PSV
-Muito bem Alex, coloque a língua para fora e fale “A”
mais uma vez. – Pediu Erci, segurando
uma espátula decorada.
- Por que eu não posso falar – E parou, respirando fundo
- “Can-gu-ru” pra
você me examinar?
- Uau, então finalmente
conseguiu! Muito boa pergunta, estou
orgulhosa de você Alex! Eu preciso que fale ‘A’ porque o movimento para falar "A" faz com que sua boca fique bem aberta facilitando o meu exame. Entendeu?
- Aham. – Respondeu a garota, balançando a cabeça, antes de
por a língua para fora e dizer um sonoro
“A”.
- Muito bom! – Afirmou
a médica usando a espátula olhando
atentamente o interior da boca de Alex e
tentando ser o mais rápida possível antes que a inevitável ânsia acontecesse.
- Eu já ‘to’ boa? – Perguntou ela quando Erci tirou a
espátula de sua boca.
- Sim. Melhorou a respiração, a pronúncia das palavras que
era bem anasalada. Já está até falando canguru sem errar! – Brinca Erci, ajudando-a a descer da maca.
- Foi o Claude que me ajudou! – Dispara Alex sorridente. –
Posso beber água?
- Claro. Peça a Raquel lá fora.
Mas Alex só saiu depois que Rosa confirmou:
- Pode ir meu anjo.
- Humm... Quem é Claude? Um fonoaudiólogo?
Apesar de sorrir da curiosidade e brincadeira de Erci, Rosa
não conseguiu evitar estremecer.
- Não.– Explicou secamente.
- Que pena, pensei que era alguém... especial pra você. – Comentou Erci.
– Ele é. – Falou sem pensar. - Quero dizer, Claude é o atual curador da
galeria. Cultural, financeira e juridicamente falando. Alex está livre das
infecções? – Perguntou, mudando rapidamente de assunto.
- Sim. Tirando o fato que sem as amigdalas ela pode ter um
quadro de faringite às vezes, ela está
ótima, Rosa. Quem não me parece bem
é você.
Algum problema? – Questionou, anotando suas ponderações na ficha de
Alex.
- Não comigo, Erci.
Estou tensa e preocupada com Liz, ela
não passou bem ontem, desmaiou e eu ainda não sei o que causou isso.
- Não deve ser nada grave, Rosa. O tratamento dela ainda é
recente e os efeitos colaterais são implacáveis.
- Tomara que seja apenas isso mesmo...
- Gosta muito deles, não?
- Demais. Eu faria tudo ao meu alcance para ajuda-los. Daria
qualquer coisa para não vê-los sofrer outra vez, mas parece que não vai ser
assim.
- Bem, se precisar de ajuda e apoio, conte comigo.
- Obrigada Erci. Já
estou liberada?
- Completamente.
- Obrigada por cuidar tão bem de Alex, Erci. E também das outras crianças. –
Completou referindo-se atendimento voluntário que ela fazia em comunidades
carentes.
- Nada além de minha obrigação, Rosa.
- Não, você vai além
da obrigação, cuida delas com o coração.
– Afirmou Rosa. - Até, Erci. Tenha um bom dia.
- Você também, Rosa. Tenha um excelente dia!
Apesar de querer muito, sabia que isso não aconteceria. A
primeira coisa que fizera pela manhã foi ligar para saber de Liz. E as notícias
não eram animadoras: estava a caminho do hospital, por orientação médica. John explicaria
tudo a todos na galeria, assim que chegasse.
Tentou o celular de John inúmeras vezes. Nada. Caixa postal.
O retorno de Alex a pediatra a impedira de encontra-los no hospital, pois eram lugares opostos. Assim
como a galeria.
E ainda voltaria para deixar Alex em casa com Sílvia.
Agradeceu por Alex conversar e fazer tantas perguntas pelo caminho. Não queria pensar no que encontraria. Ou
melhor, não queria pensar em quem encontraria.
PSV
Quando voltou ao trânsito, rumo a galeria, optou pelo trajeto mais longo. Quem
sabe quando chegasse, Claude tivesse
saído para almoçar. A quem estou tentando enganar? Vou ter que enfrenta-lo de qualquer maneira.
Assim que pisou na galeria viu Janete vir ao seu encontro,
agitada.
- Rosa, até que enfim você chegou! O que aconteceu, por que
não respondeu as mensagens ou atendeu as chamadas?
- Como assim? Eu estava com Alex na pediatra e não recebi
nenhuma... Droga, devo ter desligado sem querer, quando o guardei na bolsa!
- Explicou-se ao pegar o celular - O que foi, algo grave com Liz?
- Bem, não tão grave quanto antes. John já falou com todos nós e... – Pausa
- Bem, vá até a sala dele. Ele não quis voltar ao hospital antes de falar com
você.
- Claude está com ele?
- Não. Saiu há uns quarenta minutos. Foi com Júlio ver um
apartamento para alugar. Você sabe, Júlio não perde um bom negócio.
- Ele vai alugar um apartamento por aqui?
- Alugar? Não, ele quer
comprar um. Disse que não tem
intenção de voltar tão cedo para a França.
- Que ótimo. – Murmurou Rosa rumando para a sala de John
E Janete não pareceu notar a ironia em sua
voz.
PSV
Claude apoiou as mãos na
grade e olhou para baixo,
sentindo o vento bater contra o rosto e desarrumar seu cabelo. Automaticamente
passou os dedos por ele, e por alguns minutos mais apreciou a vista que a
varanda proporcionava tentando se
convencer que ficaria no Brasil para
tirar Nara do destino que Louise desejava.
A quem estou tentando enganar? – Perguntou-se cabisbaixo e
voltou ao interior do apartamento.
Júlio o esperava na ampla sala de estar. Assim que o
viu, encerrou a ligação, guardando o
celular.
- Então? Gostou? O antigo proprietário foi único dono.
Casou-se no exterior e pretende ficar por lá por isso a venda envolve a
decoração e moveis, mas caso não seja de seu interesse podemos rever essa
condição...
- Não, é perfeito! Assim não perderei tempo em mobília-lo.
- Morava em um apartamento também na França?
- Não. Eu compartilhava a mansão da família no departamento
de Belleville.
- Departamento?
- Pardon, é o mesmo que
bairro para vocês. Belleville não é tão conhecido porque não tem grande
atração turística; é um bairro afastado do centro, erguido por imigrantes e trabalhadores. Já teve fama de violento no passado, mas hoje em dia é considerado um dos locais mais
charmosos de Paris, graças a cantora Édith Piaf que nasceu e foi enterrada neste bairro.
- Você fala com certa... nostalgia, eu diria. Saudade de
alguém?
- Do jardim da mansão.
Ele é de dar inveja ao Ibirapuera, hã?
Júlio não conteve a gargalhada.
- E ainda dizem que franceses não tem senso de humor! -Exclamou esforçando-se para conter o riso.
- Deve ser a minha parte geneticamente brasileira. Meus avós maternos eram brasileiros. – Explicou-se.
- Podemos fechar esse negócio agora? – Retornou ao assunto principal. –
Eu ainda tenho que voltar a galeria.
- Mas é claro. Você
faz um excelente negócio, Claude, comprando esse apartamento. O crescimento vertical é grande e o espaço
cada vez mais caro nas grandes cidades,
como São Paulo. Este é um dos locais
mais valorizados no momento. Eu vejo
toda a parte burocrática e envio para você, combinado?
- D’àccord. Quanto tempo acredita que leve?
- Quinze dias no máximo. Envio para a galeria ou para o flat?
- Para a galeria, por favor, hã? – Falou acompanhando Júlio
para fora do apartamento.
PSV
- Com licença, senhorita Geraldy... – Pediu Elise entrado na
biblioteca.
- O que foi Elise? – Perguntou Nara empilhando alguns
livros sobre a mesa.
- A senhorita Roberta acaba de chegar. – Anunciou.
- Bem, diga a ela que minha mãe não está.
- Ela disse que veio vê-la, senhorita. Está aguardando na
sala de visitas.
- Elise, esse excesso de formalidade de senhorita pra cá e
pra lá... Quando vai parar com isso?
- São ordens de sua mãe.
- D`àccord. Mas eu não
sou ela.
- Mas ela pode me
demitir...
- Voilà! Então vamos combinar, quando ela não estiver por
perto, trate-me por você, ouí?
- Se a senhor... Se você insiste, está bem! Vou tentar me lembrar
disso.
- Ótimo. Agora, vá e
diga a Roberta que irei em instantes.
Estava curiosa para saber o que Roberta tinha de tão secreto para contar e em que isso a beneficiaria. Curiosa e apreensiva. Não confie em Roberta
foi o que sua mente recomendou quando saia da biblioteca. Esse tinha sido o mesmo conselho de Claude e Frazão.
- Roberta, eu não a esperava!
- Eu sei, e peço desculpas por não telefonar antes. Mas
precisava aproveitar que sua mãe e Bernard estão em uma... reunião, meu bem!
- Aceita algo... Café, talvez um chá?
- Não querida, obrigada. Quero ser rápida e sair antes
que Louise chegue.
- Então suponho que ela não deva saber de sua vinda?
- Eu colocaria diferente.
Diria que ela não ‘precisa’ saber.
- Vai me contar o motivo de Claude ter se afastado da politica?
- Ainda não. Isso envolve sua mãe, Bernard e outras tantas pessoas poderosas. Eu quero ter provas, para que não existam
dúvidas da sua parte de que quero
ajuda-la.
- Bem, então...
- Então eu vou propor algo a você. Eu preciso de tempo
para conseguir essas provas e você não
quer se casar com Bernard, vai fazer isso para agradar sua mãe.
- Você viu que não
tive escolha.
- Se tivesse, não se casaria?
- Claro que não! Eu já pensei até em fugir.
- É mesmo? – Observou Roberta surpresa. Já não estava achando
Nara tão mosca morta assim - Pois então,
eu vou ajuda-la. Começaremos retardando
a data do seu noivado. Consegue uma boa
desculpa?
- Acho que sim... Meu aniversário de vinte e um anos. – Fala Nara esperançosa – São seis meses a frente.
- Perfeito! Quando Bernard propuser o noivado oficialmente,
sugira essa data. Eu a apoiarei e convencerei Louise.
- Não será fácil.
- Saberei argumentar, Nara. Bernard precisa conquistar a
confiança que os partidários tinham em Claude.
Um noivado repentino com a irmã dele não seria bem visto. Um relacionamento a médio prazo,
com um marketing discreto, isso sim fará mais efeito e trará aliados
importantes para a convenção.
- Você parece entender bem de política.
- Tudo que sei, aprendi com sua mãe. E como devo muito a ela.
E está na hora de começar a pagar,
completou em pensamento.
- Roberta, você desistiu
do Claude?
- Claro que não. Eu apenas estou dando tempo a ele.
- Não acha que ele teve tempo suficiente para decidir se casar ou ter um relacionamento
sério com você?
- Louise e a politica o monopolizavam. Longe daqui tenho
certeza que vai sentir minha falta.
- Eu acho que ele não volta.
- Sem problemas, meu bem. Eu posso ir até lá e...
O celular de Nara toca.
- É minha mãe. – Explica atendendo - Oi mamãe. Não sabe a hora que volta porque vai acompanhar a comissão do
partido em um jantar outra vez. Sim eu
entendi, não se preocupe. Au revoir.
- Louise devia ficar mais tempo com você! – Falou Nara de
maneira carinhosa, mas em tom de acusação.
- Bem, ela não fica, mas
você pode ficar e jantar comigo. Aceita?
- Eu adoraria, Nara! Mas as quartas janto com meu pai. E se eu não vou, ele fica ainda mais “rabugento”.
Me acompanha até a porta?
- Claro. Mas pensei que
tínhamos mais o que conversar...
- E temos! Eu ligo para você. Au revoir, querida.
Nara observou Roberta deixar a mansão. Então avisou Elise que preparasse apenas um
lanche de jantar para ela. Em seguida
ligou para Frazão.
Roberta acelerou ignorando o sinal amarelo.
Então Louise tinha um jantar ‘imprevisto’ para ir.
- Vou adorar saber o cardápio, querida! – Falou enquanto ligava
para Beto, sem se importar com o fato de ser a motorista.
PSV
Continua 19/02

0 comentários:
Postar um comentário