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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

PSV/Capítulo 24


PSV


Pouco mais de três horas  depois, Liz deixava o centro cirúrgico.  Como o período de recuperação é mínimo  no dia seguinte ela poderia retornar ao seu estilo de vida normal, e a única sequela seria um leve inchaço no local aonde houve a fixação do capacete.
Ressonâncias magnéticas seriam feitas a fim de certificar a  regressão do tumor,   combinados com sessões de audiometrias.
Já os exames de rotina, deveriam ser realizados aos seis meses, um ano, dois anos, três anos e quatro anos vindouros. Por sugestão de  Afrânio,  não esperariam seis meses. Fariam a primeira manutenção em três meses.



PSV



Quando Rosa retornou a galeria passava das treze horas. John já os havia  informado sobre Liz e Claude havia saído para almoçar.
Que bom que alguém tem apetite nessa história, pensou, depois de pedir a Janete que a avisasse assim que ele pusesse um de seus pés na galeria.
Janete  chegou a formular uma  brincadeira, mas a maneira séria com que Rosa falara a fez  se reservar. Pelo jeito, só derrubar os muros não seria suficiente. Claude teria muito trabalho com os resíduos dessa destruição.
Em sua  sala, Rosa  dedicou-se a  colocar     em dia os  papéis a seu alcance. Era muito mais  fácil que  colocar seus pensamentos em ordem. Largou os  papeis  sobre a mesa e  foi até a janela. Olhar para o céu sempre a acalmava.
E o céu hoje, assim como eu   não está ensolarado...
Iria sim,  se sujeitar à vontade  de Claude. Ele queria um casamento? Pois bem, ele o teria  mas com algumas  condições. A primeira delas seria um cont..  .
- Rosa, ele chegou! – Escutou o aviso de Janete pelo interfone.
Correu até a mesa e perguntou:
- Ele perguntou por mim?
 - Sim. E  foi direto para a sala dele.
- Ok. Obrigada, Janete.
Ficou por alguns instantes no mesmo lugar, como se o chão tivesse forças para prendê-la. Então, caminhou até a porta e segurou a maçaneta. Mas no meio do giro soltou-a e afastou-se de costas,  vagarosamente até bater  contra sua mesa. 
- Não pode desistir agora, Rosa, não pode!  – Falou a si mesma.  -  Admita que não está  com  medo de aceitar a  proposta dele, e sim de que ele  perceba o quanto ainda o deseja e... Ama. Mas isso  de amá-lo ele jamais vai saber!
Limpou uma lágrima teimosa que escapou de um dos olhos, apesar das várias  piscadas que deu.  Endireitou o corpo e decidida saiu.
Estava tão decidida quanto tensa.  Sua mão tremeu quando a levantou. Fechou o punho e deu uma batida na porta, abrindo-a, no mesmo instante em que escutava um “entre”.
- Ah, finalmente chegou! -  Ouviu depois que Claude olhou para  o relógio. -  Espero que essas horas a mais a  tenham feito  tomar a decisão certa.
- Sabe muito bem porque me atrasei.  – Explicou-se  sem  vontade - E a cirurgia  foi um sucesso, obrigada por perguntar. -  Completou sarcástica.
- Ouí. Foi  tão bem sucedida que  Elisabeth já voltou para o quarto. – Respondeu tranquilamente. -  Aliás,  um apartamento. Espaçoso, claro e arejado, pintado em tom pastel, com persiana automática, TV a cabo e conexão wi-fi. – Concluiu usando o mesmo tom de Rosa.
Ficou surpresa por  entender que ele havia ido até o hospital, mas não conseguiu se  conter:
- Claro, você  tinha que jogar na minha cara  o que o seu dinheiro está financiando.
- Foi isso que entendeu ou foi o que quis entender?
- Foi o que  você quis que eu entendesse!
- D’àccord.  Vamos parar  com essa discussão idiota e ir à que interessa.  Qual é a sua resposta?
- Eu aceito. Quero dizer, eu vou me submeter a  sua chantagem, mas... – Parou no meio da frase.
- Mas?
- Faremos um contrato. Eu quero um prazo. Reataremos nosso “casamento” por um tempo determinado. Com separação total de bens. Eu não quero nada que  venha de você.
- Sem chance.
 - Sem chance? Por quê? Contratos de casamentos são comuns...
- Mas o nosso não é  comum. – E recostou-se na cadeira. -  E não será necessário porque eu pensei no que disse, sobre não  termos nos casado. Você tem razão. Fomos apenas amantes e voltaremos a  ser apenas amantes.
- Você está indo longe demais! Eu não  vou ser sua amante!
- Vai sim. Caso contrário me obrigará a amortizar  os comodities da galeria que a Bolsa de Valores detém como depositária. Eu deixaria de ser apenas um investidor interessado nos lucros e passaria a ser  oficialmente o sócio majoritário,  o que  excluiria de vez o seu ‘ex-amante’ da jogada. Ou melhor, da galeria.
- Por que está fazendo isso? – Perguntou depois de um longo silêncio.
-  Por prazer,  oras! – E levantou-se aproximando-se dela. - Rosa! John vai viajar pelo mundo com a esposa – E acentuou o termo – Você vai ficar aqui, sozinha como eu. É questão de unir o útil ao agradável. Vai ver,  ou melhor, vai recordar que nos damos muito bem na cama.
Rosa virou as  costas para Claude,  fechou os olhos e respirou fundo, sentindo-se mal.  Por que segurava a vontade de  acertar o rosto de Claude como ele merecia?
- Estou esperando. Quero ouvir  que aceita.
- OK. Eu aceito. – Respondeu o  mais friamente que  conseguiu, sem olhar para ele.
- Perfeito. Encontros quando e na hora que eu quiser. - Afirmou voltando a sentar-se na cadeira.
Indignada com tanta frieza, juntou o que lhe restava de  forças e aproximou-se da mesa dele. Esperou até que ele a olhasse, e  embora seus olhos marejados dificultassem a visão,  encarou-o   e perguntou:
- Quando você se  tornou esse cafajeste?
- Melhor se perguntar ‘quem’ me  tornou um. – Respondeu levantando-se e deixando-a sozinha.



PSV



Rosa esperou o voo da  British Airways, para a Inglaterra, decolar e  sumir de vista, engolido pelo céu azul, quase dourado, do entardecer.  Um dia raro para a cidade de São Paulo, sempre tão devorada pela poluição.
Mais uma vez,  despediu-se mentalmente de John e Liz.  Na saída do   terminal, Alex   avistou uma  sorveteria na  praça de alimentação. Parou por lá e  segurando firme a mão de Alex esperou até ter o pedido atendido e então ocuparam uma das  simpáticas mesinhas disponíveis.





- Gostou de ver os aviões assim de pertinho?
- Gostei mamãe! – Respondeu Alex, lambendo o sorvete. -  Um dia você me leva  pra andar de avião?
- Levo sim  meu bem! Faremos uma viagem para... Para onde você quer ir?
- Hummmm.... – Resmunga Alex antes de  outra lambida - Pra um lugar que tiver castelo!
- Perfeito! – Concordou sorrindo para  a filha -  Iremos a um lugar cheio de castelos.
- E sorvete de morango! – Falou usando a colher, dessa vez.
- E sorvete de morango! – Concordou Rosa  - Com casquinha de chocolate. Acertei? 
- Aham. - Emendou Alex mordendo a casquinha. – A gente  vai pra galeria agora?
-Não, vamos para casa!
- Ah, que peninha, eu queria ‘vê’ o Claude. -  Explicou desapontada, ocupando-se com o resto do sorvete.
Claude.  Há dez dias sobressaltava-se a cada vez que ele a olhava ou  lhe  dirigia a palavra.  Mas sempre eram assuntos da galeria.  Até  quando ele a torturaria desse jeito?
Nem uma palavra, nenhum comentário, nenhum “encontro marcado em local e hora que ele quisesse...”
Quem sabe ele havia pensado melhor e desistido? 
- Pronto já acabei! – Exclamou Alex.
- Mamãe a gente ‘podi i’  eu já acabei! – Insistiu a menina.
-  Já acabou? Claro filha, podemos ir.



PSV


Frazão entrou no  apartamento enquanto falava  com Claude ao celular.
- É claro que não disse nada a ela, mon ami. Mas  você sabe o que penso...
- Não discordo de você. – Foi a resposta de Claude -   Só não sei se Nara suportaria descobrir essa verdade.
- Ela amadureceu muito Claude. Creio até que Louise está perdendo o  controle sobre ela.
- Assim espero. De qualquer modo não posso explicar por telefone.
- Não. E não pense que Nara se contentou com  a explicação que dei.  Ela vai procurar Claude, vai investigar e seria melhor saber  por você. – Argumentou sentando-se no sofá.
-  Ouí. Continue cuidando de Nara e das investigações por mim, Frazão.  Eu... Preciso de um tempo ainda, antes de trazê-la para cá.
-  Claude Antoine precisando de tempo? O que houve? Já  se encontrou com... Já se envolveu com alguém? – Corrigiu-se a tempo de pronunciar  o nome de Rosa.
- Não. Não me envolvi com ninguém. Au revoir, mon ami. – Escuta Claude falar rapidamente,  encerrando a ligação.
- Bonne nuit pra você também! – Exclamou olhando para o celular. – Só não pense que me engana francês...
Então deixou o  celular sobre  o aparador e foi para  o quarto.


PSV


Dadi viu quando Claude  guardou o  celular  e aproximou-se.
- Claude o que vai querer para o jantar?
- Nada Dadi, estou sem fome.
- Agora toda noite é isso. Vai acabar doente desse  jeito!
- Não vou não, Dadi. Mas obrigado por se preocupar, hã? Vou tomar um banho e tentar  dormir.
- Às oito horas da noite?
Claude olha para o relógio antes de responder.
- Voilà! Talvez  eu leia  um pouco ou assista a um filme então. Boa noite, Dadi.
- Boa noite. – Responde acompanhando-o com um olhar preocupado.
Quando saiu do banho, Claude encontrou uma bandeja sobre  o rack da televisão. Um lanche natural, um  copo duplo de suco e uma fruta. Sorriu pela preocupação de Dadi.  Pela manhã a agradeceria. Acabou tomando o suco. Quanto ao lanche, quem sabe mais tarde se sentisse fome.
Sentia-se frustrado por Rosa não ter voltado à galeria com a menina. Mas que  diabos! Por que me afeiçoei a ela?
Porque você ainda ama a mãe dela, foi a reposta que ouviu de si mesmo. É por isso também que está adiando trazê-la ao apartamento. Tem medo que ela  perceba isso.
Dieu! Como podia ama-la depois de tudo?  Não, o amor não fazia nem faria parte  do seu acordo com ela.  Continuaria  com seu plano. Rosa deve acreditar  que se trata de vingança. Vingança e nada mais.
Algumas  noites de sexo sem compromisso, tratando-a apenas  como amante e também se convenceria disso.




PSV

                                              Continua 02/03

1 comentários:

Débora disse...

Claude seu besta!aff..

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