Elisabeth pediu a John
que ajustasse a temperatura do quarto, enquanto fazia o chá
na cozinha funcional do flat.
Serviu-o em duas xícaras altas e levou
até a saleta.
- Não somos ingleses mas fomos pontuais. – Falou John pegando
sua xícara – Exatamente cinco horas! Tem certeza que está bem?
- Estou ótima! Aquele
museu renovou minhas forças! – Disse
Liz.
- Mas você parece
preocupada. O que foi? É pela galeria? Se a venda do apartamento não for
suficiente para resgatá-la quando voltarmos, recomeçaremos com uma menor, darling.
- Não, não é pela
galeria. É Rosa que me preocupa...
- Rosa?
- Você também não se lembrou, não é? Claude e Rosa já se conheciam, John. Ele praticamente a orientou em Amsterdã,
quando ela foi concluir sua pesquisa de
campo, para o doutorado. Creio
que se envolveram e Alex é a
consequência.
- Mas se é assim, por que fingiram não se conhecer?
- Foi a mesma pergunta
que fiz a ela, na noite anterior a cirurgia. Mas ela foi salva pelo seu retorno com Alexandra.
- Por isso ela saiu tão apressada...
- Essa reação foi o que me fez ter certeza. A mesma certeza de
Claude não saber que tem uma filha.
- Mas por que Rosa faria isso?
- Deve haver um motivo muito forte ou Rosa não esconderia a gravidez. Eu estive pensado esses dias e lembrei de
algumas coisas. Na época nos comunicávamos por e-mail e redes sociais. Ela chegou a comentar que havia conhecido uma pessoa especial, mas não disse
o nome. Depois quando voltou muito menos.
- E agora, ele deve pensar que Rosa se envolveu com outro homem... – Afirma John ficando pálido. – Oh, God! – Murmura preocupado.
- John?
- Como não percebi antes? – Falou culpando-se - Claude ficava
incomodado toda vez que Rosa
estava comigo e no dia em que vendi as
peças, ela ficou desolada e me abraçou chorando. Foi nesta hora que ele entrou,
e a maneira como olhou e disse que não
queria nos perturbar... Liz, - Falou
mudando o tom de voz - Claude pensa que
Rosa e eu temos um caso!
PSV
Como estavam na calçada contrária, Claude, Rosa e Alexandra atravessaram
rapidamente a rua. O restaurante, fino e
acolhedor, ficava também em um casarão, do início do século, cuidadosamente
restaurado e bem decorado.
- A gente pode ficar
aqui fora? – Pediu Alexandra.
- Acho
melhor ficarmos lá dentro, hã? Não seria
nada legal comer debaixo de chuva. –
Disse Claude mostrando as nuvens para ela.
- Entao a gente ‘podi i’ lá em cima? – Pediu
apontando para a sacada.
- Se sua mãe não
se importar...
- Claro que não. Por que me importaria?
Claude entrou e
Rosa ficou mais atrás com Alexandra, que contava as mesas do terraço. Um garçom,
que conversava com uma moça se aproximou
e depois de trocar algumas palavras, pediu que o seguisse.
A moça olhou
intensamente para Claude, enquanto
ele subia a escada. Visualmente atenta, Rosa entrou e
os acompanhou. Foram acomodados em uma
das mesas e antes de sentar, Rosa optou por ir ao toalete, fazendo um leve sinal à Claude.
O garçom pega um
dos menus e quando vai oferecê-lo à Claude, ambos escutam:
- Obrigada, Dino.
– E pegou o menu. - Eu continuo o serviço.
- Pois não,
senhora. - E afastou-se até o
começo da escada.
- Boa tarde, seja
bem vindo! Completamos setenta e cinco anos de serviços Nosso restaurante tem
um menu do italiano tradicional e
variado. Espero que encontre o que procura.
– Explicou a moça, descontraída.
Claude agradece e
aceita o menu, pensando que a moça não lhe era
desconhecida.
Eram os únicos no
local, então a voz infatil de Alex ecoou
límpida, quando saiu do toalete:
- Olha
mamãe, aqui eles ‘deixa’
gente ‘iscreve’ na parede! – Exclamou
Alexandra, encantada com a maior das
paredes do restaurante.
Claude sorriu e a moça voltou-se para ela e explicou:
- É o nosso livro dourado de visitas. Temos depoimentos e
mensagens de vários artistas que nos prestigiam. Você é uma artista? - Pergunta para Alex.
- Não... – Responde desolada, enquanto Claude se levanta e
puxa a cadeira para ela e para Rosa.
- Oh, vocês estão juntos... – Murmurou a moça, parecendo mais
desolada que Alex.
Então Alex abre os olhos, como se tivesse descoberto
alguma coisa.
– Mas a minha mamãe e o Claude são! – Explica entusiasmada –
Eles tem uma galeria aqui pertinho.
- Deve estar falando da galeria Athena... – Diz a moça, olhando para os dois adultos e com mais insistência para Claude.
- Sim. – Fala Rosa - Desculpe minha filha, eu não sei o que deu
nela hoje. Está falando pelos cotovelos, não é mocinha?
- É uma criança, sendo criança! Eu sou Cleide, a terceira
geração a cuidar desse restaurante. – Apresentou-se ela. – É um prazer recebe-los aqui.
- Obrigada. Ele é muito aconchegante. – Falou Rosa.
- Já estive em sua
galeria. Foi a algumas semanas
atrás, numa vernissage. – E ajeita
uma das taças, colocando-a mais perto da mão de Claude.
Então Claude se lembra da cena. Fora ela quem lhe oferecera
uma taça de champanhe. Volta a pegar o cardápio com a mão esquerda, deixando a
aliança em evidência, antes de dizer:
- Chèrie, melhor pedirmos, já passou da hora de Alex comer. – Falou deixando Rosa surpresa. E Cleide ainda mais, já que
não notara aliança alguma em Rosa.
- Fiquem à vontade. – Falou quase sem graça – E já que seus
pais são artistas, vou deixar você
escrever ou desenhar algo antes de ir
embora, que tal?
Rosa pensou em corrigir a situação, mas Alex entusiasmada
respondeu e perguntou ao mesmo tempo:
- Oba! Você deixa mamãe?
- Claro filha. – Diz
tentando entender o silêncio de Claude
sobre a situação – Se ela a convidou você pode sim...
- As canetas ficam à disposição naquele aparador. Eu preciso
voltar á recepção. Dino vai atendê-los a
partir de agora. – Falou Cleide afastando-se. Mas não deixou de monitorar a
mesa pelo sistema de câmeras internas.
Talvez pela presença de Alex, o almoço tenha fluido sem
estresse ou provocações. Claude estava
descontraído e Rosa deixou de lado suas
precauções contra ele. Por quase três
horas conversaram, riram juntos das observações de Alex e ajudaram-na a desenhar na parede.
PSV
- Boa tarde Nara! - Exclamou Frazão após sua secretária anunciar a
visita. – Algum problema com seu
cartão de crédito? - Diz brincando. E
levanta-se para cumprimenta-la.
- Não está sendo uma boa tarde! – Respondeu Nara.
- Tem razão. Já é quase noite e...
– Quer me explicar o que significa isso? – Pergunta alterada,
chacoalhando uma pasta – Por que nunca me contaram a verdade? – E jogou-a sobre
a mesa.
Frazão a pegou e abriu. Recortes de vários jornais e algumas fotos. Tudo amarelado pelo tempo.
- Onde achou isso? – Quis saber ele, controlando-se.
- Na biblioteca. Eu
estava procurando um álbum de fotos minhas com
meu pai quando era criança e encontro isso! Por que não me contaram?
- Acabou de dizer Nara! Porque você era uma criança.
- A mesma criança que mandaram para um internato. Longe da
sua casa, da família, dos amigos.
- Tem razão, mas seu pai só quis protegê-la dessa sujeira
toda... Desse escândalo, dos falatórios.
- Foi por isso que ele morreu? Por causa de política?
- Mais correto dizer politicagem. Sente-se, eu vou contar o que sei. Quer um café, água?
- Depois. Primeiro quero saber disso tudo.
Frazão deu a volta na mesa e acomodou-se novamente em
sua cadeira. Nara sentou-se em frente a
ele e o observou olhar alguns
daqueles recortes.
- Frazão?
- Seria mais correto
que o Claude lhe contasse...
- Mas ele não está aqui. E você é o representante legal dele,
portanto, pare de me enrolar e fale o
que sabe. Disse convicta, quase rude. -
Por favor! – Pediu corrigindo-se.
- Voilà! – Murmurou Frazão pegando uma caneta e mantendo-as entre os dedos, antes de
começar a falar. - Seu pai entrou para a política, o grupo jovem do partido, quando
ainda frequentava a universidade. Na mesma época, conheceu Simone sua primeira esposa e mãe do Claude. Infelizmente para eles, esse
romance não era bem visto, pois Simone
era filha de imigrantes brasileiros. Contrariando todos, casaram-se. Por dez
anos, Simone foi apenas “tolerada”
nas rodas sociais.
- Tolerada?
- Sim. Seu título de doutora em filosofia não fazia dela “uma nobre”.
- Mas meu pai carregava um título de nobreza. Isso devia
bastar!
- Infelizmente esse preconceito sempre existiu, Nara.
François pagou o preço. Poucos amigos o apoiaram.
- Quanta bobagem... Mas bem,
continue.
- Simone morreu em um atentado, quando
representava o marido num evento e ele entrou em depressão, culpando-se pela
morte dela. Louise, que estava em plena
ascensão no partido foi quem mais o apoiou. O apoio evoluiu para algo mais e algum tempo depois acabaram
se casando. Os antigos amigos voltaram,
o prestígio e a notoriedade também.
Seu pai foi lançado a candidato e com toda diplomacia de que é capaz, Louise conseguiu os fundos
necessários para a campanha e ele
foi eleito, ao mesmo tempo que
você chegava. Ele fez um primeiro mandato digno e responsável, mas ao ser
reeleito confiou nas pessoas
erradas. Começaram a surgir acusações e denúncias sobre fraude fiscal e
corrupção nas privatizações, superfaturamento em grandes obras, rodovias e em outros setores. François era
inocente, defendeu-se habilidosamente, mas as provas estavam contra ele. E a opinião pública também. A
mídia quando quer, pode massacrar e destruir qualquer pessoa. Seu pai quis mantê-la distante disso,
e optou por envia-la para aquele colégio. Claude já estava formado e
tentava se manter afastado de tudo.
- E então meu pai não resistiu a pressão de tudo isso e o AVC aconteceu...
- Sim, foi quando ele
descobriu que Louise... Quero dizer, foi quando Louise descobriu e alertou que
ele seria condenado. É tudo o que posso dizer, Nara. Daí em diante você deve lembrar-se das
coisas, já estava com dez anos.
- Só me lembro do Claude
me buscando para o funeral e ficando o tempo todo do meu lado, segurado
minha mão... – Disse como se visse a cena acontecendo ali.
- Claude prometeu a François que a protegeria. E é o que ele
está fazendo, mesmo longe daqui. – Afirmou Frazão. – Como veio até aqui?
- Peguei num táxi. Eu
ainda não tenho habilitação.
– Então venha - Falou guardando a pasta em uma das gavetas. Eu vou leva-la para casa.
PSV
Rosa e Claude voltaram à galeria e saíram em seguida. Rosa porque estava com Alex e Claude porque tinha uma audiência
junto ao Ministério de Trabalho e Emprego, a fim de regularizar sua situação no país como investidor.
Um visto de permanência nesta
circunstancia, no Brasil, é emitido apenas em condições restritas e o
processo de requerimento é burocrático e demorado. Porém, seria válido por cinco anos.
- Acha que vão começar alguma
coisa, tipo um relacionamento sério? – Perguntou Sérgio a Janete,
enquanto fechavam as janelas e ativavam
o alarme.
- Acho que já começaram e nem se deram conta. – Falou Janete, respondendo.
- Por que diz isso?
- Porque quando estão
juntos, no mesmo ambiente, dá pra sentir a tensão. É como se provocassem um curto circuito no ar,
como se tivessem uma situação mal
resolvida.
- Não será só pela galeria?
- Não creio. O que eu
penso mesmo é que eles se evitam. Evitam
o inevitável. Eles já se apaixonaram e
é só uma
questão de tempo. Mas porque está perguntando? Está com ciúmes dela?
- Francamente Janete! – Sérgio parecia ofendido. - Estou preocupado. Tenho Rosa como
uma irmã e, sinceramente, o Claude me dá medo. Já reparou como ele olha
para ela?
- Com interesse.
- É mais do que isso. É um olhar de
posse. Como um felino olhando
para sua presa. E eu só acho que ela não merece ser magoada de novo.
- E não vai. Ela se defendeu muito bem por todos esses anos e alguém tinha que quebrar
essas defesas. Claude não é um homem mau, acredite.
- Eu quero acreditar mas...
- Alexandra se encantou com ele. Crianças não se enganam,
Sérgio...
- Talvez você tenha
razão. Que tal uma pizza antes de irmos pra casa?
- Fechado. – Respondeu apagando a última lâmpada.
Sérgio fechou a porta da entrada com todas as travas.
- Vamos? O que foi, em
que está pensando?
- Na sua observação. ‘Como um felino olhando para sua presa.’ Vai me prometer que
se algum dia, alguém me olhar assim, e eu não ver, você vai me avisar!
- E vice-versa?
- Vice-versa! – Exclamou Janete estendendo a mão.
- Combinado! Respondeu Sérgio, aceitando o aperto de mão.
PSV
Continua por esses dias



1 comentários:
Que lindo.. ** .. Finalmente uma trégua! Quero maisssss.!
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