PSV
Claude saiu do quarto de Alex e foi até o de Rosa novamente antes
de voltar a sala e andar de um lado a outro. Chegava a parar por alguns
segundos sentindo-se perdido. Era quando levava as mãos à cabeça e depois as descia pelo rosto, cobria a
boca e parava sobre o queixo.
Então dava alguns passos e as descia até
a cintura, apoiando-as no cós de
sua calça.
- Alexandra é minha
filha! Ela é minha filha! –
Quantas vezes havia repetido isso
até agora, se perguntava.
Deixou-se cair sentado no sofá e sorriu. E o sorriso transformou-se em desespero e agonia.
- Mon Dieu, o que fiz a
Rosa? Eu a amo e mesmo assim julguei-a impiedosamente pela lente de outra
pessoa! Acusei-a de ser interesseira, amante de outro
homem e a obriguei a se portar como
minha amante. Eu não mereço perdão. – Afirmou sentindo na boca o gosto salgado das lágrimas.
O toque de despertar do celular o fez enxugar o rosto. Duas
da manhã. Estava na hora do remédio dela.
Colocou água até a
metade do copo e separou as duas drágeas do medicamento receitado por
Erci. Sentou-se na beira da cama e chamou-a:
- Rosa... Rosa, acorde! Está na hora do seu remédio, hã?
Mas tudo que ela fez foi se encolher e resmungar
que estava com frio.
Claude inclinou-se um pouco mais e acariciou-a na face com a
ponta dos dedos. Reparou que estavam
rosadas então deslocou a mão até a testa de Rosa.
Preocupado, apanhou o termômetro e conferiu a temperatura apesar dos protestos dela. Quase trinta e nove, observou. Não era um bom sinal
- Rosa! – Exclamou puxando-a gentilmente – Rosa, acorde por
um momento, chèrie... Precisa tomar o remédio.
Debilmente, ela abriu os olhos.
- Hummm...
- Rosa, você está com febre e precisa tomar esses
comprimidos.
- Preciso? – Perguntou deixando que ele os colocasse entre
seus lábios e em seguida sentiu a água invadindo sua boca, fazendo-os deslizar em sua garganta.
Segurou a mão de
Claude quando ele afastou o copo e bebeu a água
restante.
- Por que invade meus sonhos, Claude?
- Não está sonhando, Rosa...
- Estou sim... – Disse
soltando a mão dele enfim. - Estou na parte em que
você me despreza e deixa sozinha. E eu
continuo a te amar mesmo assim...
- Eu não a desprezo... E nunca mais vou deixa-la sozinha, nunca!
Rosa suspirou profundamente e cerrou os olhos.
- Viu só como é um
sonho? Você jamais diria isso
Claude colocou o copo sobre o criado mudo e voltou-se para
ela. Rosa voltava a se encolher sobre as cobertas, o corpo trêmulo e quente.
- Ainda está aqui? - Ouviu-a resmungar ao abrir os olhos
novamente. - Devia
deixar-me em paz!
- É isso mesmo que deseja? Quer que eu... Vá embora dos seus sonhos?
- Não... Quero que me deixe
sonhar em paz com você. Que deixe-me sonhar com nós dois como éramos antes, quando você me amava. – E tossiu várias
vezes. - Será que pode
fechar a janela quando sair? Estou
com tanto frio!
Claude pressionou os
lábios e sorriu embora seus olhos
estivessem úmidos.
- Eu já fechei a janela, chèrie! – Exclamou baixinho, e
tirando os sapatos enfiou-se debaixo das
cobertas ao lado dela – Vou aquecê-la para sempre, d’àccord? Eu amo
você, Rosa! Você e nossa filha!
Então a puxou gentilmente para si e a acomodou lateralmente a seu corpo. Rosa realmente tremia de frio. Mas
a medida que o seu corpo aceitava
o calor de Claude, foi relaxando.
- Esse é o melhor
sonho que eu já tive... – A voz dela era fraca e
rouca.
E depois de algum tempo dormia calmamente segura e protegida
entre os braços dele. Claude por sua vez
estava longe de dormir. De querer, de
poder e de conseguir.
Esperaria o tempo
mínimo para monitorar a febre de Rosa. Enquanto isso tentaria colocar
seus sentimentos em ordem. E suas expectativas.
Rosa mexeu-se
ajeitando a cabeça em seu ombro e Claude a amparou com seu braço ates de inclinar de leve a sua cabeça beijá-la na testa.
Ela respirou profundamente antes de deslizar a mão por seu peito parado exatamente sobre
seu coração. Envolveu-a pela cintura sobre a camisola fria e sedosa.
- Mon Dieu, será que vai me perdoar, chèrie? – Perguntou
baixinho enfiando seus
dedos pelos cabelos dela carinhosamente e fechou os olhos.
Não, não quero fechar
meus olhos. – Pensou, abrindo-os - Não devo dormir... Preciso ficar acordado e
ouvir você respirar enquanto dorme. Enquanto está longe e sonhando com nosso amor. Porque quando você acordar eu posso perder tudo isso
outra vez. Então preciso continuar perdido nesse momento, nessa sua doce
rendição ao mundo dos sonhos.
Eu só quero ficar com você aqui e te abraçar forte, com seu
coração batendo assim encostado ao meu.
É assim que eu quero
ficar depois também, sem perder
um só sorriso de cada uma de vocês duas...
Porque eu não quero ser apenas seu sonho Rosa. Isso não vai ser suficiente.
Por favor mon Dieu, dê uma chance hã? De consertar todas as coisas erradas que fiz a
partir desse momento para todo o resto
dos tempos.
Então voltou a
beija-la, sobre os olhos dessa vez, e agradeceu a Deus por estarem
juntos. Agradeceu por Alexandra e as
palavras escaparam para fora de seu pensamento:
- Por que Rosa... Por
que nunca me contou sobre ela? - E fazendo um movimento com o braço tocou
na boneca de Alex. Sorriu e pegou-a, abraçando-a como se abraçasse a filha.
PSV
Uma vistoria de última hora na aeronave que detectou problemas elétricos inesperados e a
necessidade da troca de pneus, além de desculpas pelo imprevisto, foi a
explicação que todos os passageiros ouviram do porta-voz da companhia área, a
Airfrance. O voo com destino ao Brasil sofreria
atraso.
Porém após duas horas, alegando a necessidade do cancelamento do voo, os passageiros foram
novamente reunidos e informados que seriam
realocados em um próximo voo com o mesmo
destino, numa aeronave maior, com conexão em Recife, no Aeroporto Internacional
dos Guararapes Gilberto Freyre. A
bagagem já estava sendo transferida. Apesar da explicação, circularam
rumores de uma suposta ameaça por parte de terroristas islâmicos. Se houve uma ação policial, ela havia
sido bem treinada, pois o
aeroporto não foi evacuado tampouco
notou-se a presença de qualquer
esquadrão antiterrorismo.
PSV
- Vai viajar assim de repente... O que fez,
Roberta?
- Nada, papai. Nada que eu
vá me arrepender. Mas vou sair do país por uns dias, talvez
semanas para não ser incomodada por ninguém.
- Filha, o que fez? Se
precisa de um lugar sabe que pode
ficar comigo. Eu nunca pedi que saísse desta casa.
- Eu sei papai. E agradeço, mas se ficar ai com você Louise me encontrará facilmente e não quero envolvê-lo
nessa história. Então quando eu chegar lá,
onde quer que eu vá, eu o aviso.
- Está brincando com
fogo, querida. Por que não ouviu meus
conselhos e se afastou de Louise Geraldy?
- Agora é tarde para pensar
nisso, papai. Em algumas horas a França saberá quem é Louise e do que
ela é capaz para chegar ao poder. Vai ser “o” escândalo.
- Roberta...
- Sem mimimi, papai! O
que fiz está feito e pronto.
- Pensa realmente
que vai desacreditá-la?
- Talvez, por que não? Mesmo que ela consiga se safar, ficarei... Satisfeita por tê-la atrapalhado. Sempre haverá quem a olhe daqui para frente com desconfiança.
- Onde foi que errei contigo, Roberta?
- Quanto drama papai! Você não errou. Fez de mim uma pessoa decidida e destemida.
- E sem escrúpulos. Louise
vai persegui-la o resto de sua
vida.
- Ela nunca vai
provar que eu entreguei as imagens dela
com Bernard, papai. Se quer saber, há pessoas com informações piores. Eu entro em contato com você, d’àccord? Au revoir!
- Roberta, ainda dá
tempo de desistir dessa loucura...
Roberta! Desligou! Isso não vai terminar
bem...
PSV
Claude abriu os olhos e procurou seu celular para
desativar o alarme. Seis horas! Havia duas mensagens: uma de Nara, avisando
sobre o atraso do voo e outra de Dadi,
querendo notícias de Rosa. Ela ainda dormia
aconchegada a seu corpo, disputando
espaço com a boneca.
Passou a mão pelo
rosto dela. A temperatura parecia normal
e a respiração era calma e regular, bem
diferente da noite passada.
Saiu vagarosamente da
cama, deixou a boneca em seu lugar e foi
ao banheiro. Passou pelo quarto de Alex. Ela dormia tranquilamente. Foi para a sala e
telefonou para Dadi,
tranquilizando-a e avisando que ainda se demoraria por ali.
Recolocou o blazer,
pois estava frio. Procurou a cozinha e fez café.
Quando voltou ao
quarto, Rosa havia se mexido tanto que estava descoberta. Mediu a temperatura.
Estava normal, menos de trinta e sete
graus. Ótimo, pensou já que a
próxima dose seria em três horas. Arrumava o edredom sobre ela, quando Rosa abriu os olhos.
- Claude?! – Exclamou tentando se afastar dele - Oh, meu
Deus... Então não foi só um sonho! – Disse apertando o edredom contra si.
- Não. – Murmurou Claude - Não
foi sonho, Rosa... Mas temos que conversar para que não se transforme em
pesadelo, hã?
- Conversar sobre o que? – Perguntou tossindo algumas vezes.
- Sobre nós, sobre Alexan...
- Bom dia, mamãe! – Exclamou
Alex entrando no quarto – Ué, por que
você ainda tá aqui? – Perguntou a Claude, esfregando os olhos e bocejando.
- Porque eu não quis deixa-las sozinhas.
- Ah! Você já “saro”
mamãe? – Perguntou subindo na cama – Eu deixei
a Serafina aqui pra ela “toma”
conta de você, você viu?
- Vi sim, querida! -
Respondeu Rosa sem deixar de olhar
para Claude. – Ela cuidou direitinho da mamãe. Obrigada.
- Eu tô morrendo de fome, você não tá?
- Estou sim, Alex...
- Voilà! – Disse Claude sorrindo – Creio que todos estamos, hã? Alex o que acha de me ajudar com o café da manhã e então trazemos algo para sua mamãe?
- Eu posso ir pra cozinha e fazer o café da manhã! - Protestou Rosa, tossindo em seguida.
- Pode, não é? –
Concordou Claude levantando-se - Mas não deve.
É melhor se resguardar, Rosa. Pelo menos
por hoje. d`áccord?
- Ok, ok... Mas banho
está liberado não está?
- Ouí. – Responde
sorrindo - Vamos lá, pequena? - Falou em seguida estendendo a mão para
Alex.
Rosa os observou saírem do quarto com a impressão que sonhava um sonho. E que a qualquer momento acordaria...
Quando apareceu na porta da cozinha minutos depois, Alex
comia bolo.
- Ah mamãe, eu ia levar
bolo pra você lá no quarto...
- Bem, agora já estou aqui, hum? – E deu um passo a frente.
Mas precisou se
apoiar no batente da porta, sentindo-se zonza e quando percebeu, Claude a segurava.
- Pensei que tivesse
mais juízo, hã? Devia ter voltado para a cama!
Queria contesta-lo mas
sentia-se fraca demais e não discutiria
com ele na frente de Alex.
- Tem razão... Poderia me ajudar a voltar pra lá? – Perguntou
levantando o olhar para ele.
No instante seguinte estava sendo carregada por ele. Ouviu o riso alegre de Alex, seguindo-os.
- Posso saber do que está
rindo? – Perguntou Claude, intrigado, entrando no quarto.
- Aham... – Disse engolindo o último pedaço de bolo - É que o “príncepe” sempre carrega a princesa
assim e depois eles “vive” felizes para
sempre!
- D`áccord... Por que não
vai buscar o bolo da mamãe enquanto o príncipe aqui a
coloca na cama?
Alex deu outra gostosa
risada e girando o corpo correu para a
cozinha.
E alguma coisa na maneira como ele pronunciou a palavra mamãe fez o coração de Rosa disparar.
- Talvez não seja o
melhor momento... – Sussurrou Claude sentando-se e olhando-a - Mas eu preciso saber. Por que escondeu que Alexandra é minha filha?
- Quem... Como descobriu? – Perguntou tentando controlar a
respiração, mordendo o lábio inferior.
- Da forma mais incontestável que há... Ela tem a mesma marca
de nascença que eu...
- Deve estar me odiando, não é?
- Não. Magoado talvez. Mas sei que deve haver uma razão
para ter
feito isso...
- Sim... Eu tive medo e...
- Eu demorei porque
vim devagarinho pra não “derrubá” nada, mamãe... – Falou Alex entrando no
quarto, equilibrando um prato plástico
com alguns pedaços de bolo. – E coloquei mais
bolo pra gente “come” com você.
Estendeu os braços assim que chegou perto da cama e Rosa segurou o prato. Alex
subiu na cama e ajeitou-se entre os dois.
- “Vamo come”? – Disse então pegando um pedaço.
Rosa pegou um pedaço e aguardou alguns instantes, mas Claude não se serviu.
- Não vai comer? –
Perguntou a ele.
- Eu acho que não cabe mais
bolo na barriguinha dele não, mamãe. Ele
comeu três “pedaço” na hora que
você “tava” tomando banho.
- Alex! - Exclama
Rosa, em tom de suave mas firme reprimenda.
- Voilà, não precisa
se zangar com ela, Rosa. Eu
realmente comi os três pedaços e não pedi segredo, hã?
- Mesmo assim. – Afirmou olhando para a menina – Nós não
devemos contar quantas coisas alguém comeu. É muita falta de
educação e respeito. Deve pedir desculpas ao Claude, ok?
- Desculpa. – Diz Alex
- D’àccord, d’àccord! Está desculpada, pequena. Não
vamos fazer disso uma tempestade.
O que quer beber? Encontrei suco e leite em sua
geladeira.
- Suco ou leite? Eu
gostaria mesmo era de um café...
- Que sorte. Eu passei
um café agora a pouco, e isso era um segredo. Espero que não se importe por eu
ter invadido sua cozinha.
- Claro que não...
- Eu volto num minuto. – Disse saindo do quarto.
Instantes depois
quando voltava cruzou com Alex no corredor.
- A mamãe deixou eu “assisti” um pouco de desenho antes de
“i” pra escola! - Ouviu-a dizer alegremente
enquanto corria para a sala.
- Só um pedaço de
bolo? – Perguntou ele observando o prato sobre
o criado mudo, entregando a xícara
de café a ela.
- Um e meio. – Respondeu Rosa – Eu comi a metade que Alex não
quis. - E levando a xícara aos lábios
tomou o café. – Seu café continua
delicioso!
- Merci. – Disse ele
sério, voltando a sentar-se na cama. -
Seu bolo também, hã? Mas será que pode me contar porque teve medo de revelar sobre Alex?
- Acha mesmo que
devemos falar sobre isso agora?
- Ouí. A não ser que esteja
muito indisposta...
Rosa esticou o braço,
colocando a xícara ao lado do prato. Foi
em menos de um minuto, mas
foi tempo suficiente para concluir que Claude estava certo. Melhor esclarece tudo. Não era
isso que estava disposta a fazer antes
de ficar doente?
- Ok. Eu queria contar desde que chegou aqui. Mas então você me acusou de ter
um amante e ele ser o pai de Alex.
- John Smith. –
Murmura Claude.
- Por muitas
vezes me convenci que seria fácil provar que você é o pai dela.
Pela mesma maneira que você
descobriu. Só não falei porque tive medo que usasse esse argumento, de ser amante
de alguém, para tirá-la de mim...
- Pensa que eu seria
capaz de separá-las?
- Eu não sei! – Exclamou Rosa tossindo - Você estava tão diferente do Claude que eu
conheci... – E seus olhos lacrimejaram - Frio, arrogante, irônico...
- D’áccord... –
Concordou ele – Eu sinto muito tudo isso que
fiz, hã? Mas diga-me, também teve medo de me contar que estava grávida antes de me
abandonar?
-Eu não o abandonei. -
Diz Rosa, balançando a cabeça e franzindo
a testa - Você pediu que eu saísse
da sua
vida! E nem teve coragem de
falar pessoalmente, incumbiu sua mãe de informar
sobre a sua decisão naquele dia em que
levou Nara de volta ao internato.
- Não, você a incumbiu de dizer que a vida ao meu lado estava monótona e por isso voltava para
cá!
- Meu Deus, Claude, eu nunca disse isso! Lembra-se bem
daquele dia? Eu fiquei porque não me
sentia bem, então você adiou a conversa
que queria ter comigo para quando voltasse. Disse que era algo importante,
que mudaria nossas vidas...
- Claro que lembro.
Havíamos combinado uma parada na
volta, porque cada um tinha algo importante para dizer
ao outro...
- Eu iria contar que
estava grávida. Era uma informação que você leria nos agradecimentos da minha
tese... Porém, pouco depois que vocês
saíram sua mãe me fez ir até a
biblioteca e disse que você havia
decidido concorrer a um cargo público e não sabia como me pedir, não tinha coragem de
pedir que eu fosse embora, porque
não estava “à altura de suas pretensões”
políticas por ser uma estrangeira sem “linhagem nobre e sem dinheiro”. Que estava arrependido de ter se deixado
levar por uma simples atração física. Expliquei que estava grávida e ela ofereceu uma boa
quantia, em euros, para que eu...
Que eu desistisse do bebê. Eu recusei, é obvio. Pediu que eu o compreendesse e não fizesse cenas ou
escândalos para não prejudica-lo. Então Roberta
mostrou as alianças que selariam seu compromisso com ela. Para mim foi algo importante, que mudaria mesmo nossas
vidas. O que mais eu poderia
fazer?
- Mon Dieu... As alianças eram para o nosso noivado, chèrie!
Pedi a Louise que as guardasse até
eu voltar, não queria que as encontrasse
antes! E quando eu cheguei já era noite, fui direto ao nosso quarto e tudo que
encontrei foram algumas roupas suas sobre
a cama. Então Louise apareceu perguntando o que eu faria com as alianças já que
você havia feito as malas às pressas e simplesmente avisado que estava
indo embora, a procura de outra aventura
que terminasse em sexo mais intenso e quem sabe mais compensador financeiramente do que apenas morar em uma
mansão ao sul de Paris.
- É claro que fiz as
malas às pressas! Louise conseguiu uma passagem num voo direto que saia em três
horas... Foi Roberta quem me ajudou com elas e quem me levou até o aeroporto. Poucos
dias depois de chegar, ouvi a notícia de sua adesão à politica, ocupando a função que havia sido de seu pai no partido.
- Eu entrei para o partido
justamente para te esquecer! Queria ocupar todo o meu tempo em algo que não me fizesse lembrar você! Abandonei todos os meus
projetos artísticos principalmente o
livro que escrevíamos juntos.
- E teve mais sucesso
que eu... Só saiu dela depois que sua esposa morreu!
- Minha esposa?
- Você disse que ela
havia morrido quando me pressionou a ser sua amante.
- Dieu! E você entendeu que eu falava de Roberta?
- E não era? Não foi
com ela que se casou?
- Não... – Fez uma pausa - Eu só casei uma vez na vida e
foi com você, Rosa!
- Então... Isso quer dizer que...
- Que eu tentei mata-la dentro de mim. Mas nunca a esqueci e bem deixei de amar. Também tenho
consciência de que não mereço seu perdão. Acho que posso viver com isso agora
que sei a verdade mas por favor,
não me afaste de nossa filha!
- Você me ama?!
- Muito mais que antes. Por isso, tenho que
fazer o certo para você mesmo que signifique
me machucar ainda mais. Fui fraco,
me comportei como um canalha
contigo e...
- Certo é quando um homem se atreve a confessar suas
fraquezas. Ele se torna o mais forte. E sabe? Se quer
mesmo fazer o certo para mim,
para nós três, saiba que deve escolher o
caminho do amor. Eu quero tentar
outra vez, não importam as dores, as angústias, nem as
decepções que eu tive ou terei que encarar. Eu amo você, Claude
Geraldy...
- Não deveria me amar depois
de tudo que fiz você fazer...
- Quando vai entender que fiz “tudo que me fez fazer” justamente
porque te amo?
Claude abraçou o rosto
de Rosa com as mãos, deslizando os polegares suavemente, enquanto mergulhavam um no olhar
do outro, no mais profundo silêncio. Foi Rosa quem o quebrou.
- Claude, –
Murmurou ela – Agora é a hora em que
o príncipe beija a princesa...
Claude sorriu e inclinou a cabeça lentamente.
- E depois eles vivem felizes para sempre - Sussurrou com os lábios encostados aos dela.
E foi um beijo terno, de amor, de reconciliação. Sem
exigências. Um beijo tipicamente romântico, de um príncipe em uma princesa.
Então Claude afastou-se
o suficiente para
falar.
- Precisamos todos
ser felizes. Vamos contar a Alex...
- Assim, sem prepara-la?
Não, eu tenho medo que ela se zangue
e...
- Ela não vai se
zangar, chèrie... Talvez não compreenda tão rápido, mas...
- Ela acredita que o
pai, quero dizer que você está
cuidando de sua mãe doente. Não
sei porquê criou essa história, eu nunca disse isso!
- Alexandra é uma garota esperta e fez isso inconscientemente para se proteger. Mas
encontraremos um jeito de falar
sem causar maiores traumas a ela. Vem!
Ajudou Rosa a levantar-se
da cama e entraram na sala de mãos dadas. Alex assistia a TV com atenção.
- Filha, - Disse Rosa - A mamãe
e o p... E o Claude; nós precisamos
falar com você.
- Ah, já tá na hora de
“tomá” banho pra escola? – Perguntou parecendo
decepcionada. – “Mais” não “acabô” o desenho
da rainha do gelo ainda! –
Argumentou segura, ficando em pé sobre o
sofá.
- Não, não é isso.
– Explicou Rosa abaixando o som da TV e sentando-se ao lado da filha. – É sobre o seu papai. O
Claude... - Tentou falar, mas
a voz embargada a impediu.
Alex olhou fixamente para Rosa por
alguns segundos. E voltou a atenção para Claude, quando
ele começou a falar:
- Pequena, ontem a
noite você disse que gostaria que
eu fosse o seu papai, não disse? - Falou Claude sério, ajoelhando-se de frente a ela sob o olhar atônito de Rosa.
- Aham... – Concordou e em seguida inclinou-se e
perguntou bem baixinho – A mamãe vai
ficar brava comigo?
Claude trocou um
rápido olhar com Rosa antes de
continuar.
– Não. Ela quer contar que eu sou mesmo o seu papai, mas
está com medo que você se
zangue com ela e comigo.
- Você é o meu papai de verdade?
- Sou. – Confirmou segurando seu olhar ao dela
Alex piscou várias vezes e afundou-se no encosto do sofá.
- E porque você demorou tanto
tempo pra “vim fica coa” gente?
- Porque eu estava... Preso muito longe daqui sem saber de você.
Alex abriu os olhos entre assustada e surpresa e questionou:
- A bruxa malvada
prendeu você numa torre?
Só então Claude percebeu que usara a palavra errada. Mas nada que não pudesse contornar.
- Como é que você adivinhou, hã? Ela era minha madrasta e se transformou numa
bruxa muito má separando sua mamãe
de mim e eu de vocês.
- E por que ela virou bruxa?
- Porque ela é muito egoísta, sabe o que quer dizer?
Alex balançou a
cabeça, negativamente.
- É não querer dividir nada
com os outros - Explicou Claude -
Mas eu consegui fugir e encontrar vocês duas.
- Eu pensei que você tava demorando por causa que sua mamãe tava doente e que você
tava cuidando dela...
- Não, a minha mamãe morreu
faz tempo. De quem eu preciso e queri cuidar agora é de você e de sua
mamãe.
Alex pareceu
desconfiada e afastou-se lateralmente
no sofá antes de perguntar:
-“Mais” você gosta mesmo de mim?
- Eu amo você, pequena. É muito mais que gostar.
- E a mamãe, você ama ela também?
- Ouí. – Responde Claude entrelaçando seus dedos aos de Rosa, beijando-os.
Alex seguia cada
movimento de Claude.
- E você mamãe, você ama o meu papai?
- Sim meu anjo, eu amo o seu
papai do fundo do meu coração.
Alexandra ficou em silêncio, como se estivesse refletindo
sobre o assunto para tomar
sua decisão. E inesperadamente saltou
do sofá e correu em direção ao seu quarto.
- Alex! – Exclamou Rosa agitada, levantando-se. – Está vendo? Era
disso que eu tinha medo. Ela não vai me perdoar... – E procurou consolo
o abraço de Claude.
- Ei... Acalme-se, chèrie! Não subestime a capacidade de
amar de nossa filha, hã?
Então Alexandra voltou resmungando:
- Ai, eu não acho onde tá “os sapatinho”! – Ah, olha eles
aqui! – Exclama passando por Claude e
Rosa.
E segurando os tamancos de madeira contra o peito se aproxima dos
dois e diz:
- Já que você é o meu
papai dá pra você “coloca
esses sapatinho nos pé” da minha mamãe “ingual” o “príncepe” fez “coa” Cinderela?
- D’àccord. -
Respondeu Claude fazendo uma reverência
real, antes de pedir a Rosa que sentasse.
Alex subiu outra
vez no sofá ao lado de Rosa. Enquanto
Claude ajoelhava-se e calçava os tamancos em Rosa, Alex alisava os cabelos da mãe.
- Esses sapatos estão na medida perfeita para a minha
princesa. – Afirmou Claude – Eu gostaria
de pedir a Vossa Alteza Real, Lady Alexandra, permissão para me
casar com ela.
- “Mais” você nem beijou
a princesa ainda! – Respondeu Alex – Tem
que fazer que nem na historinha.
- Voilà... – Disse Claude levantando-se, e levando consigo
Rosa a beijou rapidamente sobre os
lábios.
- Ehhhhh! – Exclamou Alex batendo palmas
- Agora sim? – Questionou-a Rosa
- Aham... – Disse Alex descendo do sofá. - Eu preciso
contar pra Serafina que você é o
meu papai! – Gritou eufórica, sumindo pelo
corredor.
- Relaxa, hã? – Pediu Claude a Rosa, sentindo a mão dela
trêmula entre as suas.
– Foi mais simples do que pensei – Respondeu Rosa,
descansando a cabeça no ombro de Claude.
- Ela vai processar
tudo isso sem problemas. – Disse ele, envolvendo-a com os braços.
- Hummm... É tão bom me sentir assim novamente, protegida
dentro do seu abr..
Rosa parou de falar abruptamente, ao escutar o choro de Alex.
Desprendeu- se de Claude e girou o corpo. Alex estava parada na entrada da sala segurando Serafina com uma das mãos e com a outra lutava
contra as lágrimas.
- Alex... – Murmurou Rosa aproximando-se, seguida de Claude – O que foi meu amor, por que está chorando?
- Porque o... Claudenão... podesero... meupapai! – Afirmou
com a voz magoada entre os soluços que tentava evitar.
- Por que não? - Perguntaram Claude e Rosa
ao mesmo tempo.
- Porque você... falou que.... o meu papai... chama
Antônio... – Explicou-se em tom de acusação.
Claude imediatamente a pegou no colo.
- Mon Dieu, tranquilize-se Alexandra. Sua mãe não mentiu, eu sou seu pai. Antônio é meu segundo nome, d’àccord?
Claude Antoine, ou Claudio Antônio...
Alex respirou rápido, suspirando e soluçando. Procurou a
confirmação no olhar de Rosa.
As lágrimas também
impediram Rosa de falar imediatamente. Então com a mão sobre a boca,
Rosa apenas chacoalhou a cabeça, num
sim.
Então Alex passou um de seus braço em volta
do pescoço da mãe mantendo o outro
em torno de Claude, e deixando a
boneca cair.
- Você não conseguia falar Claude, querida – Conseguiu
explicar-se Rosa finalmente.
Claude abraçou as
duas, beijando Alex e Rosa na testa. Ficaram assim, até que Alex parou
de chorar e disse:
- Papai, você pode
“pega” a Serafina pra mim? Eu tenho que
“pedi” desculpa pra ela...
Com a boneca nas mãos, Alex escorregou para o chão e pedindo desculpas a ela, avisou que
ia para
seu quarto colocar Serafina para dormir.
Rosa sorriu mordendo o lábio para segurar a risada. Então a tosse reapareceu. Tossiu
várias e várias vezes. E quanto mais se esforçava para evita-la, mais tossia.
Quando a crise passou, escutou a voz de Claude:
- De volta para a cama,
hã? Passou emoções demais por hoje.
- Não, eu estou bem...
– E espirrou três vezes.
- Estou vendo. – Afirmou ele, carregando-a para o quarto -
Já está na hora do seu remédio e vai
descansar por algumas horas.
- Horas? Alex tem
escola e a galeria...
- A galeria a vai sobreviver sem nós por um dia, Rosa.
Quanto a Alex eu poderia leva-la à escola. Mas não seria melhor ela
ficar em casa hoje depois de toda essa
agitação?
- Tem razão... Eu vou
ligar para a coordenadora e explicar... – Falou pegando os
comprimidos da mão de Claude.
- Mamãe eu tô com fome
de novo! – Exclamou Alex entrando no quarto.
- Por que não vai assistir outro desenho e eu levo
alguma coisa para
você comer, hã? – Sugeriu Claude sob o olhar admirado de Rosa.
- Ta bom! -
Respondeu Alex desaparecendo.
- O que foi, por que
está me olhando assim? - Disse Claude
enquanto Rosa engolia o remédio.
- Só admirando sua atitude... Sabe me dizer por que ela está com o pijama ao
avesso e de trás pra frente?
- Oh, isso é uma longa história, chèrie!
- Eu tenho todo o tempo do mundo para ouvi-la...
- D’àccord... Ontem a
noite você estava muito mal e Alex teve a ideia de chamar a doutora Erci para examinar você, hã? Ao sair ela sugeriu que
Alex tomasse um banho preventivo antes de dormir. Mas Alex
não me deixou ajuda-la porque eu não
PSV
Continua
na próxima semana


