- Você devia ter aceitado o
convite para jantar, Rosa! Sabe
que não me importo em passar a noite com
Alex. Principalmente se for para você
se divertir.
- E quem disse que eu
iria me divertir? Com certeza eu
estragaria a noite de todo, isso sim!
- Oras, Janete não teria insistido se
pensasse isso. Um bom restaurante com esticadinha em uma boate de vez em quando faz
muito bem, sabia?
- Agradeço sua preocupação, Sílvia, mas já passei da idade de me divertir com essas frivolidades.
Além do que as minhas noites são de Alex.
- Está bem, está bem,
já entendi... - Disse Silvia calando-se.
Era a babá de Alex há quatro anos e nunca vira
Rosa se relacionar com algum
homem, o que era um desperdício em sua
opinião, mas respeitava a decisão dela.
- Silvia, obrigada por tudo, ok? Eu não quis ser grosseira.
- Eu sei, Rosa. No stresse,
no problem!
- Você é que está na idade de se divertir.
Deveria viver a vida e quem sabe, arrumar um namorado fixo...
- Duas coisas que não
combinam: Diversão e namoro fixo.
- Mamãe, mamãe, você
tá demorando! - Exclama Alexandra, aparecendo na porta
da sala de pijama e usando os tamancos
de madeira.
- Ela está agitadíssima
com essa historia de ir à
galeria “de noite” – Comenta Silvia,
antes de abrir a porta para sair. - Boa
noite e até amanhã!
- Boa noite, Silvia! – Respondeu, fechando a porta após ela sair.
- Então eu estou demorando? - Perguntou voltando-se para a filha.
- Aham... Você disse
que ia contar um monte de historinha pra
mim, antes de dormir e eu já tomei o leite
tudinho!
- Uau! Então estou
mesmo atrasada! – Comentou segurado
a mão de Alex. – Vamos às nossas histórias?
Assim que entraram em seu quarto, Alex pulou sobre a cama.
- Mamãe, você é a Cinderela? – Perguntou batendo os pés, fazendo os tamancos estalarem.
- Cinderela? Claro que não, meu anjo! Por que seria?
- Porque você ganhou esses sapatos do meu papai! - Exclamou
de volta. - E aí ele não tinha um castelo, por isso deixou a gente aqui. E quando ele tiver um castelo, e a
mamãe dele sarar, ele vem buscar a gente
e a gente vai ser feliz pra sempre! –
Completou em sua inocência.
- Meu Deus, pelo jeito você já contou sua história, não é? – Disse Rosa,
surpresa com o raciocínio da filha. -
Mas a mamãe não é a Cinderela, ok? E agora, tirando os tamancos, não pode dormir
com eles!
Obediente, Alex tirou
os tamancos e entregou à Rosa.
- Mas eu posso ir com
ele amanhã a noite na sua
festa? – Perguntou bocejando.
- Não, não pode. – Respondeu Rosa colocando-os sobre o tapete, ao lado
da cama
- Por que não?
- Primeiro porque eles são grandes demais para você sair com
eles, meu amor. Pode enroscar o pezinho,
cair e se machucar. E eu não quero que minha princesa se machuque. E segundo, que
já compramos um lindo sapatinho, esqueceu? – Explicou antes de pegar o livro
de contos, que ficava na bancada da cama e deitar-se ao lado da
filha.
- Então, qual será a
história de hoje?
- A da Cinderela, mamãe!
- Não combinamos uma nova, não?
- Amanhã, mamãe, hoje eu quero a da Cinderela. E depois a do papai, você tá me devendo ela...
- Duas histórias? Está
bem, tem razão. Ontem em tivemos tempo... Vamos, lá! Era uma vez...
Estava na parte em que Cinderela experimentava o sapato quando Alexandra a
interrompeu e com a voz sonolenta perguntou:
- Mamãe, quando eu ficar
grande, posso usar o seu sapato,
aquele de salto bem alto?
- Pode sim, querida! – Respondeu virando-se para a filha. E então percebeu que ela adormecera.
Sorriu, com a ideia de Alex. Não eu não sou a Cinderela. Nem
Claude é meu príncipe. Devolveu o livro à bancada da cabeceira e sentiu-se aliviada por não ter que
contar sobre os tamancos. Tudo que precisava e queria era uma boa noite
de sono, sem lembranças. Mas não
foi o que aconteceu quando deitou em
sua cama.
PSV
Claude despediu-se de Júlio e esperou que ele entrasse no
elevador antes de fechar a porta.
Caminhou de volta à sala e sentou-se no
sofá, pegando um envelope que estava
sobre a mesinha de centro.
- Vai desistir da galeria? – Pergunta Dadi, recolhendo copos e xícaras.
- Não sei. Não me agrada a ideia de comprar algo que não seja
definitivamente meu. No entanto, o
acionista majoritário adquiriu essa
dívida para custear o tratamento
da esposa e a seguradora comprou a
carteira. E não vim até aqui para voltar de mãos abanando. Eu vou ler a
indicação dos advogados antes de dormir.
- Por que não deixa para ler amanhã?
- Estou sem sono, Dadi. – Respondeu levantando-se
- Vai aceitar o convite
para a vernissage?
- D’àccord. Será uma
ótima oportunidade para observar e medir o potencial dessa galeria e de
seus colaboradores.
- Devia dormir e descansar. – Aconselha Dadi.
- Foi o que
fizemos esses dois dias no Rio de Janeiro: praia, sol e água de
coco. Mas as férias acabaram, Dadi.
- Se você diz... Quer mais café?
- Não. Pode ir se deitar, deve estar cansada. Boa noite,
Dadi. E obrigado por se preocupar
tanto comigo, hã?
- Boa noite, Claude. Não
tem porque me agradecer, faço de coração.
- Eu sei. E por isso mesmo tenho que agradecer. – Disse segurando as mãos
de Dadi, antes que ela se retirasse.
PSV
Rosa girou o corpo
mais uma vez para o lado da janela.
Suspirou e apoiando-se em um
dos cotovelos ergueu o corpo. Com a mão
livre ajeitou o travesseiro e voltou a
deitar. De costas dessa vez.
Passou longos minutos
olhando para o teto do quarto, contando
carneirinhos. E só no décimo oitavo reparou que eles calçavam tamancos
holandeses.
Irritada, puxou o travesseiro com força e jogou-o fora da cama, como se ele fosse o culpado de sua insônia.
Arrastou seu corpo para
cima, até encostar-se à cabeceira
da cama. Mordeu o lábio inferior e passou as mãos pelo cabelo, puxando-os para o lado.
O lençol com o qual se cobria havia sido puxado para cima
também, deixando seus pés a mostra. Balançou-os devagar e lateralmente, de
forma que um batesse contra o outro.
E de repente era apenas um de seus pés
colidindo suavemente com um dos
pés de Claude, antes que ele o deslizasse pela sua perna, carinhosamente.
PSV

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