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sexta-feira, 20 de maio de 2016

PSV/Capítulo 35

PSV



- Quando vocês  “volta”, madrinha? – Perguntava Alex, olhando para  a tela do notebook de  Rosa. – Eu “tô” com “muuiiita”  saudade! – Continuou abrindo os braços.
- Em alguns  dias, darling! – Respondeu Liz, sorrindo  pela dramaticidade de Alexandra.
- Nós  também estamos com “muiiita” saudade Alex! – Falou John imitando-a. – Vou querer um abraço tamanho gigante quando chegar, ok?
- Tá  bom! – Exclamou Alex. – A mamãe quer falar com  vocês, de novo. Tchau! Eu  vou brincar! – Completa seguindo as  ordens  de  Rosa.
E joga um beijo,  antes de descer  da cadeira e sentar  no tapete da sala com seus  brinquedos e livros.
- Poxa, estou começando a pensar que  não querem mas  voltar! – Diz Rosa  se acomodando diante  do notebook e  ajustando a câmera. – Onde estão agora?
- Entre as massas, os terrines e o bom vinho do  Império Romano, honey. – Respondeu Liz. 
- Itália...  – Comentou Rosa. - Sem dúvida em meio a outros países, essa parada tem tudo para ser inesquecível!
- A Itália seria só uma parada mesmo. Mas já que estávamos aqui, resolvemos conhecer Verona, Veneza e Florença, antes de Roma.
- Rosa, com essa viagem John me proporcionou o melhor roteiro romântico da minha vida! Foram cidades extremamente charmosas abundantes de história e cultura. Você deve experimentar isso um dia.
- Quem sabe, quando Alex tiver um pouco mais de idade eu faça isso. – Respondeu dando uma rápida olhada para Alex. – E então vocês me ajudam no  roteiro.
- Teremos o maior prazer! -  Descobrimos lugares e situações incríveis. – Falou Liz  com um sorriso que Rosa  não conseguiu decifrar.  – Querida, John quer dar uma última palavra com você antes  do nosso boa noite.
- Rosa devemos  retornar  vinte dias no máximo, com algumas novidades,  inclusive  sobre a nossa situação na galeria. Não fique  assustada, será  bom para todos! – Explica ele ao ver uma reação assustada do rosto dela. - Mas eu preciso que Claude  retire as peças que  comprou caso ainda  não o tenha  feito.
- Não, ele ainda não as retirou de seu apartamento John.  Mas  eu  o aviso, claro. Não vai me adiantar  nada sobre essas  novas ideias?
- Posso adiantar que vai gostar  muito delas.
Então Alex se aproxima,  tentando  cochichar:
- Mamãe, eu preciso “i” no banheiro “faze” o número dois! – E sai  correndo em direção ao  banheiro.
Liz e John riem da tentativa da afilhada de ser  discreta.
- Vá cuidar de nossa princesinha, Rosa! Liz e eu iremos nos  recolher também. Aí pode estar calor, mas aqui na Europa é começo de inverno. Boa noite, querida! – Conclui  John piscando antes de encerrar a chamada.
- Boa noite Liz e  John! – Diz Rosa, com a conversa  quase encerrada.
E desliga o notebook, fechando-o.
- Muito bem senhorita Alexandra! Vamos conferir se já  está pronta para  receber nota  dez nesse quesito? – Falou entrando no banheiro.
- Eu também  acho esquisito mamãe!  - Falou a  garota.
- Esquisito? – Repetiu sem entendê-la.
- É mamãe...  É muito esquisito essa  vontade de fazer  cocô.  Porque ela vem assim sem a gente querer? – Pergunta categoricamente Alex.
Rosa sorriu. E lá se foi, explicar novamente à  filha  sobre o funcionamento do nosso corpo. E também a diferença entre quesito, e esquisito.



PSV



- Devíamos ter dito sobre o que  descobrimos em Amsterdã, não acha? - Comentou Liz, puxando as  cobertas e deitando-se primeiro.
John tirou o  roupão lentamente, como se  procurasse  as  palavras para  responder. Colocou-o aos pés  da cama e deitou-se  também.
- Não, não acho Liz. Pense bem, Rosa guardou esse segredo todos esses anos, e por mais que sejamos íntimos, ela não se sente pronta a dividi-lo conosco. 
- Tem razão, é um assunto que a machuca.  – Comentou Liz.  Mas agora que temos  certeza do envolvimento dos  dois, não podemos  ficar passivos. Temos que ajuda-los de alguma maneira!
- E vamos, darling.  Só precisamos de uma boa oportunidade. Um motivo para entrarmos  no assunto!
- O aniversário de Alex! -   Exclama ela com um brilho especial no olhar. –  É uma  boa entrada de assunto...
- Excelente ideia! Veremos antes como andam os ânimos entre Claude e Rosa. Quem sabe se sem a minha incômoda  presença, ele não tenha se reaproximado dela...
- Tomara que sim, John. Estou torcendo para que se entendam.
- Eu também, Elisabete – Disse  apagando a luz  do abajur, antes de abraça-la.


PSV



- Sua filha está muito distante ultimamente, Louise. Ela deveria aparecer mais ao meu lado para atrair simpatizantes e eleitores.
- Vou ter outra  conversa  com ela,  não se preocupe.
- Espero que  seja uma  conversa  definitiva.
- Nara encontrou alguns recortes, Bernard.  Noticias antigas sobre o pai e a situação política  em que ele estava ao  falecer e desde então vem me criticando e crivando de perguntas,   culpando-me pela morte dele.
- E qual o seu envolvimento?
- Nenhum, é  claro! Eu realmente me apaixonei por François.
- E tentou ocupar  o lugar que era dele?
- Eu não tentei ocupar o lugar que era dele. Eu ocupei um lugar  vago,  que havia  sido dele. E o ocupei muito bem.  O partido deve muito a mim e  a minha atuação, sem a qual não teríamos  tantos  representantes  na Assembleia e no Senado.
 - Modesta  como sempre... – Falou Bernard entre irônico e sarcástico.
 - Modéstia nunca  foi item  na minha lista de qualidades, Bernard.  – Retrucou séria.
- E Michel? Acha que podemos  confiar  e contar  com ele para  nossos planos?
- Michel Didier, nosso querido prefeito? Esse, eu o tenho na palma da mão, embora sua ambição e ganância possam me dar um trabalhinho a mais... Mas  voltemos à Nara, e seu comportamento arredio, que tem causado estranheza em você...
Louise  continuou a falar da filha e do que pretendia  fazer. Bernard a ouvia, mas não prestava atenção. Estava bem mais preocupado com a expressão que ela usara “Esse eu o tenho na palma da mão”, referindo-se  a Michel.
Não fora justamente isso o que Michel  o aconselhara a não deixar acontecer?



PSV



Claude ouviu atentamente Rosa transmitir o pedido de John, sobre a retirada das peças.
- D’àccord, ele tem razão.  Não há motivos para deixar lá as peças eu adquiri. Porém vou precisar aloca-las aqui na galeria. Eu notei que há uma sala no andar de cima, ao final do corredor, sempre fechada a chave.
- É um pequeno quarto onde guardo alguns pertences particulares. Livros, objetos pessoais, materiais da faculdade, recordações de meus pais. – Explica Rosa.
- Voilà... Algum outro local disponível?
- Há o porão. Porém,  mais  que uma limpeza, precisaria de uma  pequena reforma para reparos e climatização, por  causa  da umidade.  Havíamos programado, mas a doença de Liz nos  fez adiar esse projeto.
- Bem, então vou deixa-las expostas. Quem sabe vendemos algumas e aumentamos o capital de giro da galeria. Ou reformamos o porão. – Diz Claude calmamente.
- Não! – Exclamou Rosa - As peças constam no relatório patrimonial, mas são particulares e agora suas.  Não é justo você investir ainda mais.
- Rosa, venderíamos apenas as que comprei para ajudar Elisabete Smith, fazendo  com que o  dinheiro retorne a galeria.  As  suas  serão preservadas, hã?
–  Dois quadros e uma escultura apenas.  Eu posso  leva-las para minha  casa, nem sei porquê  não o fiz ainda.   E posso desocupar esse cômodo. É algo que adio a  bastante tempo. Está resolvido, farei isso neste sábado! – Afirmou  sem deixar que ele a fizesse mudar  de ideia.
No final  do dia, Claude insistiu em verificar o estado do porão e  Rosa o acompanhou. Na  volta, pediu à Janete o projeto da reforma  e o levou para analisar em seu apartamento.





Beto viajou de trem, sozinho, numa cabines com duas beliches   de Paris a Veneza. 



E encontrou-a confrontando-se com o problema da água alta, fato que acontece de outubro a abril. Nesta época do ano  a cidade segue o ritmo das marés e convive com suas famosas inundações.  Cenas impressionantes, e que  Beto  registrou da melhor maneira que sabia: com excelentes  fotos, quase  surreais.





Publicou-as em seu  blog e logo lhe renderam uma grana extra ao serem republicadas  em uma revista de  circulação nacional, ilustrando uma matéria sobre o fato.






                                                Fotos do blog www.conexãoparis.com.br





Portanto, tinha muito  que  comemorar junto com a assinatura do contrato para  a exposição  no Brasil.

- Perfeito! – Exclamou Catarina assim que  Beto assinou o contrato. – E bem vindo de  volta ao mundo da Arte!
- Eu estou muito feliz, Catarina. E ansioso confesso. Parece até que será a minha primeira vez! – Exclamou sorrindo, divertido.
- Quando você aceitou nosso convite deixou-nos muito felizes, Beto. – Falou Egídio entregando uma  taça de champanhe a ele, depois de servir Catarina -  Um brinde ao nosso sucesso no Brasil!
- Thomas Piketty, um economista francês utilizou uma série de dados para demonstrar que o capitalismo do nosso século tende a concentrar cada vez mais renda nas mãos de poucos e usa  o mercado contemporâneo de arte para validar sua tese. – Disse depois de um gole. - Concordam com ele?
- E o que um economista entende de Arte? – Pergunta Catarina -  A cultura tem que estar ao alcance  de todos. E se esse “todos” não puderem adquirir uma obra de arte, eles têm o direito de aprecia-la. Eu diria até que têm o  dever de aprecia-la. Essa é a minha eterna opinião.
- Concordo. – Afirmou Beto. – Mas no momento atual do Brasil, de crise política e econômica, não receiam um prejuízo ou fracasso?
- O mundo sempre terá crises, Beto. – Emendou Egídio - E se olharmos  para elas como um empecilho,  nunca passarão. São nesses momentos que  superamos nossas  fraquezas e criamos condições para acabar com uma delas.
- Esperança, Beto. A Arte nos  transmite isso. – Conclui Catarina, erguendo a taça.
- Pois que seja! E que  a Arte nos acompanhe sempre! Salute! – Exclamou Beto encerrando o brinde.



PSV



Rosa tocou a campainha e aguardou alguns instantes.  Impaciente, tocou-a novamente demorando um pouco mais com o dedo  sobre ela.
Quando percebeu a porta sendo aberta preparou-se para um comentário sarcástico, que  evitou a tempo diante  de sua  surpresa  ao ver  Dadi.
- Dadi... Boa noite,  Claude não está?
- Rosa! – Exclamou Dadi, mais surpresa que ela – Eu não sabia que  viria, entre. Claude está sim. Na sala  de jantar estudando  o projeto da reforma desde que chegou.
Dadi praticamente a obrigou a acompanha-la.
- Claude, Rosa está aqui. – Anunciou  de maneira séria, entrando na sala de jantar. – Por que não me avisou que ela viria? Eu teria preparado algo...
Claude ergueu a cabeça e a primeira  coisa que  viu foi o olhar fulminante de Rosa, logo atrás de Dadi.
- Voilà, finalmente chegou, hã? - Falou ele, devolvendo um olhar zombeteiro  - Eu não disse que nos encontrávamos por  causa da galeria, Dadi? – Completou puxando um sorriso no canto da boca.
- Vou deixa-los a sós. – Respondeu Dadi. - E fazer um café. Creio que vão precisar.
Rosa esperou que Dadi se afastasse o suficiente para não escutar o que falaria:
- Por que não me falou que Dadi estaria em casa? – Perguntou gesticulando com as mãos.
- Pardon. Eu esqueci completamente de avisa-la para  não  vir  hoje, hã?  
- Esqueceu? – Disse colocando as mãos na cintura. – E se eu tivesse  usado a chave que me deu e entrado de forma... De forma mais indiscreta? – Levantou-as outra vez.
- Você não faria isso. É sempre discreta. – Respondeu puxando-a pela cintura.
E ficaram tão próximos que puderam sentir um a respiração do outro.
- O que está fazendo Claude?
- Tentando beija-la... – Respondeu ele encostando seus lábios aos dela.
-  Não... A Da...- Murmurou antes de corresponder ao beijo.
- Você enlouqueceu, ela podia aparecer e nos pegar... – Falou baixinho, ainda nos braços dele.
- Um risco que eu tinha que  correr chèrie...
Então, antes que Rosa pudesse dizer alguma coisa,  a voz de Dadi, do lado de fora, os faz se afastar:
- Espero que  gostem desse lanche. Tenho certeza que nenhum de  vocês dois jantou.
Dadi entrou e colocou uma enorme bandeja sobre a mesa: Suco, café, duas xícaras e dois  copos.  Torradas, um patê e alguns pedaços de bolo.
Claude notou o olhar de Rosa  sobre o bolo e nem a esperou perguntar.
- Ouí. É bolo de cenoura. Receita da Rosa, como diz Dadi toda vez que o faz. Não é  Dadi?
- Fico feliz que  com tantas  deliciosas receitas francesas que  saiba, você ainda o faça Dadi. É claro que provarei. Obrigada. – Respondeu Rosa, ignorando a indireta de Claude.
- Espero mesmo encontrar essa badeja vazia  quando vier  busca-la, amanhã de manhã. Boa noite aos  dois.
- Boa noite, Dadi. E obrigada mais uma vez. – Disse Rosa.
- Merci e bonsoir, Dadi. – Despede-se dela Claude também, voltando a se acomodar defronte os papeis do projeto da  reforma.
Quando percebeu que Rosa não havia  saído do lugar, levantou a cabeça e disse:
- Sente-se. Eu não fiz de propósito. Acontece que Dadi usa suas  folgas para  ensinar conversação em francês, como  voluntária em uma ONG, e essa  semana a aula foi suspensa por suspeita da gripe H1N1.
- Você não imagina o sufoco que passei quando a vi!
- Voilà! – Exclamou Claude com um olhar indecifrável -  Pense pelo lado bom para você. Não terá que ir para a cama comigo hoje.
- Você  faz parecer pior do que é. Por que tem tanto prazer em me humilhar dessa  forma?
- Pardon, não  foi minha intenção, acredite! – Afirmou ele, parecendo ser  verdadeiro.
- Está bem, vamos esquecer isso. Vou comer um pedaço do bolo, para que Dadi não se chateie e  voltar para casa.
- Mon Dieu! Está com tanta pressa assim, para  ver-se livre de mim?
- Eu fiz parecer isso?  Perdão. Não  foi minha intenção, acredite! – Respondeu usando as mesmas  palavras dele, sem perceber de imediato.
Então imaginou que ele respondesse  com grosseria, entendendo isso como sarcasmo. Mas Claude soltou uma risada tão natural e verdadeira que Rosa desarmou-se e acabou rindo com ele, esquecendo-se  do  bolo.
E isso fez a tensão entre eles desaparecer. 





- Foi você quem desenvolveu esse projeto não foi? – Perguntou Claude em seguida.
- Foi sim, como percebeu? Não leva minha assinatura em lugar nenhum!
- Eu reconheceria a originalidade do seu estilo até em outro planeta, Rosa...
E eu o seu...  Pensou Rosa vendo alguns desenhos dele ao lado dos  seus.
- Mas  como pôde observar o projeto está inacabado. E agora que  administra a galeria,  o que sugere para essa área mais baixa  do porão?
- Eu achei a sua ideia dos espelhos fantástica. – Afirmou Claude – Fará  com que ele pareça maior dando a ideia de que não tem fim.
- O engenheiro não pensa assim... – Queixou-se Rosa num tom de desanimo – Aliás, ele não concorda  em nada comigo! – Concluiu soltando  o corpo no encosto da cadeira, cruzando os  braços.
Claude sorriu da reação de Rosa. Parecia muito mais uma criança contrariada que a  mulher decidida que era.
- A arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver. – Diz bem humorado.
- Pois é, Paul Klee sabia do que falava... – Respondeu ela.
- Engenheiros. – Disse  Claude com desdém. - Eles   pensam matemática e não artisticamente. Não veem as  coisas como nós  artistas as vemos. Por que não o dispensou ainda e contratou um arquiteto?
- Porque no contrato há uma clausula para ambas as partes, de multa.  Fizemos isso como garantia de que ele não abandonasse a obra. E infelizmente o assinamos  em meio aos problemas de Liz,  alguns  dias antes  do primeiro diagnóstico. É claro que ele não aceitou cancelar o contrato, nem mesmo sem precisar  devolver os dez por cento de adiantamento. Então ficamos presos nessa situação e adiamos o projeto, que será reajustado obviamente. Portanto, se você for coloca-lo em prática, esteja preparado.
- Esse  espaço seria muito útil para a galeria. – Comentou Claude. – Acho que devemos investir e insistir nele.
- Mas Claude, estamos sem recursos. O prédio é o meu capital. Quero dizer, o de Alexandra. – Corrigiu-se -  E Liz e John não terão como investir a não ser que vendam o apartamento.  E eu não  vou deixar que façam isso.
- Não estava me referindo a eles, Rosa. Mas você acaba de dar a solução para o problema do contrato.
Rosa olha para ele sem entender sua observação.
 - Não alcançou meu raciocínio ainda não é? John assinou o contrato não eu. Portanto posso declinar dele. Tenho certeza que pode ser anulado, sem prejuízo para nenhuma das partes.  Falaremos  com Júlio e Freitas amanhã mesmo. Eles saberão como conduzir tudo e  logo estaremos livres desse engenheiro marrento. - Falou levantando-se  e servindo dois cafés.
Deu uma das xícaras a ela e pegou um pedaço de bolo para si.
- Pode ser a sua receita – Disse mordendo-o – Mas nunca  fica igual ao seu. - Concluiu depois de comê-lo.
- Dadi pode  se ofender se  ouvir isso Claude. – Falou sem graça.
- Então não conte a ela, ouí? – Devolveu piscando e servindo-se de outro pedaço. – Me acompanha agora?
Rosa sorriu e serviu-se também. E então voltaram ao projeto, anotando várias ideias e objetivos. Claude incluiu o quintal do casarão na reforma. Um jardim sempre  pode abrigar esculturas e instalações.   Um espaço gourmet com entrada  lateral,  independente da galeria, mas com vista  total para ela, substituindo partes  da parede de alvenaria por Blindex também entrou na  conta.
Entremeio ao projeto, falavam de outros assuntos e Claude comentou que se tivessem combinado  a noite não seria  tão perfeita. A única  falha era a falta de Alexandra.
Rosa emocionou-se ao ouvi-lo falar assim. Separou os lábios, procurando palavras para falar  algo do tipo “Alexandra também sente   sua  falta, Claude. Todas as noites desde que nasceu. Ela e eu também...”
Mas Claude já havia mudado de assunto outra vez e a oportunidade se  perdeu no ar. Talvez ainda não seja a hora certa, consolou-se Rosa respondendo a ele sobre  a história do bairro.
Já passava das vinte e três horas quando Claude acompanhou Rosa até o carro e recomendou que ela não parasse nos  sinais vermelhos por nada. Só subiu de volta ao seu apartamento quando  perdeu o carro de vista.
E só conseguiu deitar e relaxar quando recebeu a mensagem dela dizendo que já estava dentro de casa, e que  Alex dormia tranquilamente.



PSV



Nara estava dentro de seu quarto de costas para a porta fechada e assustouse ao ouvir a voz de Roberta.
- Elisete disse que estava aqui então subi... Vai viajar? – Perguntou olhando para a mala aberta em cima  da cama.
- Ouí. – Respondeu simplesmente, sem querer entrar em muitos  detalhes.
- Uau! Com todas essas  roupas  imagino que farão uma tournet e tanto!
- Eu  vou viajar  sozinha, Roberta.
- Mas como? Nem Bernard, nem Louise ou outra pessoa do partido irá acompanha-la?
- Não será uma viagem de negócios, ou de política. Na verdade, você é a primeira a saber sobre ela.
- Já sei, vai passar uns dias...  Fez uma pausa e corrigiu-se olhando  para a mala -  Muitos dias em sua  casa de veraneio, acertei?
- Não. Estou indo embora Roberta. Para o Brasil.
- Oh... Está  fugindo chèrie?
- Estou. – Confirmou Nara - Estou fugindo de uma vida que não quero para  mim. Embora ninguém tenha perguntado, eu havia feito planos de trabalhar nas empresas  da família e  de continuar meus estudos. Mas  não  vou fugir no sentido literal da palavra.
- Se está arrumando as malas é porque já tem   uma data  definida e ela deve  estar próxima. – Comenta Roberta  planejando seus  próximos passos.
- D’àccord. Em uma  semana, dez  dias no máximo.
- É claro que Claude está de  acordo com essa sua atitude...
- Completamente de acordo.
- Vai morar  com ele, não é?
- De imediato sim. Mas pretendo ter meu próprio espaço. Não preciso que ele perca  a liberdade por minha  causa.
- Sua mãe não    aprovará  isso, Nara. Rela  conta  com você. Tem certeza que está pronta para enfrenta-la?
- Não vou enfrenta-la. Talvez eu até me despeça quando estiver saindo para o aeroporto. Se  ela vai aprovar, gostar ou não; se ela vai aceitar ou entender, será problema dela, não meu.
- Mas e seu compromisso com Bernard?
- Oficialmente eu não tenho nenhum compromisso com ele e sentimentalmente muito menos.
Roberta observou  Nara separar  mais algumas  roupas do armário enquanto pensava.  Então perguntou:
- Você se ofenderia caso eu... Ocupasse o seu lugar junto a Bernard?
- Eu? É lógico que não, Roberta. Mas vai desistir de Claude?
- Desistir de Claude? Não, meu bem. Seu irmão vai estar sempre  na minha lista de esperas. No primeiro lugar. Estou apenas  cogitando algo mais imediato, que não necessite de  esperas. – E  que seja mais lucrativo – Completou em pensamento.
- Sabe Roberta, eu não entendo esse seu amor por ele. Tem certeza que é amor?
- Nara, eu amo seu irmão desde que era uma pirralha de quinze anos...
Nara tentou entender a  explicação de  Roberta. Mas não  encontrava sentido nela.
- Eu acho que  você  se iludiu e que  minha mãe  tem muita culpa nisso. Sei também que  vai parecer  cruel, mas não há  outro modo de dizer, Roberta. Claude, nunca  vai amá-la. A única  mulher que ele ama é Rosa.
- Seu irmão é quem foi iludido, chèrie. O que ele sentiu por essa brasileira foi apenas uma  paixão, uma atração física. Se eles se amassem de fato, estariam juntos e “ela” não o teria  deixado daquele modo tão inesperado. Claude  vai  voltar e  se render a mim.
- Acredita mesmo nisso, não é?
- Sim.
- E caso ele volte o que fará se  estiver  com Bernard?
- Divórcios servem para isso, Nara. Deixamos alguém que não queremos mais por outro alguém que nos  faça feliz.   Fez uma pausa e levantou-se.  - Eu ia convida-la para um café, mas fica pra outro dia. E caso precise de ajuda para o seu plano de fuga, conte  comigo.
Roberta caminhou até a porta e parou, como se  fosse  revelar algo.  Mas apenas sorriu e despediu-se:
 - Au revoir, chèrie! Não precisa me acompanhar continue sua tarefa.
Nara despediu-se e  voltou a  dobrar e  colocar suas  roupas na mala. Jamais entenderia Roberta. E jamais  concordaria  com ela. Não podia ser  amor o que sentia  por Claude. Parecia mais com obsessão. A pior delas, pois  tinha certeza que se Claude casasse com ela seria infeliz pelo resto da  vida. Mais infeliz do que era agora, sem Rosa.   Balançou a cabeça, tirando essa ideia  do pensamento. Isso não aconteceria. Claude estava no Brasil,  bem perto de Rosa. E não era uma proximidade apenas geográfica, tinha  certeza  disso.



PSV



Roberta saiu da mansão  com  um sorriso malicioso nos lábios bem pintados.  Com Nara fora  da jogada seria muito mais fácil convencer a Bernard que seria uma boa  substituta.
Substituta  não, oras!  Bastava a experiência de querer substituir  Rosa, a queridinha de Claude. Eu serei a única! A líder. A  indispensável. A insubstituível. Prevaleceria até mesmo sobre a poderosa Louise Geraldy. Tanto com Bernard quanto no partido. Com  Bernard, ela não teria mais vínculo algum. Já  com o partido, quem sabe lhe sobrasse uma participaçãozinha. Voluntária, é  claro.
Este seria  o seu triunfo. Tiraria de Louise qualquer  chance, qualquer possibilidade, qualquer oportunidade de  continuar  se dando bem.  Já podia até sentir o   gosto doce da  vingança e sua  saliva. E isso transbordava em  sua   boca.



PSV


                              Continua na próxima semana

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