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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

PSV/Capítulo 21

PSV


Rosa deu duas ou três  batidas na porta e entrou sem esperar  resposta.
- John, me perdoe! Levei Alex à pediatra e achei que chegaria  mais cedo.
- Algum problema  com ela?
- Não,  ela está ótima. Foi apenas  um retorno pós  cirurgia. Mas  o que importa agora  é  Liz.  O que está acontecendo com ela? – Pergunta sentando-se.
- Rosa, antes de falar sobre Liz, me diga por que  Claude e você estão se evitando hoje?
- Como assim “nos evitando”... De onde tirou essa ideia? – Falou disfarçando a nervosismo que a pergunta lhe causara.
- Você nunca se atrasa,  por mais tarefas que tenha.  E Claude não quis participar  dessa conversa com você. – Pausa -  O que aconteceu ontem a noite?
- Nada. – Diz Rosa cruzando as pernas -  O que poderia ter acontecido? E por que ele teria que estar presente  em nossa conversa sobre Liz?
John não respondeu de imediato. Por alguns segundos ficou olhando para Rosa, como se tentasse ler  seus pensamentos. Então finalmente se decidiu a falar.
- Porque vocês vão conviver mais intensamente daqui pra frente, sem a minha presença.
- O que quer  dizer  com conviver mais intensamente e sem a sua presença? Por acaso Liz está... está...
- Não Liz não está morrendo. – Completou John com o que Rosa não conseguia dizer. – Mas vai enfrentar outra batalha.  Um neuroma no cérebro, localizado no ouvido interno. Um tumor raro que apesar de não ser cancerígeno ou maligno deve ser retirado.
- Deus outra vez!  Exclamou condoída,  tentando evitar as lágrimas. -  E quando será?
- Em alguns dias, assim que Claude tiver a liberação do dinheiro e transferi-lo para a minha  conta.
- Claude? O que ele tema ver com... John, o que você fez? – Perguntou Rosa pressentindo algo. – Você não...
- Vendi as peças que estão em meu  nome para ele.
- Mas John,  essas peças, as  suas e as minhas, íamos leiloar para saldar o empréstimo e reaver as ações da galeria...
- Eu sinto muito Rosa. Não tenho outra opção!
- Claro que  temos! Eu vendo as minhas ações  para ele, posso  viver  com o valor do aluguel e se precisar, volto a lecionar!
- Eu agradeço a sua intenção, Rosa.  Elizabeth até previu que essa seria sua reação,  mas já a envolvemos demais nisso, não seria justo.
- Não seria justo eu deixar de ajuda-los nesse momento, depois de tudo que fizeram por mim! Por favor, John...
- Não adianta insistir, darling. Janete já separou os contratos de comodato das obras de arte. Além do mais, Liz e eu decidimos  viajar assim que  ela for liberada.
- Viajar? Vai abandonar tudo isso que  levaram anos para construir? Vai abandonar a todos nós?
- Não estou abandonando nada nem ninguém.  Veja,  - Diz  segurando as mãos de Rosa por  cima da mesa. -   também levei anos  construindo um relacionamento com Liz e de repente um... dois malditos tumores aparecem, ameaçando nosso futuro.  Quanto tempo para surgir outro  e mais outro? Viajar e se divertir vai fazer com que principalmente ela não se fixe nessa  perspectiva,  esperando sempre o pior...
- Você está certo, desculpe, foi egoísmo meu!
- Não, isso é  sua generosidade falando, Rosa. Ou, como diria Augusto Comte, é o seu altruísmo, sua capacidade de  fazer algo sem querer nada em troca, mesmo se prejudicando.
Rosa levantou e caminhou até a janela, onde ficou olhando para  fora, tentando controlar suas emoções e não chorar.   John e Liz eram o alicerce de sua vida,  o ponto de referência, o caís seguro depois  da tempestade...
E conviver  com Claude seria tempestuoso. Pensar que esteve a ponto de contar a ele sobre Alexandra! Mas  como,   depois de  tudo que ouvira na noite passada?
Eu, amante de John! Que ideia mais absurda e... Claro! Agora começava a entender.  Ele estava comprando as peças não para ajudar John,  mas para tirá-lo de perto dela!
Com que pensamento doentio ele  chegara a conclusão que  eram amantes e  John o pai de  Alexandra? Ah, Claude, será que você não é capaz de um simples cálculo matemático?
Não podia deixar que John ou Liz soubessem,  pois John recuaria o dinheiro de Claude e não haveria tempo de conseguir o mesmo  com outro investidor.
Está  tentando me  humilhar por vingança... Mas por quê? Por que  importava a ele se ela tinha ou não um amante? Não fizera exatamente o que ele pediu anos atrás, mesmo tendo dentro de si o fruto daquele amor?
Amor?! –  Foi a última coisa que  conseguiu pensar sem conter um  soluço, lágrimas e o tremor pelo corpo.
- Rosa! – Exclamou John levantando-se rapidamente e abraçando-a. – Não é tão grave assim, vai ficar tudo bem! 
- Eu sei! – Murmurou querendo convencer-se disso -  Vamos sair dessa juntos,  outra vez. – Conclui descansando por um momento  sua cabeça no ombro dele. – Eu faria  qualquer  coisa para ajudar você, sabe disso não é?
- Sei sim, darling!
Então a levantou, recomposta. E encontrou no caminho  o olhar  duro de Claude.
-  Pardon, não queria incomoda-los. – Desculpou-se num tom frio e impessoal - Devia ter batido na porta antes de entrar. – E foi afastando-se para sair.
- Que isso a sala é sua Claude! E não nos incomodou, já terminamos, não é Rosa? – Argumentou John,  soltando-a.
- Sim... – Foi tudo que conseguiu pronunciar, fugindo do olhar acusador que Claude  lançava a ela.
- Bem, eu tenho que  voltar ao hospital e...
- Posso visitar Liz?
- Claro. Ela está internada apenas  por precaução, vai adorar  vê-la! E se puder levar Alexandra...
- Se o  hospital permitir.
- Falarei com Afrânio, tenho certeza que liberam. E Claude quando quiser retirar as peças, caso eu não  esteja, Rosa tem as chaves do meu apartamento e poderá acompanha-lo.
- Não se preocupe, não tenho pressa quanto a isso.
- Ok. Então... Até logo!
Claude foi até a mesa e abriu uma das gavetas, procurando por algo, ignorado a presença de Rosa na sala. 
- Claude... – Sua  voz saiu fraca e tremida. E se  Claude havia escutado  fingiu muito  bem que não. 
Droga, ele não vai colaborar! – Pensou Rosa, enchendo os pulmões de ar,  como se isso  trouxesse  a coragem que necessitava.
- Claude – Disse mais alto e com a  voz  firme – Eu preciso falar com você e tem que ser agora! – E levantou a cabeça,  decidida.
Claude  permaneceu sentado e imóvel.  Segurava um papel entre as mãos, que  cobria  o seu rosto, impedindo que Rosa  visse  sua reação.
- Mas não foi você quem disse que não tínhamos nada a nos falar? -  Respondeu perguntando, sem tirar os olhos   do papel.
-  Sim eu falei isso ontem mas eu não sabia, não tinha  ideia que John fizesse essa... Essa loucura de vender suas peças particulares agora!
- Ele precisa de dinheiro agora. – Continuou sem encara-la -  Mais do que de você eu diria.
Foi a  vez dela ignorar o sarcasmo e o duplo sentido daquelas  palavras.
- Será que  você pode deixar nossas diferenças de lado por um instante e me ouvir? Eu quero que  você fique  com as minhas  ações no lugar das peças.

Claude finalmente abaixou a folha para o lado e olhou Rosa, como se  avaliasse uma  obra de arte, medindo e anotando mentalmente  cada movimento  dela.









- Faria qualquer  coisa mesmo para  ajudar o seu a...migo e a esposa dele?
- Sim. Qualquer  coisa. Até me desfazer dessas ações. – Afirmou ignorando a ironia.
- D’àccord... E desse modo limpar a sua  consciência.
- Minha consciência é mais limpa que a sua! Estou lhe dando a oportunidade de me ver longe  daqui, que é o que parece ser o seu desejo!
-  Ah,  você agora adivinha os meus  desejos? Por que não tenta  adivinhar meus pensamentos?
- Eu não tenho por que adivinha-los! A única   coisa que tenho que fazer  é salvar a...
- A sua futura galeria, eu sei. É isso que importa na verdade não é?
- Seus pensamentos estão tão sujos  quanto a sua consciência! Eu ia  dizer salvar a   coletânea de John e Liz!
- Boa saída.  A sua proposta também é muito boa. Mas eu não desejo vê-la longe daqui. Ao contrário.  Por isso, tenho uma  proposta melhor. – Faz uma pausa, que para Rosa  pareceu durar anos.
 -  Quer salvar a “sua” galeria? – Disse Claude -  Volte a ser a senhora Geraldy. Eu assumo até mesmo a  filha que teve  com seu amante.
- Você enlouqueceu,  eu não posso voltar a ser a senhora Geraldy!
- Por que não?
- Porque... Porque não nos casamos oficialmente! - E virou de costas para que ele não visse sua angustia. -  Portanto, eu nunca  fui ‘sua senhora’ para voltar a sê-lo. 
-  Mon Dieu, como você  pode falar assim?  Faz tudo que vivemos parecer sem valor, sem  importância... – Afirma Claude levando as mãos à cabeça.
Voltou-se para ele e disse o  mais friamente  que  conseguiu:
 - Você   com essa aliança no dedo falando em importância do que vivemos? – Pergunta mal acreditando no que  ouvia -  Se a sua consciência não o impede, sua esposa  com certeza impedirá que essa proposta seja  colocada em prática. Falando nisso, como ela está? – Concluiu acentuando o tom de ironia.
Claude juntou os lábios, forçando uma linha curva e um sorriso sarcástico apareceu em seguida. Postou a mão esquerda diante de si e olhou para a aliança com  desprezo, antes de falar:
- Essa pessoa está morta. Portanto, não há nada, nem ninguém que nos impeça.
- Eu não posso fazer isso! Como vou explicar  a Alexandra, a todos sobre  você?
- Pode criar uma versão romântica e fantasiosa de nossa relação.  Amor à primeira vista! Vai ser muito mais fácil, que explicar a todos como se tornou amante de John Smith.
- Por que  insiste nisso, Claude?
- E por que você insiste em negar, Rosa? Se recusar minha oferta será a única prejudicada, uma vez que John e Elisabeth sairão em viagem. Sua reputação ficará abalada, perderá o prestígio e  respeito que  conquistou. Pense bem. Seria um choque para sua  filha saber que o pai sempre esteve  presente e nunca a reconheceu.
- O Claude que   conheci não faria isso! – Murmurou abalada.
- O Claude  que   conheceu também morreu. Espero sua resposta amanhã de manhã. Não se atrase. – Concluiu saindo da sala.
Atravessou o  saguão e informou Janete que não voltaria mais a galeria naquele dia.
Assim que ele deixou a galeria, Janete foi a procura de Rosa. Encontrou-a na sala de Claude,  olhando pela  janela.
- Rosa, John ligou e disse que Alex está autorizada a ver Liz... Rosa? Está me ouvindo? – Insiste diante da aparente indiferença dela.
- Sim, eu ouvi – Responde voltando-se para a amiga. – Me desculpe eu estava um pouco longe daqui...
- Algum  problema com a galeria, você e Claude discutiram? Ele parecia deprimido ao sair daqui.
- Deprimido? – Repetiu Rosa -  Não ele deve estar se sentindo vitorioso Janete, não deprimido.
- Vocês discutiram? – Insiste Janete.
- É,  vamos  dizer que tivemos uma “DR” em relação a galeria. Mas não se  preocupe, eu vou me ajustar a essas  divergências de opinião.
- Por que  tenho a sensação que você está se explicando com uma espécie de código?
Rosa se esforçou ao máximo e sorriu ates de dizer:
- Impressão sua querida. - E então pegou sua  bolsa. – Eu não  volto mais hoje, ok?
- John não  volta, Claude não  volta e agora você diz a mesma coisa...
- Ah, ele também disse isso... Bem,  não será a primeira vez que a galeria fica  sob os seus cuidados. Até amanhã e não fique além do seu horário.
- Até! – Respondeu Janete enquanto organizava a mesa.
Quando saiu da sala, Sérgio veio ao seu encontro.
- O que houve  com Rosa? Ela nem quis apreciar o resultado das aulas de hoje!
- Sério? -  Comentou pensativa antes de sorrir – Sérgio, eu acho que alguém está derrubando os muros dela...



PSV


                            Continua 21/02

1 comentários:

Débora disse...

Que proposta hein francês...kkkkkkkk.. Já quer né?!?! kkkkk.. maisssssss

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