PSV
Roberta parou o garçom
e trocou a taça vazia por outra cheia de champanhe enquanto acompanhava
Antônio pela galeria, e os
movimentos de Claude e Rosa.
Amaldiçoou mais uma vez o universo, por tê-los reaproximado. Conspirar a favor da desqualificada era conspirar
contra sua pessoa.
Sorriu concordando com Antônio por algo que ele dizia sobre a
escultura a frente, mas a atenção continuava em Claude e
Rosa.
Observou Alex aproximando-se dos pais de mãos dadas com uma garota que devia ser a babá e seu acompanhante. Claude
olhou para o relógio e disse algo
que fez a menina balançar a cabeça afirmativamente
e abraça-los um de cada vez antes de acompanhar a moça e o rapaz para fora da galeria,
balançando a mão em sinal de tchau.
Conduzida por Antônio, Roberta andou alguns passos, parando
em frente a um quadro. Girou o corpo
sutilmente a tempo de ver Claude sussurrar algo no ouvido de Rosa, o que a fez
sorrir e dar um leve beijo em seus lábios.
Incomodada com a cena,
tomou todo o conteúdo da taça, apertando os lábios em seguida e
parecendo aliviada quando eles se
separavam. Sorriu com pouco caso e voltou sua
atenção para Antônio.
Rosa passava por alguns grupos, trocando algumas palavras, agradecendo a presença ou simplesmente respondendo a alguma
curiosidade dos convidados.
Percebeu alguém parado à porta, indeciso se entrava ou não. Logo reconheceu Milton. Estranhou sua
presença, pois não lembrava de tê-lo convidado para a abertura
da mostra. Com um leve aceno de
cabeça devolveu o cumprimento que ele fizera.
Então Erci a chamou.
- Rosa, que maravilha de exposição! Vocês se superam a cada
vez!
- Que bom que
está gostando! Estou muito feliz com a sua presença.
- Feliz estou eu! Foi muita
gentileza sua me enviar um convite especial!
- Olha quem fala em gentilezas! A pessoa que está sempre me socorrendo e nunca sai para se
divertir como deveria, hum?
- Você tem razão, querida. Em parte. Eu me divirto muito com as
minhas pacientes.
- Estou falando em outro
tipo de diversão, ok? –
Brinca Rosa piscando o olho.
- Sei, do tipo que você voltou a ter... – Começa a falar, mas cala-se quando Milton toca o braço de Rosa.
- Com licença. – Diz ele – Será que eu poderia falar
com você Rosa?
- Claro, quer alguma informação a mais...? – Pergunta educadamente
apontando para o catálogo que ele tinha em mãos.
- Não, eu quero apenas
falar com você. – Responde ele.
- Vá atendê-lo, Rosa! Continuamos nossa
conversa uma outra hora! – Diz
Erci afastando-se até uma das obras expostas.
Claude deixou o grupo onde John e Liz conversavam
com Carlos, Pepa, Egídio e
Catarina e parou ao lado de outro grupo.
- Claude. – Disse Nara, Você
se importaria se nós quatro saíssemos
para encerrar a noite em uma balada? – E apontou para Janete, Sérgio e Frazão.
- Claro que não. Já
fizeram o dever de casa aqui e estamos quase na hora de fechar, hã? Vão
e divirtam-se.
- Não quer nos encontrar
depois, você e Rosa? –
Pergunta Frazão.
- Fica para outra noite, mon ami. Prometi a Alex ler sua história favorita antes de dormir.
- Não chegaremos tarde, eu
prometo! – Fala Janete Afinal,
trabalhamos amanhã.
- D’àccord. Atrasos
não serão perdoados! – Exclama bem humorado enquanto eles se afastam e Freitas
se aproxima.
- Não me diga que já está indo embora, Freitas!
- Para ser sincero, estava, Claude. Mas eu preciso saber
antes quem é ela... – E aponta discretamente em direção a Erci que apreciava um
quadro, na parede oposta.
- É a pediatra de Alexandra.
Vamos lá, vou apresenta-la a você. – Diz sorrindo
discretamente.
- Este retrato é perfeito, hã? – Fala Claude.
- Claude! – Responde Erci sorrindo. - É fantástico! Estou aprendendo tanto nessa
mostra! É uma pena que está acabando por hoje.
- Concordo. – Fala
Freitas olhando diretamente para Erci.
- Mon Dieu, que
indelicadeza a minha! Erci, este é Freitas, Freitas, essa é Erci. A
pediatra de Alex. – Repete Claude.
- É um prazer conhece-la, Erci.
- A recíproca é verdadeira... – Responde ela fazendo uma
rápida análise do que via em pensamento – Alto, bonito, simpático... –
Você também é francês? – Pergunta curiosa.
- Não, sou bem brasileiro, Erci! – Respondeu Freitas
sorrindo. – Claude é meu cliente em questões advocatícias.
- Oh, você é advogado e gosta de Arte. – Falou sem conseguir
desviar o olhar do sorriso dele – Quem precisa de um francês nesta hora? –
Pensou e sorriu de volta.
Rosa deu um pequeno passo para trás, fugindo de um contato
com Milton.
- ... Eu não sabia que a Eros era sua. Se soubesse
teria enviado o convite em seu nome Milton.
- Poucas pessoas sabem. Eu estou programando a vernissage de
um artista maranhense que está despontando por lá para divulgar essa noticia ao
nosso mundo.
- Eu desejo sorte e sucesso, ok? Agora, se me der licença
eu...
- Espera, eu
quero falar com você sobre outro assunto.
- Não temos outro assunto a
falar MIton!
- Claro que temos,
Rosa. A Eros tem um excelente rendimento, eu poderia proporcionar uma vida
confortável e sofisticada a você e sua
filha.
- O quê? Do que está falando?!
- Não se faça de
desentendida! O coroa americano a tem
deixado de lado para cuidar da
esposa doentinha. Comigo você não teria esse
problema, querida.
- Meu Deus, você está doente
Milton...
- Estou. – Afirmou ele
- Sempre fui louco por você... O que tem
a perder por me dar uma chance? – Insiste colocando a mão no braço de Rosa.
- Não me toque! – Diz ela irritada, afastando-se.
- Algum problema, chèrie? – Pergunta Claude colocando as mãos
sobre os ombros dela, amparando-a.
- Não, ele já estava de saída. Não é Milton? – Esclarece Rosa querendo evitar confusão.
- Chèrie?! – Exclama espantado - É claro, chèrie! Mas que idiota eu sou! – Fala
Milton irônico batendo
com a mão na própria testa. – Você prefere os gringos, como não percebi isso
antes?
- O que exatamente está querendo dizer com isso? – Questiona Claude colocando-se a frente de Rosa.
- Claude, deixa isso pra lá...
- É Claude. Deixa pra lá. – Milton a imita, provocativo. - Deixa pra lá e aproveita cara, porque o
americano já era, e daqui uns dias ela pode trocar um francês por um, quem sabe espanhol. –
Termina olhando casualmente na direção de Antônio.
E retorna o olhar
para Rosa, sentindo-se vitorioso. E foi
só por um segundo, porque no seguinte estava caído no chão.
- Levante-se e saia da nossa galeria. - Ordena Claude – E nunca mais ouse levantar qualquer dúvida sobre o caráter de minha esposa.
Milton levantou rapidamente.
- Esposa? Desde quando ela é sua esposa?
- Desde sempre. – Diz Claude. – Não, nem tente revidar o soco. – Avisa ao ver a relutância de Milton.
- Isso não vai ficar assim, francês! - Diz Milton irritado antes de sair esfregando o maxilar com a mão.
Ninguém na galeria
pareceu notar a cena, encoberta pelas paredes de gesso dos nichos. A não ser
Roberta. Não sabia o que, mas alguma coisa acontecera naqueles minutos. Seguiu
Milton com o olhar e depois deu um jeito
de conseguir informações sobre ele com um dos
seguranças que checava a
identidade dos convidados.
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- Só estou dizendo que isso
poderia ter arruinado a
noite, Claude.
- Mas não arruinou. Não me arrependo e faria de novo só
que com muito mais força,
d’àccord?
- D’àccord, Claude. – Concorda ela tirando o robe e
sentando-se na cama. – Eu sei que o fez
para defender a minha honra.
Obrigada.
- Não tem que me agradecer. É minha obrigação. Deveria ter feito isso duas
oportunidades atrás, hã?
Rosa preferiu não discutir mais sobre o ocorrido. Haviam
feito isso boa parte do caminho para casa. Esqueceram o assunto
nos poucos minutos que passaram com Alex e agora, quando se deitavam
para dormir, votavam a ele. Afofou o travesseiro e girando o corpo, deitou-se.
Foi só então que reparou no livro que Claude lia.
- Trouxe o livro de contos de Alex para ler?
- Ouí. Preciso me
atualizar, chèrie. O Gato de
Botas, A lebre e a tartaruga, Soldadinho de chumbo e outras que não me lembrava mais...
- Ela prefere os
contos de princesas.
- Voilà! Amanhã iremos de “A princesa e o grão de ervilha”
então. – E curva o corpo para colocar o livro no chão.
Ao voltar recebeu um beijo de Rosa e a acolheu em seus braços e peito depois. E ficam em
silêncio por um tempo.
- Claude. – Murmura Rosa. - Ainda está
acordado?
- Ouí, o que foi?
- É sobre Roberta...
- Mon Dieu, não está
com ciúmes dela, pensando que...
- Não, eu só não quero
que ela venha mais em nossa
casa. Mesmo se dizendo arrependida.
- Eu também não, mon
amour. Espero que agora que nos viu juntos e felizes se convença que
nunca houve nem haverá nada entre
ela e eu.
- Quanto tempo será que ela
vai ficar por aqui?
- Como turista ela pode
ficar até três meses, hã? Mas vou
torcer para que volte à Europa com Antônio.
- Falando nele, vai aceitar a proposta e terminar o livro não
vai?
- Fiquei de marcar uma
conversa com ele. Mas só
assinarei se ainda tiver ajuda da minha
coautora.
- Hum, sendo assim, pode marcar e assinar. Ainda tenho as anotações. – Fala correndo a
mão pelo peito dele.
- Organizada como
sempre... – Murmura Claude. – Isso foi uma das
coisas que me cativaram em você, sabia?
- Não, pensei que
tinha se apaixonado por mim à primeira
vista!
- E foi. O modo como anotava minhas considerações era muito
sensual.
- Era?– Exclama
levantando a cabeça. - Não é mais? - Questiona.
- Vamos fazer um teste. – Diz Claude girando o corpo. – Seu corpo vai me mostrar se ainda consegue ser sensual e anotar o que faço contigo, d’àccord?
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Alguns dias depois.
- Sinto muito Roberta, mas não faço mais esse tipo de serviço sujo. – Disse Beto
checando sua máquina e guardando-a na mochila.
- Serviço sujo? Qual é
Beto? Se o problema é dinheiro, eu pago o dobro. – Falou
Roberta acendendo um cigarro.
- Não se trata de dinheiro. – Responde sentando-se.
- Então o quê? – E senta-se também. - Está se penitenciando
por seus antigos pecados? – E tragou
mais uma vez, profundamente.
- Não tenho mais interesse em fotografar pessoas cometendo
delitos pessoais, Roberta. Isso não é Arte.
- Mas lhe redeu uma
boa grana.
- Você realmente não entende. Eu percebi que grana não é
tudo na vida. Essa exposição me deu
a chance de voltar ao mundo da
Arte, de fotografar momentos que merecem ser gravados, e é isso que quero
fazer.
- É o que estou
pedindo. Que você registre alguns momentos da bastardinha, que merecem ser gravados.
- Não vou captar
informações da garota para você. – E
ofereceu o cinzeiro a ela. - Nem de Claude ou Rosa. Seja lá o que estiver planejando não conte comigo.
Roberta apagou o que restava do cigarro sem pressa.
. Três mil euros em espécie, à vista. – Insistiu entreabrindo
a bolsa e mostrando a quantia.
Beto deu um sorriso e levantou-se. Roberta entendeu que ele
concordava e terminou de abrir o zíper
da bolsa. Já estava com o dinheiro na
mão e ela tremeu quando o ouviu dizer:
- É melhor você guardar isso e sair.
E ao erguer a cabeça o viu parado junto a porta aberta.
- Você não fala sério, Beto. São três mil euros!
- Danem-se você e os
seus euros, Roberta. Quer por favor sair deste quarto?
- Louise tem razão quanto à Arte: ela torna pessoas como você e
Claude inúteis idealistas. –
Afirma ela, guardando o dinheiro e fechando o zíper com raiva.
– É isso que faz o mundo girar –
Diz apontando para a bolsa – E não a Arte!
- Passar bem Roberta. – Desejou enquanto ela passava pela porta.
- Você não é o único fotografo do planeta, Beto. Era apenas o
único em quem eu confiava. – Diz Roberta
segurando a porta. - O euro aqui está bem cotado. Eu vou encontrar alguém que faça o serviço sujo!
- Cuidado Roberta. Confiança demais em si mesmo já derrubou
muita gente.
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Bernard equilibrou uma
porção de comida em seu garfo e o levou a boca, enquanto ouvia Michel responder
a sua questão.
- Eu não sei como pretende fazer isso. Louise tem uma posição
bem definida dentro do partido. Não só posição, ela tem voz, liderança e muito
apoio.
Bernard engoliu a comida e limpou a boca antes de levar o
copo a ela e tomar um gole de vinho. Quando devolveu o copo à mesa, apertou os
olhos e sorriu.
- Apoio. – Afirmou pensativo - É essa a estratégia que devo
usar. Preciso descobrir quem dentro do partido não a apoia totalmente.
- É um jogo complicado, Bernard. Estará colocando em risco
toda sua carreira política.
- Eu não vou ser comandado por uma mulher!
- Um pouco tarde para
dizer isso. Está sendo manipulado por ela desde que aceitou concorrer a
essa vaga.
- Se eu tiver o poder,
quero ele todo para mim, Michel.
- Impossível, meu caro! Todo político eleito segue ordens dos
seus partidos, independente se elas vem
de uma mulher ou de um homem.
- Não é a questão do gênero. Para mim, o partido é apenas um
meio de se chegar ao poder. E lá chegando ele é seu de mais ninguém.
- Devia ter seguido meu conselho Bernard e não se deixado
ficar nas mãos dela.
- Não estaria se
Roberta tivesse entendido meus propósitos. Mas ela quis se vingar e veja
onde chegamos.
- Não conseguiu falar
com ela mesmo depois de toda essa repercussão ?
- Não. Mandei várias
mensagens, ela visualizou e só. Mas vou
insistir, só estou dando uns dias. – E
faz uma pausa - E então, vai me
ajudar com as informações que preciso?
- A única pessoa que pode ajuda-lo é Olivier, o secretário particular de Louise.
- Olivier, claro!
- Embora todo homem tenha seu preço, não sei se ele está a venda mon ami.
- Talvez não seja questão de preço, mas de isca. Para todo homem existe uma isca que ele não consegue deixar de
morder.
- Já dizia Friedrich
Nietzsche! – Afirmou Michel, concordando e enchendo os
copos de vinho. – Brindemos a ele!
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Roberta pagou o táxi e entrou no hotel subindo direto para
seu quarto. Aquela conversa com Beto
lhe tirara o apetite.
Na verdade estava sem apetite havia dias. Desde que a porta
daquele apartamento se abriu, pensava acendendo um cigarro. E em sua mente
enxergava a cena.
Esperava encontrar Claude sozinho. No máximo com sua
insuportável e fiel escudeira Dadi. Então lhe contaria uma versão quase
verdadeira sobre a fuga de sua amada Rosa, colocando a culpa toda em Louise. Lamentaria ter participado de
tudo e cedido à pressão e chantagem
emocional que Louise soubera impor.
Faria certo drama, choraria e diria que sua consciência a
perseguia dia e noite desde aquele dia, pois se deixou convencer que silenciar
sobre a gravidez de Rosa era o melhor para
todos.
Sim, diria, ela estava grávida e por
isso eu vim atrás de você. Quero
ajuda-lo a encontrar essa criança, quero que me perdoe, preciso que me perdoe.
Eu... Eu estava corroída pelo ciúmes e acreditei que fazia o melhor pelo nosso
amor, porque eu continuo te amando Claude. E estou disposta a aceita-la como
nossa, como devia ter feito anos
atrás...
Mas não! - E Piscou e tragou nervosamente o cigarro antes de continuar com seus pensamentos. - O universo tinha
que conspirar a favor da desqualificada
e da bastardinha! Será que ele não entende que mudar o roteiro em cima da hora não é fácil?
Contudo, até que me sai bem fingindo toda aquela felicidade
ao vê-los juntos, demonstrando o quanto estava arrependida e pedindo perdão
aos dois.
E como eles estão do lado da bondade, vão me dar o benefício
da dúvida e acreditar. Vão me conceder a segunda chance. E eu vou aproveita-la,
Claude. De uma forma ou de outra...
Abandonou o cigarro inacabado em um cinzeiro e pouco mais de
uma hora depois o motorista de um
confortável carro preto executivo, solicitado pelo serviço Uber de São Paulo,
lhe perguntava o destino.
- Galeria Eros, por favor. – Respondeu sorrindo amavelmente.
PSV
Continua









