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quarta-feira, 25 de maio de 2016

PSV/Capítulo 36

PSV


Rosa entrou naquele  cômodo da galeria como alguém que entra no passado. Há quanto tempo não entrava ali?
Tentou abrir a porta por inteiro, mas  alguma  coisa impedia.  Empurrou com um pouco mais de força e tudo que conseguiu foi um barulho surdo de algo caindo.
Soltou uma exclamação mal criada e ouviu a voz de Alex recriminando-a:
- Hã! – Exclamou  a menina colocando as mãos sobre a boca, parecendo assustada - Esqueceu que não pode  “fala” palavra feia, mamãe?
Rosa virou-se para a garota e colocou suas mãos na cabeça, com ar de  culpada.
- Oh! Tem toda razão, filha! Obrigada por me corrigir. Nós adultos, esquecemos disso algumas  vezes. É melhor  você esperar aqui fora até eu acender  a luz, ok?
- Tá bom, mamãe!
 Rosa esgueirou-se entra algumas  caixas empilhadas rentes a parede, que a impediam de  tocar o interruptor. Com dificuldade conseguiu enfiar a mão e encontra-lo.
- Ehhhhhhh! -  Exclamou Alex batendo palmas e entrando.
Rosa caminhou até a janela abrindo-a.  A luz  do sol invadiu o quarto, e ao mesmo tempo que ajudou a clareá-lo ainda mais,  mostrou também o nível de pó acumulado ali.
- Olha mamãe!  Meus brinquedinhos  de quando era pequena!
Rosa sorriu. Crianças e  suas  lógicas. “De quando era pequena”. Como se fosse muito grande agora pensou, olhando para onde  estava a filha.
Alex havia se enfiado atrás  da porta e tirava alguns itens da caixa semiaberta. A mesma que caíra, quando abrira a porta. Não eram exatamente brinquedos. Eram as sobras de  convites, enfeites e lembrancinhas do primeiro aniversário de Alex.
- Alex, acho melhor  você  não ficar aqui comigo. Papéis  velhos e essa poeira  toda não vão  te  fazer bem, hum? – Argumentou vendo-a sentar  no chão.
- Ah, mamãe!
- Você  pode levar essa caixa ao ateliê e brincar por lá, que tal?
- Ah, mas eu  vou ter que  ficar  sozinha lá! O tio Sérgio não vem hoje e a tia Janete  vai ficar lá embaixo!
- Bonjour! Onde é que  você vai ter que  ficar  sozinha, hã? – Questionou Claude  encostando  no batente da porta enquanto lançava  um olhar  por  todo o quarto, até concentra-lo   nas  duas. 
- Claude! -  Bradou Alex, sorrindo feliz. – A mamãe vai limpar aqui e eu não posso ficar  com ela... – Completou  entristecida.
- Não é que  você não possa ficar Alexandra.  Eu só não  acho prudente; você passou por uma  cirurgia e está tão bem! Não é melhor  continuar  sem aquelas  crises horríveis?
- Sua mãe tem razão, pequena. – Adiantou-se Claude. -  É melhor  ficar longe da poeira, d’àccord?
- Tá  bom, eu fico lá  sozinha! – Resmungou fazendo  bico.
- E se eu  ficasse  com  você?
- Eba! – Exclamou Alex sem esperar  qualquer  consentimento  de Rosa. –  Você  me ajuda a levar essa caixa?
- Ajudo. Se sua  mãe  permitir.
- Ah, ela  deixa,  você deixa, né mamãe?
- Ok, garota, eu deixo. – Consentiu Rosa, tocando-a na ponta  do nariz.  – Se ela  ficar  manhosa, traga-a de volta. – Falou olhando sério para Claude. – E obrigada...
- Não precisa agradecer. Na verdade, eu  vim para ajuda-la com isso. – E apontou para as caixas. - Mas acho que ajudo mais cuidando de Alexandra.  – Respondeu abaixando-se para pegar a caixa que ela tentava arrastar.
Segurou a caixa com uma das mãos, embaixo do braço.
- Vamos? – Perguntou oferecendo a outra mão para Alex.
E Rosa os observou andarem pelo corredor até entrarem no salão que  servia de estúdio. Ah, se eles  soubessem um do outro, curtiriam muito mais o momento!
Não posso adiar mais.  Tenho que  contar aos  dois ou  acabarão por me odiar. Assim que  trouxermos  essas peças para cá vou dizer a ele sobre Alexandra. E se ele duvidar mostrarei  a marquinha dela. É praticamente um exame de DNA.


PSV



Janete esperou a  máquina  efetuar a transação de venda e devolveu o cartão, entregando a primeira  via do recibo para o cliente.
Acomodou a peça, uma estatueta de trinta centímetros em uma embalagem própria, certificando-se que a mesma não sofresse nenhum dano e   colocou numa  eco sacola com  o logotipo da galeria, agradecendo a preferência.
Checou e fechou a contabilidade do dia.  Conferiu a hora e assustou-se: quase trezes  horas.  E nem Rosa ou  Claude  haviam descido.
 Aproximou-se  da escada, indecisa se  devia mesmo subir. Mas  não podia ir embora  sem avisar.  Então subiu alguns degraus e gritou:
- Rosa, precisa de ajuda?
- Por incrível que pareça, não.  Mas obrigada assim mesmo, Jane.
- Tem certeza?  Já são quase  treze horas...
- Meu  Deus,  nem senti o tempo passar! - Explica-se  Rosa  aparecendo do lado de  fora  do quarto. -  Você está...
- Mamãe, eu tô com fome... – Queixa-se Alex vinda do ateliê.
- E eu as  estou convidando para  almoçarem comigo. –A voz de Claude, chega antes dele. –  No Gigetto, aqui pertinho.
- Bem, e eu preciso ir. Bom almoço para vocês. – Diz Janete.
-  O convite é extensivo a você, Janete! Não é Claude?
-  D’àccord.
- Eu adoraria ir, mas tenho um compromisso inadiável. Fica para uma próxima oportunidade. Até segunda e divirtam-se!
Depois de ouvir as despedidas, Janete desce  a escada escutando Alex pedir se podia  comer aquela  comida daquele dia e se poderia escrever na parede de novo e que tinha convidado Claude para seu aniversário.
- ... E não é engraçado mamãe?  O Claude  faz  aniversário  no mesmo dia que eu! A gente podia  fazer a festinha junto...
Foi a última coisa que escutou Alex comentar, antes de fechar  a porta  e atravessar a rua em direção ao seu carro, pensando em como era azarada.
Naquele outro  dia  não  fora para  não bancar  a vela. E hoje, que gostaria de bancar, não podia ir.
- É Janete, nem tudo é   do jeito que  você quer! – Murmurou a  si mesma, dando a partida  no carro.



PSV



Rosa abriu o menu de sobremesas. Estava  incerta se devia  pedir mesmo. Tortas, sorvetes, mousses... Depois da massa no prato principal? Isso a forçaria a andar mais  tempo que o habitual em sua ergométrica.
Levantou os olhos do papel e espiou Claude. Ele apontava alguma  coisa no menu de Alex.  Insistira que ela deveria escolher  sozinha  sua  sobremesa.
Suspirou sem querer e atraiu a atenção para  si. Disfarçou com uma tossidinha e  voltou a olhar as imagens a sua frente.   Durante  todo o almoço havia agradecido a Deus por  não serem atendidos pela  dona  do restaurante, Cleide  e seus olhares indiscretos para seus  movimentos. E mais indiscretos ainda  para os de Claude.
Oras, por que não consigo  deixar de sentir ciúmes por isso? Além do mais, seja ponderada. É você quem vai para a cama com ele, não ela.
Mas que  droga! Você acaba com meu autocontrole, Claude!
- Então, já escolheu  sua  sobremesa? Rosa? O garçon está esperando.
Desculpou-se e pediu a torta de limão.  Foi quando seu celular  tocou.
- É a Joana. -  Disse precisando se afastar da mesa para escuta-la melhor.
Quando voltou, parecia preocupada.
- Algum problema?
- John e Liz chegam  quarta pela manhã e Joana volta na segunda, para limpar o apartamento. Precisamos  tirar as peças amanhã.
- De minha parte não será nenhum transtorno.
- Pode ser depois do almoço? Assim eu termino de limpar o quarto e teremos  tempo de avisar o Sérgio. Alguns de seus alunos do último período fazem esse serviço de transporte em Arte.
- Acha necessário?
- Sim. Algumas esculturas  são mais pesadas do que parecem, iremos precisar de ajuda. Além do mais, eles já  tem todo o equipamento necessário.
- D’àccord.  Treze  horas é  bom para  você?
- Ótimo. E você, Alex, vai ficar quietinha, pintando seus desenhos na mesa da Janete, ok?
Alexandra engoliu o sorvete e abriu a boca para responder, mas Claude adiantou-se.
- Eu tenho uma ideia melhor. – Disse ele – Dadi pode  ficar  com ela,  se você aceitar, claro.
- Eu não quero incomoda-la. E vou estar aqui  pela manhã, Claude.
Alexandra equilibrou uma porção de sorvete  na colher  e a levou até a boca, enquanto olhava ansiosa de Rosa para Claude
- Mais um bom motivo para  deixa-la  com Dadi sem  considerar  isso um incomodo. Poderia deixa-la em meu apartamento e viríamos juntos. Em dois, a limpeza  será  mais rápida. O que acha?
Rosa estava indecisa.  Toda essa preocupação e proteção de Claude... O que ele pediria em troca?
- Alex, você ficaria  com  a Dadi até a  sua mamãe  voltar?
- Humhum... – Respondeu terminado seu  sorvete. – Vai ser legal  conhecer a sua  casa.
- Então estamos  resolvidos. – Afirmou Claude, chamando o garçon e pedido a conta. – Você não vai  ficar  aborrecida por isso, vai? – Perguntou em seguida, notando o olhar incomodado de Rosa.
- Desculpe se pareci aborrecida. Apenas  não estou acostumada que  tomem  decisões  por  mim.
- Voilà! – Exclamou Claude sorrindo - Na  próxima você decide d’àccord? 
Rosa tentou achar  uma  resposta adequada, mas tudo que  conseguiu foi  o lenço de Claude, ao espirrar inúmeras  vezes.



 PSV



Frazão checou as  recomendações junto ao Conselho Administrativo da empresa e os  dispensou, encerrando aquela reunião extraordinária em pleno sábado. Com exceção de Gurgel Beaumont, todos  se  despediram.
- Gurgel, você  sabe  da  confiança  que  deposito em você e da  responsabilidade que ficará em suas  mãos a partir de  agora, não sabe?
- Sei sim, Frazão. E sei também que  será uma responsabilidade e tanto gerenciar esse  império sem Claude  e agora sem  você por perto.  Espero continuar  merecendo essa  confiança.
- Você  vai  ter autonomia para solucionar  quaisquer  problemas que  possam  surgir. Não  faça essa  cara,  você está preparado, eu mesmo  fiz isso, não  foi? – Brincou Frazão quebrando a seriedade do assunto
- Chega de dar  voltas... Fale logo o que quer que eu não  faça. – Perguntou Gurgel, curioso.
- Não assine nada que  venha de Louise. Em hipótese alguma.
- Imagina que ela pode querer dar  um golpe?
- Eu não imagino, tenho certeza. Louise é paciente em seus... Digamos caprichos.   Minha presença  nas empresas  sempre a incomodou, porque não faço pactos, nem acordos,  muito menos “invisto” dinheiro na política.
- Até  onde sei, tudo que ela  consegue  tirar daqui é a sua  parte como acionista,  correspondente aos lucros de cada  trimestre.
- Exato. E assim deve  continuar. Não ceda às exigências, ou pedidos que ela  vier a fazer.
- Quanto tempo pretende  ficar  no Brasil?
- Bem, quero descansar os meus  trinta  dias de férias, adiadas a pelo menos  cinco anos.  O prazo legal sempre é de noventa dias, prorrogáveis por mais noventa. Mas espero estar  de  volta  antes  disso.
- Eu espero que  volte mesmo. Não pretendo assumir o seu cargo, mon ami.
- Eu também não pretendia Gurgel, no entanto la vie est une boîte de surprises.
- D’àccord. – Concordou Gurgel lembrando-se de quando Claude entro para a  política, assumindo funções  no partido e o cargo de conselheiro da prefeitura. – Por que não saímos daqui para um bonne franquette antes da  sua partida?
- Desde que seja um lugar discreto, hã? – Respondeu Frazão, levantando-se.
- Mas que isso, Frazão? – Disse Gurgel acompanhando-o -  Eu  sou a discrição em pessoa!  Vamos apenas tomar  uns drinques e degustar petiscos. Agora, se aparecer alguém interessante...




PSV


Rosa saiu  do quarto equilibrando  o jogo de porcelana. Abaixou-se lentamente e o colocou sobre a mesinha.
Então respirou aliviada e espirrou em seguida.
-Saúde! – Falou Sérgio terminando de embalar o quadro. - Esse  Anita Malfatti não ia para  sua casa? – Perguntou olhando para Rosa.
- Ia sim Sérgio. Mas  mudei de ideia. Ele será muito mais  valioso para a galeria se  for  vendido. Ficarei  apenas com as porcelanas e eu mesmo as levo. Obrigada por desperdiçar  seu domingo  com isso.
- É o melhor  dia para  se fazer esse  tipo de transferência: não há trânsito nem  curiosos. Você tem  como  voltar para casa?
- Claude. – Falou esboçado um sorriso – Alex está na casa dele, com Dadi.
- Ok. Tem certeza que não  quer ajuda para  terminar de embalar isso?
- Tenho sim, Sérgio. Você e seus alunos  já ajudaram bastante. Obrigada. – E  tornou a espirrar várias  vezes.
- É melhor  tomar um antialérgico. – Observou Sérgio.
- Farei isso assim que  chegar  em casa.
Sérgio fez um movimento para sair e recuou. Separou os lábios como alguém que  vai falar algo e desiste.
-  Pergunte logo o que  quer saber, vamos! – Falou Rosa envolvendo  uma  das  xícaras em papel de seda.
- É que eu não quero parecer intrometido. – Defendeu-se  Sérgio. Mas dane-se. Eu ia  dizer que vocês parecem ter se ajustado finalmente. E isso  foi muito bom. Perdemos o medo de respirar  na galeria.
- Não era tanto assim Sérgio! – Exclamou Rosa em sua defensiva.
Então Claude entra.
- O tempo mudou completamente, hã? Parece que  vem chuva por ai...
- Nesse caso, é melhor me apressar. Até amanhã para  vocês. – Diz Sérgio deixando-os  no apartamento.
- Eu liguei para Dadi. – Diz  Claude abaixando-se e embalando uma das  xícaras -  Alexandra acabou de acordar e está ajudando Dadi  com  o café  da tarde.
Agora, Rosa.  Conte a ele sobre Alex! – Falou sua  consciência
- Ela acordou muito cedo hoje... – Comentou Rosa, esticando o braço para  pegar  a última  das quatro xícaras.  – Eu preciso   contar algo sobre...
Porém, Claude  fazia o mesmo movimento e  suas  mãos se  tocaram involuntariamente.
- Desculpa... – Falaram ao mesmo tempo e seguiu-se um silêncio quase  constrangedor.
Rosa deixou que a xícara ficasse na mão de Claude. Pegou as  outras, já embaladas e  levantando-se  as  colocou na caixa  de transporte. Por que não era  tão fácil quanto em seus pensamentos?
Estava de  costas e  estremeceu quando ele estendeu o braço,  acondicionando a última xícara. Sem perceber deu um pequeno passo para  a lateral.






- Por que  está  sempre  fugindo de mim, Rosa?
- Eu nunca  fujo de você! – Respondeu antes de ir até a janela e olhar o céu, cada  vez mais acinzentado.
- Não? Eu já perdi a conta  de  quantas  vezes você se afastou, evitando que nos  toquemos.
Virou-se pronta para responder que não tinham porquê se tocarem, e ficou presa nos braços dele.
- Quer me  soltar, por favor?
- Não, não quero. – Escutou-o responder com os lábios quase  colados aos seus.
Aceitou o toque terno e  caloroso. Cedeu quando ele a forçou a separar os lábios e entregou-se ao beijo, correspondendo intensamente. E sentiu  as mãos dele em suas  costas. Elas apertavam-na contra o corpo dele.   Foi nesse momento que tentou empurra-lo.
- Não! Pare com isso! Hoje não é quarta-feira e aqui não é o seu apartamento!
- Dias e lugares  podem ser apenas  detalhes. – Foi o que Claude  disse, inclinando a cabeça até o seu ouvido.
- Pare, não é justo brincar assim comigo... – Murmurou com os lábios  dele  em seu pescoço.
- Não estou brincando, chèrie!
- Mas... Não, Claude! Pare por favor, aqui não... Não é o momento.
- Por que não? Somos nós que fazemos os momentos em nossas vidas...
E quando Rosa se deu conta estavam no sofá e ele abria os  botões  de sua  blusa.
- Você não entende... – Conseguiu murmurar, lutando  contra o próprio corpo e a  vontade de se entregar.
- O que é que eu não entendo? – Perguntou Claude puxando a blusa dela para fora  da  calça,  procurando os últimos  botões.
-  O depois. – Afirmou agarrando-se  ao que  restava  de  suas  forças, olhando-o profundamente.
E segurando as mãos dele o  impediu de prosseguir.
-  O que esses  momentos fazem da nossa vida depois? – Concluiu ela com uma  pergunta.
- Se esse é o problema pense só no agora... -  Respondeu ele.
E  vencendo  facilmente a  força que ela exercia  contra  suas  mãos roçou seus  lábios onde a lingerie não a cobria.
Mas Rosa deslizou o  corpo para  fora  do sofá. Com a respiração alterada e o  corpo trêmulo afastou-se alguns passos. Um clarão  anunciou a chegada  da chuva e depois de mais um trovão,  as luzes se apagaram.
- Não! – Exclamou firme, enfrentando o olhar zangado de Claude.
E no momento seguinte ele a segurava pelos braços. Tenso, beirando a ira.
- É claro que não! – Disse ele  sacudindo-a - Como pude  ser  tão  idiota? Estamos  na casa  do seu amante, do pai de sua  filha, você jamais o  trairia aqui!
-  De onde tirou essa ideia fixa de que John é  meu amante e pai de Alex?
- Até quando  vai negar, Rosa? – Perguntou aumentado  a pressão nos  braços dela.
- Você é realmente um idiota! -  Disse ela livrando-se das  mãos dele em seus  braços. - Sabe o que é engraçado? – Perguntou deixando as lágrimas escorrerem pelo  rosto – Não é a  força com que aperta meus  braços   que mais me  machuca!
E foi se afastando até a porta. Precisava  sair  dali antes que  a tristeza a sufocasse. Girou a maçaneta e sem  abrir  completamente a porta fez um movimento lateral com a cabeça, o suficiente para  que  sua  voz  fosse  ouvida  por ele.
- Eu espero que esteja muito feliz com esse momento que fez em nossas vidas!
E saiu rápida em direção ao  elevador. Escutou a voz de Claude chamando-a  mas  não parou.
Apertou o  botão  várias  vezes até perceber que não havia energia elétrica. Correu até a porta da escadaria e desceu os  degraus para alcançar o térreo, abotoando a  blusa.
Claude levou as mãos à cabeça e enterrou os dedos entre seus cabelos, descendo-a até alcançar a nuca, respirando fundo.  Pressionou o local antes  de  soltar a cabeça a frente e esfregar  a  testa.
- Parabéns, Claude! – Murmurou a si       mesmo antes de sair atrás dela.
Trancou  a porta do apartamento guardando a chave no bolso. As luzes do  corredor piscaram e permaneceram acesas. Viu a porta de acesso a escadaria aberta, mas o elevador chegava ao andar,  parando. Desceu por ele e quando alcançou o térreo viu Rosa correndo em direção à rua. Seu carro estava estacionado em frente ao prédio,  mas tinha certeza que ela tentaria  um táxi.
Porém,  era domingo a tarde e  chovia, pensou seguindo-a o mais  rápido que  pode.
- Rosa! – Gritou ele correndo pela  rua até  segura-la pelo braço.
- Quer me  soltar, por  favor?
 – Rosa, o que pensa  que está  fazendo?
- Indo embora. -   Respondeu ela tentando escapar.
- Correndo pela rua, debaixo dessa chuva  toda?  - Provoca ele, arrastando-a para  debaixo de uma marquise.
- Como se  isso fizesse alguma  diferença para  você. – Afirmou ela espirrando várias  vezes.  –  Como se  não  fosse apenas mais um momento  qualquer. – Falou tremendo de  frio, a cabeça latejando. - 
- Venha, vamos para o carro. – Disse ele apertando-a  contra  si. Mas  Rosa  não acompanhou seu passo e ele teve que  parar.
- Eu  daria qualquer coisa para voltar aos nossos momentos, Claude. Sabe,  quando tudo começa a ir mal meu único desejo é voltar a  te abraçar forte. -  Resmungou ela, abrigando-se  nos  braços  dele.
- Você está ensopada. Ensopada e delirando. – Falou tentando justificar  a fala de Rosa.
Ignorando ou não entendendo o que ele falara, Rosa  continuou:
- Lembra quando um olhar nos fazia sorrir? Quando o tempo passava sem que percebêssemos e nada mais importava?
Claude alisou os  cabelos  molhados dela e roçou levemente seus lábios na testa de Rosa. Então  pegou-a nos braços e atravessou a rua  de  volta. Acomodou-a no carro e entrou também.




Rosa suspirou. Sabia que ela esperava uma resposta.

- Eu só queria ficar com você.  Deste momento para  sempre... – Murmurou   notando em seguida que ele  estava  com os olhos  fechados.
Deixou assim. Talvez  fosse melhor ela não o ter escutado. Engatou  o  carro e  saiu.
A chuva, ainda que menos intensa, parecia não  querer dar  trégua.
Enquanto o carro  se afastava, de dentro da  guarita  o porteiro sorria.  Finais  felizes não aconteciam só em  filmes, pensava ele, guardando  o celular.

PSV


Rosa tentou mais uma vez acomodar  a cabeça  sobre o travesseiro. De nada adiantou virar  seu  corpo lateralmente. O nariz  continuava entupido dificultando sua respiração. Elevou o corpo e  encostou  na cabeceira  da cama. Ajeitou o  travesseiro entre ela e suas   costas e sentiu uma ligeira  melhora.
Tentou lembrar as palavras ditas por Claude, mas tudo que sua mente  conseguia era  recordar a expressão de Dadi ao vê-la encharcada.
Dadi a obrigou a tomar  um banho quente e   colocar uma  roupa seca. E fez o mesmo  com Claude. Ele até fizera uma graça oferecendo uma de suas cuecas, o que provocara uma crise de risos em Alex.
Sorriu ao lembrar a cena. Um chá quente e um pedaço de bolo de chocolate, “feito  pela filha”, também entraram  no roteiro.
E foi  aí que aproveitou e  veio para  casa. Enquanto Claude foi atender uma ligação de  sua irmã. Dessa vez estava mesmo  fugindo.
Por que não se recordava do que  tinha  falado, antes de entrar  no carro dele?  E  por que, mais uma  vez não  contara  sobre Alex? Suspirou, tentando não se  culpar.
Seus olhos  pesaram e ela  piscou lentamente. O antialérgico e o antitérmico a arrastavam para o  mundo  dos  sonhos. E  foi nele que  contou a Claude sobre Alexandra



PSV





Claude  trocou o lápis,  acentuou as sombras  do esboço e imprimiu um pouco  mais  de volume  aos lábios.  Corrigiu o  brilho do olhar e melhorou o traçados das mexas  do cabelo que escapavam da presilha, no alto  da  cabeça.
Esfumou abaixo do queixo, dando profundidade ao pescoço e realçou o contorno do vestido tomara que  caia.  Voltou o  lápis para o estojo e  deslizou  a ponta  do dedo pela face do desenho.
-  Amores de verão sempre terminam... – Murmurou baixinho -   Mas o nosso não  foi de verão, Rosa. O nosso foi daquela estação que incendeia a alma,  aquece o coração e  acalma a mente. Foi esse amor que você me deu, hã?  E era o que eu queria para sempre...
Abaixou a cabeça e colou seu  rosto ao desenho, como se o abraçasse e fechou os olhos.
- Claude – Disse Dadi tocando-o os ombros - Vai  ficar dolorido se  continuar  a dormi  aqui... Claude?!
Ele abriu os olhos e levantou a cabeça,  descobrindo o retrato de Rosa.
- Uau! Parabéns! – Exclamou Dadi, vendo-o. – Por que não usa  esse talento todo para se acertar  com ela? E não me dê uma resposta malcriada, porque pelo pouco que os  vi juntos, é óbvio que se amam.
- Mas eu estraguei tudo, Dadi.  Arruinei qualquer chance que tinha...
- Eu não sei  exatamente o que  fez para  pensar  assim, mas seja lá o que tenha feito,  se fez da maneira errada, conserte. Você  sempre  foi  bom nisso.
- Ela não  vai me perdoar...
- Vai sim.
- Eu queria  ter a  sua  certeza, Dadi.
- Mon Dieu,  rapaz! Onde está a confiança no amor que  você sente  por ela? Seja honesto consigo mesmo: o quanto a ama?
- Mais que o suficiente  para que meu coração pare por um instante quando a vejo,  até o ponto de chegar a sentir que já não existo e que não importa o que aconteça estar com ela já seria o bastante.
- Pois não desista. O amor  faz  milagres.
- Você acredita que nosso amor é capaz de fazer milagres?
- Eu acredito. Mas é  você  que tem que acreditar para  ele acontecer, d’àccord?



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                          Continua em alguns  dias...

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