PSV
Rosa deu duas ou três batidas
na porta e entrou sem esperar resposta.
- John, me perdoe! Levei Alex à pediatra e achei que
chegaria mais cedo.
- Algum problema com
ela?
- Não, ela está ótima.
Foi apenas um retorno pós cirurgia. Mas
o que importa agora é Liz. O
que está acontecendo com ela? – Pergunta sentando-se.
- Rosa, antes de falar sobre Liz, me diga por que Claude e você estão se evitando hoje?
- Como assim “nos evitando”... De onde tirou essa ideia? –
Falou disfarçando a nervosismo que a pergunta lhe causara.
- Você nunca se atrasa,
por mais tarefas que tenha. E
Claude não quis participar dessa
conversa com você. – Pausa - O que
aconteceu ontem a noite?
- Nada. – Diz Rosa cruzando as pernas - O que poderia ter acontecido? E por que ele
teria que estar presente em nossa
conversa sobre Liz?
John não respondeu de imediato. Por alguns segundos ficou
olhando para Rosa, como se tentasse ler
seus pensamentos. Então finalmente se decidiu a falar.
- Porque vocês vão conviver mais intensamente daqui pra
frente, sem a minha presença.
- O que quer
dizer com conviver mais intensamente e sem a
sua presença? Por acaso Liz está... está...
- Não Liz não está morrendo. – Completou John com o que Rosa
não conseguia dizer. – Mas vai enfrentar outra batalha. Um neuroma no cérebro, localizado no ouvido
interno. Um tumor raro que apesar de não ser cancerígeno ou maligno deve ser
retirado.
- Deus outra
vez! Exclamou condoída, tentando evitar as lágrimas. - E quando será?
- Em alguns dias, assim que Claude tiver a liberação do
dinheiro e transferi-lo para a minha
conta.
- Claude? O que ele tema ver com... John, o que você fez? –
Perguntou Rosa pressentindo algo. – Você não...
- Vendi as peças que estão em meu nome para ele.
- Mas John, essas
peças, as suas e as minhas, íamos
leiloar para saldar o empréstimo e reaver as ações da galeria...
- Eu sinto muito Rosa. Não tenho outra opção!
- Claro que temos! Eu
vendo as minhas ações para ele,
posso viver com o valor do aluguel e se precisar, volto a
lecionar!
- Eu agradeço a sua intenção, Rosa. Elizabeth até previu que essa seria sua
reação, mas já a envolvemos demais
nisso, não seria justo.
- Não seria justo eu deixar de ajuda-los nesse momento,
depois de tudo que fizeram por mim! Por favor, John...
- Não adianta insistir, darling. Janete já separou os contratos
de comodato das obras de arte. Além do mais, Liz e eu decidimos viajar assim que ela for liberada.
- Viajar? Vai abandonar tudo isso que levaram anos para construir? Vai abandonar a
todos nós?
- Não estou abandonando nada nem ninguém. Veja,
- Diz segurando as mãos de Rosa
por cima da mesa. - também levei anos construindo um relacionamento com Liz e de
repente um... dois malditos tumores aparecem, ameaçando nosso futuro. Quanto tempo para surgir outro e mais outro? Viajar e se divertir vai fazer
com que principalmente ela não se fixe nessa
perspectiva, esperando sempre o
pior...
- Você está certo, desculpe, foi egoísmo meu!
- Não, isso é sua
generosidade falando, Rosa. Ou, como diria Augusto Comte, é o seu altruísmo,
sua capacidade de fazer algo sem querer
nada em troca, mesmo se prejudicando.
Rosa levantou e caminhou até a janela, onde ficou olhando
para fora, tentando controlar suas
emoções e não chorar. John e Liz eram o alicerce de sua vida, o ponto de referência, o caís seguro
depois da tempestade...
E conviver com Claude
seria tempestuoso. Pensar que esteve a ponto de contar a ele sobre Alexandra!
Mas como, depois de
tudo que ouvira na noite passada?
Eu, amante de John! Que ideia mais absurda e... Claro! Agora
começava a entender. Ele estava
comprando as peças não para ajudar John,
mas para tirá-lo de perto dela!
Com que pensamento doentio ele chegara a conclusão que eram amantes e John o pai de
Alexandra? Ah, Claude, será que você não é capaz de um simples cálculo
matemático?
Não podia deixar que John ou Liz soubessem, pois John recuaria o dinheiro de Claude e não
haveria tempo de conseguir o mesmo com
outro investidor.
Está tentando me humilhar por vingança... Mas por quê? Por
que importava a ele se ela tinha ou não
um amante? Não fizera exatamente o que ele pediu anos atrás, mesmo tendo dentro
de si o fruto daquele amor?
Amor?! – Foi a última
coisa que conseguiu pensar sem conter
um soluço, lágrimas e o tremor pelo
corpo.
- Rosa! – Exclamou John levantando-se rapidamente e
abraçando-a. – Não é tão grave assim, vai ficar tudo bem!
- Eu sei! – Murmurou querendo convencer-se disso - Vamos sair dessa juntos, outra vez. – Conclui descansando por um momento
sua cabeça no ombro dele. – Eu
faria qualquer coisa para ajudar você, sabe disso não é?
- Sei sim, darling!
Então a levantou, recomposta. E encontrou no caminho o olhar duro de Claude.
- Pardon, não queria
incomoda-los. – Desculpou-se num tom frio e impessoal - Devia ter batido na
porta antes de entrar. – E foi afastando-se para sair.
- Que isso a sala é sua Claude! E não nos incomodou, já
terminamos, não é Rosa? – Argumentou John,
soltando-a.
- Sim... – Foi tudo que conseguiu pronunciar, fugindo do
olhar acusador que Claude lançava a ela.
- Bem, eu tenho que
voltar ao hospital e...
- Posso visitar Liz?
- Claro. Ela está internada apenas por precaução, vai adorar vê-la! E se puder levar Alexandra...
- Se o hospital
permitir.
- Falarei com Afrânio, tenho certeza que liberam. E Claude
quando quiser retirar as peças, caso eu não
esteja, Rosa tem as chaves do meu apartamento e poderá acompanha-lo.
- Não se preocupe, não tenho pressa quanto a isso.
- Ok. Então... Até logo!
Claude foi até a mesa e abriu uma das gavetas, procurando por
algo, ignorado a presença de Rosa na sala.
- Claude... – Sua voz
saiu fraca e tremida. E se Claude havia
escutado fingiu muito bem que não.
Droga, ele não vai colaborar! – Pensou Rosa, enchendo os
pulmões de ar, como se isso trouxesse
a coragem que necessitava.
- Claude – Disse mais alto e com a voz
firme – Eu preciso falar com você e tem que ser agora! – E levantou a
cabeça, decidida.
Claude permaneceu
sentado e imóvel. Segurava um papel
entre as mãos, que cobria o seu rosto, impedindo que Rosa visse
sua reação.
- Mas não foi você quem disse que não tínhamos nada a nos
falar? - Respondeu perguntando, sem
tirar os olhos do papel.
- Sim eu falei isso
ontem mas eu não sabia, não tinha ideia
que John fizesse essa... Essa loucura de vender suas peças particulares agora!
- Ele precisa de dinheiro agora. – Continuou sem encara-la - Mais do que de você eu diria.
Foi a vez dela ignorar
o sarcasmo e o duplo sentido daquelas
palavras.
- Será que você pode
deixar nossas diferenças de lado por um instante e me ouvir? Eu quero que você fique
com as minhas ações no lugar das
peças.
Claude finalmente abaixou a folha para o lado e olhou Rosa,
como se avaliasse uma obra de arte, medindo e anotando
mentalmente cada movimento dela.
- Faria qualquer coisa
mesmo para ajudar o seu a...migo e a
esposa dele?
- Sim. Qualquer coisa.
Até me desfazer dessas ações. – Afirmou ignorando a ironia.
- D’àccord... E desse modo limpar a sua consciência.
- Minha consciência é mais limpa que a sua! Estou lhe dando a
oportunidade de me ver longe daqui, que
é o que parece ser o seu desejo!
- Ah, você agora adivinha os meus desejos? Por que não tenta adivinhar meus pensamentos?
- Eu não tenho por que adivinha-los! A única coisa que tenho que fazer é salvar a...
- A sua futura galeria, eu sei. É isso que importa na verdade
não é?
- Seus pensamentos estão tão sujos quanto a sua consciência! Eu ia dizer salvar a coletânea de John e Liz!
- Boa saída. A sua
proposta também é muito boa. Mas eu não desejo vê-la longe daqui. Ao contrário.
Por isso, tenho uma proposta melhor. – Faz uma pausa, que para
Rosa pareceu durar anos.
- Quer salvar a “sua” galeria? – Disse Claude
- Volte a ser a senhora Geraldy. Eu
assumo até mesmo a filha que teve com seu amante.
- Você enlouqueceu, eu
não posso voltar a ser a senhora Geraldy!
- Por que não?
- Porque... Porque não nos casamos oficialmente! - E virou de
costas para que ele não visse sua angustia. - Portanto, eu nunca fui ‘sua
senhora’ para voltar a sê-lo.
- Mon Dieu, como
você pode falar assim? Faz tudo que vivemos parecer sem valor, sem importância... – Afirma Claude levando as mãos
à cabeça.
Voltou-se para ele e disse o
mais friamente que conseguiu:
- Você com essa aliança no dedo falando em
importância do que vivemos? – Pergunta mal acreditando no que ouvia - Se a sua consciência não o impede, sua
esposa com certeza impedirá que essa
proposta seja colocada em prática.
Falando nisso, como ela está? – Concluiu acentuando o tom de ironia.
Claude juntou os lábios, forçando uma linha curva e um
sorriso sarcástico apareceu em seguida. Postou a mão esquerda diante de si e
olhou para a aliança com desprezo, antes
de falar:
- Essa pessoa está morta. Portanto, não há nada, nem ninguém
que nos impeça.
- Eu não posso fazer isso! Como vou explicar a Alexandra, a todos sobre você?
- Pode criar uma versão romântica e fantasiosa de nossa
relação. Amor à primeira vista! Vai ser
muito mais fácil, que explicar a todos como se tornou amante de John Smith.
- Por que insiste
nisso, Claude?
- E por que você insiste em negar, Rosa? Se recusar minha
oferta será a única prejudicada, uma vez que John e Elisabeth sairão em viagem. Sua reputação
ficará abalada, perderá o prestígio e
respeito que conquistou. Pense
bem. Seria um choque para sua filha
saber que o pai sempre esteve presente e
nunca a reconheceu.
- O Claude que conheci não faria isso! – Murmurou abalada.
- O Claude que conheceu também morreu. Espero sua resposta amanhã de manhã.
Não se atrase. – Concluiu saindo da sala.
Atravessou o saguão e
informou Janete que não voltaria mais a galeria naquele dia.
Assim que ele deixou a galeria, Janete foi a procura de Rosa.
Encontrou-a na sala de Claude, olhando
pela janela.
- Rosa, John ligou e disse que Alex está autorizada a ver
Liz... Rosa? Está me ouvindo? – Insiste diante da aparente indiferença dela.
- Sim, eu ouvi – Responde voltando-se para a amiga. – Me
desculpe eu estava um pouco longe daqui...
- Algum problema com a
galeria, você e Claude discutiram? Ele parecia deprimido ao sair daqui.
- Deprimido? – Repetiu Rosa -
Não ele deve estar se sentindo vitorioso Janete, não deprimido.
- Vocês discutiram? – Insiste Janete.
- É, vamos dizer que tivemos uma “DR” em relação a
galeria. Mas não se preocupe, eu vou me
ajustar a essas divergências de opinião.
- Por que tenho a
sensação que você está se explicando com uma espécie de código?
Rosa se esforçou ao máximo e sorriu ates de dizer:
- Impressão sua querida. - E então pegou sua bolsa. – Eu não volto mais hoje, ok?
- John não volta,
Claude não volta e agora você diz a
mesma coisa...
- Ah, ele também disse isso... Bem, não será a primeira vez que a galeria
fica sob os seus cuidados. Até amanhã e
não fique além do seu horário.
- Até! – Respondeu Janete enquanto organizava a mesa.
Quando saiu da sala, Sérgio veio ao seu encontro.
- O que houve com
Rosa? Ela nem quis apreciar o resultado das aulas de hoje!
- Sério? - Comentou
pensativa antes de sorrir – Sérgio, eu acho que alguém está derrubando os muros
dela...
PSV
Continua 21/02

1 comentários:
Que proposta hein francês...kkkkkkkk.. Já quer né?!?! kkkkk.. maisssssss
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