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terça-feira, 29 de março de 2016

PSV/Capítulo 31

PSV

- Eu não concordo em antecipar esse noivado com sua  filha, Louise.  – Falou Bernard afivelando o  cinto e colocando o casaco.
- Mas é necessário. Nara está procurando notícias antigas  sobre a morte de François...
- E o que tem de  estranho nisso? Era  pai dela, não era?
- Tem que ela está ficando arredia, querendo se libertar  do meu domínio, Bernard.  E está procurando um motivo qualquer  que ligue meu nome à  morte de François.
- E existe essa possibilidade?
- Claro que não! – Exclama Louise. -  François estava sendo duramente acusado de  coisas que não fez. Seu erro foi confiar em pessoas erradas, eu apenas tentei ajuda-lo como podia. Gastei horas  do meu tempo tentando convencer  dois promotores  da sua inocência. Infelizmente a mídia e alguns assessores anteciparam o  resultado da condenação e ele teve  o AVC.
- Sabe o que penso? Que  sua  filha não serve para esse jogo. Ela é inocente demais para  compactuar com  os acordos que  a política impõe.
- Ela é jovem! Vai atrair outros jovens e suas  famílias. Votos e mais  votos, querido!
-  Embora  seja sua  filha,  ela não tem a política na veia Louise. Devíamos pensar em outra pessoa.
- Outra pessoa quem, por exemplo?
- Alguém como Roberta. Que já tenha experiência de vida e não seja uma  menina  que sonha em se apaixonar  à primeira  vista.
- Roberta? Por que exatamente usou Roberta  como exemplo? Está interessado nela?
- Eu disse alguém “como” Roberta, Louise. -  Argumentou desconversando -   Traria investidores, além de  alguns  setores da mídia a nosso favor, se é que me entende.
- Roberta seria uma escolha interessante tempos atrás. Mas está muito mudada. Distanciou-se  de mim,  parece ter esquecido Claude... Certamente está  com alguém. – Afirma levantando-se  da cama. –   É melhor que não seja você, Bernard. – Conclui antes de  entrar no banheiro.
- Assim você me ofende, Louise! – Exclama Bernard cinicamente próximo a porta.    – Vou  espera-la lá embaixo, ouí?



PSV



Rosa conversou com os alunos, e deixou o ateliê da galeria depois de conferir os últimos   trabalhos supervisionados por Sérgio. Estava satisfeita e orgulhosa pelo compromisso dele com esses  projetos.
Passou pela  copa e  servindo dois cafés  foi até Janete. Eram pouco mais de três da tarde.
- Que tal uma pausa, Janete?
- Café, como eu precisava de você! - Exclamou levando a xícara aos lábios -   Obrigada, Rosa.
- Não tem o que me agradecer, Jane. Quantas vezes  você  não faz o mesmo para mim?
- Oras, mas eu  sou sua  secretária! – Exclama Janete, explicando sua lógica.
- Você é mais que minha secretária e sabe disso. Eu é  que preciso pedir desculpas. Com todos esses acontecimentos desde a doença de Liz eu me afastei de nossa vida social...
- Bem, não podemos chamar o que temos de “vida social”.  Deixando de lado nossa agenda de vernissages,  íamos ao cinema uma vez por semana e eventualmente em alguma peça de teatro. Nenhuma balada, nenhuma esticadinha...
- Você  devia encontrar um namorado, Jane.  
- Só eu? – Questiona de forma indireta.
- Alex consome todo meu tempo livre.  - Defendeu-se Rosa - Além do mais seria  complicado... Eu jamais colocaria um homem antes de Alexandra. Ela é minha prioridade. – Afirma abaixando a mão com  a xícara até  o pires.
- E se  o pai dela aparecesse?
A mão de Rosa treme e um movimento involuntário quase a faz deixar a xícara cair.
- Oh, perdão Rosa! Eu não quis ser indiscreta! Por favor me  desculpe, eu sei que você não gosta de falar sobre isso e... Droga, eu devia ter ficado de boca fechada!
- Está tudo bem, Janete! Eu... Eu tenho mesmo que resolver isso dentro de mim. Acontece que ele não sabe de Alex.
- Isso é algo que  você deve resolver o quanto antes. Já sabe minha  opinião: nunca devia ter escondido dele que estava grávida.
- Ele tinha outros projetos...   Eu  e uma gravidez indesejada não estávamos incluída neles. – Afirma Rosa com a voz trêmula.
- Isso foi o que ouviu da mãe dele!
- Ela  foi muito convincente, acredite.
- Continuo com a mesma impressão: você foi precipitada. Devia ter  esperado ele voltar daquela viagem e escutado dele, seja lá quem for “ele”.
- Talvez eu possa escutar agora... -  Murmura Rosa.
- Agora? Como assim, ele está  no Brasil?
Rosa respirou fundo, antes de olhar para a amiga, mas  o telefone tocou ao mesmo tempo em que  disse “Jane”
- Galeria  Athena, boa tarde! – Disse Janete atendendo. – Senhora Catarina Paranhos – Continuou olhando para Rosa – Sim, estamos ansiosos também... Neste momento apenas Rosa está na galeria... Claro  vou passar para ela, um momento.
- Vou atender na minha sala, Janete.  Os papeis da proposta estão lá. -  Falou baixinho afastando-se.
Rosa conversou com Catarina por vinte minutos, acertando alguns detalhes  da proposta. Marcaram uma nova reunião, dessa vez na galeria.
Conferiu as anotações que  fizera e grifou os itens mais urgentes. Abriu a gaveta para  guardar a pasta com os papeis. A mesma gaveta onde pusera o bilhete de Claude.
Olhou para o relógio.  Dezesseis horas e cinco minutos. Pegou o bilhete passou os olhos  por ele. Se Claude não chegasse logo não seria hoje que teriam essa conversa. As dezessete sairia para pegar  Alex na escola.
Controle-se, Rosa.  Não crie expectativas demais, elas podem te decepcionar... “Conversar sobre tudo” ainda é muito vago. Tudo  sobre o que? Sobre a galeria,  sobre o passado, sobre a noite passada?
Fechou a gaveta como se o gesto a protegesse de alguma coisa e levantou-se. Então ouviu uma leve batida na porta  e em seguida a figura elegante de Claude tomou todo seu campo de visão. Guardou o bilhete no bolso do seu casaco apressadamente.
- Está de saída? – Perguntou ele.
- Não. Ainda tenho algum tempo antes de  ir buscar Alex na escola...
- E ela  já se adaptou a essa nova  rotina?
- Já sim, obrigada  Ela agora  passa as manhãs  com Silvia e as tarde na escola. Mas as noites continuam sendo comigo.
- Sua  filha é uma garotinha  incrível. Como você. – Disse Claude admitindo que estava com saudade da menina e tentando ignorar aquele boato sobre John ser  o pai dela.
- Eu não sou incrível. -  Afirmou Rosa, saindo de trás da mesa, andando até a janela.
Seguiu-se um momento de silêncio. Então Rosa voltou-se para ele e falaram ao mesmo tempo.
- Leu o meu bilhete?
- Você me deixou um bilhete...
Sorriram um para  o outro e seus olhares se encontraram.  Claude deu um passo para frente, indeciso, e recomeçou.
- Sei que deve estar  muito magoada e decepcionada comigo, mas...
- Rosa, John ao telefone, posso passar?
- Claro, Janete.  Passe logo, por favor! – Pediu Rosa, girando o corpo rapidamente de costas  para Claude na intenção de ser breve com John e continuar a conversa com ele. – John, que  bom ouvi-lo! Claro que estamos  com saudade de vocês... – Foi o que falou, antes de ouvir o som da porta  batendo. Poderia jurar que a sala estremeceu tanto quanto ela. 



 PSV



Frazão  sentou-se ao lado de Nara e segurando suas mãos disse:
- Eu sinto muito  em manchar essa imagem perfeita que tinha de  Louise, Nara.
- Eu sei. Claude, você e até mesmo Dadi quiseram me poupar dessa verdade, mas ela apareceu não é mesmo? Eu tenho uma mãe  corrupta e inescrupulosa. O suficiente para usar  o próprio corpo como  moeda de troca.
- Vai superar isso, garota! – Afirmou Frazão, consolando-a.
- Como ela pôde, como ela  concordou em   deixar meu pai assumir a culpa  das  coisas erradas que fez?
- Mesmo que ele não fizesse isso, eram dele as assinaturas validando e autorizando cada ato, Nara.
- Mas ele assinou sem ler, confiando nela!
- E Louise  confiou demais em si  mesma ao acreditar  que evitaria um julgamento.
- Oferecendo a si mesma aos promotores... Eu queria que ela  confessasse isso para mim.
- Ela jamais fará isso.  A morte de François dissolveu o processo e encerrou o caso.
- E então ela envolveu o Claude nessa sujeira de política, esperando fazer a mesma  coisa e agora quer  envolver a mim também.
-  Seu irmão entrou para procurar provas da inocência de seu pai.
- E ele conseguiu alguma?
- Sim, ele tem alguns papeis que  podem ligar  Louise às remessas de dinheiro desviado de obras para paraísos fiscais. 
- E  por que ele não a denuncia?
- Por você. Seu pai antes de morrer pediu que ele fizesse de tudo para que  você não soubesse.
- Ele sempre  me fez enxergar  nossa família com a “família perfeita”.  Por isso me fez ficar naquele semi internato. Frazão, eu não quero fazer parte desse jogo e se eu casar  com Bernard é isso que vai acontecer. Ela  vai  encontrar um jeito de me usar.  Eu vou para o Brasil.  – Afirmou decidida, levantando-se. - E se você não quiser me acompanhar até lá, vou sozinha!
- Está mesmo decidida, não é? – Perguntou vendo-a confirmar com a cabeça – Eu irei com você se puder esperar por trinta dias. Não posso me ausentar de Paris nesse período.
- Voilà. Trinta dias. Nem um dia a mais. – Concordou Nara.



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Rosa  despediu-se de   John  e colocou o fone  no gancho.  Então foi até a sala de Claude entrando sem bater.
Claude olhava  através da janela. Tinha as mãos nos  bolsos da calça e pareceu não se alterar  com a entrada dela.
- Posso saber por que saiu batendo a porta daquele jeito?
- Por que eu fui um estúpido.  – Respondeu ele sem se  virar para ela.
- Continuo sem entender. Pode  se explicar melhor?
Então Claude girou o corpo e tirando uma das mãos do bolso passou-a sobre o rosto.
-  Você  sempre vai estar  disponível para ele, não é? – Falou em tom de acusação, esticando o braço na direção da sala de Rosa.
- Disponível para ele? Do que está falando agora?
- Disso. – Falou  tirando a outra mão do bolso,  mostrando uma chave.
Aproximou-se de Rosa e tomou-lhe a mão,  colocando a chave  sobre a palma dela, fechando-a em seguida. Pareceu hesitar por um momento, antes de falar.
- Continuaremos  como foi combinado. – Disse com frieza   - Você ainda é minha amante e essa é a chave  do meu apartamento. Não a perca, é a única cópia.
Afastou-se  dois passos e voltou a cabeça.
- Ah, sim! – Exclamou como se lembrasse de algo importante -   Esteja nele todas as quartas-feiras,  às vinte horas, d’àccord?
E o único som que  Rosa escutou depois disso foram os passos dele se afastando.
Instantes  depois escutou a voz de Janete:
- Rosa, o que  houve? Eu atendia um cliente quando  Claude saiu  da sua  sala batendo a porta e agora cantando os pneus  do carro... Vocês  discutiram?
- Não, nem chegamos a isso. Ele não me deu oportunidade. – Murmurou Rosa. – Bem, eu vou  buscar Alexandra e vou direto para casa. – Disse com um meio sorriso. – O que tem ai, algo que eu precise assinar?  - Perguntou só então notando uma pasta nas mãos de Janete.
- Não. A Voilà enviou as  fotos da vernissage, para escolha das que  farão parte do catálogo da galeria. Você queria tanto vê-las!
- Ainda quero, mas não agora. Coloque na minha mesa, vejo amanhã. – Respondeu saindo.
Janete baixou as persianas da janela e reparou que os papeis que deixara para Claude revisar continuavam exatamente onde ela os deixara.
Passou à sala de Rosa e ajeitou a mesa, colocando a pasta com as fotos  sobre ela. Ao girar o corpo para sair, um fio de sua blusa enroscou-se na pasta, arrastando e  derrubando-a no chão.
Soltou uma exclamação zangada e abaixou-se, resignada. Juntou as fotos espalhadas  pelo chão e as últimas duas foram ao mesmo tempo, uma em cada mão. Claude na direita e Alex na esquerda. Ambos  sorrindo abertamente. 
Ao aproxima-las, alguma  coisa  chamou sua atenção, fazendo-a olhar mais demoradamente. Assustou-se  com sua conclusão.
- Meu Deus... Eu devo estar imaginado coisas... – Murmurou guardando as fotos – Mas isso explicaria muita coisa.... - E ficou com a imagem dos sorrisos no pensamento.




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                         Continua...

domingo, 27 de março de 2016

PSV/Capítulo 30

PSV



- Não importa onde viva, sua casa sempre a exalar arte, Pepa! – Comentou Liz admirando a decoração da casa.



- Gracias, Liz! E tu como estás?
- Agora estou bem,  depois de lutar  contra  dois  tumores. Mas passou e não quero falar  disso!
- Tens razão, Liz! Vamos  falar de coisas agradáveis e positivas.  – Comentou Antonio, filho de Pepa.
- E Carlos, onde está?
- Na Holanda John. – Respondeu Pepa. – Há alguns anos ele participa da  Feira  Internacional  de Arte. É um acontecimento para  colecionadores e museus representantes.
- Essa é a maior feira mundial e a cada ano traz a melhor seleção de arte e antiguidades. – Completou Antonio. – Nela os visitantes tem a oportunidade de apreciar e comprar obras de artistas como Bacon,  Bruegel e  outras tantas antiguidades artísticas. – E afasta-se
- O que vão fazer  nos próximos  dias? – Pergunta Pepa.
- Pensamos em fazer  um tour entre França e Itália.  Um  ou dois  dias em Paris e depois Veneza.
- Por que não mudam um  pouco esse itinerário e nos acompanham? – Sugere Pepa.
- Aqui está um dos folders da feira. Deem uma olhada.  – Fala Antonio.
John sentou-se mais perto de Liz e observaram as informações  mais  detalhadamente.
Mobílias do século XXVI e XIX, artigos chineses e japoneses, porcelana, arte medieval, moderna, esculturas, têxteis,  manuscritos, cerâmica, trabalhos em prata, vidro e joalharia antiga, arte pré-colombiana, instrumentos musicais, relógios, instrumentos científicos e muitos outros  artigos a mostra e à venda.”
- Parece um evento muito interessante – Diz Liz olhando para Pepa.
- Duas semanas inteiras de visitações e negócios... - Responde  de forma sugestiva.
- Oras, vamos lá, meus amigos! A feira  começa em dois dias. É só trocarem  Paris e Veneza por Amsterdã. Vocês fariam ótimas aquisições por lá.
Liz abaixa a cabeça por um momento e  John se explicou:
- Eu não  sou mais o curador da galeria Pepa. Fiz um empréstimo para o tratamento de Liz e usei minhas ações como garantia e bem, para  resumir um investidor  francês capitalizou a dívida e se no prazo estabelecido eu não puder quitar o débito, perco de vez a galeria.
-  Uma ótima razão para aceitar  meu convite. Mesmo que não adquira nada, fará contatos vantajosos para você. – Afirmou Pepa.
-  E para esse investidor francês também. Poderá intermediar a compra e obter comissões, eu suponho. – Sugeriu Antonio.
- E quem é esse investidor, John? Nós o conhecemos? – Pede Pepa, sentando-se ao lado do filho.
-  Provavelmente o  conheçam. É Claude  Geraldy.
- Claude? – Exclama Antonio  surpreso. -  Por Dios, isso explica as manchetes sobre a renúncia dele ao posto de conselheiro e desfiliação partidária de meses atrás...
- Claude estava envolvido em política?  Indaga John.
- Pensávamos que ele se dedicasse  a escrever sobre Arte... – Diz Liz.
- Foi o que ele fez por muito tempo. – Explica Antônio – E acreditem é um dos melhores historiadores de Arte da Europa. Digo isso com convicção porque eu  fui o  editor do seu primeiro livro... Como era mesmo o título? Ah, sim:  ‘Arte - Da Filosofia  à Estética’, sendo ele leitura obrigatória nas melhores universidades europeias.
- Sim, nas universidades brasileiras também. Mas você disse primeiro livro. Ele escreveu outros? – Pergunta Liz interessada.
- Eu recebi os primeiros  capítulos de  outro projeto dele e dei o aval positivo, até estipulamos um prazo para que  concluísse e o publicássemos. Mas o livro não  saiu.
- E o que houve, por que não foi concluído?
Então o almoço foi servido. E  John e Liz  escutaram a  versão que chegou ao conhecimento de Antonio. Rumores de que Claude trocara a Arte pela política depois de uma desilusão amorosa cerca de seis anos atrás.





Aceitaram o convite  para a Feira e horas mais tarde, na suíte  do hotel,  os  dois trocavam ideias.
- John, meu querido, percebe como as datas coincidem? Não podemos mais  ter  dúvidas.
- Tudo se encaixa  perfeitamente, darling. 
- Precisamos descobrir porque se separaram e  encontrar uma  forma  de fazê-los voltar a se entenderem. Que se amam é evidente, caso contrário um dos  deles teria  se afastado da  galeria.
- Mas não devemos nos apressar. Se queremos bancar os cupidos, é melhor ficarmos a espreita e agir na hora  certa, caso  já não estejam  juntos  quando voltarmos. E só voltaremos quando você estiver totalmente... Reestabelecida.
- Eu já me sinto assim, John! E Rosa é  como a filha que não tivemos. Se eu  notar algo suspeito em sua  voz, ou em suas palavras, quando nos comunicarmos, não hesitarei em voltar.



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- Bom dia, Janete!  Claude já chegou? – Perguntou ela, apreensiva.
Qual seria a atitude dele depois daquela noite?
- Bom dia, Rosa! – Respondeu Janete. – Bem, sim. Ele já veio e  já se foi também! – Explica sorrindo.
- Claude se foi? Para onde ele foi?
- Para o  Ministério de Trabalho e Emprego. Disse que queria  resolver pessoalmente algumas pendencias do visto. Foi tudo bem no jantar de ontem?
- Sim. Fechamos uma parceria fantástica, Jane! Uma exposição com os renascentistas. Sérgio e você terão muito trabalho.
- Adoro!  - Respondeu Janete, conferindo alguns papeis.
- Bem, eu vou pra minha sala. E por favor, me avise assim que ele voltar, ok?
Entrou em sua sala aliviada.  Um alivio passageiro pois sabia que ficariam frente a frente. Era questão de horas, talvez minutos. Encostou-se na porta e ficou.
Queria ser capaz de prever como ele a trataria dali em diante! Seu resto de noite não fora  dos melhores. Embora a lógica exigisse que  se sentisse humilhada, seu coração a alertava que a escolha  fora dela.
Sujeitara-se a “dormir” com ele e não tinha o porquê se sentir ofendida. Magoada talvez, pois em outros  tempos o motivo de fazerem sexo foi o amor, não o dinheiro.
Amor. Precisava separar esse sentimento do desejo. Porque durante o banho da manhã, enquanto se ensaboava, foi com amor que recordou cada  toque que ele fizera em seu  corpo.
Mas o choque da água  fria, que a livrou da espuma, livrou-a também do mudo  dos  sonhos. Claude não fizera sexo com  ela  por amor. Não mais.  Seu desejo agora era movido por outros  sentimentos que passavam longe do amor.   Era como se ele cobrasse dela uma dívida.
E não estava mesmo em dívida com ele? – Acusou-a uma  voz interna enquanto a imagem de Alex passava em sua mente.
- Deus! Em que  confusão eu me  meti! Estou me sentindo culpada por  me sentir ofendida... Isso não faz sentido! – Disse baixinho chegando até  sua mesa.
Descansou a bolsa sobre ela e arrastou a cadeira. Sentou-se e só então reparou no pedaço de papel que ficara debaixo da  bolsa.
- Memorandos e trabalho e eu aqui pensando na vida! -  Disse puxando o papel.
“Precisamos conversar sobre  tudo -  Claude”
Seu coração disparou e uma esperançazinha brilhou lá no fundo dele.
- Sobre tudo. – Repetiu alto as últimas  palavras do bilhete – Sobre o que é o amor também, Claude? – Questionou sonhadora.
Guardou o bilhete na gaveta e conferiu as prioridades de sua agenda para aquele dia.



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Claude aguardou pacientemente até   sua senha ser chamada. Sentou-se em frente ao atendente do Ministério de Trabalho e Emprego entregando o número do seu  protocolo de atendimento.
Ouviu dele que, para tratar exclusivamente de negócios no Brasil antes de obter a autorização de trabalho e o visto apropriado, poderia obter um visto de negócios de curto prazo. Mas, não poderia receber remuneração ou trabalhar até que essa autorização e o devido visto fossem obtidos.
E que o visto de trabalho para estrangeiro não é aplicável a estrangeiros que desejam vir ao Brasil para desempenhar cargos com poderes de gestão em empresas nacionais,  o que a princípios parecia ser seu caso.
Entretanto,  iria despachar os  documentos ao seu superior para análise, pedindo urgência. Se aprovado,  seria enviado para o Ministério das Relações Exteriores e seguiria para a embaixada ou consulado brasileiro na França, para iniciar o processo referente ao visto de trabalho.
Se o interesse de  Claude  fosse  permanecer no Brasil por tempo  indeterminado  deveria  considerar a hipótese da cidadania  brasileira, foi o  conselho que deu, entregando um cartão com telefones uteis  para  contato.
Deixou o prédio desaminado com tamanha  burocracia.  Mas tão logo entrou no carro lembrou-se  do  recado que deixara para Rosa. Estaria mesmo preparado para  ouvir apenas seu  coração?


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                                                    Continua 29/03

quarta-feira, 16 de março de 2016

PSV/Capítulo 29

PSV



Louise ignorou a pergunta feita  por Nara e devolveu  o recorte de jornal  desprezando o conteúdo e sentando-se  no sofá olhou pela janela.
- Mamãe? – Insistiu Nara.
 - De onde desenterrou uma noticia tendenciosa e inverídica, Nara?  - Disse finalmente, evitando olhar para a filha.
- Uma? – Exclamou Nara indignada. -  Não! Há uma pasta, com várias noticias iguais a essa mamãe, e isso é tudo que tem a me dizer?!
- E o que mais quer que eu lhe diga? – Questionou olhando-a sem emoção alguma.
- A verdade!
Louise suspirou profundamente, com desdém, antes de continuar.
- A verdade é que esse jornalistazinho precisava  garantir  o emprego, o jornal precisava vender e eu fui o prato principal   desse jantar. Assim é a imprensa marrom querida, sempre nos perseguindo, como se  fossemos inimigos do povo.
- Meu pai não  foi só perseguido. Foi julgado por corrupção e só não  foi preso porque  morreu dias antes da condenação oficial e eu quero que me diga qual a sua parcela de culpa na morte dele!
- Dieu! Claude já encheu sua  linda cabecinha  com as fantasias da cabeça dele!
- Claude não tem nada com isso! Eu encontrei essa pasta e depois de ler vários recortes tirei minhas próprias  conclusões. Eu  sou capaz disso, mamãe.
- Conclusões  precipitadas, equivocadas e inaceitáveis Nara! Eu sou sua mãe, exijo que me respeite.
 - Eu sempre a respeitei mamãe. A você e as suas vontades, sabe por quê?  Porque eu era criança e tinha medo! Mas eu cresci e...
- E está se tornando inconveniente. Vamos adiantar seu noivado e casamento com Bernard.
- Quando vai entender que não quero me casar com ele? Quero estudar, ter uma profissão uma carreira e principalmente casar com alguém que eu ame!
- Pode estudar depois de casada, vai ser um  ótimo marketing. Quanto ao amor, aprenda a amar Bernard! Ou mantenha um caso discreto, caso apareça alguém mais interessante...
- Eu não acredito no que estou ouvindo! Qual a parte do “eu não quero me casar com Bernard” você não entendeu?
- Oh eu a entendi todinha! Mas você ainda mora  sob meu teto, eu a alimento e pago suas  despesas. Você me deve isso!
- Mon Dieu!. Não vou continuar  com essa discussão porque vai me obrigar a desrespeita-la mamãe. Com  licença, vou para o meu quarto.
- Espere. Onde está a tal pasta, eu quero vê-la!
- Está com... Com alguém que saberá guarda-la em segurança. Não que isso seja  necessário. Basta uma busca pelo Google, e noticias como essa aparecerão para  quem quiser vê-las.
Um toque na porta e Elise aparece.
- Com  licença,  o jantar está pronto. Posso servi-lo?
- Bonne appetit,  mamãe! – E vira as  costas em direção a porta – Ah, a propósito, essa casa  pertence ao Claude. É herança dele! – Exclama Nara antes de sair da biblioteca para o quarto.
Se morar sob o “seu” teto é  o problema, mamãe -  pensava ela  enquanto subia  a escada, vamos corrigir essa situação. Tenho certeza que Claude não pensa igual a você!



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Rosa abriu os olhos assustada, com aquela sensação de cair sem fim, e seus  dedos envolveram o lençol apertando-o com força a procura de segurança.
E que peso era aquele sobre seu corpo,  impedindo-a de virar o corpo e evitar sua queda? Então, lembrou-se de tudo.
Deus! Não foi um sonho...  – Pensou ao ver Claude ao seu lado.
Fechou os olhos por um instante.
 - Eu não devia ter  dormido,  preciso  voltar para  casa! Como vou sair da cama, sem acordar você? Não quero enfrentar seu olhar de  desprezo! Pelo menos não hoje, não agora...
Girou o corpo lateralmente, tentando empurrar o braço dele para  fora de seu  corpo. Mas tudo que  conseguiu  foi piorar a situação. Claude a puxou para perto de si,  sem acordar totalmente e ainda  cruzou a perna dele  sobre a sua.
Droga! Não devia ter feito isso, Claude! – Praguejou para si mesma. - Pelo menos estou de costas... – E foi impulsionado seu  corpo lentamente para a frente até conseguir sair da cama.
Claude esticou o braço, como se a procurasse e Rosa ficou estática, segurando a respiração quando ele resmungou qualquer  coisa.  Mas ele acabou virando para o outro lado  e ela  respirou, aliviada.
Devagar caminhou até a poltrona onde estava  sua  roupa e começou a vestir-se, apesar da escuridão.  Não iria arriscar e acender luz alguma. Vestir-se o mais rápido possível e pedir um táxi.  É isso que  tenho que  fazer!
Foi ao banheiro, arrumou  o cabelo escovando-o e passou  um batom os lábios. Guardou tudo de volta na bolsa e voltou ao quarto, fechando a porta de acesso ao closet cuidadosamente, evitando qualquer ruído.
Um passo para o lado e pegou  os sapatos com a mão livre. Melhor coloca-los depois, pensou endireitando o corpo e dando um passo a frente.
Então uma luz a cegou momentaneamente e Rosa ergueu as mãos tentando proteger  os olhos.
- O que pensa que está fazendo? – Perguntou Claude encostado na parede, ao lado do interruptor, braços  cruzados,
- Estou indo para minha casa. – Explicou-se Rosa piscando várias  vezes.
- Non diga! E vai a pé, presumo. -  Comento  ele, irônico.
- Não. Pensei em pedir  um serviço de táxi.
- E não pensou em me pedir para leva-la?
- Você estava dormindo e eu...
- E você ia aproveitar esse fato para  fugir. Por que me surpreendo? Fugir é  o seu método, não é mesmo?
- Olha, eu dispenso suas considerações e ironia. Estou cansada e quero ir pra minha casa. Quer me dar licença? – Pediu quando ele impediu sua  saída do quarto, bloqueando a porta.
- Táxi a essa hora, nem pensar.  Eu a trouxe até aqui e eu a levo de volta. – Respondeu ele olhando-a fixamente.  -  Pode esperar aqui ou na sala enquanto eu coloco uma roupa.
E para sua surpresa, Rosa não viu desprezo nesse olhar.



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Claude  estacionava  o carro em frente ao prédio em que Rosa morava. Não haviam trocado uma palavra sequer  durante  todo o caminho.
- Eu... Bem, obrigada por me trazer de volta – Disse ela quando o carro parou completamente.
Então  abriu a  porta e desceu sem  olhar  para trás e subiu apressada os poucos  degraus que a separavam do  hall. O porteio, de  dentro da guarita acenou com a cabeça e liberou sua entrada. Ao erguer a mão ara abrir a porta assustou-se.
A de Claude já pousava na maçaneta  abrindo-a, o suficiente para que passasse. Murmurou um obrigada novamente e entrou. Só notou que ele ainda  estava lá, parado   na entrada  do prédio olhando em sua direção, quando entrou no elevador e  virou-se de frente, apertando o número de seu andar enquanto a porta  a fechava dentro dele.
Claude ficou parado na porta por alguns instantes, até decidir voltar ao carro. O percurso da  volta lhe  pareceu mais longo. 
Evitou que seus pensamentos o atormentassem, trocando repetidamente a frequência das rádios. Mas quando entrou em casa, o silêncio foi impiedoso. E sua  consciência também.





Um vazio imenso e sombrio se arrastava por onde  olhasse. Dentro  do peito um aperto, e um nó na garganta. O que tinha feito à mulher que amava? Não tinha o  direito de fazê-la sentir-se humilhada,  de ofende-la em sua dignidade tratando-a como um objeto de prazer.
Serviu-se de uma  dose de wiscky e sentou pesadamente  no sofá.
Fora isso que fizera. Ofendera Rosa em seu mais puro e sagrado dom: o de receber em si algo que não lhe  fazia  falta, mas que a completava. E cabia a ela, apenas  a ela como mulher escolher quem a completaria.
Não era o lado físico da questão que o incomodava.  O sexo em si havia sido prazeroso para ambos, tinha certeza  disso. Era o emocional que dava  mostras de não  concordar com a sua própria atitude de  força-la a chegar  a isso.
Nunca havia usado de subterfúgios para  levar uma mulher para a cama e tivera a insensatez de fazer justamente com Rosa.
Imaginou que se sentiria vitorioso e valente, por  submete-la a sua  vontade e desejo e agora se julgava o mais indigno dos  homens.
- Mon Dieu, como ela deve estar  se sentindo agora? -  Disse a si mesmo.
Por que não a seguiu e disse que a amava, como pediu seu  coração?
 - Parabéns, Claude! Queria castiga-la, se vingar e veja o que conseguiu!
 E que ideia idiota a do preservativo? “Não estava  disposto a uma gravidez indesejada!”
- O que eu mais quis, mais desejei depois de conhecê-la foi ficar para sempre  contigo, Rosa. Contigo e com nossos filhos... Com “nossa” Alexandra.
Olhou para o copo de  wiscky em sua  mão e sorriu sem graça, devolvendo-o à bandeja sobre o aparador,  encostado ao sofá. Se  cinco anos não  foram  suficientes para deixar de ama-la, não seria uma dose de álcool que faria isso.
Foi para  o quarto e jogou-se na cama. O lençol ainda tinha  o perfume dela e as lembranças daquela  noite, misturada a tantas outras povoaram até mesmo os  seus   sonhos.



PSV 

                                            
                                            Continua em breve

domingo, 13 de março de 2016

PSV/Capítulo 28

PSV


Rosa guardou o celular   dentro  da bolsa e olhou-se no espelho, mais tranquila. Alex já dormia, depois de assistir Frozen dissera Joana.   Teve que  pedir  a ela que  ficasse com Alex.  Silvia finalmente tinha um  encontro com Júlio e não seria ela a  atrapalhar.
Deu um retoque no batom e ajeitou o cabelo antes de decidir  voltar  à mesa.
- Demorei muito? – Perguntou baixinho, aceitando a ajuda de Claude com a cadeira.
- Não. – Respondeu ele – Alex está bem?
Rosa o olhou surpresa. Como ela sabia que...
- Sim. – Respondeu sem procurar explicação.  - Está dormindo.
- Algum problema, Rosa? – Perguntou Catarina gentilmente.
- Oh, não!  Apenas  preocupada se demorei demais no toalete.
- Não, meu bem. Não tanto quanto eu! – Comentou Catarina, de forma  simpática, tranquilizando-a. – Creio que podemos  deixar as formalidades de lado e ir direto ao assunto. O que pensam?
- D’àccord. – Concordou Claude. – Vamos ao motivo desse jantar. Vocês são curadores e especialistas internacionais e estão interessados em que exatamente da nossa galeria?
- Gostaríamos de  alocar a exposição em sua  galeria, – Começa a explicar  Egídio.  – durante nossa passagem por São Paulo.
- Alguma razão em especial?
- Está brincando, Claude? Você! Quando Catarina e  eu  soubemos que desistiu da política e investiu em Arte novamente, não tivemos  dúvida de qual seria nossa segunda  parada com essa exposição.
Egídio e Catarina haviam  sido professores de Claude. Foi o que ele explicou a Rosa, quando visitaram a galeria e os convidaram para o jantar. Eram considerados os maiores especialistas no movimento renascentista, com trabalhos premiados sobre Leonardo, Michelangelo, Rafael e Botticelli; eternos representantes dessa escola.
- Sinceramente, nunca entendi porque trocou sua promissora carreira artística pela política.  – Comentou Catarina, provando o  vinho.
- E de quem foi a ideia da exposição? – Perguntou Rosa diante  do silêncio de Claude, que ela  também não entendeu.  
- Catarina concebeu e desenvolveu toda a dinâmica da exposição e eu entrei com a produção executiva, angariando patrocinadores, já que é uma exposição gratuita.
- Disso eu não abro mão. A cultura tem que estar ao alcance  de todos. É ela que transforma o mundo. A minha ideia partiu  de  tanto ouvir, por exemplo, como foi que Michelangelo retratou com tanto realismo anatômico o herói bíblico Davi.  Por que não  propiciar um encontro, um mergulho interativo no período Renascentista, fazendo o público vivenciar os processos de criação e a experiência artística dessas obras e descobrir assim, como é que eles a faziam?
- Muito interessante! – Exclamou Rosa – E que recursos utilizou para  isso, já que as peças originais dificilmente  deixam os museus?
Catarina olhou para Rosa e sorriu, explicando.
-  Réplicas. Pode imaginar o impacto que causa uma réplica em tamanho real de Davi? Ou as invenções de Leonardo da Vinci, com  modelos construídos a partir dos desenhos originais?
-  Creio que já  conseguiu  convencê-la,  Catarina. – Falou Claude que até então observava Rosa, discretamente.
- Vá benne! – Respondeu Catarina – Mas e você? Consegui convencê-lo também ou terei que pedir uma maior colaboração de Egídio?
- Non, non será  preciso. Rosa tem vários  projetos com universidades e escolas e  essa exposição só acrescentaria, hã?
- Mon Dieu! – Exclama Egídio, imitando Claude – Foi mais fácil do que pensamos, Catarina!
- E mais rápido também. Nem chegamos à sobremesa! Por isso, cuidaremos  dos detalhes dentro de  dois ou três  dias. Por que não pede uma garrafa de champanhe e brindamos a isso, Egídio?



 PSV



Elisabeth acordou e ao girar o corpo sobre a cama não encontrou o marido.  Sentou-se na cama e pegou o celular. Quase duas horas da  madrugada! Acendeu a luz do abajur e procurou seu  robe.  Vestiu-o às pressas e saiu à procura dele.
- John?
- Liz! Eu  esmerei tanto em não acorda-la!
- Não foi você quem me acordou. Foi a sua  falta.  Por que perdeu o sono?
- Estou angustiado. Não acha que deveríamos  voltar e conversar  com Claude e Rosa?
- E invadir a privacidade deles, assim  sem certeza alguma?
- Liz!  Suas  suspeitas tem fundamento. Algo aconteceu entre eles num  passado próximo... E se Alex  for o motivo da separação dos dois?
- Não creio, querido! Rosa não seria capaz de agir  com tamanha deslealdade em um relacionamento. Alex é filha de Claude.
- E agora,  vendo toda a situação de fora,  é claro que ainda se amam. Se  voltarmos  podemos ajuda-los a se reconciliar.
- Claude imagina que entre Rosa e você exista  mais que amizade. Não acha que nossa  volta    faria com que ele acreditasse ainda mais nisso?
-  Tem razão, darling! Melhor continuar  com nossos planos e dar esse tempo e eles.
- Por falar em tempo, hoje, quero dizer, ontem... Oh, God, esses fusos horários me deixam confusa! O que importa é que os dois tinham um jantar  de negócios, com Egídio e Catarina. Quem sabe depois do jantar...
- Vamos  torcer para que sim! Mas  vamos  fazer isso dormindo, ok? Afinal também temos um almoço de negócios amanhã!
- Eu adoro a culinária espanhola com seus frutos do mar combinados com...


PSV


- Por que pegou essa saída? Minha casa  fica em outra direção.
- Que  bom que notou. – Respondeu Claude  olhando-a rapidamente. – Preste atenção ao trajeto, pois  vai fazê-lo algumas  vezes daqui pra frente.
- Por que eu faria esse trajeto mais longo e sem sentido para  chegar em minha casa?
-  Não é para sua casa. É para a minha.
- Para sua casa? E  por que eu iria até ela?
- Por que temos um acordo. Você se comprometeu a ser minha amante.
- Mas... Mas quer fazer isso na sua casa?
- Prefere  motéis?
- Eu não prefiro nada. Apenas pensei que...
- Que eu havia esquecido do nosso acordo?
- Para falar a verdade, sim. Já se passou mais de um mês e como não tocou no assunto, eu pensei que tivesse  desistido dessa ideia absurda.
 - Como vê eu não desisti. E não é uma  ideia absurda, vai ser muito... agradável passarmos algumas  horas juntos. Ou já se esqueceu como nos damos bem  na cama?
- Você faz isso parecer mais sórdido do que já é!
- Sórdido?  Fiz uma proposta limpa e transparente. Poderia ter recusado, mas você a aceitou, não foi?
- O que fez não foi uma proposta, foi chantagem.
- D’àccord. Talvez eu tenha  usado uma dose de astúcia.  Mas   a palavra final era sua e não foi um não. Você decidiu por nós.
- Como pode ser tão hipócrita e me  responsabilizar por sua atitude?  Sabe muito bem  porquê concordei!
- Rosa eu não estava apontando uma arma para sua cabeça. Concordou porque quis.
- Que conveniente para você não é mesmo? Faça o próximo retorno, eu estou dizendo não agora!
- Tarde demais, chèrie.  O prazo de reconsideração expirou.
- Isso que está fazendo comigo é desprezível, Claude. É imoral, repugnante... está me corrompendo!
-  Imoral é ser amante de um homem casado.
- Meu Deus, você insiste nisso!
- Melhor pararmos  com essa discussão inútil. Já estamos quase chegando.
- E o que vai dizer a Dadi? “Rosa e eu temos um acordo, Dadi. Ela será minha amante em troca de alguns milhares de reais.” É essa  a explicação vai dar?
- Não se preocupe  com Dadi. Ela  folga às quartas-feiras e só retorna na quinta pela manhã.  – Explicou Claude.
Rosa não disse mais nada. De que adiantaria? Ele estava certo. Dera sua palavra, aceitara de fato tornar-se amante dele para que John não perdesse as ações em definitivo e Liz tivesse sua  cirurgia garantida. Agora devia honra-la e cumprir o acordo, pensava com a cabeça  baixa.
Fechou os olhos e ao abri-los foi atraída pelo movimento  que Claude  fazia ao trocar o marcha  do carro. Ele segurava a alavanca com firmeza e ao mudar a marcha era  fácil perceber a força também. Quantas  vezes aquela mão a tinha acariciado?
Então o carro parou e Rosa ergueu a cabeça assustada, temendo que ele tivesse percebido seus pensamentos.
Mas não. Claude esperava  o porteiro abrir o portão. Passaram por ele, e o porteiro gentilmente os  cumprimentou com um  boa  noite.
Rosa fitou suas próprias mãos e  apertou-as uma na outra. Estava  com medo. Um medo terrível de  trair a si mesma e deixar que ele  notasse o quanto ainda o amava. 
Tenho que me manter fria e distante. Ele deseja apenas  meu corpo. Agora quer apenas  sexo. Eu tenho que  ser  forte o bastante para  jogar o jogo dele.
-  Chegamos. – Ouviu Claude  dizer, desligando e saltando do carro.
Imitou-o, e o seguiu até o elevador mantendo uma certa  distancia dele. Em poucos instantes o elevador os  levou até o andar do apartamento de Claude.
Seguiu-o pelo corredor até a porta  com o número 32. Então ele tirou a chave do bolso, abriu a porta e a fez entrar primeiro, depois de acender a luz.
- Entre e sinta-se  à vontade!
À vontade era o que menos iria se sentir, pensou dando alguns passos e apreciando  o  bom gosto da decoração.  Claude pareceu captar sua impressão ao passar por ela e comentou:
- O antigo dono tinha bom gosto realmente. A decoração foi um dos motivos que me fez  ficar  com ele. Sente-se.
- Estou bem em pé, obrigada.
- Bem? – Argumentou Claude – Está tão tensa que  posso ver o tremor do seu  corpo.
 E como  queria que eu estivesse, Claude?
- Por que está tão tensa Rosa? – Perguntou aproximando-se e ignorando a pergunta dela.
- Porque eu nunca... – Ia dizer “nunca fui amante de ninguém” -  Mas  calou-se, mudando de ideia. Ele  com certeza não acreditaria e ainda colocaria John na  conversa. – Porque eu não sei o que você espera de mim. - Disse afinal - O que exatamente espera que eu faça Claude?
Claude a olhou por um longo instante antes de responder.
- Eu quero que  você vá por ali – E indicou um pequeno  corredor - Chegue até o meu quarto e tome  um banho para relaxar. Depois então, faremos amor como todos os amantes.
- Não. – Rebateu  Rosa, magoada por sua própria expectativa.  Faremos sexo. Amantes fazem sexo. Apenas pessoas  que se amam fazem amor.
Virou-se rapidamente obedecendo-o mais para que ele não visse suas lágrimas  que por  vontade e desapareceu pelo  corredor.
 
Claude serviu-se de uma  dose de wiscky e tomou-a de uma  só vez. Então se deixou  cair  no sofá até sua cabeça bater no encosto. Levou as mãos até ela e cobriu o rosto.
Nem sendo da melhor qualidade o wiscky havia tirado o amargo de sua  boca. Poderia acabar com ele se confessasse a Rosa  que ainda a amava, mesmo depois de tê-lo abandonado daquela  forma, e o quanto sentia  sua falta...
Não. Decididamente não. Ela brincara  com seus sentimentos e agora ele faria a mesma  coisa. A conquistaria  novamente e  depois a  deixaria sem explicações.  Talvez  voltasse para a Europa deixando um recado com Janete ou com a babá de Alexandra...
Foi para o quarto. A roupa de Rosa estava cuidadosamente  colocada na poltrona.  Tirou o  paletó e a gravata e desabotoou a camisa, tirando-a.
Estava de costas para o closet e foi nesse momento que  Rosa  saiu dele, vestindo o roupão dele. E deve ter feito algum som, pois  Claude virou-se rapidamente.
Houve um instante  de silêncio em que ambos se observaram.
- Eu... Não achei toalhas... – Disse sem desviar os olhos de cada parte  musculosa que aparecia acima da cintura de Claude. – Fiz mal em colocar seu roupão?
- Não... - Murmurou Claude aproximando-se dela. – Até porque você não vai  ficar  muito tempo com ele, não é mesmo?
Rosa deu um passo para trás, esquivando-se. Claude sorriu com o canto  da boca e passou por ela.
- Voilà! – Disse friamente indo para o banheiro – Você tem alguns minutos mais para se acostumar  com a ideia. Tente a cama, vai ver que ela é confortável.
Rosa ficou parada ali, até  escutar a  porta se fechar. Então olhou para a cama. Mas preferiu  a janela. A noite estava tão escura quanto suas esperanças. Por que fazia isso consigo mesma?
Ponderou e concluiu que Claude  tinha razão. Poderia ter dito não e procurado outra solução. Agiu impulsivamente,  escutando apenas  seu orgulho ferido.  E a voz quase silenciada,  lá no fundo do seu coração. Estava  com medo e ansiava  por aquilo ao mesmo tempo, como era possível? 
Mas nunca, nunca  deixaria que ele percebesse! Ficaria passiva e controlaria as suas reações. Faria amor, quer dizer, faria sexo sem sentir nada. Isso irá feri-lo em seu amor próprio.  Não era o mesmo que ele fazia  com ela?

- Então, ainda  gosta  de olhar pela janela...- Ouviu Claude  falar junto a seu ouvido e sobressaltou-se. Estivera  tão introspectiva que não percebera essa aproximação.
Continuou ali parada, como se estivesse congelada. Não sabia  como reagir. Estava lúcida  o suficiente para assumir que a ideia de ir para  a cama  com Claude não a desagradava. Mas  o motivo sim.
- Se está pensando que agindo assim como se desprezasse a mim ou a ir para  cama  comigo vai me fazer mudar de ideia, está enganada e perdendo tempo. Tempo e energia. – Afirmou ele, virando-a para si.
E sem esperar resposta, puxou-a e  inclinou a cabeça, até que  seus lábios  se  tocassem. Deixou que ele comandasse o beijo e não resistiu quando ele a forçou a abri-los e explorou  sua  boca delicadamente.
Estava certa que sua  passividade  o irritaria. Mas  sua consciência a alertou momentos  depois  que não seria  fácil ficar  passiva, pois  seus  braços já  o envolviam e suas mãos estavam enterradas entre os cabelos de Claude.
Se Claude  havia notado sua intenção não demonstrou. Muito menos  sentiu-se embaraçado.  Escorregou os lábios, úmidos  de prazer pela lateral do pescoço de Rosa, enquanto desfazia o nó do roupão e a deixava nua.
Rosa fechou os olhos, enquanto ele a admirava.
- Abra os olhos, Rosa... – E admirou-se por escuta-lo  pedir e não ordenar.
- Pra que? – Questionou mesmo assim, mantendo-os  fechados – Quer  ter certeza que me venceu?
- Nenhum de nós sairá  vencedor disso tudo, chérie. – Foi a resposta séria que ele deu, segurando suas  mãos e levando-as até o cós da  toalha que o cobria.
Quando Rosa abriu  os olhos ele já  coagia seus dedos entre os dele a  arrasta-la para  fora de seu  corpo,   e em seguida  carregou-a para a cama.
Enquanto  a pousava sobre a cama manteve os olhos fixos  aos dela. Por alguns instantes ambos mergulharam em lembranças, mas  foi Rosa quem primeiro fugiu delas, cerrando os olhos, justamente no momento  em que Claude a beijava e acariciava.
- Sou tão desagradável assim,  que precisa ficar o tempo todo de olhos fechados?
Não... O problema não é  você, sou eu, pensou Rosa. Não posso aceitar que  meu  corpo responda com prazer a cada toque seu... Onde está a minha  razão?
- Voilà!  – Falou  Claude quando ela não  os abriu - Se prefere atuar  como uma  boneca inflável...
- Você é desprezível... – Murmurou Rosa encarando-o.– Como pode me  comparar a uma  boneca?!
- Então aja como uma mulher de verdade... – Ordenou Claude, beirando a impaciência.
Involuntariamente Rosa enrijeceu o corpo.
- Droga, Rosa, eu não vou violenta-la! – Exclamou ele, girando o corpo e afundando o colchão, ao lado dela.
- Me desculpe eu não consegui evitar! – Rosa tentou ser irônica, mas  sua  voz  falhou. – Minha mente não concorda com isso.
- Mas seu  corpo sim. - Afirmou Claude. - Então responda...  Embora me ache  desprezível, tenho seu consentimento?
- Sim. - Murmurou -  Dei minha palavra, não dei?
- Ouí... Vamos  apagar esses últimos minutos e recomeçar d’àccord?
E sem avisos cobriu-a com seu corpo. Sua mão pousou  pouco acima da  curva  da  cintura e os dedos encaixaram-se nesse contorno suave.
E tudo que  Rosa  pensou foi que não queria esquecer apenas os últimos minutos e sim  todos  os minutos dos últimos   anos em que estivera  tão longe desses mesmos  toques.
E embora quisesse esconder esse sentimento, seu corpo dessa vez não protestou. Ao contrário, desobedecendo sua ordem e vontade ajustou-se ao corpo de Claude. E quando fez isso, sentiu o polegar dele derrapar em seu seio.
Um arrepio prazeroso correu por  todo seu corpo. E aumentou ainda mais quando os lábios  dele,  a brincar pousaram ali, umedecendo sua pele.
Mordeu o lábio, abafando um gemido de prazer ao sentir a língua dele deslizar para a lateral do seu pescoço lenta e suavemente, e subir  até encontrar sua  boca.
Deixou-se ser beijada por um tempo que queria fosse interminável.
Mas Claude queria uma resposta à altura  da sua  carícia. E a exigiu até ser  correspondido. Então girou o corpo, trazendo-a sobre si, prolongando o beijo enquanto suas mãos exploravam as costas de Rosa, sobre a linha da coluna, fazendo-a estremecer.
As mãos dela, indecisas, não sabiam se o envolviam pelos ombros ou se afundavam entre os cabelos dele. E nem tiveram tempo de decidir, pois Claude  voltou a ficar  sobre ela e impiedosamente explorou cada parte de seu corpo.
Não falavam nada, como se  tivessem  combinado que o silêncio seria a melhor forma de se entenderem.
Foi fácil para Claude perceber que a provocara o suficiente. E embora desejasse que ela o provocasse ainda mais, nada  fez para isso.
Seus corpos pareciam pedir urgência na entrega final e Claude preparou-se para possui-la.  Procurou o olhar de Rosa e leu neles a permissão que  queria. 
No entanto afastou-se dela, alcançando algo com as mãos.
O que foi que  fiz de errado? – Pensou Rosa, inquieta e deixou seu pensamento escapar.
-  Claude?  Eu já  consenti, porque não... – Parou ao escutar o ruído de algo rasgando.
- Eu sei que  consentiu. – Respondeu Claude – Vou apenas nos prevenir. Acho que nenhum de nós está  disposto a uma gravidez indesejada, não é? Ou você se previne?
Alexandra  viera sem ser planejada, mas fora  desejada.  Sempre falaram em ter  filhos. E se contasse neste minuto sobre ela? Não... Ele não vai acreditar! Mas poderia provar... 
Rosa desistiu. Não podia prever a reação de Claude  e não estava preparada para enfrentar sua  fúria. Porque ele ficaria furioso, tinha  certeza. Baixou o olhar.
O que mais poderia fazer? Ele estava certo. Nem  passara  por sua cabeça adotar qualquer método contraceptivo. Não tinha uma vida sexual ativa, por que se preocuparia  com isso?

Esperou que ele a possuísse sem mais avisos porém Claude ainda a acariciou antes de fazê-la pertencer a ele, num êxtase profundo e delicioso que nenhum dos  dois ousou negar a si mesmo ou admitir ao outro.


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                                     Continua 16/03