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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

PSV/Capítulo 16

- Você  consegue fazer um ‘cucuru’ pra  mim? – Perguntou  Alex espremendo  com toda  força que era  capaz a massa de modelar  entre suas pequenas mãos, antes de oferece-la à Claude.
Era o terceiro dia consecutivo que Rosa a trazia para a  galeria, após Silvia apresentar sintomas de gripe característicos da dengue como febre alta, dor de cabeça, cansaço, dor muscular e nas articulações, indisposição. Sob suspeita, o médico solicitou a sorologia para a doença, que demoraria de três a quatro dias para ficar pronto.
Então resolveram que Silvia deveria  fazer  repouso  evitando o contato direto com Alex, recém operada.
- Um o que? – Perguntou Claude sem compreendê-la.
- Um cucuru, aquele bichinho que usa  bolsa e pula!
- Mon Dieu, muitos  bichos pulam mas  non  conheço nenhum que use  bolsas, pequena. Não pode ser um gatinho?
- Não... – Respondeu Alex parecendo triste.
 Mas foi a decepção no olhar  dela, antes que abaixasse a cabeça, que  fez  Claude prosseguir.
- Voilà, por que não me  explica melhor?
- Como assim? – Perguntou Alex.
- Bem, me  diga  com ele é, onde mora, o que  come...
- Ele mora ‘coa mamãe’ dele, e quando ele nasce ele é desse ‘tamanico’ – E junta o indicador ao polegar, para mostrar que o bicho era bem pequeno. – E ele tem duas orelhas pontudinhas, e olhos bem grandes e toma leite até  ficar grande!
- Mas  e a bolsa? Você  disse que ele usa bolsa.
- Ele usa a bolsa da mamãe dele! – Exclamou Alex tentando desenhar o bicho. – Assim oh! - E estendeu a folha para  ele.
Claude a pegou e sorriu, enquanto  apreciava e tentava  desvendar o que Alex no auge dos seus  quatro anos e meio havia desenhado, confirmando suas  suspeitas.
- Ah, agora ficou mais fácil! -  Exclamou olhando para ela – Isso parece um... canguru! É isso? – Perguntou juntando a imagem com as  informações que ela tinha dado.
- Aham...
- E por que não disse antes? – Silencio - Alex?
- É porque eu não consigo... A mamãe  já me ensinou um montão ‘de vez’ mas minha cabecinha  não tá pensando direito ai quando eu  vou falar sai errado...
- Mas você é uma  garotinha muito inteligente! Tenho  certeza que se  tentar com vontade  vai  conseguir. Quer tentar comigo?
- ‘Mais’ e se eu não conseguir?
- Se você não conseguir hoje continuaremos  tentando até  você acertar. E você vai, eu tenho certeza que vai conseguir. – Explicou Claude tentando modelar o bicho com a massa.
- Você tá fazendo ele?
- Estou. Agora pergunte  de novo, assim: Você  está fazendo um canguru?
- Você tá fazendo um... cuncuru? Ih, errei!
- Não faz mal. Vamos outra vez.
- Tá. Você tá  fazendo um... cacuru?
- Muito bom, quase  conseguiu! – Exclamou Claude, sorrindo.
- Eu não vou conseguir...
- Claro que  vai. Olha, você  sabe que eu sou francês, não sabe?
- Humhum...
- Então, eu tive que aprender a falar em  português. E sabe como eu fazia quando errava?  Eu fechava os olhos, respirava fundo e pensava devagar, para  poder  falar devagar. – E enquanto falava fechou os olhos, respirando profundamente.
Não abriu os olhos tão rápido quanto os fechou.  A mão pequena de Alex arriscava-se sobre  sua  barba mal feita de maneira incrivelmente  carinhosa.
Ouviu uma graciosa risada, mas de repente ela parou de acaricia-lo. Os pelos curtos e rígidos devem tê-la espinhado, pensou, abrindo os olhos.
- Machucou-se?
- Não é que sua  barba me espetou! – Falou fechando os olhos.
E depois de alguns segundos respirou como ele havia  feito, soltando a respiração aos poucos e abrindo os lábios devagar.
- Você já acabou de fazer o cacu... – Parou e respirou -  O cancu... – Respirou e apertou os lábios antes de tentar  de novo – Você já acabou de fazer o can-gu-ru?
Alex abriu os olhos, espantada.
- Você conseguiu, pequena! – Exclamou Claude abraçando-a e erguendo-a no ar. Não entendia por que aquilo lhe dava  felicidade e nem tentou procurar uma explicação.
- Can-gu-ru! Can-gu-ru! – Repetiu Alex, gargalhando em seguida, quando Claude falou junto  com ela.
Apertou seus braços em torno do pescoço dele e em seguida deu um beijo em seu  rosto, enquanto era colocada  de  volta  ao chão e recebia dele o canguru modelado.


PSV


Rosa entrou em sua  sala e fechou a porta apoiando-se nela. Não era a primeira  vez que  flagrava  Claude com Alex, ou vice-versa, nesses  três  dias, então por que estava tão emocionada?
Porque ele a tratava  com carinho. E eles interagiam como pai e filha, mesmo sem perceberem, sem saberem que eram.  Tinha que  tomar  coragem e contar a verdade para ele e depois para Alex.
Desencostou da porta e atravessou a sala apertando as mãos, até se sentir segura, sentada na cadeira.
Preciso me controlar, pensou abrindo as mãos no ar, sobre a mesa,  concentrando-se em sua  respiração pesada e rápida até que  voltasse ao  normal.
Sorriu, ao lembrar  com que paciência, ou melhor  com que  sutileza Claude convenceu Alex a repetir a pergunta  até  falar  corretamente a palavra  canguru.
Uma das  poucas que ela ainda se  complicava ao  pronunciar.  Recostou-se na cadeira que  inclinou levemente e fechou os olhos. Por muito pouco não entrou no ateliê, juntando-se  àquele abraço.
Devia ter  feito isso literalmente e não apenas em sua imaginação.
- Mamãe, mamãe! - Exclamou Alex entrando na sala agitada – Oh, escuta, eu aprendi a  falar ‘cucuru’ certo, oh! – Foi se explicando ela  olhando firme para  a mãe, mantendo as mãozinhas atrás de si.
Então  fechou os olhos e respirou fundo.
- Can-gu-ru! – Falou baixinho, repetindo mais alto em seguida – Can-gu-ru! Viu só mamãe, eu consegui!
- Estou vendo! – Respondeu levantando e aproximando-se da  filha -  Vendo e ouvindo meu anjo! – E abriu os braços esperando que ela se  jogasse neles como sempre  fazia.
Mas Alex olhava para trás.
- Que  foi? Não quer meu abraço? Por que está  escondendo as mãos, Alex?
Alex foi até a porta e puxou Claude para dentro da sala.
- Pode entrar a minha mamãe  não vai ficar brava  com você não! Olha o que ele fez pra mim! – Falou sorrindo e mostrando o canguru de massa para Rosa.

- Oh! Que lindo! Já agradeceu a ele, Alex?



- Não é necessário... – Começou Claude.
- Claro que é!

- Obrigada! – Falou Alex –  Eu vou colocar ele lá na  mesinha no meu quarto...
- D’àccord...
- Mas agora  eu vou mostrar ele pra  tia Jane! – E saiu apressada da sala, deixando-os a sós. – Tia Jane, olha o meu canguru... – Foi falando enquanto de distanciava.
Por alguns segundos, ficaram em silêncio.
- Não precisava ter feito isso – Falaram ao mesmo tempo e em seguida  sorriram nervosamente.  
- Quis dizer que  foi muita  gentileza  sua fazer o canguru.. Ela adora cangurus e agora que aprendeu com você a falar  certo...
- Devia ter entrado no ateliê ao em vez de apenas  ficar na  porta. – Falou Claude suavemente.
- Como é que  você  sabe que eu estava lá?
- Voilà! Eu vi sua  sombra e... – O toque  do seu  celular o fez parar de falar –  Frazão, como vai?  Aconteceu alguma coisa?(...)  O quê? Tem certeza disso? (...) Um  momento, mon ami... Eu sinto muito, depois  nos  falamos. - Explicou-se antes de sair  da sala.


PSV



- Os exames não deixam dúvidas. A ressonância detectou  um neuroma acústico.
- Neuroma acústico... Por isso não escuto direito... – Sussurrou Liz.
- Exato. Ele cresce no nervo auditivo que controla a audição e o equilíbrio. Tem  crescimento lento e não se espalha.
- O que causou o desenvolvimento deste tumor, Afrânio? – Perguntou John ao médico.
- A causa exata ainda não sabemos.  Alguns casos, que não é  o seu Liz,  decorrem de uma desordem genética chamada neurofibromatose tipo 2, menos de 5% de pacientes  afetados. Qualquer um pode ter um neuroma do acústico e ele atinge duas vezes mais mulheres  homens. Talvez ele tenha surgido em consequência do seu tratamento passado.
- E por falar em tratamento, para o que devo me preparar?
- Bem, tomaremos essa decisão em conjunto. Tomei a liberdade de enviar as imagens aos médicos  que a trataram na Carolina do Sul e depois de uma análise cuidadosa, concordaram que a melhor opção para  você é  a radiocirurgia.
- My God! Nova  cirurgia? – Falou John – Não há  outra  alternativa?
- Poderíamos coloca-la em observação, mas receio que não seja  prudente. Tumores mesmo benignos  crescem.   E isso tem suas  consequências.
- E o meu não é  mais um bebê! – Comenta   Liz passando o dedo pela  imagem da  ressonância e  suspirando. 
- Não. – Confirma  Afrânio. – Mas ainda não é um adulto.   Infelizmente vai pressionar cada  vez mais o seu nervo auditivo, podendo chegar a uma  paralisia facial. Uma  cirurgia  convencional deixaria  sequelas como perda permanente  da  audição e  comprometimento  muscular  facial, além de não garantir  uma  volta dele.
- E a radiocirurgia? – Indaga  Liz.
- Bem,  no procedimento a radiação é dirigida apenas para o tumor não  expondo  o tecido circundante a essa radiação. Pode ser uma única aplicação, com maior quantidade de radiação ou, várias sessões com menores quantidades. Não há a retirada do tumor mas faz com que ele pare de crescer.
- E os efeitos colaterais serão os mesmos de  antes?
- Efeitos colaterais à radiocirurgia são raros, Liz. Em  dois  dias  vai  voltar  às  suas atividades normais.
-  Eu poderia  adiar isso por algum tempo?
-  O tempo seria favorável ao tumor e não a  vocês. Entendo sua relutância, mal saiu de uma situação delicada, que a  deixou física e emocionalmente abalada. Mas  a hora é essa, Elisabeth. Quanto mais ele crescer,  mais  complicado será, mesmo sendo benigno.
- Al right. – Exclamou Elisabeth –  Vamos marcar isso de uma vez. O que tenho que  fazer?
- Liz...
- John, vai dar  tudo certo! Explique-nos como  vai ser e os  custos,  por favor, Afrânio.
- A radiocirurgia é realizada sob anestesia local. Você vai estar consciente durante todo o procedimento. Faremos uma série de exames de forma a identificar com precisão a exata posição do tumor e então um feixe de radiação será... .... .... ....


PSV



- Sim eu tenho certeza, contrate  um bom detetive para segui-lo.  – Afirmou Claude, sentando-se e apoiando os cotovelos sobre a mesa- Se queremos ajudar  Nara precisamos  ter  argumentos e provas contra Louise. 
- Devo  alertar Nara?
- Ouí. Deixe-a prevenida e providencie a vinda  dela para  cá o quanto antes. Vou trocar o flat por um apartamento mais  confortável.
- Cara, eu ainda não consigo acreditar. Louise perdeu a noção das coisas...
-  O poder corrompe um caráter  fraco,  meu caro. Ela sempre  foi gananciosa, mas não vai comprometer a vida de Nara,  eu garanto.
-  E eu  vou ajuda-lo. Au revoir, Claude.
- Au revoir, mon ami. – Respondeu encerrando a ligação, recostando-se na cadeira.
E por um instante a  figura de Rosa tomou  conta  de sua mente, fazendo-o esquecer Louise.


PSV



O livro escorregou das mãos de Rosa e caiu no chão fazendo um  som surdo e abafado pelo tapete, fazendo-a sobressaltar-se.
- Deus! Dormi outra  vez antes  de finalizar a história... – Sussurrou olhando para  Alex.
A garota dormia profundamente. Rosa saiu da cama e ajeitou a  coberta sobre ela cuidadosamente. Então, afastou-se e  pôs o livro sobre a mesa do canto, onde estava o  canguru.
Pegou-o e com delicadeza o tocou com a ponta  do dedos, antes de encosta-lo em sua face. Por um instante, desejou ter sido aquela  massa de modelar nas  mãos de Claude...


PSV 

                                                                Continua



1 comentários:

Débora disse...

Maissssss... Muito maisss.. To em dia agora Soniauska.. Boraaaaaaa

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