PSV
- Quando vocês
“volta”, madrinha? – Perguntava Alex, olhando para a tela do notebook de Rosa. – Eu “tô” com “muuiiita” saudade! – Continuou abrindo os braços.
- Em alguns dias,
darling! – Respondeu Liz, sorrindo pela
dramaticidade de Alexandra.
- Nós também estamos
com “muiiita” saudade Alex! – Falou John imitando-a. – Vou querer um abraço
tamanho gigante quando chegar, ok?
- Tá bom! – Exclamou
Alex. – A mamãe quer falar com vocês, de
novo. Tchau! Eu vou brincar! – Completa
seguindo as ordens de Rosa.
E joga um beijo, antes
de descer da cadeira e sentar no tapete da sala com seus brinquedos e livros.
- Poxa, estou começando a pensar que não querem mas voltar! – Diz Rosa se acomodando diante do notebook e
ajustando a câmera. – Onde estão agora?
- Entre as massas, os terrines e o bom vinho do Império Romano, honey. – Respondeu Liz.
- Itália... – Comentou
Rosa. - Sem dúvida em meio a outros países, essa parada tem tudo para ser
inesquecível!
- A Itália seria só uma parada mesmo. Mas já que estávamos
aqui, resolvemos conhecer Verona, Veneza e Florença, antes de Roma.
- Rosa, com essa viagem John me proporcionou o melhor roteiro
romântico da minha vida! Foram cidades extremamente charmosas abundantes de
história e cultura. Você deve experimentar isso um dia.
- Quem sabe, quando Alex tiver um pouco mais de idade eu faça
isso. – Respondeu dando uma rápida olhada para Alex. – E então vocês me ajudam
no roteiro.
- Teremos o maior prazer! - Descobrimos lugares e situações incríveis. –
Falou Liz com um sorriso que Rosa não conseguiu decifrar. – Querida, John quer dar uma última palavra
com você antes do nosso boa noite.
- Rosa devemos
retornar vinte dias no máximo,
com algumas novidades, inclusive sobre a nossa situação na galeria. Não
fique assustada, será bom para todos! – Explica ele ao ver uma
reação assustada do rosto dela. - Mas eu preciso que Claude retire as peças que comprou caso ainda não o tenha
feito.
- Não, ele ainda não as retirou de seu apartamento John. Mas eu o aviso, claro. Não vai me adiantar nada sobre essas novas ideias?
- Posso adiantar que vai gostar muito delas.
Então Alex se aproxima, tentando
cochichar:
- Mamãe, eu preciso “i” no banheiro “faze” o número dois! – E
sai correndo em direção ao banheiro.
Liz e John riem da tentativa da afilhada de ser discreta.
- Vá cuidar de nossa princesinha, Rosa! Liz e eu iremos nos recolher também. Aí pode estar calor, mas
aqui na Europa é começo de inverno. Boa noite, querida! – Conclui John piscando antes de encerrar a chamada.
- Boa noite Liz e
John! – Diz Rosa, com a conversa quase
encerrada.
E desliga o notebook, fechando-o.
- Muito bem senhorita Alexandra! Vamos conferir se já está pronta para receber nota
dez nesse quesito? – Falou entrando no banheiro.
- Eu também acho
esquisito mamãe! - Falou a garota.
- Esquisito? – Repetiu sem entendê-la.
- É mamãe... É muito
esquisito essa vontade de fazer cocô.
Porque ela vem assim sem a gente querer? – Pergunta categoricamente
Alex.
Rosa sorriu. E lá se foi, explicar novamente à filha sobre
o funcionamento do nosso corpo. E também a diferença entre quesito, e
esquisito.
PSV
- Devíamos ter dito sobre o que descobrimos em Amsterdã, não acha? - Comentou
Liz, puxando as cobertas e deitando-se
primeiro.
John tirou o roupão
lentamente, como se procurasse as
palavras para responder.
Colocou-o aos pés da cama e
deitou-se também.
- Não, não acho Liz. Pense bem, Rosa guardou esse segredo
todos esses anos, e por mais que sejamos íntimos, ela não se sente pronta a
dividi-lo conosco.
- Tem razão, é um assunto que a machuca. – Comentou Liz. Mas agora que temos certeza do envolvimento dos dois, não podemos ficar passivos. Temos que ajuda-los de alguma
maneira!
- E vamos, darling. Só precisamos de uma boa oportunidade. Um
motivo para entrarmos no assunto!
- O aniversário de Alex! -
Exclama ela com um brilho especial no olhar. – É uma
boa entrada de assunto...
- Excelente ideia! Veremos antes como andam os ânimos entre Claude
e Rosa. Quem sabe se sem a minha incômoda presença, ele não tenha se reaproximado
dela...
- Tomara que sim, John. Estou torcendo para que se entendam.
- Eu também, Elisabete – Disse apagando a luz do abajur, antes de abraça-la.
PSV
- Sua filha está muito distante ultimamente, Louise. Ela
deveria aparecer mais ao meu lado para atrair simpatizantes e eleitores.
- Vou ter outra
conversa com ela, não se preocupe.
- Espero que seja
uma conversa definitiva.
- Nara encontrou alguns recortes, Bernard. Noticias antigas sobre o pai e a situação
política em que ele estava ao falecer e desde então vem me criticando e
crivando de perguntas, culpando-me pela
morte dele.
- E qual o seu envolvimento?
- Nenhum, é claro! Eu
realmente me apaixonei por François.
- E tentou ocupar o
lugar que era dele?
- Eu não tentei ocupar o lugar que era dele. Eu ocupei um
lugar vago, que havia
sido dele. E o ocupei muito bem. O
partido deve muito a mim e a minha atuação,
sem a qual não teríamos tantos representantes na Assembleia e no Senado.
- Modesta como sempre... – Falou Bernard entre irônico
e sarcástico.
- Modéstia nunca foi item
na minha lista de qualidades, Bernard.
– Retrucou séria.
- E Michel? Acha que podemos
confiar e contar com ele para
nossos planos?
- Michel Didier, nosso querido prefeito? Esse, eu o tenho na
palma da mão, embora sua ambição e ganância possam me dar um trabalhinho a
mais... Mas voltemos à Nara, e seu
comportamento arredio, que tem causado estranheza em você...
Louise continuou a
falar da filha e do que pretendia fazer.
Bernard a ouvia, mas não prestava atenção. Estava bem mais preocupado com a
expressão que ela usara “Esse eu o tenho na palma da mão”, referindo-se a Michel.
Não fora justamente isso o que Michel o aconselhara a não deixar acontecer?
PSV
Claude ouviu atentamente Rosa transmitir o pedido de John,
sobre a retirada das peças.
- D’àccord, ele tem
razão. Não há motivos para deixar lá as
peças eu adquiri. Porém vou precisar aloca-las aqui na galeria. Eu notei que há
uma sala no andar de cima, ao final do corredor, sempre fechada a chave.
- É um pequeno quarto onde guardo alguns pertences
particulares. Livros, objetos pessoais, materiais da faculdade, recordações de
meus pais. – Explica Rosa.
- Voilà... Algum
outro local disponível?
- Há o porão. Porém,
mais que uma limpeza, precisaria
de uma pequena reforma para reparos e
climatização, por causa da umidade.
Havíamos programado, mas a doença de Liz nos fez adiar esse projeto.
- Bem, então vou deixa-las expostas. Quem sabe vendemos
algumas e aumentamos o capital de giro da galeria. Ou reformamos o porão. – Diz
Claude calmamente.
- Não! – Exclamou Rosa - As peças constam no relatório patrimonial,
mas são particulares e agora suas. Não é
justo você investir ainda mais.
- Rosa, venderíamos apenas as que comprei para ajudar
Elisabete Smith, fazendo com que o dinheiro retorne a galeria. As
suas serão preservadas, hã?
– Dois quadros e uma
escultura apenas. Eu posso leva-las para minha casa, nem sei porquê não o fiz ainda. E posso desocupar esse cômodo. É algo que adio
a bastante tempo. Está resolvido, farei
isso neste sábado! – Afirmou sem deixar
que ele a fizesse mudar de ideia.
No final do dia,
Claude insistiu em verificar o estado do porão e Rosa o acompanhou. Na volta, pediu à Janete o projeto da reforma e o levou para analisar em seu apartamento.
Beto viajou de trem, sozinho, numa cabines com duas beliches de Paris a Veneza.
E encontrou-a confrontando-se com o problema da água alta,
fato que acontece de
outubro a abril. Nesta época do ano a
cidade segue o ritmo das marés e convive com suas famosas inundações. Cenas impressionantes, e que Beto registrou da melhor maneira que sabia: com
excelentes fotos, quase surreais.
Publicou-as em seu
blog e logo lhe renderam uma grana extra ao serem republicadas em uma revista de circulação nacional, ilustrando uma matéria
sobre o fato.
Portanto, tinha muito
que comemorar junto com a
assinatura do contrato para a
exposição no Brasil.
- Perfeito! – Exclamou Catarina assim que Beto assinou o contrato. – E bem vindo
de volta ao mundo da Arte!
- Eu estou muito feliz, Catarina. E ansioso confesso. Parece
até que será a minha primeira vez! – Exclamou sorrindo, divertido.
- Quando você aceitou nosso convite deixou-nos muito felizes,
Beto. – Falou Egídio entregando uma taça
de champanhe a ele, depois de servir Catarina -
Um brinde ao nosso sucesso no Brasil!
- Thomas Piketty, um economista francês utilizou uma série de
dados para demonstrar que o capitalismo do nosso século tende a concentrar cada
vez mais renda nas mãos de poucos e usa
o mercado contemporâneo de arte para validar sua tese. – Disse depois de
um gole. - Concordam com ele?
- E o que um economista entende de Arte? – Pergunta Catarina
- A cultura tem que estar ao
alcance de todos. E se esse “todos” não
puderem adquirir uma obra de arte, eles têm o direito de aprecia-la. Eu diria até
que têm o dever de aprecia-la. Essa é a
minha eterna opinião.
- Concordo. – Afirmou Beto. – Mas no momento atual do Brasil,
de crise política e econômica, não receiam um prejuízo ou fracasso?
- O mundo sempre terá crises, Beto. – Emendou Egídio - E se olharmos para elas como um empecilho, nunca passarão. São nesses momentos que superamos nossas fraquezas e criamos condições para acabar com
uma delas.
- Esperança, Beto. A Arte nos
transmite isso. – Conclui Catarina, erguendo a taça.
- Pois que seja! E que
a Arte nos acompanhe sempre! Salute!
– Exclamou Beto encerrando o brinde.
PSV
Rosa tocou a campainha e aguardou alguns instantes. Impaciente, tocou-a novamente demorando um
pouco mais com o dedo sobre ela.
Quando percebeu a porta sendo aberta preparou-se para um
comentário sarcástico, que evitou a
tempo diante de sua surpresa
ao ver Dadi.
- Dadi... Boa noite, Claude não está?
- Rosa! – Exclamou Dadi, mais surpresa que ela – Eu não sabia
que viria, entre. Claude está sim. Na
sala de jantar estudando o projeto da reforma desde que chegou.
Dadi praticamente a obrigou a acompanha-la.
- Claude, Rosa está aqui. – Anunciou de maneira séria, entrando na sala de jantar.
– Por que não me avisou que ela viria? Eu teria preparado algo...
Claude ergueu a cabeça e a primeira coisa que
viu foi o olhar fulminante de Rosa, logo atrás de Dadi.
- Voilà, finalmente
chegou, hã? - Falou ele, devolvendo um olhar zombeteiro - Eu não disse que nos encontrávamos por causa da galeria, Dadi? – Completou puxando
um sorriso no canto da boca.
- Vou deixa-los a sós. – Respondeu Dadi. - E fazer um café. Creio
que vão precisar.
Rosa esperou que Dadi se afastasse o suficiente para não
escutar o que falaria:
- Por que não me falou que Dadi estaria em casa? – Perguntou
gesticulando com as mãos.
- Pardon. Eu
esqueci completamente de avisa-la para
não vir hoje, hã?
- Esqueceu? – Disse colocando as mãos na cintura. – E se eu
tivesse usado a chave que me deu e
entrado de forma... De forma mais indiscreta? – Levantou-as outra vez.
- Você não faria isso. É sempre discreta. – Respondeu
puxando-a pela cintura.
E ficaram tão próximos que puderam sentir um a respiração do
outro.
- O que está fazendo Claude?
- Tentando beija-la... – Respondeu ele encostando seus lábios
aos dela.
- Não... A Da...-
Murmurou antes de corresponder ao beijo.
- Você enlouqueceu, ela podia aparecer e nos pegar... – Falou
baixinho, ainda nos braços dele.
- Um risco que eu tinha que
correr chèrie...
Então, antes que Rosa pudesse dizer alguma coisa, a voz de Dadi, do lado de fora, os faz se
afastar:
- Espero que gostem
desse lanche. Tenho certeza que nenhum de
vocês dois jantou.
Dadi entrou e colocou uma enorme bandeja sobre a mesa: Suco,
café, duas xícaras e dois copos. Torradas, um patê e alguns pedaços de bolo.
Claude notou o olhar de Rosa
sobre o bolo e nem a esperou perguntar.
- Ouí. É bolo de cenoura. Receita da Rosa, como diz Dadi toda
vez que o faz. Não é Dadi?
- Fico feliz que com
tantas deliciosas receitas francesas
que saiba, você ainda o faça Dadi. É
claro que provarei. Obrigada. – Respondeu Rosa, ignorando a indireta de Claude.
- Espero mesmo encontrar essa badeja vazia quando vier
busca-la, amanhã de manhã. Boa noite aos
dois.
- Boa noite, Dadi. E obrigada mais uma vez. – Disse Rosa.
- Merci e bonsoir, Dadi. – Despede-se dela Claude
também, voltando a se acomodar defronte os papeis do projeto da reforma.
Quando percebeu que Rosa não havia saído do lugar, levantou a cabeça e disse:
- Sente-se. Eu não fiz de propósito. Acontece que Dadi usa suas folgas para
ensinar conversação em francês, como
voluntária em uma ONG, e essa
semana a aula foi suspensa por suspeita da gripe H1N1.
- Você não imagina o sufoco que passei quando a vi!
- Voilà! – Exclamou Claude com um olhar indecifrável - Pense pelo lado bom para você. Não terá que
ir para a cama comigo hoje.
- Você faz parecer
pior do que é. Por que tem tanto prazer em me humilhar dessa forma?
- Pardon, não foi minha intenção, acredite! – Afirmou ele,
parecendo ser verdadeiro.
- Está bem, vamos esquecer isso. Vou comer um pedaço do bolo,
para que Dadi não se chateie e voltar
para casa.
- Mon Dieu! Está
com tanta pressa assim, para ver-se
livre de mim?
- Eu fiz parecer isso?
Perdão. Não foi minha intenção,
acredite! – Respondeu usando as mesmas
palavras dele, sem perceber de imediato.
Então imaginou que ele respondesse com grosseria, entendendo isso como sarcasmo.
Mas Claude soltou uma risada tão natural e verdadeira que Rosa desarmou-se e
acabou rindo com ele, esquecendo-se
do bolo.
E isso fez a tensão entre eles desaparecer.
- Foi você quem desenvolveu esse projeto não foi? – Perguntou
Claude em seguida.
- Foi sim, como percebeu? Não leva minha assinatura em lugar nenhum!
- Eu reconheceria a originalidade do seu estilo até em outro
planeta, Rosa...
E eu o seu... Pensou
Rosa vendo alguns desenhos dele ao lado dos
seus.
- Mas como pôde
observar o projeto está inacabado. E agora que
administra a galeria, o que
sugere para essa área mais baixa do porão?
- Eu achei a sua ideia dos espelhos fantástica. – Afirmou
Claude – Fará com que ele pareça maior
dando a ideia de que não tem fim.
- O engenheiro não pensa assim... – Queixou-se Rosa num tom
de desanimo – Aliás, ele não concorda em
nada comigo! – Concluiu soltando o corpo
no encosto da cadeira, cruzando os
braços.
Claude sorriu da reação de Rosa. Parecia muito mais uma
criança contrariada que a mulher
decidida que era.
- A arte não reproduz o
que vemos. Ela nos faz ver. – Diz bem humorado.
- Pois é, Paul Klee sabia do que falava... – Respondeu ela.
- Engenheiros. – Disse
Claude com desdém. - Eles pensam
matemática e não artisticamente. Não veem as
coisas como nós artistas as vemos.
Por que não o dispensou ainda e contratou um arquiteto?
- Porque no contrato há uma clausula para ambas as partes, de multa. Fizemos isso como garantia de que ele não
abandonasse a obra. E infelizmente o assinamos
em meio aos problemas de Liz,
alguns dias antes do primeiro diagnóstico. É claro que ele não
aceitou cancelar o contrato, nem mesmo sem precisar devolver os dez por cento de adiantamento.
Então ficamos presos nessa situação e adiamos o projeto, que será reajustado
obviamente. Portanto, se você for coloca-lo em prática, esteja preparado.
- Esse espaço seria
muito útil para a galeria. – Comentou Claude. – Acho que devemos investir e
insistir nele.
- Mas Claude, estamos sem recursos. O prédio é o meu capital.
Quero dizer, o de Alexandra. – Corrigiu-se -
E Liz e John não terão como investir a não ser que vendam o
apartamento. E eu não vou deixar que façam isso.
- Não estava me referindo a eles, Rosa. Mas você acaba de dar
a solução para o problema do contrato.
Rosa olha para ele sem entender sua observação.
- Não alcançou meu
raciocínio ainda não é? John assinou o contrato não eu. Portanto posso declinar
dele. Tenho certeza que pode ser anulado, sem prejuízo para nenhuma das
partes. Falaremos com Júlio e Freitas amanhã mesmo. Eles
saberão como conduzir tudo e logo estaremos
livres desse engenheiro marrento. - Falou levantando-se e servindo dois cafés.
Deu uma das xícaras a ela e pegou um pedaço de bolo para si.
- Pode ser a sua receita – Disse mordendo-o – Mas nunca fica igual ao seu. - Concluiu depois de
comê-lo.
- Dadi pode se ofender
se ouvir isso Claude. – Falou sem graça.
- Então não conte a ela, ouí? – Devolveu piscando e servindo-se
de outro pedaço. – Me acompanha agora?
Rosa sorriu e serviu-se também. E então voltaram ao projeto,
anotando várias ideias e objetivos. Claude incluiu o quintal do casarão na
reforma. Um jardim sempre pode abrigar
esculturas e instalações. Um espaço
gourmet com entrada lateral, independente da galeria, mas com vista total para ela, substituindo partes da parede de alvenaria por Blindex também
entrou na conta.
Entremeio ao projeto, falavam de outros assuntos e Claude
comentou que se tivessem combinado a
noite não seria tão perfeita. A
única falha era a falta de Alexandra.
Rosa emocionou-se ao ouvi-lo falar assim. Separou os lábios,
procurando palavras para falar algo do
tipo “Alexandra também sente sua
falta, Claude. Todas as noites desde que nasceu. Ela e eu também...”
Mas Claude já havia mudado de assunto outra vez e a
oportunidade se perdeu no ar. Talvez
ainda não seja a hora certa, consolou-se Rosa respondendo a ele sobre a história do bairro.
Já passava das vinte e três horas quando Claude acompanhou
Rosa até o carro e recomendou que ela não parasse nos sinais vermelhos por nada. Só subiu de volta
ao seu apartamento quando perdeu o carro
de vista.
E só conseguiu deitar e relaxar quando recebeu a mensagem
dela dizendo que já estava dentro de casa, e que Alex dormia tranquilamente.
PSV
Nara estava dentro de seu quarto de costas para a porta
fechada e assustouse ao ouvir a voz de Roberta.
- Elisete disse que estava aqui então subi... Vai viajar? –
Perguntou olhando para a mala aberta em cima
da cama.
- Ouí. – Respondeu
simplesmente, sem querer entrar em muitos detalhes.
- Uau! Com todas essas
roupas imagino que farão uma tournet e tanto!
- Eu vou viajar sozinha, Roberta.
- Mas como? Nem Bernard, nem Louise ou outra pessoa do
partido irá acompanha-la?
- Não será uma viagem de negócios, ou de política. Na
verdade, você é a primeira a saber sobre ela.
- Já sei, vai passar uns dias... Fez uma pausa e corrigiu-se olhando
para a mala - Muitos dias em
sua casa de veraneio, acertei?
- Não. Estou indo embora Roberta. Para o Brasil.
- Oh... Está fugindo chèrie?
- Estou. – Confirmou Nara - Estou fugindo de uma vida que não
quero para mim. Embora ninguém tenha
perguntado, eu havia feito planos de trabalhar nas empresas da família e
de continuar meus estudos. Mas não vou
fugir no sentido literal da palavra.
- Se está arrumando as malas é porque já tem uma data
definida e ela deve estar
próxima. – Comenta Roberta planejando
seus próximos passos.
- D’àccord. Em
uma semana, dez dias no máximo.
- É claro que Claude está de
acordo com essa sua atitude...
- Completamente de acordo.
- Vai morar com ele,
não é?
- De imediato sim. Mas pretendo ter meu próprio espaço. Não preciso
que ele perca a liberdade por minha causa.
- Sua mãe não aprovará isso, Nara. Rela conta
com você. Tem certeza que está pronta para enfrenta-la?
- Não vou enfrenta-la. Talvez eu até me despeça quando
estiver saindo para o aeroporto. Se ela vai
aprovar, gostar ou não; se ela vai aceitar ou entender, será problema dela, não
meu.
- Mas e seu compromisso com Bernard?
- Oficialmente eu não tenho nenhum compromisso com ele e sentimentalmente
muito menos.
Roberta observou Nara
separar mais algumas roupas do armário enquanto pensava. Então perguntou:
- Você se ofenderia caso eu... Ocupasse o seu lugar junto a
Bernard?
- Eu? É lógico que não, Roberta. Mas vai desistir de Claude?
- Desistir de Claude? Não, meu bem. Seu irmão vai estar sempre na minha lista de esperas. No primeiro lugar.
Estou apenas cogitando algo mais
imediato, que não necessite de esperas.
– E que seja mais lucrativo – Completou em pensamento.
- Sabe Roberta, eu não entendo esse seu amor por ele. Tem
certeza que é amor?
- Nara, eu amo seu irmão desde que era uma pirralha de quinze
anos...
Nara tentou entender a
explicação de Roberta. Mas
não encontrava sentido nela.
- Eu acho que
você se iludiu e que minha mãe
tem muita culpa nisso. Sei também que
vai parecer cruel, mas não
há outro modo de dizer, Roberta. Claude,
nunca vai amá-la. A única mulher que ele ama é Rosa.
- Seu irmão é quem foi iludido, chèrie. O que ele sentiu por
essa brasileira foi apenas uma paixão,
uma atração física. Se eles se amassem de fato, estariam juntos e “ela” não o
teria deixado daquele modo tão
inesperado. Claude vai voltar e
se render a mim.
- Acredita mesmo nisso, não é?
- Sim.
- E caso ele volte o que fará se estiver
com Bernard?
- Divórcios servem para isso, Nara. Deixamos alguém que não
queremos mais por outro alguém que nos
faça feliz. Fez uma pausa e
levantou-se. - Eu ia convida-la para um
café, mas fica pra outro dia. E caso precise de ajuda para o seu plano de fuga,
conte comigo.
Roberta caminhou até a porta e parou, como se fosse
revelar algo. Mas apenas sorriu e
despediu-se:
- Au revoir, chèrie! Não precisa me acompanhar continue sua tarefa.
Nara despediu-se e
voltou a dobrar e colocar suas
roupas na mala. Jamais entenderia Roberta. E jamais concordaria
com ela. Não podia ser amor o que
sentia por Claude. Parecia mais com
obsessão. A pior delas, pois tinha
certeza que se Claude casasse com ela seria infeliz pelo resto da vida. Mais infeliz do que era agora, sem
Rosa. Balançou a cabeça, tirando essa
ideia do pensamento. Isso não
aconteceria. Claude estava no Brasil,
bem perto de Rosa. E não era uma proximidade apenas geográfica, tinha
certeza disso.
PSV
Roberta saiu da mansão
com um sorriso malicioso nos
lábios bem pintados. Com Nara fora da jogada seria muito mais fácil convencer a
Bernard que seria uma boa substituta.
Substituta não, oras! Bastava a experiência de querer
substituir Rosa, a queridinha de Claude.
Eu serei a única! A líder. A
indispensável. A insubstituível. Prevaleceria até mesmo sobre a poderosa
Louise Geraldy. Tanto com Bernard quanto no partido. Com Bernard, ela não teria mais vínculo algum. Já com o partido, quem sabe lhe sobrasse uma
participaçãozinha. Voluntária, é claro.
Este seria o seu
triunfo. Tiraria de Louise qualquer
chance, qualquer possibilidade, qualquer oportunidade de continuar
se dando bem. Já podia até sentir
o gosto doce da vingança e sua saliva. E isso transbordava em sua boca.
PSV
Continua na próxima semana






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