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domingo, 31 de julho de 2016

PSV/Capítulo 43

PSV






Roberta  parou o garçom e trocou a  taça vazia por  outra cheia de champanhe enquanto acompanhava Antônio pela galeria, e os  movimentos  de Claude e Rosa.
Amaldiçoou mais uma vez o universo, por   tê-los reaproximado.  Conspirar a favor da desqualificada era  conspirar  contra  sua pessoa.  
Sorriu concordando com Antônio por algo que ele dizia sobre a escultura a  frente, mas a atenção continuava em Claude e Rosa.
Observou Alex aproximando-se dos pais de mãos  dadas com uma garota que devia ser  a babá e seu acompanhante.  Claude  olhou para  o relógio e disse algo que fez a menina  balançar a cabeça afirmativamente e abraça-los um de cada vez antes de acompanhar a moça e o rapaz  para  fora  da galeria,  balançando a mão em sinal de tchau.
Conduzida por Antônio, Roberta andou alguns passos, parando em frente a um quadro.  Girou o corpo sutilmente a tempo de ver Claude sussurrar algo no ouvido de Rosa, o que a fez sorrir e dar um  leve beijo em seus  lábios. 
Incomodada com a cena,  tomou todo o conteúdo da taça, apertando os lábios em seguida e parecendo aliviada quando  eles se separavam. Sorriu com  pouco caso e  voltou sua  atenção para Antônio.
Rosa passava por alguns grupos, trocando algumas  palavras, agradecendo a presença ou   simplesmente respondendo a alguma curiosidade dos  convidados.
Percebeu alguém parado à porta, indeciso se entrava ou  não. Logo reconheceu Milton. Estranhou sua presença,  pois não  lembrava de tê-lo convidado para a  abertura  da  mostra. Com um leve aceno de cabeça devolveu o cumprimento que ele fizera.
Então Erci a chamou.
- Rosa, que maravilha de exposição! Vocês se superam a cada vez!
- Que  bom que está  gostando! Estou muito feliz  com a sua presença.
- Feliz estou eu! Foi muita  gentileza sua me enviar um convite especial!
- Olha quem fala em gentilezas!  A pessoa que está sempre me  socorrendo e nunca sai para  se  divertir como deveria, hum?
- Você tem razão, querida. Em parte. Eu me divirto muito com as minhas pacientes.
- Estou falando em outro  tipo de diversão,  ok? – Brinca  Rosa piscando o olho.
- Sei, do tipo que você voltou a ter...  – Começa a falar, mas  cala-se quando Milton toca o braço de Rosa.
- Com licença. – Diz ele – Será que eu poderia  falar  com você Rosa?
- Claro, quer alguma  informação a mais...? – Pergunta educadamente apontando para o catálogo que ele tinha em mãos.
- Não, eu quero apenas  falar  com você.  – Responde ele.
- Vá atendê-lo, Rosa! Continuamos  nossa  conversa uma outra  hora! – Diz Erci afastando-se até uma das  obras  expostas.

Claude deixou o grupo onde John e Liz  conversavam  com Carlos, Pepa,  Egídio e Catarina e  parou  ao lado de outro grupo.
- Claude. – Disse Nara, Você  se  importaria se nós quatro saíssemos para encerrar a noite em uma balada? – E apontou para Janete,  Sérgio e Frazão.
- Claro que não. Já  fizeram o dever de casa aqui e estamos quase na hora de fechar, hã? Vão e divirtam-se.
- Não quer nos encontrar  depois, você e  Rosa? – Pergunta  Frazão.
- Fica para outra noite, mon ami. Prometi a Alex ler sua  história favorita antes de dormir.
- Não chegaremos tarde, eu  prometo! – Fala Janete  Afinal, trabalhamos amanhã.
- D’àccord.  Atrasos não serão perdoados! – Exclama bem humorado enquanto eles se afastam e  Freitas  se aproxima.
- Não me diga que já está indo embora, Freitas!
- Para ser sincero, estava, Claude. Mas eu preciso saber antes quem é ela... – E aponta discretamente em direção a Erci que apreciava um quadro, na parede oposta.
- É a pediatra de Alexandra.  Vamos lá,  vou  apresenta-la a você. – Diz sorrindo discretamente.
- Este retrato é perfeito, hã? – Fala Claude.
- Claude! – Responde Erci sorrindo.  - É fantástico! Estou aprendendo tanto nessa mostra! É uma pena que está acabando por hoje.
-  Concordo. – Fala Freitas olhando diretamente para Erci.
- Mon Dieu, que  indelicadeza a minha! Erci, este é Freitas, Freitas, essa é Erci. A pediatra de Alex. – Repete Claude.
- É um prazer conhece-la, Erci.
- A recíproca é verdadeira... – Responde ela fazendo uma rápida análise do que  via  em pensamento – Alto, bonito, simpático... – Você também é francês? – Pergunta curiosa.
- Não, sou bem brasileiro, Erci! – Respondeu Freitas sorrindo. – Claude é meu cliente em questões advocatícias.
- Oh, você é advogado e gosta de Arte. – Falou sem conseguir desviar  o olhar  do sorriso dele –  Quem precisa de um francês nesta hora? – Pensou e sorriu de  volta.




Beto passou por eles e o flash incomodou os olhos de Claude,  que os protegeu abaixando a cabeça. Esfregou-os com as mãos por  alguns  segundos e ao ergue-la  viu Milton  ao lado de Rosa,  entre as paredes de  um dos  nichos montados.  E pela expressão de Rosa o que ele dizia  não devia  ser agradável. Pediu desculpas  aos dois e caminhou até lá.


Rosa deu um pequeno passo para trás, fugindo de um contato com Milton.
-  ... Eu  não sabia que a Eros era sua. Se soubesse teria enviado o convite em seu nome Milton.
- Poucas pessoas sabem. Eu estou programando a vernissage de um artista maranhense que está despontando por lá para divulgar essa noticia ao nosso mundo.
- Eu desejo sorte e sucesso, ok? Agora, se me der licença eu...
- Espera, eu  quero  falar com você  sobre outro assunto.
- Não temos outro assunto a  falar MIton!
-  Claro que temos, Rosa. A Eros tem um excelente rendimento, eu poderia proporcionar uma  vida  confortável e sofisticada a você e sua  filha.
- O quê? Do que está falando?!
- Não se faça  de desentendida! O coroa americano a tem  deixado de lado para  cuidar da esposa doentinha. Comigo você não teria esse  problema, querida.
- Meu Deus, você está  doente Milton...
- Estou. – Afirmou  ele -  Sempre fui louco por você... O que tem a  perder por me  dar uma chance? – Insiste colocando  a mão no braço de Rosa.
- Não me toque! – Diz ela irritada, afastando-se.
- Algum problema, chèrie? – Pergunta Claude colocando as mãos sobre os ombros dela, amparando-a.
- Não, ele já estava de saída. Não é  Milton? – Esclarece Rosa querendo evitar  confusão.
- Chèrie?! – Exclama espantado -  É claro, chèrie! Mas que idiota eu sou! – Fala Milton irônico batendo com a mão na própria testa. – Você prefere os gringos, como não percebi isso antes?
- O que exatamente está querendo dizer  com isso? – Questiona  Claude colocando-se a frente  de Rosa.
- Claude, deixa isso pra lá...
- É Claude. Deixa pra lá. – Milton a imita,  provocativo. -  Deixa pra lá e aproveita cara, porque o americano já era, e daqui uns dias ela pode trocar  um francês por um, quem sabe espanhol. – Termina olhando casualmente na direção de Antônio. 
E retorna  o olhar para  Rosa, sentindo-se vitorioso. E foi só por um segundo, porque no seguinte estava caído no chão.
- Levante-se e saia da nossa galeria. -  Ordena Claude – E  nunca mais ouse levantar qualquer dúvida  sobre o caráter de minha esposa.
Milton levantou rapidamente.
- Esposa? Desde quando ela é sua esposa?
- Desde sempre. – Diz Claude. – Não,  nem tente revidar o soco. – Avisa ao  ver a relutância de Milton.
- Isso não  vai  ficar assim, francês! - Diz  Milton irritado antes de sair esfregando o maxilar  com a mão.
Ninguém na  galeria pareceu notar a cena, encoberta pelas paredes de gesso dos nichos. A não ser Roberta. Não sabia o que, mas alguma coisa acontecera naqueles minutos. Seguiu Milton com  o olhar e depois deu um jeito de conseguir informações sobre ele com um dos  seguranças que  checava a identidade dos convidados.



PSV



- Só estou dizendo que isso  poderia  ter  arruinado a  noite, Claude.
- Mas não arruinou. Não me arrependo e faria  de novo só  que com muito mais  força, d’àccord?
- D’àccord, Claude. – Concorda ela tirando o robe e sentando-se na cama. – Eu sei que  o fez para  defender a minha honra. Obrigada. 
- Não tem que me agradecer. É minha obrigação. Deveria  ter feito isso   duas  oportunidades   atrás, hã?
Rosa preferiu não discutir mais sobre o ocorrido. Haviam feito isso boa  parte  do caminho para casa. Esqueceram o assunto nos poucos  minutos que  passaram com Alex e agora, quando se deitavam para  dormir, votavam a ele.  Afofou o travesseiro e  girando o corpo, deitou-se.
Foi só então que reparou no livro que Claude lia.
- Trouxe o livro de contos de Alex para ler?
- Ouí. Preciso me  atualizar, chèrie.  O Gato de Botas, A lebre e a tartaruga, Soldadinho de chumbo e outras que não me  lembrava mais...
- Ela prefere os  contos  de princesas.
- Voilà! Amanhã iremos de “A princesa e o grão de ervilha” então. – E curva o corpo para colocar o livro no chão.
Ao voltar recebeu um beijo de Rosa e a acolheu  em seus  braços e peito depois. E ficam em silêncio por um tempo.


- Claude. – Murmura Rosa. - Ainda  está  acordado?
- Ouí, o que foi?
- É sobre Roberta...
- Mon Dieu, não está  com ciúmes dela, pensando que...
- Não, eu só  não quero que ela  venha mais  em nossa  casa. Mesmo se dizendo arrependida.
- Eu também não,  mon amour. Espero que agora que nos viu juntos e felizes se  convença que  nunca houve nem haverá nada  entre ela e eu.
- Quanto tempo será que ela  vai  ficar por aqui?
- Como turista ela pode  ficar até três meses, hã? Mas  vou torcer para que  volte à Europa com Antônio.
- Falando nele, vai aceitar a proposta e terminar o livro não vai?
- Fiquei de marcar uma  conversa  com ele. Mas só assinarei se  ainda tiver ajuda da minha coautora.
- Hum, sendo assim, pode marcar e assinar.  Ainda tenho as anotações. – Fala correndo a mão pelo peito dele.
 - Organizada como sempre... – Murmura Claude. – Isso foi uma das  coisas que me cativaram em você, sabia?
- Não, pensei que  tinha se apaixonado por mim à primeira  vista!
- E foi. O modo como anotava minhas considerações era muito sensual.
 - Era?– Exclama levantando a  cabeça. - Não é mais? -  Questiona.
- Vamos fazer um teste. – Diz Claude girando o corpo. –  Seu corpo vai me mostrar se ainda  consegue ser sensual e anotar o que  faço contigo, d’àccord?



PSV




Alguns  dias  depois.
- Sinto muito Roberta, mas não faço  mais esse tipo de serviço sujo. – Disse Beto checando sua máquina e guardando-a na mochila.
- Serviço  sujo? Qual é Beto? Se  o problema é  dinheiro, eu pago o dobro. – Falou Roberta  acendendo um cigarro.
- Não se trata de dinheiro. – Responde sentando-se.
- Então o quê? – E senta-se também. - Está se penitenciando por  seus antigos pecados? – E tragou mais uma vez,  profundamente.
- Não tenho mais interesse em fotografar pessoas cometendo delitos pessoais, Roberta. Isso não é Arte.
- Mas lhe redeu uma  boa  grana.
- Você realmente não entende. Eu percebi que  grana não é  tudo na vida. Essa exposição me deu  a chance de  voltar  ao mundo da  Arte, de fotografar momentos que merecem ser gravados, e é isso que quero fazer.
- É o que estou  pedindo. Que  você  registre alguns momentos  da bastardinha, que merecem ser gravados.
- Não  vou captar informações da garota para  você. – E ofereceu o cinzeiro a ela. - Nem de Claude ou Rosa. Seja lá  o que estiver planejando não conte  comigo.
Roberta apagou o que restava do cigarro sem pressa.
. Três mil euros em espécie, à vista. – Insistiu entreabrindo a bolsa e mostrando a quantia.
Beto deu um sorriso e levantou-se. Roberta entendeu que ele concordava e terminou de abrir  o zíper da  bolsa. Já estava com o dinheiro na mão e ela tremeu quando o ouviu dizer:
- É melhor você guardar isso e sair.
E ao erguer a cabeça o viu parado junto a porta aberta.
- Você não fala sério, Beto. São três mil euros!
- Danem-se você e os  seus euros, Roberta. Quer por favor sair deste quarto?
- Louise tem razão quanto à Arte: ela torna pessoas  como você e  Claude inúteis idealistas.  – Afirma ela, guardando o dinheiro e fechando o zíper com  raiva.  – É isso que  faz o mundo girar – Diz apontando para a bolsa – E não a Arte!
- Passar bem Roberta. – Desejou  enquanto ela passava pela porta.
- Você não é o único fotografo do planeta, Beto. Era apenas o único em quem  eu confiava. – Diz Roberta segurando  a porta. -  O euro aqui está bem cotado. Eu vou  encontrar alguém que faça o serviço sujo!
- Cuidado Roberta. Confiança demais em si mesmo já derrubou muita gente.



PSV



Bernard  equilibrou uma porção de comida  em seu garfo e  o levou a boca, enquanto ouvia Michel responder a sua  questão.
- Eu não sei como pretende fazer isso. Louise tem uma posição bem definida dentro do partido. Não só posição, ela tem voz, liderança e muito apoio.
Bernard engoliu a comida e limpou a boca antes de levar o copo a ela e tomar um gole de vinho. Quando devolveu o copo à mesa, apertou os olhos e sorriu.
- Apoio. – Afirmou pensativo - É essa a estratégia que devo usar. Preciso descobrir quem dentro do partido não a apoia totalmente.
- É um jogo complicado, Bernard. Estará colocando em risco toda sua carreira política.
- Eu não vou ser comandado por uma mulher!
- Um pouco tarde para  dizer isso. Está sendo manipulado por ela desde que aceitou concorrer a essa vaga. 
- Se eu tiver  o poder, quero ele todo para mim, Michel.
- Impossível, meu caro! Todo político eleito segue ordens dos seus partidos, independente se elas  vem de uma mulher  ou de um homem.
- Não é a questão do gênero. Para mim, o partido é apenas um meio de se chegar ao poder. E lá chegando ele é seu de mais ninguém.
- Devia ter seguido meu conselho Bernard e não se deixado ficar nas mãos dela.
- Não estaria se  Roberta tivesse entendido meus propósitos. Mas ela quis se vingar e veja onde chegamos.
- Não conseguiu falar  com ela mesmo  depois de toda essa repercussão  ?
- Não.  Mandei várias mensagens, ela visualizou e só.  Mas vou insistir, só estou  dando uns dias. – E faz uma pausa -  E então, vai me ajudar  com as informações que preciso?
- A única pessoa que pode ajuda-lo é Olivier,  o secretário particular de Louise.
- Olivier, claro!
- Embora todo homem tenha seu preço,  não sei se ele está a venda mon ami.
- Talvez não seja questão de preço,  mas de isca. Para todo homem  existe uma isca que ele não consegue deixar de morder.
- Já dizia  Friedrich Nietzsche! – Afirmou Michel, concordando e  enchendo os  copos de vinho. – Brindemos a ele!




PSV



Roberta pagou o táxi e entrou no hotel subindo direto para seu  quarto. Aquela conversa  com Beto  lhe tirara  o apetite.
Na verdade estava sem apetite havia dias. Desde que a porta daquele apartamento se abriu, pensava acendendo um cigarro. E em sua mente enxergava a cena.
Esperava encontrar Claude sozinho. No máximo com sua insuportável e fiel escudeira Dadi. Então lhe contaria uma versão quase verdadeira sobre a fuga de sua amada Rosa, colocando a culpa  toda em Louise. Lamentaria ter participado de tudo e cedido à pressão e  chantagem emocional que Louise soubera impor.
Faria certo drama, choraria e diria que sua consciência a perseguia dia e noite desde aquele dia, pois se deixou convencer que silenciar sobre a gravidez de Rosa era o melhor para  todos.
Sim, diria, ela estava grávida e   por isso eu vim atrás  de você. Quero ajuda-lo a encontrar essa criança, quero que me perdoe, preciso que me perdoe. Eu... Eu estava corroída pelo ciúmes e acreditei que fazia o melhor pelo nosso amor, porque eu continuo te amando Claude. E estou disposta a aceita-la como nossa, como devia  ter feito anos atrás...
Mas não! - E Piscou e tragou nervosamente o  cigarro antes de continuar  com seus pensamentos. - O universo tinha que  conspirar a favor da desqualificada e da bastardinha! Será que ele não entende que mudar o roteiro em cima  da hora não é fácil?
Contudo, até que me sai bem fingindo toda aquela felicidade ao vê-los juntos, demonstrando o quanto estava arrependida e pedindo perdão aos  dois.
E como eles estão do lado da bondade, vão me dar o benefício da dúvida e acreditar. Vão me conceder a segunda chance. E eu vou aproveita-la, Claude. De uma forma ou de outra...
Abandonou o cigarro inacabado em um cinzeiro e pouco mais de uma hora depois o  motorista de um confortável carro preto executivo, solicitado pelo serviço Uber de São Paulo, lhe perguntava o destino.
- Galeria Eros, por favor.  – Respondeu sorrindo amavelmente.



PSV
                                                        Continua

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