PSV
Claude deixou o Ministério de Trabalho e Emprego com as cópias
dos documentos e o protocolo do pedido
de regularização de visto. Passava das dezenove horas.
Poderia ter recorrido ao escritório de Júlio, mas preferiu fazer tudo pessoalmente e acompanhar
de perto o processo. Ainda havia alguns
documentos pendentes, como
comprovante de endereço e residência, que dependiam do registro do imóvel no seu nome.
Entrou no apartamento e deixou a pasta sobre um móvel,
desfazendo o nó da gravata em seguida.
- Que bom que chegou! – Disse Dadi entrando na sala – Frazão
já ligou várias vezes, diz que quer falar urgente com você e seu
celular só dá caixa postal.
- Eu desliguei enquanto resolvia sobre meu visto, Dadi. Por falar nisso,
precisamos ver o seu, hã?
Disse isso e pegou o celular, reparando em todas as ligações
perdidas.
- Mon Dieu, mais de oito chamadas perdidas! – Exclamou contatando Frazão –
Espero que não seja nada com Nara...
Frazão, boa noite mon ami!
- Claude, até que
enfim, cara!
- O que aconteceu, Frazão? Por que essa urgência em falar comigo, alguma
coisa aconteceu a Nara?
- Aconteceu Claude. Ela encontrou uma pasta com recortes de jornais,
revistas e fotografias de quando
seu pai foi processado.
- Mas como? Eu destruí todos esses recortes, quem me ajudou
foi a... Roberta! Eu não devia ter confiado nela quando disse que
queimaria tudo. O que
foi que Nara leu, Frazão?
- Pouca coisa. Se fixou mais nas imagens e em seguida me
procurou. Por que Roberta guardaria isso
por todos esses anos?
- Não encontro explicação. Mas se Nara encontrou isso na biblioteca, foi obra de
Roberta.
- Não entendo... Não faz sentido.
- O que não faz sentido é Roberta ter guardado essa pasta. E com que intenção a
fez cair nas mãos de minha irmã.
- Se a intenção era provocar um desentendimento entre Louise
e Nara, não conseguiu. Nara não disse a
ela nada sobre isso. E eu não tive
escolha, contei como tudo aconteceu menos a participação de Louise.
- Frazão, por mais
delicado que seja, conte a Nara,
por favor. E combine a vinda dela ara
cá. Vamos antecipar tudo.
- Quer que eu conte até sobre Louise e Bernard?
- Ouí. – Responde Claude sério, depois de
uma pequena pausa. – Assim não
restarão dúvidas para Nara.
- Falarei com ela amanhã mesmo, mon ami.
- D’àccord. E me ligue em seguida. Merci, Frazão. E bonne
nuit, hã?
- Boa noite pra você
também, Claude. Au revoir.
PSV
Alexandra virou a página
do livro e continuou ‘lendo’ a
história para Rosa:
- Daí o ‘príncepe’ veio e ele chamou: Rapunzel! Rapunzel!
Joga suas tranças! Dai a bruxa jogou as tranças e ficou esperando o príncipe subir
e dai quando ele tava lá em cima perto da janelinha da torre, a bruxa malvada
soltou as tranças e ele caiu no espinho e
ele ficou cego.
Olhou para Rosa, conferindo se a mãe prestava atenção e virou
mais uma página.
- O ‘príncepe’ ficou andando pela floresta muito triste até
que um dia chegou no deserto ‘ca’ Rapunzel vivia com seus filhos. Daí eles se
abraçaram e a Rapunzel chorou e ‘as lágrima’ dela caíram no olho dele e o ‘príncepe’
enxergou tudinho de novo. E daí eles
foram morar no castelo dele e daí eles viveram felizes para
sempre. Fim. – Concluiu sorrindo e fechando
o livro graciosamente.
- Muito bem Alex! Você
está lendo cada vez melhor, hum? – Incentivou-a Rosa, guardando o livro e
arrumando a coberta sobre a filha.
- A Rapunzel e os ‘filhinho’ dela também ficaram ‘sozinho’
até o ‘príncepe’ dela encontrar eles,‘ingual’
a gente né mamãe?
- Alex, nossa vida não é igual a um conto de fadas, meu anjo!
- O meu papai é um
‘príncepe’ sim, você vai ver quando ele
vier buscar a gente! – Afirma Alex
bocejando
- Está bem, princezinha do meu coração! Amanhã falaremos sobre isso porque hoje já passou da hora de
dormir, ok? Feche os olhinhos e peça
aos anjinhos que cuidem do seu
sono.
- Você fica comigo até
eu dormir de tudo, mamãe?
- Fico sim. – Respondeu Rosa, segurando a mão da filha.
E acabou dormindo também, embalada nas lembranças do dia...
PSV
Beto olhou mais uma vez para o relógio. Passava da meia noite e sentia-se exausto.
Talvez fosse hora de mudar o ramo de
atividade. Seguir pessoas e produzir
provas para adultérios, subornos e tantos outros motivos já
não lhe empolgavam mais.
No começo foi pura
adrenalina, até porque não foi pensado.
Um pedido de ajuda aqui, outro ali e quando se dera conta
estava trabalhando como detetive
e não como fotografo, sua verdadeira
profissão. Não podia reclamar, vivia confortavelmente e tinha o suficiente para se permitir alguns luxos. Sabia muito bem
para quem trabalhar e quanto cobrar
pelos seus serviços.
Mas ultimamente já não se sentia bem fazendo isso. E esses
últimos trabalhos entrelaçando-se
entre si não o agradavam em nada.
Observou atentamente as fotos separadas em três montes na mesa a sua
frente. Duas pessoas distintas interessadas nos passos de uma mesma terceira
pessoa.
Não estaria preocupado se a terceira pessoa fosse alguém
comum, como a maioria dos casos que solucionava: um homem infiel traindo a
esposa, ou o amante da esposa infiel.
Pegou o jornal e leu mais uma vez a manchete das colunas
sociais “Bernard Chermont, vice prefeito de Paris, a um passo do
noivado.”
Um fato normal não fosse a foto ao lado da dele. “A eleita foi Nara Geraldy, filha de Louise e François
Geraldy (in memorian). Louise assumiu as
funções do marido é uma das principais líderes
políticas da atualidade com influência em vários gabinetes e diretórios.
A escolha de Nara pode ser uma tática para que ela assuma o lugar da mãe algum
dia, já que a política parece estar no
sangue da família. (Para quem não se lembra, Claude Geraldy...”
A matéria continuava, mas Beto colocou o jornal ao lado das
fotos. Em tantos anos, nunca havia testemunhado nada parecido. Uma mãe traindo
a própria filha com seu genro antes
mesmo do casamento desta.
Roberta Vermont era amiga íntima da família e aparentemente
mantinha um caso com Bernard também.
Frazão Vasconcelos era administrador dos bens da família.
Seu sexto sentido pedia que abandonasse o caso. Mas sua
curiosidade o impelia a ir adiante. Por
trás dessa cortina de sexo podia ter muito mais como corrupção, suborno,
tráfico de influência. E Roberta parecia capaz de provocar um escândalo com
esses fatos.
Voilà! Não queria ser ligado de maneira nenhuma a isso, se tudo viesse a tona. Continuaria
com o caso algum tempo mais. Pelo menos até que o noivado fosse oficializado. E então mudaria de Paris e
voltaria a viver como fotografo apenas.
Colocou as fotos em três envelopes diferentes e guardou dois
em sua mochila. O terceiro guardou numa gaveta de sua mesa, junto com um pen
drive. Precaução nunca é demais.
PSV
O alarme do celular
vibrou e lembrou a Janete seu horário de
sair. Se saísse em até quinze minutos
daria tempo de finalmente pegar a primeira sessão e assistir o filme Divertida Mente. Estava ansiosa para apreciar a trama do que se passa dentro da mente de uma
pequena garota do ponto de vista das
suas emoções. Pelo trailer imaginava uma versão bem mais real com Claude, Rosa
e Alex. Sorriu de si mesma, e conferiu
a agenda da galeria, olhando para a sala
de Rosa.
Por incrível que
parecesse os dois estavam lá, conferindo a
saída de peças e selecionando novas
aquisições. Sem nenhuma discussão. Nenhum dos dois saíra batendo a porta e
respirando fundo.
Bom sinal. E na certa estão tão entretidos com essa
tarefa que acabaram esquecendo o
compromisso, pensou levantando-se com a agenda nas
mãos.
Bateu na porta e depois de ouvir um duplo “Entre”, abriu-a.
- Com licença! Já deu o
meu horário e...
- Pode ir Janete. Ainda vamos demorar mais uns... quarenta
minutos, não acha Rosa? – Falou Claude olhando rapidamente para o relógio.
- Ou um pouco mais...
- Eu sabia. – Afirmou Janete.
– Esqueceram-se totalmente do
compromisso de hoje! Vocês tem o jantar com
Egidio e Catarina Paranhos, às vinte horas e trinta minutos.
- Mon Dieu, os
curadores da exposição ‘4 do Renascinento’... – Diz Claude recostando-se
na cadeira, olhando para Rosa.
- Obrigada por nos lembrar mais uma vez Janete! – Agradece
Rosa, dispensando-a – Nos empolgamos
tanto nessa tarefa que perdemos a noção do tempo. Terminamos amanhã?
- Ouí. – Confirma Claude –
Do contrário não seremos pontuais. Eu a pego por volta das
vinte horas. – Diz levantando-se.
- Não precisa eu posso ir com meu carro ou...
- É um encontro de negócios, Rosa. Melhor chegarmos juntos, d’àccord? – Argumenta
Claude firme antes de ir para sua sala.
PSV
Louise esperou Nara encerrar
sua conversa ao celular.
- Não pode mais se esquivar
desses compromissos, Nara! –
Falava Louise olhando-a fixamente, enfurecida -
Oliver preparou a recepção pensando no
marketing eleitoral de Bernard.
- Mamãe, eu já me expliquei e pedi desculpas por não
acompanha-lo.
- Desculpas? Suas
desculpas não irão eleger seu noivo! É a sua presença que vai atrair simpatizantes, principalmente os jovens.
Nara suspirou profunda e pesadamente, antes de responder:
- Ele não é meu noivo.
- Oficialmente não. Ainda não. Francamente Nara, por que não pode colaborar
comigo?
- Porque francamente
eu não quero casar, muito menos com ele? – Responde irônica.
- Não me desafie, Nara! Vai fazer o que eu quero. E quero que
se case com Bernard.
Nara virou as costas
em direção a escada.
- Nara, volte aqui!
Não vire as costas para mim, Nara! Vai
por tudo a perder com esse comportamento!
Nara voltou-se para a
mãe:
- Quer saber? Por que você não se casa com ele? – Respondeu
segura de si.
- Menina estúpida! Você vai me obedecer e... Oh, Dieu, Elise,
meus comprimidos! Rápido, sua lerda, antes que eu tenha
uma síncope!
Nara ainda viu Elise aparecer
na sala com o frasco de comprimidos falsos da mãe. Por que ela insistia em
se fingir de doente?
Subiu a escada
refugiando-se no quarto e trancou a
porta, por precaução.
Falaria outra vez com Frazão. E se ele não viajasse com ela iria sozinha para o Brasil.
PSV
Continua 13/02

2 comentários:
Alex é tão lindinha gente! Parece comigo.. Uma lindeza.. **.. Klkkkkkkkk.. Quero maisssss
iden está ótinna.
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