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quinta-feira, 30 de junho de 2016

PSV/Capítulo 39

PSV



Claude saiu do quarto de Alex e foi até  o de Rosa novamente  antes  de voltar a sala e andar de um lado a outro. Chegava a parar por alguns segundos sentindo-se  perdido.  Era quando levava as mãos à cabeça e  depois as descia pelo rosto,  cobria a  boca e parava  sobre o queixo. Então dava  alguns passos e as descia até a cintura, apoiando-as no cós  de sua  calça.
- Alexandra é minha  filha! Ela é minha  filha! – Quantas vezes havia  repetido isso até  agora, se perguntava.
Deixou-se cair sentado no sofá e sorriu.  E o sorriso  transformou-se em desespero e agonia.
- Mon Dieu, o  que fiz a Rosa? Eu a amo e mesmo assim julguei-a impiedosamente pela lente  de outra  pessoa! Acusei-a de ser interesseira,  amante de outro homem e a obriguei   a se portar como minha amante. Eu não mereço perdão. – Afirmou sentindo na  boca o gosto salgado das lágrimas.
O toque de despertar do celular o fez enxugar o rosto. Duas da manhã. Estava na hora do remédio dela.








Colocou água  até a metade do copo e separou as  duas  drágeas do medicamento receitado por Erci.  Sentou-se na  beira da cama e chamou-a:
- Rosa... Rosa, acorde! Está na hora  do seu remédio, hã?
Mas  tudo que ela  fez foi se encolher e  resmungar  que estava  com frio.
Claude inclinou-se um pouco mais e acariciou-a na face com a ponta  dos dedos. Reparou que estavam rosadas então deslocou a mão até a testa de Rosa.
Preocupado, apanhou o termômetro e conferiu  a temperatura apesar dos protestos dela.  Quase  trinta e nove, observou. Não era um bom sinal
- Rosa! – Exclamou puxando-a gentilmente – Rosa, acorde por um momento, chèrie... Precisa  tomar  o remédio.
Debilmente, ela abriu os olhos.
- Hummm...
- Rosa, você está com febre e precisa tomar esses comprimidos.
- Preciso? – Perguntou deixando que ele os colocasse entre seus lábios e em seguida sentiu a água invadindo sua  boca, fazendo-os deslizar em sua garganta.
Segurou a mão  de Claude quando ele afastou o copo e bebeu a água  restante.
- Por que  invade  meus sonhos, Claude?
- Não está sonhando, Rosa...
- Estou sim...  – Disse soltando a mão dele enfim. -  Estou na  parte em que  você me despreza e deixa  sozinha.  E  eu continuo a te amar mesmo assim...
- Eu não a desprezo... E nunca  mais  vou deixa-la sozinha, nunca!
Rosa suspirou profundamente e cerrou os olhos.
- Viu  só como é um sonho? Você jamais  diria isso
Claude colocou o copo sobre o criado mudo e voltou-se para ela. Rosa voltava a se encolher sobre as cobertas, o corpo trêmulo e quente.
- Ainda está aqui? - Ouviu-a resmungar ao abrir os olhos novamente.  - Devia  deixar-me  em paz!
- É isso mesmo que deseja? Quer que eu...  Vá embora dos seus  sonhos?
- Não...  Quero  que me deixe  sonhar  em paz com você. Que  deixe-me sonhar com nós  dois como éramos antes,  quando você me amava. – E tossiu várias vezes. -  Será que  pode  fechar  a janela quando sair? Estou com tanto  frio!
Claude  pressionou os lábios e sorriu embora  seus  olhos  estivessem úmidos.
- Eu já fechei a janela, chèrie! – Exclamou baixinho, e tirando os sapatos enfiou-se debaixo das  cobertas ao lado dela – Vou aquecê-la para sempre, d’àccord? Eu amo você, Rosa! Você e  nossa filha!
Então a puxou gentilmente para  si e a acomodou lateralmente a seu  corpo. Rosa realmente tremia  de frio. Mas  a medida que o seu  corpo aceitava o calor  de Claude, foi relaxando. 
- Esse é o melhor  sonho que eu já  tive... –  A voz dela era  fraca e  rouca.
E depois de algum tempo dormia calmamente segura e protegida entre os braços  dele. Claude por sua vez estava longe de dormir.  De querer, de poder e de conseguir.
Esperaria  o tempo mínimo para monitorar a febre de Rosa. Enquanto isso tentaria  colocar  seus  sentimentos  em ordem.  E suas expectativas.
Rosa  mexeu-se ajeitando a cabeça em seu ombro e Claude a amparou com seu braço ates de   inclinar de leve a sua  cabeça  beijá-la na testa.

Ela respirou profundamente antes de deslizar a mão por seu  peito parado exatamente  sobre  seu coração. Envolveu-a pela cintura sobre a camisola fria e sedosa. 





- Mon Dieu, será que vai me perdoar, chèrie? – Perguntou baixinho enfiando seus dedos  pelos  cabelos dela carinhosamente e fechou os olhos. 
Não, não  quero fechar meus olhos. – Pensou, abrindo-os  -   Não devo dormir... Preciso ficar acordado e ouvir você respirar enquanto dorme. Enquanto está longe e sonhando com  nosso amor. Porque  quando você acordar eu posso perder tudo isso outra vez. Então preciso continuar perdido nesse momento, nessa sua doce rendição ao mundo dos sonhos.
Eu só quero ficar com você aqui e te abraçar forte, com seu coração batendo assim encostado ao meu.
É assim que eu quero  ficar  depois também, sem perder um só sorriso de cada uma de  vocês duas... Porque eu não quero ser apenas seu sonho Rosa. Isso não vai ser suficiente.
Por favor mon Dieu, dê uma chance hã?  De consertar todas as coisas erradas que fiz a partir  desse momento para todo o resto dos tempos.
Então voltou a  beija-la, sobre os olhos dessa vez, e agradeceu a Deus por estarem juntos. Agradeceu por  Alexandra e as palavras  escaparam para  fora de seu pensamento:
- Por que Rosa...  Por que nunca me contou sobre ela? - E fazendo um movimento com o braço tocou na  boneca  de Alex. Sorriu  e pegou-a, abraçando-a como se abraçasse a  filha.




PSV




Uma vistoria de última hora na aeronave que  detectou  problemas elétricos inesperados e a necessidade da troca de pneus, além de desculpas pelo imprevisto, foi a explicação que todos os passageiros ouviram do porta-voz da companhia área, a Airfrance.   O voo com destino ao Brasil sofreria atraso. 
Porém após duas horas, alegando a necessidade do   cancelamento do voo, os passageiros foram novamente reunidos e informados que seriam  realocados em um próximo voo com o mesmo  destino, numa aeronave maior, com conexão em Recife, no Aeroporto Internacional dos Guararapes Gilberto Freyre.  A bagagem já estava sendo transferida. Apesar da explicação, circularam rumores  de uma  suposta ameaça por  parte de terroristas islâmicos.  Se houve uma ação policial, ela  havia  sido bem treinada,  pois o aeroporto não  foi evacuado tampouco notou-se a presença  de qualquer esquadrão antiterrorismo.




PSV




- Vai viajar assim de repente... O que  fez, Roberta?
- Nada, papai. Nada que eu  vá me arrepender. Mas  vou sair  do país por uns  dias, talvez  semanas para não ser incomodada por ninguém.
- Filha, o  que fez? Se precisa  de um  lugar sabe que  pode  ficar comigo. Eu nunca pedi que saísse desta  casa.
- Eu sei papai. E agradeço, mas se ficar ai com você Louise me  encontrará facilmente e não quero envolvê-lo nessa história. Então quando eu chegar  lá, onde quer  que eu  vá, eu o aviso.
- Está  brincando com fogo, querida.  Por que não ouviu meus conselhos e se afastou de Louise Geraldy?
- Agora é tarde para pensar  nisso, papai.  Em algumas  horas a França saberá quem é Louise e do que ela é  capaz para  chegar ao poder. Vai ser “o” escândalo.
- Roberta...
- Sem  mimimi, papai! O que  fiz está  feito e pronto.
- Pensa realmente  que  vai desacreditá-la?
- Talvez, por que não? Mesmo que ela  consiga se safar,  ficarei... Satisfeita por  tê-la atrapalhado. Sempre haverá quem a olhe  daqui para frente com desconfiança.
- Onde foi que errei contigo, Roberta?
- Quanto drama papai! Você não errou.  Fez de mim uma pessoa decidida e destemida.
- E sem escrúpulos. Louise  vai persegui-la o resto de sua  vida.
- Ela  nunca  vai  provar que eu entreguei as imagens dela  com Bernard, papai.  Se quer  saber, há pessoas com informações  piores. Eu entro em contato  com você, d’àccord? Au revoir!
- Roberta, ainda  dá tempo de desistir dessa  loucura... Roberta!  Desligou! Isso não  vai terminar  bem...



PSV



Claude abriu os olhos e procurou seu  celular para  desativar o alarme. Seis horas! Havia duas mensagens: uma de Nara, avisando sobre o atraso do voo e  outra de Dadi, querendo  notícias de Rosa. Ela ainda dormia aconchegada a seu  corpo, disputando espaço com a boneca.
Passou a mão  pelo rosto dela. A temperatura parecia  normal e a respiração era  calma e  regular, bem  diferente da noite passada.
Saiu vagarosamente  da cama, deixou a boneca em seu lugar e  foi ao banheiro. Passou pelo quarto de Alex. Ela dormia tranquilamente. Foi  para a sala e  telefonou para Dadi,  tranquilizando-a e avisando que ainda se demoraria por ali.
Recolocou o  blazer, pois  estava  frio. Procurou a cozinha e fez  café.
Quando  voltou ao quarto, Rosa havia se mexido tanto que estava descoberta. Mediu a temperatura. Estava normal, menos de  trinta e sete graus.  Ótimo, pensou já que a próxima  dose seria em três  horas. Arrumava o  edredom sobre ela, quando Rosa  abriu os olhos.
- Claude?! – Exclamou tentando se afastar dele - Oh, meu Deus... Então não foi só um sonho! – Disse apertando o edredom contra  si.
-   Não.  – Murmurou Claude  -  Não foi sonho, Rosa... Mas  temos que  conversar para que não se transforme em pesadelo, hã?
- Conversar sobre o que? – Perguntou  tossindo algumas  vezes.
- Sobre nós, sobre Alexan...
 - Bom dia, mamãe! – Exclamou Alex entrando no quarto – Ué, por que  você ainda  tá  aqui? – Perguntou a Claude,  esfregando os olhos  e  bocejando.
- Porque eu não quis deixa-las  sozinhas.
- Ah! Você já  “saro”  mamãe? – Perguntou subindo na cama – Eu deixei a  Serafina aqui pra ela  “toma”  conta  de você, você  viu?
- Vi sim, querida!  - Respondeu Rosa sem deixar de olhar  para  Claude. – Ela  cuidou direitinho da mamãe. Obrigada.
- Eu tô morrendo de fome, você não tá?
- Estou sim, Alex...
- Voilà! – Disse Claude sorrindo – Creio que  todos estamos, hã?  Alex o que acha de  me ajudar com o café  da manhã e então trazemos algo para  sua mamãe?
- Eu posso ir  pra  cozinha e fazer o café da manhã! -  Protestou Rosa, tossindo em seguida.
- Pode, não é?  – Concordou Claude levantando-se - Mas não deve.  É melhor se resguardar, Rosa. Pelo menos  por hoje.  d`áccord?
- Ok, ok... Mas  banho está liberado não está?
- Ouí.  – Responde sorrindo -  Vamos lá, pequena?  - Falou em seguida estendendo a mão para Alex.
Rosa os observou saírem do quarto com a impressão que  sonhava um sonho. E que a qualquer  momento acordaria...
Quando apareceu na porta da cozinha minutos  depois, Alex  comia  bolo.
- Ah mamãe, eu ia levar  bolo pra  você lá  no quarto...
- Bem, agora já estou aqui, hum? – E deu um passo a frente.
Mas precisou se  apoiar  no batente  da porta, sentindo-se  zonza e quando percebeu, Claude a segurava.
- Pensei que  tivesse mais juízo, hã?  Devia ter  voltado para a cama!
Queria  contesta-lo mas sentia-se fraca  demais e não discutiria com ele na frente de Alex.
- Tem razão... Poderia me ajudar a voltar pra lá? – Perguntou levantando o olhar para ele.
No instante seguinte estava sendo carregada por ele.  Ouviu o riso alegre de Alex, seguindo-os.
- Posso saber do que está  rindo? – Perguntou Claude, intrigado, entrando no quarto.
- Aham... – Disse engolindo o último pedaço de bolo -  É que o “príncepe” sempre carrega a princesa assim e depois eles “vive” felizes para  sempre!
- D`áccord... Por que não  vai  buscar  o bolo da mamãe enquanto o príncipe aqui a coloca na cama?
Alex deu outra  gostosa risada e girando o corpo  correu para a cozinha.
E alguma  coisa na  maneira como ele  pronunciou a palavra mamãe fez  o coração de Rosa disparar.
- Talvez não seja  o melhor momento... – Sussurrou Claude sentando-se e olhando-a -  Mas eu preciso saber.  Por que escondeu que Alexandra é minha  filha?
- Quem... Como descobriu? – Perguntou tentando controlar a respiração, mordendo o lábio inferior.
- Da forma mais incontestável que há... Ela tem a mesma marca de nascença que eu...
- Deve estar me odiando, não é?
- Não. Magoado talvez. Mas sei que deve haver uma razão para  ter  feito isso...
- Sim... Eu tive medo e...
- Eu  demorei porque vim devagarinho pra não “derrubá” nada, mamãe... – Falou Alex entrando no quarto, equilibrando  um prato plástico com alguns pedaços de bolo. – E coloquei mais  bolo pra  gente  “come” com você.
Estendeu os braços assim que chegou perto  da cama e Rosa segurou o  prato. Alex  subiu na cama e ajeitou-se entre os dois.
- “Vamo come”? – Disse então pegando um pedaço.
Rosa pegou um pedaço e aguardou alguns instantes, mas  Claude não se serviu.
- Não vai  comer? – Perguntou a ele.
- Eu acho que não cabe mais   bolo na barriguinha dele não, mamãe. Ele  comeu três “pedaço” na hora que  você “tava” tomando banho.
- Alex! -  Exclama Rosa, em tom de suave mas firme reprimenda.
- Voilà,  não precisa se zangar  com ela, Rosa. Eu realmente  comi os três pedaços  e não pedi segredo, hã?
- Mesmo assim. – Afirmou olhando para a menina – Nós não devemos  contar quantas  coisas alguém comeu. É muita falta de educação e respeito. Deve pedir desculpas ao Claude,  ok?
- Desculpa. – Diz Alex
- D’àccord, d’àccord! Está desculpada, pequena.  Não  vamos  fazer disso uma tempestade. O que quer  beber? Encontrei suco e leite  em sua  geladeira.
- Suco  ou leite? Eu gostaria mesmo era  de um café...
-  Que sorte. Eu passei um café agora  a pouco, e isso era  um segredo.  Espero que não se  importe por eu ter invadido sua  cozinha.
- Claro que não...
- Eu volto num minuto. – Disse saindo do quarto.
Instantes  depois quando voltava cruzou com Alex no corredor.
- A mamãe deixou eu “assisti” um pouco de desenho antes de “i” pra escola! -  Ouviu-a dizer alegremente enquanto corria para a sala.
- Só um pedaço  de bolo? – Perguntou ele observando o prato sobre  o criado mudo, entregando a xícara  de café a ela.
- Um e meio. – Respondeu Rosa – Eu comi a metade que Alex não quis. - E levando a xícara aos lábios  tomou o café. – Seu café  continua delicioso!
- Merci.  – Disse ele sério, voltando a sentar-se na cama. -  Seu bolo também, hã? Mas será que pode me contar  porque teve medo de revelar  sobre Alex?
 - Acha mesmo que devemos  falar sobre isso agora?
- Ouí. A não ser que esteja  muito indisposta...
Rosa esticou o  braço, colocando a xícara ao lado do prato.  Foi em menos  de um  minuto, mas  foi tempo suficiente para concluir que Claude  estava certo. Melhor esclarece tudo. Não era isso que estava disposta a fazer antes  de ficar  doente?
- Ok. Eu queria contar desde que  chegou aqui. Mas então você me acusou de ter um  amante e ele ser o pai de Alex.
-  John Smith. – Murmura Claude.
- Por muitas  vezes  me  convenci que seria fácil  provar que você  é o pai dela.  Pela mesma maneira que  você descobriu. Só não falei  porque tive  medo que usasse esse argumento, de ser amante de alguém, para  tirá-la de mim...
- Pensa que eu seria  capaz  de separá-las?
- Eu não sei! – Exclamou Rosa tossindo -  Você estava tão diferente do Claude que eu conheci... – E seus olhos lacrimejaram - Frio, arrogante, irônico...
- D’áccord...  – Concordou ele – Eu sinto muito tudo isso que  fiz, hã? Mas diga-me, também teve medo de  me contar que estava grávida antes de me abandonar?
-Eu não o abandonei.  - Diz  Rosa, balançando a cabeça e franzindo a testa  - Você pediu que eu saísse da  sua  vida! E nem  teve  coragem de  falar pessoalmente, incumbiu sua mãe de  informar  sobre a sua decisão naquele dia em que  levou Nara de  volta ao internato.
- Não, você a incumbiu de dizer que  a vida ao meu lado estava monótona e  por isso voltava  para  cá!
- Meu Deus, Claude, eu nunca disse isso! Lembra-se bem daquele dia?  Eu fiquei porque não me sentia bem, então você adiou a  conversa que queria ter  comigo para quando  voltasse. Disse que era algo importante, que  mudaria nossas  vidas...
- Claro que lembro.  Havíamos  combinado uma parada na volta, porque  cada um tinha  algo importante para  dizer  ao outro...
- Eu iria  contar que estava  grávida.  Era uma informação que  você leria nos agradecimentos da minha tese...  Porém,  pouco depois que  vocês  saíram  sua mãe me fez ir até a biblioteca e disse que  você havia decidido concorrer a um cargo público e não sabia como me  pedir, não tinha  coragem de  pedir que eu  fosse embora, porque não estava “à altura  de suas pretensões” políticas por ser uma estrangeira sem “linhagem nobre e sem dinheiro”.  Que estava arrependido de ter se deixado levar por uma simples atração física. Expliquei que estava grávida  e ela ofereceu uma  boa  quantia,  em euros, para que eu... Que eu desistisse do bebê. Eu recusei, é obvio. Pediu que eu  o compreendesse e não fizesse cenas ou escândalos para não prejudica-lo. Então Roberta  mostrou as alianças que selariam seu compromisso com ela. Para mim foi  algo importante, que mudaria  mesmo nossas  vidas.  O que mais eu poderia fazer?
- Mon Dieu... As alianças eram para o nosso noivado, chèrie! Pedi a Louise que as  guardasse até eu  voltar, não queria que as encontrasse antes!  E quando eu cheguei já era  noite, fui direto ao nosso quarto e tudo que encontrei foram algumas  roupas suas sobre a cama. Então Louise apareceu perguntando o que eu faria com as alianças  já que  você havia  feito as malas às  pressas e simplesmente avisado que estava indo embora, a procura de outra  aventura que terminasse em sexo mais intenso e quem sabe mais compensador  financeiramente do que apenas morar em uma mansão  ao sul de Paris.
- É claro que  fiz as malas às pressas! Louise conseguiu uma passagem num voo direto que saia em três horas... Foi Roberta quem me ajudou com elas e quem me levou até  o aeroporto.  Poucos  dias  depois  de chegar,  ouvi a notícia de sua adesão  à politica, ocupando a função que havia  sido de seu pai no partido.
- Eu entrei para o partido  justamente para te esquecer! Queria ocupar  todo o meu tempo  em algo que não me  fizesse lembrar você! Abandonei todos os meus projetos artísticos principalmente  o livro que escrevíamos  juntos.
- E teve mais  sucesso que eu... Só saiu dela depois que sua esposa morreu!
-  Minha esposa?
- Você  disse que  ela  havia  morrido quando me  pressionou a ser sua amante.
- Dieu! E você entendeu que eu falava  de Roberta?
- E não era? Não  foi com ela que se casou?
- Não... – Fez uma pausa -  Eu só casei uma vez na  vida e  foi com você, Rosa!
- Então... Isso quer dizer que...
- Que eu tentei mata-la dentro  de mim. Mas nunca  a esqueci e bem deixei de amar. Também tenho consciência de que não mereço seu perdão. Acho que posso viver com isso agora que sei a verdade mas  por favor, não  me afaste de nossa filha!
- Você me ama?!
- Muito mais que antes. Por isso, tenho  que fazer  o certo para você mesmo que signifique me machucar ainda mais. Fui fraco,  me  comportei como um canalha contigo e...
- Certo é quando um homem se atreve a confessar suas fraquezas.  Ele se torna o mais forte. E sabe?  Se quer  mesmo fazer  o certo para mim, para nós três, saiba que deve escolher  o caminho do amor. Eu quero tentar  outra  vez,  não importam as dores, as angústias, nem as decepções que eu tive ou   terei que encarar. Eu amo você, Claude Geraldy...
- Não deveria me amar depois  de tudo que  fiz você  fazer...
- Quando vai entender que fiz “tudo que me fez fazer” justamente porque te amo?
Claude abraçou o  rosto de Rosa  com as mãos,  deslizando os polegares  suavemente, enquanto mergulhavam  um no olhar  do outro, no mais profundo silêncio. Foi Rosa quem o quebrou.
- Claude,  – Murmurou  ela – Agora é a hora  em que  o príncipe  beija a princesa...
Claude sorriu e inclinou a cabeça lentamente.
- E depois eles vivem felizes para sempre -  Sussurrou com os lábios  encostados aos dela.
E foi um beijo terno, de amor, de reconciliação. Sem exigências. Um beijo tipicamente romântico, de um  príncipe  em uma princesa.






Então Claude  afastou-se o  suficiente  para  falar.
-  Precisamos  todos  ser  felizes. Vamos contar  a Alex...
-  Assim, sem prepara-la? Não, eu tenho medo que ela  se zangue e...
- Ela não  vai se zangar, chèrie...  Talvez  não compreenda  tão rápido, mas...
- Ela acredita que  o pai, quero dizer  que  você está  cuidando de  sua mãe doente. Não sei porquê criou essa história, eu nunca disse isso!
- Alexandra é uma garota esperta e fez isso  inconscientemente para se proteger.   Mas  encontraremos  um jeito de falar sem causar maiores traumas  a ela. Vem!
Ajudou Rosa  a levantar-se da cama e entraram na sala de mãos dadas.  Alex assistia a TV com atenção.
- Filha, - Disse Rosa   -  A mamãe e o p... E o Claude; nós precisamos  falar  com você.
- Ah, já tá na hora  de “tomá” banho pra escola? – Perguntou  parecendo decepcionada. – “Mais” não “acabô” o desenho  da  rainha do gelo ainda! – Argumentou segura, ficando em pé  sobre o sofá.
- Não,  não é  isso.  – Explicou Rosa abaixando  o  som da TV e sentando-se ao lado da  filha. – É sobre o seu  papai. O  Claude... - Tentou  falar, mas a  voz embargada a impediu.
Alex olhou fixamente para Rosa  por  alguns  segundos.  E voltou a atenção para Claude, quando ele  começou a falar:
- Pequena, ontem  a noite você  disse que  gostaria que  eu  fosse  o seu papai, não disse?  - Falou Claude sério, ajoelhando-se  de frente  a ela sob o olhar  atônito de Rosa.
- Aham... – Concordou e em seguida inclinou-se e perguntou  bem baixinho – A mamãe vai ficar brava  comigo?
Claude  trocou um rápido olhar  com Rosa  antes  de continuar.
 – Não. Ela quer  contar que eu sou mesmo o seu papai, mas está  com medo que  você  se zangue com ela e  comigo.
- Você é  o  meu papai de verdade?
- Sou. – Confirmou segurando seu olhar  ao dela
Alex piscou várias vezes e afundou-se no encosto do sofá.
- E porque  você  demorou tanto  tempo pra “vim fica coa” gente?
- Porque eu estava... Preso muito longe daqui sem saber  de você.
Alex abriu os olhos entre assustada e surpresa e questionou:
- A  bruxa malvada prendeu  você numa torre?
Só então Claude percebeu que usara a  palavra errada. Mas nada que não pudesse  contornar.
- Como é que  você  adivinhou, hã?  Ela era minha madrasta e se transformou  numa  bruxa muito má separando sua mamãe  de mim e eu de vocês.
-  E por que ela  virou bruxa?
- Porque ela é muito egoísta, sabe o que quer  dizer?
Alex  balançou a cabeça,  negativamente.
 - É não querer  dividir nada  com os outros  - Explicou Claude -  Mas eu consegui  fugir e encontrar vocês duas.
- Eu pensei que você tava demorando por causa que  sua mamãe tava doente e que  você  tava  cuidando dela...
- Não, a minha mamãe morreu  faz  tempo. De quem eu preciso e queri cuidar agora é de você e de  sua mamãe. 
Alex pareceu  desconfiada e afastou-se lateralmente  no sofá antes de perguntar:
-“Mais” você gosta mesmo de mim?
- Eu amo você, pequena. É muito mais que gostar.
- E a mamãe, você ama ela também?
- Ouí. – Responde Claude entrelaçando seus  dedos aos de Rosa, beijando-os.
Alex seguia cada  movimento de Claude.
- E você mamãe, você ama o meu papai?
- Sim meu anjo, eu amo o seu  papai do  fundo do meu coração.
Alexandra ficou em silêncio, como se estivesse refletindo sobre  o assunto para  tomar  sua  decisão. E inesperadamente saltou do sofá  e  correu em direção ao seu  quarto.
- Alex! – Exclamou Rosa agitada, levantando-se. – Está  vendo? Era  disso que eu tinha medo. Ela não vai me perdoar... – E procurou consolo o abraço de Claude.
- Ei... Acalme-se, chèrie! Não subestime a capacidade de amar  de nossa  filha, hã?
Então Alexandra voltou resmungando:
- Ai, eu não acho onde tá “os sapatinho”! – Ah, olha eles aqui! – Exclama passando por  Claude e Rosa.
E segurando os  tamancos  de madeira contra  o peito se aproxima  dos  dois e  diz:
- Já que  você é o meu papai dá pra  você  “coloca  esses sapatinho  nos pé”  da minha mamãe “ingual” o “príncepe”  fez “coa” Cinderela?
- D’àccord. -  Respondeu Claude fazendo uma reverência  real, antes de pedir a Rosa que sentasse.
 Alex subiu outra vez  no sofá ao lado de Rosa. Enquanto Claude  ajoelhava-se e calçava  os  tamancos em Rosa, Alex alisava os  cabelos da mãe.
- Esses  sapatos  estão na medida perfeita para a minha princesa. – Afirmou Claude –  Eu gostaria de  pedir a Vossa Alteza  Real, Lady Alexandra, permissão para me casar  com ela.
- “Mais”  você nem beijou a princesa  ainda! – Respondeu Alex – Tem que fazer que nem na historinha.
- Voilà... – Disse Claude levantando-se, e levando consigo Rosa  a beijou rapidamente sobre os lábios.
- Ehhhhh! – Exclamou Alex batendo palmas
- Agora sim? – Questionou-a Rosa
- Aham... – Disse Alex descendo do sofá. -  Eu preciso  contar pra Serafina que  você é o meu papai! – Gritou eufórica,  sumindo pelo corredor.
- Relaxa, hã? – Pediu Claude a Rosa, sentindo a mão dela trêmula entre as  suas.
 – Foi mais  simples do que pensei – Respondeu Rosa, descansando a cabeça  no ombro de Claude.
 - Ela  vai processar  tudo isso sem problemas. – Disse ele, envolvendo-a com os braços.
- Hummm... É tão bom me sentir assim novamente, protegida dentro do seu abr..
Rosa parou de falar abruptamente, ao escutar o choro de Alex. Desprendeu- se de Claude e girou o corpo. Alex estava parada na entrada  da sala segurando  Serafina com uma das mãos e com a outra  lutava  contra as lágrimas.
- Alex... – Murmurou Rosa aproximando-se, seguida  de Claude – O que  foi meu amor, por que está chorando?
- Porque o... Claudenão... podesero... meupapai! – Afirmou com a  voz magoada entre os  soluços que tentava  evitar.
- Por que não? - Perguntaram Claude  e Rosa  ao mesmo  tempo.
- Porque você... falou que.... o meu papai... chama Antônio... – Explicou-se em tom de acusação.
Claude imediatamente a pegou no colo.
- Mon Dieu, tranquilize-se Alexandra. Sua mãe não mentiu, eu   sou  seu pai. Antônio é meu segundo nome, d’àccord? Claude Antoine,  ou  Claudio Antônio...
Alex respirou rápido, suspirando e soluçando. Procurou a confirmação no olhar de Rosa.
As lágrimas também  impediram Rosa de falar imediatamente. Então com a mão sobre a boca, Rosa  apenas chacoalhou a cabeça, num sim.
Então Alex passou um de seus braço em  volta  do pescoço da mãe mantendo  o outro em torno de Claude, e deixando a  boneca  cair.
- Você não conseguia falar Claude, querida – Conseguiu explicar-se Rosa finalmente.
Claude abraçou as  duas, beijando Alex e Rosa na testa. Ficaram assim, até que Alex parou de chorar e disse:
- Papai, você  pode “pega” a  Serafina pra mim? Eu tenho que “pedi” desculpa pra ela...
Com a boneca nas mãos, Alex escorregou para  o chão e pedindo desculpas a ela, avisou que ia  para  seu quarto colocar Serafina para dormir.
Rosa sorriu mordendo o lábio para segurar a  risada. Então a tosse reapareceu. Tossiu várias e várias vezes. E quanto mais se esforçava para evita-la, mais  tossia.
Quando a crise passou, escutou a voz de Claude:
- De  volta para a cama, hã? Passou emoções demais  por hoje.
- Não, eu estou  bem... – E espirrou três vezes.
- Estou vendo. – Afirmou ele, carregando-a para  o quarto -  Já está na  hora do seu remédio  e  vai descansar por algumas  horas.
- Horas?  Alex tem escola e a galeria...
- A galeria a vai sobreviver sem nós por um dia, Rosa. Quanto  a Alex  eu poderia leva-la à escola. Mas não seria melhor  ela  ficar em casa hoje depois de toda essa  agitação?
- Tem razão... Eu  vou ligar para a coordenadora e explicar... – Falou pegando  os  comprimidos da mão de Claude.
- Mamãe  eu tô com fome de novo! – Exclamou Alex entrando no quarto.
- Por que não vai assistir outro desenho e eu levo alguma  coisa  para  você  comer, hã? –  Sugeriu Claude sob  o olhar admirado de Rosa.
 - Ta  bom!  - Respondeu  Alex desaparecendo.
- O que  foi,  por que  está me olhando assim? - Disse Claude  enquanto Rosa engolia o  remédio.
- Só admirando sua atitude...  Sabe me dizer por que ela está com o pijama ao avesso e de trás pra frente?
- Oh, isso é uma longa história, chèrie!
- Eu tenho todo o tempo do mundo para  ouvi-la...
-  D’àccord... Ontem a noite você estava muito mal e Alex teve a ideia de chamar a doutora Erci para  examinar você, hã? Ao sair ela sugeriu que Alex  tomasse um  banho preventivo antes  de dormir. Mas   Alex não me deixou ajuda-la porque eu não


PSV


                                                         Continua
 na  próxima semana



sexta-feira, 17 de junho de 2016

PSV/Capítulo 38

PSV



- Foi horrível, Frazão! – Falou Nara aceitando a água que ele lhe  oferecia.
- Tenha  calma e  me  conte  exatamente  o que aconteceu, d’àccord?
- Estávamos lá,  minha mãe, eu e Roberta, que  me apoiava e ajudava a convencê-la sobre a minha  decisão. Eu    havia exposto  todos os meus pontos  de vista e já estava  sem argumentos, quando Bernard apareceu. Acho que minha  mãe  o chamou sem que eu percebesse.
- E o que ele fez? Machucou  você?
- Não, não fisicamente... Mas  ficou muito alterado quando falei da  minha desistência... Droga eu não desisti, eu nem ao menos  fui consultada se queria.
- Mas  contavam  com  sua ajuda, querida.
- Pois eu estou feliz em ter tomado essa decisão depois  de tudo que vi, ouvi e descobri. -  Afirmou colocado o  copo sobre  a mesinha.
-  Pelo seu  tom de  voz, foi algo bem ruim... – Comentou  Frazão, aguardando o tempo dela em se abrir.
-  Ruim  é  pouco... Eu  imaginava alguma  coisa  errada nas  atitudes de minha mãe, mas  não essa    sujeira toda! Quando os  convenci que  não  voltaria atrás, Roberta sugeriu assumir o meu lugar, quero  dizer,  o lugar  de  noiva de Bernard.  Ele  pareceu não se incomodar, mas minha mãe... Eu nunca a vi  tão descontrolada, tão  histérica...  Ofendeu Roberta,  humilhando-a com palavras que eu prefiro não repetir e  afirmou que jamais a  deixaria  assumir  um papel de destaque político  como esse. Então Roberta tirou algumas  fotografias  da  bolsa e jogou sobre  a mesa. Fotos  de minha mãe  com Bernard.  A partir dai esqueceram  de mim e passaram  a discutir entre eles.  Roberta ameaçou publicar as  fotos e tudo  ficou nojento demais. Eu peguei minha bolsa e sai, vim pra cá. Ainda  bem que minhas  malas já estavam aqui com você.
- Não avisou a ninguém sua  saída?
- A Elise apenas.
- Louise não  vai  gostar  disso, Nara.
- Bem, isso será problema dela.
- Não tem receio que ela  venha  atrás de  você?
- Ela  só vai dar  por  minha falta amanhã, quando eu não aparecer  para o almoço e mandar aos  berros,  a pobre Elise me chamar. Só  que ela não  vai mais  me  ver.
Conversaram um pouco mais e Frazão surpreendeu-se com a maturidade e segurança de Nara. Decididamente A Nara que estava em seu quarto de hóspedes não era mais aquela garota ingênua  que  voltara  do  internato meses atrás.



PSV




Sílvia colocou  as  xícaras no escorredor  de louças enquanto Rosa tirava a mesa  do café  da manhã,  forçadamente.
- Obrigada, Sílvia. Mas  devia ter  deixado tudo isso aí na pia, hum? – Sua  voz é  bem  rouca.
- Como se  você  não me  conhecesse! – Respondeu sorrindo e preocupada com Rosa - Tem certeza que não quer que eu leve e traga Alex?
- Claro que tenho! Aliás,  hoje é  seu primeiro dia  de férias, nem sei porque  veio... -  E a tosse a impede de continuar.
- Para me despedir de vocês. Ontem foi  aquela  correria e acabei esquecendo.
- Eu  vou sentir muita  saudade de você, Sílvia! – Falou Alex descendo da cadeira e abraçando a babá.
- Eu  também. – Retrucou ela – Por isso,  olha só o que eu  trouxe  para  você! – E foi tirando um embrulho da mochila e entregando a menina.
- Um livrinho de  “pinta” do Frozen! – Exclamou Alex. – Olha mamãe!
- Estou vendo, querida. Não tem nada a dizer para Silvia?
- Obrigada, Silvia! Eu amei. Você me ajuda a “pinta” os desenhos?
- Filha, Silvia  está saindo de férias, esqueceu?
- Ah, é mesmo! “Mais... Mais” quando você  voltar   você “mi” ajuda então?
- Ajudo sim, fofinha! – Concorda abraçando-a. – Agora eu tenho que  ir. Comporte-se na minha ausência, hem! – E dá um beijo em Alex.
- Tá bom! Eu  vou lá   “começa” a “pinta” agora, tá?! –  Diz depois de retribuir.  – Tchau!
- Tchau! – Diz  voltando-se  para Rosa – Bem, se precisar  de mim não hesite em me chamar. Não quer  mesmo que eu fique hoje, você  está tão abatida...
-  Não meu bem. Você está de férias e vai curti-la, ok? Eu agradeço de coração  sua  oferta, mas  não precisa. Vou tomar meus  comprimidos e ficar  de cama o dia  todo, na companhia da minha baixinha e amanhã estarei em forma!



PSV




- Elise! Elise estou  chamando, você é surda? – Gritou Louise exasperada.
- Desculpe senhora Geraldy, eu estava na  cozinha, o que  deseja?
- Vá  chamar  Nara, diga para descer imediatamente.
- A senhorita Nara não está.
- Como não está?
- Ela não  dormiu em casa, senhora.
 - Como assim, Nara  não  dormiu em casa?
-  Bem a cama dela não está  desfeita, então eu imagino que...
- Você não é  paga para imaginar nada sua inútil. Eu mesma  vou chama-la!
- Mas senhora...
- Cumpra  apenas sua obrigação:  coloque a mesa para  duas pessoas e sirva o almoço antes que eu perca a fome. – Disse sem olhar  para a  governanta e subiu ao quarto de Nara.
A cama estava impecável como Elise  havia  dito, observou Louise procurando algum indício que desmentisse essa possibilidade.
Nara é uma mosca  morta, não tomaria  uma atitude dessas, de sair  de casa por  conta própria, pensava enquanto ia  ao closet e abria  o armário. 
Respirou fundo diante dos inúmeros  cabides vazios. Abriu as gavetas, também em sua maioria quase vazias.  Desceu a escada e entrou na biblioteca indo direto a gaveta onde guardavam documentos.
Faltava o passaporte de Nara.
-Maldita! – Exclamou Louise para  si mesma, voltando à sala de visitas.
Elise esperava pacientemente ao lado da mesa para  servi-la.
- Posso começar a  servir, senhora?
- Eu pareço com alguém que  quer  comer? Estou cercada de inúteis! –  Diz  Louise quase gritando, alcançado sua   bolsa no aparador.
E procura  pela chave do carro sem sucesso.
-  Onde está a chave do carro?
- Eu  não sei senhora...
- Pois procure  sua estúpida! – Ordena já aos  berros -  Ou quer ser demitida por incompetência?
Elise sai a procura da chave e minutos  depois retorna.  Louise  revirava as almofadas do sofá.
- Senhora, a chave estava no contato  do carro. E este envelope estava sobre o banco. É para a senhora.
Louise logo reconhece a letra de Nara e rapidamente  lê  o curto bilhete  da  filha e muda seus planos.
- Retire a mesa.  Elise. - Ordena deixando a sala de jantar. -  Você não  vai mudar ou impedir meus planos,  Nara! – Exclama amassando a  folha.



PSV



Claude deixou a galeria pouco depois das onze horas da manhã. Almoçaria  com Dadi e depois iria até a empresa de Freitas, a pedido dele,  para se inteirar de algumas  modificações sobre a  contabilidade  da galeria. E explicações  sobre  a notificação da receita estadual que a galeria recebera.
Na volta, tinha o intuito  de dizer a  Rosa que a amava, e que ela só aparecesse em seu apartamento se também o amasse e o perdoasse. Recomeçariam e seriam felizes para sempre. Rosa, Alex e ele.


PSV



Louise atravessou a rua a passos largos e logo estava dentro do elevador. Àquela hora encontraria Bernard  em casa, tinha certeza disso.  Quarta-feira era o dia da semana  em que ele não  comparecia ao seu gabinete da prefeitura.
Quando a porta se abriu entrou sem esperar convite. Só então reparou  que não era  Bernard ali na sua frente. Era Roberta. Bernard apareceu em seguida vestindo um roupão. O  mesmo roupão que havia dado a ele.
- Então Roberta, por que está demorando com nosso almoço, eu estou com fome... Louise?
- Se eu fosse idiota como minha  filha, iria perguntar o que está acontecendo aqui. Mas é óbvio  que  estavam na cama e agora estão com fome. Deviam ter aparecido na mansão. Eu almocei sozinha, já que Nara está a caminho do
Brasil. – Falou aparentemente  calma e controlada, esperando uma reação de Roberta que não houve.
-  O que espera indo para  a cama com Bernard, Roberta?  Que ele se case  com você?
- E por que não? Eu sou uma  ótima opção para  substituir Nara. Posso ajuda-la em seus  projetos, faria tudo que  fosse  possível, não tenho  escrúpulos  como Nara...
- Não tem  mesmo não é querida? – Afirma  Louise aproximando-se  de Roberta e  fazendo um leve carinho em seu rosto. – Acredita  que eu vá querê-la  como minha aliada,  sua vadia? - E desfere um tapa  em Roberta.
- Louise! – Exclama Bernard segurando-a, tarde demais.
- Você pode  até ter ido para  a cama com Bernard, mas eu fui primeiro e você não vai se casar com ele. Não se cansa de ficar  com os restos?    Se bem que  no caso de Claude, nem com  os restos você  ficou. Você é uma perdedora, Roberta.
- Bernard, você não vai fazer nada em minha, em nossa  defesa? – Fala Roberta  diante da apatia dele.
Bernard engole em seco e abaixa a cabeça. Louise  solta uma gargalhada.
- Pobre Roberta! – Fala em seguida,  sarcástica.
- Pois bem  eu não preciso que me defenda! – Exclama aproximando-se de Louise pronta  para ataca-la fisicamente. Mas de repente  abaixa o braço e  começa a rir.
- Não, eu não  vou sujar  minha mão, não  vou deixar marcas em você, Louise. Não físicas. Eu posso ser vadia para  você, mas que nome a  sociedade francesa dará  à mãe que dorme, que tem um caso com o futuro marido da filha?
E enquanto fala coloca os sapatos, o casaco  e pega  sua  bolsa. Já está  na porta quando  Louise retruca.
- Acha que isso vai me destruir?
Roberta gira apenas a cabeça e com um sorriso irônico responde.
- Ah, não... Eu não quero destruí-la. Uma parcela significativa do partido, do seu partido é  conservadora.  Eu quero desacreditá-la, quero que perca apoio e doações. Quero que seu nome  conste na lista  dos  piores escândalos políticos  desse país, como  culpada e não como vítima. Safou-se uma vez, Louise. Prepare-se para enfrentar  sua  pior inimiga. Terá noticias minhas,  “querida”. 
Abriu a porta e quase colidiu com o  entregador.
- Sai da frente, seu estúpido! – Exclamou deixando o apartamento de Bernard.
- Hummm, o que  foi que pediu? – Disse Louise olhando para o rapaz, como se nada  houvesse acontecido.  -  Vamos Bernard, pague o rapaz e vamos almoçar.  Estou morrendo  de fome!



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- Então é isso, Claude. O autor da obra não está obrigado pela legislação tributária a emitir  nota fiscal, a não ser no momento que ela entrar no estabelecimento adquirente, contribuinte do imposto, no caso a Galeria.
- Por isso preciso de um controle mais eficaz na emissão de notas fiscais e um maior  cuidado com os lançamentos nos Livros Registro de Entradas e Saídas.
- Não se preocupe. Foi um erro de digitação com relação ao  mês de emissão da Nota Fiscal de Revenda da peça. Mas  como você  pôde  constatar, a informação já foi retificada, inclusive junto a Receita Estadual. E qualquer ônus será  por nossa conta, é  claro.
- D’àccord. E quanto a mudança da emissão de notas fiscais eletrônicas?
- Pois é o aplicativo gratuito era uma vantagem por não ter o custo do provedor, porém,  a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo desativará esses aplicativos gratuitos e será obrigatório ter emissores próprios, incluindo o Conhecimento de Transporte Eletrônico.
- E vocês já procuraram alternativas?
- Já sim.  – Afirma Freitas - Escolhemos o software que conta inclusive com suporte técnico especializado.  Porém falta decidir o provedor.  Um que ofereça  melhor custo. Mas ainda temos um tempo...
- Fique atento, hã? Não deixe para a última hora, esses softwares geralmente exigem treinamento e parametrização para funcionar adequadamente.
- Já temos uma equipe treinada, Claude. Estamos migrando nossos clientes do aplicativo para ele, e faremos isso com todos antes que as novas regras de validação impeçam o seu funcionamento.
- Cheguei a imaginar que isso estava ligado a demora do meu visto definitivo, hã?
-  Impossível. – Explica Freitas – São esferas administrativas diferentes. Claude pessoa física e  Athena pessoa jurídica. Federal e estadual, respectivamente neste  caso. Com certeza  seu processo está parado por conta  dessa  falsa crise sócio-politica-econômica. Mas como estão no prazo, não temos  o que fazer, senão esperar.
- D’àccord.  – Diz Claude dando ciência aos protocolos  de mudanças contábeis da galeria. –  Conto  com  sua presença em  nossa próxima exposição, hã?
- É só avisar dia e hora, meu caro.
- Mandarei alguns convites. As peças já estão chegando. Será um prazer apresenta-lo aos curadores italianos.
- Foi muito bom fazer  essa parceria com  você, Claude. Eu era praticamente um analfabeto em arte, mas agora passei a me interessar e...
Conversaram alguns minutos  mais, trocando opiniões sobre  pintores antes que Milton  entrasse, seguido de uma secretária em apuros.
- Eu disse que estava ocupado... – Falou  ela olhando  diretamente para  Freitas, desculpando-se.
- Tudo bem, Alzira. Eu tenho certeza que o Milton não fez isso com má intenção. – Afirmou Freitas, em tom de ironia.
- É claro que não! Me desculpe... Claude não é?
- Ouí.  Eu já estava de saída, hã?
- Não estava viajando, Milton?
- Cheguei ontem. – E  olha para Claude. – Aliás  o Smith estava voltando da Europa no  mesmo voo. Só não entendi porque levou  Elisabete, a esposa e não Rosa, a amante...
- Milton, há anos  você faz essas  acusações infundadas, desde que levou um fora dela, por que insiste nisso ainda?
 - Infundadas? Ela  volta da Europa,  desdenha  do meu interesse e algum tempo depois  “aparece”  grávida.  Isso para mim é suficiente.
Freitas balança a cabeça com um sorriso irônico.
- Já pensou que ela pode ter  voltado grávida da Europa? E para  sua informação, Liz Smith está  se  recuperando de um tratamento delicado.
- Bem, eu tenho  que ir... – Diz Claude levantando-se.
- Que isso, francês!  - Fala Milton -  Fica um pouco mais e dá um palpite, afinal  você  os  vê todos os dias, não é mesmo?
- Você parece muito seguro do que fala.  Que importância  teria  minha  opinião?
- Outro que  fica em cima  do muro. – Resmunga Milton com um sorriso cinico . -  Que  foi, está a fim dela também? Vai fundo, cara, há chances, ela parece ser mais fácil pra estrangeiros como você, ou John Smith.
Claude teve uma  vontade enorme de esmurra-lo, em defesa a Rosa,  chegando a fechar os dedos e mover o braço para cima mas  controlou-se a tempo despedindo-se apenas  de Freitas antes de sair.
- Ih,  parece que o francês ficou zangado com a  brincadeira. -  Continuou  Milton – Ou então está a fim da vadia mesmo! – Concluiu.
- Milton, se eu perder a conta da Athena,  você vai arcar com o prejuízo. Ainda bem que  Rosa não frequenta mais o mesmo círculo social que  você e está por  fora  de suas  insinuações.
- Sabe que eu descobri por acaso que ela mesma leva a filha  a escola  todos os  dias? Estou pensando seriamente em voltar a investir nessa relação.  Afinal de contas, você está  falando com o novo dono da Eros Galeria. Aceitei a proposta.



PSV



Rosa esforçou-se para tirar a mesa  do lanche  da tarde. Deixou a água cobrir a louça  suja e adicionou um pouco de detergente  sobre ela. Amanhã lavaria tudo, enquanto  fizesse o café da manhã. Guardou o leite, os  frios, a  geleia e a manteiga na geladeira; o pão e as  bolachas no armário.
- Mamãe já  tirei a  roupa! – Ouviu Alex gritando  do banheiro.
- A mamãe já está indo! – Gritou de  volta,  sentindo a voz  falhar.
 Deixou o chá e o café  sobre a pia e  foi   banhar  Alexandra.







Achou melhor banhar-se também, pois não  gostava de deixar Alex sozinha, enquanto fazia  alguma  coisa. Acidentes  domésticos por  descuido eram mais frequentes do que  se pensava.
Logo seria noite. Noite  de quarta-feira. Mas nessa noite  não iria ver Claude. Nem nas outras. Não poderia  continuar com isso. Não estava certo. Suspirou e prometeu a si mesma que quando ele a cobrasse no  dia seguinte, porque ele cobraria, diria  a ele  o único motivo do porque não podia mais se submeter a isso. Ainda o amava. Mas não para ser uma amante eventual...
Então algumas  bolhas  de sabão sopradas por Alex a  trouxeram de  volta.
Foi dando instruções e deixou que ela se ensaboasse sozinha. Alex a observava e  imitava seus movimentos. Quando já estavam sem espuma envolveu-a numa  toalha e colocou  apenas o  roupão sobre si. Enquanto a vestia ponderou que  havia  feito certo em não  leva-la a escola naquele dia. Sentia-se extremamente  cansada, com dor pelo corpo e receava que a cabeça não demoraria  a doer.  Até  o abdômen doía de tanto espirrar e tossir. Se Alex  tivesse ido, teria que  recorrer a Janete fazendo com que ela  saísse  durante o  expediente. Dormir. É tudo que eu preciso, além de tomar  mais uma  dose  do remédio.
Esperaria  Alex dormir para fazer isso.  Com certeza  não demoraria pois havia brincado todo  o tempo.  Respirou fundo, sentindo-se  também feliz.  Há quanto tempo não passavam  um dia assim, só ela e Alex, muita  bagunça e brincadeira?
Escovou e prendeu os  cabelos da filha num rabo de cavalo.
-  Agora você  me ajuda a “acaba”   de pintar a Elsa?
 - Ajudo sim. – Respondeu enchendo o peito de ar deixando-o entrar pela  boca, já que pelo nariz parecia impossível.




PSV




Claude  retornou à galeria,  certo de que encontraria Rosa. Mas  não  foi o que aconteceu. Ela não  havia  comparecido no  turno da tarde nem deixado qualquer explicação sobre  sua não presença.
Tomou o  café que Elisa lhe trouxera a pouco, antes de ir embora. Ela também não sabia  de Rosa. Janete havia  ido com Sérgio até a  prefeitura para dar entrada no novo projeto de  reforma da  galeria e não voltariam ali.
Ao tentar  falar  com ela  pelo celular, notou uma ligação perdida de Nara. Depois de  falar  com Rosa ligaria  para a irmã.  Tentou  inúmeras vezes falar com ela, trocou o celular  pelo  fixo   mas ambos  davam  caixa  postal.









 As acusações de  Milton  voltaram a sua mente e envenenaram seus pensamentos. Apertou com força o lápis entre os dedos. Em quem vai acreditar, em sua intuição ou nas palavras desse sujeito que Rosa desprezou?
Até Freitas suspeitava que ela já estivesse grávida quando retornara... E como gostaria  de ser o pai de Alexandra! Mas Milton insistia naquela história sobre  Rosa  ser amante  de John.  Ele os conhecia desde a faculdade. Muito antes  de eu entrar  em sua vida, Rosa...
Talvez Milton tivesse visto, presenciado alguma  cena entre os  dois, uma atitude suspeita qualquer... Ele mesmo não havia  percebido a troca de carinho e o modo como se falavam com o olhar?
E Rosa não havia  cedido a sua  chantagem idiota para garantir  uma estabilidade financeira ao americano?
Mas ela não aceitou as investidas de Milton. Droga! Como posso estar  tão  confuso assim, como se  fosse um adolescente ciumento e possessivo?
Então ligou para o casal Smith. Liz atendeu e Claude lhe deu as  boas  vindas, desculpando-se por não ter ligado antes e perguntou por John.
A resposta que ele havia saído para  resolver alguns problemas particulares não lhe agradou.  E a maneira  como Liz disse que precisava  falar com ele  com urgência,  pessoalmente e  fora  da galeria, menos ainda.  Liz não quis nem mesmo adiantar o teor da  conversa e combinou um café, no  restaurante perto da galeria,  para o dia  seguinte, à tardezinha.
Quando recolocou o  fone no gancho percebeu pela janela que já estava  escuro. Saindo da galeria  tentou o celular  de John. “Este número está temporariamente indisponível ou fora  da área de cobertura”.
- Voilà!  - Exclamou seriamente entrando no carro. – São quase sete horas  da noite de uma quarta-feira. Eu espero  mesmo que  você apareça, Rosa. Sem atrasos.





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- Droga, papai! – Resmungou  Roberta voltando a apertar a campainha ininterruptamente. – Por que não abre  logo essa porta?
Então escutou o  ruído da chave girando e soltou-a.
- Até que enfim, papai! Pensei que ia  amanhecer com o dedo na campainha. – Reclamou entrando.
- Roberta,  já passa da meia  noite, o que faz aqui?
- Eu preciso daquele envelope! – Explicou-se  dando alguns passos em círculo, visivelmente nervosa.
- O que há de tão importante nele que a fez  vir até aqui, sozinha, correndo o risco de ser  assaltada? – Pergunta buscando o envelope  na gaveta de um móvel.
- Segredos, papai. Verdades secretas que serão reveladas! – Diz tirando o envelope das mãos  do pai,  conferindo seu interior.
- O que está  tramando, filha? Melhor  pensar  duas  vezes  antes de...
- Estou há dez horas pensando, papai! Dez longas  horas! E nada nem  ninguém vai me  fazer mudar  de ideia.
- A quem vai prejudicar dessa vez, Roberta? A  outra namorada de Claude?
- Claude? Quem está pensando em... – Faz uma  pequena  pausa – Claude! Voilà, papai!  Você acaba de dar a solução que eu procurava. É claro que ele  vai  ficar abalado e vai precisar de alguém que o apoie nessa hora! Obrigada por ficar  com isso e  boa noite!
-Roberta! O que está tramando?
- Já que não  quis saber  o conteúdo deste envelope, seja  paciente papai.  Amanhã, você, a França e o mundo todo saberão do que se trata. – Diz  como se tudo fosse uma charada a  ser desvendada. – Bonne nuit, papá! – Diz  beijando-o na  face e afastando-se.
- Roberta! – A chama ele, inutilmente.  - Filha! – Insiste dando um passo adiante.
- Au revoir, papai! Darei notícias. – Responde antes  de bater a porta.
- Mon Dieu, o que ela estará planejando? - Pergunta-se  o pai de Roberta, preocupado.





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Quando  Claude chegou em casa encontrou um bilhete de Dadi: “O voo  de Nara e Frazão  para o  Brasil sairia naquela madrugada.”
Fez  uma careta, desgostoso  consigo mesmo. Como foi esquecer de retornar a ligação perdida  da irmã...





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Patrick Vernier juntou  todas as  fotos e guardou-as  no envelope, devolvendo-a à Roberta, que ansiosa esperava pela resposa.
- Sinto muito, Roberta, mas  o Magazine de la journée não vai  publicá-las.
- Como não?  Você  disse que se eu  chegasse antes  da uma da manhã daria  tempo, seria a capa, a principal manchete . E meu cheguei!
- Isso foi antes de saber que o assunto envolvia  Louise Geraldy e Bernard Dardeau. Se tivesse adiantado esse detalhe, teria evitado todo esse transtorno.
- Não pode estar  falando sério... É justamente  por envolvê-los, que escolhi o seu jornal para  denunciar! Um jornal sério, honesto e imparcial. Já contabilizou quantos exemplares vai vender a mais? – Argumenta mostrando a foto em que Louise e Bernard se  beijavam em frente ao hotel.
- Agradeço sua confiança, mas não  sou o dono, apenas o editor chefe. E como editor chefe, e minha obrigação zelar pela conduta, pela linha editorial e ser  fiel aos  seus  colaboradores e patrocinadores. Louise e um deles e eu não quero perder meu emprego. Tenho uma família, Roberta.
- Mas que droga! Eu quero falar com o dono desse... Desse pasquim. Me passe o telefone pessoal dele!
- Querida, eu seria incauto se fizesse isso. Além do mais, Jacques Houdin tem cargo no congresso graças a Louise. E cá entre nós, tem também o rabo preso com ela. Publicar essas  fotos seria  como   declarar a terceira   guerra mundial.
- Covardes, é isso que  vocês são! – Exclamou Roberta, quase histérica. – Mas  tudo bem. Eu sempre  tenho um plano “B”. Obrigada por nada, “querido”! – E  sai da  redação do jornal, sem perder a pose e batendo a porta.
Patrick caminha até a porta e abrindo-a,  dá uma ordem:
- Prossigam com a manchete sobre o golpe no Brasil, pessoal. E à todo vapor ou atrasaremos as entregas!
Três horas depois, Roberta  guardava um cheque em sua  bolsa, recebido ao entregar o envelope a um jornal sensacionalista.  A única ressalva era ter que esperar mais  vinte e quatro horas para ver a imagem da poderosa  Louise Geraldy impressa aos beijos com Bernard.  “A amante  francesa do genro”.  Essa seria a manchete.
Valeria  a pena esperar. E enquanto esperasse  faria  sua mala para  deixar  o pais. Claro que com o primeiro exemplar  do jornal em mãos.





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O celular tocou e Rosa abriu os olhos assustada. Só identificou que estava  no sofá da sala quando seu olhar  caiu sobre a tela da  TV.
Demorou alguns  segundos para localizar o celular entre as almofadas e segurando-o identificou a chamada:  Claude. E antes  dessas muitas mais, todas perdidas.
Tentou lembrar  porque ligara o celular e olho para o aparelho fixo. Aquele continuava  fora  do gancho. Fizera isso para passar  o dia em paz e recuperar-se. Porém, não se sentia nem um pouco melhor.
Ignorou a ligação de Claude  e voltou sua atenção para a tela da TV e só então percebeu que a imagem estava congelada.
E eu também pensou esfregando os braços tentando se aquecer.
 - Preciso ir para o quarto. – Murmurou tentando ordenar  os pensamentos. E onde estaria o controle para desligar a TV?
Impulsionou o corpo e mal se levantou uma crise de espirros a impeliu à posição anterior. E depois deles,  a tosse. Não sabia o que  doía mais,  a cabeça ou o abdômen.
Deitou-se  novamente  no sofá, mas  a dificuldade para respirar  a impedia de encontrar alguma posição confortável para  ficar. Não segurou outro acesso de tosse e tossiu até ter ânsias e a garganta arder.
Quando a crise passou,  lentamente apoiou-se no encosto do sofá. Podia  sentir todas as  suas  costelas. Elas pareciam querer saltar para  fora.
Não podia se render. Tinha que lutar e ficar  boa rápido... Pegou o celular disposta a ligar para alguém, mas antes de ligar outra chamada. Claude novamente. Droga ele não vai desistir, pensou atendendo a ligação. 
- O que você quer? – Perguntou sem rodeios.
- Lembrá-la que hoje é  quarta-feira e está atrasada. Você deveria estar aqui e inteira a meu dispor.
As palavras de Claude entraram em sua mente, mas processar e entendê-las é que estava   difícil.
- O que  foi? Perdeu meu endereço ou a memória, por acaso?
- É evidente que não! – Respondeu Rosa igualmente irônica.
- Ótimo. Tem vinte minutos para chegar aqui, d’àccord?
- Impossível, não me sinto bem! – Explicou-se com a voz rouca e muitos espirros.
- Não adianta usar  seus espirros alérgicos como desculpa,   Rosa. Tem um compromisso comigo. Ou devo desconsiderar  sua palavra?
- Você é desprezível, Claude.  Eu te odeio!
- Odeia? Não, de todos os sentimentos do mundo, ódio é  um dos que você menos sente em relação a minha pessoa. Não é ódio que  demonstra ter quando fazemos amor, chérie
- Não fazemos amor, Claude. Fazemos sexo.
- Se prefere assim, d’àccord. – Diz sarcasticamente - Não é ódio que  demonstra quando fazemos sexo. O seu “desempenho” enquanto ‘transamos’ é fantástico!  E uma pessoa que odeia outra seria passiva. Resistiria e não demonstraria  prazer no ato sexual, hã?
- Quer saber, Claude Geraldy?  -  Replicou engasgando e tossindo -  Dane-se! – Falou encerrando a ligação, irritada mais por ter engasgado  que tudo.
Não demorou nem um minuto e o celular  vibrou.  Leu a mensagem: “Se não estiver aqui no tempo programado aguente as  consequências”
“Faça o que bem entender!” – Digitou desligando o celular de vez, jogando-o sobre o sofá.
E toda essa agitação lhe deu  forças para  levantar.
Foi até o  quarto da filha e certificou-se que ela  estava bem e dormindo. Mesmo tremendo muito, conseguiu tomar um banho e colocar uma  camisola qualquer.  Outra dose de comprimidos e deitou-se  decidida a  dormir. Expulsou todos os  fantasmas que insistiam em lhe perturbar.
Já estava  na tênue divisão entre  sono e realidade quando ouviu a campainha tocar. Parecia um sonho e ignorou  a princípio.  Mas o som continuo a despertou e quem quer que  fosse devia ser urgente, ponderou.
De algum canto sua memória sugeriu que devia ser Sílvia, mais uma vez esquecendo sua chave. Mas para que ela a quer se está saindo em férias?
 Forçou-se a levantar e  se arrastou até a sala. O som da campainha fazia sua cabeça doer novamente.
- Droga, eu já vou!  - Rosa tentou  falar alto enquanto caminhava até porta, escorando-se nos móveis.
Abriu a porta e deu um passo para trás.
 – Você?! – Exclamou enfrentando o olhar enfezado de  Claude - O que quer aqui?
Claude passeou pelo corpo dela, coberto apenas pela camisola e respondeu.
- Não diga que não sabe! – E foi suficientemente irônico  entrando sem esperar  convite.
- Combinamos que isso nunca aconteceria em minha casa! - Rosa fechou a  porta, automaticamente. – Além disso, estou sem condições para... para...
-  Para  fazer sexo comigo? Ou ele está aqui? – Perguntou Claude no meio da sala, colocando as mãos na cintura, sob o cós da  calça.
- Ele(?)  Ele quem? – Pede Rosa, sentindo-se desorientando, esfregando as têmporas que latejavam fortemente.
- John Smith. O seu amante, a pessoa por quem você me trocou seis anos atrás!
- Oh! De novo essa história...  - Diz  cansada e sem forças  para pensar ou discutir - Já que insiste nisso o apartamento nem é tão grande assim. Fique a vontade e o procure por aí. –   Tente  dentro do guarda-roupa...– E fez um gesto com as mãos -  Só tome cuidado para não acordar minha filha, está bem?
E sem dizer mais nada deu alguns passos na direção do corredor que levava aos quartos.
- Onde pensa que  vai? -  Questionou Claude,  segurando-a pelo braço.
- Quer me soltar, eu preciso deitar não vê que estou doente? – Pediu com os olhos úmidos, sentindo-se subitamente quente demais para o suor frio que tomava  seu  corpo.
- Mon Dieu, você está ardendo em  febre, Rosa! Há quanto tempo está assim?
- Tempo? Não sei, algumas  horas talvez,  me solta!  Eu não posso ficar  com você! Alex... Eu não posso deixa-la sozinha! O que está fazendo? Por favor, Claude não... - Suplicou antes que sua  visão  perdesse o foco e o rosto dele se transformasse  em um borrão.
Não se sentia  mais parte  do mundo. Escutou uma porta bater em algum lugar do vazio de sua mente. Que  importância tinha aquilo, agora?  Flutuava numa nuvem e estranhamente sentia-se  protegida pela firmeza dela sob seus pés e logo em seguida pelo corpo todo, quando Claude a deitou sobre o colchão da cama.  Então, perdeu a consciência total, incapaz de continuar resistindo ao esgotamento físico.
Claude notou a cartela  de comprimidos quase vazia sobre  o criado mudo, enquanto  tentava acomodá-la melhor, quando escutou a  voz  tensa de Alex atrás de si:
- Por que você  tá na cama com a minha mamãe?
Surpreso virou-se e viu a miniatura de Rosa vestida com um pijama de bichinhos, segurando uma  boneca de pano contra o peito.
Os olhos, grandes e escuros estavam abertos e alertas. Denotavam que ela estava apreensiva, talvez  com medo, considerou Claude. Sorriu para ela e respondeu gentilmente:
- Você devia estar  em sua cama, pequenina...
- Eu acordei com  um barulho de porta... Por que  você  tá aqui no quarto da minha mamãe? Você tá namorando ela?
Claude  sentiu o rosto empalidecer e engoliu em seco.
- Não, não estou namorando sua mãe. – Respondeu sentindo-se um canalha. - Seria tão ruim se estivesse? – Perguntou curioso da  resposta de Alex.
- A minha mamãe não pode ter namorado porque eu e ela “tamo” esperando o  meu papai voltar pra  ficar com a gente...
- Esperando? Onde está o seu  papai? – Perguntou, curioso da resposta.
- Ele  tá bem “lonnnnge” cuidando da mamãe dele que tá doente.  E quando ela sarar ele vem buscar a gente! – Respondeu Alex, ajeitando o cabelo de sua  boneca.
Claude ficou em silêncio. Como Rosa podia conviver  com essa situação e ainda envolver uma criança na história, inventando essa inverdade? E que capacidade de criação trocar a palavra esposa por mãe para explicar à menina a falta  do pai.
- E como se chama seu papai? Será que eu o conheço?
- A mamãe  disse que ele chama Antônio. Eu acho que  você não conhece ele, porque eu também não conheço...
Rosa resmungou algo e isso desviou a atenção de Claude.
-A mamãe tá  sonhando? – Perguntou ela, tentando ver a mãe atrás de  Claude.
- Não, sua mãe está doente, Alexandra.
- O que ela tem?
- Está  com muita febre.  Precisamos de um médico e eu não conheço nenhum.
Alex ficou olhando seriamente para Claude. E depois para Rosa. Então saiu correndo do quarto.
- Mas o que foi que eu falei demais? – Perguntou Claude em voz alta.  - Alexandra... – Chamou-a  erguendo-se para sair atrás dela.
Mas Alex já  voltava segurando nas mãos uma agenda em vez da  boneca.
- Quando eu fico doente, a mamãe liga pra  tia Erci! – Exclama confiante entregando a agenda  aberta na  letra ‘E’ para Claude.
- Você é muito esperta, sabia? – Elogiou-a Claude  pegando seu celular para telefonar.
Com certeza “tia Erci” devia ser  a pediatra, mas ela poderia  indicar alguém, pensou.  Descobriu que a médica morava no mesmo prédio e em poucos minutos ela apareceu por lá, parecendo surpresa com  a presença dele ali. 
Com certeza acharia mais natural se fosse John Smith,  ponderou consigo.
Erci conhecia a casa e foi direto ao quarto de Rosa.  Examinou-a,  medindo temperatura e pressão primeiramente. Rosa,  entorpecida pelo medicamento resmungava várias  palavras, mas  as mais enfáticas eram sobre estar bem  e sobre Alex.
- Sua filha está ótima, Rosa.  – Argumentou Erci, tentando  acalmá-la. - Você é quem precisa de cuidados dessa vez.
- Eu estou bem. – Falou pausadamente -  É só um mal estar... – Continuou tossindo muito.
- Sabe há quantos  dias ela está   com esses  sintomas?
- E creio que as  crises  começaram há  dois ou três dias. – Falou Claude -  Foi depois que ela  mexeu em alguns papeis guardados na galeria...
- Certo. Provavelmente é uma crise alérgica aguda.  Vou prescrever e entrar  com uma medicação mais forte. -  Explica indicando a cartela de comprimido – A primeira  dose  tenho aqui -  Diz  preparando uma seringa. – É melhor esperarem no corredor.
Alex não queria ir, mas Claude soube convencê-la, perguntando  sobre  o canguru.
- Alex... – Murmurou Rosa enquanto recebia o medicamento. -  Onde ela  está?
- Está aí  no corredor,   com seu amigo francês.
- Meu amigo francês... Claude? Meu Deus, ele  está mesmo aqui?
- Não sei se ele é  o Claude mas  é francês. Não  esqueça de agradecer a Deus e ele depois, querida. Porque agora  você  vai dormir, ok?
- Agrade... cê-lo? – Tentou entender, mas  o efeito do remédio a fez dormir quase   instantaneamente.
Erci guardou seus aparelhos na maleta e deixou o quarto. Encontrou Claude e Alex na sala.
- A mamãe vai ficar boa?
- O que ela tem? -Perguntaram Alex e Claude ao mesmo tempo.
- Sua mãe está  com uma  gripe muito forte Alex, mas ela  vai ficar  ótima.
- Eu posso “i vê ela”?
- Pode. Mas não a acorde. Tudo que ela  precisa é repousar.
- Tá! – Responde pegando a  boneca e correndo para o quarto.
- Tínhamos um compromisso e como ela não apareceu vim até aqui. –Explicou-se Claude, achando necessário. -  Fiquei preocupado com o estado dela, mas não conheço médico algum aqui no Brasil. Foi  Alex quem teve a ideia de chamá-la.  Que bom que é apenas uma gripe.
- Faz muito bem em ficar preocupado e não  vou poupá-lo como fiz com Alex. Uma gripe nem sempre é só uma gripe, é uma  doença altamente contagiosa e pode  apresentar complicações e  evoluir para um quadro de pneumonia,  devido às bactérias que atacam os pulmões,  aproveitando desse estado debilitado do corpo .
- Acha que  Rosa  está com  pneumonia?
- Aparentemente não, parece mais um caso de alergia causada por  fungos, mas não é  minha especialidade.  Se  os sintomas não diminuírem ela deverá consultar um especialista. Aqui está a receita. A próxima dose deve ser administrada em oito horas, e essa era minha última amostra.  Então creio que deva compra-lo agora. Tem uma farmácia vinte e quatro horas há algumas  quadras  daqui.
- D’àcoord, eu darei um jeito. Quanto lhe devo?
- Eu acerto com Rosa depois. Ela não gostaria que eu aceitasse o seu dinheiro.
- Como pode saber disso?
- Porque Rosa  é muito independente. Eu só não vou sugerir que saia, porque Alex parece  confiar muito em você senhor...
- Geraldy. Claude Geraldy. – Disse acompanhando-a até a porta. – Eu sou o  novo curador da galeria e conheci Rosa há algum tempo, na Europa.  – Achou melhor explicar.
- Ah! – Exclamou Erci. Então era mesmo Claude. Será que ele linha um irmão ou algo parecido? – Pensou antes de continuar - Ela deverá dormir a noite  toda, mas se precisar me chamar não hesite. Boa noite, senhor Geraldy.
- Boa noite, doutora Erci. E obrigado, hã?
- Ah! – Exclamou Erci segurando a  porta - Seria  bom Alex  tomar banho e higienizar-se antes de dormir, por precaução.
- Eu vou providenciar que faça isso. Merci, mais uma vez.
Claude deixou a receita sobre um aparador e foi ao quarto. Rosa dormia mais tranquila enquanto  Alex a acariciava.
- Muito  bem  pequena, hora de deixar  sua mãe descansar, hã?  Venha!   -  Disse estendendo a mão para ela.
Sem hesitar Alexandra  segurou a mão de Claude e desceu da  cama deixando  a boneca ao lado da mãe.
- Não vai levar  sua  boneca?
- Não, a mamãe  me deu ela quando eu peguei cata... cata...
- Catapora... – Concluiu perguntando Claude.
- É, catapora! Como você  sabe? Já pegou  catapora?!
- Eu não lembro, mas se tive,  deve ter sido quando tinha sua idade, hã?
- Ah! Eu fiquei cheia de bolinha vermelha.  Aí a mamãe  comprou ela pra mim.
Isso explicava as várias pintinhas vermelhas, feitas com alguma caneta e espalhadas pelo rosto e  braços da boneca, pensou Claude.
- E  aí ela falou que sempre que eu ficasse  com saudade dela, porque ela “tava” trabalhando, era “pra mim abraça” a Serafina.
- Serafina?
- É eu dei o primeiro nome da mamãe pra ela...
- D’àccord. –Uma maneira lúdica de sentir a presença da mãe,  compreendeu  Claude.
-  Agora precisamos de uma toalha. A doutora Erci disse que você deve tomar banho antes  de dormir, para não ficar  doente também. Sabe onde tem uma?
- Aham. Aqui no armário – Respondeu apontando o armário embutido entre seu quarto e o banheiro.  - Mas  você não pode  “me dá banho”...
- Por que não? Eu não sou estranho, sou amigo de sua mãe...
- Mas eu sou menina e você  não...
- Voilá... – Respondeu  Claude sorrindo,  pegando a  toalha.  - Então vai ter que toma-lo sozinha. Acha que consegue?
- Eu “vo te” que lavar o cabelo?
- Não, eu creio que não precise.
- Então eu consigo! – Respondeu Alex entrando no banheiro, com a toalha enrolada. Mas  você precisa “ligar” o chuveiro pra mim...
Assim que a água começou a cair, Alex pediu licença e correu o Blindex  fosco do box, fechando-o. Claude  voltou ao quarto, e procurou um outro pijama limpo para ela.
- Pronto eu já  tomei banho!
Claude virou-se e não pode deixar de rir. Alex tentava desesperadamente segurar a toalha em torno do corpo, provavelmente  tentando imitar Rosa.
Mas  como a toalha era  grande demais, estava toda atrapalhada. Seu rabo de cavalo estava  cheio de  gotinhas d’água e as pontas completamente molhadas.
- Mon Dieu, um pouco rápido demais... Mas  é melhor que nada. Sabe se vestir sozinha?
- Aham... –  Resmungou enquanto sacudia a cabeça afirmativamente sem parecer muito confiante.
- D’àccord. – Respondeu Claude  colocando o pijama sobre a cama e afastando-se - Estarei na sala, ouí? – Falou já na porta.
Saiu e antes de ir para a sala deu uma espiada em Rosa.  Ela havia se mexido lateralmente e estava descoberta. Ajeitou a manta de verão sobre ela e tirou a mexa de cabelos que havia caído sobre o rosto.
Alex entrou na sala parecendo orgulhosa de si mesma enquanto  Claude falava  com Dadi e explicava a situação  avisando-a que não teria hora para  chegar em casa.
E  por algum motivo que lhe escapava ele também sentiu-se orgulhoso,  pois as únicas  coisas que denunciavam que ela havia  se vestido sozinha eram a calça do avesso e a blusa de trás pra frente. Mas quem estava preocupado com isso?
Quando explicou  a ela que iria até a farmácia Alex insistiu  em ir junto. Claude já ia  dizer não quando pensou que seria mais prudente leva-la  consigo a  deixa-la praticamente  sozinha, já que Rosa estava  sob efeito de remédios e dormia  profundamente.
Pediu a Alex que  colocasse algo nos pés e ela apareceu calçando   os tamancos de madeira. Claude os reconheceu.
- Pode ser  esse sapatinho?
-  Não vai cair  com eles?
- Não, a mamãe sempre deixa eu usar. – Explicou-se pegando na mão de Claude sem mencionar que era “presente  do seu papai para  sua mamãe”, como sempre  fazia.
Claude tentava entender porque se sentia tão responsável pela garota e o porquê ela  confiava  nele. Na saída do prédio, pegou-a no colo e só quando já estava abrindo a porta do carro lembrou-se de algo importante:
- Mon Dieu, não tenho a cadeirinha em meu  carro,  Alex. Vou  leva-la de volta ao apartamento e vai prometer  ficar quietinha,  ouí?
- Ah, não! Eu quero ir junto! – Respondeu agarrando-se ao pescoço dele.
- D’áccord eu entendo que queira ir, mas seria perigoso para você pequena!
- Ah, deixa eu “i”! – Insistiu chorosa.
- Sua mãe nunca me perdoaria se  acontecesse  algo contigo, hã?
- Mas já tá “dinoitinha” eu fico deitadinha no banco de trás eu prometo! Deixa...
- D’àccord, vamos tentar.  – Respondeu após breve  hesitação.  – Mas non tente  nenhum truque  para ocupar o banco da frente. D’àccord?
- Oba! Você  liga o som do carro?
- Ah, você  gosta de música? Eu também e...
Alexandra cumpriu sua  promessa e ficou deitada durante  todo o trajeto de ida e  volta  perguntando muitas  coisas sobre  ele. Então, de repente  começou a acompanhar a música do rádio. Claude segurou a risada. Alex se esforçava para alcançar as notas e acompanhar a melodia numa pronúncia muito particular, porém com muito ritmo.
- “Uéu nodeinau lerigo lerigo cante roudi beque animor”    [Well, now they know /let it go, let it go/Can't hold it back anymore].
 E tão de repente quanto começara a cantar parou, perguntando:
- Você tem namorada?
- Não. – Respondeu Claude fazendo o contorno e parando no sinal vermelho
- E filha?
- Também não.
- E você ia  gostar  de ter  uma?
- Namorada ou filha?
- As duas  coisas. – Explicou-se rindo.
- D’àccord. Eu acho que sim...
- Por que você fala ‘dacór’ toda hora?
- Porque eu nasci na França e é assim que falamos por lá. D’àccord – Repete Claude acentuado a pronúncia  francesa – Significa de acordo, que estou  concordando contigo. E ouí...
- Essa eu sei, é sim! – Exclamou Alex –  A mamãe já me falou isso muitas  vezes! Lá na França tem castelo?
- Ouí. Tem muitos  castelos  por lá. 
 - E você mora em um? – Perguntou  sem segurar um gostoso bocejo.
- Non  – Falou  engatando a primeira após o sinal verde.
- Ah... – Murmurou parecendo decepcionada -  E sapatos, você tem “bastaaaaante”  sapatos?
 - Voilà, sapatos eu tenho alguns. Por que quer saber isso? – Indagou curioso, pegando a pista da esquerda cuidadosamente.
- Porque eu acho que o meu papai tá demorando muito para  voltar. Dai eu “tava”  pensando se você desse um sapatinho pra minha mamãe  e ele “servi” no pé dela  “ingal” o “príncepe”  fez  ‘coacinderela’ você podia ser o meu papai né? Eu ia  “gosta” e você?
A explicação de Alex o pegou  desprevenido, embora  seu  coração sugerisse que sim. Não podia criar  essa expectativa na cabecinha  dela. E quando finalmente pensou em algo, já estava em frente ao prédio e  pelo retrovisor notou que ela  dormia. 
Enfiou o remédio no bolso do blazer e  com alguma  dificuldade conseguiu tira-la  do carro, sem acordá-la. Passou pela portaria e  subiu. Sua sorte  foi não ter trancado a porta a chave e assim, com Alex nos braços conseguir abri-la  sem muito esforço.
Entrou e empurrou-a com o pé, girando o corpo. Ficou imóvel e apertou os lábios  temendo que Alex  acordasse pois os tamancos  caíram de seus pés. Mas ela  continuou agarrada a seu pescoço e a linha  séria de seus lábios se transformou num largo sorriso.  Uma sensação incrível que ele não conseguiu definir tomou conta de todo seu ser.
Apertou-a mais contra  si e levou-a para o quarto. Cuidadosamente a colocou na  cama, cobrindo-a com o edredon. Alex abriu os olhos e resmungou algo.
- Shhhhhhhhhh – Murmurou Claude acariciando-a na face com as costas da mão. – Durma pequena, já está  segura em seu castelo, hã?
Alexandra esboçou um sorriso e relaxando virou o corpo de lado, dando as costas para ele. O cabelo dela ainda preso num rabo de cavalo o incomodou.
- Mon Dieu,  não deve ser confortável dormir assim... Vamos tirar este elástico,  d’àccord? – Falou baixinho.
E puxou-o com delicadeza fazendo-o escorregar para  fora  do cabelo de Alexandra. Uma  pequena mexa caiu teimosamente sobre o rosto dela. Claude o trouxe com o indicador para detrás da orelha  ao mesmo tempo que  inclinava  e dava um beijo de boa noite na face  da menina.
Foi ao se afastar que aconteceu. Seu coração parou por um segundo e em seguida disparou descontroladamente enquanto seu  olhar  pousava naquela  discreta marquinha em forma de estrela, atrás da orelha esquerda de Alexandra.

PSV 

                                           Continua em breve.