PSV
Capítulo 56
- ...Então João e Maria contaram como
derrotaram a bruxa má e mostraram todas a joias que traziam nos
bolsos. Nunca mais
passaram fome e foram felizes
para sempre. – leu Claude fechando o
livro.
Suspirou, aliviado. Ela
dormira mais fácil do que esperava.
- Boa noite, filha! –
murmurou beijando-a. E antes de
deixar o quarto ajeitou a coberta sobre Alex.
Ficou um instante parado na porta,
observando-a e depois voltou a
sala.
- Aí está ele! - exclamou
Liz levantando-se – Joana, chega
de trocar receitas
com a Dadi, nós já vamos! – fala
virando em direção à sala
de jantar - Só estávamos esperando-o para nos despedir. – explica voltando-se para Claude.
- Mas ainda é cedo! - argumentou ele. – Um último vinho?
- Não, não, Claude!
– intervem Erci - Rosa já teve
sua cota de pizzas
e vinho por hoje - diz Erci sorrindo – E nós também. Está realmente na hora
de irmos e deixa-los descansar.
- Mas... – replica Rosa.
- Erci está certa,
darling – continua John – Foram dias
de tensão e agora precisam se recuperar.
- Só viemos porque era desejo de Alex e ela merecia esse
mimo! – diz Silvia.
- Mas ainda não acabou, Sérgio e eu vamos fazer
uma festa surpresa para ela. – afirma Nara tomando a iniciativa de caminhar
para a porta, e é
seguida por todos.
- Bem, nós só podemos ser gratos a todos
vocês pelo apoio que nos deram todo esse tempo, não é chérie? – diz
Claude e por estar mais próximo da
porta a abre.
Menos de dez
minuitos depois a campainha toca. Frazão e Janete chegavam da França com mais de
vinte e quatro horas de atraso.
Depois dos cumprimentos...
- Após o ultimo
atentado em Londres, a Interpol interceptou uma mensagem atribuída ao Estado Islâmico e a considerou uma ameaça. Aeroportos e estações de trem
foram fechados Tivemos que descer
do avião e esperar pela inspeção e aparentemente nada
foi encontrado.
- Ou anunciado. – diz Janete. – Isso causaria pânico e desespero entre a população, entre os passageiros e uma considerável perda de lucos
para as grandes empresas de transporte e uma
crise política à porta das
eleições.
- D’accord, você tem razão Janete.
- Mas e minha afilhada, como ela está?
- Segundo o médico perfeita! Só devemos ficar
atentos para qualquer mudança de atitude ou emocional... - responde Rosa – Mas, não estão com fome?
Tivemos pizza no jantar. Se tivessem chegado um pouco mais cedo pegariam
todos aqui...
- Não queremos
dar trabalho a vocês ou a Dadi...
- Não vai ser trabalho nenhum. – diz Dadi – Eu vou aquecer as pizzas.
Enquanto comem, Frazão
e Janete ficam sabendo em detalhes
como tudo acontecera.
- Humm essas pizzas...
São do restaurante da Cleide, não são? – pergunta Janete.
- São sim. Ela fez
questão de nos presentear com elas, embora não pudessem estar aqui, ela
e Beto.
- Eu sabia! É a melhor
pizza do mundo! Muito melhor que
aqueles bichinhos encaracolados que
você me obrigou a comer! -
fala fazendo careta para Frazão -
E o Milton já está na cadeia, não é?
- Quem nos dera. Esperavamos que ele pegasse a via
expressa, mas ele abandonou o carro no meio da avenida Augusta engarrafando
ainda mais o trânsito e desapareceu no
meio da população. – explica Rosa.
- Não por muito tempo. A casa e a galeria dele estão
cercadas, ele não tem para onde ir nem
para ondo voltar... Frazão, como
estão as
coisas para Louise? – pergunta
Claude mudando de assunto.
- Nada bem, mon ami. Louise foi colocada em regime “garde à vue”, ou seja, prisão preventiva. Ela será mantida à
disposição dos agentes, com direito a
assistência jurídica e deverá ser interrogada. O conteúdo das delações continua sob segredo
de Justiça e o sigilo só será derrubado
após a abertura de investigação.
- A desfiliação dela
não serviu de nada, não é?
- Foi uma tentativa de
não manchar o partido. Aparentemente deu certo. Mas novas acusações de que ela recebeu ilegalmente
informações sigilosas da Justiça sobre a evolução do processo. E por isso também
foi indiciado seu advogado, o Morris
Gilbert, que claro, alega inocência.
- Há evidências conclusivas?
- Conversas telefônicas entre Morris e alguns ministros apontam
que ele recebeu informação de conselheiros do Tribunal Supremo e as repassou a Louise,
que teria feito promessas em troca dessas informações.
- A mesma tática de antes... Isso vai liquidar a vida
política dela.
- Acredita nisso
mesmo, Claude? Louise tem cartas na manga. Ela concordou fácil demais
em deixar o partido, está se submetendo
a esse processo sem atacar... Eu creio
que ela retorne à política francesa mais cedo do que pensamos.
PSV
Milton atravessou a
rua depois de ficar
mais de duas horas na espreita. Não que estivesse cem por
cento seguro, mas não podia mais esperar.
Diferente do prédio do seu apartamento, ali não havia
sinal de monitoramento, as
câmeras de segurança não estavam mais ali, o que não fazia sentido...
- Ou talvez faça! –
murmurou ao ver e ler
um novo layout estampado na porta. – O que essa vaca fez na minha ausência... – se
perguntou tentando abrir a porta, sem
sucesso. – Além de mudar a
fachada e a fechadura? – exclamou irritado.
- Até parece que isso vai me impedir de entrar, querida... – resmungou sorrindo e jogando a chave.
Então pegou o cartão do bolso do agasalho e deslizou-o através de uma pequena
fenda do lado da porta, tendo o cuidado de coloca-lo em um ângulo perpendicular
à porta.
Mexeu até que o cartão ficasse lá dentro e inclinou um pouco mais para que ele tocasse a
maçaneta.
- Perfeito! - exclamou
ao senti-lo deslizar ainda mais.
Quando conseguiu encaixa-lo
totalmente na porta, empurrou-o para dentro. Demorou um pouco até ouvir um
"clique" antes que porta se abrisse, magicamente.
- É, alguns fazem defesa pessoal. Eu fiz outros
tipos de curso,
sua idiota!
Foi até sua sala
e notou que as coisas
sobre sua mesa, não estavam exatamente como
deixara.
Cartório de Registros. Abriu o envelope e não precisou
ler até
o fim para entender o que acontecia. Bastou ver sua assinatura no
documento de cessação de propriedade da galeria em favor de Raquel Lins.
- Pilantra, maldita,
vagabunda! Seu nome acaba de
engrossar a minha lista
Devolveu de qualquer maneira
o papel sobre a mesa e abriu o painel de madeira, na parede contraria a
janela.
- O segredo continua sendo a alma do negócio. – murmurou
abrindo o cofre – Isso você não vai ter! - e
tirando todo o dinheiro que tinha ali, além de alguns rolos.
- Valeu a pena
contrabandear vocês... – e colocou tudo numa mochila.
Não era um milhão de
euros, mas era o
suficiente para desaparecer por uns
tempos.
Por último abriu todas as gavetas até encontrar
o passaporte.
PSV
“Segundo a policia, em seu depoimento a ex secretaria e
agora proprietária da Eros Galeria diz estar surpresa em saber que seu ex patrão Milton Valadares
era o sequestrador da menor A.P.G., filha do
empresário francês com uma brasileira, donos da Galeria
Athena, sua concorrente. Ela
afirma que ele nunca deu margem
para suspeitas, mas que isso pode
explicar a insistência e rapidez
com que passou a Eros para sua administração oficial dias atrás.
Portanto, Milton Valadares é
agora procurado pela polícia por
dois crimes o de sequestro e
agora roubo, além de formação de quadrilha, cárcere privado e outros agravantes. Sua prisão era
considerada certa no dia de ontem, quando foi feita
uma operação tática especial,
que por
motivos externos não teve o final planejado. O delegado responsável pelo
caso acredita que a prisão é uma questão de horas. Ele resolveu divulgar o
retrato e as imagens e pede a colaboração da população. Portanto, se alguém o avistar, entre em contato
com o disk-denúncia, no 181. Seu nome será mantido no anonimato e...”
- Puxa, como eu queria que esse
monstro aparecesse na minha frente pra
denuncia-lo! O senhor não concorda? – perguntou a senhora que estava atrás de Milton, na
fila do caixa da padaria.
Milton apertou as
notas do troco que recebia e ignorou as
moedas, saindo de cabeça ainda
mais baixa e sem responder.
- Esses jovens estão
cada vez mais
sem educação! - reclamou a
senhora, fazendo o seu pagamento.
Milton esgueirou-se e
voltou ao seu esconderijo. Um prédio antigo, que outrora fora um
hotel de alto pasdrão. Abandonado, era agora um albergue de nenhuma
categoria, no centro de São Paulo.
Era muito arriscado por em prática seus
planos a luz do dia. Sairia ao
anoitecer, onde todos os gatos
são pardos...
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-...Aí, tia Janete, a Elsinha
comprou um montão de “estrelinha” e eu colei nesse desenho que eu fiz
pra Alessia.
- Um desenho muito lindo, Alex. Tenho certeza que Alessia vai
adorar.
Alex ficou olhando
para o desenho por um instante,
antes de fazer um pedido.
- Mamãe, você
guarda bem guardadinho esse
desenho? Por que vai demorar
um tempão pra Alessia ver ele, né?
- Guardo sim, vamos pensar
num lugar bem seguro pra ele...
Que tal o seu álbum de fotos?
- Yes! Aí quando a
Alessia tiver o dela, a gente pode
“guarda” lá, né? Vamos lá guardar então?
- Boa ideia, querida. Mas, vamos fazer assim, primeiro você toma banho, a Dadi já está te esperando com a banheira cheinha de água,
só pra você, hum. Que tal?
- Você deixou? Eba!!! Dadi, eu to indo! – exclama Alex correndo para
o quarto dos pais.
- Ela estava um pouco resistente a ideia de
tomar banho, parece que não tomava
todos os dias... – explica
Rosa, dirigindo-se a Janete.
- E esses desenhos,
não é pior ela ficar lembrando dos fatos?
- Bem, não há como
impedir que ela lembre. Na noite do resgate ela
demorou a dormir e quando
dormiu teve pesadelos. Claude e eu nos desdobramos para conforta-la e mostrar que estava na segurança da
nossa casa. A psicóloga
nos aconselhou a deixa-la falar
livremente para voltar a viver o seu presente...
- Por que não passar
uns dias em Paris? Com certeza seria
uma terapia e tanto para
todos vocês.
- É uma boa ideia, Jane. Vou falar com o Claude ass...
- O que vai falar
comigo, cherie? – peregunta Claude, interrompendo-a.
- Janete nos convidou
para Paris...
- Voilá! E por que não?
- Porque “ele” ainda está
solto por ai... Como foi na delegacia?
- Melhor do que
pensei. Apesar da falta de
condições mais favoráveis estão todos trabalhando com afinco. Os
dois policiais que prejudicaram a
operação pediram autorização e se ofereceram
como reforço Para eles, agora
é questão de honra captura-lo ou ajudar nisso. O batalhão em que trabalham disponibilizou
pessoal técnico. Rodrigo também está empenhado. Colocaram aeroporto e
rodoviária de sobreaviso e isso inclui
os seguranças.
- A foto dele está na lista de procurados, na TV, nas redes sociais. É claro que vão conseguir localiza-lo. – diz Frazão, que havia acompanhado Claude.
- E tem o Zequias. – completa Claude – A policia acredita que
ele possa ajudar...
Esse assunto continuou por mais de
trinta minutos entre Claude e
Frazão, enquanto Rosa e Janete acertavam
os úlinos detalhes do jantar, até que Alex retornar.
- Pronto, já tomei banho
mamãe! – fala Alex correndo até
onde Rosa estava – Eu posso
convidar a tia Janete pra brincar de
boneca comigo? – fala baixinho, puxando a mãe para
baixo
- Alex, é quase hora
do jantar...
- Ah, mamãe só um
“poquinho”...
- Humm eu ouvi alguém falar
em brincar de bonecas? –
pergunta Janete.
- Eu, eu, eu tia Janete! – exclama Alex pulando sem sair do lugar – Você pode
brincar comigo?
- Mas filha...
- Rosa, sabe
quanto tempo faz que eu não brinco de
boneca com minha afilhada?
Onde vamos brincar, querida?
- Eba!!! No meu quarto, tia Janete, vem! – falou puxando-a pela mão, sem deixar
de falar- Você acredita que o meu papai nunca tinha brincado de boneca antes de me conh...
PSV
Raquel olhou-se no espelho e gostou do que viu.
- Querida, você nunca esteve tão bem! – falou para seu reflexo, sorrindo.
Corrigiu o batom e ajeitou o cabelo antes de pegar a
bolsa e o casaco. Apesar de ser
verão São Paulo tem seus
contastes climáticos e o tempo
poderia mudar até a madrugada, quando pretendia
voltar para casa.
Um jantar a dois e
depois uma balada, era esse seu programa para a noite. Sua companhia, o atraente e distinto Raul, gerente da conta bancaria da galeria.
Nada como unir o agradável ao útil, pensava enquanto o elevador a levava
até a garagem do prédio.
Ao sair, um calafrio
percorreu-lhe o corpo. Olhou em volta,
mas não notou nada de estranho. Aquele lugar estava tão deserto como sempre estivera àquele
horário, mas nunca lhe parecera tão sombrio como neste momento.
Relache Raquel e deixe
de assistir filmes de terror, aconselhou-se dando de ombros e
caminhou para seu
carro. Seu carro... Bem,
agora ele era seu, já que era a dona
da galeria. O rosto de Milton formou-se em seu pensamento e
desejpu que ele estivesse longe do Brasil, já que não tinha sido
preso.
Balançou a cabeça, como que espantando a imagem e absorveu o
som do eco das batidfas do salto do sapato. Chegou a contar até
sete antes de entrar no carro.
Jogou displicentemente
a bolsa no banco do passageiro,
conferiu o retrovisor externo e só então
colocou a chave na ignição.
Foi ao cambiar marcha à ré e olhar pelo retrovisor interno que congelou.
- Como conseguiu entrar no carro?
- Pergunta a vadia que me roubou... - diz Milton irônico, segurando-a pelo cabelo, sem responder a
pergunta. – Quando foi que assinei papéis
sem ler? – questiona aumentando a
força sobre ela.
- Quando estava preocupado em
se safar de ser o bandido sequestrador e passar a ser o mocinho salvador, aquele que resgataria a garota e em troca receberia a
mesma quantia do resgate, posando de
herói para todos. Que pena que sua
trapaça não tenha dado tão certo como a minha, não é?
- Ohhh... – murmura ele
num trom de falsa
surpresa - Admito que você venceu
essa baby. Por outro lado, me satisfaz saber que aprendeu a fazer algo mais
produtivo e útil que aquele
seu sexo sem graça. – diz soltando-a bruscamente. - Quase gozei, querida!
- Seu nojento, cretino e cafajeste! - exclama tentanto se virar para
encara-lo.
- Hum-hum... – resmunga Milton levantando a outra mão, mostrando um revolver. – Quietinha e
virada para a frente. É pena que eu não tenha tempo de
convencê-la a me devolver a galeria – diz gentilmente, deslizando o revolver que segurava
pelo rosto dela. - Não por agora... É mais urgente que me faça
um outro favor...
- Se quer dinheiro, errou o alvo. Quase zerou o saldo bancário da galeria, ainda
estou tentando atrair novos investidores...
- Boa sorte, querida,
mas não, não é dinheiro que quero nesse
momento. Preciso de um helicóptero
para sair daqui e você vai
solicitar esse serviço, agora. Vai ligar do seu
celular, agendar um voo de emergência e me levar até o heliporto.
- Só isso?
- Não. Talvez eu queira
companhia durante o voo...
- Você está louco!
Não vou fugir com
você!
- Quer um incentivo, não é? – diz cinicamente. - Vai fazer o
que for preciso para que eu saia ileso do pais. – afirma ele, apertando a boca
do cano da arma na face dela.
Sem alternativa melhor, Raquel liga e consegue
agendar um voo de urgência.
- Pronto, está feito.
Mas eu não tenho caixa para pagar por
esse serviço....
- Não vamos precisar pagar nada, querida. Esse
brinquedinho aqui resolve
muitas paradas... Agora vamos,
me leve até o heliporto do táxi
aéreo e não tente nenhum truque sujo ao
sair da garagem.
PSV
Rosa pediu um tempo e deixou a sala. Foi caminhando pensativa para o interior
do apartamento, até o quarto da
filha.
Abriu a porta lentamente e aproximou-se da cama. Conferir se
Alex dormia de forma calma e profunda entrara em sua
rotina noturna nas últimas
noites.
Mas ali estava
ela, serena e com as faces
rosadas, agarrada à Serafina. Do outro lado encostado à
cama, Antônio, o canguru.
Antônio era um canguru do bem, de
coração bom e que gostava
das crianças. Era isso que Alex
explicara ao insistir em deixa-lo assim, tão perto da
cama. Ele a defenderia do Canguru malvado da máscara, se ele
aparecesse pro ali...
Ajeitou o lençol sobre Alex e lembrou da vibração dela ao
abrir o presente de Janete e Frazão. Um jogo completo de cama e banho
estampado com os personagens do
filme Frozen.
Saiu tão despercebida
quanto entrou e voltou para a sala e
para os amigos. Claude se despedia
de alguém e guardava o celular.
- Era o Freitas,
cherie. Paulo quer tomar o
depoimento de Elsa, ou seja, da Tereza.
- É tão estranho ainda chama-la de Tereza, embora seja
seu verdadeiro nome... Mas por que
falava com Freitas?
- Eu pedi a ele que
indicasse algum advogado para
acompanha-la e assiti-la no processo e ele se ofereceu sem direito a recusas.
- Sei que não é da
minha conta – diz Janete – Mas não estão exagerando na
ajuda a essa menina? Ela é uma criminosa, ajudou um sequestrador!
- Bem, com o você
disse, ela é uma menina, não completou
dezoito anos ainda e entrou
nessa acreditando que livraria os pais, o irmão e os primos das garras
do Zequias, o mentor do crimes
organizado da favela onde morava.
Agora os pais estão desaparecidos, o irmão e os primos mortos, infelizmente...
- Oh, Deus... Ela é mais uma
vítima nessa historia toda... Me desculpem, acho que me excedi um
pouco...
- Um pouco? – diz Frazão – Já estava me perguntando se essa
era a mesma Janete pela qual me
apaixonei...
- Amor!? Claude e Rosa, me perdoem por esse comentário infeliz! Cai na armadilha de medi-la
com a mesma régua que sempre medi Milton.
- Acalme-se Janete. –
diz Claude – Nós só não fizemos o mesmo porque o que ela nos contou,
depois de recobrar a consciência, batia com as investigações.
- Então Claude e eu conversamos e chegamos a conclusão que se
ela for presa, ai sim
corre o riso de se
tornar criminosa. Todos
sabemos das condições
carcerárias no Brasil... Além disso, ela
salvou a vida de
Alex. Devemos isso a ela.
- Vocês estão certos, precisamos ajuda-la.
Contem conosco, não é Frazão?
- Ah, agora sim a
reconheço! É claro que podem contar com a nossa
ajuda, mas agora, que tal terminarmos nossa partida de pôquer?
PSV
Raquel estava com
medo. Já havia dirigido por vários
quilômetros e começava a se afastar
da cidade. Seu celular tocou mais uma vez. Raul.
- Você devia
me deixar atender. Eu preciso explicar
meu atraso ao Raul...
- Raul, o gerente
geral do banco?
- Ele mesmo. Eu tinha
um jantar marcado com ele. Um
jantar de negócios, eu disse que estou atrás de investimentos, não disse?
- Sei bem o tipo de
investimento que você faz. Todos a
médio e longo prazo, não é? Você não
deve ter um cérebro dentro da cabeça, deve ter um rastreador de pessoas suscetíveis a golpes!
Rastreador! A palavra soou como música aos ouvidos
de Raquel. Como não me lembrei
disso? – perguntou-se segurando um sorriso
de satisfação com uma mordida de lábio. O carro tinha rastreador, estava
dentro do pacote de segurança, que ela mesma contratara, antes de Milton assumir a galeria... E não se
lembrava de ter dito isso a ele... Tinha que arriscar!
Bastaria uma ligação,
mais o código numérico e o alerta seria
enviado para a vigilância, captado automaticamente por meio de um software... Ah, bendita tecnologia! Mas
ainda assim, precisaria usar o celular.
- Então, vai me deixar
ligar?
- Está bem, afinal não queremos a pol[cia atrás
de nós não é?
- Diga isso por você! – exclamou Raquel sem se conter e imediatamente se preparou para uma reprimenda violenta de Milton.
No entanto, ele soltou uma gargalhada e afundou o corpo no
encosto do banco traseiro, o que a
relaxou.
- Vamos lá, ligue para
o seu amante e diga
que não vai lhe dar o prazer de
passar esta noite na cama dele...
- Voce é nojento... – diz ela, pegando o celular e acionando a seguradora, derrubando propositalmente o
celular em seguida, fazendo o carro ziguezaguear.
- Mas que merda,
quer matar a nos dois?
- Droga, o celular
caiu, não consigo fazer isso
enquanto dirijo, preciso parar por um
instante... - pediu, como havia
planejado.
- Dois minutos, nem um segundo a mais. E tenha
cuidado daqui pra frente. Lembre-se que eu não preciso
necessariamente de você...
- Ok... Eu vou ser
rápida. – prometeu ela ligando para
Raul.
PSV
- Por que isso sempre
acontece na melhor parte
dos filmes? – resmungou Rodrigo
pausando o filme que assistia e procurando
seu celular.
Identificou a chamada e atendeu.
- É minha noite de
folga, espero que seja realmente importante e urgente...
- E é. Sabe o veículo da tal galaria que você pediu monitoramento diário? Acabamos de ser acionados para rastreamento e busca desse automóvel, código roubo/sequestro...
- Bingo, pegamos ele! Eu sabia que era questão de tempo... Liga
pro pessoal e coloque-os de sobreaviso.
Eu vou informar o Paulo e nos encontramos ai...
PSV
Claude entrou no quarto a tempo de ver Rosa vestir uma de suas regatas e se deitar com os pés virados para a
cabeceira da cama.
As quase dezenove
semanas de gravidez começavam a
ficar aparentes aumentando o contorno do
corpo dela, e essa era a razão de preferir suas
regatas ao baby dool ou às camisolas.
Eram mais confortáveis, dizia ela.
Deslizou o olhar pelo corpo dela, passeando prazerosamente
sobre ele. Essa transformação não diminuía em nada o seu desejo por ela...
Apreciou a maneira
como ela empilhava três travesseiros e
tentava equilibrar as pernas sobre eles,
resmungando algo antes de deixar
apenas dois e finalmente relaxar e acabou supirando ao mesmo tempo que
ela.
O som do suspiro atraiu a atenção de Rosa que ergueu ligeiramente a cabeça para trás e sorriu.
- Sabe, o melhor em se
falar com os olhos é que nunca há erros gramaticais. – disse ela
divertida.
- D’accord... Os olhares cheios de amor costumam formar frases perfeitas, hã?
– completou ele aproximando-se e acariciando-a primeiro na face,
depois no ventre, antes de
beija-la meigamente.
- Humm - resmungou ela
manhosa – Mas o amor também é feito de
palavras que nos acariciam por dentro,
onde as mãos não chegam e onde os beijos não alcançam... – argumentou deslizando sua mão pelo peito dele.
- Ah, o amor é mágico,
nos faz
enxergar borboletas mesmo quando
não há flores no jardim... Vocês são o
meu jardim, cherie...
- Hummm... Achei romântico,
poético e lindo o que você
disse, mas com tudo que passamos há um bom tempo não vemos essas borboletas não acha? – retrucou com a voz
rouca e sensual.
- Voilá! Podemos
resolver isso agora mesmo mon amour...
PSV
Paulo chegou
poucos minutos depois
de Rodrigo.
- Então, acredita que
é ele mesmo?
- Não tenho dúvidas,
Paulo! Além do carro estar se afastando da
cidade, identificamos o celular que mandou o camando de alerta. Pertence
a Raquel, a nova dona
da galeria e adivinha? Antes disso ela
fez contato com um táxi aéreo e depois com alguém chamado
Raul Andrade.
- Como conseguiu rastrear essas chamadas tão
rápido?
- Hackeando o sistema da operadora.
- Você invadiu o sitema de uma empresa sem autorização
outra vez?
- Meu trabalho é
manter as pessoas
seguras. – argumenta Rodrigo dando de ombros - Você
sabe quanto tempo eu teria que esperar
pra ter um mandado ou liminar que
me permitisse fazer isso “legalmente”.
- Bem, depois
discutimos sobre algumas de
suas técnicas... Vamos entrar em
contato com esses...
- Já fizemos isso.
Ela agendou um voo de emergência com o
táxi aéreo e desmarcou um jantar com o
tal Raul. De acordo com ele Raquel
parecia nervosa e assustada...
- Vocês não poderiam simplesmente desligar o carro?
- Se fosse um carro eletrônico sim,
mas esse veículo é
convencional, só podemos rastrea-lo via GPS.
- Entendo. É claro que ele vai usa-la como refém se precisar... Então, vou
mobilizar meu pessoal e montar uma
tocaia. Dessa vez ele não escapa!
- Minha equipe está a
disposição. Qual é o seu
plano?
- Bem, ele está a
nossa frente... Vou contatar meus
colegas das delegacias
mais próximas de lá e bloquear a
estrada com uma blitz
noturna e tentar atrasa-lo o mais possível. Enquanto isso nós voaremos para lá de
helicóptero.
- E o que quer
que façamos?
- Sua equipe será mais
útil daqui, nos informando qualquer
mudança de rota
dele. Espero que me entenda, não
gostaria de colocar civis em
perigo.
- Ok. Vou dispensar a equipe que está
de sobreaviso e ficarei aqui ajudando no que for
preciso.
Paulo então, comunicou-se com seus colegas combinando o procedimento e solicitou o uso de helicóptero, ordenando a alguns homens que
o encontrassem no hangar no Aeroporto
Campo de Marte, onde ficam alguns
helicópteros da polícia.
- Acha prudente
avisar Claude e Rosa?
- Não, de imediato não. – responde Paulo conferindo a hora -
Eles não merecem outra noite de ansiedade. Melhor avisa-los da
prisão do cafajeste, porque
nós vamos prendê-lo, Rodrigo! – é a última fala de
Paulo, antes de sair, apressado.
Rodrigo conferiu o monitoramento que seu assistente fazia. Nenhuma mudança
de rota, ele continuava sentido Marginal Pinheiros, sede
do hangar contactado. Isso era ótimo. Foi até a cozinha e preparou um café
forte e menos doce que o habitual. A noite
seria longa.
PSV
- Por que diminuiu a velocidade?
- As pessoas em
sentido contrário estão dando sinal
de luz, então imagino que tenha algum acidente pela
frente...
- Era só o que faltava... – diz Milton pulando para o banco dianteiro.
Ficou em silêncio por alguns quilômetros até avistar um
movimentação maior.
- Merda, não é acidente
é uma blitz noturna! Passa direto, não para, vai em frente! – ordena
diante do aceno do policial.
- Você está louco, vão
nos perseguir e atirar em nós, eu não quero
morrer! - diz
tirando o pé do acelerador
de vez.
- Sua idiota! –
grita Milton esticando a perna
tentando pisar no acelerador enquanto
Raquel ao mesmo tempo brecava com o pé e puxava o
breque de mão.
Desgovernado o carro perdeu
velocidade. Raquel soltou o cinto e
abrindo a porta pulou do carro, antes
que ele rodopiasse e ficasse atravessado na
pista.
Ouviu os xingamentos
de Miton e rezou para que ele não
atirasse nela enquanto
rolava sobre o asfalto. Ergueu a cabeça a tempo de vê-lo sair com o carro, cantando os pneus.
O cheiro da borracha
queimada a fez tossir várias vezes antes
de perceber dois fachos de luz
branca vindos em sua
direção e passarem direto. Colocou as mãos sobre os olhos
tentando protegê-los contra a ardência que isso provocou e só então sentiu
sua pele queimando em algumas
partes da perna e
do braço. Deixou-se cair num misto de alívio e dor.
Um terceiro facho de luz a atingiu e parou a poucos centímetros.
- Moça, você me ouve? Pode se levantar?
- Posso sim, - respondeu aceitando ajuda.
Foi colocada numa
viatura e levada a um hospital.
PSV
- ...Entendido, câmbio e desligo - disse Paulo saindo da frequência policial do
rádio comunicador.
Então torceu o pescoço
ligeiramente para a esquerda.
- Ele passou direto pelo primeiro bloqueio, mas a refém
conseguiu sair do carro, o que nos dá uma liberdade maior. Vamos
pega-lo no segundo. Estão preparados?
- Sim, senhor.
- Liga a luz externa e
vamos alcança-lo! – pidiu ao piloto – Consegue voar mais rápido que isso?
- Com certeza! – respondeu arrementedo o helicóptero para a ligeiramente para a
esquerda.
O trânsito era mais intenso
no sentido contrario da pista, de quem entrava na cidade. Isso daria mais liberdade de
agirem na captura.
As faixas intersectadas da estrada começaram
a passar tão rapidamente que em segundos
pareciam contínuas. Não demorou muito
e o carro com Milton, seguido por
duas motos, logo ficou totalmente iluminado.
- Droga, ele não vai parar! – exclamou Paulo vendo que Milton
não diminuía a velocidade ao se aproximar
da segunda blitz. –
Precisamos de um plano de emergência!
- Uau! Eu estou bem cotado, tem até polícia aérea em meu
encalço! - falou em voz
alta, olhando pelo vidro do
parabrisa, vendo o helicóptero
passar por ele e se afastar até desaparecer.
- O que? Já
desistiram? Seus frouxos!
Danem-se, eu não vou perder, não agora!
Afundou o pedal do
acelerador e investiu contra os policiais, que o aguardavam com as viaturas emparelhadas, no meio da pista.
Os policiais conseguiram correr e chegar ao acostamento antes
que ele forçasse a passagem e abrisse caminho, colidindo lateralmente com elas. A força do impacto, sorrateiramente havia
feito capô do carro destravar.
- Seus babacas! Uhu! –
gritou Milton ao passar, gargalhando.
- Agora só falta
me livrar dessas motos... – diz
olhando pelo retrovisor, vendo-as se aproximar. - Pensa
Milton, pensa e faz!
Seu olhar caiu sobre a
arma quer deslizava pelo painel. Pelas
suas contas ainda
tinha doze balas disponíveis. Era
uma possibilidade, mas
poderia precisar dela para embarcar no táxi aéreo. Só mais dois ou três
quilômetros pela frente e alcançaria a alça
de acesso ao hangar...
O brilho dos faróis no
espelho era o aviso que estavam cada
vez mais perto.
- E eles me querem
vivo, prova disso é que não dispararam
uma só vez... – Quer saber? – e soltou
a mão direita da direção agarrando a
arma -
Azar o de vocês, eu não vou ser
preso, se alguém tem que perder que
sejam vocês!
Apertou com força a mão esquerda no volante e esticou o braço
direito para fora e mirando
desajeitadamente apertou o gatilho
dividindo sua atenção entre manter o
controle do carro e acertar o tiro. Se tivesse sorte acertaria ao menos um dos
dois.
Mas tudo que vislumbrou foram faíscas pelo asfalto e as motos
em zigue-zague.
Praguejou irritado e repetiu a ação. Dessa vez
sorriu, perversamente satisfeito
ao ver
uma das motos derrapar e a outra
parar para socorrê-lo.
Apoiou o carro à
direita para entrar na via de
acesso ao hangar e notou algo errado.
- O que é que há belezinha, obedece ao papai! – exclamou
acelerarando ainda mais.
Então, ao mudar a
marcha o carro trepidou, causando um solavanco brusco que fez o
capô se erguer.
- Mas que merda! –
xingou exasperado, vendo o capô voltar, mas
não teve tempo de sentir aliviado.
– Droga, mas o que é
isso? – exclamou assustado com uma intensa claridade a
sua frente.
- Merda! Merda, é aquele helicóptero! Ele... ele está pousado na pista? Droga, droga! Saia daí -
gritou pisando no freio várias vezes. –
Vai, vai, o que é que está acontecendo
com você ? - perguntou ao veículo, notando que a velocidade não caia por
mais que freasse.
Seu olhar caiu sobre o
marcador de combustível: estava sem
gasolina!
- Não, não você não pode
fazer isso comigo! - resmungou furioso.
Tentou mudar de marcha
e tudo que conseguiu foi ouvir um som seco, estridente e rápido. O motor
estava travado, não conseguiria
desviar daqueles policiais imbecis!
- Que bom, nós
vamos morrer juntos! -
resmungou sarcástico.
Esterçou totalmente o volante para a esquerda e preparou-se
para o impacto e a explosão que viria a seguir. Fechou os olhos a
poucos segundos de colidir e esperou pelo pior.
Um zunido gigantesco e o carro girou em sentido anti-horário,
batendo em alguma coisa, deslizando
lateralmente e produzindo um barulho irritante de metal contra metal. Mas nada de explosão.
Abriu os olhos e
sorriu. Estava machucado, mas
estava vivo. O carro batera na
grade de proteção de alguma indústria e o afundamento dela servira para
lhe proteger também.
Não havia sinal do
helicóptero. Bem, talvez não fosse
da polícia e sim de alguém que negociava
por ali e também estava com
problemas e fugira...
O jeito agora
seria se embrenhar pelo mato e
chegar ao hangar o quanto antes...
Pegou a mochila do banco de
tras e como a porta não abria
saiu pela janela.
- Milton Alvarez coloque as mãos para cima e vire-se de costas.
Não teve tempo de reagir ou fugir, pois dois policiais aproximartam-se, um de
cada lado e o encostaram contra o carro.
- Você está preso por sequestro de incapaz e formação de
quadrilha entre outras acusações. – anunciou o
policial que o algemou sem nenhuma
bondade.
Milton soltou uma exclamação
de dor.
- Ah, você também tem
o direito de permanecer em silêncio e tudo o que disser será usado contra você
no tribunal. – falou o outro.
- Isso era desnecessário -
observou o primeiro.
- Ah, qual é? Vai
dizer que nunca teve
vontade de falar
isso?
- Ei vocês dois, venham logo. A nossa carona está
chegando. – diz Paulo com uma autoridade branda.
Não demorou muito e o helicoptero pousou novamente sobre
a pista.
- Milton Alvarez... Você não estava querendo dar uma
voltinha de helicóptero? Vamos lá, cortesia da casa! – falou Paulo, de maneira quase
divertida fazendo Milton entrar
antes dele e do outro policial.
Em minutos eles
desciam no hangar do Campo de Marte
onde uma viatura já os esperava para levar Milton.
- Delegado Paulo, foi um prazer trabalhar
com o senhor! – disseram os dois
policiais ao se despedirem.
- O prazer foi todo meu. É muito bom saber que a corporação
tem profissionais como vocês,
capazes de uma estratégia de emergência como essa.
- Quando precisar, estaremos às ordens! Boa noite, senhor!
- Boa noite! – respondeu entrando em seu carro, seguindo o mesmo trajeto da
viaduta que levava Milton. Queria
assegurar o bom andamento
dos serviços e a integridade dele, apesar
de tudo.
Entrou em contato com Rodrigo para também agradecer a parceria.
- Obrigado por me ajudar mais uma vez, Rodrigo. (...)
Não seja modesto, seu trabalho nos norteou e pudemos prendê-lo
finalmente. (...) Sim, eu creio que já
pode informa-los, apesar da
hora. (...) Com certeza, dormirão bem mais
tranquilos. (...) Claro, vamos
nos reunir e comemorar esse
sucesso (...) Até mais, meu amigo.
PSV
Rosa ouviu Claude conversando com alguém e ainda não totalmente desperta
acreditou ser um sonho. Abriu os olhos
aos poucos mas não deixou de ouvir a voz dele, abafada por
certa distância.
Girou o corpo, ainda desconfiada que sonhava, procurando-o ao seu lado e foi ai que dispertou totalmente.
- Claude? – chamou-o levantando-se da cama a procura-lo.
Encontrou-o dentro do closet, encostado a um aparador, falando
ao celular.
- O que aconteceu, com quem está fal...? – e interrompeu a
pergunta ao sinal que ele lhe fez com mão, antes de enlaça-la pela cintura, trazendo-a
para si, num gesto de proteção.
- ...Não se preocupe com isso, Rodrigo, fez muito bem em nos
avisar. Merci (...) D’accord, nos vemos amanhã, boa noite. – e colocou o celular sobre
o aparador.
- Pardon, eu vim
aqui para não acorda-la e não adiantou
muito...
- E o que houve, por que Rodrigo ligou a essa hora?
- Milton tentou fugir algumas
horas atrás, mas conseguiram
prendê-lo.
- Graças a Deus! – murmurou Rosa, abraçando-o. – Eu tinha
tanto medo dele tentar sequestar Alex outra vez e...
- Chhhhh... -
sussurrou ele beijando-a sobre os
cabelos. - Isso tudo já
passou, ela está segura novamente e ele... Bem eu espero que ele
fique muito tempo na cadeia.
- E como conseguiram prendê-lo?
- Vamos voltar pra
cama e eu te conto como
tudo aconteceu, d’accord? Segundo o Rodrigo...
PSV
Rosa cobriu a mão
trêmula de Teresa com a sua.
- Calma, Tereza, vai
dar tudo certo, hum? -
murmurou animando-a.
Teresa sorriu de volta. Um sorriso nervoso e preocupado, antes de suspirar e abaixar a cabeça.
Claude, sentado a sua
direita conversava com Freitas, enquanto esperavam a chegada do
juiz e do promotor.
Rosa repassou
mentalmente os motivos
do porquê estavam ali...
Depois da prisão
de Milton, o depoimento de Teresa
fora adiado por dois dias, pois queriam ouvi-lo primeiro.
Estaria tudo certo se Tereza não tivesse recebido alta
nesse mesmo período.
Por ser menor de idade
e estar envolvida no sequestro seria
encaminhada à uma unidade
da Fundação Casa. Lembrou-se de
sua indignação. Aquele lugar não servia para
ninguém, nem mesmo para os jovens infratores que já
estavam por lá.
Com muito tato,
explicou a Alex sobre o destino de
Tereza e o porquê não poderia
mais visita-la.
“- E por que ela não pode
“i” mora “coagente”? A Aléssia vai precisar de uma babá, não vai?” – fora
a resposta que ouvira.
A princípio Claude refutara
a ideia, mas depois de ver a realidade do lugar através
da Internet, acabou pedindo a
Freitas que aviasse essa possibilidade.
Correndo contra o
tempo, entraram com um pedido de tutela, já que Tereza
ainda era menor de idade com responsáveis desaparecidos. O
juiz de plantão concedeu uma
liminar e estabeleceu o prazo de
trinta dias para experiência e adaptação e futura audiência a ser marcada para consolidar a tutela.
Tereza se mostrara uma
garota dócil, cuidadosa, responsável e prestativa. Natal e
Ano Novo haviam sido realmente
tempo de renovar a esperança e o
ânimo...
O rangido da porta e a
movimentação de todos colocando-se em pé
a fizeram voltar
para o presente. Levantou-se
também.
O juiz os cumprimentou
e pediu que sentassem. O assistente declarou aberta a sessão e leu um resumo da petição, dando em
seguida, voz ao juiz, para
preferir sua sentença.
- A lei brasileira permite
que o cidadão ou instituições façam seus acordos de forma autônoma, sem
interferência do Estado, com ou sem o apoio de terceiros tais como mediadores, advogados, árbitros,
moderadores e sem se vincular a cartórios
ou órgãos do Poder Judiciário, previstos no artigo 475-N do Código de Processo
Civil e, de forma geral, são oriundos de um processo, ou seja, gerados a partir
de rito procedimental mediante a participação de um juiz. A presente petição apresentada por (...)
A parte requerente, através de seu
advogado se compromete a promover a melhoria da qualidade de vida
sócio-econômica e emocional da requerida e se apoia no trabalho e no envolvimento das
autoridades com a sociedade civil para
tal, agindo dentro da lei, pautado no
artigo 20, parágrafo único da Lei de Mediação. Tendo estudado o
caso, observado a idoneidade do
requerente e a situação de risco que
experenciou a menor, que não apresentava
antecedentes criminais, profiro
sentença favorável ao senhor Claude
Antoine Geraldy, doravante tutor legal da menor ora citada que em idade de
total entendimento da legalidade
do ato acorda com o mesmo. As partes tem a opção de fazer um acordo
documentado, formal, mas que não será assinado como um “título”, como quando
você assina um cheque bancário onde as assinaturas representam um compromisso.
O compromisso das partes será honrar os
termos da mediação, sendo a confiança mútua, o vínculo que as unirá. Por
estar citada no processo cível número
xxxxx, a menor deverá se apresentar
mensalmente neste fórum, até que seja julgada. Tendo lido e deferido a
sentença, cumpra-se.
Freitas agradeceu ao promotor e depois de cumprimentar o juiz, foram dispensados. Claude estava quase saindo,
quando foi chamado pelo juiz.
- Eu admiro sua coragem e atitude. Não poderia deixar
de cumprimenta-lo em particular. Acordos como esse tem o potencial de
transformar as pessoas, senhor Geraldy. Parabéns!
PSV
Alex correu ao encontro de Tereza, enquanto Claude e Rosa
vinham mais atrás em
conversa com Freitas, e não
coube em si de
alegria quando recebeu a notícia,
no jardim do Forum, onde esperava com
Dadi.
- Eu não falei pra
você que o bem
sempre vence no final, Els...
Terezinha? – falou, corrigindo-se sozinha.
- É, você falou lindinha!
Acho que vou começar a acreditar em
contos de fadas, ok? – falou
ajudando-a a se instalar na
cadeirinha do banco
de trás do carro.
Então, antes de entrar,
voltou-se para Claude e Rosa:
- Acho que nunca vou poder retribuir à altura o que estão fazendo
por mim...
- Claro que vai –
disse Claude – É só seguir à risca
todas regras que
combinamos, terminar seus
estudos, inclusive uma graduação e nunca
mais se meter em encrencas, hã?
- Com certeza! Nunca
vou querer entrar em outra senhor
Geraldy...
- Fico feliz em ouvir isso, Tereza. E ficaria mais
feliz se deixasse de me
chamar de senhor, d’accord?
- Eu vou tentar! Prometo, senh... Claude!
- E também deve continuar a ser essa... “Irmã” mais velha para Alex.
– diz Rosa sorrindo - Ela gosta
tanto de você, Tereza!
- Eu também gosto
muito dela... Quer saber? Vocês dizem que eu
salvei a vida dela, mas foi ela quem salvou a minha! Obrigada por
acreditarem em mim! – Concluiu abraçando-os.
- Eiii!! Eu to
morrendo de fominha, a gente não vai
comer não? – gritou Alex pela
janela do carro, depois de insistir com Dadi para que baixasse o
vidro...
Almoçaram no Gregoretto, o restaurante de Cleide, onde os amigos já
os esperavam.
PSV
A campanha eleitoral parisiense chegava em sua
reta final e os partidos se mobilizam para atrair eleitores.
Inexplicavelmente Bernard
Brissot disparara contra todas as
tendências em contrário.
A projeção para o segundo turno previa vitória da situação
mas a ascensão de Brissot desestabilizara o jogo político com a possibilidade da esquerda vencer no
segundo turno.
Para os adversários,
Brissot deveria decair mesmo com
o apoio de Roger Avril, o magnata da
mídia. Pelo visto não era essa a opinião dos eleitores.
Bernard Brissot
tornara-se um concorrente de mesmo nível de todos,
talvez, por ser um candidato sem
partido e que fora duramente ironizado
pela classe política, que não o considerava um nome confiável.
Seja pelo incrível tino político, ou por admitir, expor e romper seu envolvimento com Louise
Geraldy,, ainda enfrentando um processo
juducial uma coisa era certa: o mais jovem dos candidatos à prefeitura de Paris
conseguira o que qualquer político desejava antes de uma eleição: todo mundo
fala dele. E isso pode render votos.
Foi assim que encontraram Paris poucos dias
depois, quando finalmente
conseguiram viajar em férias. Foram trinta dias de muita
diversão e conhecimento, um mergulho na cultura e na gastronomia
francesa. E muita, muita diplomacia com Louise. E quando voltaram, Bernard já era o
novo prefeito de Paris.
PSV


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