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segunda-feira, 7 de março de 2016

PSV/Capítulo 26


                                                       

                                        PSV


Elisabeth  pediu a John que ajustasse a temperatura do quarto, enquanto fazia  o chá  na  cozinha funcional do flat. Serviu-o em duas xícaras altas  e levou até a  saleta.
- Não somos ingleses mas fomos pontuais. – Falou John pegando sua xícara – Exatamente cinco horas! Tem certeza que está bem?
-  Estou ótima! Aquele museu renovou minhas  forças! – Disse Liz.
-  Mas você parece preocupada. O que foi? É pela galeria? Se a venda do apartamento não for suficiente para resgatá-la quando voltarmos, recomeçaremos  com uma menor, darling.
-  Não, não é pela galeria. É Rosa que me preocupa...
- Rosa?
- Você também não se lembrou, não é? Claude e Rosa  já se conheciam, John.  Ele praticamente a orientou em Amsterdã, quando ela foi  concluir sua pesquisa de campo, para o doutorado. Creio que  se envolveram e Alex é a consequência.
- Mas se é assim, por que fingiram não se conhecer?
- Foi a mesma  pergunta que fiz a ela,  na  noite anterior a cirurgia. Mas ela  foi salva pelo seu retorno com Alexandra.
- Por isso ela saiu tão apressada...
- Essa reação foi o que me fez ter certeza. A mesma certeza  de  Claude não saber que tem uma filha.
- Mas por que Rosa faria isso?
- Deve haver um motivo muito forte ou Rosa não  esconderia a gravidez.  Eu estive pensado esses dias e lembrei de algumas  coisas. Na época nos  comunicávamos por e-mail e redes  sociais. Ela chegou a comentar que havia  conhecido uma pessoa especial, mas não disse o nome. Depois quando voltou muito menos.
- E agora, ele deve pensar que Rosa  se envolveu com outro homem... –  Afirma John ficando  pálido. – Oh, God! – Murmura preocupado.
- John?
- Como não percebi antes? – Falou culpando-se -  Claude ficava  incomodado toda vez que   Rosa estava  comigo e no dia em que vendi as peças, ela ficou desolada e me abraçou chorando. Foi nesta hora que ele entrou, e a maneira como  olhou e disse que não queria nos perturbar... Liz,  - Falou mudando o tom de voz -  Claude pensa que Rosa e eu temos um caso!

 PSV


 


Como estavam na calçada contrária, Claude, Rosa e Alexandra atravessaram rapidamente a rua.  O restaurante, fino e acolhedor, ficava também em um casarão, do início do século, cuidadosamente restaurado e bem decorado.





- A gente pode  ficar aqui fora? – Pediu Alexandra.
- Acho melhor  ficarmos lá dentro, hã? Não seria nada legal  comer debaixo de chuva. – Disse Claude mostrando as nuvens para ela.
- Entao  a gente ‘podi i’ lá em cima? – Pediu apontando para a sacada.
- Se sua mãe não se  importar...
- Claro que  não. Por que me importaria?
Claude entrou e Rosa  ficou mais atrás  com Alexandra, que  contava as mesas do terraço. Um garçom, que  conversava com uma moça se aproximou e depois de trocar  algumas  palavras, pediu que o seguisse.
A moça olhou intensamente para  Claude, enquanto ele  subia  a escada. Visualmente atenta, Rosa entrou e os acompanhou.  Foram acomodados em uma das mesas e antes de sentar, Rosa optou por ir ao toalete, fazendo um  leve sinal à Claude.
O garçom pega um dos menus e quando vai oferecê-lo à Claude, ambos escutam:
- Obrigada, Dino. – E pegou o menu. - Eu continuo o serviço.
- Pois não, senhora. - E  afastou-se  até o  começo da escada.
- Boa tarde, seja bem vindo! Completamos setenta e cinco anos de serviços Nosso restaurante tem um  menu do italiano tradicional e variado. Espero que encontre o que procura.  – Explicou a moça, descontraída.
Claude agradece e aceita o menu, pensando que a moça não lhe era  desconhecida.
Eram os únicos no local, então a voz infatil de Alex ecoou  límpida, quando saiu do toalete:
- Olha mamãe,  aqui eles  ‘deixa’  gente ‘iscreve’ na parede! – Exclamou  Alexandra, encantada com a maior das paredes do restaurante.







Claude sorriu e a moça voltou-se para ela e explicou:
- É o nosso livro dourado de visitas. Temos depoimentos e mensagens de vários artistas que nos prestigiam. Você é uma artista? -  Pergunta para Alex.
- Não... – Responde desolada, enquanto Claude se levanta e puxa a cadeira  para ela e para Rosa.
- Oh, vocês estão juntos... – Murmurou a moça, parecendo mais desolada que Alex.
Então Alex abre os olhos, como se tivesse descoberto alguma  coisa.
– Mas a minha mamãe e o Claude são! – Explica entusiasmada – Eles tem  uma galeria aqui pertinho.
- Deve estar falando da galeria Athena... – Diz a moça,  olhando para os  dois adultos e  com mais insistência para Claude.
- Sim. – Fala Rosa -   Desculpe minha filha, eu não sei o que deu nela hoje.  Está falando pelos  cotovelos, não é mocinha?
- É uma criança, sendo criança! Eu sou Cleide, a terceira geração a  cuidar desse  restaurante. – Apresentou-se ela. – É um  prazer recebe-los aqui. 
- Obrigada. Ele é muito aconchegante. – Falou Rosa.
- Já estive em sua  galeria.  Foi a algumas  semanas  atrás, numa  vernissage. – E ajeita uma das taças, colocando-a mais perto da mão de Claude.
Então Claude se lembra da cena. Fora ela quem lhe oferecera uma taça de champanhe. Volta a pegar o cardápio com a mão esquerda, deixando a aliança em evidência, antes de dizer:
- Chèrie, melhor  pedirmos, já passou da  hora de Alex comer. – Falou deixando  Rosa surpresa. E Cleide ainda mais, já que não notara aliança alguma em Rosa.
- Fiquem à vontade. – Falou quase sem graça – E já que seus pais são artistas, vou  deixar você escrever ou desenhar  algo antes de ir embora, que tal?
Rosa pensou em corrigir a situação, mas Alex entusiasmada respondeu e perguntou ao mesmo tempo:
- Oba! Você deixa mamãe?
- Claro filha.  – Diz tentando entender o silêncio de Claude   sobre a situação – Se ela a convidou você pode sim...
- As canetas ficam à disposição naquele aparador. Eu preciso voltar  á recepção. Dino vai atendê-los a partir de agora. – Falou Cleide afastando-se. Mas não deixou de monitorar a mesa pelo sistema de câmeras internas.
Talvez pela presença de Alex, o almoço tenha fluido sem estresse ou provocações. Claude  estava descontraído e Rosa deixou  de lado suas precauções  contra ele. Por quase três horas conversaram, riram juntos das observações de Alex e  ajudaram-na a desenhar na parede.



PSV



- Boa tarde Nara! - Exclamou Frazão após  sua secretária anunciar  a  visita. – Algum problema  com seu cartão de crédito?  - Diz brincando. E levanta-se para  cumprimenta-la.
- Não está sendo uma boa tarde!  – Respondeu Nara.
- Tem razão. Já é quase noite e...
– Quer me explicar o que significa isso? – Pergunta alterada, chacoalhando uma pasta – Por que nunca me contaram a verdade? – E jogou-a sobre a mesa.
Frazão a pegou e abriu. Recortes de vários  jornais e algumas  fotos. Tudo amarelado pelo tempo.
- Onde achou isso? – Quis saber  ele, controlando-se.
- Na  biblioteca. Eu estava procurando um álbum de fotos minhas com  meu pai quando era criança e encontro isso! Por que não me  contaram?
- Acabou de dizer Nara! Porque você era uma criança.
- A mesma criança que mandaram para um internato. Longe da sua casa,   da  família, dos amigos.
- Tem razão, mas seu pai só quis protegê-la dessa sujeira toda... Desse escândalo, dos  falatórios.
- Foi por isso que ele morreu? Por causa de política?
- Mais correto dizer politicagem. Sente-se, eu  vou contar o que sei. Quer um café, água?
- Depois. Primeiro quero saber disso tudo.
Frazão deu a volta na mesa e acomodou-se novamente em sua  cadeira. Nara sentou-se em frente a ele e o observou olhar alguns  daqueles  recortes.
- Frazão?
- Seria mais  correto que o Claude lhe contasse...
- Mas ele não está aqui. E você é o representante legal dele, portanto,  pare de me enrolar e fale o que sabe.  Disse convicta,  quase rude. -  Por favor! – Pediu corrigindo-se.
- Voilà! – Murmurou Frazão pegando uma  caneta e mantendo-as entre os dedos, antes de começar a falar. - Seu pai entrou para a política, o grupo jovem do partido, quando ainda frequentava a universidade. Na mesma época, conheceu   Simone  sua primeira esposa e  mãe do Claude. Infelizmente para eles, esse romance não era  bem visto, pois Simone era filha de imigrantes brasileiros. Contrariando todos, casaram-se. Por dez anos,  Simone foi apenas “tolerada” nas  rodas  sociais.
- Tolerada?
- Sim. Seu título de doutora em filosofia não  fazia dela “uma  nobre”.
- Mas meu pai  carregava um título de nobreza. Isso devia bastar!
- Infelizmente esse preconceito sempre existiu, Nara. François pagou o preço. Poucos amigos o apoiaram.
- Quanta bobagem... Mas bem,  continue.
-   Simone morreu em um atentado, quando representava o marido num evento e ele entrou em depressão, culpando-se pela morte dela.  Louise, que estava em plena ascensão no partido foi quem mais o apoiou.  O apoio evoluiu para algo mais  e algum tempo depois  acabaram  se casando. Os antigos amigos voltaram,  o prestígio e a notoriedade também.  Seu pai foi lançado a candidato e com toda diplomacia  de que é capaz, Louise conseguiu os  fundos  necessários para a campanha e ele  foi eleito, ao mesmo tempo que  você chegava. Ele fez um primeiro mandato digno e responsável, mas  ao ser  reeleito confiou nas pessoas  erradas. Começaram a surgir acusações e denúncias sobre fraude fiscal e corrupção nas privatizações, superfaturamento em grandes obras,  rodovias e em outros setores. François era inocente, defendeu-se habilidosamente, mas as provas estavam  contra ele. E a opinião pública também. A mídia quando quer,  pode massacrar  e destruir qualquer  pessoa. Seu pai quis mantê-la distante disso, e optou por envia-la para aquele colégio. Claude já estava formado e tentava  se manter afastado de tudo.
- E então meu pai não resistiu a pressão de tudo isso e  o AVC aconteceu...
- Sim, foi  quando ele descobriu que Louise... Quero dizer, foi quando Louise descobriu e alertou que ele seria  condenado. É tudo o que  posso dizer, Nara.   Daí em diante você deve  lembrar-se das  coisas, já estava  com dez anos.
- Só me lembro do Claude  me buscando para o  funeral e  ficando o tempo todo do meu lado, segurado minha mão... – Disse como se visse a cena acontecendo ali.
- Claude prometeu a François que a protegeria. E é o que ele está fazendo, mesmo longe daqui. – Afirmou Frazão.  – Como veio até aqui?
-  Peguei num táxi. Eu ainda não tenho habilitação.
– Então venha - Falou guardando a pasta em  uma das gavetas. Eu  vou leva-la para casa.



PSV


Rosa e Claude voltaram à galeria e  saíram em seguida. Rosa porque estava  com Alex e Claude porque tinha uma audiência junto ao Ministério de Trabalho e Emprego, a fim de  regularizar sua  situação no país como investidor.
Um visto de permanência nesta  circunstancia,  no Brasil,  é emitido apenas em condições restritas e o processo de requerimento é burocrático e demorado. Porém, seria válido por cinco anos.
- Acha que vão começar alguma  coisa, tipo um relacionamento sério? – Perguntou Sérgio a Janete, enquanto  fechavam as janelas e ativavam o alarme.
- Acho que já começaram e nem se deram  conta. – Falou Janete, respondendo.
- Por que  diz isso?
- Porque quando  estão juntos, no mesmo ambiente, dá pra sentir a tensão. É  como se provocassem um curto circuito no ar, como se tivessem uma  situação mal resolvida.
- Não será só pela galeria?
-  Não creio. O que eu penso mesmo é que eles se  evitam. Evitam o inevitável. Eles  já se apaixonaram e é  só uma  questão de tempo. Mas porque está perguntando? Está com  ciúmes dela?
- Francamente Janete! – Sérgio parecia ofendido. -  Estou preocupado.  Tenho   Rosa como  uma irmã e,  sinceramente,  o Claude me dá medo. Já reparou como ele olha para ela?
- Com interesse.
- É mais do que isso. É um olhar  de  posse.  Como um felino olhando para sua presa. E eu só acho que ela não merece ser magoada de novo.
- E não vai. Ela se defendeu muito bem por  todos esses anos e alguém tinha que quebrar essas defesas. Claude não é um homem mau, acredite.
- Eu quero acreditar mas...
- Alexandra se encantou com ele. Crianças não se enganam, Sérgio...
- Talvez  você tenha razão. Que tal uma pizza antes de irmos pra casa?
- Fechado. – Respondeu apagando a última lâmpada.
Sérgio fechou a porta da entrada com todas as travas.
- Vamos? O que  foi, em que está pensando?
- Na sua observação.Como um felino olhando para sua presa.’ Vai me prometer que se algum dia, alguém me olhar assim, e eu não ver,  você vai me avisar!
- E vice-versa?
- Vice-versa! – Exclamou Janete  estendendo a mão.
- Combinado! Respondeu Sérgio, aceitando o aperto de mão.



PSV


                                             Continua por esses dias


1 comentários:

Débora disse...

Que lindo.. ** .. Finalmente uma trégua! Quero maisssss.!

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