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sábado, 23 de abril de 2016

PSV/Capitulo 33

PSV




- Droga, onde foi que eu a coloquei... – Murmurou Rosa tirando todas as peças de roupa que usara na noite anterior, uma a uma,  de cima  da  poltrona. Nada.
Jogou-as de qualquer jeito de volta e saiu do quarto,  quase colidindo com a  filha.
- Alex, você pegou a echarpe da mamãe, filha?
- “E-char-pe”? Que que é isso, mamãe?
- É  aquele lenço que a mamãe  estava usando ontem.... Não pegou para  brincar de desfile?
- Humhum – Respondeu chacoalhando a cabeça negativamente.
- Só se eu deixei no carro! – Disse Rosa, ponderando. – Bem a mamãe já vai. Comporte-se,  hum?
Abraçou Alexandra e a  beijou carinhosamente.
- Eu posso descer de elevador  com você? E depois subir?
- Elevador não é brinquedo querida!
- Ah, só  hoje, só agora, mamãe! Assim eu  fico mais um pouquinho  com você...
E com esse argumento Alex ganhou um sorriso e a permissão de Rosa. Culpava-se  por trabalhar o dia todo e focar tão pouco com ela. Iria  rever esse conceito. Ainda mais agora que precisava aturar Claude e seu mau humor, além dos olhares e comentários.
-Sílvia, Alex vai descer  comigo! – Falou ela  um pouco mais alto enquanto pegava na mão da filha.
- Estarei esperando-a na volta. – Respondeu Sílvia aparecendo na sala e acompanhando-as até  o elevador.
O elevador desceu os  cinco andares com Alex  tagarelando sem parar. Seu último comentário provocou a risada  descontraída da mãe.
- “Os elevador devia te” controle de velocidade, não acha mamãe? Eu ia  colocar  bem devagarinho...
- Eu acho que  você  tem toda  razão, querida! – Comentou  vendo a porta  se abrir.
Saltaram as  duas  do elevador e o porteiro as  cumprimentou, brincando com Alexandra. Rosa despediu-se mais uma vez, ganhando um abraço bem apertado.
- Tchau mamãe! – Falou Alex  acenando com a mão, já dentro do elevador, apertando o botão para  voltar ao quinto andar em seguida.
A porta  fechou e Rosa aguardou até  a mensagem de Sílvia chegar, pelo celular: “Já estamos dentro de casa”.
Fazia isso por segurança, desde que assistira ao filme argentino ‘Sétimo’, onde duas crianças somem no próprio prédio ao apostar quem chega primeiro ao térreo: o pai, no elevador, ou ela, de escada. Claro aquilo era uma ficção, um filme de suspense. Não poderia acontecer ali, naquele prédio onde todos se conheciam,  mas,  mexeu com seu emocional de mãe e sentia-se melhor assim.




 PSV



A viagem à Amsterdã foi muito além do que previam Liz e John.  Descobriram que ali era  o destino dos sonhos para os amantes das Artes.







Em pleno outono, marcado pelas cores vermelho, amarelo, verde e marrom, a natureza fica linda logo antes de as árvores perderem as folhas.  E ainda tem um pouco de sol do final do verão,  propício para uma boa caminhada, sem pressa. Uma das melhores formas de conhecer a magia de Amsterdã.






A Praça Dam, onde estavam no momento, fica no centro de Amsterdam, com seus artistas  de rua. E de lá  pode-se ver uma grande estátua branca, o Monumento Nacional, em homenagem à Segunda Guerra Mundial na Holanda.






Era em uma das travessas da avenida em frente a praça que  ficava a loja de Erjan, com as mais variadas lembranças de Amsterdam.
A vontade era de levar quase tudo, pensava Liz, encantada.  Além dos artigos expostos, Erjan convidava o cliente, na maioria turistas,  a interagir. Podia-se dizer que a loja se parecia mais era uma pequena galeria de Arte, que capturava não apenas a imagem, mas também o espírito de Amsterdã.
A primeira  coisa que qualquer cliente via era um imenso quebra cabeças de fotografia, na parede oposta à da entrada. Aquilo chamou a atenção de Liz, mas ficou em segundo plano, pois assim que chegaram,  o grupo de  turistas deixava a loja carregados de souvernirs, e Erjam fechou-a com a típica placa “Closed”. 
E uma gostosa conversa  tomou conta dos três, enquanto Erjan os  conduzia por todas as partes da loja, instalada em uma  antiga  casa, o que os remetia à Galeria no casarão. Trocaram várias ideias e informações. E calcularam o valor  de possíveis  negócios, em algumas  peças do interesse de John e Liz. Erjan era muito simpático e não poupava esforços para  agradar os novos amigos. Por  mais de duas horas apreciaram joias,  pinturas, porcelanas, e tantas outras preciosidades da Arte, dos mais sofisticados aos mais simples.
Liz separou várias  peças pequenas, para presentear todos da galeria e alguns  outros amigos. Então Erjan os convidou para um café, ali na própria loja.
O espaço gourmet ficava nos  fundos da  loja,  numa construção à parte, semelhante às nossas edículas.  Uma das  funcionarias já havia  organizado e colocado o serviço em uma das  mesas.
- Sua loja fica em área movimentada, Erjan. Nunca  foi assaltado ou roubado? – Pergunta  John, servindo-se de uma  torrada  confeitada de anis.
Havia ainda queijos, pães e stroopwafel, um waffle com melaço, café, chá e leite. Além de geleias e manteiga.
- Desde que comecei a trabalhar com arte escuto de amigos e essa mesma pergunta. Mas, me diga você, John. Quem rouba arte?
John ficou surpreso com a devolutiva da pergunta e pensou alguns instantes antes de responder. E o fez logo depois de  um gole  de  café.
- Você é uma pessoa inteligente, Erjan.  Acabo de entender que não  importa  muito quem roube, mas  porquê.
- Bravo mijn vriend! – Exclama Erjan sorrindo. – E foi tentando elucidar essa questão que participei como consultor, a pedido de uma  amiga  na elaboração de um livro  sobre o assunto. O marido dela,  um advogado,  analisou casos de roubo de arte que foram solucionados na Europa, e o resultado dessa análise foi impressionante. – E faz uma pausa.
- Pode nos contar qual foi? – Pergunta Liz. -  Isso me parece interessantíssimo!
- Se não estiverem com pressa, porque  o assunto é longo!
- Estamos em férias, Erjan. Temos  todo o tempo do mundo. – Confirma o interesse John.
- Pois bem, isso de que roubo de arte é algo patrocinado por um grande colecionador milionário não passa de mito e ficção  hollywoodiana. Concluímos que existem tipos de ladrões de Arte, se é que podemos  classificar assim. Vou tentar  resumir para  vocês. Existe o ladrão comum, que não tem qualquer interesse em Arte e rouba apenas para fazer dinheiro e sustentar seus vícios. Esses, geralmente são funcionários da instituição ou pessoa vitimada, às vezes facilitando o acesso dos verdadeiros bandidos em troca de alguma  vantagem econômica.
-São pessoas  sem interesse no aspecto cultural da obra. Aliás, nem devem imaginar o  valor comercial delas. Que pena! – Observa John.
-  Exatamente. Depois, podemos falar dos cleptomaníacos, aqueles que  roubam  por prazer, por  compulsão. Talvez os mais inofensivos.
-  Concordo, já que a cleptomania é um distúrbio psicopatológico que faz a pessoa começar a roubar coisas diversas independente do valor... – Comenta  Liz.
- Em conta partida, temos narcotraficantes ou criminosos que resolvem roubar arte para usa-la como moeda de troca em negociações mais que ilícitas, tipo  cocaína, heroína e até  plutônio, e grupos terroristas, que roubam pela posição política e em troca, exigem a libertação de integrantes do grupo presos.
- Os mais perigosos. – Afirma Liz.
- Sim esses são capazes de qualquer coisa, muitas vezes baseados em fundamentalismos religiosos. – Emenda Erjan. – E por fim, temos a classe do sequestrador de obra de arte. Ele rouba e estipula um valor de recompensa ou resgate.
- Esse se arrisca mais. Nem sempre o tutor ou proprietário de uma obra  de Arte vai ter o valor em espécie. E se tiver, ainda tem o risco de  receber uma  falsificação.
- Todas as possibilidades estão descritas no livro. É uma leitura que  recomendo e exijo. – Falou sorrindo – Pois vou presenteá-los  com dois exemplares!
- God! Que maravilha! – Ficamos  muitos gratos, Erjan!







PSV


- Hum, mas que cheiro bom é esse? – Perguntou Claude invadindo a cozinha e tirando os  fones  do ouvido. – Bom dia Dadi!
- Bom dia! Eu fiz um bolo para o café da manhã. – Respondeu Dadi  girando o corpo da pia  com  uma travessa na mão, colocando-a numa  pequena mesa.
Claude pegou um dos pedaços do bolo e o devorou em duas mordidas.
- Voilà, muito bom mesmo! Do que é?
 Dadi esperou que ele repetisse o ato.
- Receita  da Rosa, bolo de cenoura. Ainda falta a cobertura de chocolate. – Respondeu observando Claude reagir desgostoso, mastigar e engolir lentamente a última mordida.
- Preciso de um banho. – Foi tudo que ele disse antes de deixar a cozinha.
- Não demore, eu já  vou passar o café. – Disse ela antes que ele sumisse para dentro do apartamento, despejando a cobertura  sobre os pedaços  do bolo.
Arrumou a mesa e foi para a sala. Logo reparou nas almofadas, fora  do lugar, e foi ajeitá-las. Ao levantar uma delas encontrou a echarpe e a lembrou-se da noite anterior.
Então não se enganara. A mulher da noite passada era Rosa!
- Dadi, eu não a trouxe  comigo como empregada doméstica, você sabe disso. – Falou Claude  retornando. – O condomínio disponibiliza uma  faxineira a cada quinze dias não é isso?
- As almofadas estavam fora  do lugar,  estava apenas arrumando-as.  – Respondeu escondendo a echarpe no bolso do seu avental.
- D’àccord, então venha se senta  à mesa  comigo. Ainda estou com fome, acredita?
- Correu  por  quanto tempo?
- Quase duas  horas, hã?
- Mon Dieu, e o que o aborreceu tanto para isso?
- Aborrecimento? Não, ao contrário, eu acordei  extremamente disposto.
- Sei... E essa disposição toda atende pelo nome  de Rosa. – Afirma Dadi.
- Não sei do que está falando, Dadi. O bolo é  bom e  pouco importa de quem é a receita, hã?
- Pois bem, já que não me  trouxe  como sua empregada  doméstica, vou me intrometer. – Explica-se Dadi, tirando a echarpe  do  bolso e mostrando-a a ele.
- Onde achou isso? – Pergunta  Claude, surpreso.
- Sob as almofadas. E nem tente  negar  que é dela, porque ontem a noite eu a vi entrando no prédio. O que está pretendendo, Claude?
- Não vou negar e não pretendo nada, Dadi.  Ela realmente esteve aqui. Tratamos de negócios.
- Numa quarta à noite, período em  que eu não estou em casa.
 - Coincidência Dadi, apenas isso. Tínhamos algo a  resolver que não deu tempo durante  o dia.
- Podia ter me avisado, eu  deixaria algo preparado para  comerem...
- Desnecessário.   Além do mais, eu não tinha certeza se ela viria.
- Bem, eu espero mesmo que saibam o que estão fazendo. – Disse colocando a echarpe ao lado da mão dele. -  Porque em meio a tudo isso há uma criança que poderia ser sua  filha,  Claude. – Finalizou vendo-o se levantar.
- Mas não é. E eu seria incapaz de magoar uma  criança, Dadi,   sendo ela minha  filha ou não.  Vou leva-la e devolvê-la. -  Concluiu pegando a echarpe.
Foi até o quarto e colocou o blazer que estava sobre a cama, deixando em seu lugar, a  echarpe.
Ao sair avisou a Dadi que não almoçaria em casa, pois  iria voltar à Embaixada Francesa, em busca  de documento  para o visto de permanência.
Dadi permaneceu sentada  por mais alguns minutos, pensando em sua  própria fala: “em meio a tudo isso há uma criança que poderia ser sua  filha.”
- Mas é claro que pode! – Exclamou levantando-se num ímpeto.
E foi ao quarto de Claude em busca de provas: fotografias de Claude quando criança. Trouxeram uma caixa cheia delas da França.  Como não fizera isso antes logo que notou a semelhança entre os dois?
Ao cruzar o quarto em direção ao armário notou a echarpe, jogada  sobre a cama e sorriu.



PSV




Liz separou as  peças que  levaria  com ela e  juntamente  com John conferiram as  pelas  que seriam despachadas por Erjan posteriormente, para que não excedessem ao peso da bagagem na  volta ao Brasil.
- Espero sinceramente que  tenham ficado satisfeitos com o que  adquiriram. – Falou Erjan  recebendo a  nota  fiscal das  mãos  de sua  funcionária.
E antes de entrega-la, checou item por item. Então seu  celular  tocou. Ao ver  a origem da  ligação, pediu desculpas e afastou-se, atendendo. Poucos  minutos  depois voltou.
 - Eu peço desculpas mais uma vez, mas não podia  deixar de atender. Espero que entendam...
- Claro que entendemos. E pode  ficar feliz e sentir-se realizado, Erjan! Estamos  tão satisfeitos que  pretendemos  abrir um espaço semelhante ao seu na  galeria, com peças de antiquários. Há muitas  pessoas que querem se desfazer dessas peças  familiares e acabam jogando fora.
- Isso é abominável! – Exclamou Erjan.
- Mas, muitas  vezes é o que acontece. Principalmente entre as pessoas menos esclarecidas, que não veem esses objetos como arte ou herança  histórica e cultural.
- Poderiam doar então, para os museus da cidade.
- Muitos  museus no Brasil  estão fechando por  falta de verbas e manutenção, acredita meu amigo? Precisamos é  mudar a cabeça das crianças e dos jovens para que isso não se repita  ni futuro.
- Concordo. Educação é a saída para  todas as  crises da humanidade...
- Mas voltando, vou copiar sua  ideia do  espaço gourmet. – Emendou Liz. –  Será um atrativo a mais e atrairá curiosos que poderão se  tornar clientes e  multiplicadores de transmissão de  conhecimento. Sérgio poderia atuar como coacher e transmitir os valores, ideias e percepções dos criadores das obras.
- Excelente ideia, darling. Mas  temos que  discutir isso com Rosa e Claude. Principalmente  com Claude – Reforçou John.
-  Perdoem minha indiscrição, mas será que  falam dos mesmos  Claude e Rosa que  conheci alguns aos atrás na Escola de Arte de Amsterdã?
Liz e John trocam olhares.
- Falamos de Claude Geraldy. – Diz Liz primeiro.
- Isso mesmo! O casal Claude e Rosa Geraldy!  - Exclama  Erjan. -  Ele era um dos professores e ela se não me falha a memória fazia algum curso de extensão...
- Well, a menos que existam dois deles um de nós está equivocado. Claude e Rosa que  conhecemos não são casados, nem formam um casal... – Explica John.
- Será possível tamanha  coincidência? – Fala Liz.
- Bem podemos tirar a dúvida através da imagem. – Vai explicando  Erjan enquanto caminha -  Estão vendo esse  mural  imenso de fotos? Tenho o hábito de “clicar”  todos os que passam pela loja e  vou montado esses painéis...
E aproximando-se o máximo  possível, continua  sua  explicação:
- Venham e  ajudem-me a localiza-los!  Adianto que  sou uma  pessoa  muito organizada e os painéis estão dispostos em ordem cronológica. Portando a imagem deles deve estar bem nessa região e aponta alguns painéis mais  centralizados.
Foi Liz quem os reconheceu em meio a tantos  outros  rostos.
- Oh, Lord! Ali estão eles, John! – Exclamou sorrindo, indicando  um dos painéis.
Erjan retirou o painel da parede e juntos  confirmaram que  falavam das mesmas pessoas.
- Disseram que eles não são um casal, nem casados. – Falou Erjan – Mas essa  foto é o momento exato em que Claude a pediu em casamento e ela aceitou. Foi logo depois de eu ter contado sobre a lenda dos tamancos esculpidos em madeira, onde os  jovens camponeses presenteiam suas  noivas com uma par deles e...




PSV


                               Continua na próxima semana




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