PSV
Rosa entrou naquele
cômodo da galeria como alguém que entra no passado. Há quanto tempo não
entrava ali?
Tentou abrir a porta por inteiro, mas alguma
coisa impedia. Empurrou com um
pouco mais de força e tudo que conseguiu foi um barulho surdo de algo caindo.
Soltou uma exclamação mal criada e ouviu a voz de Alex
recriminando-a:
- Hã! – Exclamou a
menina colocando as mãos sobre a boca, parecendo assustada - Esqueceu que não
pode “fala” palavra feia, mamãe?
Rosa virou-se para a garota e colocou suas mãos na cabeça,
com ar de culpada.
- Oh! Tem toda razão, filha! Obrigada por me corrigir. Nós
adultos, esquecemos disso algumas vezes.
É melhor você esperar aqui fora até eu
acender a luz, ok?
- Tá bom, mamãe!
Rosa esgueirou-se entra algumas caixas empilhadas rentes a parede, que a
impediam de tocar o interruptor. Com
dificuldade conseguiu enfiar a mão e encontra-lo.
- Ehhhhhhh! - Exclamou
Alex batendo palmas e entrando.
Rosa caminhou até a janela abrindo-a. A luz
do sol invadiu o quarto, e ao mesmo tempo que ajudou a clareá-lo ainda
mais, mostrou também o nível de pó
acumulado ali.
- Olha mamãe! Meus
brinquedinhos de quando era pequena!
Rosa sorriu. Crianças e
suas lógicas. “De quando era
pequena”. Como se fosse muito grande agora pensou, olhando para onde estava a filha.
Alex havia se enfiado atrás
da porta e tirava alguns itens da caixa semiaberta. A mesma que caíra,
quando abrira a porta. Não eram exatamente brinquedos. Eram as sobras de convites, enfeites e lembrancinhas do
primeiro aniversário de Alex.
- Alex, acho melhor
você não ficar aqui comigo.
Papéis velhos e essa poeira toda não vão
te fazer bem, hum? – Argumentou
vendo-a sentar no chão.
- Ah, mamãe!
- Você pode levar essa
caixa ao ateliê e brincar por lá, que tal?
- Ah, mas eu vou ter
que ficar sozinha lá! O tio Sérgio não vem hoje e a tia
Janete vai ficar lá embaixo!
- Bonjour! Onde é
que você vai ter que ficar
sozinha, hã? – Questionou Claude encostando
no batente da porta enquanto lançava
um olhar por todo o quarto, até concentra-lo nas
duas.
- Claude! - Bradou
Alex, sorrindo feliz. – A mamãe vai limpar aqui e eu não posso ficar com ela... – Completou entristecida.
- Não é que você não
possa ficar Alexandra. Eu só não acho prudente; você passou por uma cirurgia e está tão bem! Não é melhor continuar
sem aquelas crises horríveis?
- Sua mãe tem razão, pequena. – Adiantou-se Claude. - É melhor
ficar longe da poeira, d’àccord?
- Tá bom, eu fico
lá sozinha! – Resmungou fazendo bico.
- E se eu ficasse com
você?
- Eba! – Exclamou Alex sem esperar qualquer
consentimento de Rosa. – Você
me ajuda a levar essa caixa?
- Ajudo. Se sua
mãe permitir.
- Ah, ela deixa, você deixa, né mamãe?
- Ok, garota, eu deixo. – Consentiu Rosa, tocando-a na
ponta do nariz. – Se ela
ficar manhosa, traga-a de volta.
– Falou olhando sério para Claude. – E obrigada...
- Não precisa agradecer. Na verdade, eu vim para ajuda-la com isso. – E apontou para
as caixas. - Mas acho que ajudo mais cuidando de Alexandra. – Respondeu abaixando-se para pegar a caixa
que ela tentava arrastar.
Segurou a caixa com uma das mãos, embaixo do braço.
- Vamos? – Perguntou oferecendo a outra mão para Alex.
E Rosa os observou andarem pelo corredor até entrarem no
salão que servia de estúdio. Ah, se
eles soubessem um do outro, curtiriam
muito mais o momento!
Não posso adiar mais.
Tenho que contar aos dois ou
acabarão por me odiar. Assim que trouxermos essas peças para cá vou dizer a ele sobre
Alexandra. E se ele duvidar mostrarei a
marquinha dela. É praticamente um exame de DNA.
PSV
Janete esperou a
máquina efetuar a transação de
venda e devolveu o cartão, entregando a primeira via do recibo para o cliente.
Acomodou a peça, uma estatueta de trinta centímetros em uma
embalagem própria, certificando-se que a mesma não sofresse nenhum dano e colocou numa
eco sacola com o logotipo da
galeria, agradecendo a preferência.
Checou e fechou a contabilidade do dia. Conferiu a hora e assustou-se: quase
trezes horas. E nem Rosa ou
Claude haviam descido.
Aproximou-se da escada, indecisa se devia mesmo subir. Mas não podia ir embora sem avisar. Então subiu alguns degraus e gritou:
- Rosa, precisa de ajuda?
- Por incrível que pareça, não. Mas obrigada assim mesmo, Jane.
- Tem certeza? Já são
quase treze horas...
- Meu Deus, nem senti o tempo passar! - Explica-se Rosa
aparecendo do lado de fora do quarto. -
Você está...
- Mamãe, eu tô com fome... – Queixa-se Alex vinda do ateliê.
- E eu as estou
convidando para almoçarem comigo. –A voz
de Claude, chega antes dele. – No
Gigetto, aqui pertinho.
- Bem, e eu preciso ir. Bom almoço para vocês. – Diz Janete.
- O convite é
extensivo a você, Janete! Não é Claude?
- D’àccord.
- Eu adoraria ir, mas tenho um compromisso inadiável. Fica
para uma próxima oportunidade. Até segunda e divirtam-se!
Depois de ouvir as despedidas, Janete desce a escada escutando Alex pedir se podia comer aquela
comida daquele dia e se poderia escrever na parede de novo e que tinha
convidado Claude para seu aniversário.
- ... E não é engraçado mamãe? O Claude
faz aniversário no mesmo dia que eu! A gente podia fazer a festinha junto...
Foi a última coisa que escutou Alex comentar, antes de
fechar a porta e atravessar a rua em direção ao seu carro,
pensando em como era azarada.
Naquele outro dia não
fora para não bancar a vela. E hoje, que gostaria de bancar, não
podia ir.
- É Janete, nem tudo é
do jeito que você quer! –
Murmurou a si mesma, dando a
partida no carro.
PSV
Rosa abriu o menu de sobremesas. Estava incerta se devia pedir mesmo. Tortas, sorvetes, mousses...
Depois da massa no prato principal? Isso a forçaria a andar mais tempo que o habitual em sua ergométrica.
Levantou os olhos do papel e espiou Claude. Ele apontava
alguma coisa no menu de Alex. Insistira que ela deveria escolher sozinha
sua sobremesa.
Suspirou sem querer e atraiu a atenção para si. Disfarçou com uma tossidinha e voltou a olhar as imagens a sua frente. Durante
todo o almoço havia agradecido a Deus por não serem atendidos pela dona
do restaurante, Cleide e seus
olhares indiscretos para seus
movimentos. E mais indiscretos ainda
para os de Claude.
Oras, por que não consigo deixar de sentir ciúmes por isso? Além do
mais, seja ponderada. É você quem vai para a cama com ele, não ela.
Mas que droga! Você
acaba com meu autocontrole, Claude!
- Então, já escolheu
sua sobremesa? Rosa? O garçon
está esperando.
Desculpou-se e pediu a torta de limão. Foi quando seu celular tocou.
- É a Joana. - Disse
precisando se afastar da mesa para escuta-la melhor.
Quando voltou, parecia preocupada.
- Algum problema?
- John e Liz chegam quarta pela manhã e Joana volta na segunda,
para limpar o apartamento. Precisamos
tirar as peças amanhã.
- De minha parte não será nenhum transtorno.
- Pode ser depois do almoço? Assim eu termino de limpar o
quarto e teremos tempo de avisar o
Sérgio. Alguns de seus alunos do último período fazem esse serviço de transporte em Arte.
- Acha necessário?
- Sim. Algumas esculturas
são mais pesadas do que parecem, iremos precisar de ajuda. Além do mais,
eles já tem todo o equipamento
necessário.
- D’àccord. Treze horas é
bom para você?
- Ótimo. E você, Alex, vai ficar quietinha, pintando seus
desenhos na mesa da Janete, ok?
Alexandra engoliu o sorvete e abriu a boca para responder,
mas Claude adiantou-se.
- Eu tenho uma ideia melhor. – Disse ele – Dadi pode ficar
com ela, se você aceitar, claro.
- Eu não quero incomoda-la. E vou estar aqui pela manhã, Claude.
Alexandra equilibrou uma porção de sorvete na colher
e a levou até a boca, enquanto olhava ansiosa de Rosa para Claude
- Mais um bom motivo para
deixa-la com Dadi sem considerar
isso um incomodo. Poderia deixa-la em meu apartamento e viríamos juntos.
Em dois, a limpeza será mais rápida. O que acha?
Rosa estava indecisa.
Toda essa preocupação e proteção de Claude... O que ele pediria em
troca?
- Alex, você ficaria
com a Dadi até a sua mamãe
voltar?
- Humhum... – Respondeu terminado seu sorvete. – Vai ser legal conhecer a sua casa.
- Então estamos
resolvidos. – Afirmou Claude, chamando o garçon e pedido a conta. – Você
não vai ficar aborrecida por isso, vai? – Perguntou em
seguida, notando o olhar incomodado de Rosa.
- Desculpe se pareci aborrecida. Apenas não estou acostumada que tomem
decisões por mim.
- Voilà! – Exclamou Claude sorrindo - Na próxima você decide d’àccord?
Rosa tentou achar
uma resposta adequada, mas tudo
que conseguiu foi o lenço de Claude, ao espirrar inúmeras vezes.
PSV
Frazão checou as
recomendações junto ao Conselho Administrativo da empresa e os dispensou, encerrando aquela reunião
extraordinária em pleno sábado. Com exceção de Gurgel Beaumont, todos se
despediram.
- Gurgel, você
sabe da confiança
que deposito em você e da responsabilidade que ficará em suas mãos a partir de agora, não sabe?
- Sei sim, Frazão. E sei também que será uma responsabilidade e tanto gerenciar
esse império sem Claude e agora sem
você por perto. Espero
continuar merecendo essa confiança.
- Você vai ter autonomia para solucionar quaisquer
problemas que possam surgir. Não
faça essa cara, você está preparado, eu mesmo fiz isso, não
foi? – Brincou Frazão quebrando a seriedade do assunto
- Chega de dar
voltas... Fale logo o que quer que eu não faça. – Perguntou Gurgel, curioso.
- Não assine nada que venha
de Louise. Em hipótese alguma.
- Imagina que ela pode querer dar um golpe?
- Eu não imagino, tenho certeza. Louise é paciente em seus...
Digamos caprichos. Minha presença nas empresas
sempre a incomodou, porque não faço pactos, nem acordos, muito menos “invisto” dinheiro na política.
- Até onde sei, tudo
que ela consegue tirar daqui é a sua parte como acionista, correspondente aos lucros de cada trimestre.
- Exato. E assim deve
continuar. Não ceda às exigências, ou pedidos que ela vier a fazer.
- Quanto tempo pretende
ficar no Brasil?
- Bem, quero descansar os meus trinta
dias de férias, adiadas a pelo menos
cinco anos. O prazo legal sempre
é de noventa dias, prorrogáveis por mais noventa. Mas espero estar de
volta antes disso.
- Eu espero que volte
mesmo. Não pretendo assumir o seu cargo, mon ami.
- Eu também não pretendia Gurgel, no entanto la vie est une boîte de surprises.
- D’àccord. – Concordou
Gurgel lembrando-se de quando Claude entro para a política, assumindo funções no partido e o cargo de conselheiro da
prefeitura. – Por que não saímos daqui para um bonne franquette antes da
sua partida?
- Desde que seja um lugar discreto, hã?
– Respondeu Frazão, levantando-se.
- Mas que isso, Frazão? – Disse Gurgel acompanhando-o - Eu sou
a discrição em pessoa! Vamos apenas tomar
uns drinques e degustar petiscos. Agora,
se aparecer alguém interessante...
PSV
Rosa saiu do quarto
equilibrando o jogo de porcelana.
Abaixou-se lentamente e o colocou sobre a mesinha.
Então respirou aliviada e espirrou em seguida.
-Saúde! – Falou Sérgio terminando de embalar o quadro. - Esse Anita Malfatti não ia para sua casa? – Perguntou olhando para Rosa.
- Ia sim Sérgio. Mas
mudei de ideia. Ele será muito mais
valioso para a galeria se for vendido. Ficarei apenas com as porcelanas e eu mesmo as levo.
Obrigada por desperdiçar seu
domingo com isso.
- É o melhor dia
para se fazer esse tipo de transferência: não há trânsito
nem curiosos. Você tem como
voltar para casa?
- Claude. – Falou esboçado um sorriso – Alex está na casa
dele, com Dadi.
- Ok. Tem certeza que não
quer ajuda para terminar de
embalar isso?
- Tenho sim, Sérgio. Você e seus alunos já ajudaram bastante. Obrigada. – E tornou a espirrar várias vezes.
- É melhor tomar um
antialérgico. – Observou Sérgio.
- Farei isso assim que
chegar em casa.
Sérgio fez um movimento para sair e recuou. Separou os lábios
como alguém que vai falar algo e
desiste.
- Pergunte logo o
que quer saber, vamos! – Falou Rosa
envolvendo uma das xícaras em papel de seda.
- É que eu não quero parecer intrometido. – Defendeu-se Sérgio. Mas dane-se. Eu ia dizer que vocês parecem ter se ajustado
finalmente. E isso foi muito bom.
Perdemos o medo de respirar na galeria.
- Não era tanto assim Sérgio! – Exclamou Rosa em sua
defensiva.
Então Claude entra.
- O tempo mudou completamente, hã? Parece que vem chuva por ai...
- Nesse caso, é melhor me apressar. Até amanhã para vocês. – Diz Sérgio deixando-os no apartamento.
- Eu liguei para Dadi. – Diz
Claude abaixando-se e embalando uma das
xícaras - Alexandra acabou de
acordar e está ajudando Dadi com o café
da tarde.
Agora, Rosa. Conte a
ele sobre Alex! – Falou sua consciência
- Ela acordou muito cedo hoje... – Comentou Rosa, esticando o
braço para pegar a última
das quatro xícaras. – Eu preciso contar algo sobre...
Porém, Claude fazia o
mesmo movimento e suas mãos se
tocaram involuntariamente.
- Desculpa... – Falaram ao mesmo tempo e seguiu-se um
silêncio quase constrangedor.
Rosa deixou que a xícara ficasse na mão de Claude. Pegou
as outras, já embaladas e levantando-se
as colocou na caixa de transporte. Por que não era tão fácil quanto em seus pensamentos?
Estava de costas
e estremeceu quando ele estendeu o
braço, acondicionando a última xícara.
Sem perceber deu um pequeno passo para a
lateral.
- Por que está sempre
fugindo de mim, Rosa?
- Eu nunca fujo de
você! – Respondeu antes de ir até a janela e olhar o céu, cada vez mais acinzentado.
- Não? Eu já perdi a conta
de quantas vezes você se afastou, evitando que nos toquemos.
Virou-se pronta para responder que não tinham porquê se
tocarem, e ficou presa nos braços dele.
- Quer
me soltar, por favor?
- Não, não quero. – Escutou-o responder com os lábios
quase colados aos seus.
Aceitou o toque terno e
caloroso. Cedeu quando ele a forçou a separar os lábios e entregou-se ao
beijo, correspondendo intensamente. E sentiu
as mãos dele em suas costas. Elas
apertavam-na contra o corpo dele. Foi nesse momento que tentou empurra-lo.
- Não! Pare com isso! Hoje não é quarta-feira e aqui não é o
seu apartamento!
- Dias e lugares podem
ser apenas detalhes. – Foi o que
Claude disse, inclinando a cabeça até o
seu ouvido.
- Pare, não é justo brincar assim comigo... – Murmurou com os
lábios dele em seu pescoço.
- Não estou brincando, chèrie!
- Mas... Não, Claude! Pare por favor, aqui não... Não é o
momento.
- Por que não? Somos nós que fazemos os momentos em nossas
vidas...
E quando Rosa se deu conta estavam no sofá e ele abria
os botões de sua
blusa.
- Você não entende... – Conseguiu murmurar, lutando contra o próprio corpo e a vontade de se entregar.
- O que é que eu não entendo? – Perguntou Claude puxando a
blusa dela para fora da calça,
procurando os últimos botões.
- O depois. – Afirmou agarrando-se ao que
restava de suas
forças, olhando-o profundamente.
E segurando as mãos dele o
impediu de prosseguir.
- O que esses momentos fazem da nossa vida depois? –
Concluiu ela com uma pergunta.
- Se esse é o problema pense só no agora... - Respondeu ele.
E vencendo facilmente a
força que ela exercia contra suas
mãos roçou seus lábios onde a
lingerie não a cobria.
Mas Rosa deslizou o
corpo para fora do sofá. Com a respiração alterada e o corpo trêmulo afastou-se alguns passos. Um
clarão anunciou a chegada da chuva e depois de mais um trovão, as luzes se apagaram.
- Não! – Exclamou firme, enfrentando o olhar zangado de
Claude.
E no momento seguinte ele a segurava pelos braços. Tenso,
beirando a ira.
- É claro que não! – Disse ele sacudindo-a - Como pude ser
tão idiota? Estamos na casa
do seu amante, do pai de sua
filha, você jamais o trairia aqui!
- De onde tirou essa
ideia fixa de que John é meu amante e
pai de Alex?
- Até quando vai
negar, Rosa? – Perguntou aumentado a
pressão nos braços dela.
- Você é realmente um idiota! - Disse ela livrando-se das mãos dele em seus braços. - Sabe o que é engraçado? – Perguntou
deixando as lágrimas escorrerem pelo
rosto – Não é a força com que
aperta meus braços que mais
me machuca!
E foi se afastando até a porta. Precisava sair
dali antes que a tristeza a
sufocasse. Girou a maçaneta e sem abrir completamente a porta fez um movimento
lateral com a cabeça, o suficiente para
que sua voz
fosse ouvida por ele.
- Eu espero que esteja muito feliz com esse momento que fez
em nossas vidas!
E saiu rápida em direção ao
elevador. Escutou a voz de Claude chamando-a mas não
parou.
Apertou o botão várias
vezes até perceber que não havia energia elétrica. Correu até a porta da
escadaria e desceu os degraus para
alcançar o térreo, abotoando a blusa.
Claude levou as mãos à cabeça e enterrou os dedos entre seus
cabelos, descendo-a até alcançar a nuca, respirando fundo. Pressionou o local antes de
soltar a cabeça a frente e esfregar
a testa.
- Parabéns, Claude! – Murmurou a si mesmo antes de sair atrás dela.
Trancou a porta do
apartamento guardando a chave no bolso. As luzes do corredor piscaram e permaneceram acesas. Viu
a porta de acesso a escadaria aberta, mas o elevador chegava ao andar, parando. Desceu por ele e quando alcançou o
térreo viu Rosa correndo em direção à rua. Seu carro estava estacionado em
frente ao prédio, mas tinha certeza que
ela tentaria um táxi.
Porém, era domingo a
tarde e chovia, pensou seguindo-a o
mais rápido que pode.
- Rosa! – Gritou ele correndo pela rua até
segura-la pelo braço.
- Quer me soltar,
por favor?
– Rosa, o que
pensa que está fazendo?
- Indo embora. -
Respondeu ela tentando escapar.
- Correndo pela rua, debaixo dessa chuva toda? - Provoca ele, arrastando-a para debaixo de uma marquise.
- Como se isso fizesse
alguma diferença para você. – Afirmou ela espirrando várias vezes.
– Como se não
fosse apenas mais um momento
qualquer. – Falou tremendo de
frio, a cabeça latejando. -
- Venha, vamos para o carro. – Disse ele apertando-a contra
si. Mas Rosa não acompanhou seu passo e ele teve que parar.
- Eu daria qualquer
coisa para voltar aos nossos momentos, Claude. Sabe, quando tudo começa a ir mal meu único desejo é
voltar a te abraçar forte. - Resmungou ela, abrigando-se nos
braços dele.
- Você está ensopada. Ensopada e delirando. – Falou tentando
justificar a fala de Rosa.
Ignorando ou não entendendo o que ele falara, Rosa continuou:
- Lembra quando um olhar nos fazia sorrir? Quando o tempo
passava sem que percebêssemos e nada mais importava?
Claude alisou os
cabelos molhados dela e roçou
levemente seus lábios na testa de Rosa. Então
pegou-a nos braços e atravessou a rua
de volta. Acomodou-a no carro e
entrou também.
Rosa suspirou. Sabia que ela esperava uma resposta.
- Eu só queria ficar com você. Deste momento para sempre... – Murmurou notando em seguida que ele estava
com os olhos fechados.
Deixou assim. Talvez
fosse melhor ela não o ter escutado. Engatou o
carro e saiu.
A chuva, ainda que menos intensa, parecia não querer dar
trégua.
Enquanto o carro se
afastava, de dentro da guarita o porteiro sorria. Finais
felizes não aconteciam só em
filmes, pensava ele, guardando o
celular.
PSV
Rosa tentou mais uma vez acomodar a cabeça
sobre o travesseiro. De nada adiantou virar seu
corpo lateralmente. O nariz
continuava entupido dificultando sua respiração. Elevou o corpo e encostou
na cabeceira da cama. Ajeitou
o travesseiro entre ela e suas costas e sentiu uma ligeira melhora.
Tentou lembrar as palavras ditas por Claude, mas tudo que sua
mente conseguia era recordar a expressão de Dadi ao vê-la
encharcada.
Dadi a obrigou a tomar
um banho quente e colocar
uma roupa seca. E fez o mesmo com Claude. Ele até fizera uma graça
oferecendo uma de suas cuecas, o que provocara uma crise de risos em Alex.
Sorriu ao lembrar a cena. Um chá quente e um pedaço de bolo
de chocolate, “feito pela filha”, também
entraram no roteiro.
E foi aí que
aproveitou e veio para casa. Enquanto Claude foi atender uma ligação
de sua irmã. Dessa vez estava mesmo fugindo.
Por que não se recordava do que tinha
falado, antes de entrar no carro
dele? E
por que, mais uma vez não contara
sobre Alex? Suspirou, tentando não se
culpar.
Seus olhos pesaram e
ela piscou lentamente. O antialérgico e
o antitérmico a arrastavam para o
mundo dos sonhos. E
foi nele que contou a Claude
sobre Alexandra
PSV
Claude trocou o
lápis, acentuou as sombras do esboço e imprimiu um pouco mais
de volume aos lábios. Corrigiu o
brilho do olhar e melhorou o traçados das mexas do cabelo que escapavam da presilha, no
alto da
cabeça.
Esfumou abaixo do queixo, dando profundidade ao pescoço e
realçou o contorno do vestido tomara que
caia. Voltou o lápis para o estojo e deslizou
a ponta do dedo pela face do
desenho.
- Amores de verão sempre
terminam... – Murmurou baixinho - Mas o
nosso não foi de verão, Rosa. O nosso foi daquela estação que incendeia
a alma, aquece o coração e acalma a mente. Foi esse amor que você me deu,
hã? E era o que eu queria para sempre...
Abaixou a cabeça e colou seu
rosto ao desenho, como se o abraçasse e fechou os olhos.
- Claude – Disse Dadi tocando-o os ombros - Vai ficar dolorido se continuar
a dormi aqui... Claude?!
Ele abriu os olhos e levantou a cabeça, descobrindo o retrato de Rosa.
- Uau! Parabéns! – Exclamou Dadi, vendo-o. – Por que não
usa esse talento todo para se
acertar com ela? E não me dê uma
resposta malcriada, porque pelo pouco que os
vi juntos, é óbvio que se amam.
- Mas eu estraguei tudo, Dadi. Arruinei qualquer chance que tinha...
- Eu não sei
exatamente o que fez para pensar
assim, mas seja lá o que tenha feito, se fez
da maneira errada, conserte. Você sempre foi
bom nisso.
- Ela não vai me
perdoar...
- Vai sim.
- Eu queria ter a sua
certeza, Dadi.
- Mon Dieu, rapaz!
Onde está a confiança no amor que você
sente por ela? Seja honesto consigo
mesmo: o quanto a ama?
- Mais que o suficiente para que meu coração pare por um instante
quando a vejo, até o ponto de chegar a
sentir que já não existo e que não importa o que aconteça estar com ela já
seria o bastante.
- Pois não desista. O amor
faz milagres.
- Você acredita que nosso amor é capaz de fazer milagres?
- Eu acredito. Mas é
você que tem que acreditar
para ele acontecer, d’àccord?
PSV
Continua em alguns dias...


0 comentários:
Postar um comentário