- Você consegue fazer
um ‘cucuru’ pra mim? – Perguntou Alex espremendo com toda
força que era capaz a massa de
modelar entre suas pequenas mãos, antes
de oferece-la à Claude.
Era o terceiro dia consecutivo que Rosa a trazia para a galeria, após Silvia apresentar sintomas de
gripe característicos da dengue como febre alta, dor de cabeça, cansaço, dor
muscular e nas articulações, indisposição. Sob suspeita, o médico solicitou a
sorologia para a doença, que demoraria de três a quatro dias para ficar pronto.
Então resolveram que Silvia deveria fazer
repouso evitando o contato direto
com Alex, recém operada.
- Um o que? – Perguntou Claude sem compreendê-la.
- Um cucuru, aquele bichinho que usa bolsa e pula!
- Mon Dieu, muitos
bichos pulam mas non conheço nenhum que use bolsas, pequena. Não pode ser um gatinho?
- Não... – Respondeu Alex parecendo triste.
Mas foi a decepção no
olhar dela, antes que abaixasse a
cabeça, que fez Claude prosseguir.
- Voilà, por que não me
explica melhor?
- Como assim? – Perguntou Alex.
- Bem, me diga com ele é, onde mora, o que come...
- Ele mora ‘coa mamãe’ dele, e quando ele nasce ele é desse
‘tamanico’ – E junta o indicador ao polegar, para mostrar que o bicho era bem
pequeno. – E ele tem duas orelhas pontudinhas, e olhos bem grandes e toma leite
até ficar grande!
- Mas e a bolsa?
Você disse que ele usa bolsa.
- Ele usa a bolsa da mamãe dele! – Exclamou Alex tentando
desenhar o bicho. – Assim oh! - E estendeu a folha para ele.
Claude a pegou e sorriu, enquanto apreciava e tentava desvendar o que Alex no auge dos seus quatro anos e meio havia desenhado, confirmando
suas suspeitas.
- Ah, agora ficou mais fácil! - Exclamou olhando para ela – Isso parece um...
canguru! É isso? – Perguntou juntando a imagem com as informações que ela tinha dado.
- Aham...
- E por que não disse antes? – Silencio - Alex?
- É porque eu não consigo... A mamãe já me ensinou um montão ‘de vez’ mas minha
cabecinha não tá pensando direito ai
quando eu vou falar sai errado...
- Mas você é uma
garotinha muito inteligente! Tenho
certeza que se tentar com
vontade vai conseguir. Quer tentar comigo?
- ‘Mais’ e se eu não conseguir?
- Se você não conseguir hoje continuaremos tentando até
você acertar. E você vai, eu tenho certeza que vai conseguir. – Explicou
Claude tentando modelar o bicho com a massa.
- Você tá fazendo ele?
- Estou. Agora pergunte
de novo, assim: Você está fazendo
um canguru?
- Você tá fazendo um... cuncuru? Ih, errei!
- Não faz mal. Vamos outra vez.
- Tá. Você tá fazendo
um... cacuru?
- Muito bom, quase
conseguiu! – Exclamou Claude, sorrindo.
- Eu não vou conseguir...
- Claro que vai. Olha,
você sabe que eu sou francês, não sabe?
- Humhum...
- Então, eu tive que aprender a falar em português. E sabe como eu fazia quando
errava? Eu fechava os olhos, respirava
fundo e pensava devagar, para poder falar devagar. – E enquanto falava fechou os
olhos, respirando profundamente.
Não abriu os olhos tão rápido quanto os fechou. A mão pequena de Alex arriscava-se sobre sua
barba mal feita de maneira incrivelmente
carinhosa.
Ouviu uma graciosa risada, mas de repente ela parou de
acaricia-lo. Os pelos curtos e rígidos devem tê-la espinhado, pensou, abrindo
os olhos.
- Machucou-se?
- Não é que sua barba
me espetou! – Falou fechando os olhos.
E depois de alguns segundos respirou como ele havia feito, soltando a respiração aos poucos e
abrindo os lábios devagar.
- Você já acabou de fazer o cacu... – Parou e respirou - O cancu... – Respirou e apertou os lábios
antes de tentar de novo – Você já acabou
de fazer o can-gu-ru?
Alex abriu os olhos, espantada.
- Você conseguiu, pequena! – Exclamou Claude abraçando-a e
erguendo-a no ar. Não entendia por que aquilo lhe dava felicidade e nem tentou procurar uma
explicação.
- Can-gu-ru! Can-gu-ru! – Repetiu Alex, gargalhando em
seguida, quando Claude falou junto com
ela.
Apertou seus braços em torno do pescoço dele e em seguida deu
um beijo em seu rosto, enquanto era
colocada de volta
ao chão e recebia dele o canguru modelado.
PSV
Rosa entrou em sua
sala e fechou a porta apoiando-se nela. Não era a primeira vez que
flagrava Claude com Alex, ou
vice-versa, nesses três dias, então por que estava tão emocionada?
Porque ele a tratava
com carinho. E eles interagiam como pai e filha, mesmo sem perceberem,
sem saberem que eram. Tinha que tomar
coragem e contar a verdade para ele e depois para Alex.
Desencostou da porta e atravessou a sala apertando as mãos,
até se sentir segura, sentada na cadeira.
Preciso me controlar, pensou abrindo as mãos no ar, sobre a
mesa, concentrando-se em sua respiração pesada e rápida até que voltasse ao
normal.
Sorriu, ao lembrar com
que paciência, ou melhor com que sutileza Claude convenceu Alex a repetir a pergunta até
falar corretamente a palavra canguru.
Uma das poucas que ela
ainda se complicava ao pronunciar.
Recostou-se na cadeira que
inclinou levemente e fechou os olhos. Por muito pouco não entrou no
ateliê, juntando-se àquele abraço.
Devia ter feito isso
literalmente e não apenas em sua imaginação.
- Mamãe, mamãe! - Exclamou Alex entrando na sala agitada –
Oh, escuta, eu aprendi a falar ‘cucuru’
certo, oh! – Foi se explicando ela
olhando firme para a mãe, mantendo as mãozinhas atrás de si.
Então fechou os olhos
e respirou fundo.
- Can-gu-ru! – Falou baixinho, repetindo mais alto em seguida
– Can-gu-ru! Viu só mamãe, eu consegui!
- Estou vendo! – Respondeu levantando e aproximando-se
da filha - Vendo e ouvindo meu anjo! – E abriu os braços
esperando que ela se jogasse neles como
sempre fazia.
Mas Alex olhava para trás.
- Que foi? Não quer
meu abraço? Por que está escondendo as
mãos, Alex?
Alex foi até a porta e puxou Claude para dentro da sala.
- Pode entrar a minha mamãe
não vai ficar brava com você não!
Olha o que ele fez pra mim! – Falou sorrindo e mostrando o canguru de massa
para Rosa.
- Oh! Que lindo! Já agradeceu a ele, Alex?
- Não é necessário... – Começou Claude.
- Claro que é!
- Obrigada! – Falou Alex –
Eu vou colocar ele lá na mesinha
no meu quarto...
- D’àccord...
- Mas agora eu vou
mostrar ele pra tia Jane! – E saiu
apressada da sala, deixando-os a sós. – Tia Jane, olha o meu canguru... – Foi
falando enquanto de distanciava.
Por alguns segundos, ficaram em silêncio.
- Não precisava ter feito isso – Falaram ao mesmo tempo e em
seguida sorriram nervosamente.
- Quis dizer que foi
muita gentileza sua fazer o canguru.. Ela adora cangurus e agora
que aprendeu com você a falar certo...
- Devia ter entrado no ateliê ao em vez de apenas ficar na
porta. – Falou
Claude suavemente.
- Como é que você sabe que eu estava lá?
- Voilà! Eu vi sua sombra
e... – O toque do seu celular o fez parar de falar – Frazão, como vai? Aconteceu alguma coisa?(...)
O quê? Tem certeza disso? (...) Um
momento, mon ami... Eu sinto muito, depois nos
falamos. - Explicou-se antes de sair
da sala.
PSV
- Os exames não deixam dúvidas. A ressonância detectou um neuroma acústico.
- Neuroma acústico... Por isso não escuto direito... –
Sussurrou Liz.
- Exato. Ele cresce no nervo auditivo que controla a audição
e o equilíbrio. Tem crescimento lento e não
se espalha.
- O que causou o desenvolvimento deste tumor, Afrânio? –
Perguntou John ao médico.
- A causa exata ainda não sabemos. Alguns casos, que não é o seu Liz, decorrem de uma desordem genética chamada
neurofibromatose tipo 2, menos de 5% de pacientes afetados. Qualquer um pode ter um neuroma do
acústico e ele atinge duas
vezes mais mulheres homens. Talvez ele
tenha surgido em consequência do seu tratamento passado.
- E por falar em tratamento, para o que devo me preparar?
- Bem, tomaremos essa decisão em conjunto. Tomei a liberdade
de enviar as imagens aos médicos que a
trataram na Carolina do Sul e depois de uma análise cuidadosa, concordaram que
a melhor opção para você é a radiocirurgia.
- My God! Nova
cirurgia? – Falou John – Não há
outra alternativa?
- Poderíamos coloca-la em observação, mas receio que não seja prudente. Tumores mesmo benignos crescem.
E isso tem suas consequências.
- E o meu não é mais
um bebê! – Comenta Liz passando o dedo
pela imagem da ressonância e
suspirando.
- Não. – Confirma
Afrânio. – Mas ainda não é um adulto.
Infelizmente vai pressionar cada
vez mais o seu nervo auditivo, podendo chegar a uma paralisia facial. Uma cirurgia
convencional deixaria sequelas
como perda permanente da audição e
comprometimento muscular facial, além de não garantir uma
volta dele.
- E a radiocirurgia? – Indaga
Liz.
- Bem, no procedimento
a radiação é dirigida apenas para o tumor não expondo o tecido circundante a essa radiação. Pode ser
uma única aplicação, com maior quantidade de radiação ou, várias sessões com
menores quantidades. Não há a retirada do tumor mas faz com que ele pare de
crescer.
- E os efeitos colaterais serão os mesmos de antes?
- Efeitos colaterais à radiocirurgia são raros, Liz. Em dois
dias vai voltar
às suas atividades normais.
- Eu poderia adiar isso por algum tempo?
- O tempo seria favorável
ao tumor e não a vocês. Entendo sua relutância,
mal saiu de uma situação delicada, que a
deixou física e emocionalmente abalada. Mas a hora é essa, Elisabeth. Quanto mais ele crescer,
mais
complicado será, mesmo sendo benigno.
- Al right. –
Exclamou Elisabeth – Vamos marcar isso
de uma vez. O que tenho que fazer?
- Liz...
- John, vai dar tudo
certo! Explique-nos como vai ser e
os custos, por favor, Afrânio.
- A radiocirurgia é realizada sob anestesia local. Você vai
estar consciente durante todo o procedimento. Faremos uma série de exames de
forma a identificar com precisão a exata posição do tumor e então um feixe de
radiação será... .... .... ....
PSV
- Sim eu tenho certeza, contrate um bom detetive para segui-lo. – Afirmou Claude, sentando-se e apoiando os
cotovelos sobre a mesa- Se queremos ajudar
Nara precisamos ter argumentos e provas contra Louise.
- Devo alertar Nara?
- Ouí. Deixe-a
prevenida e providencie a vinda dela
para cá o quanto antes. Vou trocar o flat por um apartamento mais confortável.
- Cara, eu ainda não consigo acreditar. Louise perdeu a noção das coisas...
- O poder corrompe um
caráter fraco, meu caro. Ela sempre foi gananciosa, mas não vai comprometer a
vida de Nara, eu garanto.
- E eu vou ajuda-lo. Au revoir, Claude.
- Au revoir, mon ami. – Respondeu encerrando a ligação,
recostando-se na cadeira.
E por um instante a
figura de Rosa tomou conta de sua mente, fazendo-o esquecer Louise.
PSV
O livro escorregou das mãos de Rosa e caiu no chão fazendo
um som surdo e abafado pelo tapete,
fazendo-a sobressaltar-se.
- Deus! Dormi outra
vez antes de finalizar a
história... – Sussurrou olhando para Alex.
A garota dormia profundamente. Rosa saiu da cama e ajeitou
a coberta sobre ela cuidadosamente.
Então, afastou-se e pôs o livro sobre a
mesa do canto, onde estava o canguru.
Pegou-o e com delicadeza o tocou com a ponta do dedos, antes de encosta-lo em sua face.
Por um instante, desejou ter sido aquela
massa de modelar nas mãos de
Claude...
PSV
Continua


1 comentários:
Maissssss... Muito maisss.. To em dia agora Soniauska.. Boraaaaaaa
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