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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

PSV/Capítulo 9

-  Acorda, chérie! – Sussurava ele em seu ouvido. – Não finja que está dormindo, hã? Eu percebi o seu tremor e sua pele está  toda arrepiada...
- Hummmm – Resmungou de olhos fechados. – Tem certeza que precisamos ir hoje?
- Absoluta. - Respondeu passeando pelos braços  dela com os dedos. – É o último dia  do festival. – Completou deslizando os lábios pelo rosto dela.
- E o nosso último dia aqui. – Murmurou, passando os braços pelo pescoço dele, deixando-se ser beijada.
Era a última semana que passavam em Amsterdã. Ambos já haviam cumprido seus projetos acadêmicos.  A pesquisa de Rosa e o curso de Claude estavam encerrados.
O Amsterfest era um evento  da  Escola de Arte de Amsterdã onde  todas as áreas de estudo da Arte promoviam e desenvolviam  ações que deveriam conversar entre si, primando pelas  tradições  holandesas. Mas em tempos de  globalização, um dos  desafios era reproduzir tradições de outros países,  num contexto artístico-social.
Os alunos dos últimos  períodos da graduação eram os responsáveis pela organização e desenvolvimento do evento. Os  fundos arrecadados pela venda de souvenirs eram revertidos às entidades assistenciais.
- Este é o melhor ano  do evento! – Ouviram do coordenador  do projeto  – Foi um prazer tê-los em nossa escola.
- Nós é que agradecemos pela hospitalidade e cordialidade com que  fomos  tratados,  Erjan! 
- É uma pena que já tenha que partir. Seu compromisso e responsabilidade ficaram evidentes em suas  notas, Rosa. E suas  aulas  foram fantásticas, Claude. Poderia  ficar e nos  brindar  com um outro  curso, que acha?
- Oh, ficamos extremamente lisonjeados, mas temos algo mais importante para realizar no momento. – Responde abraçando Rosa pelos ombros – Quem sabe numa outra ocasião?
- Está certo! O amor em primeiro lugar! Divirtam-se por aí! E não deixem de passar no meu estander.
O evento era grandioso. Passaram a manhã toda apreciando as  criações e produções artísticas de cada estande dos estudantes de artes visuais e música. Alguns shows estavam agendados para o final da tarde, antecedendo o encerramento da festa.
Almoçaram em um dos  quiosques na praça de alimentação. Depois Rosa quis procurar por  souvenirs, lembrancinhas que  pudesse levar  para amigos.  Havia  visto muito coisa  nas  lojas  da  cidade, mas como  boa  brasileira,  deixara para a última hora e agora, era  comprar  ou comprar.
E  foi no  estander de Erjan que encontraram várias opões e modelos em miniatura, com ícones holandeses: os moinhos de vento, bicicletas, os tamancos, réplicas de  obras de arte, azulejos, vasos, tulipas,  e doces típicos, principalmente balas.
Eram objetos  tão encantadores quer não sabia  o que levar para quem.
- Por que não leva um par  dos nossos tamancos para  seus amigos? - Sugeriu Erjan, que os atendia pessoalmente. - São excelentes objetos de decoração além de  poderem ser usados, principalmente no inverno. Conhecem a história deles? –
  - Não. – Responderam ao mesmo tempo Claude e ela.
- Estão com tempo, querem saber?
- Eu adoraria! – Respondeu Rosa. - Claude?
- Também fiquei curioso, hã?  Essas histórias nos  dizem  muito sobre o perfil de um povo. Entendo essas tradições  como a  coluna vertebral na  formação cultural de qualquer pessoa. É  através delas que construímos  muitos  conceitos...
-  Pois bem – Começou Erjan -   Esses sapatos de madeira tem sua origem datada do ano de 1200. Eram usados por camponeses em seus trabalhos, para proteger os pés do frio, da umidade e da terra. Apesar de parecerem muito pesados, são feitos da madeira do álamo ou salgueiro, madeira mais leve de fácil  entalhe. O chamamos carinhosamente de Klompen, porque quando caminhamos com ele, faz o som de “kloc, kloc, kloc”.
- Alguns são decorados e outros não, alguma razão para isso? – Pergunta  Claude parecendo interessado.
 - Pela tradição, os tamancos sem pintura eram usados durante a semana e os decorados para ir a igreja, com uma certa regra: os homens usavam os pintados de preto e branco e as mulheres usavam os pintados com motivo floral.

- É uma pena que  com a modernização deixaram  essas tradições de lado.  – Comenta Rosa,  apreciando os tamancos enfileirados em prateleiras numa parede.



 - É o ônus  que pagamos pelo progresso, chèrie. – Comentou Claude, ao lado dela.

- Em algumas cidades pequenas ainda é possível encontrar pessoas que os utilizam, para trabalhar no jardim ou no campo. E são usados como parte essencial da vestimenta tradicional para a "Klompendanskunst".
- Mon Dieu, pode repetir  essa palavra, por favor?
- Klompendans kunst, a  dança de tamancos. – Repetiu Erjan, sorrindo. - São mais leves que os tradicionais e os dançarinos tem que criar o ritmo batendo os bicos e saltos dos tamancos em um piso de madeira.
- Como no sapateado ou na  catira! – Exclama Rosa. – Uma  dança típica do interior brasileiro – Explica.
- Sim, dizem que o sapateado tem aí sua origem. E outra lenda, mais  romântica,  reza que os jovens holandeses presenteavam suas noivas com um par de tamancos esculpidos em madeira.
- Voilà!  - Murmurou  Claude pegando do mostruário o par  de tamancos que Rosa não parava de  admirar.  – Eu não sou holandês, nem  vou ter  tempo de esculpir um,  mas  você pode ser minha noiva. – E os colocou  nas mãos dela. -  Rosa, quer se casar comigo?
Surpresa, Rosa  ficou sem ação por um instante, para em seguida responder.
- Eu... Sim, claro que quero! -  E passou seus  braços pelo pescoço dele,  enquanto era enlaçada pela  cintura.
O gesto fez  com que os  tamancos batessem e  fizessem o falado som de “kloc, kloc, kloc”.  Sorriram um para o outro, antes de selarem o compromisso com  um beijo.
Erjan mais que depressa registrou o momento, com seu celular e depois de felicita-los, pediu autorização para  colocar a imagem na galeria virtual de sua loja. Uma tradição particular sua.
Ainda  comemoraram o fato, com uma  dose de  genebra, um licor holandês,  feito a base de cereais. Erjan embalou os  souvenirs escolhidos por Rosa e logo Claude e ela estavam de novo circulando pelo festival.






O único espaço  que ainda não tinham visitado era o de artes cênicas, instalado no ginásio de esportes da escola.
Como o folheto que receberam na entrada explicava, todo ano homenageava-se algum lugar, artista ou   personagem fortemente ligado  ao show business mundial.
Não precisaram se esforçar para  concluir em que  o ginásio fora  transformado: Las Vegas.
Famosa por seus cassinos,  Las Vegas  foi  cenário para vários filmes e lá estavam os pôsteres deles: 007 - Os Diamantes São Eternos, Assalto em Las Vegas, A Três Mil Milhas do Inferno, Onze Homens e um Segredo, Miss Simpatia 2, Resident Evil: Extinction,  Looney Tunes - De Volta à Ação, , Quebrando a Banca, Se Beber, Não Case, CSI e outros.
E os  futuros atores levaram a sério a proposta.  A instalação cênica  começava com a  réplica de um cassino, onde  podia-se jogar  pra  valer, enquanto uma e outra cena eram interpretadas por  toda a extensão do ginásio.
Enfileirados  lado a lado,   painéis indicavam  o caminho para uma capela, ao mesmo tempo que explicavam o motivo dessa instalação estar presente ali.


Las Vegas possui grande reputação na indústria casamenteira. Ganhou essa fama numa época em que a prostituição era liberada, mas os hotéis só aceitavam casais que comprovassem elo matrimonial.
Então,  pequenas capelas surgiram para realizar cerimônias relâmpagos e daí o casal podia comprovar a união e se hospedar nos hotéis sem maiores problemas. Com o passar dos anos a prostituição passou a ser proibida em Las Vegas  e as capelas perderam o foco inicial.
Como a cidade atraía muitos visitantes e dentre eles haviam interessados em um casamento real, as cerimônias  começaram a ganhar credibilidade, principalmente após a união de Elvis e Priscilla Presley entre  outras celebridades.
Ao contrário do que muitos pensam, casar em Vegas é lícito e possui validade legal nos EUA.


Mas  foi a ultima placa que atraiu a atenção de Claude.
“Está apaixonado, quer romantismo e excentricidade?  Case-se aqui, em Vegas, onde não há limites para a sua felicidade.”
Era o que dizia em meio às luzes de neon o último painel, ao lado da réplica de uma capela típica de  Vegas.
- Bem vindos a minha  humilde capela, onde casamentos relâmpagos acontecem para quem não  quer cometer  o  pecado  do sexo sem estar casado. – Falou piscando um dos atores, que pelas vestimentas devia ser o religioso da  capela – E então?-    Perguntou -  Prontos  para casar em Vegas?
Claude sorriu e assentiu com a cabeça, dizendo:
- Ouí, o que temos que fazer?
- Claude? -  Murmurou Rosa.
- Como em qualquer  casamento, assinar  o termo oficial de concordância e responsabilidade. – Respondeu estendendo uma caneta a Claude.
Claude segurou a caneta e  voltou-se para Rosa:
- Você aceitou, hã? Agora não pode  voltar atrás! – Exclamou   assinando o pedido no  livro de registros.
- Mas Claude...
- Sem mas, chèrie... Não podemos  “viver em pecado”, d’àccord? Seja uma  boa aluna e faça a lição de casa, agora, oui? – Pediu  entregando a caneta a ela.
- Ok, você venceu! – Respondeu assinando o mesmo termo.
Em minutos foram vestidos com roupas típicas holandesas e  Claude insistiu para que ela usasse os tamancos. Considerando que “estavam” em Vegas, onde nenhum sonho é impossível, tiveram como padrinhos nada menos que Elvis Presley, Vincent Van Gogh e Michael Jackson.





Após dizerem sim à pergunta “É de sua livre e espontânea  vontade...” foram declarados marido e mulher e a cerimônia foi encerrada enquanto se  beijaram.  

Receberam até mesmo uma  certidão de casamento  imprimida na hora, que obviamente não tinha outro  valor senão sentimental.
“As fotos e o vídeo estariam disponíveis para  download no site da Escola em breve.” – Era a observação que  constava na certidão. 
  
- Mamãe, você tá acordada? – A voz suave e apreensiva de Alex juntamente  com  suas fracas e apressados batidas na porta trouxeram Rosa de  volta ao presente.
Não era hábito da filha acordar durante a noite. Praticamente pulou da cama e correu até a porta, abrindo-a.
- Filha, o que foi?  O que aconteceu? – Perguntou tentando verificar a temperatura de Alex com a mão.
- Eu esqueci do xixi e tô com vontade!  Mas  tô com medo, você  pode ir  comigo no banheiro? – Explicou-se Alex.
- É claro que eu posso, meu amor! – Respondeu Rosa, aliviada, abraçando a filha.
Alex não tinha nada! E ela  também não teria mais lembranças. Pelo menos não por aquela noite, determinou.


PSV
 Continua 15/01

1 comentários:

Carliane disse...

Tá lindo demais, como sempre, Soniaaaaaaaaaaaaaaaaa!
Ansiosa pra ver eles se encontrarem na Galeria. Adorandooooooo!!! Bjs

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