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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

PSV/Capítulo 5

Frazão seguiu pelo caminho de pedras e parou o carro em frente  a casa.
- Obrigada por me trazer, Frazão.
- Foi um prazer, Nara.
- Não quer entrar um pouco?
- Acho melhor não. Sua mãe não preza  por minha amizade com Claude. Além do que parece  que Roberta esta aí. -   Explicou-se  apontando para um carro estacionado mais adiante. – E eu não prezo  por nada que venha dela.
- Sinceramente, ela também não me agrada. Quer saber, pode dar a  volta e me deixar na porta dos  fundos como Claude  fazia?
- Claro que sim, mon amie! – Respondeu colocando o carro em marcha e parando nos  fundos  da  mansão.
- Eu  vou sentir muita fala dele. – Comentou Nara abrindo a  porta  do carro.
- Eu também. Mas se ele não voltar mesmo, vamos onde ele estiver e matamos a saudade. Combinado?
- Combinado! – Respondeu Nara, segurando a  vontade de chorar. – Bem, até qualquer hora e de novo, obrigada por tudo!
- Conte sempre  comigo. Sabe que é minha irmãzinha do coração, não é? E prometa que se tiver   problemas  com Louise, vai me  procurar.
- Não sei por que você e Claude implicam tanto com ela!
- Não pode saber mesmo, querida. Estudar em um semi internato a poupou de muitos  aborrecimentos. Apenas prometa que vai me procurar se a coisas mudarem entre  vocês  duas.
- Está bem, prometido! – Afirmou despedindo-se dele com um beijo no rosto.  - Au revoir!
- Au revoir, Nara.
Ela esperou que Frazão se  distanciasse antes de entrar pela  cozinha. Uma xícara de  café seria muito bem vinda, agora. Entrou confiante e só ao  ver a nova  governanta levantar-se apressadamente foi que se lembrou: Dadi também não estava mais ali.
- Desculpe-me, eu estava fazendo a lista de  compras. – Deseja alguma  coisa, senhorita Geraldy?
- Eu... Não, obrigada, Elise. – Respondeu cruzando a  cozinha. - E não precisa se desculpar por sentar nem me chamar de  senhorita.
- São ordens da senhora Louise.
- Bem,  ela não está aqui agora, hã? – E deu uma piscada  de olho. – Até  depois.
Entrou na sala de visitas, pedindo licença.
- Com licença mamãe, só avisando que já voltei. Vocês  deviam  ter ido se despedir dele também.
- Eu queria ir, mas  sua mãe me  convenceu que não era  conveniente.
- Se irmão está apenas querendo chamar a minha atenção, como sempre! Deixou a política para se  divertir um pouco, assim como deixou os negócios da  família anos atrás para se dedicar apenas a arte. Continua sendo aquele garoto voluntarioso, agindo apenas segundo sua própria vontade. Um capricho apenas. Ele  vai voltar, como  voltou antes.
- Claude não é caprichoso, mamãe. Tanto que considerou muito mais a sua  vontade que a dele e entrou para a política, em vez de ir atrás de Rosa.
- Era  só o que  faltava ele ir atrás daquela oportunista! - Exclamou Roberta. – Ele se livrou de uma  boa encrenca, queridinha.
- E não fez nada mais que a obrigação dele ao me obedecer.
- Eu não entendo por que vocês falam dela assim, nem por que Rosa foi embora de repente,  sem se despedir, sem se explicar. Tomara que se encontrem e façam as pazes no Brasil!
- Você está louca! Seu irmão vai  voltar, casar-se  com Roberta e  retomar  a carreira política, honrando o nome  dos Geraldy, da linhagem dos baroneses de Gérando.
 - Eu não contaria com  isso, mamãe. A essa hora  ele  está na metade  do caminho. E eu torço muito para que sejam felizes outra  vez!
- Cale-se! Não sabe o que fala, vive  com  cabeça  cheia de fantasias românticas.
- Às vezes  você  me  dá medo, mamãe, quando fala assim.
- Então não me  contradiga, Nara. Agora nos dê licença, preciso discutir alguns assuntos sérios com Roberta.
Nara suspirou e saiu da sala  vagarosamente. Desde que  acabara os estudos e voltara  definitivamente para  casa a mãe a tratava com indiferença,  preferindo a companhia de Roberta.
Já havia passado da porta e voltou-se para  falar alguma  coisa mas o que ouviu a fez parar.
- Acredita que Claude a procure por lá e não volte mais? – Era a voz de Roberta, perguntando aparentemente preocupada.
- Ele que não se atreva! Não fiz aquele teatro todo para  vê-lo junto daquela brasileirinha sem pedigree! Mas, se isso acontecer, usarei Nara para ocupar esse lugar
Nara subiu a escada rapidamente para seu quarto.  Me usar? Teatro? Do que sua mãe estava falando? Talvez Frazão tivesse razão e ela não conhecesse verdadeiramente sua mãe...



PSV

No avião, o comandante comunicou o inicio da decolagem e  solicitou a colocação do cinto de segurança. Enquanto fazia isso, Claude respondeu a Dadi:
- Se está se referindo a Rosa, perde seu tempo. Foi ela quem desistiu de mim.
- E você,  com todo seu orgulho francês nem tentou localiza-la.
- O recado que ela deixou foi esclarecedor e suficiente para que eu não tentasse e  perdesse o meu tempo – palavras dela, hã?
- Não sei... Tem alguma  coisa nessa história de recado que não bate... Por que não  aproveita  sua estada no Brasil e a procura?
- Dadi,  O Brasil é um pais  continental, com mais de duzentos milhões  de habitantes. Qual seria a probabilidade de me encontrar  com ela?
- Não sei. Mas o mundo tem mais de sete bilhões de pessoas. Você é francês e ela brasileira. Também não sei qual seria  essa probabilidade, mas  os  dois se encontraram em Amsterdã não foi?
- E nos separamos em Paris. C’est fini, d’áccord? Assunto encerrado. – Afirmou Claude, colocando   fones de ouvido, inclinando a poltrona e fechando os olhos, querendo dormir.   Mas a música o levou para o passado, a quase seis anos atrás em  Amsterdã.




Amsterdã é uma das mais extraordinárias cidades do mundo. Tem as vantagens de qualquer grande cidade: cultura, vida noturna, restaurantes, museus e atrações históricas. Os canais mundialmente conhecidos a deixaram conhecida como Veneza do Norte. Passear por eles e  apreciar a explosão de cores com a iluminação ao cair da noite, a deixa com o mesmo  encanto e  beleza da cidade italiana.
Por isso, ela consegue ser uma das cidades mais românticas e encantadoras da Europa.
A Amsterdam Escola de Artes (Amsterdam School of the Arts - AHK) é uma entidade que oferece cursos de graduação,  pós-graduação e pós doc.,  nas  várias linguagens da arte: belas artes, cinema e televisão, teatro, dança, herança cultural, museologia e arquitetura.
Doutor em Filosofia da Arte, Claude fora  convidado para participar  como palestrante no workshop que a  Escola promovia em sua agenda cultural.
Após a palestra, mediou a exposição e discussão de temas específicos entre os doutorandos do grupo. Rosa era um deles e sua preocupação  em anotar o que ouvia foi um dos motivos que chamou a atenção de Claude para ela. A maioria dos participantes estava usando o celular para isso.
Passou a direcionar seu olhar e sua fala para ela assim que lançava ou respondia uma pergunta da mesa. Estava intrigado e cada vez mais desejava ouvir sua voz.
Decidiu interagir mais com os participantes e  seguiu  a linha  das investigações provocativas. Alguma hora ela iria se  manifestar, tinha certeza  disso.
Cerca de   duas horas depois, estava quase jogando sua certeza no lixo. Sua pauta, a que a Escola lhe passara,   estava se esgotando exatamente naquele minuto.
-  Concluindo, não existe consenso entre os autores sobre o início do período contemporâneo na arte, mas  consideramos que ela, em seus estilos, escolas e movimentos, tenha surgido por volta da segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, em ruptura à arte moderna. Os artistas voltaram-se para as verdades do inconsciente,  interessados na reconstrução da sociedade, por meio das várias linguagens e da experimentação de novas técnicas. A arte contemporânea se mostrou mais evidente na década de 60, questionadora e rebelde contra o estilo de vida difundido no cinema, na moda, na televisão e na literatura. Os avanços da ciência e da tecnologia abriram caminho à percepção das pessoas de que a arte tem o poder de traduzir as suas próprias vidas.  Isso pode ser observado e provado nas interações em tempo real. A revolução digital  e a consequente globalização por meio da internet e suas  redes  sociais está  cada vez mais frequente e presente em nossas  vidas. Há arte por todo lugar e a qualquer hora do dia. O  homem passou a  ocupar um espaço quadridimensional e o chama de  contemporaneidade. Meu ponto de vista, considerando o significado de contemporâneo – o que viveu,  existe ou existiu na mesma época, ou é do tempo atual – é que,  toda  forma de arte   foi e é contemporânea em sua  época,  no tempo calendário em que foi produzida.
Fez uma pausa e  tomou alguns  goles de água, antes de olhar para onde  ela estava.  Anotando, como sempre.
- Ainda temos alguns minutos, caso haja questionamentos...   Informou, sentando-se.
Pois é Claude, você errou!
Era o que pensava, com a cabeça praticamente  enfiada em sua  ficha. Então ouviu a pergunta. A  voz era  suave. E o tom firme e desafiador. Não precisou levantar a cabeça para  saber que era ela quem falava:
- Este seminário é uma reunião  de natureza acadêmica para estudos aprofundados sobre Filosofia da Arte,  sua especialidade. É um grupo de estudos e de investigação. Entretanto eu esperava ser  orientada por um docente da escola, uma vez que deveremos fazer pesquisas e elaborar conclusões posteriormente. Acredita que sua colaboração foi suficientemente satisfatória e recíproca para que possamos  inclui-lo como fonte  em nossas teses?
- Voilà! Eu segui a orientação dos organizadores e cumpri a pauta que me  foi indicada, o que me faz acreditar que sim, eu posso ser  fonte em suas dissertações. Mas  a senhorita parece ter dúvidas. Se for mais específica podemos... aprofundar o assunto.
- Em seu livro: ‘Arte - Da Filosofia  à Estética’, o senhor argumenta que todas as teorias da definição de arte são essencialistas pois procuram uma definição de arte em termos de teorias filosóficas e/ou sociológicas já que abordam a arte enquanto fenômeno histórico e social,  conseguindo mesmo tornar mais inteligível a diferença entre arte e não-arte e a relação  arte prazer, expressão e conhecimento. Afirma ainda  que só com o cognitivismo estético encontramos algo mais valioso na arte.
- D’àccord.
- Podemos então entender que nas disciplinas filosóficas uma avaliação crítica sobre cognitivismo estético levaria vantagem sobre as outras teorias mais técnicas, como a lógica, a epistemologia ou a ética?
- O pensamento filosófico sobre a arte adquire conceitos específicos em meio às demais disciplinas, que sempre fizeram parte dos principais troncos da filosofia.  A experiência da sensação provocada pela criação de e da obra de arte exige um contato mínimo com um dos nossos sentidos. Por exemplo, podemos dizer que a música está para  o ouvido, a pintura para a visão, a dança para o corpo e assim por  diante. Dessa forma, nada mais justo que  denominar à  filosofia que se dedica a essa experiência  de estética. A  sensação do sensível.
- Mas a Estética ramo da filosofia,   estuda o julgamento e a percepção do que é considerado belo nas diferentes formas e técnicas artísticas, ou diametralmente oposto, a privação da beleza, o que possa ser considerado feio ou até mesmo ridículo. O que seria mais  coeso: Filosofia da Arte ou Filosofia da Estética?
- Veja, o termo filosofia da arte é sempre confundido com estética. Alguns autores preferem separar uma coisa da outra, no entanto, um termo e outro não deixam de designar uma e a mesma coisa: a relação do pensamento filosófico com a criação artística.
- No entanto, na história da filosofia o termo "estética"  foi criado por Alexander Baumgarten no século XVII,  em pleno Iluminismo.
- D’àccord. Essa preocupação passou a ser sistematizada  em oposição à lógica, a ciência das regras do pensamento.
- Segundo  Baumgarten   estética, deveria ser uma linha de pensamento dentro da filosofia com o objetivo de determinar regras não do pensamento, mas da sensação sensível, a partir das quais se poderia definir uma experiência estética. O senhor é um... discípulo dele?
Então a campainha tocou,  indicando o término do período. As pessoas  iniciaram a movimentação para  deixar o auditório. Menos Rosa. Claude sorriu e pôs fim à dúvida dela, respondendo sem se abalar com o barulho ao redor.
- Sou um admirador de sua teoria. A Filosofia do belo na arte aplicada a partir do século XVIII, por Baumgarten compreendeu o estudo das obras de arte e o conhecimento dos aspectos da realidade sensorial classificáveis em termos de belo ou feio. Hume e Burke deixaram, suas contribuições na definição dos conceitos e parâmetros do belo, mas nenhum foi tão importante quanto Kant. Sua contribuição foi decisiva nas tentativas de explicação do belo. – Olhou para o relógio em seu  pulso e completou – Ainda é cedo. Se estiver interessada terei prazer em explicar minhas teorias, enquanto almoçamos,  senhorita...
- Rosa. Aluna de intercâmbio, último período de  doutorado – Respondeu, retribuindo o sorriso que recebia.  - Adoraria, mas não vai atrapalhar sua agenda?
- Non! Na verdade eu tenho a tarde  livre hoje, Rosa.
- Sério? Eu também! – Falou ansiosa enquanto guardava suas  coisas na mochila. -  O que  foi? Lembrou-se de algum compromisso? – Perguntou percebendo uma  certa indecisão em Claude.
- Não, não é isso... É que, bem estamos na Holanda, em Amsterdã. Importa-se em ir de  bicicleta?
- Claro que não! É o meu meio de transporte desde que cheguei aqui!
-  E de onde  você vem? – Indagou interessado enquanto também guardava  suas  coisas numa mochila.
- São Paulo, Brasil. E sei que o senhor é francês, neto de brasileiros.
Surpreso por ela saber disso, comentou.
- Como sabe disso?
- Seu primeiro livro foi leitura obrigatória em meu mestrado. Quando soube que estaria aqui, com seu segundo livro  fiquei curiosa e pesquisei sobre sua  vida. Mas não se preocupe, pesquisei apenas o lado profissional.
- É o único lado que tenho,  por enquanto. Mas, por favor, podemos falar em português? Há algum tempo que non pratico a língua de meus avós.
- Vai ser um prazer senhor Geraldy!
- Merci, hã? E vamos combinar uma  coisa: deixe o ‘senhor Geraldy’ fora dessa conversa, e inclua o Claude ouí?
- Sim senh... Claro Claude, como quiser!
- Então meu livro foi referência em seu mestrado?
- Sim. Em minha dissertação eu destaquei vários pontos e...
Saíram do auditório e caminharam alguns metros  até o estacionamento de bicicletas.
Claude voltou ao presente por algum barulho  quando o serviço do almoço começou. Embora  Dadi tenha  insistido, dispensou o seu e voltou às lembranças.
Depois daquele almoço a  atração entre os  dois só crescera. Fora da Escola, pareciam dois turistas: visitaram todos os museus:  Rijksmuseus,  Museu Van Gogh, - Anne Frank Huis, Stedelijk Museum, Rembrandt Huis, onde discutiram muito obre arte e estética, fizeram passeios de  bicicleta e  de barco pelos canais de Amsterdã e quando deram por si, estavam apaixonados.
Não podia pedir a ela que abandonasse tudo e fosse  para  a França com ele. Dirigiu ao departamento acadêmico da Escola um projeto de extensão cultural, num curso de seis meses, tempo que Rosa  ainda  tinha que  cumprir.
Divulgado,  o curso atraiu muitos interessados e foi aprovado. Rosa ficou como sua assistente, ocupando seu tempo vago.  Sem perder a mania,  registrava em pequenos resumos ou palavras chaves  tudo que planejava para  suas aulas e debates em seu próximo livro.
Foi isso que  o salvou. E foi na primeira noite  em que  fizeram amor.

PSV 

Continua 

1 comentários:

Carliane disse...

Adoro flashback kkkkkkkkkkkkk

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