PSV
- Eu não concordo em antecipar esse noivado com sua filha, Louise. – Falou Bernard afivelando o cinto e colocando o casaco.
- Mas é necessário. Nara está procurando notícias
antigas sobre a morte de François...
- E o que tem de
estranho nisso? Era pai dela, não
era?
- Tem que ela está ficando arredia, querendo se libertar do meu domínio, Bernard. E está procurando um motivo qualquer que ligue meu nome à morte de François.
- E existe essa possibilidade?
- Claro que não! – Exclama Louise. - François estava sendo duramente acusado
de coisas que não fez. Seu erro foi confiar
em pessoas erradas, eu apenas tentei ajuda-lo como podia. Gastei horas do meu tempo tentando convencer dois promotores da sua inocência. Infelizmente a mídia e
alguns assessores anteciparam o
resultado da condenação e ele teve
o AVC.
- Sabe o que penso? Que
sua filha não serve para esse
jogo. Ela é inocente demais para
compactuar com os acordos
que a política impõe.
- Ela é jovem! Vai atrair outros jovens e suas famílias. Votos e mais votos, querido!
- Embora seja sua
filha, ela não tem a política na
veia Louise. Devíamos pensar em outra pessoa.
- Outra pessoa quem, por exemplo?
- Alguém como Roberta. Que já tenha experiência de vida e não
seja uma menina que sonha em se apaixonar à primeira
vista.
- Roberta? Por que exatamente usou Roberta como exemplo? Está interessado nela?
- Eu disse alguém “como” Roberta, Louise. - Argumentou desconversando - Traria investidores, além de alguns
setores da mídia a nosso favor, se é que me entende.
- Roberta seria uma escolha interessante tempos atrás. Mas
está muito mudada. Distanciou-se de
mim, parece ter esquecido Claude...
Certamente está com alguém. – Afirma
levantando-se da cama. – É melhor que não seja você, Bernard. – Conclui
antes de entrar no banheiro.
- Assim você me ofende, Louise! – Exclama Bernard cinicamente
próximo a porta. – Vou
espera-la lá embaixo, ouí?
PSV
Rosa conversou com os alunos, e deixou o ateliê da galeria
depois de conferir os últimos trabalhos
supervisionados por Sérgio. Estava satisfeita e orgulhosa pelo compromisso dele
com esses projetos.
Passou pela copa
e servindo dois cafés foi até Janete. Eram pouco mais de três da
tarde.
- Que tal uma pausa, Janete?
- Café, como eu precisava de você! - Exclamou levando a
xícara aos lábios - Obrigada, Rosa.
- Não tem o que me agradecer, Jane. Quantas vezes você
não faz o mesmo para mim?
- Oras, mas eu sou
sua secretária! – Exclama Janete,
explicando sua lógica.
- Você é mais que minha secretária e sabe disso. Eu é que preciso pedir desculpas. Com todos esses
acontecimentos desde a doença de Liz eu me afastei de nossa vida social...
- Bem, não podemos chamar o que temos de “vida social”. Deixando de lado nossa agenda de
vernissages, íamos ao cinema uma vez por
semana e eventualmente em alguma peça de teatro. Nenhuma balada, nenhuma
esticadinha...
- Você devia encontrar
um namorado, Jane.
- Só eu? – Questiona de forma indireta.
- Alex consome todo meu tempo livre. - Defendeu-se Rosa - Além do mais seria complicado... Eu jamais colocaria um homem
antes de Alexandra. Ela é minha prioridade. – Afirma abaixando a mão com a xícara até
o pires.
- E se o pai dela
aparecesse?
A mão de Rosa treme e um movimento involuntário quase a faz
deixar a xícara cair.
- Oh, perdão Rosa! Eu não quis ser indiscreta! Por favor
me desculpe, eu sei que você não gosta
de falar sobre isso e... Droga, eu devia ter ficado de boca fechada!
- Está tudo bem, Janete! Eu... Eu tenho mesmo que resolver
isso dentro de mim. Acontece que ele não sabe de Alex.
- Isso é algo que você
deve resolver o quanto antes. Já sabe minha
opinião: nunca devia ter escondido dele que estava grávida.
- Ele tinha outros projetos... Eu e uma gravidez indesejada não estávamos
incluída neles. – Afirma Rosa com a voz trêmula.
- Isso foi o que ouviu da mãe dele!
- Ela foi muito
convincente, acredite.
- Continuo com a mesma impressão: você foi precipitada. Devia
ter esperado ele voltar daquela viagem e
escutado dele, seja lá quem for “ele”.
- Talvez eu possa escutar agora... - Murmura Rosa.
- Agora? Como assim, ele está
no Brasil?
Rosa respirou fundo, antes de olhar para a amiga, mas o telefone tocou ao mesmo tempo em que disse “Jane”
- Galeria Athena, boa
tarde! – Disse Janete atendendo. – Senhora Catarina Paranhos – Continuou
olhando para Rosa – Sim, estamos ansiosos também... Neste momento apenas Rosa
está na galeria... Claro vou passar para
ela, um momento.
- Vou atender na minha sala, Janete. Os papeis da proposta estão lá. - Falou baixinho afastando-se.
Rosa conversou com Catarina por vinte minutos, acertando alguns
detalhes da proposta. Marcaram uma nova
reunião, dessa vez na galeria.
Conferiu as anotações que
fizera e grifou os itens mais urgentes. Abriu a gaveta para guardar a pasta com os papeis. A mesma gaveta
onde pusera o bilhete de Claude.
Olhou para o relógio. Dezesseis horas e cinco minutos. Pegou o
bilhete passou os olhos por ele. Se
Claude não chegasse logo não seria hoje que teriam essa conversa. As dezessete
sairia para pegar Alex na escola.
Controle-se, Rosa. Não
crie expectativas demais, elas podem te decepcionar... “Conversar sobre tudo”
ainda é muito vago. Tudo sobre o que? Sobre
a galeria, sobre o passado, sobre a
noite passada?
Fechou a gaveta como se o gesto a protegesse de alguma coisa
e levantou-se. Então ouviu uma leve batida na porta e em seguida a figura elegante de Claude tomou
todo seu campo de visão. Guardou o bilhete no bolso do seu casaco
apressadamente.
- Está de saída? – Perguntou ele.
- Não. Ainda tenho algum tempo antes de ir buscar Alex na escola...
- E ela já se adaptou
a essa nova rotina?
- Já sim, obrigada Ela
agora passa as manhãs com Silvia e as tarde na escola. Mas as
noites continuam sendo comigo.
- Sua filha é uma garotinha incrível. Como você. – Disse Claude admitindo
que estava com saudade da menina e tentando ignorar aquele boato sobre John
ser o pai dela.
- Eu não sou incrível. -
Afirmou Rosa, saindo de trás da mesa, andando até a janela.
Seguiu-se um momento de silêncio. Então Rosa voltou-se para
ele e falaram ao mesmo tempo.
- Leu o meu bilhete?
- Você me deixou um bilhete...
Sorriram um para o
outro e seus olhares se encontraram.
Claude deu um passo para frente, indeciso, e recomeçou.
- Sei que deve estar
muito magoada e decepcionada comigo, mas...
- Rosa, John ao telefone, posso passar?
- Claro, Janete. Passe
logo, por favor! – Pediu Rosa, girando o corpo rapidamente de costas para Claude na intenção de ser breve com John
e continuar a conversa com ele. – John, que
bom ouvi-lo! Claro que estamos
com saudade de vocês... – Foi o que falou, antes de ouvir o som da
porta batendo. Poderia jurar que a sala
estremeceu tanto quanto ela.
PSV
Frazão sentou-se ao
lado de Nara e segurando suas mãos disse:
- Eu sinto muito em
manchar essa imagem perfeita que tinha de
Louise, Nara.
- Eu sei. Claude, você e até mesmo Dadi quiseram me poupar
dessa verdade, mas ela apareceu não é mesmo? Eu tenho uma mãe corrupta e inescrupulosa. O suficiente para
usar o próprio corpo como moeda de troca.
- Vai superar isso, garota! – Afirmou Frazão, consolando-a.
- Como ela pôde, como ela
concordou em deixar meu pai
assumir a culpa das coisas erradas que fez?
- Mesmo que ele não fizesse isso, eram dele as assinaturas
validando e autorizando cada ato, Nara.
- Mas ele assinou sem ler, confiando nela!
- E Louise confiou
demais em si mesma ao acreditar que evitaria um julgamento.
- Oferecendo a si mesma aos promotores... Eu queria que
ela confessasse isso para mim.
- Ela jamais fará isso.
A morte de François dissolveu o processo e encerrou o caso.
- E então ela envolveu o Claude nessa sujeira de política,
esperando fazer a mesma coisa e agora
quer envolver a mim também.
- Seu irmão entrou
para procurar provas da inocência de seu pai.
- E ele conseguiu alguma?
- Sim, ele tem alguns papeis que podem ligar
Louise às remessas de dinheiro desviado de obras para paraísos
fiscais.
- E por que ele não a
denuncia?
- Por você. Seu pai antes de morrer pediu que ele fizesse de
tudo para que você não soubesse.
- Ele sempre me fez
enxergar nossa família com a “família
perfeita”. Por isso me fez ficar naquele
semi internato. Frazão, eu não quero fazer parte desse jogo e se eu casar com Bernard é isso que vai acontecer. Ela vai
encontrar um jeito de me usar. Eu
vou para o Brasil. – Afirmou decidida, levantando-se.
- E se você não quiser me acompanhar até lá, vou sozinha!
- Está mesmo decidida, não é? – Perguntou vendo-a confirmar
com a cabeça – Eu irei com você se puder esperar por trinta dias. Não posso me
ausentar de Paris nesse período.
- Voilà. Trinta dias. Nem um dia a mais. – Concordou Nara.
PSV
Rosa despediu-se
de John
e colocou o fone no gancho. Então foi até a sala de Claude entrando sem
bater.
Claude olhava através
da janela. Tinha as mãos nos bolsos da
calça e pareceu não se alterar com a
entrada dela.
- Posso saber por que saiu batendo a porta daquele jeito?
- Por que eu fui um estúpido. – Respondeu ele sem se virar para ela.
- Continuo sem entender. Pode
se explicar melhor?
Então Claude girou o corpo e tirando uma das mãos do bolso
passou-a sobre o rosto.
- Você sempre vai estar disponível para ele, não é? – Falou em tom de
acusação, esticando o braço na direção da sala de Rosa.
- Disponível para ele? Do que está falando agora?
- Disso. – Falou tirando a outra mão do bolso, mostrando uma chave.
Aproximou-se de Rosa e tomou-lhe a mão, colocando a chave sobre a palma dela, fechando-a em seguida.
Pareceu hesitar por um momento,
antes de falar.
- Continuaremos como
foi combinado. – Disse com frieza -
Você ainda é minha amante e essa é a chave
do meu apartamento. Não a perca, é a única cópia.
Afastou-se dois passos
e voltou a cabeça.
- Ah, sim! – Exclamou como se lembrasse de algo importante
- Esteja nele todas as quartas-feiras, às vinte horas, d’àccord?
E o único som que Rosa
escutou depois disso foram os passos dele se afastando.
Instantes depois
escutou a voz de Janete:
- Rosa, o que houve? Eu
atendia um cliente quando Claude
saiu da sua sala batendo a porta e agora cantando os
pneus do carro... Vocês discutiram?
- Não, nem chegamos a isso. Ele não me deu oportunidade. –
Murmurou Rosa. – Bem, eu vou buscar
Alexandra e vou direto para casa. – Disse com um meio sorriso. – O que tem ai,
algo que eu precise assinar? - Perguntou
só então notando uma pasta nas mãos de Janete.
- Não. A Voilà enviou as
fotos da vernissage, para
escolha das que farão parte do catálogo
da galeria. Você queria tanto vê-las!
- Ainda quero, mas não agora. Coloque na minha mesa, vejo
amanhã. – Respondeu saindo.
Janete baixou as persianas da janela e reparou que os papeis
que deixara para Claude revisar continuavam exatamente onde ela os deixara.
Passou à sala de Rosa e ajeitou a mesa, colocando a pasta com
as fotos sobre ela. Ao girar o corpo
para sair, um fio de sua blusa enroscou-se na pasta, arrastando e derrubando-a no chão.
Soltou uma exclamação zangada e abaixou-se, resignada. Juntou
as fotos espalhadas pelo chão e as
últimas duas foram ao mesmo tempo, uma em cada mão. Claude na direita e Alex na
esquerda. Ambos sorrindo abertamente.
Ao aproxima-las, alguma
coisa chamou sua atenção,
fazendo-a olhar mais demoradamente. Assustou-se
com sua conclusão.
- Meu Deus... Eu devo estar imaginado coisas... – Murmurou
guardando as fotos – Mas isso explicaria muita coisa.... - E ficou com a imagem dos sorrisos
no pensamento.
PSV
Continua...



