PSV
Os ruídos vindos do porão e o trânsito
dos pedreiros pela lateral não impediam o trabalho interno da galeria. Com a mudança da parte administrativa para o andar de
cima, era preciso aumentar o
quadro de funcionários e Nara
candidatara-se ao cargo de recepcionista, e com a ajuda
de Sergio, a cada dia dominava mais sobre o acervo da galeria e ampliava seu
conhecimento de Arte em geral. O sotaque
francês que imaginou fosse lhe atrapalhar foi
seu maior aliado. Clientes e
visitantes prolongavam o atendimento só para - diziam, ouvirem um pouco mais o sotaque da língua do
amor.
Elizabete a assessorava, explicando que
preferia ficar com essa parte mais prática, do contato social.
Conversar lhe fazia bem, e assim esquecia de seu tratamento. Mas no momento, estava com Claude
e Rosa, na sala de reuniões.
- Essa placa não existe. – dizia Rodrigo –
Provavelmente alteraram os números com fita isolante. Se quiser coloco um dos
meus homens para segui-lo.
- É o mais coerente a se fazer. – comentou
Claude depositando as fotos
sobre a mesa.
- Eu já havia reparado nesse carro, mas como nunca
observei alguma criança entrando ou saindo dele imaginei que fosse de alguém da escola.
- Foi a primeira atitude que
tomei com a situação Rosa. Com certeza é um carro roubado
que será
descartado rapidamente.
- Prossiga
com suas investigações, hã? A segurança
de Alexandra é prioridade
nesse momento, apesar de Roberta não ter acenado em nada.
- Tem
feito a ela aquelas orientações
básicas?
- Sim, ela
sabe que não deve conversar ou aceitar a ajuda de
nenhum estranho. – confirmou
Rosa.
- Não podemos denuncia-la ou fazer uma queixa
junto a polícia? – pergunta Liz,
preocupada.
- Podemos, temos o nome e endereço dela, e
o Artigo 147 diz que ameaçar alguém, por palavra, escrito
ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave
culmina em pena de detenção de um a seis
meses, ou multa. Porém, o crime de
ameaça, só se concretiza quando causa temor na vítima. Caso contrário, a
conduta é atípica. E precisaremos de testemunhas.
- Mas
estamos com medo, Rodrigo! É a
vida da nossa filha
que está em jogo e Beto pode ser
a testemunha, ou não? – Argumenta Rosa.
- Sim, ele é a testemunha, mas pode ser
acusado por ela de cúmplice, pois a está ajudando...
Um toque na porta e Beto entra.
- Com licença e boa tarde a todos. Eu não sei se a notícia é boa ou
ruim, - Diz colocando um envelope
fechado sobre a mesa - mas Roberta acaba de me dispensar.
- E neste envelope?
- É o meu “pagamento”. Mil euros.
- Em espécie?
- Ouí.
- Ótimo, já é uma prova.
- Well,
se Roberta o dispensou, podemos partir pra um boletim de ocorrência, não? - Questiona John.
- Sim, com mais segurança. Se quiser, Claude, posso
coloca-los em contato com um delegado
amigo meu. Ele saberá orienta-los adequadamente.
- D’àccord.
O mais
rápido possível.
- Quem sabe, agora mesmo – afirma Rodrigo
tirando o celular do
bolso.
Meia
hora depois, saia com Claude e Rosa com destino a delegacia.
PSV
Milton seguiu por várias
quadras da avenida que
cortava aquele bairro até
contornar o canteiro central e
estacionar o carro do outro lado.
- Mas que lugarzinho deplorável! – exclamou
Roberta acendendo um cigarro.
- Pessoas
que fazem este tipo de serviço não moram em mansões ou
condomínios de luxo, querida. – argumentou
Milton descendo do carro –
- É claro que não! – retrucou ela imitando-o – Pessoas como nós os mantém aqui, não é mesmo?
- Não
se deixe levar pelas aparências e cuidado
com o que diz. Zequias pode não ser
culto, mas não é burro. E apague esse
cigarro. Ele abandonou o vício e não
suporta quem o faça perto dele.
O portão enferrujado e o muro pichado e
mal cuidado contrastavam com a casa elegante, de portas de madeira maciça e janelas de alto padrão.
- Está surpresa? Eu disse que ele não é burro.
Um sujeito alto e forte, parecendo desconfiado
aproximou-se. Ombros para trás, coluna reta e cabeça levantada, desconfiado. Apesar do elegante terno negro, da barba feita
e o cabelo bem cortado, a arma na cintura impunha temor.
O ar
de mau humor desapareceu assim que saíram da escuridão para o luz da
lanterna que ele empunhava. Roberta
baixou os olhos fugindo daquela luminosidade.
Ao
mesmo tempo em que o segurança
reconhecia Milton, colocava o dedo sobre o ouvido, atento à orientação que recebia.
Acenou com a cabeça e fez um gesto para que o acompanhassem.
Ao passar
pela porta que tanto admirara,
Roberta notou a câmera de vigilância. Estavam sendo monitorados desde
que entraram pelo portão.
O interior
da casa, ao menos da sala onde
foram recebidos, ostentava uma
decoração extravagante que surpreendia
pelos
detalhes e pela profusão de cores vivas, misturando estilos e períodos da
história da Arte, como colunas gregas e
vitrais romanos. Móveis retrô, tapetes persas, vasos chineses e
cristais Swarovski em meio a flores artificiais.
- Gosta do que vê, dona?
Roberta sobressaltou-se e girou o corpo para
o lado de onde vinha aquela voz. E
descobriu que o dono dela lhe era tão desagradável quanto: um homem de estatura
média e corpulento vestindo calça
jeans, camiseta e uma sandália estilo pescador.
O
cabelo grisalho, comprido demais,
acentuava o ar de descuido e o
bigode espesso e farto com fios mal aparados chegava a ser repugnante e
repulsivo.
Deu um passo atrás e aumentou a pressão com
que segurava o braço de Milton, tensa.
O homem pareceu não se importar com sua falta de resposta, pois dando-lhe as
costas, perguntou:
- Então, em que posso ajuda-o dessa vez, Milton?
- Que
falta de cavalheirismos Zequias. - respondeu entre divertido e
cínico. - Poderia ao menos desejar
uma boa noite à dama que me
acompanha.
Zequias lança um olhar de indiferença a
Roberta e em seguida para Milton balançando negativamente a cabeça.
- Eu já o aconselhei muitas
vezes que misturar vida amorosa com negócios não é uma boa
transação.
Milton soltou uma sonora
risada.
- Então
eu devo estar absorvendo seu conselho. Roberta e eu não temos uma vida
amorosa, apenas uma boa transação mesmo. E é ela quem precisa de ajuda.
- Eu não costumo aceitar esse tipo de pagamento, moça. – disse Zequias
encarando Roberta.
- Eu costumo pagar em euros. – retrucou ela sem se intimidar mais, acentuando
o sotaque francês.
- Euros... - sussurrou Zequias
estreitando os olhos e torcendo o bigode
entre os dedos. Deixou um sorriso frouxo nos lábios ao aprecia-la mais interessadamente. – Porque não disse isso
desde o começo? Vamos nos conhecer melhor “cherri”... Diga-me, porque
veio da Europa até aqui e em que posso ajuda-la...
Então chamou uma das empregadas e ordenou que
fosse servido bebidas e alguns petiscos. Uma hora e meia depois, acordo fechado,
Milton e Roberta deixavam o local
PSV
Rosa abraçou Sílvia confortando-a e acompanhou-a até o carro de Júlio, de braços dados mas em silêncio. Não há muito o que
dizer a alguém que perde um ente querido.
Não há palavra que cessem a dor, Rosa
bem sabia disso.
Despediu-se com outro forte abraço e deixou que ela entrasse
no carro.
- Esse é um dos piores
momentos de nossa vida. – escutou enquanto sentia as mãos de
Claude em seus ombros, e o carro se afastava.
- É sim. – murmurou
lembrando-se do enterro dos próprios
pais. – Mas a vida continua... Vamos
para casa?
- Para casa? Pensei
que quisesse voltar à
Athena e ver o resultado dos espelhos
no porão...
- Queria sim, mas estou um pouco enjoada, com
uma leve dor de cabeça
e um tempo deitada ajudaria.
- Não seria melhor voltar
em sua médica? – perguntou franzindo a testa e abrindo a porta do carro para
ela.
- Não é preciso. Esses
sintomas são normais. –respondeu sorrindo – Está tudo bem, hum?
- D’accord,– responde entrando também no carro - Se
você diz...
- Digo sim. – afirma Rosa acariciando-o na face – Bem vindo
ao mundo dos bebês! – Murmurou amorosamente.
Claude segurou a mão
dela e beijou-a na palma.
- Precisamos contar à Alex, chèrrie. E a nossos amigos!
- Primeiro à nossa
filha, assim que fizermos a ultrassonografia. Eu vi um vídeo na Internet e acho
que podemos usar a ideia. Um pai mandou o vídeo da ultrasson
pelo WhatsAp ao seu filho mais velho
e...
PSV
- Dadi quanto tempo leva pro pedido da velinha “acontece”? – pediu Alex entre
os goles
do suco que tomava.
- Eu acho que se o pedido depender só de você, ele acontece
logo, menina.
- Ah... Então vai “demora”!
- O que vai demorar, pequena? - A voz
de Claude invadiu a cozinha.
- Eba, vocês já chegaram!
– vibrou Alex abraçando-o e
ganhando colo – O meu pedido pra velinha, papai!
- E o que foi que
pediu, querida? – pergunta Rosa
servindo-se de um copo de suco.
- Ah, mamãe eu não
posso “fala” senão não acontece, esqueceu?
- Esqueci mesmo Alex... Humm,
meu Deus, que cheiro é esse Dadi?
– perguntou devolvendo o copo à mesa, tapando a
boca e as narinas com uma das mãos, afastando-se.
- Carne refogada para
o estrogonofe, Rosa.
- Oh, eu preciso ir ao banheiro, com licença!
Dadi sorriu desconfiada e olhou para Claude.
- É o que estou
pensando?
- O que a mamãe tem, ela tá doente? – pergunta Alex quase ao
mesmo tempo.
- Não, filha. Ela está apenas indisposta, hã? Fique aqui com
Dadi, eu vou ajuda-la, d’accord?
- “Da cor”, papai!
- E Dadi, sim, é o
que você
pensou! - Afirmou sorrindo
para ela antes de ir ao encontro de
Rosa.
- O que você tá pensando
Dadi?
- Que está na hora de
você tomar banho para
o jantar! E que seu desejo foi atendido - completa em pensamento.
PSV
Nara voltou à sala com um envelope nas mãos.
- Adivinhe o que eu tenho aqui! – exclamou sentando-se novamente ao lado de Sergio no
sofá.
- Ingressos para algum
show? – arriscou ele.
- Errou! É meu visto
de permanência no Brasil, não é o
máximo? – e tira os documentos mostrando-os a ele. - Agora
posso andar e trabalhar sem medo.
- Isso merece um brinde! - diz depois de olhar tudo com atenção - Tem
algo aqui?
- Depois que o Frazão praticamente se
mudou para a casa da Janete, talvez reste um vinho branco na geladeira.
- Voilà! - diz Sérgio
bem humorado. - Coloque o filme. Eu pego
o vinho. Ou o que tiver...
PSV
- Amor, seu celular
está tocando! - gritou Janete do quarto, para Frazão no banheiro.
- Vê quem é, ouí?
- Gurgel – responde
ela identificando a chamada
- Traz pra mim, Jane, por favor! Merci, minha rainha – Agradece prendendo a toalha em torno de si, pela cintura, e pegando o celular.
- Great Gurgel, auquel
je dois l'honneur de votre appel? [Grande Gurgel, a que devo a honra de sua
ligação?] (...)Precisa da minha presença aí...– repete em português trocando um olhar com Janete que se afasta, voltando ao quarto.
De onde estava Janete ouvia
algumas palavras de Frazão e tentava
entend-las:
Quand était-ce? (...)
Bien sûr, je sais que Roger Avril (...) Mon Dieu (...) ne pouvait pas parler à
Claude sait aussi ... (...) Partager tous les liens possibles, mon ami. Je vais
à la maison de Claude en ce moment. (...) Oui, être prêt, il pourrait vouloir
vous parler ... Au revoir
[Quando
foi isso? (...) Claro que conheço Roger
Avril (...) Mon Dieu (...) Não conseguiu
falar com Claude ainda, sei... (...)
Mande todos os links possíveis, mon ami. Estou
indo à casa de Claude agora
mesmo. (...) Ouí, fique de prontidão,
ele pode querer falar contigo...
Au revoir]
- O que houve, por que querem sua presença lá?
- Louise foi manchete de
jornal outra uma vez. – respondeu
ele tirando a toalha da cintura e
vestindo-se.
- Sei... As fotos com
o amante agora são em algum resort particular e querem que você...
- Não são fotos,
querida. Agora são denuncias de
corrupção dentro e fora do
partido. Eu preciso falar com o Claude. Vem comigo?
- Claro, só preciso trocar
de roupa.
PSV
Após ser flagrada em
encontros (in)discretos com o suposto pretendente da filha, Louise Geraldy está sendo agora acusada
de liderar um cartel e pagar propina a
agentes políticos.
Foi o que circulou no La Voix de Paris, um jornal a serviço da burguesia nacional, comandado por
Roger Avril,
simpatizante do partido da Frente Nacional,
oposição ao Partido Socialista, comandado por Louise.
Em edição extraordinária,
o jornal dedicou página dupla às
denúncias sobre
financiamento com fundos ilegais de multinacionais francesas, em sua campanha para o vice-prefeito
Bernard Chermont, seu
noivo e candidato à prefeitura de Paris e
futuramente à presidência do país.
O La Voix de Paris
afirma ter provas que Louise Geraldy e
pessoas de seu círculo criaram ao longo dos anos uma rede de informações para
facilitar a transmissão de dados sobre processos judiciais do alto escalão da Corte
francesa, numa violação do sigilo da investigação, caracterizando-o como
tráfico de influência - a prática ilegal de obter favores, valendo-se de
uma posição privilegiada, em troca de favores ou pagamento - um dos
crimes praticados contra a administração pública em geral.
Parlamentares da oposição já articulam uma investigação
oficial pela justiça parisiense. Vale
lembrar que pela lei francesa o tráfico de influência pode ser punido com até
cinco anos de prisão e multa de quinhentos
mil euros.
Roger Avril ainda deixa claro que essa é apenas a ponta do iceberg. Apesar de procurada pela nossa
reportagem, Louise Geraldy não se pronunciou até o fechamento dessa edição.
Novas informações a qualquer momento.
A exibição do vídeo
chegou ao fim. Claude apoiou o rosto entre as
mãos e respirou fundo, o olhar
fixo na tela do notebook.
Foi ao reparar o movimento de
Rosa para fechá-lo que reagiu.
- Mon Dieu... Quem está
por trás dessa denúncia, Frazão?
- Ninguém sabe. Gurgel entrou em contato com Roger, mas ele
foi irredutível e não quis revelar
suas fontes.
- Fontes? Então já mais de uma pessoa por
trás disso. Vou precisar de
você por lá mon ami.
- Eu já desconfiava. Vou providenciar minha passagem
de volta amanhã, no primeiro voo
disponível.
- Eu sinto muito Janete, sei que estão construindo um
relacionamento, mas não posso deixar que isso interfira nas empresas que meu
pai ergueu durante sua vida.
- Eu entendo Claude. Além do mais, Frazão já estava
planejando voltar mesmo...
- E é bom que saibam
também já a convidei para
ir comigo.
- Frazão, eu ainda não falei com eles! – diz Janete
repreendendo-o.
- Jane! Por que não nos contou? Você aceitou, não é? –
pergunta Rosa sorrindo.
- Eu ia contar
mas com a reforma e essa ameaça pairando sobre Alexandra eu achei melhor esperar. E por falar nela, cadê?
- Ela foi passar o domingo com Liz e John. Dadi a levou. – explica Rosa.
- Janete ficamos imensamente gratos por sua
consideração conosco, mas não
deve nos colocar acima de sua
felicidade. – diz Claude – As portas
da Athena estarão sempre abertas
para você, hã?
- Eu falei que o francês tem o coração mole, não falei?
- brinca
Frazão.
Antes que alguém mais
falasse algo o celular de Claude toca.
- É ele. – diz atendendo a chamada – Alô, Gurgel...
- Eu vou fazer um café,
ok – diz Rosa.
- Eu vou com você. –
afirma Janete, e as duas vão
para a cozinha.
- Um momento,
Gurgel, Frazão está aqui, vou
colocar no viva voz...
PSV
Enquanto Dadi preparava
café e Liz o chá Joanna colocava
o bolo e o suco sobre a mesa, sob o olhar atento de Alex.
- Eu queria ajudar...
– pediu ela.
- Ótimo! - exclama
Joana – Coloque os guardanapos, um
para cada pratinho.
- Onde tá eles?
- Ali em cima do
balcão Alex.
Assim que os localizou, Alexandra coto quantas pessoas
tinham para o café e separando os
guardanapos, colocou-os ao lado dos pratos. E ficou olhando fixamente para o
bolo ate dizer.
- Madrinha, você não
tem uma velinha pra colocar
no bolo antes da gente comer ele?
- Velinha?
- É igual aquela que
tinha no meu aniversário...
- Oh, darling, eu acredito quem não temos, não é Joana?
- Realmente não temos... Por que você
queria isso?
- Pra “mim fazê” o pedido de novo, tá demorando muito...
- E o que foi pediu? –
Liz quer saber.
- Ah, madrinha a gente
só pode falar pra uma pessoa e
eu já
falei pra Dadi...
- E é algo muito importante?
- É sim... – responde melancólica.
- Well, nesse caso
você pode usar o jeitinho americano e pedir enquanto
cortamos o primeiro pedaço de bolo, que tal?
- Yes! – reagiu sorrindo.
- Entao vá chamar o
padrinho para que o pedido seja
mais forte...
- Tá! – exclamou e
saiu saltitante em busca de John.
- Então você sabe do pedido de nossa pequena Dadi...
- Ela contou sem
querer, dona Liz – explica-se Dadi, toda sem graça.
- E qual é esse pedido
cheio de segredos?
Dadi já ia abrir a boca
quando Alex retorna com John.
- Well, wel, well, tem alguém
aqui com muita pressa em
cortar um bolo para fazer um pedido!
Então enquanto Joana cortava
o bolo, Alex fechava os olhos e
refazia seu pedido.
Serviram-se todos e
momentos depois Alex quis mais
bolo e Liz serviu outro
pedaço à Alexandra, ignorando o
descontentamento de Dadi.
- A senhora não
devia dar mais
bolo a ela, Dona Elisabeth!
- Sou a madrinha dessa menina, Dadi. Minha função é mima-la mesmo!
- Ela não
vai querer jantar e Rosa vai ralhar
comigo.
- Rosa ralhar com você? – diz Joana sorrindo... – Essa eu
quero ver!
- Ah Dadi, o jantar é só de noitão e eu tô com fome agora! – reclama Alex
- E ainda é cedo, nem
cinco horas! Pode comer, darling!
Alex olhou mais uma
vez para Dadi, lembrando-se
da regra “obedecer Dadi”, dos pais.
- Está bem, você venceu, menina! Pode comer.
- Yes! – respondeu alegre, pegando o pedaço de bolo com a mão
e mordendo-o. – “Vamo lá termina” o
quebra-cabeça padrinho?
- E então, Dadi... Qual é
o desejo de nossa menina?
- Dona Liz eu não devo contar...
- Oras Dadi! Sabemos que é um segredo dela, mas somos
todas adultas, ninguém vai sair falando por aí que sabe! – diz
Joana.
. Vamos, Dadi, estamos
curiosas e talvez seja algo que
uma de nós possa fazer.
- Não, nós não podemos mas Claude e Rosa sim. E ao que tudo
indica, sem saber já atenderam o pedido
de Alex, mas ela ainda não sabe.
Liz e Joana demoraram alguns instantes para
entender a mensagem implícita na fala de Dadi. Olharam uma para a outra e Liz falou primeiro:
- Rosa está grávida?
- Sim. Mas só vão
contar após a ultrassonografia. Eu descobri por acaso. Rosa teve um enjoo e não deu pra disfarçar...
- Que maravilha! Um bebê por
perto novamente! – Diz Joana.
- Vocês duas vão
fingir que não sabem de nada. –
pede Dadi.
- Sobre o que? – diz
Liz sorrindo – Joana você está sabendo de alguma coisa?
- A única coisa que
sei, é que vou lavar essa louça.
Então Alex entrou na
cozinha, chamando todas para ver o quebra cabeça
montado.
PSV
Contrariando as previsões
de Dadi, Alex não só comeu como
passou todo o jantar relatando suas aventuras
com os padrinhos.
Mas recusou a sobremesa e pediu consentimento para ir ao
quarto, “falar” com Serafina.
Momentos depois, quando Rosa
entrou no quarto a encontrou dormindo.
Por sorte já tomou banho por lá, pensou Rosa, acomodando-a
melhor.
Ao voltar para a sala, Claude colocava
Dadi a par da nova situação de Louise.
- Você gostaria de ir até lá Claude?
- Não, chèrrie. Por isso pedi a Frazão que retorne.
- Tem certeza?
- Ouí. França só para
nossas férias, d’accord?
- D’accord. –
concordou com um sorriso antes de darem
boa noite a Dadi e se recolherem.
PSV
Nara pausou o vídeo e abaixou a tela do notebook.
Que “boa” notícia para a segunda-feira, depois de uma
noite tão maravilhosa! – pensou
levantando-se, inquieta.
- Incrível como ela
consegue nos perturbar a tantas
milhas de distância!
- Não se deixe perturbar, Nara. – diz Claude aproximando-se
e abraçando-a - Os erros são de Louise, não nossos.
- O que vai acontecer
com ela, Claude? - pergunta com a voz
embargada.
- Ela pode ser acusada
formalmente e indiciada pelas
autoridades francesas. Então caberá a ela provar que é inocente.
- Mas ela não é
inocente, não é? Você percebeu e por
isso abandonou a vida politica
que tinha...
- Ouí, foi por isso
mesmo; pelas incoerências, pelo método não convencional de
Louise.
- Eu não queria sentir nada. Sei que ela agiu mal,
inclusive com você e Rosa... Mas ela é
minha mãe e eu não gostaria de vê-la atrás das grades! – exclamou afastando-se até a
janela.
- Acalme-se petit. Essa história envolve muita gente poderosa e talvez nada do
que eu disse aconteça hã?
- Acha que devo
ir com Frazão? – pergunto sem se
voltar.
- Embora eu creia que não, a decisão é sua. Mas lembre-se, a imprensa não dará
trégua a você se a encontrar, Nara.
- Você está certo. – afirmou ela depois de
alguns minutos - É melhor eu
ficar e ajuda-los com a galeria.
- Merci, Nara. É bom se preparar, pois vai ficar
no lugar de Janete, hã?
- Voilà, então finalmente ela
aceitou o pedido de Frazão!
- Você sabia e não os
falou nada?
- Ela pediu segredo,
d’accord? – diz esforçando-se para
sorrir e esquecer Louise.
Então Rosa entra, com um
envelope pequeno nas mãos.
- Adivinhem o que eu tenho aqui?
- Uma intimação por
causa de nossa denúncia sobre
Roberta.
- Não. A propósito o delegado com quem falamos saiu de férias e o substituto disse a Rodrigo
que irá investigar o caso assim que possível, pois está
com falta de agentes.
- Mas era só o que faltava!
- reclama Claude. – Bien, então o que tem aí?
- É um convite de casamento e não é da Janete, hum?
- Mon Dieu, não faço ideia chèrrie...
- Eu menos! – Comenta Nara.
- Estamos convidados
para ser padrinhos de Freitas e Erci,
Claude!
- Olalá! Acho que fui quase um Cupido, hã? Quando será?
- Em trinta dias, uma
cerimônia civil apenas e uma pequena
recepção depois.
- Se o jardim estivesse inteiramente remodelado poderiam se
casar como nós casamos, hã? – comenta Claude puxando-a pela cintura, colando
seus lábios aos de Rosa.
Nara sai discretamente
da sala.
- Se ficar me beijando perderemos o horário da consulta... –
murmura Rosa.
- Temos... dois minutos antes
de sairmos. – afirma olhando seu relógio de pulso por cima dos
ombros dela. – Tempo suficiente para
mais de um beijo mon amour...
PSV
Com a ida de Frazão e
Janete à França, Silvia deixou de ser a babá de Alexandra e passou a integrar o grupo Athena, dividindo com Nara a recepção
e o secretariado da galeria.
A princípio Alex ficou
triste, mas logo foi consolada
com a notícia de suas férias na
escola e a possibilidade de
passar algumas tardes no ateliê.
Estava ansiosa pois
seria outra vez a noivinha
de um casamento, dessa vez de sua médica, a doutora
Erci. Desde que entrara na
escola, fora aos poucos deixando de
chamar as pessoas de “tia” e “tio” e, quando não sabia como chama-las, recorria aos pais primeiro. Em
toda sua ansiedade, Alex há vários dias esquecera
de falar e cobrar seu pedido à velinha.
Da França não chegavam
boas notícias. As denúncias contra Louise só aumentavam. Além do La
Voix de Paris, outros jornais
bombardeavam diariamente a vida política e pessoal de Louise, trazendo à tona suspeitas do passado,
lançando a dúvida se ela não
seria mesmo a responsável pela
morte do marido François Geraldy (acusado de fraude, superfaturamento e
corrupção), quando tentou interceder a
seu favor e ao que parece, à época
envolveu-se intimamente com os dois promotores que decidiriam o futuro
de François.
A mídia televisiva mais marrom e sensacionalista pegava
carona e chegava ao ponto de levantar
a hipótese de Louise ser a
responsável pelo atentado que vitimara a primeira esposa
de Francois, Simone Geraldy.
A opinião pública já começava
a pressionar seus líderes
nas câmaras, para que Louise fosse afastada e investigada. Louise perdia
aos poucos o apoio de seu partido, de parceiros, de amigo e simpatizantes,
evitando aparecer em público, principalmente
depois da última palestra em
que saíra vaiada
do auditório de uma faculdade.
Frazão e Gurgel tentavam impedir que a situação abalasse o prestigio das empresas e, embora as ações houvessem perdido
valor na
bolsa de Paris, nenhum
funcionário havia sido demitido, nem havia
previsão de acontecer. E isso era o que
contava, como ouvira de Claude.
Janete sempre acompanhava
Frazão e o ajudava como conseguia, já que não dominava o francês fluentemente. Sentia
falta e saudades dos amigos brasileiros, mas esforçava-se a cada
dia para se adaptar à rotina francesa.
PSV
Estavam numa sexta
feira, a quinze dias do casamento de Erci e Freitas. Claude
acabara de pegar Rosa e Alex no ateliê
de costura para a prova
do vestido que ela usaria na
cerimônia.
Embora não fosse uma cerimônia religiosa, Erci fizera questão que
sua dama de honra estivesse
caracterizada como tal.
Alex passou boa parte
do caminho tentando explicar ao
pai como era seu vestido, sem êxito.
- É um vestidinho branco e comprido até o seu pé, acertei?
- Ah, mon Dieu papai... Não! Ele é cheio de coisinhas pra enfeitar
ele, assim ó... – e fazia
gestos com os dedos. - Por que
você chegou só depois que eu
tirei o vestido? – perguntou colocando as mãos
na cintura, mesmo sentada na cadeirinha.
- Pardon mademoiselle Alexandra! – exclamou com um sorriso no
canto da
boca – Mas eu tinha um assunto
urgente para resolver, hã?
- Humm... – resmingou
fazendo bico – Mas no outro dia você
vem né? Vai ser a... a.... Como é
mesmo que fala mamãe?
- Vai ser a prova final, querida. – explicou Rosa.
- Eu prometo que irei com você, pequena. – respondeu Claude
olhando-a pelo retrovisor.
- O assunto foi resolvido papai? – perguntou Rosa quase num sussurro.
- D’accord. Podemos fazer
a revelação hoje mesmo... –
respondeu no mesmo tom.
- Voilà! – murmurou Rosa sorrindo e levando as mãos ao seu
abdômen.
- Ah, por que
vocês tão cochichando? Quando
eu falo isso vocês “fica”
bravo comigo...
Claude e Rosa se olharam e riram.
- Tem toda razão meu amor. Não vamos mais
cochichar, ok?
Mais tarde, já em casa, todos
na cozinha, Alex brincava de mandar
mensagens para Claude enquanto Rosa e Dadi preparavam o jantar.
- Chega de figurinhas, pequena. O papai vai te mandar
um vídeo, d’accord?
- Yes! É da Elsa e do Frozen? – pergunta Alex, curiosa.
- Não. É algo muito melhor que isso, hã? Pronto. Já pode ver o que é.
Alex esperou que o vídeo
carregasse e olhou atenta as imagens, enquanto Rosa se aproximava
dos dois.
- O que que é isso... Ah já sei! É aquele
filminho que o médico faz “dos bebe”... “Eles é” tão pequenininho né,
papai?
- Tem que ser, hã?
- Ih, mas tá cheio de coisa escrita, você lê pra mim?
- D’accord. Vamos
reiniciar o vídeo...
“Oi pessoal, olha eu aqui
(...) Estou com doze semanas (...) Minha mamãe e meu papai estão cuidado muito de mim (...) Estou com quase sete centímetros (...) Perceberam como sou serelepe? (...) Meu coração é muito forte e já está cheio de amor (...) Agora eu vou contar
um segredo eu sou sua irmãzinha, Alexandra, e não vejo a hora de estar
com você (...)
Alex olhou espantada para
Claude, depois para Rosa. Então cobriu a
boca com as mãos, antes de olhar para
Dadi e exclamar
- A velinha ouviu o meu pedido!
Depois... Bem, depois foi só festa, abraços e beijos...
PSV
Continua...


2 comentários:
Que coisa mais linda gente.. <3.. Alex é demaisssss... <3.. Tenho medo dessa pausa de Roberta..caracassssssss vejo um tornado tão grande a vista.. :S..
Ta sensacional Soniauska.. Quero maisssssss.. Pq tô em dia..hahahahhaha
amei!!!!
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