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sábado, 2 de janeiro de 2016

PSV/Capítulo 2




Nara observou o carro do irmão passando pelo portão e fazer todo o trajeto do jardim  até a frente  da mansão. Mas ele não parou como esperava. Continuava com o hábito de  circular a lateral da casa até alcançar a área do fundo para estacionar e entrar pela cozinha. Sua mãe detestava essa atitude dele. Mas, reconheceu que Dadi sempre os  tratara  com mais  paciência e carinho que ela.




Apressou-se  a sair  da  biblioteca e foi ao encontro dele. Com certeza a esta hora Dadi e um café forte e fresco já estariam  a  espera dele. Há anos ela mantinha esse costume, desde que  o irmão voltara de Amsterdã casado e  fora  abandonado.
Desde então, tornara-se  outro homem. Evitava a diversão e quando o convenciam a participar de uma, o fazia com um cinismo impressionante.
Chegou a tempo de ouvi-lo dizer a Dadi:
- Não sei como farei sem seu café  todas as tardes, Dadi. – E levou a xicara aos lábios, sorvendo um gole  do café.
- É só parar  com essa ideia maluca de ir para o Brasil! – Exclamou Nara, abraçando-o pelos  ombros.
- Não é uma ideia maluca. – Respondeu quase secamente.
- Mas jogar  sua   carreira politica fora, sim.
- Às vezes  você me assusta, Nara! Se  eu não a estivesse vendo, juraria que era nossa mãe a falar isso.
 - Pois nesse ponto, concordo com ela. – Rebateu, sentando-se enquanto  Dadi a servia.  –Você sabe que pode ser reeleito, não  sabe?
- Não, não posso. Assinei minha renúncia hoje. E cancelei minha  filiação ao partido.
- Mon Dieu! Depois de todo esse tempo, deixar tudo que  você  construiu... Quando mamãe  souber, vai ter uma crise daquelas!
- O que  foi que eu  construí, além da minha infelicidade? – Pergunta friamente.
- Não pode negar que atuou de  forma positiva todos esses anos! Teve a maioria dos seus  projetos  aprovados e realizados. Alguns ainda estão em andamento! Como pode abandonar as  coisas assim?
- Eu não estou abandonando nada, Nara. Isso nunca foi meu, nunca  foi minha  vontade. Fui fraco e  cedi aos caprichos de  nossa mãe. Mas agora, recuperei o bom senso e o controle da minha vida.
- Bom senso? Ir ao Brasil atrás de uma mulher que o abandonou é ter  bom senso, Claude? – E imediatamente  arrependeu-se do que disse.   Me  desculpe, eu não...
Claude respirou fundo e apertou os lábios, antes  de  responder, interrompendo-a:
- Não precisa se  desculpar, afinal  foi isso mesmo que  aconteceu, não foi? – Disse, tomando de uma  só vez o que  restava  do café, antes de jogar o guardanapo sobre a mesa e se retirar.
- Não devia ter  tocado nesse assunto, menina. – Comentou Dadi  - Sabe o quanto ele ainda sente.
- Eu sei, Dadi. Foi  num  impulso, quando vi já tinha deixado meu pensamento  sair pela  boca.
- Sabe o que eu penso, Nara? Que essa historia de abandono está mal contada, sempre esteve...
- Por que  diz isso, Dadi? Sabe de alguma   coisa, tem noticias dela?
- Não. É só uma sensação que ficou no meu  coração.
- Entendi. – Exclamou Nara não insistindo. No fundo também pensava assim. – Eu vou falar  com ele. Até  o jantar, Dadi.
Nara foi de novo a biblioteca. Tinha certeza que o encontraria lá. Abriu a porta e o encontrou segurando um livro nas  mãos, encostado a janela. O livro estava aberto, mas Claude olhava pela vidraça.
- Claude... – Falou da porta, mas ele não a olhou. – Claude, eu sinto muito – Continuou entrando e fechando a porta – Não devia ter falado daquela  forma. Pode me  perdoar?
Claude  voltou-se lentamente para  a irmã mas nada  disse de imediato. Então voltou a olhar pela janela e com um   quase imperceptível  suspiro falou:
- Não estou indo atrás de ninguém, Nara. Nem poderia, porque eu não sei onde ela está. Não sei nem se  voltou ao Brasil. Você  sabe que sempre quis atuar no meu campo profissional e Júlio me garantiu que a galeria tem um ótimo retorno. Talvez eu até  volte a pintar. Preciso me afastar  de tudo isso, será que pode me entender?
- Creio que sim. Mamãe nunca  vai apoiar a  sua escolha pelo campo das Artes Plásticas. Eu queria tanto que  você  superasse e eliminasse essa mágoa aí de dentro! – Exclama indicando o peito do irmão. -  Pensei que... – Hesitou um  instante – Pensei que fosse se  acertar com Roberta e quem sabe ser feliz novamente.
- Nara, você precisa parar  de ler romances que terminam com essa mentira de “foram  felizes para sempre”.
- Mas Roberta ama você. Por que não?
- Porque eu não a amo. Se já não consegui ser ou fazer feliz alguém que amava, não será  com outra  por quem não sinto nada que conseguirei.
- Sabe que mamãe espera por isso, não? E Roberta também... Conta  com isso, que  a pedirá em casamento após  todos esses anos de dedicação a  você.
- Eu nunca pedi a ela  que dedicasse seu tempo a mim,  pelo contrário, sempre a desencorajei.  Esse interesse todo é apenas  armação. O que ela realmente deseja é adquirir  status de nobreza. Tornar-se uma baronesa, já que carregamos esse fardo.
- Fardo? Se mamãe o escuta falando assim de nossa linhagem, de nossos antepassados vai ouvir “aquele” sermão!
- Eu nunca dei importância a esse fato de ser descendente  do barão de Gérando, “um jurista, filantropo,  filósofo  e antropólogo francês”, como ela  gosta de ressaltar. Um detalhe que não me fez melhor que  ninguém.
- Pois mamãe acha Roberta a candidata perfeita para ter com você alguns netos, seus herdeiros.
- Basta Nara. Mamãe alimenta essa ilusão desde que éramos crianças. Tudo que sinto por  Roberta é tolerância. Talvez uma afeição pelo fato de crescermos no  mesmo  nobre ambiente francês, o que não a torna tão nobre assim.  
- Mas  você  a namorou antes de... Antes de ir a Amsterdã. – Corrigiu-se  a tempo.
- Não nego que saímos algumas vezes, mas  nunca a pedi em namoro ou prometi casamento.
- Você não, mas  a mamãe.
Claude sorriu sarcasticamente.
-  Quer saber? Se nossa mãe gosta tanto assim de Roberta, devia se casar  com ela e ter seus herdeiros porque eu não os terei. Nem  com  Roberta, nem com outra mulher qualquer.
- Não fale assim. Você ainda  vai encontrar alguém para  ser feliz!
- Nara...
-  Está bem, está bem! Eu não falo mais isso. Contudo,  é o que eu mais desejo sabia? Que você  volte a viver.
- Eu não estou morto, Nara.
- Mas vive  como se estivesse. Olha eu tinha quinze anos quando tudo aconteceu. Nem sei ao certo o quê ou como as  coisas  aconteceram, mas  ela também te amava.
- Você era praticamente uma criança que não entendia e nem entende agora  nada de amor, de relacionamentos.
- Por isso mesmo, meu teimoso irmãozinho! Eu gostei  dela assim que a vi e... – Cala-se  diante  do olhar do irmão. - Voilà, já entendi. Diga que me perdoa e eu o deixo aqui com suas... rabugices.
- Eu a perdoo. – Disse sem olhar para  a irmã. - Quantas vezes já a  tinha perdoado por esse mesmo  motivo?
- Já pode ir. – Continuou ao ver que ela não saia  do lugar.
- Quer saber? Você  pode tentar me afastar de você quantas  vezes quiser. Pode ser irônico, mal humorado, ranzinza que eu não ligo. Eu  vou, mas eu volto! – E deu um beijo no rosto dele antes de sair.
Claude  permaneceu na  biblioteca. E talvez ficasse por lá  a noite  toda, não fosse Dadi o forçar a jantar ao lado da irmã..

PSV

Dadi serviu a sobremesa que Claude  dispensou, mas esperava a irmã terminar, enquanto a ouvia pacientemente sobre  seus planos futuros estudos, carreira, vida quando o som de algumas  portas  batidas o fizeram se calar.
Então, passos curtos e nervosos de um salto alto marcando um ritmo seco foram se aproximando pacientemente, até que uma indignada Louise Geraldy entrasse na sala de jantar. E atrás dela, Roberta.
- Claude, me diga que é brincadeira do Oliver, que  você não fez a loucura de abandonar a política!
- Boa noite para  você também, “mamãe”. – E a ironia era evidente.  Roberta... – Sussurrou num movimento de cabeça. -  Vejo que seu informante não demorou com a notícia. – Concluiu.
- Oliver não é meu informante.  Apenas  me mantem a par dos acontecimentos do partido!
- Tem razão. Ele deve ser melhor amante que informante. – Responde secamente.
- Claude! – Exclama Nara perplexa com o que escuta.
- Como ousa sugerir tal situação, Claude? Eu ordeno que retire o que disse, neste instante! – Diz Louise,  tentando manter a classe.
- Oras! Todo o Partido sabe disso. Deveria ter pedido sigilo ao seu, como devo chama-lo? Amigo? Ou ele pretende ocupar o cargo de padrasto nesta casa?
- Como se atreve  a falar nesse tom comigo, Claude? Eu sou sua mãe, exijo respeito! – Agora seu tom era alto o suficiente para atrair a entrada de Dadi na sala.
- Dona Louise, acalme-se por favor.  – Pede Dadi, tentando ajudar.
- Devia ter se dado ao respeito então, “mamãe”. – Novamente  a ironia ao se referir a ela.
- Seu cretino! O partido tinha planos para você! De  conselheiro a prefeito, com um mandato de seis anos,  depois o parlamento e a presidência do pais!
- O Partido ou você? Eu nunca  quis cargo público! Você se aproveitou da minha vulnerabilidade naquele momento e me  induziu, dizendo que com o tempo  e as obrigações eu esqueceria dela. Mas eu nunca  a esqueci. Sabe por quê? Porque eu não quero.
- Seu estúpido! Vai matar sua vida  política, como seu pai fez!
- Exatamente. Seu amante não soube dar a notícia toda?  Eu  não só  a matei, como  fiz o velório e já a  enterrei. Definitivamente. Como meu pai fez.
- Não! – Grita Louise, descontrolada. – Não pode ser verdade, eu tenho tudo planejado seu casamento com Roberta, sua campanha...
- Claude, -  Fala Roberta, até então calada -  meus pais já  concordaram! – E aproxima-se dele -  Estão apenas esperando o seu pedido formal, meu amor!
- Está vendo? – Fala Louise – Não tem com o que se preocupar, Roberta será a melhor primeira  dama que este país já teve!
Claude sorri cinicamente para a mãe,  antes de segurar as mãos de Roberta.
- Escuta com atenção Roberta. Eu nunca prometi casamento para  você. Até porque eu já  sou casado.
- Mas o seu casamento não...
- Por que  você não quer entender? Eu não te amo, não te desejo, não quero nada  contigo!
- É por causa dela, não é?  Daquela maldita brasileirinha que atravessou o  meu caminho!
- É. – Afirmou Claude tranquilamente. - Eu nunca  vou amar outra pessoa, porque eu amo somente a ela.
Os olhos  de Roberta adquirem um tom mais escuro e  profundamente frio, vingativo. Brilham umedecidos por lágrimas de ódio, que não chegam a cair.
- Você diz isso assim, com essa... Com essa naturalidade, na minha cara? Eu devia ter matado ela e não...
- Cale-se, Roberta e deixe de dizer sandices! – Grita Louise. -  Claude está desorientado, passando por um momento de recaída, não é filho? Amanhã mesmo, nas primeiras horas do dia  pediremos a anulação de sua renúncia e desfiliação e tudo  voltará ao normal.
- Amanhã mesmo, nas primeiras  horas do dia estarei voando para longe  daqui e de vocês  duas. – Fala Claude olhando para Louise e Roberta.
Louise colocou as mãos na cabeça apertando-as com força.
- Minha cabeça! - Exclamou e cambaleou algumas  veze antes de procurar um lugar para sentar-se.
-Mamãe, o que você tem? Está vendo só o que fez Claude?
Aproveitando a fala da filha,  Louise desceu as mãos para o peito, repousando-as sobre o coração.
- Eu não estou bem... Mon Dieu, não consigo respirar!
- Pare de fingir mamãe!
- Claude, como pode dizer isso com ela assim? – Pergunta Nara, tentando acalmar a mãe.
- Meus remédios! Dadi, faça alguma coisa  de útil!
Dadi saiu da  sala e voltou rapidamente com  um copo d’água e alguns  comprimidos.
- Dona  Louise, seus remédios!
- Dadi, até quando vai compactuar  com esse teatro? Sabe tão bem quanto eu que essas pílulas de açúcar só servem para adoçar o fel que ela destila!
- Claude! – Exclamam juntas Nara e Roberta.
- Estou farto das  suas tramoias, dos  seus  ataques e chiliques toda vez que não faço a  sua vontade! Exclamou Claude olhando para Louise. -   Eu posso parecer  com meu pai, mas eu não sou ele!
- O que  foi que andou dizendo a ele, sua empregada intrometida? – Gritou Louise, empurrando com a mão o copo d’água que Dadi lhe oferecia e ficando em pé totalmente recuperada. – Eu devia  ter feito isso antes,  muitos anos atrás! Mas sempre é tempo de corrigir um erro: Você está despedida!
- Não pode despedir a Dadi assim, mamãe! – Nara intercede.
- Eu posso o que eu quiser, Nara! Agora saia da minha frente. – Diz empurrando a filha para o lado – Venha  comigo Roberta! E você – Diz  virando-se  para Dadi –  Tem amanhã para sair daqui.
Sai da sala e sobe a escada.
Roberta aproxima-se de Claude e diz:
- Isso não vai ficar assim. Eu vou dar um tempo para  você pensar e ordenar de novo suas  ideias. Viaje e divirta-se com todas que quiser, até mesmo com “ela”, porque quando voltar você só terá a mim!
- Não tenho intenção de  voltar, Roberta.
- E eu não tenho intenção de perder você outra vez!
- O que está esperando Roberta?  - Grita Louise do alto da escada.
- O que  foi isso que aconteceu aqui, alguém quer por  favor me explicar? – Pede enquanto Roberta vai atrás de Louise.
- Acho que você não está mais em Narnia, Nara. – Diz Claude - Bem vinda ao mundo real de Louise Geraldy.
- Ela não pode ter falado sério sobre  despedir  Dadi! E você, Claude, sobre não voltar!
- Eu acho que ela não estava brincando menina...
- Você poderá me visitar  quando quiser,  ma petit.  Quanto a você, não se preocupe Dadi. Vai  comigo e não aceito recusa.



   Continua

4 comentários:

Jake disse...

já tou amando, apesar de não gostar desse Claude bruto e idiota, kkk
aposto que foi Roberta que aprontou pra separar os dois, poxaaa

Jake disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

NARA COMO IRMÃ DE CLAUDE DSSA VEZ VAI SER BOA,?

Carliane disse...

Também adorei a Nara como irmã do Claude do que como noiva. Agora a Roberta e a mãe dele vão aprontar muito com Rosa e Claude, aliás pelo visto já aprontaram. Amando demais!!!

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