PSV
- Droga, onde foi que eu a coloquei... – Murmurou Rosa
tirando todas as peças de roupa que usara na noite anterior, uma a uma, de cima
da poltrona. Nada.
Jogou-as de qualquer jeito de volta e saiu do quarto, quase colidindo com a filha.
- Alex, você pegou a echarpe da mamãe, filha?
- “E-char-pe”? Que que é isso, mamãe?
- É aquele lenço que a
mamãe estava usando ontem.... Não pegou
para brincar de desfile?
- Humhum – Respondeu chacoalhando a cabeça negativamente.
- Só se eu deixei no carro! – Disse Rosa, ponderando. – Bem a
mamãe já vai. Comporte-se, hum?
Abraçou Alexandra e a
beijou carinhosamente.
- Eu posso descer de elevador
com você? E depois subir?
- Elevador não é brinquedo querida!
- Ah, só hoje, só
agora, mamãe! Assim eu fico mais um pouquinho com você...
E com esse argumento Alex ganhou um sorriso e a permissão de
Rosa. Culpava-se por trabalhar o dia
todo e focar tão pouco com ela. Iria
rever esse conceito. Ainda mais agora que precisava aturar Claude e seu
mau humor, além dos olhares e comentários.
-Sílvia, Alex vai descer
comigo! – Falou ela um pouco mais
alto enquanto pegava na mão da filha.
- Estarei esperando-a na volta. – Respondeu Sílvia aparecendo
na sala e acompanhando-as até o
elevador.
O elevador desceu os
cinco andares com Alex
tagarelando sem parar. Seu último comentário provocou a risada descontraída da mãe.
- “Os elevador devia te” controle de velocidade, não acha
mamãe? Eu ia colocar bem devagarinho...
- Eu acho que
você tem toda razão, querida! – Comentou vendo a porta
se abrir.
Saltaram as duas do elevador e o porteiro as cumprimentou, brincando com Alexandra. Rosa
despediu-se mais uma vez, ganhando um abraço bem apertado.
- Tchau mamãe! – Falou Alex
acenando com a mão, já dentro do elevador, apertando o botão para voltar ao quinto andar em seguida.
A porta fechou e Rosa
aguardou até a mensagem de Sílvia
chegar, pelo celular: “Já estamos dentro de casa”.
Fazia isso por segurança, desde que assistira ao filme argentino
‘Sétimo’, onde duas
crianças somem no próprio prédio ao apostar quem chega primeiro ao térreo: o
pai, no elevador, ou ela, de escada. Claro aquilo era uma ficção, um filme de
suspense. Não poderia acontecer ali, naquele prédio onde todos se
conheciam, mas, mexeu com seu emocional de mãe e sentia-se
melhor assim.
PSV
A viagem à Amsterdã foi muito além do que previam Liz e John.
Descobriram que ali era o destino dos sonhos para os amantes das
Artes.
Em pleno outono, marcado pelas cores vermelho, amarelo, verde
e marrom, a natureza fica linda logo antes de as árvores perderem as folhas. E ainda tem um pouco de sol do final do
verão, propício para uma boa caminhada,
sem pressa. Uma das melhores
formas de conhecer a magia de Amsterdã.
A Praça Dam, onde estavam no momento, fica no centro de
Amsterdam, com seus artistas de rua. E
de lá pode-se ver uma grande estátua
branca, o Monumento Nacional, em homenagem à Segunda Guerra Mundial na Holanda.
Era em uma das travessas da avenida em frente a praça
que ficava a loja de Erjan, com as mais
variadas lembranças de Amsterdam.
A vontade era de levar quase tudo, pensava Liz, encantada. Além dos artigos expostos, Erjan convidava o cliente,
na maioria turistas, a interagir.
Podia-se dizer que a loja se parecia mais era uma pequena galeria de Arte, que
capturava não apenas a imagem, mas também o espírito de Amsterdã.
A primeira coisa que
qualquer cliente via era um imenso quebra cabeças de fotografia, na parede
oposta à da entrada. Aquilo chamou a atenção de Liz, mas ficou em segundo
plano, pois assim que chegaram, o grupo
de turistas deixava a loja carregados de
souvernirs, e Erjam fechou-a com a típica placa “Closed”.
E uma gostosa conversa tomou conta dos três, enquanto Erjan os conduzia por todas as partes da loja, instalada
em uma antiga casa, o que os remetia à Galeria no casarão.
Trocaram várias ideias e informações. E calcularam o valor de possíveis
negócios, em algumas peças do
interesse de John e Liz. Erjan era muito simpático e não poupava esforços
para agradar os novos amigos. Por mais de duas horas apreciaram joias, pinturas, porcelanas, e tantas outras
preciosidades da Arte, dos mais sofisticados aos mais simples.
Liz separou várias
peças pequenas, para presentear todos da galeria e alguns outros amigos. Então Erjan os convidou para
um café, ali na própria loja.
O espaço gourmet ficava nos
fundos da loja, numa construção à parte, semelhante às nossas
edículas. Uma das funcionarias já havia organizado e colocado o serviço em uma
das mesas.
- Sua loja fica em área movimentada, Erjan. Nunca foi assaltado ou roubado? – Pergunta John, servindo-se de uma torrada
confeitada de anis.
Havia ainda queijos, pães e stroopwafel, um waffle com
melaço, café, chá e leite. Além de geleias e manteiga.
- Desde que comecei a trabalhar com arte escuto de amigos e essa
mesma pergunta. Mas, me diga você, John. Quem rouba arte?
John ficou surpreso com a devolutiva da pergunta e pensou
alguns instantes antes de responder. E o fez logo depois de um gole
de café.
- Você é uma pessoa inteligente, Erjan. Acabo de entender que não importa
muito quem roube, mas porquê.
- Bravo mijn vriend! – Exclama Erjan sorrindo. – E foi
tentando elucidar essa questão que participei como consultor, a pedido de
uma amiga na elaboração de um livro sobre o assunto. O marido dela, um advogado,
analisou casos de roubo de arte que foram solucionados na Europa, e o
resultado dessa análise foi impressionante. – E faz uma pausa.
- Pode nos contar qual foi? – Pergunta Liz. - Isso me parece interessantíssimo!
- Se não estiverem com pressa, porque o assunto é longo!
- Estamos em férias, Erjan. Temos todo o tempo do mundo. – Confirma o interesse
John.
- Pois bem, isso de que roubo de arte é algo patrocinado por
um grande colecionador milionário não passa de mito e ficção
hollywoodiana. Concluímos que existem tipos de ladrões de Arte, se é que
podemos classificar assim. Vou
tentar resumir para vocês. Existe o ladrão comum, que não tem
qualquer interesse em Arte e rouba apenas para fazer dinheiro e sustentar seus
vícios. Esses, geralmente são funcionários da instituição ou pessoa vitimada,
às vezes facilitando o acesso dos verdadeiros bandidos em troca de alguma vantagem econômica.
-São pessoas sem
interesse no aspecto cultural da obra. Aliás, nem devem imaginar o valor comercial delas. Que pena! – Observa
John.
- Exatamente. Depois,
podemos falar dos cleptomaníacos, aqueles que
roubam por prazer, por compulsão. Talvez os mais inofensivos.
- Concordo, já que a cleptomania
é um distúrbio psicopatológico que faz a pessoa começar a roubar coisas
diversas independente do valor... – Comenta
Liz.
- Em conta partida, temos narcotraficantes ou criminosos que
resolvem roubar arte para usa-la como moeda de troca em negociações mais que
ilícitas, tipo cocaína, heroína e
até plutônio, e grupos terroristas, que
roubam pela posição política e em troca, exigem a libertação de integrantes do
grupo presos.
- Os mais perigosos. – Afirma Liz.
- Sim esses são capazes de qualquer coisa, muitas vezes baseados
em fundamentalismos religiosos. – Emenda Erjan. – E por fim, temos a classe do
sequestrador de obra de arte. Ele rouba e estipula um valor de recompensa ou
resgate.
- Esse se arrisca mais. Nem sempre o tutor ou proprietário de
uma obra de Arte vai ter o valor em
espécie. E se tiver, ainda tem o risco de
receber uma falsificação.
- Todas as possibilidades estão descritas no livro. É uma
leitura que recomendo e exijo. – Falou
sorrindo – Pois vou presenteá-los com
dois exemplares!
- God! Que maravilha! – Ficamos muitos gratos, Erjan!
PSV
- Hum, mas que cheiro bom é esse? – Perguntou Claude
invadindo a cozinha e tirando os
fones do ouvido. – Bom dia Dadi!
- Bom dia! Eu fiz um bolo para o café da manhã. – Respondeu
Dadi girando o corpo da pia com
uma travessa na mão, colocando-a numa
pequena mesa.
Claude pegou um dos pedaços do bolo e o devorou em duas
mordidas.
- Voilà, muito bom mesmo! Do que é?
Dadi esperou que ele
repetisse o ato.
- Receita da Rosa,
bolo de cenoura. Ainda falta a
cobertura de chocolate. – Respondeu observando Claude reagir desgostoso, mastigar
e engolir lentamente a última
mordida.
- Preciso de um banho. – Foi tudo que ele disse antes de
deixar a cozinha.
- Não demore, eu já
vou passar o café. – Disse ela antes que ele sumisse para dentro do apartamento,
despejando a cobertura sobre os
pedaços do bolo.
Arrumou a mesa e foi para a sala. Logo reparou nas almofadas,
fora do lugar, e foi ajeitá-las. Ao
levantar uma delas encontrou a echarpe e a lembrou-se da noite anterior.
Então não se enganara. A mulher da noite passada era Rosa!
- Dadi, eu não a trouxe
comigo como empregada doméstica, você sabe disso. – Falou Claude retornando. – O condomínio disponibiliza uma faxineira a cada quinze dias não é isso?
- As almofadas estavam fora
do lugar, estava apenas arrumando-as. – Respondeu escondendo a echarpe no bolso do seu
avental.
- D’àccord, então venha se senta à mesa
comigo. Ainda estou com fome, acredita?
- Correu por quanto tempo?
- Quase duas horas,
hã?
- Mon Dieu, e o que o aborreceu tanto para isso?
- Aborrecimento? Não, ao contrário, eu acordei extremamente disposto.
- Sei... E essa disposição toda atende pelo nome de Rosa. – Afirma Dadi.
- Não sei do que está falando, Dadi. O bolo é bom e
pouco importa de quem é a receita, hã?
- Pois bem, já que não me
trouxe como sua empregada doméstica, vou me intrometer. – Explica-se
Dadi, tirando a echarpe do bolso e mostrando-a a ele.
- Onde achou isso? – Pergunta
Claude, surpreso.
- Sob as almofadas. E nem tente negar
que é dela, porque ontem a noite eu a vi entrando no prédio. O que está
pretendendo, Claude?
- Não vou negar e não pretendo nada, Dadi. Ela realmente esteve aqui. Tratamos de
negócios.
- Numa quarta à noite, período em que eu não estou em casa.
- Coincidência Dadi,
apenas isso. Tínhamos algo a resolver que
não deu tempo durante o dia.
- Podia ter me avisado, eu
deixaria algo preparado para
comerem...
- Desnecessário. Além
do mais, eu não tinha certeza se ela viria.
- Bem, eu espero mesmo que saibam o que estão fazendo. –
Disse colocando a echarpe ao lado da mão dele. - Porque em meio a tudo isso há uma criança que
poderia ser sua filha, Claude. – Finalizou vendo-o se levantar.
- Mas não é. E eu seria incapaz de magoar uma criança, Dadi, sendo ela minha filha ou não.
Vou leva-la e devolvê-la. -
Concluiu pegando a echarpe.
Foi até o quarto e colocou o blazer que estava sobre a cama,
deixando em seu lugar, a echarpe.
Ao sair avisou a Dadi que não almoçaria em casa, pois iria voltar à Embaixada Francesa, em
busca de documento para o visto de permanência.
Dadi permaneceu sentada
por mais alguns minutos, pensando em sua própria fala: “em meio a tudo isso há uma
criança que poderia ser sua filha.”
- Mas é claro que pode! – Exclamou levantando-se num ímpeto.
E foi ao quarto de Claude em busca de provas: fotografias de
Claude quando criança. Trouxeram uma caixa cheia delas da França. Como não fizera isso antes logo que notou a
semelhança entre os dois?
Ao cruzar o quarto em direção ao armário notou a echarpe,
jogada sobre a cama e sorriu.
PSV
Liz separou as peças
que levaria com ela e
juntamente com John conferiram
as pelas
que seriam despachadas por Erjan posteriormente, para que não excedessem
ao peso da bagagem na volta ao Brasil.
- Espero sinceramente que
tenham ficado satisfeitos com o que
adquiriram. – Falou Erjan
recebendo a nota fiscal das
mãos de sua funcionária.
E antes de entrega-la, checou item por item. Então seu celular
tocou. Ao ver a origem da ligação, pediu desculpas e afastou-se,
atendendo. Poucos minutos depois voltou.
- Eu peço desculpas
mais uma vez, mas não podia deixar de
atender. Espero que entendam...
- Claro que entendemos. E pode ficar feliz e sentir-se realizado, Erjan! Estamos tão satisfeitos que pretendemos
abrir um espaço semelhante ao seu na
galeria, com peças de antiquários. Há muitas pessoas que querem se desfazer dessas
peças familiares e acabam jogando fora.
- Isso é abominável! – Exclamou Erjan.
- Mas, muitas vezes é
o que acontece. Principalmente entre as pessoas menos esclarecidas, que não
veem esses objetos como arte ou herança
histórica e cultural.
- Poderiam doar então, para os museus da cidade.
- Muitos museus no
Brasil estão fechando por falta de verbas e manutenção, acredita meu
amigo? Precisamos é mudar a cabeça das
crianças e dos jovens para que isso não se repita ni futuro.
- Concordo. Educação é a saída para todas as
crises da humanidade...
- Mas voltando, vou copiar sua ideia do
espaço gourmet. – Emendou Liz. –
Será um atrativo a mais e atrairá curiosos que poderão se tornar clientes e multiplicadores de transmissão de conhecimento. Sérgio poderia atuar como coacher
e transmitir os valores, ideias e percepções dos criadores das obras.
- Excelente ideia, darling. Mas temos que
discutir isso com Rosa e Claude. Principalmente com Claude – Reforçou John.
- Perdoem minha
indiscrição, mas será que falam dos
mesmos Claude e Rosa que conheci alguns aos atrás na Escola de Arte de Amsterdã?
Liz e John trocam olhares.
- Falamos de Claude Geraldy. – Diz Liz primeiro.
- Isso mesmo! O casal Claude e Rosa Geraldy! - Exclama
Erjan. - Ele era um dos
professores e ela se não me falha a memória fazia algum curso de extensão...
- Well, a menos que existam dois deles um de nós está
equivocado. Claude e Rosa que conhecemos
não são casados, nem formam um casal... – Explica John.
- Será possível tamanha
coincidência? – Fala Liz.
- Bem podemos tirar a dúvida através da imagem. – Vai
explicando Erjan enquanto caminha - Estão vendo esse mural
imenso de fotos? Tenho o hábito de “clicar” todos os que passam pela loja e vou montado esses painéis...
E aproximando-se o máximo
possível, continua sua explicação:
- Venham e ajudem-me a localiza-los! Adianto que
sou uma pessoa muito organizada e os painéis estão dispostos
em ordem cronológica. Portando a imagem deles deve estar bem nessa região e
aponta alguns painéis mais
centralizados.
Foi Liz quem os reconheceu em meio a tantos outros
rostos.
- Oh, Lord! Ali estão eles, John! – Exclamou sorrindo, indicando um dos painéis.
Erjan retirou o painel da parede e juntos confirmaram que falavam das mesmas pessoas.
- Disseram que eles não são um casal, nem casados. – Falou
Erjan – Mas essa foto é o momento exato
em que Claude a pediu em casamento e ela aceitou. Foi logo depois de eu ter
contado sobre a lenda dos tamancos esculpidos em madeira, onde os jovens camponeses presenteiam suas noivas com uma par deles e...
PSV
Continua na próxima semana





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