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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

PSV/Capítulo 20

                                     PSV



-Muito bem Alex,  coloque a língua para fora e fale “A” mais  uma vez. – Pediu Erci, segurando uma espátula decorada.
- Por que eu não posso falar – E parou, respirando fundo -  “Can-gu-ru”  pra  você me examinar?
- Uau, então finalmente  conseguiu! Muito boa pergunta,  estou orgulhosa de você Alex! Eu preciso que fale ‘A’ porque o movimento para falar  "A" faz com que sua  boca fique bem  aberta facilitando o meu exame. Entendeu?
- Aham. – Respondeu a garota, balançando a cabeça, antes de por a língua para  fora e dizer um sonoro “A”.
-  Muito bom! – Afirmou a médica usando a espátula  olhando atentamente o interior da  boca de Alex e tentando ser o mais rápida possível antes que a inevitável ânsia acontecesse.
 - Eu já  ‘to’ boa? – Perguntou ela quando Erci tirou a espátula de sua boca.
- Sim. Melhorou a respiração, a pronúncia das palavras que era bem anasalada. Já está até falando canguru sem errar! – Brinca  Erci, ajudando-a a descer da maca.
- Foi o Claude que me ajudou! – Dispara Alex sorridente. – Posso beber água?
- Claro. Peça a Raquel lá fora.
Mas Alex só saiu depois que Rosa confirmou:
- Pode ir meu anjo.
- Humm... Quem é Claude? Um fonoaudiólogo?
Apesar de sorrir da curiosidade e brincadeira de Erci, Rosa não conseguiu evitar estremecer.
- Não.– Explicou secamente.
- Que pena, pensei que era alguém... especial pra você.  – Comentou Erci.
– Ele é. – Falou sem pensar.  - Quero dizer, Claude é o atual curador da galeria. Cultural, financeira e juridicamente falando. Alex está livre das infecções? – Perguntou, mudando rapidamente de assunto.
- Sim. Tirando o fato que sem as amigdalas ela pode ter um quadro de  faringite às vezes, ela está ótima, Rosa.  Quem não me parece bem é  você.  Algum problema? – Questionou, anotando suas ponderações na ficha de Alex.
-  Não comigo, Erci. Estou tensa e preocupada  com Liz, ela não passou bem ontem, desmaiou e eu ainda não sei o que causou isso.
- Não deve ser nada grave, Rosa. O tratamento dela ainda é recente e os efeitos colaterais são implacáveis.
- Tomara que seja apenas isso mesmo...
- Gosta muito deles, não?
- Demais. Eu faria tudo ao meu alcance para ajuda-los. Daria qualquer coisa para não vê-los sofrer outra vez, mas parece que não vai ser assim.
- Bem, se precisar de ajuda e apoio, conte  comigo.
- Obrigada Erci.  Já estou liberada?
- Completamente.
- Obrigada por cuidar tão bem de Alex, Erci. E também das outras crianças. – Completou referindo-se atendimento voluntário que ela fazia em comunidades carentes.
- Nada além de minha obrigação, Rosa.
- Não, você  vai além da obrigação, cuida delas  com o coração. – Afirmou Rosa. -  Até, Erci.  Tenha um bom dia.
- Você também, Rosa. Tenha um excelente dia!
Apesar de querer muito, sabia que isso não aconteceria. A primeira coisa que fizera pela manhã foi ligar para saber de Liz. E as notícias não eram animadoras: estava a caminho do hospital, por orientação médica. John  explicaria  tudo a todos na galeria, assim que chegasse.
Tentou o celular de John inúmeras vezes. Nada.  Caixa postal.
O retorno de Alex a pediatra a impedira de encontra-los  no hospital, pois eram lugares opostos. Assim como a galeria.
E ainda voltaria para deixar Alex em casa com Sílvia. Agradeceu por Alex conversar e fazer tantas perguntas pelo caminho.  Não queria pensar no que encontraria. Ou melhor, não queria pensar em quem encontraria.



PSV



Quando voltou ao trânsito, rumo a  galeria, optou pelo trajeto mais longo. Quem sabe quando chegasse, Claude  tivesse saído para almoçar. A quem estou tentando enganar? Vou ter que enfrenta-lo  de qualquer maneira.
Assim que pisou na galeria viu Janete vir ao seu encontro, agitada.
- Rosa, até que enfim você chegou! O que aconteceu, por que não respondeu as mensagens ou atendeu as chamadas?
- Como assim? Eu estava com Alex na pediatra e não recebi nenhuma... Droga, devo ter desligado sem querer, quando o guardei na  bolsa!  - Explicou-se ao pegar o celular - O que foi, algo grave  com Liz?
- Bem, não tão grave quanto antes.  John já falou com todos nós e... – Pausa -  Bem, vá até a sala dele. Ele não  quis voltar ao hospital antes de falar com você.
- Claude está com ele?
- Não. Saiu há uns quarenta minutos. Foi com Júlio ver um apartamento para alugar. Você sabe, Júlio não perde um bom negócio. 
- Ele vai alugar um apartamento por aqui?
- Alugar? Não, ele quer  comprar um.  Disse que não tem intenção de voltar tão cedo para a França.
- Que ótimo. – Murmurou Rosa rumando para a sala de John
 E  Janete não pareceu notar a ironia em  sua  voz.



PSV



Claude apoiou as mãos na  grade e olhou para baixo,  sentindo o vento bater contra o rosto e desarrumar seu cabelo. Automaticamente passou os dedos por ele, e por alguns minutos mais apreciou a vista que a varanda proporcionava tentando se  convencer que ficaria no Brasil para  tirar Nara do destino que Louise desejava.
A quem estou tentando enganar? – Perguntou-se cabisbaixo e voltou ao interior do apartamento.
Júlio o esperava na ampla sala de estar. Assim que o viu,  encerrou a ligação, guardando o celular.
- Então? Gostou? O antigo proprietário foi único dono. Casou-se no exterior e pretende ficar por lá por isso a venda envolve a decoração e moveis, mas caso não seja de seu interesse podemos rever essa condição...
- Não, é perfeito! Assim não perderei tempo em  mobília-lo.
- Morava em um apartamento também  na França?
- Não. Eu compartilhava a mansão da família no departamento de Belleville.
- Departamento?
- Pardon, é o mesmo que  bairro para vocês. Belleville não é tão conhecido porque não tem grande atração turística; é um bairro afastado do centro, erguido por  imigrantes e trabalhadores. Já teve fama de  violento  no passado, mas hoje em dia  é considerado um dos  locais mais  charmosos de Paris, graças  a cantora Édith Piaf que nasceu e foi enterrada neste bairro.
- Você fala com certa... nostalgia, eu diria. Saudade de alguém?
- Do jardim  da mansão. Ele é de dar inveja ao Ibirapuera, hã?
Júlio não conteve a gargalhada.
- E ainda dizem que franceses não tem senso de humor! -Exclamou esforçando-se para conter o riso.
- Deve ser a minha parte geneticamente brasileira. Meus avós maternos eram brasileiros. – Explicou-se.  - Podemos fechar esse negócio agora? – Retornou ao assunto principal. – Eu ainda tenho que voltar a galeria.
- Mas é claro.  Você faz um excelente negócio, Claude, comprando esse apartamento.  O crescimento vertical é grande e o espaço cada vez mais caro  nas grandes cidades, como São Paulo. Este é um dos  locais mais valorizados no momento.  Eu vejo toda a parte burocrática e envio para você, combinado?
- D’àccord. Quanto tempo acredita que leve?
- Quinze dias no máximo. Envio para a galeria ou para o flat?
- Para a galeria, por favor, hã? – Falou acompanhando Júlio para  fora  do apartamento.



PSV



- Com licença, senhorita Geraldy... – Pediu Elise entrado na biblioteca.
- O que foi Elise? – Perguntou Nara empilhando alguns livros  sobre a mesa.
- A senhorita Roberta acaba de chegar. – Anunciou.
- Bem, diga a ela que minha mãe não está.
- Ela disse que veio vê-la, senhorita. Está aguardando na sala de visitas.
- Elise, esse excesso de formalidade de senhorita pra cá e pra lá... Quando vai parar  com isso?
- São ordens de sua mãe.
- D`àccord.  Mas eu não sou ela.
- Mas ela pode me  demitir...
- Voilà! Então vamos combinar, quando ela não estiver por perto, trate-me  por você, ouí?
- Se a senhor... Se você insiste, está bem! Vou tentar  me lembrar  disso.
- Ótimo.  Agora, vá e diga a Roberta que irei em instantes.
Estava curiosa para saber o que  Roberta tinha de tão secreto para  contar e em que  isso a beneficiaria.  Curiosa e apreensiva. Não confie em Roberta foi o que sua mente recomendou quando saia da biblioteca.  Esse tinha sido o mesmo  conselho de Claude e Frazão.
- Roberta, eu não a esperava!
- Eu sei, e peço desculpas por não telefonar antes. Mas precisava aproveitar que sua mãe e Bernard estão em uma... reunião, meu bem!
- Aceita algo... Café, talvez um chá?
- Não querida, obrigada. Quero ser rápida e sair antes que  Louise chegue.
- Então suponho que ela não deva saber  de sua vinda?
- Eu colocaria  diferente. Diria que ela não ‘precisa’  saber.
- Vai me contar o motivo de Claude ter  se afastado da politica?
- Ainda não. Isso envolve sua mãe, Bernard e  outras tantas pessoas poderosas.  Eu quero ter provas, para que não existam dúvidas da sua parte de que  quero ajuda-la.
- Bem, então...
- Então eu vou propor algo a você. Eu preciso de tempo para   conseguir essas provas e você não quer se casar com Bernard, vai fazer isso para agradar  sua mãe.
- Você  viu que não tive escolha.
- Se tivesse, não se casaria?
- Claro que não! Eu já pensei até em fugir.
- É mesmo? – Observou Roberta surpresa. Já não estava achando Nara tão mosca morta assim -  Pois então, eu  vou ajuda-la. Começaremos retardando a data do seu noivado. Consegue uma  boa desculpa?
- Acho que sim... Meu aniversário de vinte e um anos. – Fala  Nara esperançosa – São seis meses a frente.
- Perfeito! Quando Bernard propuser o noivado oficialmente, sugira essa data. Eu a apoiarei e convencerei Louise. 
- Não será fácil.
- Saberei argumentar, Nara. Bernard precisa conquistar a confiança que os partidários tinham em Claude.  Um noivado repentino com a irmã dele não seria  bem visto. Um relacionamento a médio prazo, com um marketing discreto, isso sim fará mais efeito e trará aliados importantes  para a convenção.
- Você parece entender bem de política.
- Tudo que sei, aprendi com sua mãe. E como devo muito a ela. E está na hora de começar a pagar,  completou em pensamento.
- Roberta, você desistiu  do Claude?
- Claro que não. Eu apenas estou dando tempo a ele.
- Não acha que ele teve tempo suficiente para  decidir se casar ou ter um relacionamento sério com você?
- Louise e a politica o monopolizavam. Longe daqui tenho certeza que vai sentir minha falta.
- Eu acho que ele não volta.
- Sem problemas, meu bem. Eu posso ir  até lá e...
O celular de Nara toca.
- É minha mãe. – Explica atendendo -  Oi mamãe. Não sabe a hora que  volta porque vai acompanhar a comissão do partido em um jantar outra vez.  Sim eu entendi, não se preocupe. Au revoir.
-  Louise devia  ficar mais tempo com você! – Falou Nara de maneira carinhosa, mas em tom de acusação.
- Bem, ela não fica, mas  você pode ficar e jantar comigo. Aceita?
- Eu adoraria, Nara! Mas as quartas  janto com meu pai. E se  eu não vou, ele fica ainda mais “rabugento”. Me acompanha até a porta?
- Claro. Mas pensei que  tínhamos mais o que conversar...
- E temos! Eu ligo para você. Au revoir, querida.
Nara observou Roberta deixar a mansão.  Então avisou Elise que preparasse apenas um lanche  de jantar para ela. Em seguida ligou para Frazão.
Roberta acelerou ignorando o sinal amarelo. Então Louise tinha um jantar ‘imprevisto’ para ir. 
- Vou adorar saber o cardápio, querida! – Falou enquanto ligava para Beto, sem se importar com o fato de ser a motorista.



PSV 
                                                 Continua 19/02

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