Frazão seguiu pelo caminho de pedras e parou o carro em
frente a casa.
- Obrigada por me trazer, Frazão.
- Foi um prazer, Nara.
- Não quer entrar um pouco?
- Acho melhor não. Sua mãe não preza por minha amizade com Claude. Além do que
parece que Roberta esta aí. - Explicou-se
apontando para um carro estacionado mais adiante. – E eu não prezo por nada que venha dela.
- Sinceramente, ela também não me agrada. Quer saber, pode
dar a volta e me deixar na porta
dos fundos como Claude fazia?
- Claro que sim, mon
amie! – Respondeu colocando o carro em marcha e parando nos fundos
da mansão.
- Eu vou sentir muita
fala dele. – Comentou Nara abrindo a
porta do carro.
- Eu também. Mas se ele não voltar mesmo, vamos onde ele
estiver e matamos a saudade. Combinado?
- Combinado! – Respondeu Nara, segurando a vontade de chorar. – Bem, até qualquer hora e
de novo, obrigada por tudo!
- Conte sempre comigo.
Sabe que é minha irmãzinha do coração, não é? E prometa que se tiver problemas
com Louise, vai me procurar.
- Não sei por que você e Claude implicam tanto com ela!
- Não pode saber mesmo, querida. Estudar em um semi internato
a poupou de muitos aborrecimentos.
Apenas prometa que vai me procurar se a coisas mudarem entre vocês
duas.
- Está bem, prometido! – Afirmou despedindo-se dele com um
beijo no rosto. - Au revoir!
- Au revoir, Nara.
Ela esperou que Frazão se
distanciasse antes de entrar pela
cozinha. Uma xícara de café seria
muito bem vinda, agora. Entrou confiante e só ao ver a nova
governanta levantar-se apressadamente foi que se lembrou: Dadi também
não estava mais ali.
- Desculpe-me, eu estava fazendo a lista de compras. – Deseja alguma coisa, senhorita Geraldy?
- Eu... Não, obrigada, Elise. – Respondeu cruzando a cozinha. - E não precisa se desculpar por
sentar nem me chamar de senhorita.
- São ordens da senhora Louise.
- Bem, ela não está
aqui agora, hã? – E deu uma piscada de
olho. – Até depois.
Entrou na sala de visitas, pedindo licença.
- Com licença mamãe, só avisando que já voltei. Vocês deviam
ter ido se despedir dele também.
- Eu queria ir, mas
sua mãe me convenceu que não
era conveniente.
- Se irmão está apenas querendo chamar a minha atenção, como
sempre! Deixou a política para se
divertir um pouco, assim como deixou os negócios da família anos atrás para se dedicar apenas a
arte. Continua sendo aquele garoto voluntarioso, agindo apenas segundo sua
própria vontade. Um capricho apenas. Ele
vai voltar, como voltou antes.
- Claude não é caprichoso, mamãe. Tanto que considerou muito
mais a sua vontade que a dele e entrou
para a política, em vez de ir atrás de Rosa.
- Era só o que faltava ele ir atrás daquela oportunista! -
Exclamou Roberta. – Ele se livrou de uma
boa encrenca, queridinha.
- E não fez nada mais que a obrigação dele ao me obedecer.
- Eu não entendo por que vocês falam dela assim, nem por que
Rosa foi embora de repente, sem se
despedir, sem se explicar. Tomara que se encontrem e façam as pazes no Brasil!
- Você está louca! Seu irmão vai voltar, casar-se com Roberta e
retomar a carreira política,
honrando o nome dos Geraldy, da linhagem
dos baroneses de Gérando.
- Eu não contaria
com isso, mamãe. A essa hora ele
está na metade do caminho. E eu
torço muito para que sejam felizes outra
vez!
- Cale-se! Não sabe o que fala, vive com
cabeça cheia de fantasias
românticas.
- Às vezes você me dá
medo, mamãe, quando fala assim.
- Então não me
contradiga, Nara. Agora nos dê licença, preciso discutir alguns assuntos
sérios com Roberta.
Nara suspirou e saiu da sala
vagarosamente. Desde que acabara
os estudos e voltara definitivamente
para casa a mãe a tratava com
indiferença, preferindo a companhia de
Roberta.
Já havia passado da porta e voltou-se para falar alguma
coisa mas o que ouviu a fez parar.
- Acredita que Claude a procure por lá e não volte mais? –
Era a voz de Roberta, perguntando aparentemente preocupada.
- Ele que não se atreva! Não fiz aquele teatro todo para vê-lo junto daquela brasileirinha sem pedigree! Mas, se isso acontecer, usarei
Nara para ocupar esse lugar
Nara subiu a escada rapidamente para seu quarto. Me usar? Teatro? Do que sua mãe estava
falando? Talvez Frazão tivesse razão e ela não conhecesse verdadeiramente sua
mãe...
PSV
No avião, o comandante comunicou o inicio da decolagem e solicitou a colocação do cinto de segurança.
Enquanto fazia isso, Claude respondeu a Dadi:
- Se está se referindo a Rosa, perde seu tempo. Foi ela quem
desistiu de mim.
- E você, com todo seu
orgulho francês nem tentou localiza-la.
- O recado que ela deixou foi esclarecedor e suficiente para
que eu não tentasse e perdesse o meu
tempo – palavras dela, hã?
- Não sei... Tem alguma
coisa nessa história de recado que não bate... Por que não aproveita
sua estada no Brasil e a procura?
- Dadi, O Brasil é um
pais continental, com mais de duzentos
milhões de habitantes. Qual seria a
probabilidade de me encontrar com ela?
- Não sei. Mas o mundo tem mais de sete bilhões de pessoas.
Você é francês e ela brasileira. Também não sei qual seria essa probabilidade, mas os
dois se encontraram em Amsterdã não foi?
- E nos separamos em Paris. C’est fini, d’áccord? Assunto
encerrado. – Afirmou Claude, colocando
fones de ouvido, inclinando a poltrona e fechando os olhos, querendo
dormir. Mas a música o levou para o
passado, a quase seis anos atrás em
Amsterdã.
Amsterdã é uma das mais extraordinárias cidades do mundo. Tem
as vantagens de qualquer grande cidade: cultura, vida noturna, restaurantes,
museus e atrações históricas. Os canais mundialmente conhecidos a deixaram
conhecida como Veneza do Norte. Passear por eles e apreciar a explosão de cores com a iluminação ao
cair da noite, a deixa com o mesmo encanto e
beleza da cidade italiana.
Por isso, ela consegue ser uma das cidades mais românticas e
encantadoras da Europa.
A Amsterdam Escola de Artes (Amsterdam School of the Arts - AHK) é uma entidade que oferece
cursos de graduação, pós-graduação e pós
doc., nas várias linguagens da arte: belas artes,
cinema e televisão, teatro, dança, herança cultural, museologia e arquitetura.
Doutor em Filosofia da Arte, Claude fora convidado para participar como palestrante no workshop que a Escola
promovia em sua agenda cultural.
Após a palestra, mediou a exposição e discussão de temas
específicos entre os doutorandos do grupo. Rosa era um deles e sua
preocupação em anotar o que ouvia foi um
dos motivos que chamou a atenção de Claude para ela. A maioria dos
participantes estava usando o celular para isso.
Passou a direcionar seu olhar e sua fala para ela assim que
lançava ou respondia uma pergunta da mesa. Estava intrigado e cada vez mais
desejava ouvir sua voz.
Decidiu interagir mais com os participantes e seguiu
a linha das investigações
provocativas. Alguma hora ela iria se
manifestar, tinha certeza disso.
Cerca de duas horas
depois, estava quase jogando sua certeza no lixo. Sua pauta, a que a Escola lhe
passara, estava se esgotando exatamente naquele minuto.
- Concluindo, não existe
consenso entre os autores sobre o início do período contemporâneo na arte, mas consideramos que ela, em seus estilos, escolas
e movimentos, tenha surgido por volta da segunda metade do século XX, após a
Segunda Guerra Mundial, em ruptura à arte moderna. Os artistas voltaram-se para
as verdades do inconsciente, interessados na reconstrução da sociedade, por
meio das várias linguagens e da experimentação de novas técnicas. A arte
contemporânea se mostrou mais evidente na década de 60, questionadora e rebelde
contra o estilo de vida difundido no cinema, na moda, na televisão e na
literatura. Os avanços da ciência e da tecnologia abriram caminho à percepção
das pessoas de que a arte tem o poder de traduzir as suas próprias vidas. Isso pode ser observado e provado nas interações em tempo real.
A revolução digital e a consequente globalização por meio da
internet e suas redes sociais está
cada vez mais frequente e presente em nossas vidas. Há arte por todo lugar e a qualquer
hora do dia. O homem passou a ocupar um espaço quadridimensional e o chama
de contemporaneidade. Meu ponto de
vista, considerando o significado de contemporâneo – o que viveu, existe ou existiu na mesma época, ou é do
tempo atual – é que, toda forma de arte foi e é contemporânea em sua época,
no tempo calendário em que foi produzida.
Fez uma pausa e tomou
alguns goles de água, antes de olhar
para onde ela estava. Anotando, como sempre.
- Ainda temos alguns minutos, caso haja questionamentos... Informou, sentando-se.
Pois é Claude, você errou!
Era o que pensava, com a cabeça praticamente enfiada em sua ficha. Então ouviu a pergunta. A voz era
suave. E o tom firme e desafiador. Não precisou levantar a cabeça
para saber que era ela quem falava:
- Este seminário é uma reunião de natureza acadêmica para estudos
aprofundados sobre Filosofia da Arte, sua
especialidade. É um grupo de estudos e de investigação. Entretanto eu esperava
ser orientada por um docente da escola,
uma vez que deveremos fazer pesquisas e elaborar conclusões posteriormente.
Acredita que sua colaboração foi suficientemente satisfatória e recíproca para
que possamos inclui-lo como fonte em nossas teses?
- Voilà! Eu segui a orientação dos organizadores e cumpri a
pauta que me foi indicada, o que me faz
acreditar que sim, eu posso ser fonte em
suas dissertações. Mas a senhorita
parece ter dúvidas. Se for mais específica podemos... aprofundar o assunto.
- Em seu livro: ‘Arte -
Da Filosofia à Estética’, o senhor
argumenta que todas as teorias da definição de arte são essencialistas pois
procuram uma definição de arte em termos de teorias filosóficas e/ou
sociológicas já que abordam a arte enquanto fenômeno histórico e social, conseguindo mesmo tornar mais inteligível a diferença
entre arte e não-arte e a relação arte
prazer, expressão e conhecimento. Afirma ainda
que só com o cognitivismo estético encontramos algo mais valioso na
arte.
- D’àccord.
- Podemos então entender que nas disciplinas filosóficas
uma avaliação crítica sobre
cognitivismo estético levaria vantagem sobre as outras teorias mais técnicas,
como a lógica, a epistemologia ou a ética?
- O pensamento filosófico sobre a arte adquire conceitos
específicos em meio às demais disciplinas, que sempre fizeram parte dos
principais troncos da filosofia. A
experiência da sensação provocada pela criação de e da obra de arte exige um contato mínimo com um dos nossos
sentidos. Por exemplo, podemos dizer que a música está para o ouvido, a pintura para a visão, a dança para
o corpo e assim por diante. Dessa forma,
nada mais justo que denominar à filosofia que se dedica a essa experiência de estética. A
sensação do sensível.
- Mas a Estética ramo da filosofia, estuda o julgamento e a percepção do que é
considerado belo nas diferentes formas e técnicas artísticas, ou diametralmente
oposto, a privação da beleza, o que possa ser considerado feio ou até mesmo
ridículo. O que seria mais coeso:
Filosofia da Arte ou Filosofia da Estética?
- Veja, o termo filosofia da arte é sempre confundido com
estética. Alguns autores preferem separar uma coisa da outra, no entanto, um
termo e outro não deixam de designar uma e a mesma coisa: a relação do
pensamento filosófico com a criação artística.
- No entanto, na história da filosofia o termo
"estética" foi criado por
Alexander Baumgarten no século XVII, em
pleno Iluminismo.
- D’àccord. Essa preocupação passou a ser sistematizada em oposição à lógica, a ciência das regras do
pensamento.
- Segundo Baumgarten estética, deveria ser uma linha de pensamento
dentro da filosofia com o objetivo de determinar regras não do pensamento, mas
da sensação sensível, a partir das quais se poderia definir uma experiência
estética. O senhor é um... discípulo dele?
Então a campainha tocou,
indicando o término do período. As pessoas iniciaram a movimentação para deixar o auditório. Menos Rosa. Claude sorriu
e pôs fim à dúvida dela, respondendo sem se abalar com o barulho ao redor.
- Sou um admirador de sua teoria. A Filosofia do belo na arte
aplicada a partir do século XVIII, por Baumgarten compreendeu o estudo das
obras de arte e o conhecimento dos aspectos da realidade sensorial
classificáveis em termos de belo ou feio. Hume e Burke deixaram, suas contribuições na definição dos
conceitos e parâmetros do belo, mas nenhum foi tão importante quanto Kant. Sua
contribuição foi decisiva nas tentativas de explicação do belo. – Olhou para o
relógio em seu pulso e completou – Ainda
é cedo. Se estiver interessada terei prazer em explicar minhas teorias, enquanto
almoçamos, senhorita...
- Rosa. Aluna de intercâmbio, último período de doutorado – Respondeu, retribuindo o sorriso
que recebia. - Adoraria, mas não vai
atrapalhar sua agenda?
- Non! Na verdade eu tenho a tarde livre hoje, Rosa.
- Sério? Eu também! – Falou ansiosa enquanto guardava
suas coisas na mochila. - O que
foi? Lembrou-se de algum compromisso? – Perguntou percebendo uma certa indecisão em Claude.
- Não, não é isso... É que, bem estamos na Holanda, em
Amsterdã. Importa-se em ir de bicicleta?
- Claro que não! É o meu meio de transporte desde que cheguei
aqui!
- E de onde você vem? – Indagou interessado enquanto
também guardava suas coisas numa mochila.
- São Paulo, Brasil. E sei que o senhor é francês, neto de
brasileiros.
Surpreso por ela saber disso, comentou.
- Como sabe disso?
- Seu primeiro livro foi leitura obrigatória em meu mestrado.
Quando soube que estaria aqui, com seu segundo livro fiquei curiosa e pesquisei sobre sua vida. Mas não se preocupe, pesquisei apenas o
lado profissional.
- É o único lado que tenho,
por enquanto. Mas, por favor, podemos falar em português? Há algum tempo
que non pratico a língua de meus avós.
- Vai ser um prazer senhor Geraldy!
- Merci, hã? E vamos combinar uma coisa: deixe o ‘senhor Geraldy’ fora dessa
conversa, e inclua o Claude ouí?
- Sim senh... Claro Claude, como quiser!
- Então meu livro foi referência em seu mestrado?
- Sim. Em minha dissertação eu destaquei vários pontos e...
Saíram do auditório e caminharam alguns metros até o estacionamento de bicicletas.
Claude voltou ao presente por algum barulho quando o serviço do almoço começou.
Embora Dadi tenha insistido, dispensou o seu e voltou às
lembranças.
Depois daquele almoço a
atração entre os dois só crescera.
Fora da Escola, pareciam dois turistas: visitaram todos os museus: Rijksmuseus, Museu Van Gogh, - Anne Frank Huis, Stedelijk
Museum, Rembrandt Huis, onde discutiram muito obre arte e estética, fizeram
passeios de bicicleta e de barco pelos canais de Amsterdã e quando
deram por si, estavam apaixonados.
Não podia pedir a ela que abandonasse tudo e fosse para a
França com ele. Dirigiu ao departamento acadêmico da Escola um projeto de
extensão cultural, num curso de seis meses, tempo que Rosa ainda
tinha que cumprir.
Divulgado, o curso
atraiu muitos interessados e foi aprovado. Rosa ficou como sua assistente,
ocupando seu tempo vago. Sem perder a
mania, registrava em pequenos resumos ou
palavras chaves tudo que planejava
para suas aulas e debates em seu próximo
livro.
Foi isso que o salvou.
E foi na primeira noite em que fizeram amor.
PSV
Continua

1 comentários:
Adoro flashback kkkkkkkkkkkkk
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