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terça-feira, 29 de março de 2016

PSV/Capítulo 31

PSV

- Eu não concordo em antecipar esse noivado com sua  filha, Louise.  – Falou Bernard afivelando o  cinto e colocando o casaco.
- Mas é necessário. Nara está procurando notícias antigas  sobre a morte de François...
- E o que tem de  estranho nisso? Era  pai dela, não era?
- Tem que ela está ficando arredia, querendo se libertar  do meu domínio, Bernard.  E está procurando um motivo qualquer  que ligue meu nome à  morte de François.
- E existe essa possibilidade?
- Claro que não! – Exclama Louise. -  François estava sendo duramente acusado de  coisas que não fez. Seu erro foi confiar em pessoas erradas, eu apenas tentei ajuda-lo como podia. Gastei horas  do meu tempo tentando convencer  dois promotores  da sua inocência. Infelizmente a mídia e alguns assessores anteciparam o  resultado da condenação e ele teve  o AVC.
- Sabe o que penso? Que  sua  filha não serve para esse jogo. Ela é inocente demais para  compactuar com  os acordos que  a política impõe.
- Ela é jovem! Vai atrair outros jovens e suas  famílias. Votos e mais  votos, querido!
-  Embora  seja sua  filha,  ela não tem a política na veia Louise. Devíamos pensar em outra pessoa.
- Outra pessoa quem, por exemplo?
- Alguém como Roberta. Que já tenha experiência de vida e não seja uma  menina  que sonha em se apaixonar  à primeira  vista.
- Roberta? Por que exatamente usou Roberta  como exemplo? Está interessado nela?
- Eu disse alguém “como” Roberta, Louise. -  Argumentou desconversando -   Traria investidores, além de  alguns  setores da mídia a nosso favor, se é que me entende.
- Roberta seria uma escolha interessante tempos atrás. Mas está muito mudada. Distanciou-se  de mim,  parece ter esquecido Claude... Certamente está  com alguém. – Afirma levantando-se  da cama. –   É melhor que não seja você, Bernard. – Conclui antes de  entrar no banheiro.
- Assim você me ofende, Louise! – Exclama Bernard cinicamente próximo a porta.    – Vou  espera-la lá embaixo, ouí?



PSV



Rosa conversou com os alunos, e deixou o ateliê da galeria depois de conferir os últimos   trabalhos supervisionados por Sérgio. Estava satisfeita e orgulhosa pelo compromisso dele com esses  projetos.
Passou pela  copa e  servindo dois cafés  foi até Janete. Eram pouco mais de três da tarde.
- Que tal uma pausa, Janete?
- Café, como eu precisava de você! - Exclamou levando a xícara aos lábios -   Obrigada, Rosa.
- Não tem o que me agradecer, Jane. Quantas vezes  você  não faz o mesmo para mim?
- Oras, mas eu  sou sua  secretária! – Exclama Janete, explicando sua lógica.
- Você é mais que minha secretária e sabe disso. Eu é  que preciso pedir desculpas. Com todos esses acontecimentos desde a doença de Liz eu me afastei de nossa vida social...
- Bem, não podemos chamar o que temos de “vida social”.  Deixando de lado nossa agenda de vernissages,  íamos ao cinema uma vez por semana e eventualmente em alguma peça de teatro. Nenhuma balada, nenhuma esticadinha...
- Você  devia encontrar um namorado, Jane.  
- Só eu? – Questiona de forma indireta.
- Alex consome todo meu tempo livre.  - Defendeu-se Rosa - Além do mais seria  complicado... Eu jamais colocaria um homem antes de Alexandra. Ela é minha prioridade. – Afirma abaixando a mão com  a xícara até  o pires.
- E se  o pai dela aparecesse?
A mão de Rosa treme e um movimento involuntário quase a faz deixar a xícara cair.
- Oh, perdão Rosa! Eu não quis ser indiscreta! Por favor me  desculpe, eu sei que você não gosta de falar sobre isso e... Droga, eu devia ter ficado de boca fechada!
- Está tudo bem, Janete! Eu... Eu tenho mesmo que resolver isso dentro de mim. Acontece que ele não sabe de Alex.
- Isso é algo que  você deve resolver o quanto antes. Já sabe minha  opinião: nunca devia ter escondido dele que estava grávida.
- Ele tinha outros projetos...   Eu  e uma gravidez indesejada não estávamos incluída neles. – Afirma Rosa com a voz trêmula.
- Isso foi o que ouviu da mãe dele!
- Ela  foi muito convincente, acredite.
- Continuo com a mesma impressão: você foi precipitada. Devia ter  esperado ele voltar daquela viagem e escutado dele, seja lá quem for “ele”.
- Talvez eu possa escutar agora... -  Murmura Rosa.
- Agora? Como assim, ele está  no Brasil?
Rosa respirou fundo, antes de olhar para a amiga, mas  o telefone tocou ao mesmo tempo em que  disse “Jane”
- Galeria  Athena, boa tarde! – Disse Janete atendendo. – Senhora Catarina Paranhos – Continuou olhando para Rosa – Sim, estamos ansiosos também... Neste momento apenas Rosa está na galeria... Claro  vou passar para ela, um momento.
- Vou atender na minha sala, Janete.  Os papeis da proposta estão lá. -  Falou baixinho afastando-se.
Rosa conversou com Catarina por vinte minutos, acertando alguns detalhes  da proposta. Marcaram uma nova reunião, dessa vez na galeria.
Conferiu as anotações que  fizera e grifou os itens mais urgentes. Abriu a gaveta para  guardar a pasta com os papeis. A mesma gaveta onde pusera o bilhete de Claude.
Olhou para o relógio.  Dezesseis horas e cinco minutos. Pegou o bilhete passou os olhos  por ele. Se Claude não chegasse logo não seria hoje que teriam essa conversa. As dezessete sairia para pegar  Alex na escola.
Controle-se, Rosa.  Não crie expectativas demais, elas podem te decepcionar... “Conversar sobre tudo” ainda é muito vago. Tudo  sobre o que? Sobre a galeria,  sobre o passado, sobre a noite passada?
Fechou a gaveta como se o gesto a protegesse de alguma coisa e levantou-se. Então ouviu uma leve batida na porta  e em seguida a figura elegante de Claude tomou todo seu campo de visão. Guardou o bilhete no bolso do seu casaco apressadamente.
- Está de saída? – Perguntou ele.
- Não. Ainda tenho algum tempo antes de  ir buscar Alex na escola...
- E ela  já se adaptou a essa nova  rotina?
- Já sim, obrigada  Ela agora  passa as manhãs  com Silvia e as tarde na escola. Mas as noites continuam sendo comigo.
- Sua  filha é uma garotinha  incrível. Como você. – Disse Claude admitindo que estava com saudade da menina e tentando ignorar aquele boato sobre John ser  o pai dela.
- Eu não sou incrível. -  Afirmou Rosa, saindo de trás da mesa, andando até a janela.
Seguiu-se um momento de silêncio. Então Rosa voltou-se para ele e falaram ao mesmo tempo.
- Leu o meu bilhete?
- Você me deixou um bilhete...
Sorriram um para  o outro e seus olhares se encontraram.  Claude deu um passo para frente, indeciso, e recomeçou.
- Sei que deve estar  muito magoada e decepcionada comigo, mas...
- Rosa, John ao telefone, posso passar?
- Claro, Janete.  Passe logo, por favor! – Pediu Rosa, girando o corpo rapidamente de costas  para Claude na intenção de ser breve com John e continuar a conversa com ele. – John, que  bom ouvi-lo! Claro que estamos  com saudade de vocês... – Foi o que falou, antes de ouvir o som da porta  batendo. Poderia jurar que a sala estremeceu tanto quanto ela. 



 PSV



Frazão  sentou-se ao lado de Nara e segurando suas mãos disse:
- Eu sinto muito  em manchar essa imagem perfeita que tinha de  Louise, Nara.
- Eu sei. Claude, você e até mesmo Dadi quiseram me poupar dessa verdade, mas ela apareceu não é mesmo? Eu tenho uma mãe  corrupta e inescrupulosa. O suficiente para usar  o próprio corpo como  moeda de troca.
- Vai superar isso, garota! – Afirmou Frazão, consolando-a.
- Como ela pôde, como ela  concordou em   deixar meu pai assumir a culpa  das  coisas erradas que fez?
- Mesmo que ele não fizesse isso, eram dele as assinaturas validando e autorizando cada ato, Nara.
- Mas ele assinou sem ler, confiando nela!
- E Louise  confiou demais em si  mesma ao acreditar  que evitaria um julgamento.
- Oferecendo a si mesma aos promotores... Eu queria que ela  confessasse isso para mim.
- Ela jamais fará isso.  A morte de François dissolveu o processo e encerrou o caso.
- E então ela envolveu o Claude nessa sujeira de política, esperando fazer a mesma  coisa e agora quer  envolver a mim também.
-  Seu irmão entrou para procurar provas da inocência de seu pai.
- E ele conseguiu alguma?
- Sim, ele tem alguns papeis que  podem ligar  Louise às remessas de dinheiro desviado de obras para paraísos fiscais. 
- E  por que ele não a denuncia?
- Por você. Seu pai antes de morrer pediu que ele fizesse de tudo para que  você não soubesse.
- Ele sempre  me fez enxergar  nossa família com a “família perfeita”.  Por isso me fez ficar naquele semi internato. Frazão, eu não quero fazer parte desse jogo e se eu casar  com Bernard é isso que vai acontecer. Ela  vai  encontrar um jeito de me usar.  Eu vou para o Brasil.  – Afirmou decidida, levantando-se. - E se você não quiser me acompanhar até lá, vou sozinha!
- Está mesmo decidida, não é? – Perguntou vendo-a confirmar com a cabeça – Eu irei com você se puder esperar por trinta dias. Não posso me ausentar de Paris nesse período.
- Voilà. Trinta dias. Nem um dia a mais. – Concordou Nara.



PSV



Rosa  despediu-se de   John  e colocou o fone  no gancho.  Então foi até a sala de Claude entrando sem bater.
Claude olhava  através da janela. Tinha as mãos nos  bolsos da calça e pareceu não se alterar  com a entrada dela.
- Posso saber por que saiu batendo a porta daquele jeito?
- Por que eu fui um estúpido.  – Respondeu ele sem se  virar para ela.
- Continuo sem entender. Pode  se explicar melhor?
Então Claude girou o corpo e tirando uma das mãos do bolso passou-a sobre o rosto.
-  Você  sempre vai estar  disponível para ele, não é? – Falou em tom de acusação, esticando o braço na direção da sala de Rosa.
- Disponível para ele? Do que está falando agora?
- Disso. – Falou  tirando a outra mão do bolso,  mostrando uma chave.
Aproximou-se de Rosa e tomou-lhe a mão,  colocando a chave  sobre a palma dela, fechando-a em seguida. Pareceu hesitar por um momento, antes de falar.
- Continuaremos  como foi combinado. – Disse com frieza   - Você ainda é minha amante e essa é a chave  do meu apartamento. Não a perca, é a única cópia.
Afastou-se  dois passos e voltou a cabeça.
- Ah, sim! – Exclamou como se lembrasse de algo importante -   Esteja nele todas as quartas-feiras,  às vinte horas, d’àccord?
E o único som que  Rosa escutou depois disso foram os passos dele se afastando.
Instantes  depois escutou a voz de Janete:
- Rosa, o que  houve? Eu atendia um cliente quando  Claude saiu  da sua  sala batendo a porta e agora cantando os pneus  do carro... Vocês  discutiram?
- Não, nem chegamos a isso. Ele não me deu oportunidade. – Murmurou Rosa. – Bem, eu vou  buscar Alexandra e vou direto para casa. – Disse com um meio sorriso. – O que tem ai, algo que eu precise assinar?  - Perguntou só então notando uma pasta nas mãos de Janete.
- Não. A Voilà enviou as  fotos da vernissage, para escolha das que  farão parte do catálogo da galeria. Você queria tanto vê-las!
- Ainda quero, mas não agora. Coloque na minha mesa, vejo amanhã. – Respondeu saindo.
Janete baixou as persianas da janela e reparou que os papeis que deixara para Claude revisar continuavam exatamente onde ela os deixara.
Passou à sala de Rosa e ajeitou a mesa, colocando a pasta com as fotos  sobre ela. Ao girar o corpo para sair, um fio de sua blusa enroscou-se na pasta, arrastando e  derrubando-a no chão.
Soltou uma exclamação zangada e abaixou-se, resignada. Juntou as fotos espalhadas  pelo chão e as últimas duas foram ao mesmo tempo, uma em cada mão. Claude na direita e Alex na esquerda. Ambos  sorrindo abertamente. 
Ao aproxima-las, alguma  coisa  chamou sua atenção, fazendo-a olhar mais demoradamente. Assustou-se  com sua conclusão.
- Meu Deus... Eu devo estar imaginado coisas... – Murmurou guardando as fotos – Mas isso explicaria muita coisa.... - E ficou com a imagem dos sorrisos no pensamento.




PSV
                         
                         Continua...

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