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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

PSV/Capítulo 8


- Você devia ter aceitado o  convite para  jantar, Rosa! Sabe que não me importo em passar a noite  com Alex. Principalmente se  for para  você  se  divertir.
- E quem disse que eu  iria me  divertir? Com certeza eu estragaria a noite  de todo, isso sim!
- Oras, Janete não teria insistido  se  pensasse isso. Um bom restaurante com esticadinha em uma  boate de vez em quando  faz  muito bem, sabia?
- Agradeço sua preocupação, Sílvia, mas  já passei da idade de me divertir com essas frivolidades. Além do que as minhas noites são de Alex.
- Está bem,  está bem, já entendi... - Disse Silvia calando-se.  Era a  babá de Alex há  quatro anos e nunca  vira  Rosa  se relacionar com algum homem, o que era um desperdício em sua  opinião, mas respeitava a decisão dela.
- Silvia, obrigada por tudo, ok? Eu não quis ser  grosseira.
- Eu sei, Rosa. No stresse, no problem!
- Você é que está na idade de se  divertir.  Deveria viver a vida e quem sabe, arrumar um namorado fixo...
- Duas  coisas que não combinam: Diversão e namoro fixo.
- Mamãe, mamãe, você  tá  demorando! -  Exclama Alexandra, aparecendo na porta da  sala de pijama e usando os  tamancos  de madeira.
- Ela está agitadíssima  com essa historia de ir à  galeria  “de noite” – Comenta Silvia, antes de abrir a porta para  sair. -  Boa  noite  e até amanhã!
- Boa noite, Silvia! – Respondeu, fechando  a porta após ela  sair.
- Então eu estou demorando? -  Perguntou voltando-se para a filha.
- Aham... Você  disse que ia contar um monte  de historinha pra mim, antes  de  dormir e eu já  tomei o leite  tudinho!
- Uau! Então estou  mesmo atrasada! – Comentou  segurado a mão de Alex. – Vamos às nossas histórias?
Assim que entraram em seu quarto, Alex pulou sobre a cama.
- Mamãe, você é a Cinderela? – Perguntou batendo os  pés, fazendo os tamancos  estalarem.
- Cinderela? Claro que não, meu anjo! Por que seria?
- Porque você ganhou esses sapatos do meu papai! - Exclamou de  volta. -  E aí ele não tinha  um castelo, por isso deixou a gente  aqui. E quando ele tiver um castelo, e a mamãe dele sarar,  ele vem buscar a gente e a gente  vai ser feliz pra sempre! – Completou em sua inocência. 
- Meu Deus, pelo jeito você já  contou sua história, não é? – Disse Rosa, surpresa com o raciocínio da  filha. - Mas a mamãe não é a Cinderela, ok? E agora, tirando os tamancos, não pode  dormir  com eles!
Obediente, Alex tirou  os  tamancos e entregou à Rosa.
- Mas eu posso ir  com ele amanhã  a noite na  sua  festa? – Perguntou bocejando.
- Não, não pode. – Respondeu Rosa colocando-os sobre o tapete, ao lado da cama
- Por que não?
- Primeiro porque eles são grandes demais para você sair com eles, meu amor.  Pode enroscar o pezinho, cair e se machucar. E eu não quero que minha princesa se machuque. E segundo, que já  compramos um lindo  sapatinho, esqueceu? – Explicou antes de  pegar o livro  de  contos, que  ficava na bancada da  cama e deitar-se ao lado  da  filha.
- Então, qual  será a história de hoje?
- A da Cinderela, mamãe!
- Não combinamos uma nova, não?
- Amanhã, mamãe, hoje eu quero a da Cinderela. E  depois a do papai, você tá  me devendo ela...
 - Duas histórias? Está bem, tem razão. Ontem em tivemos tempo... Vamos, lá! Era uma vez...
Estava na parte em que Cinderela experimentava o sapato quando Alexandra a interrompeu e com a voz sonolenta perguntou:
- Mamãe, quando eu ficar  grande,  posso usar o seu sapato, aquele de salto bem alto?
- Pode sim, querida! – Respondeu virando-se para a  filha. E então percebeu que ela  adormecera.
Sorriu, com a ideia de Alex. Não eu não sou a Cinderela. Nem Claude é meu príncipe. Devolveu o livro à bancada da  cabeceira e sentiu-se aliviada por  não ter que  contar sobre os tamancos. Tudo que precisava e queria era uma  boa  noite de  sono, sem lembranças.  Mas  não  foi  o que  aconteceu quando   deitou em  sua  cama.
PSV

Claude despediu-se de Júlio e esperou que ele entrasse no elevador antes de fechar  a porta. Caminhou de  volta à sala e sentou-se no sofá, pegando um envelope que estava  sobre a mesinha de centro.
- Vai desistir da galeria? – Pergunta  Dadi, recolhendo copos e xícaras.
- Não sei. Não me agrada a ideia de comprar algo que não seja definitivamente meu. No entanto, o  acionista majoritário adquiriu essa  dívida para  custear o tratamento da esposa e  a seguradora comprou a carteira. E  não vim até aqui para  voltar de mãos abanando. Eu vou ler a indicação dos advogados antes  de dormir.
- Por que não deixa para ler amanhã?
- Estou sem sono, Dadi. – Respondeu levantando-se
- Vai aceitar o convite  para a vernissage?
- D’àccord. Será uma  ótima oportunidade para observar e medir o potencial dessa galeria e de seus  colaboradores.
- Devia dormir e descansar. – Aconselha  Dadi.
- Foi o que  fizemos  esses dois  dias no Rio de Janeiro: praia, sol e água de coco.  Mas as férias  acabaram, Dadi.
- Se você diz... Quer mais café?
- Não. Pode ir se deitar, deve estar cansada. Boa noite, Dadi. E obrigado por se preocupar  tanto  comigo, hã?
- Boa  noite, Claude. Não tem porque me agradecer, faço de coração.
- Eu sei. E por isso mesmo  tenho que agradecer. – Disse segurando as mãos de Dadi, antes que ela  se retirasse.

PSV

Rosa  girou o corpo mais uma vez para o lado da janela.  Suspirou e  apoiando-se em um dos  cotovelos ergueu o corpo. Com a mão livre ajeitou o travesseiro e  voltou a deitar. De costas dessa vez.
Passou longos  minutos olhando para o teto do quarto, contando  carneirinhos. E só no décimo oitavo reparou que eles calçavam tamancos holandeses.
Irritada, puxou o travesseiro com força e jogou-o fora  da cama, como se ele fosse o culpado de  sua insônia.
Arrastou seu corpo para  cima, até encostar-se à  cabeceira da cama. Mordeu o lábio inferior e passou as mãos pelo cabelo,  puxando-os para o lado.
O lençol com o qual se cobria havia sido puxado para cima também, deixando seus pés a mostra. Balançou-os devagar e lateralmente, de forma que um batesse contra o outro.

E de repente era apenas um de seus  pés  colidindo suavemente com  um dos pés de Claude, antes que ele o deslizasse pela sua perna, carinhosamente.


PSV





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