do olhar de todos, num silêncio tenso e desconfortável. Abaixou a cabeça por um instante e quando a ergueu viu Alex tentando segurar o choro.
- Rosa...  - Liz  murmurou parecendo desapontada.
-  Oh, meu Deus, me desculpa, anjo! – Falou aproximando-se de Claude –  Vem com a mamãe!
Alexandra parecia indecisa e Claude  percebeu sua relutância pela maneira como ela se segurava com mais força.
- Pequena, vá com sua mãe. Ela não está  brava  com você e sim comigo, hã?
- Com você? Por que a mamãe tá brava  com você?
- Eu acho que foi  pela   minha risada alta. Aqui é um hospital, e devemos nos comportar, ouí?
- Vem querida...
- Vá, pequena... Falaremos  do canguru em outro momento, eu prometo! – E colocou-a no chão.
- Eu peço desculpas a todos, não sei  porque falei dessa  maneira. Me perdoem. – Falou Rosa  dado um sorriso sem graça. – E você,  meu amor,   eu sinto muito. A mamãe ama  você, ok?
abaixou-se a altura de Alexandra abraçando-a carinhosamente.
- Liz, tudo bem? – Perguntou Rosa levantando-se  achando-a ausente.
Liz olhava de Claude  para Alex e de  Alex para Rosa.
- Querida, está sentindo alguma  coisa? – Perguntou John, preocupado.
- Não, estou ótima! – Respondeu olhando para todos. - Algumas lembranças, apenas. – E voltou-se  para  o marido -  Mas John, você  disse que está tudo resolvido?
- Oh, yes! Claude emitiu...
O celular de  Claude toca.
- Pardon – Murmurou verificando a ligação e afastando-se até perto da porta  – Alô, Nara. Um minuto sim. –  É minha irmã, preciso atende-la, então... John, qualquer problema                                                     me procure. E Elisabeth, tenho certeza que a cirurgia vai ser um sucesso. Até logo, pequena. – E fez um carinho em Alex. – Rosa. – Concluiu  com um  movimento de cabeça e saiu, atendendo a ligação.
- Nara, como está? Me perdoe, eu acabei esquecendo de retornar e...
- Como eu dizia, Claude emitiu um cheque, cinquenta por cento do  valor da venda  das peças, em meu nome e o depositamos no financeiro.
- Vai ser  suficiente? – Pergunta Liz, desconfiada.
- Sim, vai cobrir os  custos totais da cirurgia. E o restante usaremos para os remédios e para viajar. Amanhã, a essa hora já estará  livre disso, Liz.
- Amanhã? – Diz Rosa surpresa -  Está dizendo que...
- Vão me operar amanhã, Rosa. Afrânio tem um  congresso e prefere me operar antes de ir.  – Suspira conformada – Você sabe, quinze dias  pode ser muito tempo...
- Mamãe eu quero água...
- Aposto que está  com fome também! – Diz Elisabeth – John leve-a até a lanchonete.
- Não é  preciso, nós  já vamos pra casa e...
- Rosa, por favor nos  deixe  mima-la um  pouco, sim?
- Está bem, você  ganhou Liz. Mas só  porque está aqui...
John e Alexandra saem do quarto.
- Bem, acho que  vou me deitar. Pode me ajudar querida?]
- Claro! O que quer que eu faça?
- Pegue uma coberta no armário, por favor. – Pediu deitando-se.
Rosa ajeita a coberta  sobre o lençol que a cobria, mantendo a manta nas pernas de Liz.
- Acho que assim é  suficiente... O que  foi, Liz por que está me olhando desse jeito?
- Claude Antoine Geraldy. - Fala  Liz fazendo uma breve pausa -  Você dedicou um capítulo inteiro de sua tese de doutorado defendendo uma de suas teorias, sobre estética. Coincidentemente é o último termo do seu projeto, feito em Amsterdã, e tem várias observações feitas por ele. Por que  fingiram não se conhecer?
Rosa virou rapidamente e demorou mais que o normal para  fechar a porta  do armário. Aquela  pergunta assim  à queima roupa... Não era  possível Elisabeth ter  percebido algo sobre a paternidade  de Claude! Ou era? Teria ela enxergado a verdade, quando os olhara de um para outro momentos  atrás?
- Rosa? – Insistiu Elisabeth.
Rosa torceu as mãos e virou-se  para ela.
- Liz, eu não...
- Voltamos! – Exclamou John entrando com Alex. – A lanchonete já estava fechada. Mas uma das enfermeiras conseguiu um copo de água para  ela.


PSV


Bernard ativou o alarme  do carro e  com passos largos atravessou a calçada, até atingir  e subiu os  degraus, dessa vez mais lentamente.
Reunião no gabinete do prefeito! Não podia deixar transparecer que estava ansioso. Mantenha a calma, Bernard. Respire fundo e ande calmamente, seja  dono das suas reações. Aja  com frieza, determinação e com muita diplomacia. E é claro, se precisar, minta. Afinal, você é um político.
Atravessou o  saguão cumprimentando a todos e chegou a recepção do gabinete, entrando na ante sala, onde  ficava a  secretária do prefeito.
 - Bonjour Melissa! Já posso entrar? – Perguntou indicando a porta da sala do prefeito.
- Sim, eu vou anuncia-lo, siga-me. – Respondeu ela levantando-se e contornando a mesa.
Bateu levemente e abriu a porta anunciando-o.
- Michel, algum problema com os relatórios que te  enviei?
- Não, nenhum.  Seu departamento parece estar sempre sob seu total controle. Sente-se.
- Se não há nada errado, por que me chamou em seu gabinete com  tanta urgência?
- Bernard, você sabe que  Claude Geraldy era o mais cotado pela ala conservadora  do nosso partido para as próximas eleições.
- Oui. Ele atuava  como conselheiro há vários anos. Sabe ao certo o que provocou a renúncia dele do gabinete?
- Dizem que  foram  divergências dentro do executivo, sobre as políticas econômicas. Ele criticou as políticas de austeridade de Paris e elogiou um grupo de dissidentes que pediam mudança nas medidas de combate a crise.
- E isso foi motivo para abandonar tudo?
- Sejamos honestos, Bernard. Ele nunca teve vocação para o cargo. Louise o empurrou para isso. No começo ele ignorava certos “acertos caseiros” e seguia com as funções, mas com o tempo foi dificultado essas transações e não tinha mais como mantê-lo.  Ser um conselheiro que se opõe tão abertamente à política do governo tornou-o ‘persona non grata’.  Sua recusas em participar e promover ‘esquemas’ o levou à renúncia. A política não é para  pessoas  certinhas.
- Voilà, mas não foi para  falar dele que me chamou aqui.
- Não. Você sabe do interesse do partido na sua candidatura ao meu cargo atual. O que quero saber é se  você está de acordo e disposto a continuar com a nossa... rotina de negociações.
- É claro que sim. Quero chegar onde for possível, custe o que custar.
- Ótimo. Era o que esperava ouvir de você antes que Jean Charlie o procurasse.    Ele coordenava as ações do governo nos diferentes departamentos e vai coordenar a nossa campanha.
- Nossa campanha? Então o partido já  fez suas escolhas?  E a convenção?
- A convenção serve apenas para cumprir as  formalidades, Bernard. Mas, me  diga, até  onde pretende chegar na política?
- Diga-me as  suas pretensões primeiro...
- Presidente da França, naturalmente.
- Sendo assim, eu aguardarei a minha nomeação como seu primeiro- ministro. – Respondeu Bernard,  com  um sorriso ganancioso, levantando-se e caminhando até a porta.
- Eu tinha  certeza que faríamos uma  excelente dupla. – Comentou Michel – Acha que  poderá  manter o apoio de Louise Geraldy? Ela tem grande  influência na parte  contraria a nossa candidatura.
- Se poderei manter o apoio? – Repete em tom de zombaria, voltando-se  para Michel  – Eu tenho Louise aqui, na palma da minha mão. Vou para  o meu gabinete. Au revoir, non ami.
E antes de sair escuta:
- Cuidado, mon ami.  Não confie demais em Louise Geraldy. É uma mulher experiente, inteligente e perigosa. Quer um conselho? Certifique-se de que não é ela que o tem na palma  da mão. Au revoir, Bernard.



PSV


Rosa despediu-se de Alex e Silvia com um sorriso que  morreu assim que fechou a porta do apartamento e entrou no elevador.
Até chegar no carro, conseguiu evitar de pensar no assunto, sobrepondo outro qualquer no lugar toda vez que ele teimava em aparecer.
Mas quando precisou posicionar melhor o retrovisor interno, e   viu seu rosto refletido nele não  deu para evitar as lágrimas que controlara a noite  toda.
A chance de John conseguir reaver as ações da galeria dependiam de  sua resposta a  Claude, voltando a ser o que nunca  havia sido para deixar de ser o que não era!
- Que irônico!  - Sussurrou para sua figura  no espelho.
Enxugou as lágrimas antes que borrassem a maquiagem.
– Camuflagem seria mais adequado. – Disse a si mesma suspirando e  aprumando-se.
Deu a partida no carro e  manobrando saiu do estacionamento.  Seguiu reto por algumas quadras e contornou a rotatória que a levaria ao Hospital.
Bateu os olhos no painel do carro e conferiu a hora.
- Não se atrase! – A  voz de Claude ecoou em sua mente.
- E o que vai fazer se eu me atrasar, Claude? Pedir o divórcio? – Falou como se ele pudesse escutar e parou ao sinal vermelho.
Ficaria  no hospital até que a cirurgia terminasse,  apoiando John.
Além do mais, é  obvio que ele sabe que  vou aceitar, por mais que  isso me custe. Devo muito a Liz e John para deixa-los perder tudo assim.
Ou ferir a reputação de todos, com essa história de  serem amantes.
E Alex?  Quando ele souber, o que  fará?
Vai desprezar-me ainda mais, concluiu sentindo-se vulnerável.
Deus! Como seria  conviver  com esse Claude de agora? Esse, que parecia odiá-la  e que seu coração teimava em ainda amar.
Não estaria enganado a si mesma e submetendo-se a esse capricho de Claude por isso, porque ainda o amava?
A buzina de um carro a tirou desses pensamentos. Engatou  a marcha e seguiu e frente.  Sinais verdes eram para isso, seguir em frente.
Quando chegou ao hospital, Elisabeth já estava sendo preparada para a cirurgia, mas a enfermeira permitiu sua entrada. Só teve alguns minutos para  desejar que  tudo corresse bem e precisou  abaixar-se à altura da maca.
-  Vai dar tudo certo, Liz! Ah, Alex mandou um beijão e Silvia também. Eu ficarei aqui  pedindo sua proteção  até que saia para  a recuperação.
- Obrigada, darling! E eu ficarei torcendo p/ara que tudo se  esclareça! – Cochichou de volta, enquanto a  enfermeira já ajustava  a velocidade do soro.
- Não entendi, Liz... O que há para ser esclarecido?
- Eu também não entendi completamente. Ainda não. – Falou de maneira misteriosa. - Não cruzou com Claude?
- Ele esteve aqui? – Perguntou  surpresa.
- Sim. Saiu com John quando a enfermeira entrou. Disse que perdoará o seu atraso hoje. Está  com  problemas no seu horário?
- Não. Ele disse mais alguma  coisa?
- Desculpem interrompe-las,  mas a senhora tem que ir – Falou  a enfermeira.
- Claro, desculpe a mim por atrasa-la... Boa sorte, Liz!
Minutos depois, Joana chegava e se juntava a Rosa e John.

PSV    
  

Continua 29/02

domingo, 21 de fevereiro de 2016

PSV/Capítulo 22

PSV



Paris é famosa pelos seus cafés, espaços tradicionais, clássicos e sofisticados e respeitáveis. O Café Marly  é um deles. Fica sob as árcades externas ao final da ala Richilieu do Museu do Louvre, bem em frente à Grande Pirâmide.
É um dos lugares mais encantadores da cidade para se tomar um café: salas decoradas ou terraço aberto.  É très chic e faz pratos originais e criativos.

Do salão interior se vê o jardim de esculturas do Louvre. As mesas que ficam no exterior, sob as árcades, oferecem a vista da Grande Pirâmid, do Museu do Louvre, do arco do Carrossel, do Jardim de Tuileries e da Torre Eiffel. 






Era para ela que Nara olhava, apreciando o pôr do sol e  o chá depois do jantar, na companhia de Frazão. Desistira de jantar sozinha e convidara o amigo para sair. Até porque, precisava falar sobre o acontecido.
- Não vai mesmo me contar o motivo da desistência politica de Claude, não é?
- Eu já disse que Roberta está jogando com  você, minha querida. Claude saiu porque não suportava e era contra “acordos” para se obter aprovação de projetos e leis. Chegou no limite e  aproveitou a chance de fazer o que  gosta: trabalhar  com e para a arte, esta é a explicação.
-  Então porque ela continua  dizendo que está juntando provas?
- É uma  boa  desculpa para ganhar tempo enquanto  planeja alguma  coisa.
- O que ela  pode estar planejando?
- Não é bem o que e sim contra quem ela está planejando que devemos nos preocupar.
- Claude? Acha que ela quer se vingar dele? -  Pergunta servindo-se de uma torrada
- Não. – Fala Frazão descartando a ideia -  Teve tempo suficiente para isso.
- Bernard? – Questionou achando a ideia improvável -  Não! O que ela teria  contra ele? -  E olhou para o celular que vibrava . – Outra mensagem da operadora! Por acaso falou com meu ingrato irmão hoje? Passei a tarde  toda ligando, deixando mensagens e nada.  Espero que não esteja se acabando no trabalho ou na corrida e...
Frazão erguia a xícara e o brilho do liquido refletiu sua própria imagem. E antes de leva-la aos lábios, lembrou-se da tarde em que viu  ele e Louise saindo daquele hotel. Isso seria um motivo, pensou, se Bernard estivesse fazendo jogo duplo.
Engoliu o chá.
- Frazão... Frazão, está me ouvindo?! Frazão!
-  Sim, claro que  estou ouvindo, me desculpe eu lembrei de  algo que  preciso fazer... Por enquanto concorde com Roberta. – Orientou -  E quanto ao seu ingrato irmão, vamos tentar mais uma  vez, agora mesmo.



PSV



Além de concentrar em um único espaço físico toda a cadeia de atendimento em oncologia e hematologia - prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação,   o Hospital A. Einstein também oferece comodidades aos pacientes com atendimento exclusivo e diferenciado: estacionamento e recepção exclusivos; lanchonete com cardápio elaborado pelas nutricionistas; biblioteca com acesso à internet; jardins internos; ambulatórios de quimioterapia individuais; copa para familiares e/ou acompanhantes. Era neste ambiente que Rosa entrava  agora.


 




Hospital Albert Einstein,  uma instituição beneficente, fundado pela Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein,  sem fins lucrativos. Reinveste todos os lucros para aprimorar a prática médica e a pesquisa no combate ao câncer.
O atendimento é humanizado e a equipe médica especializada têm vasta experiência e capacitação técnica por conta da quantidade de casos atendidos. O processo de reciclagem é ininterrupto e estão sempre em contato com profissionais de outras renomadas instituições do Brasil e do exterior, como a parceria com o MD Anderson Cancer Center, uma das instituições mais importantes de combate ao câncer do mundo.
A parceria contempla a troca de conhecimento entre os especialistas e os médicos norte-americanos, tarefa essa que estivera nas mãos do Dr. Afranio e com ele o caso de Elisabete, anteriormente.  Com muitos pontos de vista, analisado por diferentes profissionais e discutido com todo o corpo clínico, resultou na otimização do tempo e encaminhamento à Carolina do Sul/EUA.
E novamente a detecção precoce e ágil com os exames específicos, foram decisivos na assistência oferecida a ela.
- A madrinha vai operar ‘íngual’ eu, mamãe? – Pergunta Alex enquanto Rosa estaciona.
- Não meu bem. – Reponde achando graça na pergunta  da filha – A operação dela é  um pouco mais complicada que a sua. Ela tem  um probleminha dentro da cabeça,  perto do ouvido.
- Mas ela  vai ficar  boa né?
- Vai sim, ela  vai ficar  boa ‘igual’  você ficou.  Agora lembre-se: não fale alto e nem corra pelo corredor, ok? -  Recomendou tirando-a da cadeirinha.
- Ela tá lá em cimão? – Perguntou olhando para o alto, assim que saiu  do carro. – A gente  vai de ‘levador’?
- Ela está no segundo andar. Não é tão lá em cima mas, sim, vamos de ‘e’levador.  -  Esclarece pegando na mão dela.
- Eba! A Sílvia tem medo mas eu gosto muito de andar de ‘levador’.
- Elevador, Alex. ‘Eeee-le-va-dor’.  Repita pra mamãe.
- ‘Eeee-lee-vaa-dor’. (?) -   E pra onde ele leva a dor de todo mundo que tá aí,  mamãe?
-  Pra onde ele leva a dor? Ele quem... Ah! – Exclama entendendo - Ele leva as pessoas, não a dor. Está bom assim?   
-  Mas então devia chamar  ‘eeelevagente’...
- Deus, às vezes eu acho você muito precoce. -  Diz chegando a recepção e solicitando os  crachás de visita.
Então a atenção de Alex se  voltou para as letras do crachá até entrarem no elevador.
- Aperta o número dois querida. -  Pediu Rosa carinhosamente quando as portas se fecharam.
Alex procurou pelo número no painel,  ergueu-se na ponta dos pés e apertou o botão, vibrando ao sentir o elevador subir.


PSV


Louise abriu os olhos e procurou o celular, incomodada pelo barulho.
Várias ligações e mensagens de Nara, preguntando se demoraria muito ainda... Conferiu a hora: 00:47h.
- Como fui dormir tanto assim? – Exclamou  saindo rápida da cama e vestindo suas  roupas, apressadamente.
- Bernard acorde, perdemos a hora. Vamos, acorde! – E tocou-o nos ombros
- O que foi? -  Murmurou ele virando-se para o outro lado, esticando o braço a procura de algo  -  Relaxe e...  – Parou de falar e abriu os olhos finalmente.
Sentou-se na cama,  orientando-se. Louise, jantar, vinho e o hotelzinho de sempre...
- Seja rápido! – Ordenou Louise jogando  as roupas dele sobre a cama e  foi para o banheiro, refazer a maquiagem.
Quando voltou, Bernard já estava pronto. Trocaram algumas  palavras e desceram os  dois  lances de escada até o térreo. Bernard saiu primeiro, olhou para os lados e fez sinal a Louise.
- É melhor  você ir direto pra casa. Eu pego um táxi.
- Está bem, querido. Até amanhã! E tocou-o  carinhosamente no rosto, antes de entrar  no carro. Um último aceno e  pôs-se a caminho da mansão.
Bernard acendeu um cigarro e deu uma lona tragada, antes de falar ao celular e caminhar até a esquina. Dez minutos depois entrava num táxi.
Beto desligou a câmera e guardou o equipamento cuidadosamente. Então fez a ligação.
- Você tinha razão, estavam onde  suspeitava. Prepare o cheque, amanhã mesmo entrego o material. Bonne nuit!
Em seu apartamento, Roberta encerrou a ligação de Beto e tomou o resto da dose de whisky, sorrindo sarcasticamente.
Estava entrando em seu quarto quando a campainha tocou.  Ajeitou o robe e atendeu a porta, abrindo-a sem tirar a corrente de proteção.
- Um tanto tarde para visitas, não acha ? – Falou educadamente.
- Deixe-me entrar. Acabo de sair de um jantar enfadonho e monótono. Preciso de diversão.
Enfadonho e monótono? Roberta o encarou por alguns segundos antes de decidir abrir a porta. Se Bernard queria diversão, porque não satisfazê-lo? Estava sem sono mesmo.



PSV 

                                                
                                                                  Continua.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

PSV/Capítulo 21

PSV


Rosa deu duas ou três  batidas na porta e entrou sem esperar  resposta.
- John, me perdoe! Levei Alex à pediatra e achei que chegaria  mais cedo.
- Algum problema  com ela?
- Não,  ela está ótima. Foi apenas  um retorno pós  cirurgia. Mas  o que importa agora  é  Liz.  O que está acontecendo com ela? – Pergunta sentando-se.
- Rosa, antes de falar sobre Liz, me diga por que  Claude e você estão se evitando hoje?
- Como assim “nos evitando”... De onde tirou essa ideia? – Falou disfarçando a nervosismo que a pergunta lhe causara.
- Você nunca se atrasa,  por mais tarefas que tenha.  E Claude não quis participar  dessa conversa com você. – Pausa -  O que aconteceu ontem a noite?
- Nada. – Diz Rosa cruzando as pernas -  O que poderia ter acontecido? E por que ele teria que estar presente  em nossa conversa sobre Liz?
John não respondeu de imediato. Por alguns segundos ficou olhando para Rosa, como se tentasse ler  seus pensamentos. Então finalmente se decidiu a falar.
- Porque vocês vão conviver mais intensamente daqui pra frente, sem a minha presença.
- O que quer  dizer  com conviver mais intensamente e sem a sua presença? Por acaso Liz está... está...
- Não Liz não está morrendo. – Completou John com o que Rosa não conseguia dizer. – Mas vai enfrentar outra batalha.  Um neuroma no cérebro, localizado no ouvido interno. Um tumor raro que apesar de não ser cancerígeno ou maligno deve ser retirado.
- Deus outra vez!  Exclamou condoída,  tentando evitar as lágrimas. -  E quando será?
- Em alguns dias, assim que Claude tiver a liberação do dinheiro e transferi-lo para a minha  conta.
- Claude? O que ele tema ver com... John, o que você fez? – Perguntou Rosa pressentindo algo. – Você não...
- Vendi as peças que estão em meu  nome para ele.
- Mas John,  essas peças, as  suas e as minhas, íamos leiloar para saldar o empréstimo e reaver as ações da galeria...
- Eu sinto muito Rosa. Não tenho outra opção!
- Claro que  temos! Eu vendo as minhas ações  para ele, posso  viver  com o valor do aluguel e se precisar, volto a lecionar!
- Eu agradeço a sua intenção, Rosa.  Elizabeth até previu que essa seria sua reação,  mas já a envolvemos demais nisso, não seria justo.
- Não seria justo eu deixar de ajuda-los nesse momento, depois de tudo que fizeram por mim! Por favor, John...
- Não adianta insistir, darling. Janete já separou os contratos de comodato das obras de arte. Além do mais, Liz e eu decidimos  viajar assim que  ela for liberada.
- Viajar? Vai abandonar tudo isso que  levaram anos para construir? Vai abandonar a todos nós?
- Não estou abandonando nada nem ninguém.  Veja,  - Diz  segurando as mãos de Rosa por  cima da mesa. -   também levei anos  construindo um relacionamento com Liz e de repente um... dois malditos tumores aparecem, ameaçando nosso futuro.  Quanto tempo para surgir outro  e mais outro? Viajar e se divertir vai fazer com que principalmente ela não se fixe nessa  perspectiva,  esperando sempre o pior...
- Você está certo, desculpe, foi egoísmo meu!
- Não, isso é  sua generosidade falando, Rosa. Ou, como diria Augusto Comte, é o seu altruísmo, sua capacidade de  fazer algo sem querer nada em troca, mesmo se prejudicando.
Rosa levantou e caminhou até a janela, onde ficou olhando para  fora, tentando controlar suas emoções e não chorar.   John e Liz eram o alicerce de sua vida,  o ponto de referência, o caís seguro depois  da tempestade...
E conviver  com Claude seria tempestuoso. Pensar que esteve a ponto de contar a ele sobre Alexandra! Mas  como,   depois de  tudo que ouvira na noite passada?
Eu, amante de John! Que ideia mais absurda e... Claro! Agora começava a entender.  Ele estava comprando as peças não para ajudar John,  mas para tirá-lo de perto dela!
Com que pensamento doentio ele  chegara a conclusão que  eram amantes e  John o pai de  Alexandra? Ah, Claude, será que você não é capaz de um simples cálculo matemático?
Não podia deixar que John ou Liz soubessem,  pois John recuaria o dinheiro de Claude e não haveria tempo de conseguir o mesmo  com outro investidor.
Está  tentando me  humilhar por vingança... Mas por quê? Por que  importava a ele se ela tinha ou não um amante? Não fizera exatamente o que ele pediu anos atrás, mesmo tendo dentro de si o fruto daquele amor?
Amor?! –  Foi a última coisa que  conseguiu pensar sem conter um  soluço, lágrimas e o tremor pelo corpo.
- Rosa! – Exclamou John levantando-se rapidamente e abraçando-a. – Não é tão grave assim, vai ficar tudo bem! 
- Eu sei! – Murmurou querendo convencer-se disso -  Vamos sair dessa juntos,  outra vez. – Conclui descansando por um momento  sua cabeça no ombro dele. – Eu faria  qualquer  coisa para ajudar você, sabe disso não é?
- Sei sim, darling!
Então a levantou, recomposta. E encontrou no caminho  o olhar  duro de Claude.
-  Pardon, não queria incomoda-los. – Desculpou-se num tom frio e impessoal - Devia ter batido na porta antes de entrar. – E foi afastando-se para sair.
- Que isso a sala é sua Claude! E não nos incomodou, já terminamos, não é Rosa? – Argumentou John,  soltando-a.
- Sim... – Foi tudo que conseguiu pronunciar, fugindo do olhar acusador que Claude  lançava a ela.
- Bem, eu tenho que  voltar ao hospital e...
- Posso visitar Liz?
- Claro. Ela está internada apenas  por precaução, vai adorar  vê-la! E se puder levar Alexandra...
- Se o  hospital permitir.
- Falarei com Afrânio, tenho certeza que liberam. E Claude quando quiser retirar as peças, caso eu não  esteja, Rosa tem as chaves do meu apartamento e poderá acompanha-lo.
- Não se preocupe, não tenho pressa quanto a isso.
- Ok. Então... Até logo!
Claude foi até a mesa e abriu uma das gavetas, procurando por algo, ignorado a presença de Rosa na sala. 
- Claude... – Sua  voz saiu fraca e tremida. E se  Claude havia escutado  fingiu muito  bem que não. 
Droga, ele não vai colaborar! – Pensou Rosa, enchendo os pulmões de ar,  como se isso  trouxesse  a coragem que necessitava.
- Claude – Disse mais alto e com a  voz  firme – Eu preciso falar com você e tem que ser agora! – E levantou a cabeça,  decidida.
Claude  permaneceu sentado e imóvel.  Segurava um papel entre as mãos, que  cobria  o seu rosto, impedindo que Rosa  visse  sua reação.
- Mas não foi você quem disse que não tínhamos nada a nos falar? -  Respondeu perguntando, sem tirar os olhos   do papel.
-  Sim eu falei isso ontem mas eu não sabia, não tinha  ideia que John fizesse essa... Essa loucura de vender suas peças particulares agora!
- Ele precisa de dinheiro agora. – Continuou sem encara-la -  Mais do que de você eu diria.
Foi a  vez dela ignorar o sarcasmo e o duplo sentido daquelas  palavras.
- Será que  você pode deixar nossas diferenças de lado por um instante e me ouvir? Eu quero que  você fique  com as minhas  ações no lugar das peças.

Claude finalmente abaixou a folha para o lado e olhou Rosa, como se  avaliasse uma  obra de arte, medindo e anotando mentalmente  cada movimento  dela.









- Faria qualquer  coisa mesmo para  ajudar o seu a...migo e a esposa dele?
- Sim. Qualquer  coisa. Até me desfazer dessas ações. – Afirmou ignorando a ironia.
- D’àccord... E desse modo limpar a sua  consciência.
- Minha consciência é mais limpa que a sua! Estou lhe dando a oportunidade de me ver longe  daqui, que é o que parece ser o seu desejo!
-  Ah,  você agora adivinha os meus  desejos? Por que não tenta  adivinhar meus pensamentos?
- Eu não tenho por que adivinha-los! A única   coisa que tenho que fazer  é salvar a...
- A sua futura galeria, eu sei. É isso que importa na verdade não é?
- Seus pensamentos estão tão sujos  quanto a sua consciência! Eu ia  dizer salvar a   coletânea de John e Liz!
- Boa saída.  A sua proposta também é muito boa. Mas eu não desejo vê-la longe daqui. Ao contrário.  Por isso, tenho uma  proposta melhor. – Faz uma pausa, que para Rosa  pareceu durar anos.
 -  Quer salvar a “sua” galeria? – Disse Claude -  Volte a ser a senhora Geraldy. Eu assumo até mesmo a  filha que teve  com seu amante.
- Você enlouqueceu,  eu não posso voltar a ser a senhora Geraldy!
- Por que não?
- Porque... Porque não nos casamos oficialmente! - E virou de costas para que ele não visse sua angustia. -  Portanto, eu nunca  fui ‘sua senhora’ para voltar a sê-lo. 
-  Mon Dieu, como você  pode falar assim?  Faz tudo que vivemos parecer sem valor, sem  importância... – Afirma Claude levando as mãos à cabeça.
Voltou-se para ele e disse o  mais friamente  que  conseguiu:
 - Você   com essa aliança no dedo falando em importância do que vivemos? – Pergunta mal acreditando no que  ouvia -  Se a sua consciência não o impede, sua esposa  com certeza impedirá que essa proposta seja  colocada em prática. Falando nisso, como ela está? – Concluiu acentuando o tom de ironia.
Claude juntou os lábios, forçando uma linha curva e um sorriso sarcástico apareceu em seguida. Postou a mão esquerda diante de si e olhou para a aliança com  desprezo, antes de falar:
- Essa pessoa está morta. Portanto, não há nada, nem ninguém que nos impeça.
- Eu não posso fazer isso! Como vou explicar  a Alexandra, a todos sobre  você?
- Pode criar uma versão romântica e fantasiosa de nossa relação.  Amor à primeira vista! Vai ser muito mais fácil, que explicar a todos como se tornou amante de John Smith.
- Por que  insiste nisso, Claude?
- E por que você insiste em negar, Rosa? Se recusar minha oferta será a única prejudicada, uma vez que John e Elisabeth sairão em viagem. Sua reputação ficará abalada, perderá o prestígio e  respeito que  conquistou. Pense bem. Seria um choque para sua  filha saber que o pai sempre esteve  presente e nunca a reconheceu.
- O Claude que   conheci não faria isso! – Murmurou abalada.
- O Claude  que   conheceu também morreu. Espero sua resposta amanhã de manhã. Não se atrase. – Concluiu saindo da sala.
Atravessou o  saguão e informou Janete que não voltaria mais a galeria naquele dia.
Assim que ele deixou a galeria, Janete foi a procura de Rosa. Encontrou-a na sala de Claude,  olhando pela  janela.
- Rosa, John ligou e disse que Alex está autorizada a ver Liz... Rosa? Está me ouvindo? – Insiste diante da aparente indiferença dela.
- Sim, eu ouvi – Responde voltando-se para a amiga. – Me desculpe eu estava um pouco longe daqui...
- Algum  problema com a galeria, você e Claude discutiram? Ele parecia deprimido ao sair daqui.
- Deprimido? – Repetiu Rosa -  Não ele deve estar se sentindo vitorioso Janete, não deprimido.
- Vocês discutiram? – Insiste Janete.
- É,  vamos  dizer que tivemos uma “DR” em relação a galeria. Mas não se  preocupe, eu vou me ajustar a essas  divergências de opinião.
- Por que  tenho a sensação que você está se explicando com uma espécie de código?
Rosa se esforçou ao máximo e sorriu ates de dizer:
- Impressão sua querida. - E então pegou sua  bolsa. – Eu não  volto mais hoje, ok?
- John não  volta, Claude não  volta e agora você diz a mesma coisa...
- Ah, ele também disse isso... Bem,  não será a primeira vez que a galeria fica  sob os seus cuidados. Até amanhã e não fique além do seu horário.
- Até! – Respondeu Janete enquanto organizava a mesa.
Quando saiu da sala, Sérgio veio ao seu encontro.
- O que houve  com Rosa? Ela nem quis apreciar o resultado das aulas de hoje!
- Sério? -  Comentou pensativa antes de sorrir – Sérgio, eu acho que alguém está derrubando os muros dela...



PSV


                            Continua 21/02